quinta-feira, 23 de maio de 2013

A Argentina afunda no populismo demagogico

Sem comentários (ou já feitos...).
Aliás, só um: depois de tudo o que se passou, e não só ali, mas também em outros lugares próximos, como é que líderes políticos conseguem ser tão néscios?
Eles não conhecem a história passada, não leram sobre ela?
E vejam que alguns são viejitos para ter vivido os tempos sombrios da decadência econômica, da fuga de capitais, da hiperinflação.
São caolhos, ou estúpidos mesmo?
Paulo Roberto de Almeida
May 22, 2013

Argentina: Increases of Cash Handouts to Poor

By THE ASSOCIATED PRESS

Argentina’s president has announced increases of as much as 35 percent in cash handouts to the poor, students, pregnant women and retirees. President Cristina Fernández de Kirchner said the programs also will reach nearly 700,000 more children, expanding the social safety net and encouraging consumer spending this election year. She said the total cost of the subsidies would grow $7.8 billion a year.
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Cristina anunció que "movimientos sociales y juveniles" controlarán los precios

Dijo que serán desplegados en todo el país, en el marco de una campaña llamada "Mirar para cuidar". Habló de "operativo permanente". Y aseguró que el Gobierno "no va a dejar librados" los precios "a la buena voluntad de los empresarios".
22/05/13 - 19:08
En medio de la escasez de productos en las góndolas de los supermercados y con un congelamiento parcial de precios vigente, la Presidenta anunció que "movimientos sociales y juveniles" controlarán esos precios, para así intentar contrarrestar la inflación en la canasta básica.
En un discurso ofrecido por cadena nacional, Cristina afirmó que "no vamos a dejar el acuerdo de precios a la buena voluntad y vamos a utilizar la fuerza de los movimientos políticos y juveniles para desplegarlos en todo el territorio". La campaña será llamada "Mirar para cuidar" y será un "operativo permanente".
Además, reclamó a los empresarios "generar empleo" ya que el Estado ya "tiene políticas activas", al tiempo que resaltó la necesidad de mantener "el nivel de consumo y de gente ocupada".
"El tema no es el aumento de precios sino producir mas", afirmó la mandataria. En ese sentido, pidió a los empresarios "si hay que tomar a alguien", hacerlo.
Pero la situación en los supermercados es más compleja. De hecho, mucho de los productos que integran la nueva canasta congeleada que elaboró el secretario de Comercio, Guillermo Moreno, no están en las góndolas. Según una recorrida de Clarín por supermercados de la Ciudad, faltan los productos más populares y económicos. De la lista representativa de 500 productos, entre el 50 y el 70 por ciento no pudo ser encontrado.
Por eso, varias asociaciones planean exigir la creación de una cláusula de garantía de stock. Fernando Blanco Muiño, presidente de la Unión de Consumidores de Argentina, sostuvo que la medida implica "que los supermercados se comprometan y obligen a ofrecer en góndola los productos del listado a toda hora, sin limitación alguna de cantidad y permanente en el tiempo que dure el congelamiento". 
Para Muiño, el no incluir esa cláusula, significa lanzar "una política pública incompleta y que, tal como sucedió con el congelamiento que venció el pasado 30 de abril, direccionada al fracaso".
En tanto, Héctor Polino, de Consumidores Libres, dijo que la lista "tiene muy poca verdura y fruta, nada de pescado, poca variedad de carne vacuna. En contraposición, mucha variedad de galletitas (21 presentaciones) y de sal fina y sal gruesa. También muchas presentaciones de vinagre y yerba mate, cincro presentaciones de palitos salados y helado bombón, que no es indispensable en la mesa familiar".

O Mercosul afunda na sua irrelevancia - Editorial O Globo

Um pequeno problema com esse editorial: o retrocesso a uma ZLC, em lugar de uma UA esfarrapada e ridícula como é hoje, não vai tirar o Mercosul de sua irrelevância, e tampouco ajudar o Brasil, cujos instintos protecionistas são quase tão fortes quanto os da Argentina.
Paulo Roberto de Almeida
Economia

Brasil imobilizado pela crise do Mercosul (Editorial)

O Globo, 22/05/2013
Não se pode menosprezar o papel do Mercosul na distensão geopolítica no extremo do continente, e como alavanca no comércio entre os países do bloco.
Foi graças à perspicácia dos presidentes José Sarney e Raúl Alfonsin que Brasil e Argentina, no início dos respectivos processos de redemocratização, em meados da década de 80, estabeleceram as bases diplomáticas para a criação do bloco comercial, com a adesão de Uruguai e Paraguai.
Assim como é preciso reconhecer os avanços, tem-se de admitir os problemas. Faz tempo que o Mercosul, como união aduaneira, não atende mais aos interesses brasileiros e passou a servir de camisa de força para o país.
O bloco trincou, por força da crise econômica e institucional argentina, e entrou em crise pelo crescente protecionismo do vizinho. Uma contradição em termos com o conceito de união aduaneira, cujo mecanismo básico da tarifa externa comum foi jogado no lixo pela Casa Rosada.
Tanto quanto isso, o Brasil atola na anemia do Mercosul numa fase em que no mundo se multiplicam acordos comerciais, com novos blocos e/ou acertos bilaterais, e o país, por força do tratado do qual passou a fazer parte a Venezuela, fica de mãos atadas por necessitar da aprovação de todos os parceiros para assinar algum desses tratados.
O Uruguai, por exemplo, só faltou sentar-se à mesa para selar um acordo comercial com os Estados Unidos. Foi impedido pelo Mercosul.
No fim de semana, O GLOBO trouxe uma radiografia dos danos já sofridos pelo comércio exterior brasileiro no próprio mercado latino-americano, amplificados pela perda de competitividade da indústria nacional, causada por erros internos de política econômica.
O peso brasileiro nas importações no continente, entre 2008 e 2011, caiu de 11% para 9,7%, espaço ocupado por China, Estados Unidos, Índia e União Europeia. O Brasil perdeu vendas no valor de US$ 7,4 bilhões, basicamente manufaturados.
Entre as causas, destaca-se o protecionismo argentino, diante do qual Brasília é muito condescendente, a perda de competitividade em si brasileira e a agressividade chinesa. Com a consolidação da Aliança do Pacífico (Chile, Colômbia, México e Peru), mais aberta a acordos, e próxima aos EUA, o peso brasileiro ficará ainda menor.
O Itamaraty precisa analisar com seriedade a conversão do Mercosul de união aduaneira numa área de livre comércio, como já foi.
A integração econômica continua, mas, com o fim da tarifa externa única — como se o Mercosul fosse um único país, o que já não é —, cada membro tem liberdade para negociar acordos bilaterais com quem quiser. Sem vetos.
Argentina e Venezuela, refratários ao livre comércio, podem praticar o retrocesso que desejarem. Mantém-se a relativa coesão geopolítica no Cone Sul, e o Brasil fica em condições de rever sua política de inserção nas cadeias produtivas globais, algo urgente para o setor industrial.

A (des)universidade brasileira afunda no anacronismo e na mediocridade

Se eu fosse o Nelson Rodrigues -- um escritor que não tinha medo de chocar e de ser politicamente incorreto -- eu diria que essa questão foi feita por uma militante feminista, mal amada e com desejos de vingança sobre os homens, sobre todos os homens.
Como eu não sou, apenas direi que os formuladores dessa questão não são historiadores, e sim seres patéticos, anacrônicos, absolutamente ridículos nessa transposição de conceitos e temáticas contemporâneas para a Idade Média.
Depois da raiva, ou da estupefação, segundo os casos, vem a confurmação de que, realmente, a universidade brasileira vai afundar no pântano da vastíssima ignorância e da estupidez deliberada, desejada, buscada (e conseguida) de grande parte de seus "profeççoris" de desumanidades.
É para rir ou para chorar?
Paulo Roberto de Almeida

Comentário recebido:

"Olá, Paulo.
O comentário (meio longo) que farei abaixo está fora do tópico. Caso queira, descarte.

Depois de me aposentar no TRE-Xxxxxx e vir morar em [bonita capital do Sul maravilha], decidi prestar concurso para professor de História/História Antiga e Medieval, na UFXX.

Minha formação correspondia aos pre-requisitos exigidos para o certame, é claro. Mas o surpreendente - no sentido negativo do termo - foi o tema de um dos dois tópicos sorteados para a prova escrita. Era ele: "Vida doméstica, relações de gênero e sexualidade no mundo antigo".

É claro que quando vi esse tópico na lista dos 17 listados, eu achei ridículo. Mas quando ele foi sorteado, eu não me contive e abri a minha prova escrita com o seguinte comentário: já imaginaram Sócrates, ou um alto funcionário do Egito Antigo ou mesmo um centurião romano discutindo a relação com sua querida companheira helênica, egípcia ou romana?

É inacreditável: aplicam-se conceitos do séc. XIX (sexualidade é um conceito freudiano, como todo mundo civilizado sabe) ou do ideológico e literário século XX (relações de gênero) numa prova para professores de História Antiga e Medieval.

E, aliás, apesar de se tratar de professor de História Antiga e Medieval, todos os 17 tópicos versaram sobre História Antiga (ou, como você pode comprovar, sobre um arremedo medonho e pós-moderno de História Antiga).

Esta é a universidade federal brasileira, na modalidade "Ciências Humanas" que se vê hoje.

O resultado da prova escrita sai amanhã. Seja ele qual for, eu me considero uma lamentável perdedora.

O Brasil é um país de miercoles."

Minha solidariedade, e o registro aqui, que serve como protesto e denúncia. Os, ou as, energúmen@s que prepararam a prova saberão que é deles, ou delas mesmo que estou falando.
Posso até apostar que, sob o anacronismo gritante da questão, se esconde uma combinação das mais fraudulentas para atribuir a vaga para alguém previamente escolhid@.
Essa patifaria é hoje a universidade brasileira no que antes se chamava Humanidades, e que se converteu hoje numa ação entre boçais da mesma tribo ideológica.
Paulo Roberto de Almeida

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COMPLEMENTO: 


Paulo,

fiquei muito feliz com suas palavras. Sem querer ser piegas - mas já sendo - creio que um diplomata de verdade tem, entre outras funções de muita dignidade - defender os cidadãos brasileiros que estejam em situação de ameaça e risco. Talvez eu esteja atribuindo valores muito românticos e glamourosos à vocação a que você ouviu o chamado.

De qualquer maneira, Paulo, eu me senti defendida e acolhida com a sua corajosa solidariedade.

Quem tem o reconhecimento e o apreço de uma pessoa especial como você, é claro que não precisa ser aprovada em nenhum certame, principalmente do tipo destes incertos no quesito lisura.

Só mais um detalhe: é claro que não consegui os 70 pontos necessários na prova escrita. Sabe que no atual contexto universitário brasileiro eu estou me sentindo honrada com a reprovação?

Copiei do edital da UFXX para todas as áreas do "conhecimento" o trecho do edital para professor de História Antiga e Medieval. Veja os tópicos 5 e 7, por favor. Observe que o de número 5 (o outro tópico que foi sorteado) eles escreveram "circulação" e tascaram um ponto final. Circulação de quê, caras pálidas? Circulação de ar? Se for, isto prova que eles são, na melhor das hipóteses, uns cabeças de vento. Isto se não forem cabeças de camarão.

14.1.9.4 – Departamento de História

14.1.9.4.1 – Área/Subárea de Conhecimento: História/História Antiga e Medieval: 1) História Antiga: conceito e periodização; 2) Mito e ritual no mundo Antigo; 3) Artes e pensamento no mundo Antigo; 4) Trocas culturais no mundo Antigo; 5) Trocas econômicas e circulação na Antiguidade; 6) Crenças e vida religiosa no mundo antigo; 7) Vida doméstica, relações de gênero e sexualidade na Antiguidade; 8) Trabalho e produção no mundo antigo; 9) Poder e Lei na Antiguidade; 10) Formas de Organização Política no mundo antigo; 11) Metodologias de pesquisa e produção do conhecimento na Antiguidade; 12) Historiografia e modelos interpretativos sobre a Antiguidade; 13) Fontes e documentos para o estudo da História Antiga; 14) "Ocidente" e "Oriente" nos estudos sobre o mundo antigo; 15) O mundo antigo no ensino de história; 16) Conceitos de tempo e história no mundo antigo; 17) Cultura material: pesquisa e interpretação.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A Constituicao antieconomica do Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Um trabalho antigo, que agora reapareceu no meu radar, por ter sido colocado à disposição pelos serviços da Secretaria de Edições Técnicas do Senado Federal, que edita a Revista de Informação Legislativa, onde ele foi publicado originalmente.
Neste link: http://www2.senado.gov.br/bdsf/handle/id/176537


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National Intelligence Council 2030 - prospectiva do mundo (segundo os EUA)

National Intelligence Council

Global Trends

The National Intelligence Council's (NIC) Global Trends Report engages expertise from outside government on factors of such as globalization, demography and the environment, producing a forward-looking document to aid policymakers in their long term planning on key issues of worldwide importance.
Since the first report was released in 1997, the audience for each Global Trends report has expanded, generating more interest and reaching a broader audience that the one that preceded it. A new Global Trends report is published every four years following the U.S. presidential election.

Global Trends 2030: Alternative Worlds

Global Trends 2030 is intended to stimulate thinking about the rapid and vast geopolitical changes characterizing the world today and possible global trajectories over the next 15 years. As with the NIC’s previous Global Trends reports, we do not seek to predict the future—which would be an impossible feat—but instead provide a framework for thinking about possible futures and their implications.
In-depth research, detailed modeling and a variety of analytical tools drawn from public, private and academic sources were employed in the production of Global Trends 2030. NIC leadership engaged with experts in nearly 20 countries—from think tanks, banks, government offices and business groups—to solicit reviews of the report.

Global Trends 2030 Cover
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This edition of Global Trends is most widely disseminated in its history. The report is available for the most popular content platforms and e-readers as well as via PDF.  Brief talking points are available here.

Visit the NIC's Global Trends 2030: Alternative Worlds Hub Page for additional information on live events, multimedia content and more.

O Itamaraty e a opiniao publica - Oliver Stuenkel

O Itamaraty pode engajar a sociedade civil?

2013 MAY 9
by Oliver Stuenkel
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ITAMARATY
No final de 2011, durante uma reunião em Nova Déli na qual participaram Shashi Tharoor, ex-Ministro de Estado das Relações Exteriores da Índia, e vários outros diplomatas indianos, um dos palestrantes agradeceu a Tharoor por ter ajudado o Ministério das Relações Exteriores da Índia a “começar a entender como se pode usar as mídias sociais para engajar a sociedade civil”. Ele admitiu que o número de seguidores da conta do Ministério no Twitterainda era baixo; atualmente está em 79.800. A conta pessoal da Shashi Tharoor, por sua vez, tinha 22 vezes mais seguidores, e está, no momento, em 1.75 milhões, o que faz dele um dos políticos mais populares de nossos tempos. O que parecia certo para os diplomatas ali presentes é que o establishment da política externa indiana precisava fazer mais para engajar a sociedade civil, através de uma estratégia astuta dirigida às mídias sociais, de uma estrutura organizacional transparente, e de uma equipe profissional de funcionários de relações públicas. Se não fosse assim, como poderia o governo indiano angariar apoio público para suas estratégias complexas de política externa, como, por exemplo, para a construção de sua presença militar no Oceano Índico, para o fortalecimento dos laços com a ex-inimiga China, e para criar apoio global para a reforma do Conselho de Segurança da ONU?

Um debate semelhante acontece no Brasil, outra potência emergente que busca desempenhar um papel maior no cenário internacional. Da mesma forma de que na Índia, os formuladores de política externa do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, o Itamaraty, lutam para convencer a sociedade civil de que o Brasil deve se tornar um ator global com uma forte atuação em diversas áreas ao redor do mundo. Porém, a política externa desempenha apenas um papel marginal no acalorado debate público brasileiro. Os maiores projetos do Itamaraty são frequentemente recebidos com uma mistura de desinteresse e de rejeição, tanto por parte da mídia quanto pela opinião pública. 

Em 2010, quando o Presidente Lula viajou para o Irã para negociar um acordo nuclear com o Presidente Ahmadinejad, a maioria dos formuladores de opinião pública fez duras críticas à decisão, e vários amigos e colegas desaprovaram meu artigo em defesa da viagem. A estratégia brasileira de fortalecer os laços com a África e com o Sul Global é equivocadamente caracterizada, muitas vezes, como uma empreitada puramente ideológica, embora seja lentamente aceita pelo mainstream político. Como escrevi recentemente, a maior parte da sociedade civil, da mídia e da área acadêmica do Brasil permanece cética quanto ao conceito dos BRICS, que é uma das estratégias mais inovadoras do governo para diversificar suas parceiras e pressionar pela reforma da governança global. Por fim, um dos projetos mais ambiciosos do Brasil para o longo prazo, a reforma do Conselho de Segurança da ONU (e a inclusão do país como membro permanente), costuma ser visto pelos cidadãos brasileiros como um projeto de elite quixotesco e amorfo. 

Até certo ponto, isso é natural. O Brasil não tem tradição de desempenhar um grande papel na arena internacional. Há apenas algumas décadas, o número de embaixadas brasileiras ao redor do mundo era relativamente pequeno comparado com as 139 embaixadas atualmente mantidas pelo país. A ideia de que o Brasil pudesse ter um papel importante a desempenhar no Oriente Médio teria soado esquisita na década de 90, quando o Brasil apenas começava a se consolidar econômica e politicamente. Estudantes universitários brasileiros e jovens profissionais são a primeira geração que se sente à vontade com um Brasil internacionalmente ativo, profundamente envolvido em regiões distantes que não parecem ter virtualmente nenhum impacto discernível sobre a vida do dia a dia no país.

Portanto, parece ser apenas uma questão de tempo até que a opinião pública no Brasil se acostume a estratégias de política externa cada vez mais ambiciosas. Nas universidades, isso já está acontecendo. Existem mais de 100 cursos de graduação em relações internacionais. Mas o Ministério das Relações Exteriores do Brasil pode, certamente, fazer mais de que ficar parado e esperar que a nova geração tome o controle. Isso é o que argumenta Matias Spektor em um editorialperspicaz publicado pela Folha de São Paulo. Ele coloca parte da culpa pela superficialidade e pela relativa ausência da política externa no debate público brasileiro sobre a falta de vontade do Itamaraty de engajar e tentar ativamente moldar a opinião pública. Segundo Spektor, ao invés de interagir com a imprensa, os embaixadores brasileiros são instruídos a manter um perfil discreto, o que facilita a circulação de falsos rumores e más interpretações por parte de jornalistas frequentemente desinformados. Ele nota, com razão, que escritores muitas vezes se referem à mídia internacional ao invés de contatar o Ministério das Relações Exteriores. No passado, isso causou problemas. Quando o Brasil negociou com o Irã, o Itamaraty não forneceu informações suficientes à mídia nacional, o que permitiu que uma narrativa com influência americana se estabelecesse, segundo a qual o Brasil estava se comportando de maneira perigosa. 

Sob o Ministro das Relações Exteriores Antonio Patriota, o Itamaraty tem feito tentativas sem precedentes para engajar a sociedade civil, com diversos convites estendidos a representantes de ONGs e acadêmicos para que participem em seminários. Patriota, que passa 40% de seu tempo viajando pelo exterior, frequentemente dá palestras em universidades e participa em discussões sobre política em think tanks, tais como aquela realizada na FGV do Rio de Janeiro no ano passado sobre a “Responsabilidade ao Proteger”. 

Contudo, Spektor também enfatiza que o Itamaraty precisa empregar o Twitter e o YouTube de maneira mais engajadora. É interessante notar que a conta no Twitter do Itamaraty tem quase o mesmo número de seguidores de que a do Ministério das Relações Exteriores da Índia, uma realização bastante impressionante quando se considera que a população do Brasil é cinco vezes menor do que a da Índia. 

Mesmo assim, a sociedade civil indiana parece dar maior apoio às aspirações globais da Índia do que a sociedade brasileira dá a seu próprio governo. Há fatores estruturais que podem explicar isso, como a complexidade da vizinhança, as guerras relativamente recentes com o Paquistão e a China, e uma elite anglófona que estabelece laços e redes ao redor do mundo com maior facilidade. A Índia também se beneficia de uma cultura de think tanks que produz uma avalanche anual de artigos e livros contendo pareceres sobre política externa, o que fortalece o debate público. E os formuladores de política externa da Índia também fazem sua parte. O próprio Shashi Tharoor simboliza o crescente engajamento global indiano. Com seu mais recente livro, “Pax Indica”, ele conseguiu engajar leitores que pouco se importavam, antes, com política externa. A palestra do TED de Tharoor sobre a ascensão de seu país foi vista mais de 600.000 vezes no mundo todo e fortaleceu o debate doméstico sobre o papel da Índia em assuntos globais; acredita-se, inclusive, que tenha inspirado muitos jovens indianos a tentarem entrar para o serviço diplomático do país. O Itamaraty certamente tem um número suficiente de diplomatas talentosos para seguir o exemplo de Tharoor.

Leia também: 

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Sindrome de transtorno bipolar (o Governo, claro) - Mansueto Almeida


Piorou o humor do mercado com o Brasil

Mansueto Almeida, 21/05/2013

Em recente almoço no início deste mês, em Brasília, com representantes de um dos maiores fundos de investimento do mundo, um deles resumiu bem a impressão que ficou da última visita ao Brasil: “Nessa nossa última visita ao Brasil fiquei com a impressão que o setor privado e governo estão em mundos diferentes. O setor privado continua com elevada incerteza e preocupado com o rumo da política econômica e o governo tem convicção que tem adotado as medidas corretas“.
Em outro almoço com um grupo de investidores de um fundo soberano escutei que: “todos os países do mundo têm problemas. Mas, no caso do Brasil, estamos com a sensação que as pessoas no governo se negam a ver os problemas e isso nos deixa decepcionados. Quando as coisas iam bem, éramos recebidos aqui em Brasília pelo primeiro escalão. Depois passamos a ser recebidos pelo segundo escalão. Agora, temos dificuldades de nos reunir com o terceiro escalão.”
Essa turma faz o circuito tradicional dos investidores: Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília e sempre conversam com o mesmo grupo de economistas. O que tem me assustado é a velocidade da piora do humor desses investidores em relação ao Brasil. Isso significa relatórios mais pessimistas, diminuição da exposição das aplicações dos fundos que eles representam no Brasil e maior incerteza.
Infelizmente, além de eu não ter mandato para defender o governo, o máximo que consigo argumentar é que apesar de o cenário econômico ter piorado e não esperar nenhuma reforma substancial até as eleições, espero que o próximo governo retome a agenda de reformas. Sim, mesmo na hipótese de a presidente Dilma ser reeleita acho que haverá mudanças na equipe econômica e sempre recorro ao “pragmatismo da presidente” – “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. É claro que isso é uma aposta (e esperança), mas vale lembrar que o governo demonizava as privatizações e hoje jogou a toalha – começou a privatizar rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, etc., apesar das incertezas regulatórias.
Independentemente de o governo valorizar ou não a opinião de investidores externos sobre o Brasil, há hoje um déficit de confiança crescente em relação ao rumo da política econômica e os investidores começaram a apostar em um cenário muito pior para o Brasil; um cenário que estava completamente fora do radar há três anos.
Além do editorial desta semana do Financial Times (go-go to go-slow) que falou da falsa sensação de bem estar no Brasil, o relatório de hoje da consultoria de análise macroeconômica Capital Economics sobre o Brasil traz um cenário bastante morno e aponta corretamente o problema de nossa baixa taxa de poupança:
“Accordingly, without measures to raise domestic savings, it will be difficult to achieve a significant rise in investment. Among other things, this will require bold (and unpopular) welfare reforms, including to Brazil’s generous public pension system. And we doubt the government has the apetite for such measures, particularly with elections looming in 2014.
The upshot of all this is that Brazil’s savings – and investment – rate looks set to stay low by Emerging Markets standards. In macro-economic terms, this means that growth is likely to remain lacklustre and accompanied by relatively high rates of inflation. (from Why Brazil Must Save to Invest – Capital Economics May, 21st 2103).
Não há mais o que questionar, o humor do mercado em relação ao Brasil mudou e ainda não há sinais que o governo esteja conseguindo reverter as expetativas. Ao contrário, a cada visita desses investidores estrangeiros em Brasília eles saem mais pessimistas. Chegamos a um ponto, na minha modesta opinião, que o desafio agora não é apenas melhorar a comunicação com o mercado, mas sinalizar também mudanças concretas na política econômica, o que parece, por enquanto difícil.

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Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...