Décadas perdidas
Samir Kedi
DCI, 30/11/2011
É
incrível o que temos que ficar ouvindo do governo. Há pouco ouvimos que
não teremos outra década perdida. Como a União Europeia terá a partir
de agora. Isso porque estamos preparados para o que der e vier. Para a
enorme crise que se avizinha. Certamente, pior que sua recente
antecessora de 2008/2009. - Um ligeiro engano de avaliação. Ou
proposital. Afinal, entendemos que o governo tem que ser, por natureza,
otimista. Ok, mas não pode ficar iludindo o povo. Que deve saber a
verdade. Doa quanto doer. Tem que saber para poder se prevenir. Estudar
os passos a dar no futuro. Em se escamoteando a verdade, só lhe restará
cair no abismo, quando chegar a ele. Sem aviso prévio.
O governo
age como se tivéssemos tido apenas uma década perdida. A dos anos 1980.
Ledo engano. Ou conveniência. Na verdade estamos já com três décadas
perdidas. Direto. Sem trégua, entrando na quarta.
Lembramos que,
no restante do século, até 1980, as coisas foram bem diferentes pelas
terras tupiniquins. Quando havia mais seriedade dos agentes econômicos e
governos. Entre 1901 e 1980, o país cresceu, em média, 4,9% ao ano.
Entre 1950 e 1980 tivemos 7,4% anual médio. Entre 1959 e 1980 essa média
chegou a 8,1%. E, entre 1967 e 1974 crescemos 11,0% ao ano, com direito
a 11,3% em 1971; 11,9% em 1972 e 14,0% em 1974. Éramos chineses antes
dos chineses.
A partir de 1981 a coisa degringolou. Pela
imprevidência do governante de plantão. Que falou algo do qual não
conseguimos nos refazer até hoje. Tendo até agora estas três décadas
perdidas que já vivenciamos.
Em 1973 tivemos o chamado choque do
petróleo, em que os árabes usaram o petróleo como arma contra os
ocidentais. Em que o barril do óleo, se não nos falha muito a memória,
saiu de modestos US$ 1.40 para algo como US$ 12.00. Em 1979 o segundo
choque, em que o preço do barril explodiu, indo a US$ 42.00.
Diante
das dificuldades brasileiras, o presidente disse pura, simples e
singelamente "Somos uma ilha de tranquilidade". E que nada sofreríamos.
Poucas bobagens do tipo foram ditas diante de tamanho problema. Éramos,
apenas, importadores de mais ou menos 95% do petróleo que consumíamos. E
ele aumentou 30 vezes em seis anos. E, diante disso, em 1987, o
presidente da época decretou moratória. Não tínhamos um centavo
disponível para pagar dívida, juros, importações etc.
Pois é. Até
hoje estamos pagando pela imprevidência e falta de ação. Isso nos
lembra 2008, quando nova, imprevidente e inconsequente frase foi levada
aos quatro cantos do país. E do mundo. "A crise é uma marolinha, não nos
afetará." Parece 1979. Estamos começando a pagar mais uma. E sem termos
saído da anterior. E lá se vão mais de 30 anos.
É preciso
lembrar que, depois de tudo aquilo, tivemos a década de 1980, a chamada
década perdida. Em que crescemos a merreca de 1,3% ao ano. As pessoas se
apegaram ao que foi dito dela, e se esqueceram das outras. Que a década
de 1990 também teve crescimento pífio, com média anual de 2,1%. E que
na década de 2000 a média foi um pouco melhor, de 3,0%, mas também
baixa. Na média de 30 anos, pouco mais de 2,0%.
Ou seja, o país
não teve a geração econômica dos pais. Passou direto dos avós para os
filhos. Pois ninguém que tenha menos de uns 45 anos, e que já entendia
algo, viu o país crescer como nós, os mais velhinhos, vimos.
E,
se verificarmos as condições brasileiras para o crescimento, choraremos
copiosamente. A carga tributária é a maior do mundo em termos relativos.
E das maiores em termos absolutos. Em relação ao que recolhe, a seu
uso, e ao que retorna é, de longe, a maior. Em que estamos com cerca de
35%, mas, a realidade, para este interlocutor, aponta uns 50%.
Se
verificarmos que pagamos tudo isso e: 1) não temos escola e ensino
adequado, e nem estudo "de grátis"; 2) não temos saúde adequada e temos
que pagar por uma boa; e, 3) não temos segurança e temos que pagar por
uma boa, concluiremos que, a carga tributária é isso mesmo. E nem vamos
mais adiante. Basta isso. Se tivéssemos que pagar mais para termos o que
deveríamos com o que pagamos, ela poderá passar de 50%. Então essa é a
verdadeira carga tributária brasileira. Não existe nada igual no mundo.
Ninguém consegue investir com isso. Não há renda disponível para
consumir e crescer mais.
A taxa de juros é a maior do mundo em
termos absolutos. E relativos. O que já se arrasta por muitos e muitos
anos. Com este nível que temos, não há quem consiga investir para valer.
E, sem investimento, não se cresce. A propósito, devido a alta taxa de
juros, e a pouca renda disponível, o investimento brasileiro é de
envergonhar. Na média de 1995 a 2010 ele se situou na miséria de 18% do
produto interno bruto (PIB). Menos que o necessário para manutenção
econômica, que é 20%.
Com isso, nem conseguimos entender como
ainda se cresce "tanto". Pois, com investimento negativo, o crescimento
médio de pouco mais de 2,0% é astronômico e inexplicável. Entendemos que
só pode ser explicado pela produtividade brasileira, que tem que ter
sido alta no período.
A título de comparação, a China, que
inverteu conosco e cresce direto à média de 10% desde 1979, investe em
média 45% do PIB na sua economia. E a taxa de juros atual é de cerca de
5%.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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