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terça-feira, 5 de maio de 2020

A Amazônia legal e os desafios da política externa brasileira - Paulo Roberto de Almeida

A Amazônia legal e os desafios da política externa brasileira

Paulo Roberto de Almeida
[Objetivo: nota de informação; finalidade: apresentação online, 7/05, FENERI]


A Amazônia Legal na história e nas relações exteriores do Brasil
O conceito de Amazônia Legal – que cobre uma área que compreende cerca de 60% do território brasileiro, mas apenas 12% de sua população (embora mais da metade dos povos indígenas), em nove estados da federação – é uma construção mais política do que geográfica, embora o bioma amazônico perpasse os nove estados englobados em sua definição: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, totalmente, e parte do estado do Maranhão. As preocupações com o desenvolvimento insuficiente da região datam de meados do século XX, mas a construção do conceito político de Amazônia legal foi mais recente, no último terço do século, progressivamente.
As interações da Amazônia com a política externa são bem mais antigas, obviamente, e têm a sua partida ainda na era colonial, mais exatamente durante a união dos dois reinos ibéricos, quando pela primeira vez portugueses e brasileiros ultrapassaram a linha traçada ainda antes da chegada dos navegadores à costa atlântica da América do Sul, aquela que tinha sido negociada em Tordesilhas, em 1494. Poucos observadores ou até mesmo historiadores se dão conta de que Tordesilhas representa uma inovação diplomática fundamental, nos albores da era moderna: pela primeira vez, dois reinos independentes prescindem de uma bula papal – a que tinha sido concedida um ano antes, por um papa espanhol tremendamente corrupto, pela Inter Coetera – e decidem fixar de modo soberano seus limites respectivos a todas as novas terras descobertas e a descobrir entre o Novo Mundo, a África e a Ásia. Ofereci algumas considerações sobre esse importante tratado em um capítulo, A diplomacia dos descobrimentos: Tordesilhas e o desenho do Brasil”, de um dos meus livros – Relações internacionais e política externa do Brasil: dos descobrimentos à globalização (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1998) –, que encontra-se disponível em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42694780/A_diplomacia_dos_descobrimentos_Tordesilhas_e_o_desenho_do_Brasil_1998_).
(...)

Íntegra disponível neste link da plataforma Academia.edu: 


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Agronegócio e meio ambiente: uma interação incontornável - Marcos Sawaya Jank

O diálogo necessário entre agricultura e meio ambiente 

Marcos S. Jank (*)

Jornal “O Estado de S. Paulo”, Opinião, 28/02/2020.


Em vez do ‘nós contra eles’, é preciso compatibilizar as agendas globais do clima e da alimentação.

Os dois setores da economia brasileira com maior visibilidade global são a agricultura e o meio ambiente.

O protagonismo da agricultura brasileira se dá no comércio global de commodities agropecuárias. Nossa oferta agrícola é concentrada em produtos (cerca de uma dezena), mas diversificada em destinos, atingindo mais de 200 países e cumprindo papel crucial na segurança alimentar do planeta. Porém, fora do universo da oferta agrícola, pouca gente conhece o agro brasileiro e, no geral, o vê com desconfiança.

Já o meio ambiente brasileiro tem ampla visibilidade no mundo, principalmente por conta das preocupações com biomas sensíveis como a Amazônia e o Pantanal. Aqui o Brasil é reconhecido como potência ambiental, mas atacado pela elevada quantidade de queimadas e desmatamentos – e seu impacto na mudança do clima –, além de invasões de terras indígenas e devolutas, do crescimento de monoculturas como soja e outros supostos males.

Enquanto a opinião global sobre o agro brasileiro é restrita e localizada, no caso do meio ambiente ela é ampla e generalizada. Sabemos que boa parte das críticas negativas tem mais que ver com “percepções” do que com “fatos”, a exemplo do cenário apocalíptico que foi disseminado após as queimadas do ano passado. Mas é fato que o assunto tomou conta da opinião pública internacional e hoje está solidamente presente nos organismos multilaterais, no discurso de governos e no curriculum das escolas de ensino fundamental e médio de todo o mundo.

Nos últimos tempos o tema ambiental também entrou de vez na agenda das grandes empresas e do sistema financeiro internacional, como vimos na última reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos. E o Brasil perdeu protagonismo na agenda da sustentabilidade, após décadas de avanços importantes na redução do desmatamento, de compromissos com o clima e de diversificação para energias renováveis.

Infelizmente, o que temos realmente visto no nosso mundo hiperconectado é um debate de surdos do tipo “nós contra eles”, decorrente de hoje participarmos de redes sociais formadas por pessoas que basicamente pensam como a gente. Nesse sentido me parece um equívoco insistir no autoelogio para plateias limitadas e catequizadas. Ou, ainda, insistir em afirmações do tipo “somos os mais sustentáveis do mundo”, mesmo que isso fosse verdade. Eu prefiro o caminho de assumir nossos avanços e os nossos problemas com mais modéstia, encarando, sem subterfúgios, o diálogo com quem pensa de forma diferente, principalmente no exterior.

Aliás, pensar diferente não deveria ser um problema. Empresas que atuam junto aos produtores entendem melhor a realidade agrícola do que as que atuam na ponta do consumidor. No universo heterogêneo das ONGs, há várias delas que trabalham há anos com produtores rurais brasileiros e têm feito defesas impecáveis da sustentabilidade da nossa agricultura no exterior. Governos europeus criticam o Brasil nessa área muito mais do que governos asiáticos, mas são estes últimos que respondem por dois terços do que exportamos hoje e com quem mais temos de dialogar.

Em suma, o Brasil não deveria tomar posição contra o restante do mundo no tema ambiental. Ao contrário, é preciso formar alianças estratégicas em diversos níveis, reconhecer os problemas existentes, enfrentar as perguntas difíceis, ampliar o diálogo e receber elogios dos outros, e não próprios.

Ao mesmo tempo, o setor privado do agro brasileiro precisa abraçar o combate ao desmatamento ilegal no Brasil, atacando a necessidade de regularização fundiária com critérios sólidos, condição básica para a punição dos abusos.

Na agenda internacional, o Brasil deveria liderar um esforço global para discutir como alimentar quase 10 bilhões de pessoas em 2050, metade delas vivendo na África e no subcontinente indiano. O modelo agrícola atual desses países claramente não permite solucionar o seu gap potencial entre oferta e demanda agrícola.

A melhor solução de longo prazo para mitigar as mudanças do clima é o menor uso de recursos naturais, que em última instância se traduz por aumento da produtividade. Os ambientalistas afirmam que o agro não enxerga que o desmatamento vai prejudicar a própria agricultura no longo prazo. Os agricultores dizem que os ambientalistas não entendem que o Brasil é um dos únicos lugares do mundo capazes de produzir duas a três safras por ano e que o mundo precisará do nosso modelo produtivo tropical para se alimentar. Ambos estão corretos, mas faltam confiança e cooperação.

Hoje sobram observatórios do clima e do uso da terra no mundo. Mas faltam observatórios da agricultura, que tragam respostas concretas para o gap potencial entre oferta e demanda de alimentos no longo prazo. Essa é uma questão que certamente envolve a agenda do clima, mas também envolve demografia, renda per capita, urbanização, modelos de produção e organização de cadeias de suprimentos. Envolve, portanto, o conceito de sustentabilidade nos seus pilares econômico, ambiental e social. Se houvesse maior diálogo entre esses observatórios, com certeza diminuiríamos a intolerância e a surdez que imperam no nosso mundo hiperconectado.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

A Conferência de Madri, fracasso ou sucesso? - José Goldemberg (OESP)

17/02/2020 | O Estado de S. Paulo | Espaço Aberto | 

A Conferência de Madri, fracasso ou sucesso?

    José Goldemberg
    O Estado de S. Paulo17/02/2020

    A 25.ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP 25), que se realizou em Madri, na Espanha, em dezembro de 2019, tem sido descrita frequentemente como um completo fracasso, porque as decisões mais importantes a serem tomadas foram adiadas para a COP 26, neste ano de 2020, em Glasgow, na Inglaterra.
    Essas decisões dizem respeito, basicamente, a recursos financeiros, tais como a transferência de recursos dos países mais ricos para os países em desenvolvimento para ajudá-los a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e reconhecer créditos por ações já realizadas no passado por esses países.
    Há anos que as discussões sobre esses temas se arrastam. A impressão que se pode ter, portanto, é de que os temas essenciais estão sendo transferidos de ano para ano e que as reuniões da COP são realmente convescotes em que se reúnem diplomatas, ativistas ambientais, celebridades e ministros do meio ambiente, nos quais a retórica é elevada, mas não tem consequências práticas.
    A realidade é bem mais complexa: apesar das emissões estarem aumentando, elas teriam aumentado muito mais sem as decisões tomadas pela Convenção do Clima assinada no Rio de Janeiro em 1992 e pelas COPs subsequentes, realizadas desde então, que alertaram o mundo todo para os problemas do aumento das emissões de carbono e o consequente aumento da temperatura global.
    Essa conscientização estimulou inovações tecnológicas (e sua adoção) que tornaram a economia mundial mais eficiente e, por conseguinte, reduzindo as emissões de carbono.
    Por exemplo, automóveis produzidos hoje podem rodar 15 quilômetros com um litro de gasolina, os produzidos há 20 anos atrás necessitavam 1,5 litro para rodar a mesma distância.
    Lâmpadas LED iluminam muito mais com menos consumo de eletricidade.
    O sucesso da globalização da atividade industrial que se verifica no mundo contribuiu para a redução das emissões: não existem mais automóveis produzidos no México, no Brasil ou nos Estados Unidos, mas uma cadeia internacional de componentes que permite que eles sejam fabricados em vários países.
    Em outras palavras, enquanto os diplomatas se reúnem nas COPs durante duas semanas, todos os anos, e parecem não chegar a um acordo - como não chegaram na Conferência de Madri -, uma revolução silenciosa está acontecendo no mundo e evitando um aumento assustador das emissões de carbono e de outros gases responsáveis pelo aquecimento global.
    Não entender essa realidade é que tornou difícil a implementação das medidas acertadas no Rio de Janeiro em 1992 e em Kyoto em 1997 para reduzir as emissões de carbono. Esse não é apenas um problema ambiental, mas um problema de política industrial e comercial, que só foi resolvido com a adoção do Acordo de Paris, em 2015, na COP 21. Nesse acordo ficou acertado que cada país decidiria de forma soberana o que pretende fazer no que se refere à redução das suas emissões, adotando metas e prazos para cumpri-las. Apesar de voluntárias, elas se tornariam mandatórias uma vez comunicadas ao Secretariado da Convenção das Partes e seriam revisadas a cada cinco anos. O Brasil fez isso sem exigir recursos para cumprir suas metas, como, por exemplo, reflorestar 12 milhões de hectares.
    A China, o maior emissor mundial e cujas emissões estão crescendo, comprometeu-se a reduzi-las substancialmente substituindo o uso de carvão por gás natural e estimulando o uso de energias renováveis. Ao fazê-lo, o governo chinês pretende resolver também o problema urgente da poluição urbana, cuja causa principal é o uso de combustíveis fósseis.
    Transferência de recursos para ajudar os países mais pobres a tomar medidas para reduzirem emissões se destina, realmente, a países da África, do Sudeste da Ásia e das ilhas do Oceano Pacífico, e não a países mais avançados e aspirantes a membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), como o Brasil.
    Essas promessas 0 que inicialmente eram muito vagas - tomaram a forma de um aporte prometido de US$ 100 bilhões anuais na COP de Copenhague, em 2009. Mas esses US$ 100 bilhões se referem a "investimentos relacionados ao clima", como os que o Banco Mundial faz todos os anos e atingiriam US$ 43,1 bilhões em 2012.
    A Índia e outros países argumentam que esses recursos seriam transferidos para os seus governos, o que é considerado um entendimento equivocado.
    Além disso, foi criado o Fundo Verde para o Clima, em 2015, que levou anos para ser estruturado e só tem desembolsado alguns bilhões de dólares por ano em 123 projetos â apenas três deles no Brasil. Acelerar a apresentação de projetos a esse fundo é a principal ação que o Brasil deveria tomar, além de insistir para que ele se torne mais ágil.
    Esse parece ser um caminho muito mais promissor do que se envolver em intermináveis discussões sobre a expectativa de receber créditos por ações realizadas no passado, que parece muito problemática. Esse programa de créditos foi mal formulado e o seu valor de mercado se tornou irrisório. Insistir neles parece ser uma estratégia pouco construtiva.
    -
    PROFESSOR EMÉRITO E EX-REITOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), FOI MINISTRO DO MEIO AMBIENTE

    quinta-feira, 4 de julho de 2019

    Controversias de cupula no meio ambiente: Bolsonaro rejeita interferencia de Merkel e Macron

    Bolsonaro diz que Merkel e Macron não têm autoridade para discutir questão ambiental

    Da IstoÉ, 4/07/2019
    Marcos Corrêa/PR
    O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar a pressão dos governos francês e alemão sobre a política ambiental brasileira na manhã desta quinta-feira, 4, durante café da manhã com deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). “Em Osaka, no G-20, convidei Emmanuel Macron e Angela Merkel para sobrevoar a Amazônia. Se eles encontrarem um km² de desmatamento entre Boa Vista e Manaus concordaria com eles na questão ambiental. Sobrevoei a Europa, já por duas vezes, e não encontrei um km² de floresta. Diante disso, Merkel e Macron não têm autoridade para discutir questão ambiental com Brasil”, disse o presidente, sendo aplaudido pela bancada ruralista presente no encontro.
    Ao falar sobre a ausência de autoridades dos países europeus na questão ambiental, o presidente citou que a Alemanha não vai cumprir o acordo de Paris no tocante à energia fóssil e garantiu que o Brasil tem “quase tudo para cumprir o Acordo”. “Faremos o que for possível”, prometeu.
    Bolsonaro disse que a maneira do Brasil se portar durante o mundo mudou. “Durante décadas, com conivência de chefes de Estado, tivemos um péssimo conceito ambiental no exterior. Agora, isso não vai continuar”, defendeu, citando que os chefes de Estado da Alemanha e da França “achavam” que estavam tratando com governos anteriores em Osaka.
    “Esses chefes de Estado, achavam que iam chegar no Brasil demarcando dezenas de áreas indígenas, quilombolas e de proteção após a reunião. Macron, por exemplo, queria que anunciasse junto com Raoni (Metuktire, líder indígena) decisões para questões ambiental. Dei um rotundo não ao Macron sobre reunião com Raoni”, relatou o presidente.

    sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

    Historia ambiental brasileira discutida em coloquio internacional (2016) - sumario

    Conference summary:
    “Destruction and conservation in debate: Brazil’s environmental history in a global perspective”
    by Nathalia Capellini

    The International Workshop “Destruction and conservation in debate: Brazil’s environmental history in a global perspective” took place on October 13 and 14, 2016 in Paris, France. This workshop, the first ever to be dedicated to Brazilian environmental history outside of Brazil, offered a space to discuss both the state of the art and the new perspectives of this discipline. Studies presented dealt with a wide variety of environmental topics, including its representations, politics and material changes, and covered a large timeframe, from colonial times to contemporary studies. Despite the diversity of approaches, the research presented was linked by the idea of going beyond the declensionist narrative of Brazil’s environment that has historically characterized the reflections on this subject.

    The workshop grew out of a desire to gather European scholars working on Brazilian environmental history and work to evaluate and overcome the lack of research in France on this field. This absence seemed odd in a country that has a large history of Brazilianist studies (including about the environment) and a tradition on environmental consideration in history, with the heritage of Emmanuel Le Roy Ladurie, Lucien Febvre, Fernand Braudel and the École des Annales. In welcoming participants to the workshop, Antonella Romano, director of the hosting institution, the Center Alexandre-Koyré (École des Hautes Études en Sciences Sociales), pointed out that although there are many bridges between French and Brazilian research, and that the Center, among other institutions, has a commitment to developing the field of environmental history, thus far, these two subjects have not been combined. In response to the call for papers, many proposals came from Brazil and the United States, and so the workshop broadened and became a space of transatlantic discussion on the environmental history of Brazil.

    The workshop’s first panel was centered specifically on the colonial period. Inês Amorim (Universidade do Porto) analyzed images and cartography of Brazilian territorial occupation produced during colonization and made the case for going beyond the Eurocentric view of this process as a homogeneous movement from the coastline to inner lands. Diogo de Carvalho Cabral (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) reminded us of the effect literacy had on the subjugation of indigenous labor, territory and culture by the colonizer. Drawing on a more local analysis, Gustavo Azenha’s (Columbia University) presentation dealt with Portuguese interactions with indigenous people in a region of Southern Bahia over timber extraction and the concomitant rise of nature conservation policies.

    In the second panel, Teresa Cribelli (University of Alabama) presented her ongoing research about narratives of progress through the use of natural resources and “wilderness geographies”. She examined nineteenth century International Exhibitions to compare and find bridges between the cases of Brazil and the United States’ frontier states. Ethienne Sauthier (Université Paris III) examined how Brazilian writers like Lima Barreto and Euclides da Cunha depicted tropical nature as an identitarian element for national sentiment in the late nineteenth and early twentieth century. Ely Bergo de Carvalho (Universidade Federal de Minas Gerais) presented a study about the representations of Brazilian environment in school textbooks since the 1960s. He observed that they follow a declensionist pattern while, at the same, praising (capitalist) development, inhibiting a critical perspective on the matter.

    On the evening of the first day a broader debate took place about the environmental policies of Brazil after the impeachment of President Dilma Rousseff. Led by the environmentalist André Abreu de Almeida and the journalist Frédéric Pagès, the conversation was an open dialogue between civil society and academia. The discussion was strongly politicized and dealt with the legacy of Presidents Lula and Dilma’s policies for the environment and the prospective actions of the current government. Many participants expressed their fear of increased attacks against the nature preservation law in Brazil and the communities that depend on it. Abreu de Almeida underlined the need to get out of a good versus bad dichotomy to find better solutions to the environmental (and political) crisis in Brazil, and Pagès stressed the fact that these attacks against environmental and social environmental movements in Brazil are not new. Even though the assessment of the current and future situation was rather negative, the debate ended on the positive note that the crisis might be an opportunity to build a new critique of the political system based on political ecology.

    The second day opened with a round table organized to go beyond the Brazilian example. The presentations included other world regions (Mexico, Cambodia and Malaysia) and a transnational space (the Amazon forest). Jorge Quetzal Argueta (École des Hautes Études en Sciences Sociales) presented a study about the history of agronomic research in Mexico stressing the role of foreign expertise and environmental conflict in this example. Matthieu Guérin (Institut national des langues et civilisations orientales) compared the colonization processes of Malaysia and Cambodia and their impact on the evolution of forests, fauna and later environmental policies, questioning the relevance of the nation-state scale. The following presentations dealt with the Amazon forest: Kevin Niebauer (Freie Universitat Berlin) discussed the globalization of the Amazon rainforest focusing on the role of circulation of scientific knowledge, while Thomas Mougey (Maastricht University) focused on the UNESCO’s project for an International Scientific Institute in the Amazon. In this panel the importance of transnational and foreign actors in the management of the environment was central: the role of U.S. corporations in Mexico’s case, the ex-colonial powers for Malaysia and Cambodia, the international scientific community and international agencies in the Amazon case. That is not to say that these territories are always under the yoke of outsiders, as Mougey underlined in his study questioning the marginalization of the Amazon forest in global history. Guérin emphasized the common trends and actors in the comparison of environmental histories of the Global South but also highlighted the importance of local (and very local) dynamics for understanding the complexity of these histories.

    The next session started with Jennifer Eaglin’s study of caneworkers and the Guariba strikes of 1984 in São Paulo, and their impacts on establishing labor rights under an exploitative agriculture-focused development program. Next, Claire Lagier’s presented on the Landless People’s Movement (MST) in Southern Brazil and their ecological turn. The discussion showed the connections between these two examples through the figure of the agricultural worker and how the Guariba strikes ended up influencing the adoption of agroecology by MST.

    The last session started with the presentation by Mariana Sales (Université Paris III) of the eighteenth century manuscripts of traveler Ferdinand Denis on the Brazilian flora gathered in the Saint-Genevieve’s library. Then, Georg Fischer (Aarhus University), using the example of iron ore extraction in Minas Gerais around 1910s, talked about the making and circulation of knowledge around iron prospects and how it shaped the materiality of a commodified landscape. Last, André Felipe Cândido da Silva (Fiocruz) stressed the key role of science and technology in development projects in Brazil while presenting his research program, “Water, Health and Environment in Development Projects in the Brazil of the Twentieth Century”. The role of experts, doctors, intellectuals and travelers in the production of knowledge around nature and the subsequent transformation of nature into resource was central to all of these papers.

    José Augusto Pádua, professor of the Universidade Federal do Rio de Janeiro and leading scholar on Brazilian environmental history, gave the closing lecture titled “Brazil in the History of the Anthropocene”. He presented a longue-durée approach to Brazilian history in relation to the three waves that evoke the Anthropocene concept, industrialization (1800-1945), the great acceleration since the 1950s and the current “self-reflecting” times. In his presentation he emphasized the importance of global connections in this analysis and developed some ideas on the key role of environmental history’s reflections for the present and future of the environment in Brazil.

    These two days of discussion offered a very broad perspective on the research being done on Brazilian environmental history in Brazil, the United States and Europe. This international panorama proved very enlightening for European researchers working on the subject. Likewise, European researchers offered original viewpoints and new archival possibilities. The studies presented showed the importance of transnational as well as local dynamics and revealed the importance of conflict in the making of environmental histories. In spite of the variety of issues presented in the different studies, the strong links between environmental history and history of sciences stood out. Overall, the workshop offered a more careful and complex understanding of environmental dynamics in Brazilian history beyond a narrative of plundering and destruction. In sum, the workshop was very fruitful and announces potentially promising pathways for Brazilian environmental history research in Europe and further afield.

    The workshop was organized by Antoine Acker, postdoctoral fellow in the Environmental Humanities Research Group at the University of Turin, and Nathalia Capellini, PhD candidate in history at the University of Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines. This workshop was made possible with the help of several institutions, and especially the European Society for Environmental History that granted us with their Small Workshop Fund, the Institut des Amériques, the Centre d’Histoire Culturelle des Sociétés Contemporaines (Université de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines) and the Association for Brazilian Research in Europe.

    terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

    Ecologistas sonhaticos: um perigo para a Natureza, e para a Humanidade - book review (The City Journal)

    Books and Culture
    Jerry Weinberger
    The Earth Is Not a God
    The false theology of radical environmentalists
    The City Journal, 23 February 2015
    Photo by Christian
    The Moral Case for Fossil Fuels, by Alex Epstein (Portfolio, 256 pp., $27.95)

    The seventeenth-century philosopher Sir Francis Bacon argued that the human mind had been squandered on superstition: metaphysical speculation, theological disputation, and violent political delusions. Bacon’s greatest American disciple, Benjamin Franklin, agreed. It would be better, both believed, to focus on the conquest of man’s common enemy: nature. Bacon and Franklin were right, but they misjudged superstition’s staying power. Fast-forward to a conversation I had with the late Arne Naess, the Norwegian father of “deep ecology” and guru of the European Green movement. With a straight face, Naess told me that the eradication of smallpox was a technological crime against nature. For Naess’s deep ecology, the smallpox virus “deserved” and needed our protection, despite having maimed, tortured, and killed millions of people.
    In his sprightly recent book, The Moral Case for Fossil Fuels, Alex Epstein takes on Naess’s American progeny—people such as Bill McKibben and David M. Graber—who have become influential opinion-makers on the environment, fossil fuels, and technology. Epstein asks us to imagine someone transported to the present from a virtually fossil fuels-free England in 1712, when the Newcomen steam engine was invented. What would that person think of our world, where 87 percent of all energy is produced from fossil fuels? In short, he’d be amazed to find clean drinking water, sanitation, enviable and improving air quality, long life, freedom from much disease, material prosperity, mobility, and leisure.
    Epstein makes a compelling “big picture” case that the interaction of technology and fossil fuels provides everything we take for granted today. He also reminds us of earlier hysterical predictions of doom concerning fossil-fuel use. In the late 1960s and early 1970s, environmentalists such as Paul Ehrlich predicted mass starvation by the year 2000 because “world food production could not keep up with the galloping growth of population.” Flat wrong: the world’s population doubled, and the average person today is far better fed than when the starvation apocalypse was announced. That’s because the other apocalypse proclaimed back then—the depletion of oil and natural gas by 1992 and 1993, respectively—also proved wrong. Since 1980, worldwide usage of fossil fuels increased massively, yet both oil and natural gas supplies have more than doubled, and we have enough coal to last 3,000 years.
    Epstein explains what the environmental doomsayers could not or would not see: first, that “fossil fuel energy is the fuel of food”; and second, that the human mind is as powerful as Franklin and Bacon said it was. Humans discovered more fossil fuels, and technology used those fuels to industrialize food production. Moreover, fossil fuels enabled Norman Borlaug’s Green Revolution in food science, which, unlike the political movement of that name, actually did something to improve world nutrition and relieve the suffering of millions. Ehrlich was also wrong about fossil-fuel pollution in the developed world. In the U.S., though the use of fossil fuels climbed steadily since 1970, emissions of pollutants decreased dramatically—thanks to technology.
    Predictions of starvation, depletion, and pollution didn’t pan out. What about global warming? Epstein’s warming discussion should be required reading. He acknowledges the greenhouse effect of carbon dioxide, which can be demonstrated in a laboratory. But the effect is not linear; if it was, every new molecule of carbon dioxide added to the atmosphere would add a unit of heat equivalent to the one preceding it. Rather, the greenhouse effect is decelerating and logarithmic, which means that every additional molecule of carbon dioxide is less potent than the preceding one. Many theories of rapid global warming are based on speculative models of carbon dioxide interacting in positive feedback loops with increases in atmospheric water vapor. Most climate models are based on so-called “hindcasting,” coming up with explanatory schemes that predict what has happened in the past. There’s nothing inherently wrong with this, since the only alternative would be clairvoyance—but predicting the past with a computer model is not the same as accurately predicting the future.
    Most climate models, says Epstein, have consistently and dramatically over-predicted mid-tropospheric global warming. We haven’t “burned up,” as McKibben predicted we would in 1989. Some suggest that the warming is occurring in the oceans; but mean sea levels around the world have been stable or declining for the last 100-plus years. Since the beginning of the industrial revolution, atmospheric carbon-dioxide levels have increased by .03 percent to .04 percent and since 1850, temperatures have risen less than one degree Celsius (an increase that has happened in many earlier time periods). And for the past 15 years—a period of record emissions—there has been little to no warming.
    The warming models may prove correct in the long term, of course, so Epstein asks a reasonable question: What if it becomes clear that, in the next 100 years, the seas will rise by two feet and the globe will warm by 2 degrees Celsius, as predicted by many climate scientists? The answer is simple, though often ignored by climate alarmists: we’ll adapt. Since the Industrial Revolution, and especially in the last 30 years, the human race has become progressively better at remediating the harmful effects of storms, heat, cold, floods, and so on. It’s irresponsible, says Epstein, to trivialize the power of technology to solve the problems generated by fossil fuels. Much of that technology could consist of fossil-powered techniques to capture and recycle or sequester carbon dioxide.
    Epstein exposes the profound misanthropy motivating much contemporary environmentalism. He quotes Graber: “Human happiness, and certainly human fecundity, are not as important as a wild and healthy planet . . . human beings have become a plague upon ourselves and upon the Earth . . . and until such time as Homo Sapiens should decide to rejoin nature, some of us can only hope for the right virus to come along.” Alexis de Tocqueville noted that democratic peoples have a tendency toward pantheism in religion: given their passion for equality, they come to think that everything is God. To radical Greens like Naess, Graber, and McKibben, everything is God, with one exception: the human being, whose “impact” spoils the “independent and mysterious” divine.
    Why do hysterical warnings about sustainability and depletion persist despite the failure of the crackpot 1960s and 1970s predictions? Because the non-impact standard—conceiving of the environment as a loving but finite God—sees the environment as having a limited “carrying capacity” of gifts, such as arable land, water, and crucial minerals, in addition to fossil fuels. The more people on the planet, the closer we are to maxing out that carrying capacity, the thinking goes. Thus the urgent call, made in 2010 by White House Office of Science and Technology director John P. Holdren, to “de-develop the United States.” This notion of a finite carrying capacity discounts the powerful role of human ingenuity in finding natural resources. But the deeper problem is rooted in the divinization of the planet as something that simply is what it is.
    Epstein argues brilliantly that the carrying-capacity superstition amounts to a “backward understanding of resources.” The fact is that nature by itself gives us very few directly supplied energy resources: most resources “are not taken from nature, but created from nature,” he maintains. Every raw material in nature is but a “potential resource, with unlimited potential to be to be rendered valuable by the human mind.” Right now we have enough fossil fuels and nuclear power to last us thousands of years. “The amount of raw matter and energy on this planet,” Epstein writes, “is so incomprehensibly vast that it is nonsensical to speculate about running out of it. Telling us that there is only so much matter and energy to create resources from is like telling us that there is only so much galaxy to visit for the first time. True, but irrelevant.”
    Bill McKibben says that the post-Ice Age Holocene period is the only climate that humans can live in. Epstein responds that the Holocene is an abstraction that summarizes “an incredible variety of climates that individuals lived in. And in practice, we can live in pretty much any of them if we are industrialized and pretty much none of them if we aren’t.” Until the Industrial Revolution, the climate was dangerous for all human beings. Since then, we have marched steadily toward “climate mastery.” Fewer people die today from the weather than at any time in history. “We don’t take a safe climate and make it dangerous,” according to Epstein. “We take a dangerous climate and make it safe.”
    The non-impact standard is a pervasive but irrational prejudice—irrational because it’s a neo-pagan faith that the earth is in effect an uncreated God, and a prejudice because it’s asserted dogmatically by those who profess it and taken for granted by a public unaware of being in its grip. The default position on environmental matters is “respect” for the planet. It tilts opinion to focus only on the harms of fossil fuels and technology, not their benefits. The bottom line is always the same: humans should minimize their impact on nature.
    Alex Epstein’s book is a breath of fresh air in this polluted opinion climate. The Moral Case for Fossil Fuels shows why fossil fuels are good for human flourishing in general and good for the world’s poor in particular. Epstein is a true friend of the earth—an earth inhabited and made better by human beings.

    terça-feira, 3 de abril de 2012

    Meli-melo ambiental: ou a confusao da Rio+20 - Xico Graziano

    A Rio+20 ameaça tornar-se uma Rio+caos, pelo menos no plano das deliberações, dos debates, das resoluções.
    Como o planeta inteiro quer resolver todos os seus problemas -- e mais alguns, de sobra -- com resoluções idealistas, o que vai se ter, na verdade, é muita transpiração, e pouca inspiração, como sempre aliás, nessas reuniões multilaterais muito amplas.

    Não sou dos catastrofistas, e não acho que o mundo vai acabar apenas porque a geração atual -- gastadora, perdulária, ecologicamente irresponsável -- não vem fazendo aquilo que os ambientalistas vivem recomendando que ela faça: economia, não consumo, recomposição, reconversão, reciclagem, etc.
    Acho que o mercado, e o sistema de preços, vão sinalizar perfeitamente a raridade relativa dos bens naturais e daqueles produzidos pelo homem, e, no devido tempo, vai inflexionar os processos produtivos para os mais sustentáveis do ponto de vista econômico. Pode não ser o do agrado dos ambientalistas, mas provavelmente será o mais lógico e o mais economicamente racional.
    O resto é debate cansativo.



    X-Tudo Ambiental
    Xico Graziano
    O Estado de S.Paulo, 3/04/2012

    Passado duas décadas, desde quando se realizou a Rio 92, a ONU resolveu organizar no Brasil uma nova Conferência mundial. Concebida para avaliar o desenvolvimento sustentável, a Rio+20 ameaça ser um fracasso. Sua complexa agenda virou uma torre de Babel.
    A primeira Conferência mundial sobre meio ambiente ocorreu em 1972, na cidade sueca de Estocolmo. Lá nasceu o importante Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Começava a serem conhecidos, cientificamente, os limites da Terra à explosão populacional humana. Consequências ecológicas do crescimento econômico.
    Importante relatório da ONU, divulgado 15 anos depois, intitulado “Nosso Futuro Comum”, definiu as bases do conceito que virou mantra na atualidade: o desenvolvimento sustentável. Derivado da noção pioneira do “ecodesenvolvimento”, proposta pelo economista polonês Ignacy Sachs, o termo propunha conciliar a economia com a ecologia. Mais tarde, na Cúpula da Terra (nome original da Rio 92), ampliou-se a compreensão sobre o tema, consagrando o famoso tripé da sustentabilidade: ecologicamente equilibrada, socialmente justa, economicamente viável.
    Ao se incorporar na temática do desenvolvimento econômico, a causa do ambientalismo, antes restrita aos idealistas e visionários, ganhou importância. A sociedade global mudava a compreensão sobre seu devenir. O crescimento predatório, que emite notas promissórias contra o futuro, perdeu cartaz, abrindo espaço para o surgimento da economia verde, novo paradigma da civilização.
    Em tese, tudo resolvido; na prática, imensas dificuldades. As Nações jamais consolidaram passos subsequentes, necessários para obter governança global sobre o meio ambiente. As empresas, por seu lado, perderam tempo tratando a sustentabilidade apenas como uma jogada de marketing, pouco modificando os processos tecnológicos de produção. Entre as pessoas, a conscientização ecológica jamais ultrapassou as elites da sociedade. Em consequência, anda atrasado o enfrentamento consistente da crise ambiental.
    Falta também clareza sobre a idéia central. Desde quando se formulou o conceito do desenvolvimento sustentável, suas três dimensões  - ambiental, social, econômica - disputam espaço político em sua agenda. Se, num primeiro momento, a luta ambiental se robusteceu ao ser incorporada nos processos decisórios da economia, aos poucos o ambientalismo passou a dividir seu ativismo com grupos centrados nas desigualdades sociais. Uma sociedade miserável, afinal, não pode ser considerada sustentável.
    Especialmente nos países emergentes, como o Brasil, os dilemas elementares do crescimento – emprego, moradia, energia, transportes – exigem obras que pressionam fortemente as variáveis ambientais. Nesse sentido, o preservacionismo radical, coerente nos países ricos, por aqui soa elitista. Por isso a ideia da sustentabilidade, mais ampla, ganhou espaço, forçando o ambientalismo a ser realista. Mais que eloqüentes palavras, ações concretas.
    Noutra linha, certas organizações fizeram da sustentabilidade uma estratégia de combate à exclusão humana, fornecendo uma grife aos movimentos ligados à erradicação da miséria e à justiça social. Estes, agora, pegaram carona nos preparativos da Rio+20 e praticamente dominaram a mídia sobre a reunião.  Negros, feministas, sem-terra, índios, gays, causas humanitárias variadas se imiscuiram com o ambientalismo, resultando boa confusão, teórica e política.
    Resultado: a Rio+20 perdeu seu foco original, ligado à crise ecológica da civilização. Assim argumentam os cientistas, militantes da causa ambiental, laureados com o prêmio Planeta Azul, uma espécie de Oscar da sustentabilidade. O físico José Goldemberg é um do lideram a grita contra essa deformação nos debates pré-Conferência, marcada para início de junho. Rubens Ricúpero, diplomata decisivo para o sucesso da Conferência de há vinte anos, esclarece: "Se a questão ambiental não for encaminhada de maneira satisfatória, se o clima aquecer demais, não teremos nem social nem econômico (...) virá o colapso total".
    Para piorar o quadro, entidades (que se julgam) esquerdistas passaram a contestar o tema da economia verde, proposto originalmente pela ONU, argumentando que esverdear os processos produtivos interessa apenas ao capitalismo. Para libertar os povos oprimidos, defendem, será necessária uma nova e ampla “revolução”, que, obviamente, ninguém sabe definir qual, nem como. Nem onde.
    Assim nos aproximamos da Rio+20. Nesse contexto, provavelmente nada de importante nela se decidirá. Uma avaliação séria, se viesse a ser realizada, mostraria que, a despeito de boas ações aqui e ali, a civilização humana continua caminhando para o colapso. Inexiste uma força coordenadora, decisória, que enquadre a sociedade global na agenda futurista. Esta governança, que poderia ser o grande assunto do encontro, será provavelmente substituído pelas resoluções de sempre, genéricas, que empurram o problema com a barriga.
    A grande Conferência da ONU deve configurar, infelizmente, apenas uma grande festa ideológica, cujo brilho até poderá ajudar no avanço da consciência ecológica mundial, mas que não deixará marca registrada. Haverá uma mistureba semelhante ao recheio daqueles sanduiches do tipo X-Tudo: uma fatia da diplomacia internacional, uma rodela de terceiromundismo clássico, pitadas da Via Campesina, pedacinhos de ambientalismo com molho oriundo dos povos oprimidos, um caroço do empresariado inteligente amolecido pelas entidades científicas, tempero blá blá blá à vontade.
    Fica delicioso, enche a barriga, mas não guarda o gosto de nada.

    segunda-feira, 2 de abril de 2012

    O frustrante exercicio do ecologismo na Rio+20 - Rubens Ricupero


    Rio+20 e Amazônia
    Rubens Ricupero
     Folha de S. Paulo, 2/04/2012

    Quando o presidente Sarney tomou a surpreendente decisão de oferecer o Brasil como sede da Rio 92, sua motivação tinha tudo a ver com a Amazônia. O fim dos anos 1980 coincidiu com o agravamento da destruição da floresta e da campanha internacional de denúncias.
    A reunião se realizou sob o governo Collor, ocasião em que se conseguiu fazer da Rio 92 a "finest hour", o momento mais alto da diplomacia ambiental brasileira.
    Atuamos como país em desenvolvimento, sem esquecer a perspectiva dos interesses da humanidade, ameaçada por fenômeno global que afeta o planeta e a atmosfera acima das fronteiras.
    Se o governo brasileiro sob Sarney ou Collor não fugiu do problema amazônico, impõe-se agora seguir linha semelhante, enfrentando de forma proativa a ameaça que a mudança climática faz pesar sobre a região.
    O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimou que os aumentos da temperatura e as reduções na água provocarão a substituição da floresta tropical úmida por savana mais pobre que a do cerrado, de início na Amazônia oriental, onde mais intensa tem sido a deflorestação.
    No pior cenário, a elevação da temperatura pode chegar até a enormidade de 8ºC! Além da destruição da floresta, do aumento de frequência das secas e dos incêndios, uma elevação desse tipo nos arrastaria a terreno desconhecido, fora da experiência histórica da humanidade.
    Um dos efeitos seria o impacto sobre o regime de chuvas desde Mato Grosso até Buenos Aires. São elas que contribuem para fazer da área uma das mais produtivas concentrações de produção agropecuária do planeta.
    A deterioração do balanço hídrico teria o potencial de aniquilar a principal vantagem comparativa do Brasil, da Argentina e de outros sul-americanos no comércio mundial. Reduziria a capacidade de produção de alimentos no momento em que a expansão da população torna cada vez mais crítica a oferta de calorias e proteínas.
    A fim de enfrentar o perigo, falta-nos, no âmbito do Tratado Amazônico, um acordo para criar uma espécie de IPCC regional, a fim de analisar o conhecimento científico e chegar a um consenso sobre ações para combater a mudança do clima na região.
    Como na Amazônia o maior problema é a falta e inadequação do conhecimento científico, impõe-se também instituir uma rede de coleta de dados e pesquisa em todos os países da bacia.
    Precisamos nos antecipar ao que certamente ocorrerá se nada fizermos: as cobranças, as críticas, os juízos condenatórios do resto do planeta.
    Nada melhor para aproveitar a oportunidade da Rio +20 do que demonstrar que o Tratado de Cooperação Amazônica está mais vivo do que nunca na sintonia com as preocupações de toda a comunidade internacional.
    Uma decisão dos países amazônicos de estabelecer mecanismo para fomentar e sistematizar as pesquisas, o conhecimento e as propostas sobre a Amazônia será a prova mais irrefutável da determinação das nações amazônicas de proteger a Amazônia contra a destruição.

    quinta-feira, 29 de março de 2012

    Economia verde no Brasil: onde, como, quando, de verdade? - Rubens Ricupero

    Parece que não só o Brasil, mas a própria ONU, e todos os demais personagens dessa comédia de erros, andam atarantados sobre o que fazer, como fazer, como despachar essa coisa que inventaram, a Rio+20, e que vai ser realizada sem que nada, ou quase nada, além de uma modesta declaração exortativa, com muito bullshit diplomático, seja aprovado dentro de poucos meses no Rio.
    Abaixo uma crítica de alguém engajado no processo, mas decepcionado com a pobreza, a penúria, a escassez completa de resultados tangíveis.
    Paulo Roberto de Almeida

    rio+20
    ENTREVISTA / RUBENS RICUPERO
    Governo brasileiro e ONU diluíram agenda da Rio+20
    CLAUDIO ANGELO
    DE BRASÍLIA
    Folha de S.Paulo, Ciência, segunda-feira, 13 de março de 2012, pág. C11

    PARA O EX-MINISTRO, AUSÊNCIA DE METAS VEM DO RECEIO DE EXPOR AS CONTRADIÇÕES ACERCA DAS QUESTÕES AMBIENTAIS
    Leticia Moreira/Folhapress

    O ex-ministro Rubens Ricupero, em São Paulo

    O governo brasileiro é atrasado em matéria de economia verde e, por isso, tem sido cúmplice das Nações Unidas na diluição da agenda da conferência Rio+20. Quem acusa é o embaixador e ex-ministro do Meio Ambiente (1993-1994) Rubens Ricupero.
    Um dos principais negociadores brasileiros na Rio-92, Ricupero, 74, coordena um grupo de políticos, intelectuais e cientistas que deve encaminhar ao governo um documento que critica as baixas ambições do país nessa área, especialmente em comparação com China e Coreia, e pede a criação de um ministério da economia verde.
    Em entrevista à Folha, ele manifesta o temor de esvaziamento da Rio+20. "Se você faz uma agenda modesta, está dando argumentos para que o pessoal não venha."

    Folha - O governo tem dito que a Rio+20 não pode ser comparada à Eco-92. Isso é medo de criar expectativa demais?
    Rubens Ricupero - É receio de desapontamento e expressão das contradições que existem no governo em matéria de definições ambientais.
    Como o governo é pouco claro nisso, procura acentuar mais temas econômicos e sociais. Você nota isso no desejo de inserir a Bolsa Família como um dos êxitos brasileiros na luta contra a desigualdade, que estaria em um dos três pilares da conferência. Não deixa de ser verdade, mas é preciso levar em conta que, no desenvolvimento sustentável, dois pilares, o econômico e o social, são definidos em função do ambiental. A Bolsa Família é meritória, mas não tem muito a ver com ambiente.
    De outro lado, há o receio de não conseguir repetir aquele êxito extraordinário. Em 1992, a conferência começou com a assinatura de duas convenções-quadro da ONU, a de mudanças climáticas e a de biodiversidade, coisas que você não pode repetir toda hora. Não me surpreenderia saber que muitos chefes de Estado talvez não venham.
    Mas o próprio desenho modesto da agenda da conferência não torna a Rio+20 à prova de fracasso, e portanto atrativa para os chefes de Estado?
    Se você tem medo de que não dê certo e por isso começa a diminuir a expectativa e faz uma agenda modesta, está dando argumentos para que o pessoal não venha.
    É difícil que essas figuras que estão batalhando com a crise do euro venham se a conferência for só uma declaração. Talvez esse formato de reunião já condene a um anticlímax. Uma comemoração nunca é a mesma coisa, é uma evocação, não uma repetição do fato.
    Então não havia como a agenda da conferência ser mais ambiciosa do que ela é?
    Você poderia fazer uma coisa honesta. Admitir que a conferência talvez não conseguisse resolver todos os problemas, mas dizer: nós não vamos varrer para debaixo do tapete os problemas que nos ameaçam, que são a questão climática e a do ritmo acelerado de extinção da biodiversidade. Uma maneira de fazer isso foi aventada pelo ex-senador americano Tim Wirth [que era subsecretário de Estado dos EUA na Eco-92].
    A ideia era adiar a Rio +20 para o fim do ano, e que ela fosse antecedida pela Convenção do Clima e a da Biodiversidade. O pessoal ficou apavorado (risos). Com medo de que elas dessem em nada.
    Nos documentos que o Pnuma [Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente] preparou para uma reunião há duas semanas, havia um sobre como medir avanço ou retrocesso em tudo: camada de ozônio, tóxicos, aquecimento, extinção. Isso permitiria saber para onde as coisas estão indo.
    Indicadores de desenvolvimento sustentável.
    É. Se tivesse havido coragem, poderiam ter preparado uma reunião que não escamoteasse a gravidade dos problemas. O que se está procurando fazer, e não somos só nós -a conferência é da ONU- é disfarçar isso.
    Como isso se manifesta?
    Uma das formas é a diluição da agenda. O governo brasileiro diz uma coisa que é difícil de criticar em si: que o desenvolvimento sustentável tem três pilares, o ambiental, o econômico e o social. Mas a forma como isso está se traduzindo é que tudo entra na agenda, até a reforma do sistema financeiro. O problema ambiental, que na verdade é a razão principal, acaba sendo um entre 678.
    Houve sequestro da agenda da conferência pela agenda do governo brasileiro?
    Não. A ONU baixou o nível de expectativa. O Brasil só se aproveitou disso. O governo é atrasado no tema de economia verde, a maioria das pessoas nem compreende esse conceito, há contradições.
    O maior exemplo é o Código Florestal. Estamos na véspera da conferência com esse pessoal ruralista querendo votar uma coisa que é a negação da conferência. Como o governo tem essas contradições, a saída é diluir.
    A ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente) disse que ninguém tem mais credenciais verdes do que o Brasil.
    Isso é em parte verdade, por causa do etanol, das hidrelétricas. Mas tem outro lado. Estão fazendo mais termelétricas. O governo nunca conseguiu fazer um plano de transição para uma economia de baixo carbono.
    A única medida de política econômica que eu conheço que o Brasil tomou nos últimos anos com um conteúdo ambiental foi o favorecimento a produtos de linha branca [eletrodomésticos] que economizavam energia.
    O que você não tem é um projeto de país, de governo, em direção à economia verde, como a China está fazendo, com investimentos pesados em inovação. No dia em que eles tornarem a energia solar competitiva, vamos ter de comprar deles, porque eles estão investindo, nós não.
    Por que não?
    Falta um lugar onde se possa pensar essa política, porque isso não é uma política do Ministério do Meio Ambiente. Você precisa integrar o conceito de baixo carbono no planejamento econômico. Mas você tem planejamento econômico no Brasil onde?

    Raio-X - Rubens Ricupero
    NASCIMENTO
    1º de março de 1937, em São Paulo
    FORMAÇÃO
    Direto (USP, 1959). É diplomata de carreira
    ATUAÇÃO
    Foi embaixador do Brasil em Genebra, Washington e Roma e coordenou o grupo de finanças da conferência Eco-92, que deu origem ao GEF (Fundo Global para o Ambiente); foi ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal (1993-1994) e da Fazenda (1994), secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento) e subsecretário-geral da ONU (1995-2004); hoje é professor da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo.

    segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

    Meio Ambiente: o ambientalista cetico e a conferencia de Durban


    Global Warming and Adaptability

    Any carbon deal to replace Kyoto would have a negligible impact on climate in coming decades.

    By BJØRN LOMBORG

    The Wall Street Journal, December 12, 2011

    The Durban pit-stop in the endless array of climate summits has just ended, and predictably it reaffirmed the United Nations' strong belief that the most important response to global warming is to secure a strong deal to cut carbon emissions.
    What is almost universally ignored, however, is that if we want to help real people overcome real problems we need to focus first on adaptation.
    The Durban agreement is being hailed as a diplomatic victory. Yet it essentially concedes defeat, leaving any hard decisions to the far end of the decade when other politicians will have to deal with it. For nearly 20 years, the international community has tried to negotiate commitments to carbon cuts, with almost nothing to show for it.
    Even most rich countries don't want to cut fossil fuels, because the alternatives are considerably more expensive. China, India and other emerging economies certainly do not want to, because putting the brakes on growth means consigning millions to poverty.
    But even if such intractable issues could be magically resolved, any deal would have a negligible impact on climate. Even if we were to cut emissions by 50% below 1990-levels by 2050—an extremely unrealistic scenario—the difference in temperature would be less than 0.2 degrees Fahrenheit in 2050.
    This goes against everything that carbon campaigners tell us. When Hurricane Katrina or other weather disasters devastate communities, we're told by advocates such as Al Gore that the effects of climate change are already being felt and it's time to commit to drastic carbon cuts.
    lomborg
    Getty Images
    It is worth noting that often these arguments are exaggerated for effect. Since Hurricane Katrina, the global accumulated cyclone energy index has declined to almost the lowest level since we started measuring such phenomena in the early 1970s. Global warming will probably make hurricanes slightly stronger but slightly less frequent, leaving the overall impact murky.
    What we can say clearly is that if we want to help New Orleans or other at-risk areas, cutting emissions will have virtually no impact for many decades. Bolstering hurricane defenses through improved levees and wetlands could, however, make a world of difference.
    This is even more true for hurricane impacts in Third World countries. When Hurricane Andrew hit Florida, it cost 10% of the state's GDP and killed 41 people. But when the similar-sized Hurricane Mitch hit Honduras, it cost the country two-thirds of its GDP and killed more than 10,000. Tackling hurricane impacts in developing countries is not about cutting carbon but about adaptation and economic growth to improve resilience.
    This is true whether we look at hurricanes or at other problems exacerbated by global warming. It is often—correctly—pointed out that global warming will hit developing countries hardest. Malaria cases, for instance, will increase along with mosquito populations, while food production in many developing countries will decrease.
    But getting an emissions deal in any of the future Durban meetings will do nothing to help either of these problems. Even if we halted global warming by the end of the century, we could expect to avoid only about 3% of world-wide malaria cases by 2100. What the billions afflicted by malaria in the world today need is access to treatment and better prevention through bed-nets and indoor spraying. This is adaptation.
    When it comes to access to food, global warming is expected to be responsible for a 7% yield decrease in the developing world and a 3% yield increase in the developed world over this century. Yet this needs to be seen in the context of total developing world food production rising by about 270% over the same period.
    Do we better help the developing world by making drastic carbon cuts today that might—in an ideal world—avoid a 7% yield drop, or by making higher-yielding varieties of crops available that could potentially generate drastic yield increases? These are questions we have to answer if we are to adapt to the reality of global warming in this century.
    The first step in focusing on adaptation is measuring it. The Global Adaptation Institute, led by former World Bank Managing Director Juan Jose Daboub, publishes the Global Adaptation Index, which shows how vulnerable countries are to global warming and how prepared they are to tackle it. The challenge lies not merely in reducing vulnerability but also in getting the structures in place so governments and investors can tackle adaptation in the most effective manner possible. The good news is we can improve lives today while building the crucial infrastructure needed for tomorrow.
    The climate will continue changing throughout this century. And we do need to fix carbon emissions smartly through technological innovation. But if our concern is with saving lives and helping the planet's most vulnerable populations, then we need to focus first on how we can build more resilient, adaptable communities.
    Mr. Lomborg is the author of "The Skeptical Environmentalist" and "Cool It." He directs the Copenhagen Consensus Center and is an adjunct professor at Copenhagen Business School.

    terça-feira, 18 de outubro de 2011

    O Estado brasileiro contra o meio ambiente (se lhe parece...) - Jose Goldemberg

    O que esperar da Rio+20
    José Goldemberg
    O Estado de S.Paulo, 17/10/2011

    O Rio de Janeiro vai sediar, no início de junho de 2012,uma conferência internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) para marcar o 20.º aniversário da Rio-92. Duas décadas se passaram desde essa conferência sobre meio ambiente e desenvolvimento,que é considerada a mais importante realizada até hoje sobre o tema e à qual compareceram mais de cem chefes de Estado e de governo. 
    A Rio-92 ocorreu num momento em que o movimento ambientalista mundial estava em ascensão, o que favoreceu os resultados alcançados, os mais importantes dos quais foram a Convenção do Clima e a Convenção da Biodiversidade. Outros resultados foram a Declaração de Princípios sobre Florestas, a Declaração do Rio de Janeiroe aAgenda21, os quais, apesar de meramente retóricos, fizeram a vançar a agenda ambiental em muitos países.
    A Convenção do Clima foi ratificada e seguida pela adoção do Protocolo de Kyoto, em 1997, que deu "dentes à convenção", fixando reduções mandatórias de emissões de gases que provocam o aquecimento da Terra, mas apenas para os países industrializados, a serem atingidas até 2012. Os países em desenvolvimento foram isentos dessas reduções, considerando que suas emissões eram pequenas e seu desenvolvimento exigiria mais energia e mais emissões. 
    Na convenção e no protocolo os países foram divididos em duas categorias: cerca de 30 industrializados como brigações a cumprir(países do AnexoI) e os demais 150,em desenvolvimento, isentos dessas obrigações. 

Os EUA,por essa razão,não ratificaram o Protocolo de Kyoto, o que reduziu muito a sua eficácia e encontra agora sérias dificuldades. 
    Vários países que são parte do protocolo (Japão, França Rússia e Canadá) já expressaram a intenção de abandoná-lo, o que deixaria isolada a União Europeia, que representa apenas 13% das emissões. 

A própria ONU,ao convocara Rio+20, limitou seu escopo: ela terá apenas três dias de duração (de 4 a 6 de junho) e tratará de desenvolvimento com ênfase em três temas:combate à pobreza, economia verde e governança ambiental.
    ARio-92teveduração de 15 dias, o que deu tempo para uma ampla mobilização das organizações sociais e até para os negociadores dos países que vieram ao Rio de Janeiro.

Antes da Rio+20 vai se realizarem Durban, na África do Sul, em dezembro, a 17.ª Conferência das Partes da Convenção do Clima(COP17),na qual essa discussão poderia avançar. 
    Em preparação a ela houve uma reunião dos ministros do Meio Ambiente dos países do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China), realizada em Minas Gerais em 26 e 27 de agosto, que se limitou a repetir velhos chavões que esses países adotam desde 1992 e são os seguintes: 1) Os países industrializados emitem gases de efeito estufa desde o século 19 e agora querem impedir que os países em desenvolvimento se desenvolvam. Em outras palavras, têm a "responsabilidade histórica" pelas emissões e de resolver o problema. 2) As emissões per capita dos países em desenvolvimento são muito menores que as emissões per capita dos países industrializados. 
    Além disso, concordaram em reivindicar que os países industrializados reduzam suas emissões( reforçando o Protocolo de Kyoto) e paguem aos países em desenvolvimento-que são isentos da obrigação de reduzi-las - para que se adaptem às mudanças climáticas. Ora, são passados 20 anos desde 1992. Hoje a China é o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo e os países em desenvolvimento já são responsáveis por mais da metade delas. Dentro de dez anos provavelmente as emissões desse grupo atingirão 70% do total, invertendo a situação que existia duas décadas atrás. 
    A impressão que se tem, lendo o comunicado final da reunião de ministros, é que eles não se deram conta ainda de que a Conferência de Copenhague (COP 15) mudou a "arquitetura" de implementação da Convenção do Clima e abriu caminho para o abandono de compromissos multilaterais e a adoção de metas nacionais sérias. 
    Para persuadir os países industrializados a fazer mais, isto é, reforçar e estender o Protocolo de Kyoto, os países do Basic precisariam também fazer mais do que fazem hoje. E a forma de fazê-lo é iniciar uma negociação séria com os atuais signatários do protocolo para sua inclusão na lista dos países industrializados que aceitam metas quantitativas mandatórias, ou seja, adotar um processo de "graduação". 
    No Protocolo de Kyoto, China, Índia, Brasil e África do Sul são tratados exatamente como países pequenos da África e da Ásia que contribuem muito pouco para as emissões. 

Não é realista insistir na manutenção dessa ilusão. 
    Países do Basic fazem parte do chamado Grupo dos 77, extremamente heterogêneo, que abrange desde nações muito pobres até produtoras de petróleo. A ação conjunta desse grupo pode funcionar para fins políticos, como aumento da assistência econômica aos países mais carentes, ajuda humanitária, combate ao colonialismo e outros, mas não o de contribuir para um futuro sustentável do ponto de vista ambiental. 
    Em particular no caso do Brasil, não é sem tempo que o Itamaraty decida como e onde quer ficar. Por um lado,o País aspira a ser um dos "grandes" no cenário mundial e conseguir um lugar de membro permanente do Conselho Segurança da ONU, com as responsabilidades que isso implica. Por outro, alinha-se a países que não têm realmente como enfrentar o problema das mudanças climáticas e são dependentes de doações dos países ricos para tal. Esse é, no fundo, um comportamento bipolar e que na prática só favoreceu até agora a China,que,protegida pelo Protocolo de Kyoto, se tornou o maior emissor mundial. 
    Sem novas propostas criativas a Conferência do Clima de Durban no fim do ano vai fracassar, comprometendo o sucesso da Rio+20 em 2012, que poderá transformar-se apenas num palco para declarações retóricas.