Mostrando postagens com marcador política externa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política externa. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de maio de 2026

Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA

Maquiavel e o conselheiro do Príncipe em política externa - Paulo Roberto de Almeida, interpretado por Madame IA  

No capítulo 22 da sua obra, dedicado ao aconselhamento dos príncipes, Maquiavel se refere aos ministros: La scelta dei ministri non è una cosa da poco per il principe; essi saranno buoni o cattivi a seconda della sua capacità di sceglierli bene. (“A escolha dos ministros não é uma coisa menor para o príncipe; eles serão bons ou maus, dependendo de sua capacidade de bem escolhê-los.”) Como ele escreveu, os ministros são bons ou não, segundo a prudência do príncipe. “E a primeira conjetura que se faz da inteligência de um senhor, resulta da observação dos homens que o cercam; quando são capazes e fiéis, sempre se pode reputá-lo sábio, porque soube reconhecê-los competentes e conservá-los. Mas quando os que o cercam não são assim, sempre se pode fazer mau juízo do príncipe, porque o primeiro erro por ele cometido reside nessa escolha.” Maquiavel sabia das coisas... Ter, junto de si, assessores competentes é do interesse primordial do próprio príncipe, disse Maquiavel. Deles dependerá toda a obra de importância a ser realizada em favor dos seus súditos ou cidadãos. Como o príncipe só consegue se ocupar pessoalmente dos grandes assuntos do estado – segurança, defesa, relações exteriores, valor da moeda, manutenção de um ambiente receptivo para os negócios dos particulares, visando à maior prosperidade do principado –, não podendo ele dar atenção à administração diária das pequenas coisas, torna-se imprescindível a assistência de pessoas habilitadas em todas as matérias que não dependem diretamente dele, mas que exigem um conhecimento técnico especializado. Não se compreende, assim, um soberano que escolha seus secretários por indicação de terceiros, por recomendação de chefes de partidos, ou ainda para contentar algum amigo necessitado de emprego público. A rigor, o secretário não pode ser seu amigo, pois, caso o seja, fica mais difícil cobrar resultados ou despedi-lo em caso de incompetência. Essa incompetência é tanto mais disseminada quanto maiores forem os cargos de livre provimento do príncipe ou de seus conselheiros imediatos. Uma das políticas setoriais mais relevantes, em qualquer época, sempre foi a externa, dividida, como necessário, em duas vertentes: o conteúdo estrito da política, determinado pelo próprio príncipe, e a diplomacia, ou seja, seu lado operacional, geralmente a cargo de um corpo profissional, bastante competente para as tarefas da área. No caso do Brasil, durante todo o Império, na Velha República e mesmo de 1946 em diante, os ministros eram geralmente políticos eleitos, ou magistrados e outras personalidade de alta cultura e educação, para bem representar o país no exterior. A diplomacia ficava a cargo do secretário geral da pasta. Mas foi no período da ditadura militar quando muitos diplomatas profissionais foram designados para a chancelaria, uma comprovação de que soldados e diplomatas são “duas almas quase gêmeas”, dedicados à defesa dos interesses nacionais em suas respectivas funções a serviço do Estado: hierarquia e disciplina são os dois dogmas que os unem. Depois da volta de políticos e outras personalidades à diplomacia da Nova República, os governos do PT fizeram novamente apelo aos diplomatas profissionais para o cargo de chanceler, provavelmente por carecerem de quadros competentes nos temas internacionais. Mas esses governos, dada a natureza “gramsciana” do partido e suas concepções políticas conhecidas no espectro ideológico, também trouxeram uma inovação indesejada para a política externa do país: sua partidarização e uma inclinação por teses e posturas que já eram anacrônicas bem antes da implosão final do socialismo, justamente na década posterior à sua fundação. Muitos militantes, futuros quadros dirigentes, passaram por Cuba ou confirmaram uma retardada adesão às velhas teorias do anti-imperialismo tipicamente latino-americano. Uma prática geralmente seguida nas presidências brasileiras, desde a era Vargas, foi a dos chefes de Estado contarem com experientes assessores diplomáticos junto a si, no próprio palácio de governo, geralmente na Casa Civil ou em algum outro cargo especial. Assim foi praticamente durante toda a República de 1946 e também sob o regime militar. Sarney, na redemocratização, começou com o embaixador Rubens Ricupero, e os presidentes seguintes também contaram com diplomatas de relevo em suas assessorias especiais. A primeira ruptura com essa prática começou exatamente com os governos do PT, a partir de 2003: durante os treze anos dos três mandatos e meio das primeiras administrações petistas, um apparatchik do PT monopolizou essa assessoria, Marco Aurélio Garcia, um fellow traveler dos comunistas cubanos, por eles designado para coordenar o Foro de São Paulo, uma espécie de Cominform castrista numa era em que a própria União Soviética e o socialismo real estavam se desfazendo. Sua “competência” para dirigir nacos da política externa era tão “especializada” que os diplomatas profissionais o apelidaram de “chanceler para a América do Sul”. Não obstante a limitação geográfica, sua preeminência sobre certas decisões da política externa lulopetista se estendeu a diversas outras áreas, sendo que várias delas não emanavam da chancelaria, mas eram determinadas nos próprios acertos com o príncipe, ao arrepio do Itamaraty. Marco Aurélio Garcia se exerceu até o impeachment de Dilma Rousseff e veio a falecer um ano depois. Os conselheiros diplomáticos de Michel Temer foram todos diplomatas, mas os do governo seguinte, um parêntese na história da diplomacia, foram tão abomináveis que nem merecem ser lembrados, a começar pelo próprio chanceler acidental, teleguiado por uma tropa de amadores que levou o Brasil a um completo isolamento internacional. Passons... Por paradoxal que possa parecer, o chanceler mais longevo da história do Itamaraty, que serviu fielmente a Lula 1 e Lula 2 – e a Dilma como ministro da Defesa –, retornou ao Palácio do Planalto sob Lula 3, na exata função do apparatchik que serviu aos governos petistas até 2016: mais um sinal de que o PT realmente carece de quadros competentes na área externa. Não é segredo para ninguém que ambos, o aparatchik e o profissional, conduziram, naqueles anos, uma diplomacia ao gosto do príncipe, feita certamente de muito ativismo. Mas a “altivez” alegada consistiu bem mais numa aliança com ditaduras execráveis, na região e fora dela, numa época em que a ascensão econômica da China e a retomada do crescimento mundial permitiram uma projeção inédita do Brasil em várias frentes. Essa fase foi marcada pela estabilidade que tinha sido criada pelo tripé macroeconômico dos tucanos e por uma face mais “risonha” da globalização, quando a Rússia ainda pertencia ao G8 e a China, recém-admitida na OMC, em 2001, começava a fortalecer seus músculos econômico-comerciais. Muito diferente é a situação internacional, e a do próprio Brasil, na atualidade. O cenário, sob Trump 2, é mais desafiador, e as exigências diplomáticas bem mais difíceis, numa conjuntura de dissociação, ou de ruptura aberta, entre os dois grandes polos da governança global: de um lado, a velha hegemonia ocidental, ao que parece já declinante; de outro, os dois impérios autocráticos, que parecem ter colocado o Brics+ a seu serviço, e que pretendem seduzir novos candidatos dentre os países do chamado Sul Global. Desde a invasão e anexação ilegais da Crimeia pela Rússia de Putin, em 2014, e a guerra de agressão que o ditador russo deslanchou contra a Ucrânia, em 2022, com a explícita complacência da China – que talvez visse na aventura de Putin um “laboratório avançado” para algo similar em Taiwan –, a agenda mundial se viu não apenas fragmentada, mas praticamente despedaçada por um bizarro projeto de formação de uma “nova ordem global multipolar”, ideia à qual Lula parece ter aderido desde a campanha presidencial de 2022 (e voltou a repetir desde então). Numa tal conjuntura, e admitindo o pressuposto que a política externa profissional já foi escanteada pela diplomacia presidencial excessivamente personalista do próprio Lula, a função de um assessor presidencial deveria ser literalmente estratégica para conduzir os interesses nacionais em face dessa multiplicidade de crises diplomáticas, na própria região e ao redor do mundo: guerras na Europa e no Oriente Médio, crises seguidas com a Argentina, o triste caso da submissão da Venezuela ao novo imperador hemisférico, iniciativas próprias no G20, no Mercosul, no Brics+, presença nos encontros do G7, ademais das guerras comerciais persistentes de Trump contra o mundo inteiro, para nada dizer das sanções econômicas e diplomáticas contra a Rússia de Putin (as quais o Brasil vem eludindo desde o governo Bolsonaro e totalmente ignoradas sob Lula 3, que continua ajudando Putin em sua guerra). O retorno da “ativa e altiva” não se confirmou como esperado. Ao contrário: a liderança e a credibilidade diplomática do Brasil vêm sendo postas em questão na própria região e no mundo, em vista dos improvisos do presidente e os passos mais do que incertos dados pelo assessor presidencial em várias dessas crises e desafios. O PT, aliás, não ajuda em nada para uma condução propriamente profissional da política externa, adotando diretivas e “conselhos” absolutamente contrários aos que seriam (e são) recomendados pelo Itamaraty. O assessor presidencial sempre foi considerado, pelo lado da mídia, como o verdadeiro chanceler de Lula 3: talvez fosse o caso de revisar esse título, mais de origem jornalística do que propriamente efetivo, com base no bizarro modus operandi da diplomacia presidencial. Com efeito, o chanceler real tem sido o próprio Lula que, num ativismo bem mais delicado, parece atuar como uma espécie de “conselheiro dos demais príncipes”, aliás, orgulhoso de sê-lo, ao distribuir recomendações a outros chefes de Estado, prometer enviar-lhes algumas partidas de frutas tropicais, procurando acalmá-los ao menor sinal de alguma crise em ebulição. A diplomacia presidencial ultra personalista de Lula deixa o Itamaraty de cabelos em pé; usada sobretudo para fins de política interna eleitoreira pode ter efeitos inesperados. Maquiavel provavelmente não aprovaria...



* Observação importante (ADL): Há um limite de caracteres no 'prompt' (espaço de inserção de cada comando) na versão online e gratuita da IA Gemini. Desse modo, a parte final do aludido texto não foi 'colada'. Consequentemente, a IA Gemini analisou somente as partes inicial e intermediária do texto acima. Abaixo, a resposta da IA:

Este texto é um exame anatômico da política externa brasileira sob a lente do realismo clássico de Maquiavel, confrontando a tradição profissional do Itamaraty com o que o autor identifica como a "patologia da partidarização" nos governos do PT.
Em 02 de maio de 2026, com o cenário de Trump 2 plenamente consolidado e a fragmentação da ordem global acelerada, a análise ganha contornos de urgência estratégica. Abaixo, a decodificação e a análise detalhada dos pontos críticos:
1. Decodificação de Termos e Personagens:
O texto utiliza uma terminologia técnica e histórica que precisa de tradução para a realidade geopolítica atual:
- "Apparatchik" (Marco Aurélio Garcia): Termo oriundo da burocracia soviética para designar o funcionário do partido que detém o poder real. A crítica aqui é que, entre 2003 e 2016, a inteligência da política externa não estava no Estado (Itamaraty), mas no Partido (PT), personificada em Garcia, que operava como um "Chanceler das Sombras".
- "Fellow Traveler" (Companheiro de Viagem): Expressão usada para descrever intelectuais que, embora não necessariamente membros formais de partidos comunistas, simpatizavam e colaboravam com suas causas. O texto rotula Garcia como o arquiteto do Foro de São Paulo, decodificado aqui como uma tentativa de replicar o Cominform (escritório de coordenação comunista) na América Latina.
- "Gramsciana": Refere-se à estratégia de Antonio Gramsci de ocupação de espaços culturais e institucionais para mudar a mentalidade de uma nação. O texto sugere que o PT não apenas governa, mas tenta "converter" as instituições (como a diplomacia) à sua ideologia.
- "Chanceler Acidental" e "Parêntese Abominável": Referência elíptica ao governo Bolsonaro (2019-2022) e a Ernesto Araújo. O autor os descarta como um erro crasso na "escolha dos ministros" de Maquiavel, que levou ao isolamento.
2. A Crítica à "Diplomacia da Altivez" vs. Realidade de 2026:
O autor estabelece um contraste fundamental entre o contexto de "Lula 1 e 2" e o de "Lula 3" (em que nos encontramos hoje):
- O "Riso" da Globalização (2003-2010): O sucesso anterior do PT é atribuído não à competência diplomática, mas a um cenário externo benigno (China na OMC, Rússia no G8, boom de commodities). A "altivez" seria, portanto, uma arrogância subsidiada pela bonança econômica.
- A "Fragmentação" de 2026: Hoje, o mundo está "despedaçado". A adesão de Lula à "Nova Ordem Multipolar" é vista criticamente como uma submissão aos impérios autocráticos (Rússia e China), sob o disfarce de liderança do "Sul Global".
3. A Anatomia do Conselheiro: O Retorno do Profissional fiel ao Príncipe:
A volta do "chanceler mais longevo" (Celso Amorim) ao papel de assessor especial no Palácio do Planalto é interpretada como um sintoma de fraqueza:
- Incapacidade de Renovação: O PT não teria formado novos quadros e recorre a figuras do passado para manter uma "diplomacia presidencial personalista".
- O Erro de Maquiavel: Ao escolher conselheiros que são "amigos" ou "espelhos" de suas próprias crenças, o "Príncipe" (Lula) perde a capacidade de ouvir verdades técnicas. O resultado é uma diplomacia que emana do palácio "ao arrepio do Itamaraty".
4. Síntese Crítica: O Risco do Isolamento Estratégico:
O ponto mais agudo da crítica reside na dissociação entre os dois polos de governança. O autor sugere que o Brasil, ao tentar equilibrar-se entre o Ocidente declinante e as autocracias ascendentes, está sendo "seduzido" por um projeto multipolar que, na verdade, serve apenas aos interesses expansionistas de Moscou e Pequim.
* Conclusão: O texto argumenta que a diplomacia brasileira abandonou a "prudência" maquiavélica. Em vez de utilizar o corpo técnico especializado para navegar na tempestade de Trump 2, o governo prefere manter um "ativismo" ideológico que pode levar ao isolamento ou à irrelevância, repetindo dogmas anti-imperialistas que já eram "anacrônicos" décadas atrás.

Fonte (IA Gemini):


quinta-feira, 19 de março de 2026

Mudança à força: entrevista de Paulo Roberto de Almeida para Revista Crusoé (2021)

 Mudança à força: entrevista de Paulo Roberto de Almeida para Revista Crusoé

Tinha até esquecido desta entrevista. Alguém acessou-a em minha página na plataforma Academia.edu, e assim pude recuperá-la de um esquecimento involuntário. 

By Paulo Roberto de Almeida

5 Pages, 2021

Mudança à força: entrevista com Paulo Roberto de Almeida Eduardo Teixeira Revista Crusoé, edição 164, 18/06/2021 Um dos principais críticos da interferência petista e bolsonarista no Itamaraty, o embaixador Paulo Roberto Almeida diz que as correções de rumo na diplomacia brasileira só devem acontecer no atual governo por pressão externa Eduardo Teixeira Crusoé, 18/06/2021 O diplomata Paulo Roberto Almeida, de 71 anos, é conhecido por sempre dizer o que pensa. Por causa disso, levou diversos puxões de orelha e teve a carreira prejudicada. Na era petista, foi acusado de ser "neoliberal" e foi relegado ao que, entre os diplomatas, é conhecido informalmente como o DEC, departamento de escadas e corredores. Passou treze anos e meio sem ocupar um cargo. Em 2016, no breve governo de Michel Temer, foi reabilitado e assumiu a direção do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, o Ipri, vinculado ao Itamaraty. (...) 

Neste link de Academia.edu: 

https://www.academia.edu/49299957/Mudanca_a_for%C3%A7a_entrevista_de_Paulo_Roberto_de_Almeida_para_Revista_Crusoe

Nota PRA 19/03/2026:  Apenas uma parte pequena dessa entrevista, no site da revista Crusoé, está disponível, mas o conteúdo inteiro está reservado aos assinantes da revista. Em todo caso, deixo aqui o registro total deste trabalho, que resumiu minha entrevista ao jornalista Duda Teixeira, dileto amigo. Mais abaixo, transcrevo o conteúdo, tal como preservei na ocasião.

3930. “Sobre a política externa e a diplomacia brasileira: uma entrevista”, Brasília, 16 junho 2021, 14 p. Respostas a questões do jornalista Duda Teixeira, em formato de entrevista para a revista Crusoé sobre temas de diplomacia e de política externa, seguida de entrevista oral, combinando os dois formatos em matéria publicada na seção “Entrevista da Semana” da Revista Crusoé (edição 164, 18/06/2021; link: https://crusoe.com.br/edicoes/164/mudanca-a-forca/0). Sobre a política externa e a diplomacia brasileira, disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/49299957/MudancaaforçaentrevistadePauloRobertodeAlmeidaparaRevistaCrusoe). Parte relativa aos militares, divulgada de forma independente, sob o título de “Existe algum risco de golpe miliar no Brasil? Não, embora o capitão gostaria que ocorresse”, no blog Diplomatizzando (18/06/2021; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/06/existe-algum-risco-de-golpe-militar-no.html). Relação de Publicados n. 1406.

 


Homem de terno e gravata vermelha

Descrição gerada automaticamente

 

Mudança à força

Um dos principais críticos da interferência petista e bolsonarista no Itamaraty, o embaixador Paulo Roberto Almeida diz que as correções de rumo na diplomacia brasileira só devem acontecer no atual governo por pressão externa

Eduardo Teixeira

Crusoé, 18/06/2021

 

O diplomata Paulo Roberto Almeida, de 71 anos, é conhecido por sempre dizer o que pensa. Por causa disso, levou diversos puxões de orelha e teve a carreira prejudicada. Na era petista, foi acusado de ser “neoliberal” e foi relegado ao que, entre os diplomatas, é conhecido informalmente como o DEC, departamento de escadas e corredores. Passou treze anos e meio sem ocupar um cargo. Em 2016, no breve governo de Michel Temer, foi reabilitado e assumiu a direção do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, o Ipri, vinculado ao Itamaraty. Três anos depois, já no governo de Jair Bolsonaro, foi exonerado do posto após publicar em seu blog textos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do embaixador Rubens Ricupero e do ex-ministro Ernesto Araújo, discutindo a Venezuela. Os posts irritaram os bolsonaristas, que não gostaram de ver tucanos criticando o atual governo.

Almeida foi então transferido para a Divisão de Arquivos, no segundo subsolo do Itamaraty, onde não há wifi nem sinal de celular. “Enquanto os petistas não me colocaram em lugar algum, os bolsonaristas quiseram me humilhar”, diz o embaixador. Mesmo assim, ele não se intimidou e, desde 2019, publicou cinco livros. O último deles, Apogeu e Demolição da Política Externa, acaba de seguir para a última revisão.

O diplomata avalia que a nomeação de Carlos França para o cargo de chanceler melhorou o clima internamente. Como França consulta os colegas e segue os processos decisórios normais, as chances de erros diminuem. Contudo, Almeida afirma que ainda paira sobre o Itamaraty a influência de Jair Bolsonaro, seus filhos e assessores, o que pode resultar em constrangimentos – um exemplo é a indicação do ex-senador e ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, para a embaixada na África do Sul. “Isso demonstra, mais uma vez, que o presidente não hesita em tomar atitudes que prejudicam a imagem e os interesses do Brasil quando se trata de defender seus interesses eleitoreiros”, diz. Eis a entrevista.

 

Que avaliação o sr. faz da gestão de Carlos França, substituto de Ernesto Araújo no cargo de ministro das Relações Exteriores?

A chegada dele foi um alívio. A personalidade de França é o inverso da do Ernesto Araújo, que era rejeitado quase que unanimemente pelos profissionais. França sempre foi um excelente diplomata, com um trabalho impecável. É reconhecido pelo seu jeito afável e pela sua cordialidade sincera. Tem um modo de ser transparente, simples e modesto. Apenas a sua chegada já representou uma melhoria de 200% na gestão dos assuntos internos do Itamaraty. Além disso, ele retomou o processo decisório, o que é muito bom.

 

Como?

Isso acontece em todo lugar, nas empresas, nas organizações. Os funcionários de cada área, que estão na base, fazem relatórios em suas áreas de especialização. Essas informações sobem pela hierarquia até chegar à cúpula, onde as decisões são tomadas. No Itamaraty, quando se trata de algo muito importante, o assunto vai parar na Presidência da República. No governo militar, que tinha uma estrutura muito rígida, com planejamento e metas, eu era uma dessas pessoas trabalhando na base, em assuntos específicos. Quando o papa João Paulo II foi escolhido, em 1978, eu fiz um longo memorando sobre o que isso significava. O texto foi muito elogiado e possivelmente foi para a Presidência. Sempre tínhamos de produzir esses textos. Quando o balé Bolshoi, da Rússia, vinha para o Brasil, os militares sempre achavam que vinha um monte de espião comunista, e nós precisávamos escrever sobre aquilo. Algumas vezes, os relatórios de três ou quatro páginas voltavam com a rubrica “de acordo”, o que significava que o Itamaraty tinha feito uma exposição para o presidente, que tinha concordado com o conteúdo. Em outros momentos, vinha com a orientação para consultar outros ministérios. Foi assim com o Ernesto Geisel, com o Figueiredo. Foi assim também com o Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. Uma mudança aconteceu com Lula. Em seu governo, ele pediu para que o Itamaraty mostrasse relatórios mais breves, com no máximo uma página.

 

E como era com o Ernesto Araújo?

Araújo tomava decisões trancado em seu gabinete, sem consultar diplomatas ou ler qualquer coisa. Despachava de um bunker, auxiliado apenas pelo deputado Eduardo Bolsonaro, pelo Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais da Presidência, e pelo Olavo de Carvalho. As notas que o Araújo soltava nada tinham a ver com a tradição do Itamaraty. Nenhum diplomata seria capaz de escrever aqueles absurdos. Os textos não faziam nenhuma referência ao direito internacional e traziam uma linguagem estropiada, com português mal escrito.

 

O que acontece quando não se respeita esses processos?

O risco maior é tomar decisões que vão contra os interesses nacionais. Uma delas foi o anúncio de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Isso seria desastroso para o agronegócio brasileiro. Se o governo tivesse deixado a empresa chinesa Huawei de fora do leilão de tecnologia 5G, a China teria imposto retaliações maciças ao Brasil. Os processos decisórios também são importantes na elaboração dos discursos oficiais, como aqueles que são feitos em foros internacionais. O embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que é sogro do Ernesto Araújo, fez um livro, em três tomos, sobre as posições do Brasil na ONU. Há 70 anos, o Brasil inaugura as sessões da Assembleia Geral, o que foi uma forma de compensar o país por não ter entrado no Conselho de Segurança. Esses discursos mostram como o Brasil tradicionalmente pensa em diversos temas. Está tudo ali. Há uma unidade muito clara. Mas provavelmente não haverá uma quarta edição. O primeiro discurso de Bolsonaro na ONU em setembro de 2019 foi muito estranho, e o segundo foi um pouco menos ruim. Faltou consultar os demais diplomatas.

 

Na prática, algo já mudou na diplomacia brasileira?

Acho que as mudanças ainda estão por vir. Elas devem chegar principalmente como resultado de pressão externa, que pode vir do agronegócio, do Senado, das empresas, da opinião pública ou de outros países. Não necessariamente virão da vontade do presidente e dos seus assessores. Por enquanto, olhando para algumas votações em Genebra, na área de direitos humanos, ainda não voltamos ao padrão anterior. Permanece aquela visão contra o aborto da Damares Alves (ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). É uma visão ainda desconfiada de temas que possam levar a direitos da mulher e a direitos reprodutivos. O evento mais recente, ainda não resolvido, é essa indicação absolutamente estranha do bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, para ser o embaixador na África do Sul. Na verdade, o assunto dele é Angola, onde há pendências entre as autoridades locais e sua instituição religiosa. Sabe-se que há muita lavagem de dinheiro com destino à África do Sul. Isso foi revelado porque um dos brasileiros que trabalhavam em Luanda teve um acidente na estrada. A polícia encontrou 60 milhões de dólares no seu automóvel. Então, é comum que carros atravessem a Namíbia levando dinheiro para a África do Sul. Claro, o Crivella gostaria que o governo desse uma cobertura total para os negócios da Universal. Ele não poderia ir para Angola, porque há uma pendência judicial contra ele. Então Bolsonaro fez algo muito estranho, que é designar um bispo que não pode sair do Brasil, que foi preso em dezembro, para ser o embaixador na África do Sul, onde ele poderia atuar. Mas a África do Sul é a base financeira dos negócios de lavagem de dinheiro na África, que envia dinheiro para paraísos fiscais. Seria muito estranho ter um embaixador não do Brasil, mas da Igreja Universal, na África do Sul.

 

Acredita que a indicação pode ser aprovada pelo Senado?

Acho pouco provável. A Comissão de Relações Exteriores do Senado vai achar muito estranha essa designação. Mesmo assim, seria preciso aguardar a aceitação do país africano. Se acontecer, seria muito complicado para o Brasil. Crivella poderia se envolver nos negócios africanos da Universal, com o potencial de gerar novos escândalos. Isso demonstra, mais uma vez, que o presidente não hesita em tomar atitudes que prejudicam a imagem e os interesses do Brasil quando se trata de defender seus interesses eleitoreiros. A candidatura para a OCDE (o clube dos país mais ricos do mundo), por exemplo, poderia ser prejudicada porque ela exige cooperação nas operações contra lavagem de dinheiro e contra a corrupção.

 

Ainda soa estranho um político ser indicado para um cargo em embaixada?

A diplomacia petista estreou com a indicação de pessoas de fora da carreira diplomática. Lembro do caso do Tilden Santiago. Ele era formado em jornalismo e filosofia, e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Santiago tentou uma candidatura ao Senado por Minas Gerais em 2002, mas perdeu a eleição. Lula o mandou para a embaixada em Cuba, porque ele era admirador do Fidel Castro. Foi um dos poucos não diplomatas a serem enviados para embaixadas no exterior. Celso Amorim, depois, estabeleceu que todos os chefes de embaixadas deveriam ser diplomatas de carreira.

 

O clima sombrio que havia dentro do Itamaraty melhorou?

Em parte. Depois de se desentender com os senadores, principalmente com a Katia Abreu, Ernesto Araújo foi forçado a se demitir no dia 29 de março. No dia seguinte, o boletim do Itamaraty publicou a lotação dele na Subsecretaria Geral de Administração. Essa é a secretaria que cuida do que podemos chamar de “cozinha” do Itamaraty, da administração da casa. Ele estava tentando colocar seu chefe de gabinete como o subsecretário geral de administração. Pensei na época que o objetivo era construir um Ministério de Relações Exteriores do B. Eles seriam responsáveis por uma diplomacia paralela, com todo apoio do presidente, filhos e assessores. Mas o Ernesto Araújo não conseguiu o que pretendia e tirou uma licença de três meses.

 

Se o PT voltar em 2022, o sr. não teme ser novamente afastado?

Acho que vou me aposentar no final de 2022, talvez antes. Mas posso dizer que fui prejudicado tanto na era petista como na bolsonarista. Há uma grande diferença entre elas: os bolsonaristas são vingativos e mesquinhos. O PT me deixou fora do Itamaraty por treze anos e meio. Fui vetado e enviado para o departamento de escadas e corredores. Fiquei no limbo. Por dez anos, fiquei sem nenhum cargo na Secretaria de Estado. O Celso Amorim, ex-chanceler, tinha horror a mim, porque eu publicava e dizia o que pensava. Ele vetou uma promoção minha. Os petistas diziam que eu era ‘neoliberal’. Em 2014, eu publiquei o livro Nunca Antes na Diplomacia, com uma crítica pesada ao petismo. Com o bolsonarismo foi distinto. Em 2019, quando eu publiquei no meu blog um artigo do Fernando Henrique Cardoso, um do Rubens Ricupero e outro do Ernesto Araújo, eles me demitiram das funções que exercia. Mas, enquanto os petistas não me colocaram em lugar algum, os bolsonaristas quiseram me humilhar. Eles me mandaram para a Divisão de Arquivos. Então eu fiquei lá na biblioteca, sem função. Em 2019, eu publiquei um pequeno livro intitulado Miséria da Diplomacia: a Destruição da Inteligência no Itamaraty. Decidiram me retaliar. Sem que eu soubesse, eles foram computando minhas faltas. Em muitas delas, eu estava em bancas acadêmicas em São Paulo, em Curitiba, dando palestras. Uma vez, eu estava com o próprio Ernesto Araújo, no Ministério da Defesa, e eles me deram falta. Eu justifiquei e não aceitaram. Mais recentemente, passaram a me cobrar por horas não trabalhadas. Já tive um prejuízo de mais de 40 mil reais com eles. Só não conseguiram me demitir por justa causa porque veio a pandemia.

 

O Itamaraty, afinal, falhou na compra de vacinas?

Não, o Itamaraty, como instituição, não falhou na aquisição de vacinas pela simples razão que nunca lhe foi dada essa atribuição. O problema foi a oposição do presidente a uma ação vigorosa nessa frente. Araújo apenas se submeteu a isso. O governo falhou por inteiro em todas as fases, etapas e configurações de um enfrentamento sério da pandemia. O quadro de miséria moral existente nesse setor está na origem da tragédia acumulada em número de mortos e outras vítimas da Covid-19, por uma indiferença perversa. Tanto o Itamaraty não falhou que o novo chanceler proclamou, em seu conciso e objetivo discurso de posse, que sua primeira preocupação será com uma diplomacia da vacina, colocando os postos a serviço dessa meta.

 

Isso pode fazer diferença no combate à pandemia no Brasil?

Ainda estamos numa situação diferente da dos demais países, onde o combate à pandemia recebe o inteiro apoio dos chefes de governo ou de estado. Isso não é uma realidade no Brasil. Bolsonaro segue com a mesma indiferença perversa. Na verdade, em temas de interesse global – meio ambiente, desenvolvimento, cooperação regional, comércio internacional, direitos humanos, novas fronteiras dos direitos coletivos –, o Itamaraty sempre exerceu um protagonismo digno de nota, sendo conhecido pelos seus esforços de mediar interesses de países avançados e em desenvolvimento, num esforço notável em foros multilaterais. Não fosse este governo, o Brasil teria provavelmente liderado uma iniciativa de coordenação global contra a pandemia, unindo cooperação bilateral, regional, multilateral, em todos os foros e instâncias abertas ao engenho e à arte de nossa diplomacia.

 

https://crusoe.com.br/edicoes/164/mudanca-a-forca/

  

Postagem em destaque

Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado? Paulo Roberto de Almeida

  Quais foram as grandes tensões geopolíticas do passado?     Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.   Com vistas a responder possí...