Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Paulo Roberto de Almeida. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Paulo Roberto de Almeida. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de agosto de 2026

Por que o Itamaraty não faz uma nota sequer sobre os crimes de guerra russos na Ucrânia? - Paulo Roberto de Almeida sobre um relato de prisioneiro

 Um horror perpetrado por um Estado aliado da atual diplomacia lulopetista não é um horror: apenas casos a serem desprezados e ignorados. Creio que nunca se desceu tão baixo na escala da dignidade do Brasil como nação respeitadora do Direito Internacional 

Paulo Roberto de Almeida 


Creio que meus colegas diplomatas do Itamaraty não dão muita atenção a depoimentos como este. O Palácio do Planalto os instrui a não dar nenhuma atenção a casos de flagrantes violações do Direito Internacional e do direito humanitário, e assim continuamos a objetivamente apoiar o Estado terrorista russo em sua guerra de agressão ao povo ucraniano. Creio, pessoalmente, que este é um dos momentos de mais baixa dignidade do serviço diplomático brasileiro em toda a sua história, impedido, por decisão politica no mais slto grau — ou seja, da dupla Lula-Amorim —, obstando a que os diplomatas profissionais possam viver e trabalhar de pleno acordo com o que eles aprenderam nos bancos escolares, antes e durante o IRBr, sobre valores e princípios de nossa Constituição, da Carta da ONU e das mais elementares regras do Direito Intermacional: permanecemos totalmente silentes em face dos mais pavorosos crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados por uma ditadura das mais execráveis.

Acredito que muitos diplomatas devam se sentir muito desconfortáveis com o apoio dado pelo governo atual ao Estado terrorista russo. PRA

============

“The russians handcuff your wrists to a bar and suspend you from it like meat on a spit. Under the weight of your body, the handcuffs dig into your joints. The guards call this the “moped.” Fifteen minutes of that, and you’ll confess to killing Kennedy.

This is how Yan “Avgust” Danilko, a 27-year-old Azov fighter who survived the Olenivka attack, describes russian captivity.

Avgust, in an interview: 

The guards call the initial beating “reception.” Zero out of ten. They made me stand in a basin on the floor and simply went at me with their fists and boots.

One of my cellmates suffered a stroke. The guards didn’t believe him. During every examination, they would hold a lighter to his skin or stick pins into his leg to see whether he reacted.

All day long, through the wall, you could hear guards beating other prisoners, trying to force confessions out of them. So instead, I studied German with a cellmate who had taught languages before he was captured. Nothing is impossible. It’s all in your head.

If I said now that Taganrog broke me, that I wasted those years, that I lost something there – it would mean they won. So I don’t consider a single one of those days wasted.

On Olenivka:

The explosion was so powerful that not everyone died immediately. I hope those who were at the epicenter didn’t suffer. Many of them were simply asleep – and that’s how they were found.

When the guards unloaded our vehicle at the hospital, two of the men who had been with me were already dead. If we had arrived an hour earlier, I think they would have survived.

That day, the guards were taking prisoners out according to some kind of pattern. Every fourth or fifth man – only Azov fighters – and lining them up outside shortly before the explosion. That was when something began to feel strange.

After the explosion, I tore off my own bandage, twisted it into a tourniquet, and applied it to my leg myself. I lay there with that tourniquet on for nine hours before I reached the hospital. The doctor said: either we save you, or we save the leg.

On the second day after surgery, while I was still full of morphine, russian journalists entered my intensive care room. Cameras in front of me, armed men in balaclavas behind them. Whether they continued treating me depended on what I said next.

One nurse spent her own salary buying me antibiotics and eye drops at a pharmacy. She told the guards that a doctor had prescribed them so they wouldn’t ask unnecessary questions.

They didn’t torture me in the hospital. There was nothing left for them to take from me. But other wounded prisoners were subjected to electric shocks right in their hospital beds – by a separate russian security unit that came specifically to interrogate patients.

Later, I was already sitting on my bag, ready for a prisoner exchange. At the last moment, a russian major came in and told me that, for me personally, the exchange had been canceled. There was no medical transport available for a man with one leg.

Source: translated from the text of Tymofiy Mylovanov

Brincando de Arnold Toynbee - Paulo Roberto de Almeida

Brincando de Arnold Toynbee

Paulo Roberto de Almeida

Não tenho grandes teorias históricas a oferecer, mas tenho a impressão de que grandes impérios — que continuam a perecer, segundo um famoso historiador francês, Jean-Baptiste Duroselle — acabam sendo levados ao declínio e a graves crises transformadoras (como a Grande Guerra de 1914-1918, seminal para o resto do século XX) pelo fato de serem dominados, numa certa etapa de seus itinerários respectivos, por líderes muito velhos, mas ainda ambiciosos. 

Parece ser exatamente o caso de dois autocratas megalomaníacos, como Trump e Putin, mas não parece ser ainda o caso de Xi Jinping, imperial despótico como possa ser, mas auxiliado por uma tecnocracia weberiana-smithiana de muito boa qualidade.

Pode ser que estejamos no limiar de um desses processos seminais de mudança nas relações internacionais, que um outro grande historiador francês, Ernest Labrousse, chamou de “conjuntura histórica de transformação”, como foram as revoluções atlânticas do século XVIII.

Quem viver verá! Eu só espero as derrotas de Trump e de Putin, para expressar um pouco de otimismo a respeito de um começo de século que ameaça inaugurar uma nova conjuntura labrousseana. 

PRA (30/08/2026)


A História se repete, como farsa trágica? - Paulo Roberto de Almeida

A História se repete, como farsa trágica?

Paulo Roberto de Almeida


Com o recente anúncio de que os EUA trumpistas assumiram o controle operacional sobre boa parte das reservas venezuelanas de petróleo — a pretexto de “eficiência” na exploração —, o país caribenho retorna aos primeiros anos do século XX, quando empresas petroliferas americanas viabilizaram a entrada em vigor de uma pujante economia do petróleo na Venezuela, até a nacionalização dos recursos na era da OPEP, da qual a Venezuela foi uma das fundadoras nos anos 1960.

Não se trata mais da repetição da Doutrina Monroe, como pretende o trumpismo ignorante e imbecil, mas de um retorno ao “Corolário Roosevelt” (1904), quando o “nascente” imperialismo americano se juntava aos colonialistas trapaceiros europeus, mais antigos. O imperialismo ocidental se consolidava então, inclusive na China, cenário que só começou a mudar com a emergência de uma URSS mais poderosa no segundo pós-guerra e da China maoísta pouco depois.

Atualmente, o cenário imperial mudou relativamente: um novo poder econômico imperial se afirma no mundo, o chinês, não necessariamente hegemônico, ao lado do ainda preeminente império americano, relativamente declinante (no plano industrial, mas vigoroso nos serviços), sendo que o imperialismo russo afunda no fracasso do “renascimento putinesco”, que conseguiu transformar a gigantesca Rússia num Estado vassalo da China, ao lado de um “meio-império” europeu dominado por uma UE em expansão, ainda importante economicamente, mas limitada no plano militar, e uma Índia crescentemente relevante nos planos econômicos e geopolíticos. 

O Brasil continua limitado na esfera das potências médias (onde estão também o Canadá, os nórdicos, a Indonésia, o México e poucos outros), com alguma importância econômica, mas sem muita presença tecnológica ou militar no cenário geopolítico. 

Depois da Venezuela, o trumpismo imperial gostaria de conquistar o Brasil, o que conseguiria facilmente se por acaso o bolsonarismo traidor sair vitorioso nas urnas de outubro, uma perspectiva verdadeiramente trágica na história farsesca das eleições brasileiras.

O mundo dá muitas voltas, não é? Já está dando, numa eventual derrota russa em sua guerra de agressão contra a Ucrânia, que está se revelando uma possível regressão do império russo em séculos.

De todos os equívocos que Marx cometeu, no plano de suas invenções econômicas e filosófico-políticas, uma única certeza ele pode ter afirmado: o caráter nefasto do imperialismo russo no domínio civilizatório, especialmente para a Europa central e oriental e para a China (marginalmente o Japão também), contra os quais abocanhou terras e impôs sua dominação autocrática. Esse avanço pode estar desaparecendo, ao contrário das predições de Emmanuel Todd sobre a “derrota” do Ocidente. De certa forma, a China é um “novo Ocidente”, mas por enquanto limitado ao domínio econômico, ao ser a fonte principal das inovações da quinta revolução industrial.

Marx teria gostado de analisar, no século XXI, o fortalecimento do modo capitalista de produção que ele analisou num tom muito pessimista na Europa do século XIX. Raymond Aron também faz falta na nova geopolítica em construção.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasilia, 30/08/2026


Lamento Brasil, mas a mediocridade oligárquica venceu - Renato Corrêa e Paulo Roberto de Almeida

 Meio século de mediocridade oligárquica?


Um protesto indignado de um eleitor, Renato Corrêa, descontente com a perspectiva de passar a vida inteira sob o dominio de dois clãs opostos, duas tribos inimigas, ambas medíocres, mas que conseguiram monopolizar a política brasileira nos últimos tempos, e que hipoteticamente podem ainda fazê-lo por décadas: o lulopetismo de um lado, o bolsonarismo de outro. A questão então se desloca da “burrice” do eleitor, que atua na “demanda” por dirigentes desses clubes políticos, para a “oferta” de políticos profissionais medíocres que dominam o mercado eleitoral brasileiro, isso sem contar a praga do evangelismo político-negocista, que compromete terrivelmente as perspectivas de se ter um país educado no Brasil, com essa tendência ao antidarwinismo educacional, o antiabortismo carola, e o negacionismo vacinal desses estúpidos. Acho que não conseguiremos escapar do desastre anunciado. PRA

Primeiro a transcrição:

“#CartaAberta

Petistas e bolsonaristas, vocês já tomaram tempo demais

RENATO CORRÊA

AGO 29, 2026

Se Lula vencer as eleições deste ano, teremos mais quatro longos anos de petismo. Se Flávio vencer, provavelmente só sairia em 2034, quando usaria toda a máquina — e a estupidez dos bolsonaristas a seu favor — para eleger um dos irmãos, Carluxo, que ficaria até 2042. Daqui a duas décadas, o mesmo seria feito para a eleição de outro irmão, Bananinha, que se estenderia até 2050. Ainda teríamos mais um do clã sobrando, Jair Renan, que poderia ser eleito e reeleito pelos mentecaptos que votam 22 até 2058.

No total, seriam 32 anos — ou 36, se contarmos o primeiro governo — de bolsonarismo. E isso sem levar em conta a Michelle no cálculo. O PT governou a nação por praticamente 20 anos. Eu estou com 45. Isso significa que, durante quase metade da minha vida — desde que me tornei adulto —, o Brasil esteve nas mãos do petismo. Daqui em diante— até eu ficar idoso — a política do país pode ser dominada pelo bolsonarismo. 

Metade da minha vida foi pautada por sindicalistas, estudantes de filosofia, ONGs e artistas da Lei Rouanet. Agora o resto dela, até meus 77 anos, está prestes a ser pautado pelas tias do Zap, pelos fiéis dos pastores de palanque e pelas viúvas da ditadura militar.

Caros votantes de Flávio e de Lula, quero dizer uma única coisa: vocês estão em dívida comigo. Vocês me devem um país minimamente decente, no qual nunca tive a oportunidade de viver. Seu fanatismo transformou a minha vida numa sentença perpétua.” 

==========

Agora retomo, com desculpas pela insistência na negatividade:

PRA: se essa sequência de mediocridades se confirmar, o Brasil continuará sendo um país culturalmente atrasado, economicamente pouco dinâmico, educacionalmente dominado por tribos anticientificas, politicamente entregue a oligarquias corruptas, socialmente obrigado a conviver por longos anos ainda com pobres e miseráveis pelas ruas, nas quais também prevalecem os bandidos comuns, chamados de “pés-de-chinelo”, mas igualmente os influencers imbecis e aproveitadores da ingenuidade geral da população, ao lado das organizações criminosas mais sofisticadas e violentas, agora dotadas de ferramentas financeiras mais efetivas. Estou sendo muito pessimista?

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 30/08/2026

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Dez anos atrás, dez grandes derrotados de nossa história: vamos continuar enterrando boas ideias e escolher as piores? - Paulo Roberto de Almeida

Dez anos atrás, dez grandes derrotados de nossa história: vamos continuar enterrando boas ideias e escolher as piores?

Paulo Roberto de Almeida

Pouco mais de dez anos atrás, e pouco antes do último impeachment – talvez não seja o último, último, pois quem detém o poder real atualmente é o Congresso, não o Executivo, e o Congresso não é exatamente um lugar que prima pela excelência – eu escrevia um artigo relativamente pessimista, com o título que refletiu exatamente a história passada, que como todos sabem costuma se repetir mais como farsa do que como tragédia, sendo na verdade uma tragédia que sempre estejamos repetindo o pior do que já fizemos, e não fizemos, num passado ainda muito presente. Eu tenho uma coleção de novos derrotados, entre eles o agravamento de velhos crimes, o surgimento de novos, e a indiferença que parece afetar setores cada vez mais amplos da população. Nunca vi uma eleição presidencial tão desinteressante como a deste ano de 2026. Então vejamos o que eu escrevi dez anos atrás, em 2016. Eu ainda me definia como "sociólogo de formação, diplomata por ocupação"; já não tenho mais essa ocupação profissional, mas mantenho a permanente, a de professor. Meu site pessoal também desapareceu, por culpa de um provedor. Agora é pralmeida.net, mas ainda tenho de reformá-lo e abastecê-lo. Leiam, mas não fiquem pessimistas. Eu nunca sou: tenho livros, netos e uma esposa maravilhosa, Carmen Lícia...

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 27 de agosto de 2026

 

Dez grandes derrotados da nossa história

(ou, como o Brasil poderia ter dado certo, mas não deu)

 

Paulo Roberto de Almeida, sociólogo de formação, diplomata por ocupação

(www.pralmeida.org; http://diplomatizzando.blogspot.com).

 

 

O Brasil, já disse alguém, não é para principiantes. Vamos admitir que a frase expresse a realidade, ainda que ela seja uma mera banalidade conceitual. A verdade é que nenhuma sociedade urbanizada, industrializada, conectada, ou seja, complexa, como são quase todas as nações contemporâneas, é de fácil manejo para amadores da vida política ou para iniciantes no campo da gestão econômica. Não deveria haver nada de surpreendente, portanto, em que o Brasil, de fato, não seja para principiantes, como dito nesse slogan tão folcloricamente simpático quanto sociologicamente inócuo.

Mas atenção: a frase é, sim, relevante pelo lado do seu exato contrário. O mais surpreendente, no caso do Brasil, está em que o país não é de rápida explicação ou de fácil interpretação nem mesmo para pensadores distinguidos e intelectuais de primeira linha (eles o são, de verdade?). Ele tampouco parece ser de simples manejo mesmo para estadistas da velha guarda (nós os temos?), para políticos experientes (parece que ainda existem), sem esquecer os empresários inovadores (quantos são, alguém sabe dizer?) ou para economistas sensatos (seria uma espécie rara?). O Brasil já destruiu mais de uma reputação política, como continua desafiando as melhores vocações de “explicadores sociais” (inclusive brasilianistas), com o seu jeito sui-generis de ser. Existe, por exemplo, alguma explicação sensata para o fato de que “o país do futuro”, o “gigante inzoneiro”, a terra dos recursos infinitos, seja ainda uma sociedade desigual, ricamente dotada pela natureza, mas com muitos pobres, milhões deles, uma nação até materialmente avançada, mas (aparentemente, pelo menos) mentalmente atrasada? O que é que nos retém na rota do desenvolvimento social integrado? Quais são os formidáveis obstáculos, quantas e quais são as barreiras intransponíveis?

Não foram poucos os espíritos corajosos que tentaram vencer essas dificuldades e nos colocar num itinerário de progresso sustentado. A maior parte acabou derrotada por um conjunto variado de circunstâncias cuja identificação exata requereria um batalhão de sociólogos, dos melhores. Vamos repassar, ainda que brevemente, o itinerário de dez grandes personalidades que, em momentos decisivos da história do Brasil, viram seus projetos e propostas de reformas ou de melhorias para o país totalmente frustrados em função das condições ambientes, por força da oposição de outros personagens ou de grupos poderosos, ou pelo fato de que eles mesmos não souberam, ou não puderam, obter apoios suficientes para que suas propostas de políticas públicas fossem, em primeiro lugar, aceitas por outros dirigentes, ou pela opinião pública, depois seguidas pela coalizão dominante a cada momento e, finalmente, implementadas na forma por eles concebida inicialmente. A maior parte desses homens não foi sequer consolada, em vida, por aquele famoso dístico de bandeira estadual: “ainda que tardia”.

 

 

1) Hipólito José da Costa: nascido na Colônia do Sacramento, criado em Rio Grande, espírito iluminista, liberal econômico, assessor, durante algum tempo, do grande estadista português da passagem do século 19, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, o conde de Linhares, para quem investigou as inovações econômicas e melhoramentos agrícolas da jovem República americana nos anos finais do século 18, e por quem foi enviado à Inglaterra para adquirir equipamentos gráficos, para modernizar a imprensa do Reino, e onde se tornou maçom, foi preso e torturado pela Inquisição ao retornar a Portugal, tendo conseguido fugir após alguns anos de cárcere. Estabelecido na Inglaterra desde então, Hipólito deu início ao primeiro jornal independente brasileiro, o Correio Braziliense, que editou sozinho em Londres desde a transmigração da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, até que fosse confirmada a independência e a separação do, até então, Reino Unido, no final de 1822. Nomeado cônsul do Brasil em Londres, por José Bonifácio, Hipólito ainda teve tempo de enviar-lhe, em fevereiro de 1823, um ofício propondo reformas nos correios, nos transportes e na colonização, mas não para tomar posse do cargo para o qual estava preparado como nenhum outro brasileiro.

Seu Correio Braziliense forneceu, durante exatos quatorze anos e sete meses ininterruptos, material de informação, de reflexão e de críticas a todos os dirigentes portugueses (que o liam à sorrelfa) e aos brasileiros ilustrados, constituindo o maior repositório de dados e análises fiáveis sobre o estado do reino de Portugal, sobre a situação da Europa napoleônica e pós-napoleônica, sobre as Américas em geral e sobre o Brasil em particular. Seu “armazém literário” constitui o mais completo manual de políticas públicas e de economia política – no sentido de estadismo para a prosperidade dos povos, como a definia Adam Smith – cujo grande objetivo era o de ajudar o Brasil e os “brazilienses” a enriquecer rapidamente, como ocorria então na Inglaterra. Muitos ministros do reino, em Portugal e no Brasil, concordavam com ele, mas às escondidas, pois não o podiam revelar, ainda que um ou outro mais ousado tentasse convencer o príncipe regente, depois D. João VI, do acertado daqueles críticas e propostas de políticas, inclusive no que se referia aos tratados desiguais com a própria Inglaterra. Infelizmente seus conselhos foram raramente seguidos e ele veio a morrer antes de poder servir de forma mais efetiva ao país que era o seu, mas que tinha abandonado ainda muito jovem para nunca mais voltar.

 

2) José Bonifácio de Andrada e Silva: as mesmas ideias defendidas por Hipólito, de monarquia constitucional e de fim da escravidão, foram esposadas por José Bonifácio, grande intelectual nascido em Santos, SP, homem de ciência e de grandes luzes, membro de diversas academias europeias, combatente contra as tropas napoleônicas em Portugal, antes de retornar ao Brasil para servir ao Reino Unido e se converter no verdadeiro artífice da independência do Brasil. Proclamada esta, ele pretendia, já na Assembleia Constituinte, libertar o Brasil da mácula do tráfico escravo e, assim que possível, da nódoa da escravidão, conseguindo braços para a lavoura e para a formação de uma sólida economia agrícola entre camponeses imigrados europeus. Como Hipólito, e como tantos outros abolicionistas, José Bonifácio foi derrotado pela coalizão de mercadores de escravos e de grandes proprietários de terras, abandonado, aliás, pelo próprio Imperador, que se aproveitou do recrudescer das turbulências políticas na Assembleia Constituinte e das divisões políticas entre os maçons para decretar o encerramento do breve exercício de ordenamento constitucional, “cassar” os seus membros e exilar ou prender toda a família dos Andradas. Bonifácio foi mais uma vez para a Europa, e só retornou ao Brasil para ser preceptor, por breve tempo, do menino Pedro de Alcântara, mas já sem condições de influenciar a política no período regencial. Foi um dos grandes derrotados de nossa lista de estadistas-idealistas.

 

3) Irineu Evangelista de Souza: o gaúcho de nascimento e self-made man só adquiriu o título nobiliárquico de Barão de Mauá (depois Visconde, em 1875) na data da inauguração, em 1854, do primeiro trecho da ferrovia Rio-Petrópolis, entre o porto de Mauá, na baia da Guanabara, e o pé da serra de Petrópolis. Antes disso ele já tinha amealhado fortuna com seus empreendimentos industriais (sobretudo estaleiros) e comerciais (em especial seus bancos, no Brasil e em diversas capitais estrangeiras). Homem possuidor do mesmo espírito empreendedor e liberal de seus tutores ingleses (primeiro numa casa de importação no Rio, depois mediante viagem à Inglaterra, em 1840), ele enfrentou inúmeras dificuldades num país escravocrata e caracterizado pela mão pesada do Estado em todo e qualquer setor da economia (o governo tinha de autorizar qualquer novo empreendimento que ele desejasse fazer), e teve vários atritos com ministros de sucessivos gabinetes do Segundo Império; essas desavenças o levaram à ruina comercial e financeira, e obstaram a que suas ideias progressistas pudessem ser reconhecidas como válidas e implementadas num país em que o status de senhor de escravos ainda era sinal de distinção.

O historiador Nathaniel Leff, heterodoxo entre os intérpretes de nossa história econômica, afirma que o atraso do Brasil não se situa tanto na colônia, como afirmam vários historiadores consagrados, mesmo os da vertente marxista, mas precisamente no período do Segundo Império, quando o Brasil perde a oportunidade de implementar as reformas preconizadas por Mauá, seja no terreno da força-de-trabalho, seja na política monetária, ou no ambiente de negócios e no da infraestrutura. Não há nenhuma dúvida que, ao final do Império, o Brasil teria sido um país muito diferente se as ideias (não só econômicas) de Mauá tivessem sido implementadas como políticas públicas. Ele foi, provavelmente, o primeiro empresário derrotado de nossa história.

 

4) Joaquim Nabuco: o “aristocrata” da zona da mata de Pernambuco é mais um derrotado de nossa lista, não exatamente enquanto publicista – terreno no qual ele foi brilhante – ou como diplomata do Império e da República, mas enquanto abolicionista, a despeito de suas raízes nos engenhos de açúcar do Nordeste. Intelectual blasé, ele bateu-se com denodo pela causa da emancipação, e seu livro sobre o abolicionismo (publicado em Londres em 1883) foi decisivo na intensificação da campanha, nessa mesma década. Mas ele já tinha sido derrotado antes, pois que não conseguiu reeleger-se para sua primeira cadeira de deputado, conquistada em 1878, assim como viu frustrada sua campanha pela laicização do Estado Imperial, que tinha a religião católica como oficial. Mesmo quando da abolição, por decreto imperial, suas propostas para que a emancipação dos escravos fosse acompanhada de um grande programa de reforma agrária e da universalização da educação pública, compulsória e gratuita, com vistas à elevação do padrão educacional de milhões de brasileiros pobres, e não apenas dos negros libertos, jamais foram seriamente consideradas pela República oligárquica.

Ele afastou-se da política, como monarquista que era, e dedicou-se aos livros e à história. Só retornou à vida pública para novamente dedicar-se à diplomacia, não para defender o regime, mas para servir ao país. O retorno lhe deu ainda mais desgosto, no caso da arbitragem italiana sobre a questão da Guiana, fronteira com a colônia britânica: a Grã-Bretanha abocanhou quase 50% a mais do território disputado do que foi concedido ao Brasil, nascendo aí seu acentuado monroismo, ou americanismo, ao considerar que das potências europeias o Brasil não deveria esperar nada. Do nosso ponto de vista, entretanto, o Nabuco “derrotado” que interessa registrar é o das nunca implementadas propostas de reforma agrária e de educação pública em favor de negros libertos e dos brancos pobres, na verdade para todos.

O Brasil republicano, desde o início, e provavelmente até hoje, continua a pagar muito caro pela ausência de medidas desse tipo, para elevar a capacidade produtiva do seu povo. A reforma agrária, na verdade, na prática se tornou inócua pela modernização capitalista da economia rural, mas no campo da educação continuamos a exibir atrasos, se não quantitativamente (a taxa de escolarização, no início do primário, alcançou, por fim, a dos países avançados, mas 150 anos depois), certamente em qualidade do ensino.

 

5) Rui Barbosa: conselheiro do Império, primeiro ministro da Fazenda do novo regime, no governo provisório de Deodoro, quando empreendeu algumas boas reformas e outras menos boas, o homem mais inteligente do Brasil (segundo os baianos), foi, antes de tudo, um pensador, um doutrinário e um publicista (e um dos mais prolíficos do Brasil, que nunca publicou um livro sequer, mas que tem obras completas em dezenas de volumes). Ele é usualmente definido como um polímata, pois suas atividades e escritos abrangiam os mais diversos domínios do conhecimento humano, com especial predileção pelo direito. Logrou sucesso em muitos dos empreendimentos que lhe foram oferecidos ou para os quais ele se voluntariou, em virtude de seus vastos conhecimentos jurídicos; voltou da Segunda Conferência Internacional da Paz da Haia, em 1907, como um herói, o “Águia de Haia”, como exageradamente seus conterrâneos chamaram-no.

Mas também acumulou vários insucessos, entre eles a mal concebida reforma bancária do início da República, que acabou resultando numa violenta especulação, o chamado Encilhamento. Opôs-se a Rio Branco na compra do Acre à Bolívia, e saiu ruidosamente da delegação negociadora. Sua maior derrota, porém, não para ele, mas para o Brasil, foi ter perdido o pleito presidencial de 1910 para o Marechal Hermes da Fonseca, militarista como seria de se esperar, mas sobretudo prepotente, mandando submeter a golpes de canhão os governadores recalcitrantes dos estados que não o obedeciam. Por isso mesmo, o chanceler Rio Branco, angustiado, pensou em se demitir do seu cargo, sucessivamente renovado em quatro governos: coitado, morreu logo após.

A derrota para Hermes da Fonseca foi uma derrota para o Brasil, no sentido em que representou a consolidação do arbítrio como norma de governo, um golpe de Estado permanente contra vários princípios constitucionais, a ofensa aos adversários políticos (considerados inimigos) como coisa corriqueira, o despotismo do Executivo sobre os demais poderes. Rui se exasperava em face do desprezo que o governo exibia contra os mais comezinhos valores da democracia, entre eles as liberdades individuais e o pleno vigor do Estado de direito. Seus artigos, conferências e palestras dos últimos anos revelam justamente sua revolta contra o desrespeito demonstrado pela maior parte dos políticos – e dos militares – às normas mais elementares do sistema democrático. Como seu amigo Nabuco, ele faria um excelente ministro – talvez até primeiro – de um sistema parlamentar ao estilo inglês (se possível de uma monarquia constitucional, pois a despeito do seu republicanismo, Rui, a exemplo de Oliveira Lima, se decepcionou rapidamente com aquela república), ou de um governo congressual ao estilo americano, como preconizado pelo professor de Princeton Woodrow Wilson, mais tarde presidente. Como os anteriores, Rui também foi um derrotado, não apenas nos seus princípios e convicções, mas também em suas tentativas práticas de democratizar plenamente e de enquadrar o Brasil num Estado de direito efetivo.

 

6) Monteiro Lobato: o filho de fazendeiros do Vale do Paraíba se espantou desde cedo com a inacreditável miséria dos caboclos do interior, que ele imortalizou na figura emblemática do Jeca Tatu. Ele constatou as condições sanitárias abomináveis dos matutos do interior e, sobretudo, a ignorância abismal desses homens que sequer tinham consciência de sua condição ou da existência de um país chamado Brasil. Seus muitos artigos de imprensa, sua atividade de editor, seus diálogos imaginários sobre nossos problemas com um inglês da Tijuca – Mister Slang e o Brasil –, todos eles batem na mesma tecla: o Brasil é um país profundamente atrasado, tão arcaico a ponto de ser derrotado pelas saúvas e por endemias eternas, e só teria salvação se empreendesse um vigoroso esforço de modernização, de preferência modelado no exemplo americano.

O fordismo lhe parecia a solução ideal para nossa débil industrialização, e o petróleo seria o combustível indispensável à redenção da nação. Lobato está na origem do “petróleo é nosso”, mas ele não era um chauvinista, um patriota rústico que queria afastar o capital estrangeiro do esforço de capacitação industrial e tecnológica. Ele se batia contra os “trustes estrangeiros” não porque fossem estrangeiros, mas porque via neles uma conspiração contra a prospecção de poços no Brasil, ao preferirem as jazidas mais fáceis do Oriente Médio. Achava que o governo não fazia esforços suficientes nessa direção, e denunciou o “entreguismo” da ditadura Vargas: por isso foi processado e preso. Mas a sua concepção de progresso era indiscutivelmente americana: ele foi mais um derrotado pelo nacionalismo rastaquera e pelo estatismo arraigado nos corações e mentes das elites políticas e industriais. Só o fato de proclamar o valor dos livros na construção da nação já lhe valeria a entrada num panteão da pátria. Pena...

 

7) Oswaldo Aranha: paradoxalmente, só foi derrotado quando finalmente chegou ao momento de maior glória, e pelo próprio homem que ajudou a colocar no poder. A “estrela da revolução liberal” de 1930, foi de fato o homem que “liquidou” a República Velha, ante as hesitações e dúvidas de Getúlio Vargas quanto às chances de vitória do movimento contra Washington Luís e seu presidente eleito do bolso do colete. Não fossem os esforços decididos de Aranha, no sentido de unir gaúchos e mineiros, e de aliciar forças decisivas no Exército e nas tropas estaduais militarizadas, a revolução de 1930 não seria o marco da modernização do Brasil e da construção de um Estado moderno, não mais a “República carcomida” das oligarquias do café-com-leite. Sucessivamente ministro da Justiça, da Fazenda (quando ele encaminha os problemas da dívida externa e dos estoques de café) e embaixador em Washington, Aranha estava no auge de sua glória quando decide abandonar, por desgosto, seu posto diplomático, na sequência do Estado Novo, em novembro de 1937, que repudiou imediatamente.

Foi apenas sua amizade com Vargas, e a necessidade que este tinha de manter as melhores relações possíveis com os americanos – a despeito de suas notórias simpatias pelos regimes fascistas da Europa – que explicam seu retorno à política, como chanceler do Estado Novo, de março de 1938 a agosto de 1944. Sua ação à frente do Itamaraty foi decisiva para conter a inclinação de muitos dos expoentes do regime por uma aliança com as potências nazifascistas, aparentemente invencíveis no início dos anos 1940, e para ancorar vigorosamente o Brasil no grupo das Nações Aliadas.

Aranha sempre foi um candidato natural das forças democráticas à presidência da República: hipoteticamente em 1934, numa eventual escolha alternativa pela Constituinte (e provavelmente por isso, Vargas decidiu manda-lo para Washington); talvez em 1938, se as eleições previstas não tivessem sido cortadas pelo golpe de Estado; possivelmente ao final do Estado Novo, quando Vargas ainda manobrava para continuar, depois indicando um sucessor de sua escolha; em 1950, quando foi sondado, mas preferiu deixar o terreno livre para o ex-ditador; ou ainda, e finalmente, à morte deste, nas eleições de 1955, disputadas por muitos candidatos bem menos qualificados do que ele. Foi uma pena que sua falta de ambição, e sua fidelidade irrestrita ao “irmão maior” que era Vargas, obstaram que ele galgasse o posto mais alto da República.

Para se ter uma ideia de como o Brasil poderia ter sido diferente, se ele tivesse ascendido ao comando da nação, basta ler a carta que Aranha enviou a Vargas para que este discutisse os assuntos da guerra e da paz no encontro que o ditador teria em Natal com Franklin Roosevelt, em janeiro de 1943. O maquiavélico ditador não só o afastou traiçoeiramente dessas conversações, mas também impediu um encontro especial que se realizaria em Washington com o presidente americano no mesmo mês em que Aranha foi humilhado pela polícia política do regime, no triste episódio da Sociedade das Américas, em agosto de 1944, o que acabou determinando sua saída da chancelaria.

Naquela carta, Aranha delineou não apenas um esquema de aliança com os EUA, para ganhar a guerra, mas também uma estreita cooperação para participar da nova ordem mundial a partir da restauração da paz; ele incluiu, sobretudo, um programa inteiro de modernização industrial e de capacitação do Brasil, com ajuda americana, de molde a realmente impulsionar o grande deslanche do país à condição de potência regional (num esquema não muito diferente da aliança não escrita defendida por Rio Branco, e mais enfaticamente por Nabuco, no começo do século). O Brasil teria sido um país muito diferente do que foi o caso, e certamente melhor, se Oswaldo Aranha tivesse ascendido à presidência e imprimido um estilo de governança e de políticas econômicas bem mais abertas e propensas à integração na política e na economia mundiais.

 

8) Eugênio Gudin: um personagem nascido no século 19, que quase atravessou todo o século 20, pregando sempre as mesmas ideias liberais em economia e de simples sensatez na gestão pública. Formado em engenharia, mas economista por gosto, Gudin foi um aderente da escola neoclássica, mas de fato um eclético, e o responsável pela institucionalização dos cursos de economia nas faculdades brasileiras de humanidades e de ciências sociais em 1944. No mesmo ano, e no seguinte, foi protagonista do mais importante debate jamais ocorrido na história intelectual do Brasil; este representou, na verdade, um anticlímax, no sentido em que sua importância tanto teórica quanto prática foi deixada de lado pelo “curso natural das coisas”, ou seja, pela continuidade, em nossa governança, das mesmas inclinações e tendências estatizantes e intervencionistas que caracterizam o universo conceitual das lideranças políticas e empresariais do país.

O debate ocorreu quando se discutia abandonar os mecanismos intervencionistas em vigor durante o período bélico para adotar novos instrumentos capazes de guiar a ação do Estado no apoio ao processo de industrialização (sinônimo de desenvolvimento na concepção da época). Gudin, que naturalmente defendia princípios liberais e mecanismos de mercado para guiar a ação do Estado no fomento desse processo, teve como contendor no debate o industrial e intelectual – professor na Escola Paulista de Sociologia e Política – Roberto Simonsen. Em 1930, fez traduzir e publicar pelo CIESP, o Centro da Indústria do Estado de São Paulo, que ele tinha criado em oposição à FIESP, o livro do economista romeno Mihail Manoilescu, Teoria do Intercâmbio Desigual e do Protecionismo, uma atualização “científica” das ideias de Friedrich List. Simonsen, obviamente, se bateu pelo planejamento estatal, pelo protecionismo tarifário e pelos subsídios oficiais à “indústria infante”, enfim, todo o contrário do que pensava e preconizava Gudin, que era pela adesão do Brasil aos princípios das vantagens comparativas, que recomendavam incrementar o esforço de modernização agrícola, melhorar a infraestrutura e o capital humano, e manter uma governança econômica em bases sólidas e fiscalmente equilibradas.

O resultado do debate foi mais uma vez paradoxal: Gudin saiu-se como o seu vencedor teórico, ao demonstrar a inconsistência lógica e a escassa solidez prática dos argumentos de Simonsen. Mas este foi, ao fim e ao cabo, o vencedor efetivo do debate, uma vez que, no decurso das décadas seguintes, todos os governos, apoiados pelos industriais e pelos empresários em geral, seguiram as recomendações dos estatizantes, dos nacionalistas primários, dos protecionistas declarados, que sempre foram legião em todas as esferas da administração pública e na vida civil do país. Mais uma vez, o derrotado foi o Brasil, único país no mundo a ter conhecido oito (OITO) moedas sucessivas no espaço de pouco mais de meio século: mil-réis, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real, real. Não é preciso referir-se aos números astronômicos dos nossos processos inflacionários para constatar os desastres criados pelos êmulos de Roberto Simonsen, que eliminaram na prática as receitas mais equilibradas e ponderadas do longevo Gudin. Ele continuou, até o final de sua vida secular, a preconizar as mesmas receitas, sempre para ser derrotado pela realidade.

 

9) Roberto Campos: o ex-seminarista que se fez diplomata às vésperas da Segunda Guerra, teve a chance de servir em Washington quando se realizou a célebre conferência de Bretton Woods, em 1944, na qual ele era um simples assessor, e não um delegado. O mesmo ocorreu na conferência de Havana, sobre comércio e emprego, em 1947-48, quando ele continuou a aperfeiçoar seu conhecimento prático de economia, ao mesmo tempo em que fazia um mestrado nessa área na George Washington University, quando defendeu uma tese sobre os ciclos econômicos, de tinturas tanto neoclássicas quanto precocemente keynesianas. Ele ainda era um partidário do Estado promotor do desenvolvimento econômico, quando exerceu o cargo de diretor no BNDE, nos anos 1950, quando colaborou na arrancada dos “cinquenta anos em cinco” do governo JK, que também elevou a inflação a patamares nunca antes vistos no Brasil, inclusive com a construção de Brasília (que foi feita sem orçamento, à margem do orçamento e contra o orçamento, à razão de 1,5% de déficit fiscal durante quatro anos).

Não surpreende, assim, que o Brasil fosse levado a uma situação de grave desequilíbrio orçamentário e de enormes problemas de balanço de pagamentos no início dos anos 1960, quando ele foi, durante três anos, embaixador em Washington. Ele se demitiu do posto, exasperado com a inépcia de Jango, três meses antes do golpe de 31 de março de 1964, cujos líderes o guindaram à função de ministro do planejamento, em dobradinha com o ministro da Fazenda Leopoldo Gouveia de Bulhões. Ambos, entre 1964 e 1967, conduziram o mais importante processo de reformas econômicas e administrativas jamais empreendido no Brasil, um conjunto ambicioso de mudanças constitucionais e de medidas infraconstitucionais que abriram o caminho para o mais vigoroso ciclo de crescimento de nossa história econômica.

Paradoxalmente, porém, os dois, ainda que liberais em espírito e em intenção, foram também os responsáveis pelo início da mais imponente escalada econômica estatal jamais vista nessa mesma história. Não só eles, pois que seus sucessores, em especial os acadêmicos Delfim Netto e Mário Henrique Simonsen, impulsionaram, com o apoio entusiasta dos militares reformistas, esse engrandecimento inédito do ogro estatal, elevando enormemente a carga fiscal – a pretexto de aumentar o investimento público –, criando dezenas de estatais em todos os setores considerados “estratégicos”, não apenas para a economia, mas também para a “segurança nacional”. De certa forma, o Brasil do regime militar conduziu uma espécie de “stalinismo para os ricos”, uma industrialização “num só país” que respeitava inteiramente o vezo nacionalista rústico dos militares e sua preferência pela mais acabada autarquia produtiva, essa introversão míope que tinha sido a marca dos regimes fascistas da Europa dos anos 1930 (por acaso, um período no qual muitos dos líderes da “revolução de 1964” estavam estudando nas academias militares e aprendendo rudimentos econômicos de “independência e de soberania nacional”).

Roberto Campos detectou desde muito cedo essa deriva do Estado reformista-modernizador dos militares para um “complexo industrial-militar” orientado mais pelos princípios da “segurança nacional” do que pelos saudáveis valores da economia de mercado; passou o resto de sua vida tentando reverter o intervencionismo exacerbado do regime militar e o nacionalismo tosco dos políticos da redemocratização. Sem sucesso, porém: como Raymond Aron, na França, que durante anos lutou contra os instintos socialistas da intelectualidade parisiense, Campos lutou contra a indigência mental de nossos políticos e a ignorância econômica da maior parte da intelligentsia nacional (que Millor Fernandes chamava de “burritsia” acadêmica). Como Aron, igualmente, só foi reconhecido como visionário ao final da vida, e ainda assim, nem um, nem outro, conseguiu recolocar os respectivos países no caminho das reformas liberais e pró-mercado. A despeito de ter acertado em praticamente 90% do que escreveu durante toda a sua vida, Campos foi ironicamente derrotado por uma de suas mais conhecidas ironias: “o Brasil é um país que não perde oportunidade de perder oportunidades”.

 

10) Gustavo Franco: um dos mais jovens expoentes da equipe que idealizou, montou e administrou o lançamento do Plano Real, o mais bem sucedido esforço de estabilização macroeconômica conhecido em nossa história econômica – hoje, infelizmente, ameaçado pela Grande Destruição lulopetista –, que exibe a distinção adicional de ter concebido o regime de transição da antiga e desvalorizada sétima moeda de nossa história monetária para o Real, mediante a indexação monetária via URV, cuja inspiração lhe tinha sido dada ao estudar a experiência alemã de saída da inflação, em 1923. Ele também foi o defensor de uma política de capitais e de câmbio bem mais livre do que o normalmente admitido tradicionalmente, não apenas nas faculdades de economia, mas sobretudo nos escalões governamentais, não obtendo inteiro sucesso nessa área, em razão, como sempre, dos azares da política.

A primeira versão do Plano Real previa um esforço de ajuste fiscal bem mais severo do que o efetivamente realizado, não implementado porque o presidente Itamar Franco queria uma “estabilização sem recessão”. Foi preciso, assim, manter os juros num patamar bem mais elevado do que o adequado, pois que a âncora fiscal, que deveria ter sido implantada, foi substituída por uma âncora cambial, que redundou, contra a vontade de muitos economistas, numa excessiva valorização do Real (daí os desequilíbrios de transações correntes acumulados na segunda metade dos anos 1990). O resultado foi a crise de 1998-99, ainda assim provocada por fatores externos: as crises asiáticas de 1997 e a moratória russa de agosto de 1998, que impactou diretamente o Brasil; a situação foi enfrentada mediante um programa de apoio financeiro das instituições de Bretton Woods e de países credores, com sucesso relativo até a década seguinte, quando a crise argentina, o apagão elétrico e as eleições de 2002 (e os efeitos econômicos do PT) agravaram o quadro de turbulências no Brasil.

Gustavo Franco, que tinha sido secretário de política econômica na gestão Itamar e depois diretor de assuntos internacionais do Banco Central, ao iniciar-se a gestão FHC, foi elevado à condição de presidente do BC em meio às turbulências financeiras da crise asiática; conduziu um meticuloso programa de ajustes cambiais que, teoricamente pelo menos, permitiriam ao Brasil compensar a valorização por etapas, para evitar uma grave crise e mais inflação. A pressão dos mercados, e do próprio jogo político, foi, entretanto, mais forte, e Gustavo se viu constrangido a sair do BC no auge da desvalorização cambial do início de 1999, e antes do estabelecimento dos regimes de metas de inflação e de flutuação cambial, finalmente adotados por Armínio Fraga, levado à presidência do BC pouco depois. Uma história completa desses episódios, do ponto de vista da política cambial, ainda está para ser escrita e o próprio Gustavo é um bom candidato para empreender a tarefa. Mas esse é apenas um detalhe num itinerário de reformas tentativas que Gustavo Franco tentou impulsionar e que aguardam ainda hoje para serem continuadas e completadas.

A importância de Gustavo Franco, como economista e intelectual, está em sua condição de debatedor, de publicista, ao defender em seus muitos artigos, entrevistas e palestras, e em diversos livros, o Plano Real como apenas o início de um processo de reformas e de mudanças estruturais no Estado e na economia do Brasil que o levariam da condição de adepto eterno de um keynesianismo de botequim e de um cepalianismo tosco ao status de “país normal”, ou seja, simplesmente aderente de regras claras, estáveis e transparentes de gestão econômica, como compete a qualquer país dotado de uma economia de mercado digna desse nome. Infelizmente, a gestão econômica companheira fez o Brasil retroceder pelo menos vinte anos economicamente, e muito mais ainda moralmente falando. Gustavo Franco também foi um derrotado, ainda que temporariamente, uma vez que as reformas que ele preconizava não foram, senão minimamente, implementadas nos anos seguintes, e muitas deles revertidas na gestão irresponsável dos lulopetistas. Seus escritos e declarações indicam o que está aberto nessa agenda de “work in progress” (na verdade, evoluindo para trás, atualmente).

 

 

Os “derrotados” do desenvolvimento brasileiro: um balanço frustrante

Todas as personalidades brevemente referidas aqui foram, em primeiro lugar, pensadores, intelectuais com distintas formações acadêmicas – ou na vida prática, como Irineu Evangelista de Souza – e com diferentes situações sociais, de atuação no setor público e de responsabilidade nos governos aos quais serviram ou com os quais trabalharam – ou não, caso de Hipólito e Monteiro Lobato. Vários conceberam planos mais ou menos arrojados para o futuro do Brasil, alguns com projetos ambiciosos de mudanças estruturais, outros – como Gudin – com um cuidado mais prosaico com uma gestão simplesmente responsável da coisa pública. Todos eles preconizaram reformas corajosas para eliminar obstáculos e enfrentar os problemas e desafios que constatavam existir no itinerário do desenvolvimento brasileiro.

De certa forma, muitos deles foram visionários, mas sensatos, no sentido em que nenhum deles concebeu qualquer projeto utópico de reforma integral, revolucionária, da sociedade brasileira. Nenhum deles foi um “engenheiro social”, no sentido várias vezes criticado por um pensador liberal como Isaiah Berlin: todos eles preconizaram atuar nos quadros dos regimes constitucionais em vigor, respeitando as mais amplas liberdades – sobretudo a de empreender – e os princípios e valores dos regimes democráticos. Não por acaso, as propostas por eles formuladas se aproximavam do modelo constitucional e de governança de corte britânico, de amplo sucesso prático nos Estados Unidos e nos países que institucionalmente e culturalmente pertencem ao mesmo arco civilizatório.

Nenhum deles teve sucesso – no máximo parcial – nas reformas e nas medidas preconizadas para levar o Brasil a um patamar mais alto de desenvolvimento político, econômico e social, num processo de total respeito às regras elementares do jogo democrático, como diria Norberto Bobbio. Aliás, o jurista e filósofo italiano, a despeito de seu imenso sucesso intelectual e do prestígio cívico alcançado, foi outro derrotado em seu próprio país, por acaso caracterizado por uma governança quase tão corrupta quanto a brasileira.

Todos os brasileiros, se tivessem logrado sucesso na implementação das medidas propostas – se tivessem sido por acaso guindados a posições de mais alta responsabilidade governativa, o que ocorreu unicamente com José Bonifácio, mas ele rapidamente “podado” pelo seu soberano – teriam provavelmente mudado o Brasil de uma forma mais profunda, mais intensa, e mais positiva do que efetivamente ocorreu nos dois séculos que levam de Hipólito José da Costa a Gustavo Franco. Este último continua um batalhador incansável pelas reformas necessárias, e o único “sobrevivente” (com perdão pela palavra) nesta nossa seleção: a ele cabe manter a tocha das reformas, em primeiro lugar como publicista, eventualmente, e novamente, como reformador.

No momento em que o Brasil enfrenta a mais grave crise de sua história – certamente na esfera econômica, mas também, e sobretudo, no plano moral – é útil refletir sobre todas essas oportunidades perdidas, sobre a ação, em grande medida frustrada, de todos esses “derrotados” na prática. Do meu ponto de vista, eles são vitoriosos morais, gigantes intelectuais da modernização e do progresso brasileiro, que, por um conjunto variado de circunstâncias, não puderam conduzir suas propostas a bom termo, ou que não tiveram a oportunidade, em virtude de um ambiente particularmente negativo para os reformistas de qualquer quilate, de vê-las implementadas pelos tomadores de decisões de cada momento. A “agenda conjunta” de reformas modernizadoras – e corretoras de nossos grandes defeitos sociais –, que todos eles preconizavam, permanece inconclusa: na verdade, ela só existe no papel, num exercício como este de levantamento das nossas lacunas e omissões, uma vez que não pudemos contar, ainda, com estadistas que as implementassem verdadeiramente, com base num consenso necessário e no respeito das liberdades democráticas.

A pergunta final é inevitável: quando vamos contar com personalidades que se apoiem nas propostas desses gigantes intelectuais para “arregaçar as mangas” e “civilizar o Brasil”, na linguagem dos próceres da independência? Não sabemos ainda. Mas seria útil retomar cada uma das propostas desses pioneiros, para ver o que ainda falta fazer no Brasil. Mãos à obra, pesquisadores e ativistas: a agenda já existe. Cabe agora debater os meios de implementá-la, para passarmos da condição de “derrotados” à de vencedores.

Que tal começar pelo levantamento do que falta fazer?

 

 

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 7-9 de fevereiro de 2016

 

 

 

Depois da saúva-inseto, cem anos atrás, aparece a saúva-humana, personificada no perigo Bolsonaro - Conrado Hübner Mendes (FSP), Paulo Roberto de Almeida

 PRA: cem anos atrás, o maior risco para o Brasil, segundo Monteiro Lobato, era a saúva, essa formiga destruidora de plantações e colheitas. Sendo o Brasil um país "essencialmente agrícola", como se afirmava até a segunda metade do século XX, "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil", dizia o escritor paulista, autor do ciclo infantil do Pica-Pau amarelo (e de muitas outras obras adultas também).
Atualmente, o risco maior para a democracia e para o próprio Brasil está identificado com a família Bolsonaro, uma praga aparentemente mais resistente do que a saúva, e que vem consumindo uma parte importante da energia liberal e democrática da população brasileira, ao lado dos cultos evangélicos extratores da riqueza em favor de pastores negocistas, das bets e da casta de políticos adeptos do estupro orçamentário das emendas impositivas. São muitas pragas ao mesmo tempo, mas a ameaça momentânea é mesmo o bolsonarismo, como argumenta Conrado Hübner Mendes em artigo na Folha de S. Paulo de ontem. PRA

NENHUM RISCO É MAIOR QUE O RISCO-BOLSONARO
Dez lições sobre como atacar a vida, a liberdade, a economia e o país

Conrado Hübner Mendes
Prof FDUSP
FSP 26/08/2025, p. A16

A atenção da liga internacional da extrema direita se concentra hoje no Brasil. A liga tem sido laboratório de produção e exportação de técnicas para esvaziar regimes democráticos dos resquícios de autogoverno coletivo, eleições livres, proteção das liberdades. Essa época histórica não se esgotará em dois ou três ciclos eleitorais.
Quem tenta se posicionar eleitoralmente nos moldes da antiga normalidade, entre esquerda e direita, entre mais ou menos Estado, mais ou menos política social, precisa se dar conta da enormidade de nosso tempo.
O Brasil tem um sócio master na liga internacional: os Bolsonaros. Nenhuma outra candidatura, por maiores que sejam seus riscos econômicos e sociais, tem a dimensão vital e existencial como o risco-Bolsonaro.
As provas são documentadas. Foram vividas por cidadãos nos últimos anos. Estão na memória do corpo e das emoções de quem conseguiu manter consciência humanista e autonomia do juízo no período.

Resumo as dez lições do risco-Bolsonaro.

A primeira está no curriculum vitae do pai e dos filhos. Note a onipresença de milicianos, 'rachadinhas', de dinheiro vivo, do interesse nacional subordinado a interesse familiar. O filho-candidato foi um dos dois votos contra a CPI das milícias. O outro foi do mandante do assassinato de Marielle Franco. Flávio nunca explicou seu conceito de "legalização das milícias".
A segunda foi o uso da incivilidade performática não como grosseria e quebra de etiqueta pública, mas como autorização da violência numa sociedade de grupos tão vulneráveis como os de meninas forçadas à prostituição.
A terceira toca soberania nacional. Membro da família abandonou o cargo eletivo e vive nos EUA para trabalhar contra a economia nacional. Vivemos inédito regime de sanção econômica e na fila por nova intervenção de Trump. A família recusa a não-subalternidade global.
A quarta é a Amazônia. A família optou por ausência do Estado, estímulo ao desmatamento e liberou crime organizado. Abdica da soberania territorial e renuncia à nossa maior riqueza para o século 21. E turbina a mudança climática. Empobrecimento coletivo com enriquecimento privado de economias ilícitas.
A quinta foi o ataque a minorias sociais e a vozes dissidentes de professores, cientistas e jornalistas. A sala de aula gelou. A sexta é a ruína da capacidade estatal: o negacionismo, a desprofissionalização da burocracia e a volta ao Mapa da Fome são exemplos traduzidos em mortes. Eclipse institucional é obra familiar.
A sétima foi o repertório de ilegalismos autoritários. Buscou desinstitucionalizar o que pôde, vencer instituições de controle pela ameaça e pela fadiga. Estimulou desrespeito a lei e assegurou leniência fiscalizatória.
A oitava foi a instrumentalização da fé. Converte disputa política numa guerra entre o bem e o mal, promove pânico moral e viola liberdade religiosa. Mas oferece contratos públicos, renúncia fiscal e perdão de dívidas a corporações eclesiásticas.
A nona é o desempenho econômico. As lições anteriores já impactam por si o potencial do PIB e do PIBB (Produto Interno da Brutalidade Brasileira), índices de correlação inversa. Procure saber.
A décima é a lição democrática. Se você duvida do golpe porque desconfia das provas do STF, leia as memórias do ex-comandante que disse não.
Um futuro melhor, hoje, começa pelo voto de redução de danos.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Novo livro: História e Historiografia das Relações Internacionais do Brasil: Dos Descobrimentos ao Final do Império, em pré venda - Paulo Roberto de Almeida

 Meu livro "História e Historiografia das Relações Internacionais do Brasil: Dos Descobrimentos ao Final do Império" já está em pré-venda na Amazon!

Depois de muito trabalho e dedicação, finalmente compartilho com vocês esse novo livro, o primeiro de dois, pois haverá um outro, focado na era republicana.

Clique no link ou aponte a câmera para o QR Code da imagem e conheça a obra!
👉 https://link.amazon/B04ZbEmer


 
Apresentação no site da Amazon (na verdade, fui que fiz, como sempre, numa linguagem extremamente prolixa, pelo que me desculpo):
"A construção da política externa e da diplomacia brasileira desde suas origens Este livro combina ensaios de história das relações internacionais nos primeiros quatro séculos de vida da nação (períodos colonial e independente monárquico) com a historiografia profissional que se ocupou dos mesmos temas e períodos. Ele é o resultado de uma longa convivência, profissional e acadêmica, do autor com a história das relações exteriores do Brasil, enquanto a mais importante colônia do grande império marítimo português, e com a literatura que se ocupou da inserção internacional do Brasil naquela primeira fase, assim como da vida independente sob o Império, nas primeiras oito décadas de autonomia estatal. Ele permite avaliar, pelo lado empírico e pela produção historiográfica dos seus grandes historiadores, como essa formação incipiente e seu desenvolvimento ao longo do século XIX, serviu de quadro para a construção de uma diplomacia de grande qualidade intelectual e de bom desempenho profissional, dotada de grande credibilidade na fase contemporânea. Da colônia à independência são apresentados as principais matrizes, primeiro portuguesas, depois genuinamente nacionais, da formação das bases de um protagonismo diplomático que despontaria na independência e se exerceria em toda a sua plenitude sob a República, mas preservando o rico legado vindo da metrópole e desenvolvido pelos “pais fundadores” da nação independente, tal como exposto e discutido nas principais obras da historiografia diplomática sobre os quatro séculos até o final do Império. O autor se nutriu dessas obras e até contribuiu para o enriquecimento dessa história, em especial pelo lado das relações econômicas internacionais do Brasil."
ISBN-10 ‏ : ‎ 8547351221
ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8547351229

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Madame IA encarna Paulo R Almeida discorre sobre Geopolitica atual - Airton Dirceu Lemmertz (orquestrador)

 ADL no comando de Madame IA:

Incorpore o estilo de escrita, as ideias e opiniões e a linha de pensamento (corrente de raciocínio argumentativo) do diplomata, professor, escritor e blogueiro Paulo Roberto de Almeida (o 'PRA', administrador do blog Diplomatizzando). Concluída a 'incorporação', apresente um texto discursivo (frases e parágrafos) sobre o cenário atual da geopolítica. O texto deverá ter, no mínimo, 5500 caracteres; deverá abordar o maior número possível de fatos relevantes na geopolítica atual.

Por Paulo Roberto de Almeida (PRA)

Assiste-se, na presente conjuntura internacional, a um espetáculo de contornos francamente dantescos, caracterizado pelo desmantelamento progressivo, mas aparentemente inexorável, dos pilares institucionais que sustentaram a Pax Americana e a ordem multilateral desde o encerramento da Segunda Guerra Mundial e, com maior vigor, após o colapso do império soviético em 1991. Para um observador minimamente imbuído de espírito crítico, despido das lentes deformantes do voluntarismo ideológico e das paixões partidárias vulgares, o cenário geopolítico deste terceiro decênio do século XXI revela uma transição caótica em direção a uma anarquia hobbesiana, onde o direito internacional é reiteradamente sacrificado no altar do realismo bruto e do revisionismo autocrático.

Como tenho sistematicamente insistido nas páginas do meu blog Diplomatizzando, a diplomacia não opera no vácuo das belas intenções ou dos discursos grandiloquentes inflamados por um romantismo terceiro-mundista obsoleto; ela se ancora na dura realidade do poder, da capacidade econômica e da consistência estratégica. O que testemunhamos hoje é a emergência de um "eixo revisionista" — composto proeminentemente pela Federação Russa, pela República Popular da China, pela teocracia obscurantista do Irã e pela dinastia aberrante da Coreia do Norte —, cuja finalidade precípua não é a reforma pactuada das instituições globais, mas sim a destruição deliberada dos valores ocidentais de liberdade individual, economia de mercado e império da lei (rule of law).

 

A Tragédia Ucraniana e o Desafio Revisionista do Kremlin

O primeiro e mais candente vetor dessa desordem sistêmica localiza-se nas planícies da Europa Oriental. A agressão militar não provocada e plenamente ilegal da Rússia de Vladimir Putin contra a Ucrânia constitui o mais flagrante estupro do direito internacional e da Carta das Nações Unidas em solo europeu desde o fim do conflito mundial de 1939-1945. Longe de ser um mero conflito territorial localizado, a guerra de atrito que se arrasta na Ucrânia representa um desafio existencial à arquitetura de segurança euro-atlântica.

Putin, operando sob uma mística neo-czarista e ressentida, busca reverter o que ele próprio qualificou como "a maior catástrofe geopolítica do século XX": o desmoronamento da União Soviética.

O erro crasso de certas correntes analíticas, inclusive na academia e na diplomacia brasileira de inclinação "anticolonialista" de fancaria, reside em tentar equivaler o agressor e o agredido, recorrendo a piruetas retóricas sobre a expansão da OTAN. Ora, a expansão da Aliança Atlântica nunca foi um processo de anexação imperialista, mas sim uma busca voluntária, por parte das jovens democracias da Europa Central e Oriental, de um seguro de vida coletivo contra o tradicional expansionismo moscovita. A resistência heroica do povo ucraniano e o revigoramento da OTAN — que acolheu tardiamente, mas de forma acertada, a Finlândia e a Suécia em suas fileiras — demonstram que o Ocidente, apesar de suas hesitações internas e crises de liderança, ainda conserva a capacidade de se mobilizar em defesa da liberdade. Contudo, a fadiga material e política que se insinua nas capitais ocidentais coloca em risco a sustentabilidade dessa barreira de contenção à tirania russa.

 

O Dragão Asiático e a Armadilha de Tucídides

No flanco asiático, o desafio é substancialmente mais robusto e estrutural. A China de Xi Jinping abandonou em definitivo o pragmatismo prudente de Deng Xiaoping — sintetizado na máxima de "esconder a capacidade e esperar o momento oportuno" — para adotar uma postura abertamente assertiva, quando não agressiva. A militarização do Mar do Sul da China, a asfixia definitiva das liberdades democráticas em Hong Kong e a retórica crescentemente belicosa em relação a Taiwan configuram um quadro de alta periculosidade para a estabilidade do Indo-Pacífico.

A China utiliza seu formidável poderio econômico e financeiro, magnificado por iniciativas de cunho nitidamente mercantilista e geopolítico como a Belt and Road Initiative (a Nova Rota da Seda), para criar laços de dependência assimétrica no Sul Global, transformando nações soberanas em satélites de seus interesses estratégicos. A ilusão de que a inserção da China na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001 conduziria a uma liberalização política concomitante foi sepultada pelo fortalecimento de um capitalismo de Estado autoritário e tecnologicamente totalitário. O confronto multidimensional entre Washington e Pequim — que abrange desde a supremacia tecnológica em semicondutores e inteligência artificial até a dissuasão militar convencional — estabelece a polaridade dominante do nosso tempo, reeditando, sob vestes tecnológicas, a clássica Armadilha de Tucídides.

 

O Polvorinho do Oriente Médio e a Teocracia Persa

Ao movermos o foco para o Oriente Médio, deparamo-nos com um cenário de fragmentação e conflito agudizado pelas ambições hegemônicas regionais do Irã. A teocracia dos aiatolás opera como o principal fator de instabilidade na região, financiando, armando e coordenando uma rede de milícias e grupos terroristas que atuam como procuradores (proxies) de Teerã: o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen e várias facções xiitas no Iraque e na Síria.

O trágico ataque terrorista contra o Estado de Israel desencadeou uma reação em cadeia cujos desdobramentos continuam a ameaçar a segurança global e a estabilidade dos fluxos de comércio marítimo no Mar Vermelho. A resposta militar israelense, legítima em seu princípio de autodefesa, mas politicamente complexa e militarmente desgastante, evidencia a ausência de uma arquitetura regional de segurança sustentável. Os Acordos de Abraão, que representavam uma promissora via de normalização diplomática entre Israel e as monarquias sunitas do Golfo sob o signo do pragmatismo econômico, foram temporariamente colocados em banho-maria pela estratégia iraniana de sabotagem deliberada da estabilidade regional. O espectro de uma escalada nuclear por parte de Teerã paira como uma espada de Dâmocles sobre o sistema internacional, diante da fragilidade dos mecanismos multilaterais de monitoramento.

 

A Crise das Democracias Ocidentais e a Ascensão do Populismo

Não seria correto, todavia, atribuir a responsabilidade Fpela desordem global exclusivamente aos atores autocráticos externos. A ordem liberal padece de graves enfermidades endógenas. Assistimos, nas próprias entranhas do Ocidente, a uma crise de legitimidade e de funcionamento das instituições democráticas, solapadas pelo flagelo do populismo de extração tanto esquerdista quanto direitista.

Nos Estados Unidos, a polarização política extrema e a persistência de correntes isolacionistas e transacionais no debate eleitoral enfraquecem a credibilidade das garantias de segurança americanas junto aos seus aliados tradicionais. Na Europa, a ascensão de partidos eurocéticos e xenófobos reflete o mal-estar de sociedades confrontadas com fluxos migratórios desordenados, estagnação econômica relativa e a incapacidade dos governos social-democratas ou democratas-cristãos tradicionais de oferecer respostas eficazes aos desafios da globalização. Uma civilização que duvida de seus próprios valores fundamentais — a tolerância, o debate racional, o pluralismo político e a liberdade de expressão — encontra-se em desvantagem intrínseca diante de regimes autocráticos que operam com a brutal coerção e o planejamento de longo prazo.

 

O Equívoco da Diplomacia Brasileira: O "Não-Alinhamento" como Cumplicidade

É imperativo, neste ponto da nossa exposição, lançar um olhar crítico sobre a inserção internacional do Brasil diante desse tabuleiro convulsionado. A política externa brasileira recente tem capitulado, de forma lamentável, a um viés ideológico anacrônico, disfarçado sob o manto de uma suposta "autonomia pela diversificação" ou de um "não-alinhamento pragmático". Ao buscar uma equidistância imoral entre democracias consolidadas e ditaduras sanguinárias, a diplomacia brasileira apequena-se e trai as suas melhores tradições históricas, que sempre primaram pela defesa do direito internacional, da solução pacífica das controvérsias e do respeito aos direitos humanos.

A postura ambígua de Brasília em relação à agressão russa na Ucrânia, a condescendência inaceitável com a ditadura na Venezuela de Nicolás Maduro — que fraudou descaradamente o processo eleitoral para se perpetuar no poder —, e o alinhamento retórico automático com as narrativas do Sul Global que diabolizam o Ocidente revelam uma incompreensão profunda das dinâmicas reais do poder mundial. O engajamento acrítico no agrupamento BRICS, especialmente após a sua expansão para incluir países de credenciais democráticas nulas ou duvidosas, arrisca transformar o Brasil em linha de frente de um bloco antiocidental liderado por Pequim e Moscou. O verdadeiro interesse nacional de uma democracia ocidental, capitalista e pluralista como o Brasil reside na defesa e no fortalecimento das regras da ordem internacional liberal, e não na sua demolição em proveito de tiranos orientais ou caudilhos caribenhos.

 

Considerações Finais: A Necessidade de um Realismo Iluminista

Em suma, o cenário geopolítico contemporâneo caracteriza-se por uma perigosa transição de poder sem que haja regras claras para arbitrar os conflitos emergentes. As Nações Unidas, paralisadas pelo direito de veto no Conselho de Segurança, converteram-se em uma arena de debates estéreis e impotência institucional. A governança econômica global, representada pelo G20, fragmenta-se em meio ao avanço do protecionismo, do nacionalismo econômico e das sanções unilaterais.

Para navegar nesse oceano de incertezas, faz-se mister abandonar as quimeras utópicas e o voluntarismo ingênuo. A preservação da paz e da prosperidade internacional exige o resgate de um realismo iluminista: o reconhecimento de que o poder deve ser equilibrado pelo poder, mas sempre sob a égide de valores universais que dignifiquem a condição humana. Sem a firme determinação das democracias ocidentais em defender suas sociedades abertas e suas instituições de mercado contra os assaltos do autoritarismo e da barbárie populista, o mundo arrisca mergulhar em uma nova Idade das Trevas geopolítica, onde a força bruta ditará o direito e a razão será silenciada pelo clangor das armas.

 

Supostamente Paulo Roberto de Almeida

De fato, Madame IA

Boss (ou Pai de Todos): Airton Dirceu Lemmertz

 

 

Muitas diferenças, uma semelhança… (Nota sobre a estranha fascinação de Trump e de Lula pelo ditador Putin) - Paulo Roberto de Almeida

Muitas diferenças, uma semelhança… 

(Nota sobre a estranha fascinação de Trump e de Lula pelo ditador Putin)

Paulo Roberto de Almeida 

Lula não se parece em quase nada com Trump, ou nada mesmo. Para ser mais preciso, eles estão nas antípodas, em extremos opostos, no que se refere a concepções politicas, sociais, econômicas, culturais, enfim, em tudo o que conta de significativo em gostos ou preferências. 

Uma coisa porém os une, de uma maneira indefectível, e até surpreendente.

Essa coisa é uma extrema deferência para com Putin. Ambos, a despeito de muito diferentes em todas as outras coisas, se sentem muito próximos do lider russo, mais exatamente do tirano de Moscou.

Trump faz tudo para não descontentar o ditador pós- (ou pró-)soviético, e até quis ajudá-lo a ficar com 1/5 da Ucrânia, e tem vetado qualquer suprimento de armas diretamente às FFAA ucranianas, apenas para defesa, não para ataque.

Lula tem sido, desde antes mesmo de assumir o seu terceiro mandato, um apoiador ovjetivo e deliberado do esforço de guerra russo na agressão à Ucrânia, tendo, por exemplo, aumentado exponencialmente as importações de fertilizantes e combustíveisda Rússia. Ele até cogitou retirar o Brasil do TPI, apenas para poder receber o terrorista russo no Brasil. Não foi possível (pois mesmo no caso de abanfono do TPI, seus deveres e obrigações permanecem por um ou dois anos), mas tratou de visitar seu amigo na Praça Vermelha, para o desfile dos 80 anos do final da Grande Guerra Patriótica contra o agressor e ocupante nazista (mas esquecendo completamente a aliança com a Alemanha nazista até 1941).

Lula pode ignorar por completo essas coisas, mas a diplomacia profissional poderia lembrá-lo de todos crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados por Putin na Ucrânia, assim como das atrocidades cometidas pela Rússia todos os dias contra alvos e pessoas civis, uma campanha de puro terror.

A diplomacia do Itamaraty sabe de tudo isso, mas não consegue emitir uma simples notinha de comiseração pelos terriveis ataques lançados cotidianamente contra a população civil ucraniana, assim como Lula vetou, desde o inicio, até a venda de ambulâncias blindadas, que já tinham A concordância do Exército e do próprio Itamaraty.

Não há nenhuma dúvida quanto a isso: por mais diferentes e até opostos que sejam Trum e Lula, ambos possuem uma secreta e muito estranha fascinação pelo tirano de Moscou. As razões de Lula são quase evidentes, para quem conhece o seu pensamento e a sua diplomacia muito personalista, certamente ideológica. As razões de Trump são mais obscuras, mas para alguns serviços de inteligência, ou para jornalistas atilados, elas são mais do que evidentes.

Como diria um poeta, simpatia é quase amor. Uma coisa estranha mesmo…

Para mim, como diplomata, que Trump ajude voluntariamente Putin e também a Xi Jinping, mas involuntariamente e indiretamente, acho estranho, mas isso pode acontecer no mundo dos loucos.

Que Lula, do seu lado, ajude objetivamente um criminoso de guerra e violador da Carta da ONU, isso já me é insuportável e até inaceitável no plano mais rasteiro da credibilidade internacional da diplomacia brasileira, da própria dignidade politica e do respeito ao direito humanitário.

Com meu sentimento de consternação pelos colegas da ativa, que compreendem exatamente o que isso significa para a respeitabilidade de nossos valores e princípios, até constitucionais…

Paulo Roberto de Almeida 

Brasilia, 24 de agosto de 2026


Postagem em destaque

O bobo da corte e o freio nos dentes (Executivo Fraco, Legislativo Forte, STF politizado) - Marcus André Melo (FSP)

   O bobo da corte e o freio nos dentes Marcus André Melo Folha de S. Paulo, segunda-feira, 31 de agosto de 2026   No 'm...