segunda-feira, 7 de julho de 2014

Pesquisa: o que voce mudaria na Historia do Brasil? - Stephen Kanitz

Apenas agora, 3 1/2 anos depois, tomo conhecimento desta "pesquisa" feita pelo jornalista Stephen Kanitz em seu blog "Artigos para se Pensar".
Interessante, pois vários anos atrás eu escrevi uma primeira versão do que eu pretendia ser um livro completo contendo uma história virtual do Brasil, com uma introdução metodológica (http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1075HistoriaVirtualIntro.html) e um resumo geral dos grandes pontos  (http://www.pralmeida.org/05DocsPRA/1064HistVirtualBr.html).
Em todo caso, vale a pena transcrever a nota de Stephen Kanitz, pois ela ainda é um exercício que pertence ao mesmo universo dos "big ifs", ou seja, "o que teria acontecido se...?".

Paulo Roberto de Almeida 


Pesquisa: Como Você Mudaria A História do Brasil?

(20 January 2011)


Coloquei tempos atrás esta pergunta no ar: 

Imagine que você tem uma máquina do tempo e poderia ir para alguma data do passado, e mudar algum evento histórico do Brasil.
Qual seria este evento? 
Infelizmente tivemos menos que 30 respostas, muitos criticaram a própria pergunta como masturbação histórica. Não é.
Nas nossas escolas de História, prevalece a ideia Marxista de determinismo histórico, que a história segue um percurso mais ou menos previsível, aquela prevista pelo economista Karl Marx, baseada nos inúmeros livros que ele estudou no Museu de Londres.
É tão dominante esta tese no Brasil, que é muito difícil aceitarmos outra tese vindo da teoria de complexidade, que simples eventos podem gerar mudanças espetaculares.
Muitos irão lembrar a frase, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas, tipo um tufão na Indonésia.
Que eventos poderiam ter sido diferentes e que mudariam o Brasil?
A maioria dos votos foi para o Descobrimento dos Portugueses.
Se tivéssemos sido descobertos pelos holandeses ou ingleses, acham que tudo seria diferente.
Talvez, mas como comenta X, as colônias inglesas da África estão piores que o Brasil.
As outras respostas foram: A guerra do Paraguai, a Decretação da República, mudança do governo para Brasília, o nascimento de Getúlio Vargas e a queda do Barão de Mauá que viu a industrialização da Inglaterra antes dos americanos.
Uma opinião interessante vem de Edgar Antonio Sbrogio
Ele opina que foi a Lei da Informática que atrasou o Brasil uns 15 anos, que atrasou a formação de jovens especialistas em software e TI, achando que o futuro seria hardware.
Sbrogio sabe o que diz, segundo a Revista Época.
Revista Época. Da participação de Luciano Coutinho no governo Sarney, o que ficou para a posteridade foi a assinatura da Lei de Informática.
Como secretário executivo do recém-criado Ministério da Ciência e Tecnologia entre 1985 e 1988, Coutinho optou por impedir a entrada de novas tecnologias no país – no momento em que a indústria de computadores pessoais se tornava uma realidade internacional – para estimular o fortalecimento de uma indústria nacional. Não se conhece até hoje uma autocrítica à experiência.
A amigos, ele diz acreditar que estava certo.
Bom, eu endosso a autocrítica de Edgar Antonio Sbrogio.
Minha opção particular seria a mudança para Brasília, mas ainda acho que esta discussão deveria continuar.
Vamos fazer uma segunda rodada, por favor coloquem as suas opiniões.


Politica externa brasileira: um debate envenenado desde o comeco

O "debate" começou, como se sabe, pela entrevista do Senador Ricardo Ferraço à revista Veja, aqui sinalizada:
http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/07/senador-ricardo-ferraco-vivemos-um.html

Depois, o chanceler paralelo, ou talvez o chanceler oficioso, como querem alguns, tentou responder ao senador, com palavras muito duras, o que foi aqui registrado:
http://diplomatizzando.blogspot.com/2014/07/debate-sobre-politica-externa-e-seu.html

Agora, um economista liberal responde ao assessor presidencial, neste link, também transcrito abaixo.



03/07/2014
 às 20:29 \ ComunismoLiberdade de ImprensaPolíticaSocialismo

Marco Aurélio Garcia: apenas um bom aluno de Gramsci, mas com enorme poder de estrago!

Marco Aurelio Garcia
A Argentina e a Venezuela são dois países altamente democráticos, completamente distantes de qualquer tirania autoritária, e com uma imprensa livre, crítica e independente. Essa é a hilária mentira que Marco Aurélio Garcia conta, e ainda temos que prender o riso!
O “chanceler de fato”, responsável pela desgraça de nossa política externa totalmente ideologizada, escreveu uma resposta à entrevista de Ricardo Ferraço publicada nas páginas amarelas de Veja semana passada. Penso no consumo de óleo de peroba após um texto desses. Diz o filhote de Gramsci:
Tal qual uma Mãe Dinah das relações internacionais, Ferraço prognostica que Argentina e Venezuela, apesar de seus Governos terem sido eleitos pelo voto popular, caminham para uma ditadura. Menciona o cerco à imprensa nos dois países, ocultando, por exemplo, que em Caracas e Buenos Aires os principais órgãos de imprensa – El Nacional, El Universal, Clarín e La Nación, respectivamente – são há anos duros opositores dos governos de Nicolás Maduro e de Cristina Kirchner.
Oh, God! Há “excesso de democracia” na Venezuela! Bem, se o sujeito em questão elogia o modelo cubano, podemos ter em mente o tipo de “democracia” que ele defende, não é mesmo? Os veículos de imprensa citados são perseguidos há anos, como o mais desatento dos leitores sabe. A imprensa é alvo dos mais absurdos ataques por parte desses governos.
Fico a pensar: quem que o “top top” quer enganar? Não é possível que alguém acredite nele. Nem mesmo os típicos leitores desse site chapa-branca. Mas o cara-de-pau continua:
Já que o “comunismo” deixou de ser fantasma, como nos tempos da Guerra Fria, Ferraço levanta como novo espantalho o “bolivarianismo”, que não explica o que é.
Como é? Gramsci na veia! Como alguns sabem, Garcia é o ideólogo gramsciano por excelência no Brasil, um dos principais responsáveis pela disseminação da tática comunista de “comer pelas beiradas”, dominar a cultura, produzir dissonância cognitiva e doutrinação ideológica, solapar a democracia “burguesa” de dentro (e tem tido grande sucesso, não podemos negar).
Ora, bolivarianismo precisa ser definido? É a bandeira da própria esquerda jurássica que o chanceler apóia! O tal “socialismo do século 21″, nas palavras do falecido Hugo Chávez. Esses que repetem que o Muro de Berlim já caiu são os mais canalhas, pois querem convencer os leigos que falar em ameaça vermelha ou comunista é coisa de paranoico preso no tempo, enquanto são eles mesmos que ainda pregam exatamente essa ideologia carcomida e fétida, ignorando a queda do Muro!
Espantalho? O sonho de todo comunista é ninguém mais acreditar na ameaça comunista. Assim ele pode avançar em paz, sem resistência, sem obstáculo, já que “não existe”. Não? E a Venezuela? Bolívia? Equador? Argentina mesmo? Todos caminhando cada vez mais na direção de Cuba, uma ditadura comunista há mais de meio século! Hei, mas o comunismo… acabou. Onde? Na Coreia do Norte?
Garcia escreve:
Ricardo Ferraço utiliza informações a seu gosto. Desconhece a ação conjunta que os Governos do Brasil e da Bolívia têm desenvolvido nos últimos anos no combate ao narcotráfico. Prefere insultar o Presidente Evo Morales que deve seu mandato ao voto popular.
Bom, vamos então citar um trecho do ótimo livro recém-lançado, A vida secreta de Fidel, de ninguém menos que Juan Reinaldo Sánchez, que foi guarda-costas particular do ditador cubano por 17 anos, gozando do círculo seleto de sua confiança:
Nada menos que um enorme tráfico de drogas era praticado no topo do Estado! [...] Foi como se o céu caísse em cima da minha cabeça. Estupefato, incrédulo, petrificado, eu preferiria acreditar que tinha ouvido mal ou que estava sonhando, mas infelizmente era verdade. Em poucos segundos, todo o meu mundo, todos os meus ideais, ruíram. Entendi que o homem a quem eu sacrificava minha vida desde sempre, el líder que eu venerava como um deus e que, a meus olhos, era mais importante que minha própria família, estava envolvido no tráfico de cocaína a ponto de comandar operações ilegais como um verdadeiro mafioso. [...] Para ele, o narcotráfico era uma arma de luta revolucionária antes de ser um meio de enriquecimento ilícito.
Isso, não custa lembrar, de uma testemunha presencial, que escutou do próprio Fidel uma conversa sobre o assunto com seu ministro de confiança, que logo depois foi oficialmente “julgado” (em quatro dias, sob controle do próprio ditador) e condenado por tráfico, como bode expiatório, e fuzilado, para não deixar rastros. Basta pensar nas Farc para constatar que os comunistas latino-americanos jamais tiveram problemas com o tráfico de drogas, visto por eles como fonte legítima de recursos “revolucionários”.
Por fim, Garcia mostra sua visão rousseauniana de democracia e “interesse nacional”, deixando claro que não tem nenhum apreço por limites constitucionais impostos ao estado. Para ele, se a “presidenta” foi eleita, ponto final: ela é o interesse nacional em pessoa, e pode tudo:
O interesse nacional que alguns gostam tanto de citar para justificar posições político-partidárias não é fruto de mentes supostamente iluminadas. É, antes, expressão da vontade geral e esta, em uma democracia, resulta da expressão popular que as urnas periodicamente recolhem. O resto é apagão.
Apagão é ser governado por gente assim, extremamente perigosa, autoritária, que usa a mentira como tática deliberada o tempo todo. Um defensor da ditadura mais antiga e cruel do continente afirmar que preza a democracia é algo tão chocante que produz um efeito anestésico em muitos, confundindo suas mentes. Um homem que tece os maiores elogios a Fidel Castro e logo depois acusa o outro de não ser democrata é um espanto tão grande que paralisa o raciocínio de muitos.
Marco Aurélio Garcia não mereceria um segundo de meu tempo, não fosse o “chanceler de fato”, responsável pela completa destruição de nossa política externa e do Mercosul, hoje apenas uma camisa de força ideológica que tanto prejudica a economia de nosso país.
Só nos resta refrescar a memória com a surra intelectual que o gramscista levou de Roberto Campos no programa Roda Viva: http://www.youtube.com/watch?v=tgTcREyhEcE

Rodrigo Constantino
Retomo:
Bem, como diriam os cubanos, "a luta continua", e, no nosso caso, "o debate continua", mas a impressão que eu tenho é que não se trata bem de um debate, mas de uma troca de acusações.
Creio ser importante retornar à entrevista original do Senador Ricardo Ferraço, às Páginas Amarelas de Veja, e verificar cada uma de suas críticas à política externa do governo petista, para ver se ele está errado ou certo, nos seus argumentos.
Muitos deles podem ser subjetivos, ou impressionistas, como o de "apagão" na política externa, uma vez que se acredita que o Itamaraty não esteja dormindo, ou apenas entregando flores.
Mas cabe sim verificar o que está sendo feito.
Vemos, por exemplo, uma contínua erosão das liberdades democráticas e um profundo desrespeito aos direitos humanos num país membro do Mercosul, e temos o direito de perguntar o que o Itamaraty está fazendo em relação a isso.
Talvez coubesse lembrar um pouco a cláusula democrática no Mercosul, que foi acionada em toda a sua potência contra a destituição legal de um ex-presidente paraguaio, ao passo que no caso da Venezuela nada está sendo feito, pelo menos publicamente.
Talvez seja o caso de invocar a imagem dos três macacos...
Paulo Roberto de Almeida 

Guinness da NAO-leitura: o mais importante livro NAO lido do seculo XXI: despikettyzando as leituras...

Gozação, claro, mas não menos real: o livro MAIS IMPORTANTE do século XXI, como se apressaram em caracterizar esse tijolo de 700 páginas os distributivistas afoitos, é também, segundo essa pesquisa totalmente não-científica, o livro MAIS NÃO LIDO do mesmo século.
O que já é alguma coisa, reconheçamos: muita gente comprou o livro, encheu a conta bancária do autor de royalties exagerados, e deixou o livro nas primeiras trinta páginas.
Acho que vão ter de constituir um comitê especial de trituração de invendidos apenas para esse livro...
Como apontado na matéria abaixo, a maior parte das pessoas que falaram sobre o livro não o tinha lido, o que também é o caso deste blogueiro.
Mas eu já conhecia as teses do autor desde pelo menos dois anos atrás, pois acompanho a produção dos intelectuais franceses, e estava dando aulas em Paris em 2012, quando as primeiras matérias a respeito saíram em forma de artigos analíticos (vou procurar no meu computador o que guardei a respeito sobre o autor e suas teses). Não antecipei, como muitos, o "sucesso" do livro quando ocorreu a edição americana. Aí, fui ler numa livraria, como sempre faço antes de eventualmente comprar, o tal livro. Fiquei bem uma hora e meia em cima do diagnóstico (razoável) e das prescrições (todas ruins) do autor. Talvez eu escreva algo a respeito, mas já venho fazendo comentários seguidos neste blog, introduzindo todas as matérias que julgo interessantes a respeito das teses do autor. Como já antecipado aqui, depois das glórias recebidas pelo autor, cabe "despikettyzar" as mentalidades, contaminadas pelo ardor distributivista-estatal do francês.
Acho que já está chegando...
Paulo Roberto de Almeida

Not Many People Got Past Page 26 Of Piketty's Book

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PIKETTY
Thomas Piketty's "Capital in the Twenty-First Century," a 700-page economic tome on the dangers of rising income inequality, is the summer's most unread book, according to a totally non-scientific analysis conducted by a mathematics professor and published by the Wall Street Journal.
Professor Jordan Ellenberg looked at the five most popular book passages in a number of current best-sellers, according to data from Amazon Kindle readers. He determined the average page number readers highlighted and divided that by the total number of pages in the book. A high number, according to Ellenberg, means that readers are reading until the end. Donna Tartt's Pulitzer Prize-winning blockbuster, The Goldfinch, for example, earned a score of 98.5 percent on the index.
Piketty's book scored a dismal 2.4 percent. The latest of the five most popular highlights in Piketty's book is located on page 26, according to the Ellenberg.
When "Capital" was first translated from French into English earlier this year, it shot up to number one on Amazon's best-seller list. The print book briefly sold out on the site.
"Piketty mania" went totally viral. Despite the book's fame, it was pretty clear all along that a lot of the people talking about the book hadn't read it.
The French economist is apparently OK with that.
“The problem with all the publicity is you have people who write about the book who apparently have not opened it,” Piketty said in June on Bloomberg TV’s “Countdown.” “That’s fine with me, the objective was to promote debate.”
That objective has clearly been achieved. In May, the Financial Times published a harsh rebuttal to Piketty's work, saying his data was manipulated and full of mistakes. In response, a bunch of the world's most renowned economists spent Memorial Day weekend churning out takedowns of the FT's takedown of Piketty.
If you, like the author of this post, haven't yet finished Piketty's tome, the short of it is that he analyzed centuries of economic data to illustrate how modern-day capitalism makes the rich richer much faster than wages grow for everybody else and if governments don't step in to intervene, the future looks pretty bleak. There are a bunch of good guides to the book online. You can also watch HuffPost's interview with the author here.

Educacao: a escolha fatal do Brasil pelos 10pc do PIB vai atrasar ainda mais o setor - Mailson da Nobrega

Escolha fatal: 10% do PIB para a educação Coluna: Mailson da Nóbrega
Veja, 5/07/2014

A lei que obriga a aplicar 10% do PIB em educação é equivocada. Quase dobra os atuais 5,8% do PIB. que é a média dos países da OCDE. A regra será cumprida até 2024. O gradualismo dá a ideia de responsabilidade e realismo. Teríamos tempo para nos preparar. Nada disso. Trata-se de escolha inconsequente, irrealista e futura causa de oportunidades perdidas.
A história está cheia de escolhas fatais, adotadas com boas intenções ou com o mero objetivo de poder c fama. Quando erradas, podem condenar um país ao declínio ou à pobreza por muitas gerações. No século XV, a dinastia Ming interrompeu a exploração marítima chinesa por considerá-la a fonte da crise nas finanças públicas. Segundo o historiador americano David Landes, quem fosse ao mar, mesmo para comércio, podia receber a pena de morte. A China era uma potência naval.
Seus navios eram dez vezes maiores do que as caravelas portuguesas. Em 1421, o almirante Zheng He navegou pelo mundo com uma frota de 317 navios e 28000 homens.

Assim, Portugal e Espanha — e não a China — lideraram as grandes descobertas e estenderam seus domínios à África, à Ásia e às Américas. Landes afirma que tal isolamento explica os cinco séculos do declínio chinês. A China, a maior potência mundial da época, tornou-se pobre e humilhada por invasores europeus e japoneses. Somente quando Deng Xiaoping decidiu abraçar a economia de mercado (1978) a China iniciou a recuperação.
Outro historiador, o britânico Ian Kershaw, analisou dez escolhas fatais na II Guerra, entre 1940 e 1941. Destaco duas delas, que contribuíram para a vitória dos aliados: (1) a invasão da União Soviética pela Alemanha, que enfraqueceu seu poder bélico; e (2) o ataque a Pearl Harbor pelo Japão, que fez com que os Estados Unidos entrassem no conflito.
Claro, a nova lei não terá a dramaticidade dos casos citados, que tiveram forte repercussão mundial. Aqui, vai ser apenas nosso o ônus do aumento de gastos em educação. Será mais um efeito do ambiente criado pelos governos do PT, segundo os quais sempre é possível ampliar gastos sociais, mesmo que seja inviável sua continuidade ou que beneficiem essencialmente os não pobres, como nas despesas previdenciárias. Criticar o aumento desses gastos é considerado preconceito contra os pobres, insensibilidade, neoliberalismo e semelhantes. Como ser contra investir mais em educação? Daí o amplo apoio do Congresso ao projeto de lei.
Dois êxitos dos últimos cinquenta anos — Coréia do Sul e China — se devem à boa formulação e gestão de políticas de educação, que resultam em ganhos de eficiência nos gastos. Seus dispendios na área equivalem, proporcionalmente, a somente dois terços dos nossos. Dinheiro não é tudo.
Defensores da lei dos 10% já reconhecem que isso é muito mais do que se vê nos aíses ricos, mas agora recorrem a outro parâmetro: nosso menor gasto per capita em educação. No Brasil, a despesa por aluno é de 3067 dólares, contra 9313 dólares da OCDE (devo esses dados a Hélio Schwartsman). Na verdade, em relação às nações desenvolvidas, o Brasil gasta menos per capita em quase tudo, e não apenas em educação, pelo simples fato de ainda não sermos ricos. A renda per capita média da OCDE em 2009 era de 35900 dólares, mais de quatro vezes a do Brasil, de 8 472 dólares. - Ninguém faz comparações desse tipo. Por exemplo. não se avalia a carga tributária pela arrecadação, mas por sua relação com o PIB. Se a ideia valesse, os benefícios per capita do INSS, equivalentes a 4 157 dólares, deveriam ser igualados aos da OCDE, de 17 880 dólares, também de mais de quatro vezes os nossos (sempre dados de 2009, por razões de uniformidade). Em proporção do PIB, a despesa do INSS iria de 7,5% para 32,2%, quase a carga tributária (então de 32,3% do PIB).
A lei tem outros problemas, advindos da ideologia e do corporativismo que impregnam seu texto. No caso dos 10% do PIB em educação, seu efeito será piorar a já grave situação fiscal.
A educação não precisa de mais dinheiro, e sim de uma revolução na gestão e na forma de remunerar os professores, para melhorar sua qualidade. A lei pouco ou nada contribuirá para isso. Tende a ser uma escolha ruinosa.

Maílson da Nóbrega é economista.

Mercosul: Brasil deveria seguir sozinho segundo Roberto Gianetti da Fonseca (Veja)

O Brasil deve seguir sozinho
Entrevista: Roberto Giannetti da Fonseca
Duda Teixeira
Veja, 5/07/2014

O economista e ex-diretor da área internacional da Fiesp diz que é hora de deixar a enrolada e endividada Argentina de lado e fazer um acordo de livre-comércio com a União Européia

Por nove anos, o economista Roberto Giannetti da Fonseca foi diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), entidade que representa 41% do setor industrial nacional. Até o ano passado, quando deixou o cargo, trabalhou dentro dessa instituição para que o Brasil se abrisse para o mercado internacional. Aos 64 anos, ele agora se dedica a sua consultoria econômica, a Kaduna. "Por causa da decisão de priorizar o Mercosul, o Brasil ficou muito dependente das exportações para a Argentina", diz o economista. Para Giannetti, com o país vizinho à beira de um novo calote na dívida externa, fica claro quanto o Brasil se arrisca em não reduzir essa dependência.

A Argentina tem até o fim deste mês para pagar uma dívida com credores estrangeiros. Qual é o risco de o país dar o calote?

É bastante alto. A Argentina caiu em uma armadilha jurídica. No contrato de reestruturação da dívida, feito alguns anos atrás, há uma cláusula muito importante. Ela determina que os credores que aceitaram receber o valor da dívida com desconto devem ter um tratamento igual ao dos demais credores. A questão é que uma parte menor dos credores, que ficou com 8% do montante, obteve na Justiça americana o direito de receber os títulos pelo seu valor de face, ou seja, 100%. Se os outros, que aceitaram receber menos, agora também entrarem na Justiça, a Argentina terá de pagar o valor integral. Isso representaria uma dívida total de 100 bilhões de dólares, muito mais do que os 28 bilhões de dólares de reserva internacional que o país tem.

O que pode ser feito, então?

A única saída é negociar com aqueles que aceitaram o desconto e tentar retirar a cláusula. Ao mesmo tempo, é necessário convencer os outros fundos, chamados de abutres, a aceitar o valor de face, mas em um prazo mais longo.

O que aconteceria se a Argentina desse o calote?

Se o calote for inevitável, os argentinos estarão diante de uma crise da maior gravidade. Eles ficarão isolados do resto do mundo. Será uma situação caótica. Qualquer propriedade do Estado argentino no exterior — imóveis, navios e contas bancárias — poderá ser penhorada para pagar aos fundos abutres. A comunidade internacional, porém, se esforçará para evitar esse cenário. Deve haver uma nova renegociação, com a ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional) e de outras instituições. Para isso, a Argentina tem de se sentar à mesa sem arrogância, com humildade.

A palavra "abutre" não é exagerada?

Pode ser, mas a analogia não deixa de fazer sentido. Esses fundos compram títulos de dívida de países ou empresas em dificuldades por uma fração da cifra original. Depois, entram na Justiça e tentam ganhar o valor integral do devedor, arrancando o seu fígado. Pode-se não gostar deles, mas a realidade é que não há nada de novo nisso. Fundos mais agressivos existem em qualquer mercado. O erro por parte da gestão dos presidentes Néstor e Cristina Kirchner foi acreditar que eles não seriam um problema no futuro. Houve um certo descaso. O governo argentino deveria ter negociado antes com os administradores desses fundos e minimizado as dificuldades. Era algo que podia ter sido evitado.

Qual seria a conseqüência, para o Brasil, de um calote argentino?

As conseqüências não seriam financeiras, já que os investidores sabem muito bem diferenciar um país do outro. Os efeitos negativos ocorreriam mais no âmbito comercial. O mercado interno argentino está em franco declínio e é o destino de mais de 20% das nossas exportações de manufaturados, como peças de automóveis, sapatos e eletrodomésticos. Sem reservas em dólar, ou seja, se der o calote, a Argentina não terá como pagar esses bens. O volume do nosso comércio com a Argentina então cairia bastante. A perda em exportação de manufaturados pode chegar a 5 bilhões de dólares por ano.

No mês passado, o Brasil alterou o acordo automotivo com a Argentina. Antes, podíamos exportar sem imposto 1,95 dólar em carros e peças para cada dólar importado. Agora, ficou em 1,5 dólar para cada dólar importado. Ou seja, ficou mais caro exportar. Foi uma decisão acertada?

Qualquer acordo é melhor do que nada. Mas, se a crise chegar, nem essa ajuda terá efeito. Eles não terão como pagar o que importam de qualquer jeito.

Dar ênfase demais ao comércio com a Argentina foi um erro?

Certamente. Preso ao Mercosul, o Brasil deixou de assinar acordos de livre-comércio com outros países. Exportar 20% dos manufaturados para um país instável como o dos nossos vizinhos é muito arriscado. Se nossa economia fosse mais aberta, estaríamos exportando esse valor para países como Japão, Estados Unidos, Canadá ou para a Europa.

O Mercosul negocia um tratado de livre-comércio com a União Européia há catorze anos, mas a Argentina sempre atrapalha as conversas. Qual é a probabilidade de esse país embolar o jogo novamente?

Os argentinos sempre surpreendem na última hora. Deixam a negociação seguir para avaliar até onde o Brasil é capaz de chegar. Então, quando tudo está bem adiantado, dizem que não aceitam o que foi colocado na mesa. Em 2004, o Brasil chegou muito perto de fechar com a União Européia, mas aí houve o boicote da indústria argentina, que reclamou do risco de ter tarifas reduzidas cm relação aos concorrentes europeus. Houve uma sabotagem em um momento decisivo. Foi uma pena porque, enquanto o Mercosul fracassou, o México já havia feito um acordo com a União Européia quatro anos antes. O Chile concluiu o seu em 2003. O tratado com a Colômbia e o Peru entrou em vigor no ano passado. O elevado desempenho da economia desses países atualmente é resultado direto desses tratados. O Mercosul, contudo, foi na contramão e preferiu ficar isolado.

Pelas regras do Mercosul, o bloco só pode decidir por consenso. O Brasil está de mãos amarradas, ou há alternativas?

Os negociadores brasileiros deveriam ter assinado o acordo com a União Européia sem a Argentina, dando cinco anos para os nossos vizinhos se adaptarem à nova situação. Para fazer isso, há uma saída técnica. Bastaria usar o waiver, como é chamada a possibilidade de abrir uma exceção quando os membros do bloco não chegam a um consenso. Isso permitiria ao Brasil sintonizar os ponteiros com a União Européia em condições privilegiadas. Paraguai e Uruguai têm interesses semelhantes aos nossos e certamente iriam aderir de imediato. Não podemos mais responsabilizar a Argentina porque as coisas não avançam. A culpa é toda nossa, porque temos realmente todos os argumentos técnicos e jurídicos para concretizar o acordo. Negociar tratados é uma atitude soberana de cada país. É verdade que a Argentina prejudica o andamento das conversas, mas isso não deve ser um impeditivo aos demais membros do Mercosul.

Qual é a conseqüência da decisão do Brasil de fazer tudo em bloco e se contentar com os tratados de livre-comércio que o Mercosul já assinou?

Uma das desvantagens competitivas das empresas brasileiras atualmente é que elas não têm acesso facilitado a vários mercados. Nossos produtos, por pagarem taxas de importação maiores, tornam-se caros e são preteridos por consumidores e indústrias de outros países. Nossos concorrentes mexicanos, chilenos, colombianos ou malaios, que fizeram tratados de livre-comércio, vendem seus produtos mais barato em todo o planeta. Em geral, as indústrias brasileiras perdem para esses rivais tanto em preço quanto em tecnologia. Antigamente, os carros produzidos no Brasil eram bastante competitivos. A Fiat, a Volkswagen e a General Motors vendiam automóveis à China, à Europa e à África.
Hoje é impossível imaginar isso. Na comparação com outros veículos, o nosso é muito caro, porque todos os insumos têm preço elevado e trazem uma tecnologia defasada.

Qual tem sido o impacto da perda de mercados internacionais dentro do Brasil?

Nossa dificuldade de exportar manufaturados está criando uma situação perigosa, que é a especialização da produção. Em vez de o Brasil ter uma indústria diversificada e ampla, passa a se concentrar em alguns nichos, no agronegócio e na produção de minérios. Eu não sou contra o desenvolvimento dessas áreas. O problema é que elas não são suficientes para um país do porte do Brasil.

Por que não são suficientes?

Um país com o tamanho do nosso pode e deve ousar muito mais. Até porque, nos anos 1970 e 1980, o Brasil foi um dos líderes mundiais na exportação de manufaturados, de baixo e médio nível tecnológico, e também de bens de consumo. O pais se saía muito bem na competição com a Coreia do Sul, com a China ou com a Malásia. A indústria nesse tempo era pujante e gerava bons empregos, com bons salários. Alguns especialistas têm dito que não há evidência empírica de que a indústria tenha melhorado o padrão de vida das sociedades. Essa afirmação é absurda. Na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha, foi a revolução da indústria que alçou esses países aos patamares elevados que desfrutam hoje em termos de hegemonia econômica e bem-estar. Existe uma ou outra exceção à regra, como Singapura, mas trata-se de uma ilhota com 5 milhões de habitantes. Singapura pode viver de serviços porque nem sequer há onde instalar uma zona manufatureira. Em uma nação da dimensão do Brasil, com 200 milhões de habitantes, isso seria inviável. Os empregos fornecidos pela indústria são fundamentais para o desenvolvimento do nosso país.

O desemprego no Brasil está em um nível considerado baixo, de cerca de 7%. Como isso é possível se a indústria enfrenta problemas?

Mais do que olhar esse número, é preciso observar a qualidade dessas vagas. Os melhores empregos são os industriais, que exigem uma formação profissional. Anualmente, o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) forma 3,5 milhões de técnicos no pais. A questão agora é: por que investir neles se depois não haverá emprego na indústria? Nosso setor de eletroeletrônicos, por exemplo, sumiu. Em 2006. o Brasil exportou 2,6 bilhões de dólares em celulares. No ano passado foram apenas 147 milhões de dólares, segundo a consultoria Teleco. Milhares de bons empregos desapareceram. As vagas que estão em ascensão são aquelas de meio período, de baixa qualidade, sem produtividade. O brasileiro que pensa que isso não tem nada a ver com sua qualidade de vida no futuro está enganado. O salário que ele conseguirá e o valor dos produtos que terá condições de comprar dependem diretamente da solução ou não desse problema. Esse é o ponto.

É justo concluir que os empresários brasileiros apoiam o protecionismo estatal por medo de competir?

Alguns setores certamente não estão preparados para concorrer com importados mais baratos. Outras políticas devem ser postas em prática, como a desoneração plena e permanente de tributos na exportação. Também seria necessário melhorar a qualidade dos portos, ferrovias e estradas. Essas medidas, em conjunto com a abertura da economia, proporcionariam crescimento econômico e gerariam empregos de qualidade. A curto prazo, a exposição maior ao mundo traria competição forte. Mas essa dificuldade inicial depois seria recompensada. Achar que políticas isolacionistas podem funcionar para sempre é uma ilusão. Os empresários brasileiros sabem que, se ficarem limitados ao Mercosul, seus produtos se tornarão velhos e suas empresas não terão perspectivas a médio e longo prazo.

Quanto tempo os empresários brasileiros levariam para se adaptar, se um tratado com a União Européia fosse assinado?


Se tudo for benfeito, três ou quatro anos. Um mandato presidencial seria suficiente.

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