sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Consequências geopolíticas do ataque trumpista à Venezuela.

        Começo por revisar o título deste artigo, dedicado às consequências para o Brasil da abdução trumpista do líder chavista da Venezuela, nos primeiros dias de 2026. O conceito de “geopolítica da desordem” tem sido geralmente aplicado ao desmantelamento da ordem construída a partir de Bretton Woods (1944), com seguimento em San Francisco (Carta da ONU, 1945) e em Genebra (acordo do Gatt, 1947), tendo como principal responsável o presidente Trump, desde o primeiro, mas sobretudo no seu atual mandato. Na verdade, essa ordem tem um destruidor bem mais efetivo do que o dirigente americano: Putin. O líder russo vem conduzindo, com especial ímpeto, a destruição dessa ordem política global vigente até há pouco. As sucessivas etapas desse processo desagregador podem ser indicadas.
        Sua obra revisionista começou por um discurso na Dieta russa em 2005, no qual Putin lamentou a dissolução da URSS como tendo sido “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Ela continua por um outro, na Conferência sobre Segurança de Munique, em 2007, quando Putin contesta a ordem global ocidental, que teria pretensões à hegemonia universal, em detrimento, é claro, da Rússia. O projeto alternativo a essa ordem prossegue na prática, pela aliança com a China, na Organização de Cooperação de Xangai. Fundada imediatamente após os ataques terroristas de setembro de 2001 nos Estados Unidos, seu estatuto foi assinado em São Petersburgo, em 2002, tornando-se operacional a partir de 2003, com o objetivo de promover a segurança regional e a cooperação econômica entre seus membros: China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão na origem; vários outros países aderiram desde então, incluindo Índia e Paquistão (2017), Irã (2023) e Bielorrússia (2024).
        Independentemente desses vínculos, Putin começou a criar a sua própria geopolítica da desordem desde 2008, invadindo a Georgia (que tentava aderir à Otan), a Transnístria, em 2010, território da Moldova setentrional, e mais adiante, no seu golpe mais audacioso, aproveitando uma nova revolução na Ucrânia em 2013-14 para se apossar ilegalmente da península da Crimeia, ao mesmo tempo em que usou a população russa do Donbas (Ucrânia oriental) para promover um movimento separatista que levaria, mais adiante à proclamação de duas “novas repúblicas independentes” na região, Donetsk e Luhansk, que, obviamente, só a Rússia de Putin reconheceu. Foram etapas preparatórias à invasão da Ucrânia, o que sempre figurou em sua agenda revisionista, não obstante acordos de garantias firmados pela Rússia.
        Esses avanços agressivos da nova geopolítica de Putin não receberam a devida atenção por parte da comunidade internacional, a não ser, após a tomada da Crimeia, a imposição de sanções moderadas por poucos países ocidentais e sua expulsão do G7-G8, uma admissão feita em 1998, no otimismo da reintegração da Rússia ao mundo ocidental. O Brasil de Dilma Rousseff sequer se dignou a honrar a tradição diplomática brasileira de estrito respeito ao direito internacional, pois a presidente considerou a invasão russa uma “questão interna da Ucrânia”. A geopolítica da desordem já estava, portanto, criada desde meados dos anos 2010, antes até que Putin empenhasse ativamente seu apoio secreto na primeira eleição de Trump, em 2016, presumivelmente convertido em asset russo antes mesmo do fim da URSS.
        No seu primeiro mandato, Trump foi relativamente “moderado”, operando a conversão do Nafta – o tratado de livre comércio entre os EUA, Canadá e México – num acordo tripartite, com muitas restrições protecionistas, assim como a elevação unilateral de tarifas sobre aço e alumínio contra todos os fornecedores externos, inclusive o Brasil. Já tinha demonstrado, então, seu desprezo pelo sistema multilateral de comércio, assim como sua total ignorância do lado operativo do mecanismo aduaneiro, afirmando que milhões de dólares seriam pagos pelos estrangeiros ao Tesouro, quando o são pelos importadores e consumidores americanos. No segundo mandato, a despeito de um documento relativamente robusto, feito pela Heritage Foundation (Project 2025), continuou demonstrando que não possuía nenhuma noção clara de estratégia geopolítica, ainda que o documento fosse um roteiro expressamente preparado para iniciar uma nova ordem global a partir de janeiro de 2025. Todos os novos assessores, à diferença de 2017-2020, acatam sem contestação suas piores loucuras.
        Em 2025 se chegou, finalmente, não apenas a uma geopolítica da desordem, mas a uma verdadeira opção pelo caos, pois é isso o que vem resultando de todas as iniciativas de Trump, nos terrenos econômico, político e militar, nos planos bilateral, multilateral e dos blocos ou alianças nos quais os Estados Unidos participam de maneira mais ampla desde o final da Segunda Guerra Mundial. Observa-se uma curiosa convergência, provavelmente uma submissão pouco secreta, em relação ao primeiro destruidor da ordem mundial, Putin, o personagem mais influente na própria ascensão política de Trump. Isso explica, em grande medida, sua postura em relação à Ucrânia, feita de uma evidente opção pela sua derrota no terreno militar e por um favorecimento inequívoco das demandas russas.
        A opção de Trump por uma ruptura com a trajetória diplomática americana, sempre imperial, mas rigorosamente alinhada às tradições e valores ocidentais, é revelada por inteiro, por vezes de forma cabal, na nova Estratégia Americana de Segurança (2025), em clara oposição às orientações seguidas desde o imediato pós-guerra, em especial no contexto hemisférico e certamente no confronto com os aliados europeus, que são objeto não apenas de seu desdém, mas de uma virtual animosidade. Já efetuei, neste mesmo espaço, uma breve análise da estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental (Será?, 12/12/ 2025; https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/). Cabe agora examinar as implicações mais vastas dessa geopolítica do caos.
        Desde os desafios colocados nos anos 1930, quando as potências fascistas europeias empreendiam uma ofensiva em direção da América do Sul – o que motivou uma reação do então hesitante império americano e do próprio regime varguista –, o Brasil e a América do Sul não enfrentavam desafios tão relevantes quanto esse projeto de reconquista hemisférica. Ele não tem precedentes na história do continente, desde a doutrina Monroe original (1823), passando pelo “corolário Roosevelt” (1903), o do Big Stick, empunhado sobretudo no Caribe e na América Central, chegando agora ao mal chamado “corolário Trump” à doutrina Monroe, quando ele é, efetivamente, um retorno à era da colonização do mundo pelas grandes potências. Não se trata apenas de impedir a ação de adversários ou competidores no “quintal hemisférico”, mas de redesenhar o mapa do mundo no sentido do “triunvirato”, projeto examinado em outro artigo aqui mesmo: “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial” (Será?, 7/11/2025: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/).
        O “ato fundador” da nova geopolítica trumpista pode ter sido a operação de abdução do ditador chavista, mas ela não se deterá provavelmente nesse simples episódio militar, ainda que seus desenvolvimentos sejam ainda imprecisos. Despiciendo examinar a evolução futura do triunvirato imaginado por Trump, que talvez sonhe com uma repetição de Yalta, para discutir as novas zonas de influência sobre o mundo (o que não ocorrerá, não por falta de vontade de Putin, mas por provável oposição de Xi Jinping). Cabe, sim, examinar a postura do Brasil em face dos complexos desafios lançados pelo imprevisível presidente americano. Essa postura pode ser guiada por nossas tradições diplomáticas, bastante bem representadas pelas orientações básicas de uma corporação profissional comprometida fundamentalmente com o interesse nacional, dentro dos parâmetros oferecidos pelo Direito Internacional. Mas ela também precisa levar em conta as novas realidades criadas pelos diktats de Trump.
        Na concepção trumpista, aliados são os países submissos, no continente americano ou na própria Europa, representada por vários iliberais, sem descartar evidentemente a Rússia de Putin, que precisaria ser reintegrada aos negócios do mundo, especialmente em favor da família Trump. Os “inimigos”, por outro lado, ademais dos europeus “decadentes”, são alguns rebeldes do Sul Global, sendo o grande adversário representado pela China. Na perspectiva desse “ato fundador” da geopolítica trumpista, cabe, portanto, examinar os principais atores dessa “novela” venezuelana e as relações do Brasil com cada um deles.
        Nesse campo concreto das relações exteriores do Brasil, os principais atores são, pela ordem: a Venezuela, os Estados Unidos, a China, a Rússia e Cuba. A China é, atualmente, o principal parceiro econômico não só da Venezuela, como do próprio Brasil. A China compra a maior parte do (pouco) petróleo produzido na Venezuela, tendo já investido fortes somas na restauração da sua capacidade produtiva, valores a serem amortizados em petróleo ao longo de décadas à frente. A Rússia é o principal fornecedor de armas ao país caribenho, tendo feito promessas não honradas de garantir sua segurança. O Brasil foi um dos principais parceiros da Venezuela, desde a preeminência chavista no governo e no país, mas perdeu espaços para essas duas grandes autocracias nos últimos anos; ela tem uma enorme dívida, não paga, para com o Brasil, que permanece ainda no limbo. Os EUA, desde o início de 2025, se tornaram o principal ator interno e externo, para o bem e para o mal, para a Venezuela e, também, para o próprio Brasil, sendo que a agenda das ações comerciais e outras, tomadas pelo Big Brother hemisférico, são unilaterais, podendo ser brutais. Cuba será apenas a próxima vítima na lista.
        Não parece haver qualquer perspectiva de alguma unidade na América Latina, no sentido dos países se contraporem aos atos abusivos tomados pelo império recolonizador, tendo em vista a total incapacidade de coordenação no âmbito da Celac, da OEA, ou sequer emergindo a partir de uma hoje inexistente capacidade de liderança brasileira na região. O primeiro gesto do presidente Lula, depois de protestar contra o “sequestro” do ditador venezuelano, foi telefonar para sua sucessora antes mesmo que ela tomasse posse. Sua proximidade política com as duas grandes autocracias do Brics, assim como as íntimas relações do PT com os líderes chavistas são fatores que pesam na falta de credibilidade do presidente brasileiro para qualquer esforço de mediador eventual no tratamento da novela venezuelana.
        Nem a China, nem a Rússia, ademais de protestos puramente retóricos, ousarão criar alguma contenda com os EUA por causa das agruras atuais do país caribenho. Mas a postura do Brasil para com a China e em relação ao drama venezuelano é um dos critérios pelos quais a diplomacia personalista de Lula será vista por Trump e pela equipe trumpista. O fato é que Lula e a diplomacia profissional, independentemente de defenderem, por interesse próprio ou por adesão aos fundamentos doutrinais de uma diplomacia que remonta a Rio Branco e a Rui Barbosa, o primado do Direito Internacional nas relações bilaterais e em foros multilaterais, terão de se haver, doravante, com as investidas da nova geopolítica trumpista da desordem.

Brasília, 7 de janeiro de 2026.
Relação de Publicados n. 1616.


Revista Será?, Editorial, artigo de Paulo Roberto de Almeida

Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº691

Recife, 9 de janeiro de 2026.

Caros leitores,

2026 começa sob tensão, ruído e incerteza — e é precisamente por isso que seguimos adiante. Desde 2012, a Revista Será? mantém uma aposta deliberada na reflexão crítica, no rigor intelectual e na pluralidade de vozes. Em um mundo que acelera simplificações e flerta com o autoritarismo, reafirmamos, neste novo ano, nossa determinação em produzir conteúdo de qualidade, capaz de iluminar zonas obscuras do presente e oferecer instrumentos de compreensão, não slogans.

Abrimos a edição com “O protetorado bolivariano de Trump – Editorial”, no qual a revista analisa, sem concessões, os sinais de uma nova forma de dominação política e econômica na Venezuela. Na sequência, Paulo Roberto de Almeida, em “O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?”, amplia o foco e examina os dilemas estratégicos impostos ao Brasil por um cenário internacional em franca decomposição do multilateralismo.

Em “O ano 2026 começou muito mal – Crans Montana, Venezuela e Irã”, Rui Martins articula tragédias e conflitos para mostrar como a lei da força ameaça substituir, de vez, as normas internacionais. Paulo Gustavo, em “Medo e Fascismo”, desloca o olhar para o plano mais profundo da política, investigando o medo como ferramenta central das novas formas de autoritarismo e convocando à vigilância democrática.

O diagnóstico social brasileiro aparece com precisão em “Brasil, um país tradicionalista”, no qual Hubert Alquéres discute os limites da modernização nacional à luz de valores persistentes, desconfiança institucional e polarização. A edição ganha especial densidade com a chegada de nosso novo colaborador equatoriano, Johnny Jara Jaramillo, que se integra de forma valiosa ao corpo da Revista Será?. Em “2026: Retornar à Alteridade”, ele nos oferece uma reflexão filosófica poderosa sobre o esgotamento do vínculo com o outro e a urgência ética de reconstruir a convivência humana em sociedades governadas pelo medo.

Encerrando os ensaios, Carlos Eduardo de Vasconcelos, em “Jogos de Acertos de Contas, Riscos e Poesia. Salvemo-nos”, propõe um pensamento transversal que articula geopolítica, tecnologia, direito e arte, lembrando que sem ética e diálogo não há futuro possível. Na Última Página, a charge de Elson sintetiza, com ironia e acuidade, o espírito crítico da edição.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

O protetorado bolivariano de Trump - Editorial
O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump? - Paulo Roberto de Almeida
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O ano 2026 começou muito mal - Crans Montana, Venezuela e Iran - Rui Martins
Medo e Fascismo - Paulo Gustavo
Brasil, um país tradicionalista - Hubert Alquéres
2026: Retornar À Alteridade - Johnny Jara Jaramillo
Jogos de Acertos de Contas, Riscos e Poesia. Salvemo-Nos - Carlos Eduardo de Vasconcelos.
Última Página, a charge de Elson


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Não há soberania legítima sem democracia - AUGUSTO DE FRANCO (Inteligência Democrática)

Não há soberania legítima sem democracia

AUGUSTO DE FRANCO

Inteligência Democrática, Jan 9, 2026

Os democratas deveriam tomar muito cuidado com o abuso do termo soberania. A soberania nacional (dos Estados-nações) é importante: sem ela não seria possível uma ordem internacional baseada em regras. Um país (mais forte) avançaria sobre o território de outro país (mais fraco). Por mais importante que seja, porém, a soberania não pode estar acima da democracia como valor universal e nem dos direitos humanos, que também são universais. Um Estado não pode massacrar seu próprio povo e rejeitar qualquer crítica ou sanção de outros países com base na alegação de que é soberano. Esse é um conceito ilegítimo de soberania.

O conceito de soberania, tal como o entendemos na modernidade, não surgiu de um único estalo criativo, mas de uma construção histórica e jurídica complexa. No entanto, o pensador universalmente reconhecido como o sistematizador ou "teórico da soberania" é o francês Jean Bodin, no século 16.

Na sua obra Os Seis Livros da República (1576), Bodin definiu a soberania como o poder "absoluto e perpétuo" de um Estado. Para ele, a soberania era a "pedra angular" que mantinha a unidade do corpo político.

Antes de Bodin, juristas medievais já haviam preparado o terreno. Eles buscavam justificar a independência dos reinos em relação ao Papa e ao Imperador através de fórmulas como superiorem non recognoscens (não reconhecer superior) e rex in regno suo imperator (o rei é imperador em seu próprio reino).

Hannah Arendt observa, entretanto, que Bodin utilizava originalmente o termo latino majestas (majestade), que foi posteriormente traduzido para o francês como souveraineté. É uma observação muito importante porque revela as raízes autocráticas do conceito.

Após Bodin, o conceito foi retrabalhado por outros autores. Thomas Hobbes radicalizou a ideia da exclusividade da força, enquanto Johannes Althusius propôs corretamente, ainda no século 17, que a soberania deveria residir no povo como um todo, e não em um governante individual.

Na perspectiva democrática, a soberania é um conceito que se aplica aos Estados-nações e não aos governantes, partidos ou instituições que eles controlam. Mesmo assim, onde há um poder soberano sempre haverá a tendência de encarar os cidadãos como súditos e a sociedade como dominium do Estado.

Por isso há uma tensão entre os conceitos de soberania e democracia. Se a soberania foi formulada inicialmente para justificar o poder absoluto e indivisível dos reis, não é fácil concilia-la com a ideia democrática de que o poder legítimo pertence a qualquer um — ou melhor, aos que "não têm título para governar".

Mesmo a ideia (aparentemente) democrática de ‘soberania popular’ é questionável. Pois a democracia, assim como não é poder de poucos (oligoi) - porque aí seria uma oligarquia; e nem dos melhores (aristoi) - porque aí seria uma aristocracia; também não é o poder de muitos ou de todos (“o povo”) e sim o poder de qualquer um.

Nos Estados democráticos de direito só a lei (democraticamente aprovada) deve ser encarada como soberana. Não os que fazem as leis, não os que interpretam as leis, não os que aplicam as leis. Isso significa que, nas democracias, os poderes não são soberanos - nem conjunta, nem separadamente.

Ditadores convocam manifestações em defesa da sua soberania para explorar, oprimir e dominar seu próprio povo. É como se dissessem: “Faço tudo isso mesmo e ninguém tem nada com isso. É minha soberania”. Governantes populistas, não raro, procedem da mesma maneira para obter dividendos eleitorais e se prorrogar no poder, bypassando o critério da rotatividade ou alternância democrática. Alguns desses últimos - como Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro e Lula da Silva - ainda são cínicos. A defesa da soberania como um valor universal (acima até da democracia) vale para a Venezuela, mas não vale para a Ucrânia. Vale para Cuba, mas não vale para Taiwan. Soberania só vale para seus aliados, não para seus inimigos.

Toda essa conversa de soberania, entretanto, não vale muito num mundo autocrático. O que significa que só num mundo democrático, onde se valoriza o direito internacional, os acordos multilaterais e os órgãos compartilhados por Estados-nações para fazer valer tais acordos, a noção de soberania se sustenta legitimamente. Num mundo sem regras, onde a força faz a lei - como quer Trump e como quer Putin -, a chamada “soberania nacional” não existe de fato. Só é soberano de fato quem tem o poderio militar.

Para os democratas, esse é um conceito ilegítimo de soberania. Não há soberania legítima sem democracia.

O Brasil entre a segurança internacional e a sua própria segurança cidadã: resposta da IAGemini, via Airton Dirceu Lemmertz

O Brasil entre a segurança internacional e a sua própria segurança cidadã: resposta da IAGemini, via Airton Dirceu Lemmertz

Em comparação a outros países [em especial as potências estrangeiras], por que o Brasil ignora a segurança nacional?

https://www.youtube.com/watch?v=rt0fx1wS0Fc (https://www.youtube.com/watch?v=ZuX-GAToMhg , https://www.youtube.com/watch?v=2wfDC2xjYN8 , https://www.youtube.com/watch?v=1WvIjjcmDos)

A percepção de que o Brasil "ignora" a segurança nacional em relação às grandes potências (EUA, China, Rússia) decorre de uma priorização histórica de questões internas, embora dados de 2025 e 2026 mostrem uma mudança de postura com novos investimentos estratégicos. 

1. Foco em Segurança Pública vs. Segurança Nacional 

Enquanto potências globais focam em projeção de poder e contenção externa, a prioridade brasileira é a segurança pública. 

Prioridades da Sociedade: Em 2026, a segurança é a segunda maior preocupação dos brasileiros, focada em combater o crime organizado, milícias e a violência urbana.

Desvio de Recursos: Problemas como desigualdade social e corrupção drenam recursos que potências estrangeiras destinariam à defesa externa. 

2. Disparidade de Investimento 

O Brasil não possui o mesmo fôlego financeiro que as potências mundiais para manter uma máquina de guerra global. 

Orçamento: Enquanto os EUA estimam gastos de US$ 895 bilhões em defesa para 2025/2026, o orçamento total militar mundial atingiu US$ 2,7 trilhões.

Recuperação Brasileira: Apesar da disparidade, o Brasil subiu para a 11ª posição no ranking global de poder militar em 2025. Até 2026, o país projeta injetar R$ 113 bilhões em projetos estratégicos, como o submarino nuclear, blindados modernos e caças Gripen. 

3. Neutralidade e Entorno Regional 

Diferente das potências que enfrentam ameaças diretas de outros Estados, o Brasil opera sob uma lógica de "zona de paz". 

Diplomacia: O país historicamente evita conflitos diretos, embora a nova Política Nacional de Defesa (2025) alerte para o risco de o Brasil ser arrastado por conflitos de vizinhos na América do Sul ou pela competição entre grandes potências.

Vulnerabilidade de Fronteiras: A maior ameaça externa é a porosidade das fronteiras, que servem como rotas para o tráfico de drogas e armas, impactando a segurança interna. 

4. Novos Desafios Tecnológicos (2026) 

Em 2026, a segurança nacional brasileira está sob alerta devido a ameaças que independem de poder de fogo tradicional: 

Ataques Cibernéticos: 2026 é projetado como o ano mais crítico para ciberataques no Brasil, visando setores de tecnologia e infraestrutura.

Interferência Estrangeira: A Abin emitiu alertas graves sobre a possibilidade de desinformação (deepfakes) e interferência externa nas eleições de 2026, o que coloca a soberania nacional sob risco digital. 

* Em suma, o Brasil não "ignora" a segurança, mas a molda para enfrentar o crime organizado interno e a dependência tecnológica, em vez de se preparar para guerras convencionais de larga escala.

Fonte (IA Gemini):

A humanidade caminha muito lentamente - Paulo Roberto de Almeida

A humanidade caminha muito lentamente

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre a persistência da força sobre o direito

        A Humanidade avança muito lentamente, por vezes regride:
        Até o século XX, grandes potências, impérios colonialistas, países militarmente poderosos, podiam impor sua vontade contra povos distantes, ou até vizinhos, em total impunidade, pelos meios os mais brutais, sem qualquer restrição legal ou pruridos morais. Alguns saíram na frente, mas todos aqueles dispondo de tecnologias mais avançadas acabaram seguindo a tendência opressora.
        No século XX, algum relance de ideias humanistas e liberais levou, depois de muita destruição, a alguns exercícios de contenção; o primeiro de forma ainda oligárquica e sempre imperialista, soçobrou em suas contradições e revelou-se inepto.
        Mais algumas dezenas de milhões de mortos, e um novo intento ainda oligárquico tentou recomeçar de maneira mais abrangente.
        Tampouco resistiu às paixões e interesses de candidatos a novos imperadores do mundo, ou pelo menos de suas respectivas regiões.
        Não estamos muito longe da guerra de Troia, das paixões e ambições daqueles que se julgam poderosos.
        Não existe, nunca existiu, algum “cavalo” capaz de encerrar o desejo de conquista desses conquistadores ambiciosos demais para os seus meios e para a tolerância dos cidadãos que pagam os custos e para a resistência dos agredidos.
        Estamos, talvez, no limiar de um novo equilíbrio, como sempre muito precário, até o próximo aventureiro.
        A humanidade caminha muito lentamente e ainda teremos muita miséria pela frente, que emerge da ignorância e das frustrações. A educação é o caminho, mas muito difícil, pois como todos nascemos “0 km” é preciso recomeçar a cada vez, ensinando tudo de novo. Alguns têm essa oportunidade, outros não.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5178, 8 janeiro 2026, 1 p.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Colaborações PRA: South America: From European Contact to Independence (encyclopedia); -H. Micheal Tarver, Carlos E. Márquez Petit (eds.)

Colaborações PRA a esta obra:


South America: From European Contact to Independence
H. Micheal Tarver (Anthology Editor) , Carlos E. Márquez Petit (Anthology Editor)
New York: Bloomsbury Publishing, 2025, 2 volumes
https://www.bloomsbury.com/us/south-america-9781440879142/

1581. “Tordesillas, Treaty of (1494)”;
1582. “Bandeiras”;
1583. “Bandeirantes”;
1584. “Andrada e Silva, José Bonifácio de”'
1585. “Brazil, Independence Movement”.

Description
Discover the people, events, milestones, and landmarks in the history of South America from European contact to their independence.
This two-volume encyclopedia provides entries on many of the key people, places, and events essential to the last 500 years of South American history, from the Cajamarca Encounter of 1532 to the independence of Suriname in 1975. With entries on the indigenous peoples of countries such as Argentina and Uruguay, the major geographic landmarks from the Andes Mountains to the Amazon River, and on cities from Buenos Aires to Quito, this encyclopedia provides students and researchers alike a valuable guide to South American history, geography, and culture.
The volumes comprise entries on various South American colonies and countries; events and places; groups, organizations, and industries; independence movements; individuals; objects and artifacts; and organizations and administrations. Primary source document excerpts, a timeline, and original maps provide readers with a direct connection to the past and inspire historical inquiry.
This comprehensive encyclopedia offers a window to the past, showing how the South America of the present came to be.

Table of Contents
Alphabetical List of Entries
Preface
Chronology
Maps
Introduction
Thematic Essays
1. Geography of South America I: Human Geography
2. Geography of South America II: Physical Geography
3. Independence (Concept of),
4. Independence Movements: An Overview
5. Mapping South America
6. Print Culture in South America
7. Public Works in South America
8. Pueblo and Pueblos
Encyclopedia Entries
Glossary
Bibliography
Index
About the Contributors


Transcrição das contribuições próprias, nesta postagem em minha página da plataforma Academia.edu; link:


Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990 - Marcos Degaut (Gazeta do Povo)

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990

Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo.
Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo. (Foto: EFE/André Coelho)

Na primeira parte deste artigo, analisei os princípios que estruturam a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilusões hegemônicas do pós-Guerra Fria, a acomodação pragmática entre grandes potências, a revalorização do Hemisfério Ocidental e o retorno explícito à lógica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.

 Essa reorientação estratégica dos EUA, que reposiciona a América Latina no centro do cálculo geopolítico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorientação da política externa brasileira sob o governo Lula, que se revela não apenas anacrônica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.

Em um sistema internacional que voltou a operar segundo lógica de poder, competição geoeconômica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente frágil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista é mero invólucro, pois não dispõe de uma política externa consubstanciada em uma grande estratégia, mas exclusivamente de uma práxis diplomática formal que consiste em slogans, maneirismos afetados e apego desorientado a representações abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. Não se trata de erro pontual ou ruído tático, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convertê-los em ação diplomática consistente.

Para compreender a gravidade desse descompasso, é preciso esclarecer o que está em jogo. Grande estratégia não é diplomacia cotidiana, nem soma de políticas setoriais, tampouco retórica diplomática ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabouço intelectual e político que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econômica, base produtiva, política externa, tecnologia e coesão interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. É a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competição permanente – e, sobretudo, de fazer escolhas.

A grande estratégia existe para responder a perguntas basilares: o que é vital, o que é secundário e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna refém de agendas dispersas, pressões circunstanciais e impulsos ideológicos. Não por acaso, potências que falham em sua formulação tendem a desperdiçar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de moldá-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transformação das forças que regem a ordem internacional, a ausência de uma grande estratégia tende a aprofundar a irrelevância do País em temas geoeconômicos, tecnológicos e militares, sem prejuízo de outros.

Não há, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, segurança, indústria, comércio exterior e inserção internacional. O país opera por reflexos, slogans e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o próprio entorno estratégico.

É exatamente essa lacuna que define a política externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua projeção global com base em critérios objetivos de poder e risco, Brasília continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em noções vagas de “multilateralismo”, “diálogo intercultural” e “Sul Global”, conceitos que não são traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influência ou segurança.

Os formuladores e executores da política externa não se deram conta de que a autonomia estratégica com a qual o Brasil – e, grosso modo, os demais países latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo – contou nos últimos 35 anos não existe mais. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisfério Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o início do atual mandato de Trump, tendo sido pessimamente empregada por todos os governos de esquerda da região. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estratégicos americanos na região é brutalmente superior àquele das últimas três décadas.

A operação militar na Venezuela expõe essa nova realidade: à luz da NSS 2025, a captura de Maduro não deve ser vista, exclusivamente, sob a lente primária da mudança de regime, do combate ao tráfico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migratório norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da custódia virtual de reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um hub de interesses antagônicos aos de Washington na América Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promoção multissetorial de ações e projetos que ameaçavam (e ameaçam) interesses que o governo dos EUA considera vitais. Não que, à queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dançar e proferir diatribes e ameaças aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declarações dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel Díaz-Canel. Creio não convenha especular se os mandatários são inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.

A ausência de grande estratégia torna-se particularmente visível na América do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer liderança estratégica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espaço regional minimamente coeso – política, econômica e geopoliticamente – optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o país confunde peso econômico e demográfico com influência e militância ideológica com liderança. O resultado é um vácuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.

O contraste com países vizinhos é eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alianças, explicitam orientações programáticas e constroem coalizões políticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma visão consensualista que já não encontra eco no continente. A integração regional, antes instrumento potencial de projeção estratégica, sobretudo no que diz respeito à sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplomático sem capacidade de coordenação real.

No novo contexto hemisférico, a postura brasileira é especialmente custosa. A estratégia americana não é neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coerção econômica, pressão regulatória e demonstração de força militar. Países que não se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da política regional e passam a ser tratados como objetos de gestão estratégica.

Washington concebe o hemisfério ocidental como área vital a ser protegida da presença estratégica de potências extra-hemisféricas. Infraestrutura, energia, logística, telecomunicações, minerais críticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Essa lógica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudança não preserva autonomia. Ao contrário, expõe o país à pressão externa sem instrumentos de barganha.

Essa deficiência estrutural também explica a relação desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posição central na inserção internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estratégia de balanceamento, atração de investimentos, transferência de tecnologia, diversificação ou proteção de interesses sensíveis.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês, concentradas em commodities de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estratégicos. Trata-se de uma relação estruturalmente assimétrica, na qual o país aceita passivamente uma dinâmica baseada na exportação de commodities e na dependência tecnológica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimarização da economia e a fragilização da base industrial.

Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presença no território brasileiro em setores estratégicos como energia, portos, ferrovias, telecomunicações e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos já não são vistos apenas como negócios, mas como vetores de influência geopolítica e vulnerabilidade estratégica. Essa percepção orienta políticas industriais, sanções, controles de exportação e pressão diplomática.

Ainda assim, o governo evita qualquer política de diversificação séria, proteção de setores sensíveis ou condicionamento estratégico da relação bilateral. Não há balanceamento, não há linhas vermelhas, não há estratégia, apenas acomodação. Age como se a geopolítica fosse um ruído externo irrelevante, quando, na realidade, ela já molda decisões comerciais, financeiras e tecnológicas em escala global.

Essa ambiguidade não produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estratégia teria imposto limites, definido setores críticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a cooperação econômica a objetivos políticos, comerciais, tecnológicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.

Em vez disso, o Brasil naturalizou uma relação assimétrica, evita qualquer posicionamento firme em temas sensíveis aos interesses chineses e abdica, na prática, de autonomia estratégica, tudo isso sob o discurso genérico do pragmatismo. Ao não definir uma estratégia própria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decisões tomadas fora de seu controle.

O mesmo padrão se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da projeção internacional do governo, a agenda climática é tratada como fim em si mesma, e não como instrumento de poder. Compromissos amplos são assumidos, constrangimentos externos são aceitos, mas esses ativos políticos não são convertidos em vantagens estratégicas duráveis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posição internacional do país. Uma grande estratégia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, questionáveis.

Além disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de cálculo geoestratégico grosseiro, pois confere às concepções ambientais de determinados países europeus relevância objetiva inspirada principalmente na autoatribuída “superioridade moral” que tais países proclamam. Utilizar metas propostas por potências europeias para fins de benchmarkambiental em diversos setores é, na melhor das hipóteses, um contrassenso, e, na pior, uma piada grotesca, particularmente para um país que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.

A participação do setor industrial nas economias dos países da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produção industrial dos países da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espetáculo de zelotismo autocongratulatório e destruidor da economia real é a Alemanha, cuja produção industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. É nesse exemplo de suicídio econômico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.

Somados, esses elementos revelam uma política externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem visão de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competição entre grandes potências, instrumentalização da economia e reorganização de esferas de influência, o Brasil opera como se a simples participação em fóruns multilaterais fosse suficiente para garantir relevância.

A ausência de grande estratégia se manifesta de forma especialmente grave na área de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estratégica, mas os investimentos são insuficientes, o planejamento é fragmentado e as capacidades militares não estão articuladas a uma visão geopolítica coerente.

O Atlântico Sul, vital para o comércio exterior, para a segurança energética, para as comunicações submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional – conectado a rotas globais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando – avança mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.

Em um cenário no qual os EUA reforçam sua presença naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estratégicas e tratam o hemisfério como área prioritária, essa fragilidade brasileira não é teórica, mas risco estratégico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuasória deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprudência.

A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estratégica acabou. Potências estão escolhendo prioridades, delimitando espaços de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estratégicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de visão estratégica, em contexto no qual a ausência de uma grande estratégia não é neutralidade sofisticada – é vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequências.

Parte central do problema reside em uma diplomacia anacrônica, inadequadamente estruturada no que diz respeito à carreira, aparelhada, que se move por inércia, hermética, avessa à modernização, presa a tradições que já não resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercepção de ser um centro de excelência. O mundo mudou, a estratégia americana mudou, a competição entre grandes potências se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que já não existe e a práticas, métodos e conceitos ultrapassados.

Política externa não se faz no vácuo. Um país com o peso geopolítico do Brasil não pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as relações internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das políticas dos global players.

Tradições e práticas diplomáticas só fazem sentido e mantêm sua legitimidade quando são manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicerçadas em diretrizes de política externa que estejam alinhadas a uma grande estratégia de nação. A adesão cega a “tradições” trai o próprio conceito de diplomacia estratégica e prejudica toda a nação.

O balanço final é severo. Enquanto as grandes potências voltam a pensar o mundo em termos de poder, território, hierarquia e interesse nacional, a política externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. Não por falta de recursos, peso econômico ou relevância regional, mas por um déficit estrutural de pensamento estratégico e por sua lógica intrínseca de parasitação do Estado.

Isso se traduz em dependência geopolítica, fragilidade econômica, perda de influência regional e redução da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisfério que deixou de ser periférico para voltar ao centro do cálculo geoestratégico, o custo para o Brasil, nesse cenário, é de uma crescente marginalização.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dia Nacional do Leitor: Que tal tirar aquele livro da estante?

 Descubro, num calendário que recolhi numa última visita a uma farmácia, que hoje, 7 de janeiro, é o "Dia Nacional do Leitor", com a seguinte recomendação: "Que tal tirar aquele livro da estante?"

Bem, não posso dizer o mesmo: minhas estantes estão abarrotadas de livros, e os que estão em minha mesa neste momento, registro nestas duas fotos (não nessa desordem claro).

Nota sobre a revista 200, elaborada no âmbito do Itamaraty em 2018 - Carlos Henrique Cardim, Paulo Roberto de Almeida

 Revista 200 (2018): número único, nunca distribuída



Nota sobre a revista 200, elaborada no âmbito do Itamaraty em 2018

Em 2017, o Governo Michel Temer criou, por decreto, uma Comissão Nacional do Bicentenário, destinada a preparar as comemorações nacionais vinculadas aos primeiros 200 anos de vida do Estado-nação independente. No âmbito do Itamaraty, sob a condução do Departamento Cultural, o embaixador Carlos Henrique Cardim concebeu e assumiu o encargo de dirigir uma publicação voltada para a divulgação de materiais de caráter histórico e cultural relevantes a esse objetivo. A revista adotou justamente o nome de 200 e seu primeiro número, ricamente ilustrado e contendo artigos originais e reprodução de textos antigos alusivos à história do Brasil, foi ultimado nas últimas semanas de 2018.
Eis o Expediente da revista:
Revista 200, ano I, n. 1, outubro-novembro-dezembro 2018; ISSN: 2596-2280
Grupo de Trabalho do Bicentenário da Independência do Ministério das Relações Exteriores
Ministro Aloysio Nunes; Secretário Geral, Marcos Galvão
Chefe de Gabinete: Eduardo Saboia; Coordenador Adjunto: Carlos Henrique Cardim

Por motivos desconhecidos pela equipe responsável por esse primeiro número, ele não foi distribuído pela administração inaugurada em janeiro de 2019. Seu conteúdo digital encontra-se, porém, disponível na plataforma de interação acadêmica Academia.edu, no seguinte link:
https://www.academia.edu/43900971/Revista_200_n_1_2018_?sm=b&rhid=37260500978
Pela informação:
Carlos Henrique Cardim, embaixador, professor na UnB.
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor universitário.

 



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Paulo Roberto de Almeida: presença física, virtual, digital nos instrumentos de busca, por Airton Dirceu. Lemmertz

 "Aparições" deste contrarianista nos registros implacáveis de Madame IA, instrumentos de busca, registros dos órgão de informação (algum da Polícia?), tal como recolhidos por meu anjo da guarda informático Airton Dirceu Lemmertz:


Durante o ano de 2025 (de 01/01/2025 a 31/12/2025), as aparições do nome "Paulo Roberto de Almeida" nas mídias digitais:

- Livros:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&tbs=cdr:1,cd_min:1/1/2025,cd_max:12/31/2025&udm=36&source=lnms&sa=X&ved=2ahUKEwjRiK_RlveRAxVkkJUCHTNTGjEQ0pQJegQIAhAV&biw=1358&bih=654&dpr=1

- Notícias:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&biw=1358&bih=654&tbs=cdr%3A1%2Ccd_min%3A1%2F1%2F2025%2Ccd_max%3A12%2F31%2F2025&tbm=nws&ei=ISNdadPRIdLc1sQPgZey6A0&ved=0ahUKEwiT5rrKlveRAxVSrpUCHYGLDN0Q4dUDCA4&uact=5&oq=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&gs_lp=Egxnd3Mtd2l6LW5ld3MiGiJQYXVsbyBSb2JlcnRvIGRlIEFsbWVpZGEiMgYQABgHGB4yBhAAGAcYHjIGEAAYBxgeMgYQABgHGB4yBhAAGAcYHjIGEAAYBxgeMgYQABgHGB4yBhAAGAcYHjIGEAAYBxgeMgUQABiABEiIRVCNDFiONnAAeACQAQCYAZoBoAG6BaoBAzAuNbgBA8gBAPgBAZgCBaACgQbCAgoQABiABBhDGIoFwgIGEAAYFhgemAMAiAYBkgcDMC41oAeMJLIHAzAuNbgHgQbCBwUyLTIuM8gHN4AIAA&sclient=gws-wiz-news

- YouTube:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&udm=7&biw=1358&bih=654&source=lnt&tbs=srcf%3AH4sIAAAAAAAAAC3J0QqAIAxG4bfxJvCdNlsybA70N7Cnj6y783G26QODJSa3oLWDciNbOigJu5cFaMGfO-k5zaFev3VlugX0InILD-227LhTAAAA%2Ccdr%3A1%2Ccd_min%3A1%2F1%2F2025%2Ccd_max%3A12%2F31%2F2025&tbm=#ip=1

- Instagram:
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sca_esv=078c3514d761d573&udm=7&tbs=cdr:1,cd_min:1/1/2025,cd_max:12/31/2025,srcf:H4sIAAAAAAAAAC3J0QqAIAxG4bfxJvCdNlsybA70N7Cnj6y783GmDwyWmNzCprWDciNbPCgJu5cFaMGfO-k5zaFev3VlugX0InILD3zrpkdTAAAA&source=lnt&sa=X&ved=2ahUKEwj7z7POlfeRAxWHrJUCHUK6AWgQpwV6BAgEECQ&biw=1358&bih=654&dpr=1#ip=1

- IA (Gemini):
https://www.google.com/search?q=%22Paulo+Roberto+de+Almeida%22&sa=X&sca_esv=078c3514d761d573&udm=50&source=lnms&aep=1&ntc=1&ved=2ahUKEwjj7Pf-lveRAxUIRLgEHekzC5oQ2J8OegQIBBAE&biw=1358&bih=654&dpr=1&mstk=AUtExfAwsvdij4DMOjZ8TOzLKHzQ1aYJGizFXoa2AN4D9EtmlPGFp7gvoTuqKak_bx3C85o-meDhNWoXk1zr7UIrc3QmCC068m1k0tw8UmFGzYZeBF0Hw3ZYJrkg83FgQmzrLdw2Lj0CVfQ6dEjOzIgSBOyb7gza_j_0Olc&csuir=1

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Faltou alguma coisa? Ah, sim, o diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasília, onde estou fichado como "diplomata subversivo"...

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Uma questão de simples dignidade Paulo Roberto de Almeida  As Forças Armadas russas chegaram a um nível de depravação, e de deformação, das ...