sábado, 24 de janeiro de 2026

Diálogos com Marco Aurélio Nogueira: Paulo Roberto de Almeida

 Informe do Ateliê de Humanidades, Janeiro 2026


O último episódio de 2025 do programa Diálogos com Marco Aurélio Nogueira (autor de A democracia desafiada), uma parceria entre o Instituto Ética e Democracia e o Ateliê de Humanidades, foi um rico diálogo sobre as relações internacionais contemporâneas com o diplomata Paulo Roberto de Almeida, autor de Vidas paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil (Ateliê de Humanidades Editorial, 2025). Assista ao episódio e conheça todo o acervo do DIálogos!

1597. “O mundo gira...: Diálogo com Marco Aurélio Nogueira”, Brasília, 16 outubro 2025, 10p. Notas para desenvolvimento oral em “Diálogo” com Marco Aurélio Nogueira, em emissão audiovisual gravada em 16/10/2025, de 18:00 a 19:30hs. Emissão divulgada, sob o título de “O mundo gira, com Trump e além de Trump”, no quadro dos “Diálogos com Marco Aurélio Nogueira”, em 21/10/20225, 19hs, sob patrocínio dos canais no YouTube de @etica.democracia e @ateliedehumanidades (link: https://ateliedehumanidades.com/2025/10/20/024-dialogos-com-marco-aurelio-nogueira-o-mundo-gira-com-trump-e-alem-de-trump-com-paulo-roberto-de-almeida/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial

Por Paulo Roberto de Almeida
Revista Será? (ano xiv, n. 693)
jan 23, 2026 | Artigos

Comentando o primeiro aniversário do mandato de um dos destruidores da ordem global.

Um ano transcorrido no segundo mandato; jornalistas e comentaristas estão fazendo balanços e análises sobre as “realizações” dos primeiros (talvez os últimos também) doze meses da mais bizarra presidência jamais vista, conhecida e registrada nos 250 anos de vida da primeira república do hemisfério ocidental. Vou me deter unicamente nos aspectos de política internacional que interessam mais especialmente ao Brasil e à América Latina.

Ainda em novembro de 2025, passados apenas 10 meses de uma administração imprevisível, tive a oportunidade de participar de um seminário, a convite do prof. Antônio Carlos Lessa, do Centro de Estudos Globais da UnB, organizado em duas etapas: o primeiro sobre o tema “O Mundo Segundo Trump e o ocaso da Ordem Liberal Internacional: Nacionalismo, Transacionalismo e o Futuro do Multilateralismo”, cabendo-me, no segundo, discorrer sobre a “Geopolítica da Desordem: A Rivalidade com a China e o Abandono da Segurança Coletiva”. Como sempre faço quando sou convidado a eventos de certa densidade intelectual, elaborei minhas ideias sobre ambas as vertentes do seminário, colocando meu texto previamente à disposição dos interessados (no meu blog Diplomatizzando, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-desordem-mundial-gerada-por-dois.html).

Na verdade, retifiquei ligeiramente a caracterização de “Geopolítica da Desordem”, optando pelo mais impactante julgamento de “Opção pelo Caos”, porque foi exatamente isso que o presidente americano introduziu no mundo, e em seu próprio país, desde janeiro de 2025. A Desordem já tinha sido iniciada bem antes, quando seu íntimo amigo russo passou a invadir países vizinhos, começando pela Georgia, em 2008. Não contente, deslocou soldados russos para uma franja setentrional da República da Moldávia, a Transnístria, por acaso na fronteira com a Ucrânia, conservando esse contingente nessa “região autônoma” desde 2010, supostamente para proteger certo número de russos que lá habitam. Imediatamente após deu a partida a seu plano mais ambicioso, o de incorporar a Ucrânia de volta na Federação Russa, por meio de agitação nas regiões russófonas do Donbas, Donetsk e Luhansk. Em 2014, aproveitou mais uma das várias revoluções políticas na Ucrânia, para invadir e anexar, ilegalmente, a península da Crimeia, primeira etapa da guerra de agressão ao país inteiro a partir de fevereiro de 2022. A anexação da Crimeia e a invasão da Ucrânia valeram à Rússia sanções adotadas por diversos países aderentes aos dispositivos pertinentes da Carta da ONU, entre os quais nunca esteve o Brasil (a pretexto de não serem “sanções multilaterais”, et pour cause: pelo uso abusivo do direito de veto pelo agressor, membro permanente do CSNU).

Mas voltemos ao primeiro “aniversário” do transgressor americano, personagem que já foi diagnosticado, por psiquiatras, como sendo um “narcisista maligno” – caracterização feita pela primeira vez com respeito a Hitler por Erich Fromm, refugiado do nazismo –, um “psicopata”, além de “paranoico” e “sádico”. Como não sou especialista na matéria, dedico-me a analisar suas ações no plano das relações exteriores dos Estados Unidos. Já tivemos o registro de suas ações no primeiro mandato (2017-2020), a maior parte concentrada na “política comercial”, se o termo se aplica ao desmantelamento por completo da cláusula de nação mais favorecida, o núcleo central do sistema multilateral de comércio (embora bem mais do que isso, pois é um princípio de séculos, vindo da Lex Mercatoria).

Ele começou anulando o Nafta, o acordo de livre comércio da América do Norte (Canadá-EUA-México, 1994), continuando pela aplicação de sobretaxas unilaterais sobre importações de aço e alumínio de qualquer procedência. Suas medidas abusivas tiveram de ser “negociadas” – na base da imposição – com cada um dos fornecedores habituais. O Brasil foi fortemente atingido e aceitou cotas para o aço e uma sobretaxa no alumínio. Deslanchou uma guerra comercial contra a China – vista como inimiga preferencial – e exigiu que o país asiático importasse toneladas adicionais de soja americana, atingindo mais uma vez o Brasil. Ele também passou a atacar e perseguir os imigrantes, retirou os EUA do acordo de Paris (de 2015) e já anunciava pretender fazer o país retornar à era do carvão e reforçar o petróleo. Na área da segurança, já ameaçava deixar a Otan se os membros europeus não pagassem mais.

Se a Desordem foi a tônica do primeiro mandato, no segundo a Opção pelo Caos foi não apenas uma preferência pessoal, mas o método usado para implodir a ordem existente. Tudo o que ele não havia implementado no primeiro mandato, passou sistematicamente a praticar a partir de 20 de janeiro de 2025, começando pelo ímpeto selvagem imprimido às milícias de caça aos imigrantes, praticamente similares aos Einsatzgruppen, os esquadrões móveis da SS nazista, perseguindo judeus, ciganos e outros inimigos do regime extremista. No plano externo, como a comprovar a sua profunda ignorância econômica, apresentou, em abril, suposto “Dia da Libertação”, um tarifaço comercial sem qualquer base racional, pelo qual déficits bilaterais no intercâmbio registrado eram convertidos em alíquotas totalmente desproporcionais ao comércio efetivamente realizado, penalizando pequenos países.

O Brasil foi inicialmente “premiado” com uma sobretaxa modesta, a baseline de 10%, mas logo em seguida punido politicamente com uma cacetada de 40% adicionais sobre a quase totalidade da nomenclatura aduaneira, num ato de interferência direta na Justiça brasileira, a pedido da família golpista, visando a liberação do capo da tramoia que imitava o assalto ao Capitólio de janeiro de 2021, em favor do autor da carta acusatória. Ao mesmo tempo vieram sanções diretamente pessoais – Lei Magnitsky, cancelamento de vistos e outras ameaças – contra a soberania brasileira. O impacto do tarifaço em produtos de significativo consumo popular redundou mais adiante na redução ao baseline, mas não em toda a gama afetada pelas medidas unilaterais, claramente contra as regras da OMC. Mas esse tipo de retaliação passou a ser adotado praticamente contra todos os parceiros comerciais dos EUA, aliados ou adversários (salvo um, protegido da ira jupiteriana por segredos de inteligência).

Um dos atos mais exemplares da nova fúria imperial, extraordinariamente expandida desde o primeiro mandato, encontrou expressão documental na nova versão da Estratégia de Segurança nacional, divulgada em novembro de 2025, sintetizando a “visão do mundo” – se ela existe – de toda uma equipe voltada contra a Europa liberal, supostamente decadente, e indisfarçavelmente promotora de uma tripartição imperial da governança global. Nesse esquema, o destruidor primário da ordem onusiana, o tirano de Moscou, recebeu todas as deferências do imperador hemisférico, inclusive com uma recepção de verdadeira visita de Estado, em sua incursão à terra gelada que já tinha pertencido ao império czarista até meados do século XIX. Ao mesmo tempo, o impulso colonialista na parte do mundo considerada chasse gardée do renascido império hemisférico começou com ameaças ao Panamá, foi concretizado numa incursão direta para a captura do ditador da pátria chavista, cuja ditadura foi preservada, mas sob regime de tutela, até se estender à Groenlândia, considerada parte vital na arquitetura de segurança nacional, mas contra uma ameaça inexistente.

O lado mais obscuro e brutal das ações do narcisista maligno se revelou nas duas guerras terrivelmente mortíferas, mantidas em Gaza, pelo aliado israelense, e nas terras da Ucrânia, objeto de uma complacência cúmplice em relação ao morticínio especialmente cruel conduzido pelo seu amigo (e possível controlador) russo. Na Faixa de Gaza, a intenção inicial era a de expulsar toda a população palestina para fazer dela uma grande Riviera de luxo, na qual o especulador imobiliário provavelmente exploraria resorts para turistas milionários. A reação negativa das monarquias do Golfo operou uma mudança tática, até chegar numa mais do que duvidosa proposta de um “Conselho da Paz”, integrado por chefes de Estado e de governo, mas no qual o novo imperador possuiria poder absoluto.

Em relação à Ucrânia, a desfaçatez do personagem com respeito às propostas de cessar-fogo ou de armistício, todas elas favoráveis ao, quando não propostas diretamente pelo criminoso de guerra agressor, não tinha sequer uma aparência de equanimidade nas condições impostas ao lado agredido e em relação às amplas e inaceitáveis benesses e vantagens que eram concedidas gratuitamente ao criminoso de guerra iniciador do conflito. Nos dois casos, o desprezo total e integral ao Direito Internacional, o abandono completo de considerações humanitárias e o descarte evidente das instâncias multilaterais onusianas, assim como dos “parceiros” europeus, ficou evidente ao longo de todos os episódios lamentáveis registrados neste primeiro ano de arbítrio personalista em todos os azimutes visados pelo imperador.

No caso do Brasil, e do seu líder, situado nas antípodas ideológicas de concepções políticas e sociais, depois das manifestações de hostilidade ao início, uma suposta “química favorável” não esconde a hipocrisia de uma simpatia construída para evitar novos problemas com o maior país da América do Sul, num contexto de ameaças à Colômbia e mesmo ao México, os países mais diretamente envolvidos com o negócio da cocaína, dois infelizes fornecedores de uma demanda incessante e inesgotável a partir do próprio império. A nova doutrina formulada com base em duvidosa similaridade histórica não chega sequer a ser uma proposta de relacionamento diplomático, mas apenas um convite à submissão colonial, algo praticamente impossível no caso brasileiro, a menos de um improvável retorno eleitoral da mesma tropa de devotos adoradores do imperador hemisférico, que simplesmente conduziu o Itamaraty a um quadriênio inédito de subserviência e de docilidade jamais vistos na história já bissecular de nossa diplomacia profissional.

Impossível prever, dado o caráter errático do narcisista maligno, o que advirá nos dez meses precedendo as eleições intermediárias numa democracia já seriamente abalada e destroçada em seus fundamentos institucionais e, sobretudo, no tocante ao relacionamento do império visivelmente declinante com as demais potências grandes e médias que atuam nos cenáculos ainda abertos a um incerto e titubeante “diálogo”. Dentre os observadores mais atilados – presentes no Financial Times, na Economist, na Foreign Affairs, ou nos principais think tanks vinculados às relações internacionais – não surgiu alguma pitonisa de Delfos que seja capaz de visualizar o que pode ocorrer em 2026 e mais além. O fato é que o mundo já se encontra radicalmente transformado, primeiro pelas ações expansionistas do neoczar, agora pelas turbulências continuamente criadas pelo “psicopata paranoico e sádico” referido pelos psiquiatras. O Brasil e a América Latina estão singularmente expostos à sua bílis deletéria; pena que o cenário regional seja marcado por uma fragmentação também inédita na história.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5195, 21 janeiro 2026, 4 p.

O mundo "sem regras" de Celso Amorim - Thiago Padovan (Revista ID)

 

O mundo "sem regras" de Celso Amorim

Um manifesto da hipocrisia diplomática

Não vejo como aceitar", diz Celso Amorim sobre convite do "Conselho da Paz"  de Trump

Em seu recente artigo para a The Economist, intitulado “How can we live in a world without rules?”, o Assessor Especial da Presidência, Celso Amorim, pergunta retoricamente como podemos sobreviver em um cenário geopolítico onde as normas internacionais parecem ter colapsado.

O texto, escrito na esteira de uma intervenção em Caracas em janeiro de 2026, é uma peça de retórica refinada, mas intelectualmente desonesta.

Ao analisarmos o texto, o cinismo de Amorim salta aos olhos em quatro incoerências fundamentais.

1. A soberania como escudo para tiranos

Amorim inicia seu lamento comparando a “abdução forçada” do presidente venezuelano à captura de Saddam Hussein, classificando o ato como “tragicamente surreal”.

Aqui, é preciso deixar claro que a ação unilateral ordenada por Trump é, de fato, condenável. Trata-se de mais uma uma operação de “cowboy diplomacy” executada sem qualquer planejamento para o “day after”, sem consulta aos organismos multilaterais e, claramente, sem o bem-estar do povo venezuelano como prioridade criando mais um precedente perigosíssimo de que a lei do mais forte substitui a diplomacia.

No entanto, a crítica de Amorim não nasce dessa preocupação legítima com a ordem global ou com a vida dos venezuelanos. Se nascesse, ele teria condenado com a mesma veemência a invasão russa à Ucrânia.

O cinismo de Amorim reside no uso seletivo da indignação:

  • Para Amorim, a “tragédia” não é a fome, a tortura sistemática ou o êxodo de 8 milhões de venezuelanos sob o regime que ele protege; para ele, a “tragédia” é o momento em que um aliado ideológico perde o poder, mesmo que pelas mãos de outro agente irresponsável.

  • Quando tanques russos violam a fronteira de uma democracia soberana (Ucrânia), matando civis e anexando território, Amorim e o governo Lula pedem “paz”, “diálogo” e evitam condenar o agressor, relativizando a soberania ucraniana em nome de “preocupações de segurança” da Rússia.

  • Mas quando uma intervenção — ainda que ilegal e temerária — remove um ditador sul-americano, Amorim subitamente se torna um purista da Carta da ONU.

A “soberania” defendida por Amorim, portanto, não é a do Estado ou a do povo, e muito menos a soberania das regras; é o habeas corpus do governante amigo. Em seu mundo, a soberania serve para blindar o ditador de interferências externas, enquanto o povo permanece refém tanto da tirania interna quanto dos jogos de poder externos.

Devemos rejeitar tanto a irresponsabilidade de Trump quanto a cumplicidade autocrática de Amorim.

2. O mito do “Continente de Paz”

Amorim afirma, com uma audácia que beira o delírio, que algo foi estilhaçado: “a certeza de que a América do Sul é, e continuará sendo, um continente de paz”.

Que paz é essa, Embaixador?

A “paz” das prisões políticas em Caracas? A “paz” da perseguição religiosa na Nicarágua? A “paz” das ameaças de anexação de Essequibo (Guiana) feitas pelo próprio regime que o senhor protegeu diplomaticamente por décadas?

Amorim ignora a tortura interna porque, para ele, a violência só conta se vier do Ocidente.

Sua definição de ‘paz’ é a estabilidade do cárcere.

3. A hipocrisia da “Incerteza de Heisenberg”

Amorim invoca o “Princípio da Incerteza” de Heisenberg para descrever o novo cenário global, onde “qualquer coisa pode acontecer”.

O cinismo aqui reside no fato de que o governo brasileiro, sob sua tutela intelectual, trabalhou ativamente para criar essa incerteza.

  • Quem ajudou a corroer as regras internacionais ao se aliar ao Irã, patrocinador global do terrorismo?

  • Quem enfraqueceu o sistema de direitos humanos da ONU ao se abster de condenar violações na Nicarágua e na China?

  • Quem trabalha para expandir o BRICS, transformando-o em um sindicato de autocracias que buscam reescrever as regras globais para favorecer as ditaduras?

Amorim reclama de um mundo sem regras, mas a política externa que ele desenhou dedicou-se a sabotar a “Ordem Baseada em Regras” (Rules-Based Order) liderada pelas democracias liberais, em favor de uma “multipolaridade” caótica onde a Rússia e a China ditam as normas.

4. O cinismo da “solução” via BRICS

Como remédio, Amorim sugere “diversificação de parcerias”, citando explicitamente o BRICS. É o ápice da contradição. Ele sugere que, para restaurar a ordem e o respeito ao direito internacional, devemos nos abraçar mais forte com a Rússia (que rasgou a Carta da ONU), a China (que ameaça Taiwan) e o Irã (que financia o caos no Oriente Médio).

Conclusão: o medo da accountability

A pergunta do título do artigo de Amorim — “Como podemos viver em um mundo sem regras?” — deve ser traduzida para o que ele realmente sente: “’Como nossos parceiros vão sobreviver num mundo onde os EUA decidiram ignorar a lei internacional com a mesma frieza que a Rússia?”

O lamento de Amorim na The Economist é o obituário de uma doutrina de política externa que escolheu, consistentemente, o lado errado da história.

O Brasil merece uma diplomacia que defenda valores, não ditadores.

Uma publicação convidada por
Thiago Padovan
Projeto Villa Global Village

A Politica brasileira cheira mal: Master, BRB, colusões - Marcia Pezenti (Estadão)

Vorcaro disse à PF que tratou com Ibaneis a venda do Banco Master ao BRB

Marcia Pezenti

O Estado de S. Paulo, 23/01/2026

Em depoimento à PF, Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmou que conversou "algumas vezes" com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda da instituição financeira ao Banco Regional de Brasília (BRB) e pontuou que o governador já esteve em sua casa. Ibaneis é o primeiro político citado pelo banqueiro nas investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal. 

À reportagem do Estadão, o governador, que não é investigado no caso, disse que esteve apenas uma vez na residência de Vorcaro. "Fui em um almoço, quando conheci ele. Entrei mudo e saí calado". 

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal apontaram indícios de que o Master vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras inexistentes ao banco estatal, que hoje tem rombo estimado em R$ 4 bilhões.

Com o avanço do escândalo Master, Fabiano Lana aponta que as revelações envolvendo o ministro do Supremo Dias Toffoli são tantas que o silêncio do magistrado se tornou uma espécie de confissão de culpa: "São suspeitas de ser proprietário oculto de resort via uso de laranjas (confira a reportagem do Estadão), sociedades com parentes de gente ligada à instituição financeira, tráfico de influência e algo a mais. Tudo somado com uma tentativa desesperada, na aparência, de controlar a investigação que o envolve por meio de decretação de sigilo e limites à ação da PF. Ainda não temos o chamado 'outro lado' de Toffoli". 

PRA: Nunca imaginei que pudesse ser diferente, ou seja, que um diretor de banco estatal decidisse sozinho uma compra de 12 bilhões.


A Ucrânia traída em Davos - Olena Tregub e Paulo Roberto de Almeida

 From: Olena Tregub, Transparency International 

“Listening to Western leaders at the Ukrainian Breakfast in Davos left a very bitter aftertaste. You can feel the fear of the US administration in the room, and the fact that almost no one dares to say openly what is obvious: Trump is putting pressure on Ukraine, not on Russia. There were only a few veiled remarks from Sikorski – and almost nothing from anyone else.

Instead, we hear things like the Belgian Prime Minister saying: “Europe is not at war with Russia, therefore we did not confiscate Russian assets.” Or Sikorski claiming that “Europe does not buy Russian energy,” which is simply not true. Then comes the self-congratulation about sanctions, about sanctioning the shadow tanker fleet, while in reality they add a few ships to each new package instead of adopting the radical and long-known solutions that would actually change the situation.

A special moment was the speech of a  “special envoy” who said he came only because a friend invited him and he couldn’t refuse. That he and Kushner are like two volunteers, working for free to end the war in Ukraine. That everything is going great, the result is coming soon, and Putin will agree to everything any moment now.

The only voices of reality came from Ukrainian soldiers. One of them said that Europe should not be surprised when the war comes to its own territory, and that Ukraine is currently holding back over a million Russian troops on Europe’s borders. In other words, Ukraine is already de facto the defensive shield of the European Union. Yet on stage, European leaders still spoke about Ukraine as something external: unclear timelines, unclear criteria, fears that Ukraine’s accession could “destabilize” the EU.

It feels like people whose house is already being approached by a maniac have locked themselves inside, while Ukraine is outside, fighting and defending their home. But for them, Ukraine is only a sacred sacrifice: something to praise for courage, for surviving winter without heating, for endurance under terror – but not something they are ready to fully let into their warm and comfortable house.

Their house is too safe, too warm, too comfortable. And somewhere out there, “two savages” – Ukrainians and Russians – are fighting, and maybe it will somehow pass, maybe it will not reach them, maybe the maniac is not really coming for their house after all.

In the end, everyone praised themselves. Everyone talked about how much they support Ukraine. One congressman even said he prays every night. And only one question remains: if the support is so extraordinary, why has Ukraine not yet won? 

The honest conclusion came from Niall Ferguson: Putin does not care about speeches in Davos. Ukraine needs weapons.”

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Acrescento (PRA): Trump e Putin não decepcionam: são irmãos gêmeos na destruição do multilateralismo e da vida civilizada no mundo. A Europa e os europeus me decepcionam.

A morte do multilateralismo como o conhecíamos - Paulo Roberto de Almeida

 A morte do multilateralismo como o conhecíamos 

Paulo Roberto de Almeida 

A “ONU paralela” de Mister Trump será mais uma degradação do multilateralismo criado em 1945, já abalado pelos atos bárbaros de Putin na Ucrânia e de Netanyahu na Faixa de Gaza.

Teremos alguns anos de horrores na política mundial, enquanto estiverem atuantes as três aberrações pessoais mencionadas acima nominalmente.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 23/01/2026

Como o Master invadirá o ano eleitoral - Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico); comentário inicial de Paulo Roberto de Almeida

 Comentário inicial a este importante artigo de Maria Cristina Fernandes, traduzindo meu horror pessoal com a política brasileira, contaminada no mais alto grsu, e em quase todas as instituições, pelos interesses espúrios de grande parte da casta política.

Este artigo de Maria Cristina Fernandes confirma, uma vez mais, que a política brasileira é uma grande promicuidade de interesses pessoais essencialmente pecuniários prevalecendo sobre o interesse público. Dificilmente o meio político do país deixará de ser nos anos à frente essa pocilga na qual os porcos se refestelam nos despojos do Estado.  Não creio que tenha qualquer solução regeneradora a curto ou s médio prazo. Acredito mesmo que uma nova vitória da extrema-direita em outubro de 2026, será, como a vitória de 2018, a volta de todos os horrores a que já assistimos entre 2019 e 2022, inclusive na política externa, se por acaso Trump ainda estiver no poder. A degradação da política, em todas as suas vertentes, será a consagração da pocilga da qual temos ainda apenas uma dominação parcial do poder dos piores elementos da casta política que enlameia as atividades do Estado na vida da nação. Se achamos Trump um horror e uma degradação no caso da democracia americana, um trumpista na presidência do Brasil representará algo ainda pior: a promiscuidade com s submissão ao império corruptor.

Paulo Roberto de Almeida 

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Como o Master invadirá o ano eleitoral

Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico, 23/01/2026

Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula

A liquidação do Will, braço do grupo Master com clientela nas classes C e D, amplia as faixas de renda afetadas pelo desmonte de um banco cuja teia de interesses se infiltrou no Estado. Dos três Poderes saem as informações que os enredam, num filme parecido com o da Lava-Jato. O Executivo é o Poder menos envolvido, mas, paradoxalmente, é aquele que mais tem que se preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016?

É outro o país, tanto que Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Presidência. É outra a natureza do caso. Não há contratos estatais - o que não significa que o Estado não venha a ser lesado - e, sim, negócios sancionados por brechas regulatórias que permitiram de ganhos estratosféricos a lavagem de dinheiro até do crime organizado. As brechas se alargaram com a conivência de agentes públicos e até de braços dados com eles.

E é outra a arbitragem do rolo, se é que existe alguma. Em 2016, quem arbitrou (mal) o jogo foi o Supremo Tribunal Federal que, desta vez, para dizer o mínimo, está sem legitimidade para fazê-lo enquanto não tomar providências para afastar, para começo de conversa, o ministro Dias Toffoli do caso. Da visita do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, ao ministro Flávio Dino, no Maranhão, sobrou, como única conclusão, a que a questão Toffoli é incontornável.

Nesse jogo de várzea, os investigados tratam de jogar lama uns nos outros e naqueles que os investigam. Aliados do Master na política tratam de garantir um fôlego ali outro acolá nas instituições de controle para que ninguém pense em delação. Com seu questionamento à liquidação do Master pelo Banco Central, o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, cumpriu esta função, mas acabou enquadrado. Se ainda não fizeram o mesmo no STF é porque Toffoli conta com aliados dentro do próprio tribunal.

A origem da lama explica quase tudo. Aliados de Daniel Vorcaro têm se engalfinhado com aqueles de seu ex-sócio, Augusto Lima. Ambos foram presos na mesma operação. Soltos com tornozeleira eletrônica, continuam sob investigação. Lima é casado com uma ex-ministra de Jair Bolsonaro, mas seu ingresso no Master se deu a partir de negócio decorrente de uma privatização na Bahia pela gestão petista.

Este vínculo sempre preocupou o Planalto, mas não impediu que as operações seguissem. O sinal mais evidente desta preocupação foi a nomeação do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva. Antes de ocupar cargos sob Dilma Rousseff e Lula, Wellington foi o escolhido, de uma lista tríplice, para chefiar o Ministério Público da Bahia pelo então governador Jaques Wagner.

Ao fim de sua primeira reunião no Planalto, o novo ministro disse que o principal tema havia sido o Master, no que foi logo corrigido pelo ministro Sidônio Palmeira (Secom). Se é verdade que nenhum MJ controla a Polícia Federal, é razoável imaginar que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que não tem proximidade com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, cultive, pelo menos, a expectativa de ser melhor informado.

Na dita reunião, com Wellington, Sidônio, Costa, Andrei e Dario Durigan (Fazenda), Lula cobrou investigação. O presidente o faz com a mesma veemência de Dilma Rousseff no início da Lava-Jato. Como acredita que não tem nada a ver com tudo isso, manda ir pra cima, não sem antes garantir um melhor fluxo de informações.

Em 2016, os próceres do Centrão envolvidos derrubaram Dilma, subiram ao poder com Michel Temer e propiciaram a ascensão da extrema-direita bolsonarista. Entre os petistas presos, aquele que hoje governa o país é obcecado em vingar sua biografia. Se o presidente está escaldado, o Centrão sofisticou sua blindagem enredando o Legislativo e o Judiciário no crime e ampliou sua presença no Congresso tornando o Executivo mais dependente.

Basta ver como este bloco de poder foi capaz de envolver, na mesma trama, o escritório da família do ministro que enfrentou o golpismo, Alexandre de Moraes, e o filho que Bolsonaro quer colocar no Planalto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mora numa casa financiada a modestíssimos juros pelo BRB, sócio do Master.

Só será possível medir a temperatura com a qual o caso Master afetará a relação entre os Poderes neste ano eleitoral quando o Congresso voltar do recesso. Lula entregou o comando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a quem não apenas cabe chancelar uma eventual CPI como conduzir a aprovação do ministro Jorge Messias (AGU) para o STF. É tão incerto o desfecho de uma CPI e tão grandes as contas a pagar de suas lideranças, que o Congresso tende a se acautelar. Já a pauta governista na Casa passará por barganhas sem fim.

Lula conta com dois ativos para evitar que a imagem de seu governo seja contaminada por esta crise. Um se pauta numa política externa que administrará o bônus do acordo do Mercosul com a União Europeia ante o avanço de Donald Trump. O outro são as próprias eleições presidenciais.

Se, em 2016, a blindagem do Centrão foi alcançada pela derrubada de Dilma, desta vez, a melhor maneira de fazê-lo será pela derrota de Lula. Para convencer o eleitor de que a alternativa à sua eleição é a entrega do Estado brasileiro para o crime, Lula não terá como tergiversar na garantia de que a PF vai até o fim.


Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista - Paulo Roberto de Almeida

Combatendo a extrema-direita na diplomacia brasileira, partir de agora até as eleições...

    Posso ser liberal na economia, anarquista na cultura, democrático na política, conservador na diplomacia (ou seja, em defesa dos padrões tradicionais da diplomacia brasileira (contrário, portanto à política externa partidária, ideológica e personalista tal como praticada atualmente), mas uma coisa que não suportaria contemplar seria a destruição da diplomacia e da política externa tal como foi posta em prática pelo bolsolavismo diplomático, uma vergonha para o Brasil, dada a submissão abjeta, não só aos EUA, mas ao presidente desequilibrado que voltou ao poder em 2025, e já se ativa em destruir a ordem global e o multilateralismo.
    Vou dedicar-me a relembrar o horror que foram os anos de dominação do Itamaraty e da política externa por um bando de beócios amadores, ignorantes em política externa, subservientes ao império americano e partidários da degradação das instituições multilaterais (no que seguiam o antiglobalismo imbecil da extrema-direita americana) e da integração regional.
    Começo por relembrar um trabalho daquela época:

“Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista”. Incorporado como parte de um capítulo no livro Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira (2020).

Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista

Paulo Roberto de Almeida

A diplomacia bolsolavista, formulada em grande medida fora do Itamaraty e operada apenas formalmente por auxiliares da Casa, é feita de rupturas com respeito aos padrões históricos da política externa brasileira, que sempre foi tradicionalmente caracterizada pela busca de autonomia e comprometida, antes de mais nada, com o interesse nacional. Ela é tão bizarra no horizonte bissecular de nossa diplomacia que sequer pode ser assemelhada a uma espécie de desvio padrão numa linha de tendência da política externa nacional, pois ela se situa completamente fora do quadro. Observando-se cronologicamente seu desempenho em um ano e meio de esquisitices de inspiração bolsolavista, pode-se identificar os sete pecados capitais dessa diplomacia sui generis:

1) Ignorância: não parece haver dúvidas de que os que conduzem, de fato, as relações exteriores do Brasil são profundamente ignorantes sobre as relações internacionais e sobre a própria política externa do Brasil. O filho 03 do presidente, que exerce esse papel, não tem a menor ideia de quem foi, nem nunca ouviu falar de Henry Kissinger.

2) Irrealismo: esses “decisores” começam partindo de uma fantasmagoria, o tal de globalismo – que nunca demonstram existir empiricamente – e passam daí a atacar o método por excelência da diplomacia contemporânea: o multilateralismo.

3) Arrogância: como a anterior tribo dos lulopetistas, eles acham que tudo o que existia antes deles foi errado; o chanceler acidental vive apontando distorções na política externa dos últimos 30 anos (falou até “depois de Rio Branco”), não mencionando que serviu de forma obediente todas essas distorções até com entusiasmo (existem provas disso). Ele fez uma completa reforma do Itamaraty sem jamais consultar seus colegas de carreira: por cima.

4) Servilismo: a frase símbolo desse alinhamento automático é o famoso “I love you Trump”, disparado pelo presidente a seu colega americano em setembro de 2019 na ONU. Teve início no primeiro dia de governo quando se ofereceu uma base militar americana no Brasil, prontamente rejeitada pelos ministros militares; mas tem muitos outros exemplos.

5) Miopia: já manifestada numa alegada “ameaça globalista”, tem recusado a cooperação multilateral no combate a um desconhecido, até aqui, “comunavirus”; ela se manifestou em especial na animosidade em relação à China e numa adesão unilateral ao governo de Israel, desconhecendo a complexidade dessas relações e ameaçando negócios e investimentos extremamente relevantes para o presente e o futuro do Brasil.

6) Grosseria: Ela se manifestou sobretudo em direção de líderes estrangeiros que não pensam como o presidente, com ofensas a estadistas europeus comprometidos com a defesa do meio ambiente e também a dirigentes vizinhos de outras correntes políticas.

7) Inconstitucionalidade: a primeira já está comprometida no servilismo, ou seja, a renúncia à independência nacional, para subordiná-la a um dirigente estrangeiro, mas também existe a intervenção nos assuntos internos de outros países; a mais grave é o desconhecimento do Direito Internacional, manifestado no apoio às sanções unilaterais do governo americano, o que pode concretizar-se inclusive contra o próprio Brasil, como no caso das salvaguardas abusivas (e ilegais) contra exportações brasileiras de aço e alumínio.

Todos esses pecados se revelaram abertamente na recusa do multilateralismo, na negligência de normas consagradas do Direito Internacional, no abandono da formulação autônoma da política externa brasileira, na relativização da noção de interesse nacional, na substituição da diplomacia profissional pelos preconceitos de amadores ignorantes, assim como o desprezo pelos princípios constitucionais das relações internacionais. Dois exemplos, entre outros, da subordinação aos EUA: a aceitação do candidato americano à presidência do BID e a adesão ao veto de Trump à participação da empresa chinesa Huawei no leilão do 5G.

Vou dar continuidade a esta ofensiva contra os ignorantes da política externa e destruidores da qualidade de nossa diplomacia.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 janeiro 2026



Moedas no Brasil: um percurso pela sua história (Banco Central)

 MOEDAS NO BRASIL

(a partir do site do Banco Central)

Compilado e reapresentado por Paulo Roberto de Almeida em junho de 2004) (as ilustrações das moedas no site do BC não foram preservadas neste arquivo)

Introdução:

D. Sebastião determinou em 1568 a circulação de moedas portuguesas na nova terra descoberta, promovendo a integração entre a América Portuguesa e o império de Portugal. Começava ali a história da moeda no Brasil. Em cada um dos itens do sumário abaixo você vai saber como surgiram as nossas moedas e quais foram os principais acontecimentos históricos da época. Embarque nesta viagem e conheça o Brasil através deste importante elemento da vida nacional: a moeda.

Sumário do conteúdo:

1. A Moeda no Brasil Colônia
O Pau-brasil
A Cana-de-açúcar
As Minas Gerais
2. A Moeda da Colônia ao Império
A Peça da Coroação
O Café
O Papel-moeda
3. A Moeda na República Velha
4. A Moeda na Era Vargas
5. A Moeda no Período Democrático (1946-1964)
6. A Moeda no Regime Militar
7. A Moeda na Nova República e na Atualidade

Texto, de aproximadamente 20 páginas, disponível neste link:
https://www.academia.edu/149270754/Moedas_do_Brasil_Banco_Central_

A caminho de Itaca... (2004) - Paulo Roberto de Almeida

 Andei descobrindo coisas das quais eu já tinha esquecido, como um antigo site, do início do século. Aqui um texto dessa época:


A caminho de Itaca...

Paulo Roberto de Almeida

De todas as ocupações que me foram dadas até agora exercer, numa vida nômade e aventurosa da qual guardo não poucos momentos de orgulho, a que mais prezo e valorizo, obviamente, é a de professor, ou melhor, de orientador de ensino, uma vez que não sou professor em tempo integral, nem retiro meu principal ganha-pão dessa nobre função de "mestre de artes e letras". Não sei, aliás, se tenho o direito de me considerar professor, no sentido estrito do termo, já que nunca fui treinado para tanto, desconheço as mais elementares noções de pedagogia e não tenho certeza, de fato, se ao exercer esse nobre ofício minha real intenção é a de tentar ensinar algo a outras pessoas ou, como parece mais provável, faço de tudo isso uma grande "figuração" e estou, de verdade, aprendendo algo novo cada vez que me ocupo dessa absorvente atividade.

Antes que alguém pense que sou, apenas e tão somente, um grande "embromador", utilizando-me de inocentes alunos para, constantemente, ensinar "algo" a mim mesmo, desejo retificar minhas palavras, e corrigir essa sensação de improvisação no trato com o corpo discente. Acredito ter realmente algumas coisas úteis a ensinar a outras pessoas, mais por desejo de transmitir "coisas novas", que venho aprendendo desde muitos anos, ao longo de constantes e intensas leituras, do que propriamente por "necessidade" de ter uma segunda profissão (ainda que, de fato, eu a considere a minha "primeira" e "eterna" ocupação, ao lado desta mais formal que exerço temporariamente de "diplomata"). Com efeito, não retiro, como disse, meu sustento dessa atividade que muitos julgam paralela e exercida como uma espécie de "hobby" ou para "complemento de salário". Longe disso, pois que nunca o fiz, pelo menos desde que ingressei no serviço exterior brasileiro, pensando nos retornos pecuniários que retiraria dessa dupla jornada de trabalho, muitas vezes estafante e exercida contra meu lazer pessoal ou dedicação à família, ou em detrimento da ainda mais prazerosa ocupação de simples leitor e escrevinhador de coisas várias.

Nunca pensei em ser professor, achando que eu tinha, de fato, qualquer coisa de "extraordinário" para ensinar a "mentes inocentes", ou que essa minha atividade temporária e fortuita iria fazer alguma diferença na futura capacitação profissional daqueles temporariamente colocados sob minha responsabilidade docente. O que de fato sempre me motivou a ensinar, ou pelo menos a "transmitir conhecimentos", foi uma espécie de motivação interior, algo como uma compulsão inata que me impele a sistematizar o meu próprio "conhecimento" e tentar repassar aquela maçaroca de idéias e conceitos sob uma forma minimamente organizada, de forma a satisfazer minhas próprias necessidades em termos de racionalização do saber adquirido nos livros (e também na observação honesta da realidade) e de "atingimento" de uma nova "síntese" a partir desses conhecimentos dispersos na "natureza". Estou parecendo muito "dialético"?

Não importa, desejo confirmar e reafirmar que o que me impele ser "professor" é mais uma força interna do que uma necessidade externa, quaisquer que sejam as outras motivações aparentemente altruísticas geralmente invocadas nessas circunstâncias (compromisso com o "saber", transmissão de "conhecimento", desejo de "formar os mais jovens", atendimento de uma "vocação" e outras escusas do gênero). Sou professor porque eu mesmo "preciso" disso, não porque outros possam eventualmente "precisar" de minhas competências gerais ou habilidades específicas. Se desejar, você pode considerar isso altamente "egoísta" ou profundamente "narcissístico": não me importo com as classificações externas, pois minha motivação interior não vai mudar porque se descobriu, aparentemente, algum motivo menos "nobre", ou passavelmente "auto-centrado" nesta principal "ocupação secundária".

É esta motivação interna, não necessariamente "espiritual", que me leva a desviar-me de outras atividades, talvez mais prazerosas -- como o próprio lazer pessoal, a convivência familiar ou o simples tempo alocado à minha outra compulsão não tão secreta que é o hábito da leitura --, para dedicar-me a essas práticas docentes com uma certa regularidade e constância. Nem por isso desprovidas de algum retorno pecuniário: a despeito de já ter aceitado dar aulas de mestrado gratuitas em universidade pública -- e de dar incontáveis palestras sem nunca ter sequer invocado alguma remuneração em contrapartida, por vezes mesmo tendo incorrido em despesas pessoais de deslocamentos a outras cidades --, o essencial das minhas atividades docentes se faz segundo tradicionais práticas contratuais. Nem poderia ser de outro modo: se eu deixo de ler ou de escrever para dar aulas, que o "desvio" de ocupação me permita ao menos alimentar esse terrível vício da compra de novos livros e periódicos.

Tampouco eu poderia invocar como motivação "nobre" a própria arte do ensino. Sendo eu mesmo um autodidata radical, não me preocupa tanto o que os alunos possam estar aprendendo, como o próprio conteúdo do que estou ensinando, que pretendo seja o mais claro possível, o mais didático e o mais completo dentro daquele campo de conhecimento. Transmito aquilo que sei; aos alunos, depois, o encargo de reter o novo saber, de complementá-lo com as muitas indicações de leitura que não me canso de fazer ou de interrogar-me sobre algum aspecto pouco claro ou solicitar esclarecimentos adicionais sobre "coisas" passavelmente complexas, quando não prolixas (sim: tenho esse péssimo hábito, talvez pelo excesso de leituras, de "complicar inutilmente" a vida de meus alunos, estendendo-me sobre longos períodos históricos, voltando a um passado remoto para encontrar as "causas" de algum processo atual ou supondo um conhecimento geral, sobre o Brasil ou o mundo, que simplesmente não existe mais para a maior parte das gerações mais jovens). Nesse sentido, sou mais "substância" do que "forma", ao dar uma densidade no mais das vezes dispensável a um conteúdo de aula que a maior parte dos alunos provavelmente preferiria superficial ou no estrito limite do "necessário para fazer a prova". Mas, como disse, não estou principalmente preocupado com o que os alunos possam "aprender" e sim com o que eu mesmo possa "ensinar".

Trata-se, portanto, de uma "má técnica docente"? Talvez, ou quem sabe até, por certo... Minha didática está em "ensinar", ou transmitir conhecimentos, julgando que os alunos, ou ouvintes de alguma palestra, serão suficiente maduros ou responsáveis para procurar, depois, seu próprio aperfeiçoamento cultural ou intelectual, cultivando as boas práticas do autodidatismo que eu mesmo reputo valiosas para mim mesmo (e assim tem sido desde os tempos remotos em que aprendi a ler, na "tardia" idade de sete anos). Tanto sou motivado pela necessidade interior de ensinar, que procuro estender a tarefa além das quatro paredes da sala de aulas ou de um auditório ou seminário acadêmico. Pela necessidade de "complementar" esse ensino fora do período "normal" de atividade docente, criei e mantenho, praticamente sozinho (sem possuir as técnicas para tanto) um site de informação com motivações essencialmente didáticas. Também tenho produzido material impresso como derivação ou complementação das atividades didáticas: praticamente todos os meus livros -- com exceção de um grosso "tijolo" de pesquisa histórica -- resultaram de aulas dadas, conferências pronunciadas, palestras proferidas, seminários a convite (sim, nunca me "convidei" para qualquer tipo de atividade externa, tanto porque não conseguiria atender a todas essas oportunidades).

Tanto o site como os livros e trabalhos publicados, bem mais até do que as aulas dadas em caráter necessariamente restrito, constituem, obviamente, oportunidades para aparecer em público, me tornar "conhecido", quem sabe até "famoso" em certos meios. Seria então por um secreto desejo de prestígio pessoal, de reconhecimento público, de notoriedade acadêmica, que me obrigo a todas essas atividades cansativas, que não raro penetram fundo na madrugada e ocupam quase todos os fins de semana, para maior angústia familiar e evidente cansaço cotidiano? Não posso, honestamente, recusar esse aspecto da "necessidade de reconhecimento", talvez uma demonstração de "desvio de personalidade", buscando na exposição pública e no aplauso dos demais uma satisfação de alguma necessidade "secreta" que o excesso de timidez me impediria de realizar de outro modo. Não creio, todavia, que esse aspecto seja determinante, tanto porque tenho inúmeros outros trabalhos que permanecem rigorosamente inéditos ou porque mantenho, em paralelo, alguma atividade de correspondente dedicado -- e não apenas em direção dos muitos alunos que me procuram pedindo ajuda em trabalhos ou projetos de estudos -- e algumas colaborações regulares com determinados serviços de informação que não levam necessariamente minha assinatura.

A principal motivação, volto a reafirmar, é interna, e deriva dessa minha inclinação pelo estudo, pela sistematização do conhecimento, pela necessidade de eu mesmo "ver claro" no emaranhado de informações que recolho diariamente de livros, jornais e revistas, pelo desejo subseqüente de organizar o conhecimento adquirido em uma nova "síntese combinatória" e pela motivação ulterior de tentar alcançar um público mais amplo ao colocar no papel, se possível impresso e publicado, essa massa de conhecimentos que adquiro de forma contínua e de modo interminável. Tanto é assim que acabo aceitando, contra a opinião familiar e contra o que seria sensato do ponto de vista profissional, dar palestras em alguns cantos recuados deste país continente, sem outra motivação aparente (e real) do que a de atender à solicitação de algum grupo de estudantes que acabaram descobrindo, na Internet ou nas bibliografias, algum livro ou trabalho meu que estiveram na origem dos convites.

Sem pretender dar qualquer conotação de "épico literário" a esse meu ativismo docente, algo de "jornada de Ulisses" pode estar escondida nas minhas aventuras didáticas, no mar revolto das instituições de ensino superior e nas enseadas mais movimentadas dos seminários acadêmicos. Com efeito, minha busca incessante de "complemento professoral" às atividades profissionais normalmente desempenhadas no âmbito da carreira diplomática -- já por si suficientemente absorvente -- pode ter esse sentido de "unending quest", de busca incessante de algo mais, ou de itinerário contínuo em direção de algo valorizado, que eu não sei bem precisar o que seja, exatamente. Na verdade, a comparação pode ser "misleading", pois mesmo Ulisses sabia para onde queria ir, e a esse objetivo dedicou todo o tempo da volta de Tróia, ainda que tivesse sido constantemente desviado de alcançar seu destino final pelas trapaças da sorte e pelos acasos da vida. De minha parte, eu não sei exatamente o que persigo ao me "obrigar", literalmente, a exercer uma "segunda" -- ou primeira? -- profissão, ao lado daquela que me distingue socialmente, que me define institucionalmente e que me remunera essencialmente.

Independentemente do destino final, o caminho de Ítaca é ele mesmo toda uma aventura de vida, uma experiência gratificante (por vezes "mortificante") e, de certa forma, um reconhecimento implícito de uma certa "dívida social" que eu desejaria amortizar da forma mais inconsciente possível. Como seria isso? Sendo eu originário de família modesta, "habitante", até a adolescência tardia, de uma casa onde eram poucos os materiais de leitura e relativamente raros os "livros sérios", tendo feito toda a minha educação formal em instituições públicas e tendo tido a chance de poder freqüentar, desde muito jovem, uma biblioteca infantil, aprendi a valorizar tremendamente o hábito da leitura e o auto-aprendizado. Sou, essencialmente e verdadeiramente, um autodidata, no sentido mais completo e profundo da palavra, algo não necessariamente extraordinário ou excepcional, mas que no meu caso corresponde inteiramente a toda uma realização de vida que devo reconhecer e valorizar honestamente.

Mas, onde entra "Ítaca" nessa história de "self-made intellectual", de sucesso profissional pelo esforço próprio, de mérito social pelo empenho no estudo e no trabalho? Creio que "Ítaca" é uma espécie de "Santo Graal" intelectual que persigo por simples desencargo de consciência. Como aprendi por mim mesmo, mas também aprendi porque freqüentei escolas públicas que num determinado momento eram "boas" -- mas que hoje são passavelmente sofríveis, quando não insuficientes para preparar qualquer estudante para o ingresso no terceiro ciclo -- e sobretudo aprendi porque tive à minha disposição uma biblioteca repleta de livros interessantes, acredito portanto que ao me obrigar a dar aulas eu esteja, talvez inconscientemente, procurando dar aos outros aquilo que eu mesmo tive como "oferta da sociedade", basicamente uma boa escola pública e uma "grande" biblioteca infantil. São essas instituições que fizeram de mim o que sou hoje -- ademais do esforço próprio no estudo e na leitura, por certo -- e aparentemente eu tenho um certo "calling", um certo dever de consciência de contribuir em retorno ao que obtive em priscas eras (com perdão pela horrível expressão "pasteurizada"). Obviamente não estou retribuindo na justa medida, pois que dou aulas e orientação a "marmanjos" do terceiro ciclo, não a "pequenos inocentes" dos dois ciclos anteriores, mas é o que eu posso fazer, com meu singular despreparo para aulas de ensino fundamental, e meu (reconheçamos) excepcional preparo para o ensino especializado, fortemente intelectualizado.

Voilà, minha ilha de Ítaca é uma espécie de miragem, um ponto não alcançável no horizonte, jamais realizado ou realizável, mas que conforma um objetivo material (e "espiritual") que me traz imensa satisfação pessoal: a necessidade de ensinar, um desejo (agora não tão secreto) de contribuir para o engrandecimento alheio tomando como ponto de partida os conhecimentos que fui adquirindo ao longo de uma vida razoavelmente feliz, ainda que materialmente difícil, feita de muito estudo, de leituras intensas, de escrituras compulsivas, de perorações infinitas, de um constante navegar em busca de mais conhecimento, de mais informação, de um pouco mais de compreensão (no sentido weberiano da Verstehen). Não sei, aliás, se chegarei a alguma Ítaca algum dia: a sensação que mais tenho é a de que sempre há uma nova porção de mar para além do horizonte, de que a busca do conhecimento é infindável e propriamente inesgotável. Mas, pelo menos, não busco o conhecimento pelo conhecimento, não me retiro nos prazeres secretos da leitura pela leitura, como esses leitores de Proust que fazem da busca do tempo perdido um exercício de indeclináveis características de "eterno retorno". Eu acredito na "flecha retilínea do tempo" (com os habituais "acidentes de percurso"), acredito que o saber tem um caráter instrumental, de liberação, de capacitação humana, de engrandecimento social, de aperfeiçoamento da humanidade, de busca de valorização do que é belo, do que é útil e, sobretudo, do que é bom. Nesse sentido, não sou relativista, nem agnóstico: acredito que o exercício das paixões humanas -- e, no caso, minhas atividades didáticas ou professorais constituem uma "paixão" -- podem e devem servir a algo de valorizado socialmente, não para uma mera satisfação pessoal de fundo egoísta.

Repito: dou aulas ou orientação com um certo sacrifício pessoal e familiar, e de forma nenhuma motivado pela remuneração ou pelo prestígio vinculado a essas atividades. Eu o faço por necessidade interior e motivado por um sentimento que poderia, honestamente, classificar como "nobre". Retiro satisfação social dos encargos docentes auto-assumidos, mas sobretudo retiro satisfação pessoal pelo fato de estar ensinando "algo" a mim mesmo: esse algo é a consciência de que pertencemos a uma entidade que nos transcende – sem qualquer espiritualismo aqui -- e que precisa melhorar constantemente para que nós mesmos possamos ter motivos contínuos de satisfação social ou pessoal. Sou perfeitamente "materialista", mesmo incorrendo no risco de ser incompreendido pela utilização desse conceito tão carregado de significados obscuros e supostamente "vulgares": acredito que a elevação da humanidade se dará por força e empenho pessoal de seus componentes irredutíveis, que são os seres humanos como eu e você, que me está lendo neste momento. Eu procuro, modestamente, contribuir, com o meu pequeno esforço, para a elevação dos padrões materiais e morais da humanidade. Por isso, tenho orgulho em ser professor ou orientador, mesmo não necessitando fazê-lo por razões objetivas ou externas.

Se não me falharem as forças, continuarei a caminho de Ítaca pelo resto de meus dias...

Paulo Roberto de Almeida

(pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org)

Brasília, 18 de outubro de 2004

Postagem em destaque

Nota do Instituto Diplomacia sobre o ataque americano ao Irã, que também menciona o da Rússia contra a Ucrânia

Uma nota sobre mais uma violação do Direito Internacional pelos EUA, ao atacar o Irã, que seguiu a da Rússia contra a Ucrânia...