sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O mundo "sem regras" de Celso Amorim - Thiago Padovan (Revista ID)

 

O mundo "sem regras" de Celso Amorim

Um manifesto da hipocrisia diplomática

Não vejo como aceitar", diz Celso Amorim sobre convite do "Conselho da Paz"  de Trump

Em seu recente artigo para a The Economist, intitulado “How can we live in a world without rules?”, o Assessor Especial da Presidência, Celso Amorim, pergunta retoricamente como podemos sobreviver em um cenário geopolítico onde as normas internacionais parecem ter colapsado.

O texto, escrito na esteira de uma intervenção em Caracas em janeiro de 2026, é uma peça de retórica refinada, mas intelectualmente desonesta.

Ao analisarmos o texto, o cinismo de Amorim salta aos olhos em quatro incoerências fundamentais.

1. A soberania como escudo para tiranos

Amorim inicia seu lamento comparando a “abdução forçada” do presidente venezuelano à captura de Saddam Hussein, classificando o ato como “tragicamente surreal”.

Aqui, é preciso deixar claro que a ação unilateral ordenada por Trump é, de fato, condenável. Trata-se de mais uma uma operação de “cowboy diplomacy” executada sem qualquer planejamento para o “day after”, sem consulta aos organismos multilaterais e, claramente, sem o bem-estar do povo venezuelano como prioridade criando mais um precedente perigosíssimo de que a lei do mais forte substitui a diplomacia.

No entanto, a crítica de Amorim não nasce dessa preocupação legítima com a ordem global ou com a vida dos venezuelanos. Se nascesse, ele teria condenado com a mesma veemência a invasão russa à Ucrânia.

O cinismo de Amorim reside no uso seletivo da indignação:

  • Para Amorim, a “tragédia” não é a fome, a tortura sistemática ou o êxodo de 8 milhões de venezuelanos sob o regime que ele protege; para ele, a “tragédia” é o momento em que um aliado ideológico perde o poder, mesmo que pelas mãos de outro agente irresponsável.

  • Quando tanques russos violam a fronteira de uma democracia soberana (Ucrânia), matando civis e anexando território, Amorim e o governo Lula pedem “paz”, “diálogo” e evitam condenar o agressor, relativizando a soberania ucraniana em nome de “preocupações de segurança” da Rússia.

  • Mas quando uma intervenção — ainda que ilegal e temerária — remove um ditador sul-americano, Amorim subitamente se torna um purista da Carta da ONU.

A “soberania” defendida por Amorim, portanto, não é a do Estado ou a do povo, e muito menos a soberania das regras; é o habeas corpus do governante amigo. Em seu mundo, a soberania serve para blindar o ditador de interferências externas, enquanto o povo permanece refém tanto da tirania interna quanto dos jogos de poder externos.

Devemos rejeitar tanto a irresponsabilidade de Trump quanto a cumplicidade autocrática de Amorim.

2. O mito do “Continente de Paz”

Amorim afirma, com uma audácia que beira o delírio, que algo foi estilhaçado: “a certeza de que a América do Sul é, e continuará sendo, um continente de paz”.

Que paz é essa, Embaixador?

A “paz” das prisões políticas em Caracas? A “paz” da perseguição religiosa na Nicarágua? A “paz” das ameaças de anexação de Essequibo (Guiana) feitas pelo próprio regime que o senhor protegeu diplomaticamente por décadas?

Amorim ignora a tortura interna porque, para ele, a violência só conta se vier do Ocidente.

Sua definição de ‘paz’ é a estabilidade do cárcere.

3. A hipocrisia da “Incerteza de Heisenberg”

Amorim invoca o “Princípio da Incerteza” de Heisenberg para descrever o novo cenário global, onde “qualquer coisa pode acontecer”.

O cinismo aqui reside no fato de que o governo brasileiro, sob sua tutela intelectual, trabalhou ativamente para criar essa incerteza.

  • Quem ajudou a corroer as regras internacionais ao se aliar ao Irã, patrocinador global do terrorismo?

  • Quem enfraqueceu o sistema de direitos humanos da ONU ao se abster de condenar violações na Nicarágua e na China?

  • Quem trabalha para expandir o BRICS, transformando-o em um sindicato de autocracias que buscam reescrever as regras globais para favorecer as ditaduras?

Amorim reclama de um mundo sem regras, mas a política externa que ele desenhou dedicou-se a sabotar a “Ordem Baseada em Regras” (Rules-Based Order) liderada pelas democracias liberais, em favor de uma “multipolaridade” caótica onde a Rússia e a China ditam as normas.

4. O cinismo da “solução” via BRICS

Como remédio, Amorim sugere “diversificação de parcerias”, citando explicitamente o BRICS. É o ápice da contradição. Ele sugere que, para restaurar a ordem e o respeito ao direito internacional, devemos nos abraçar mais forte com a Rússia (que rasgou a Carta da ONU), a China (que ameaça Taiwan) e o Irã (que financia o caos no Oriente Médio).

Conclusão: o medo da accountability

A pergunta do título do artigo de Amorim — “Como podemos viver em um mundo sem regras?” — deve ser traduzida para o que ele realmente sente: “’Como nossos parceiros vão sobreviver num mundo onde os EUA decidiram ignorar a lei internacional com a mesma frieza que a Rússia?”

O lamento de Amorim na The Economist é o obituário de uma doutrina de política externa que escolheu, consistentemente, o lado errado da história.

O Brasil merece uma diplomacia que defenda valores, não ditadores.

Uma publicação convidada por
Thiago Padovan
Projeto Villa Global Village

A Politica brasileira cheira mal: Master, BRB, colusões - Marcia Pezenti (Estadão)

Vorcaro disse à PF que tratou com Ibaneis a venda do Banco Master ao BRB

Marcia Pezenti

O Estado de S. Paulo, 23/01/2026

Em depoimento à PF, Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmou que conversou "algumas vezes" com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda da instituição financeira ao Banco Regional de Brasília (BRB) e pontuou que o governador já esteve em sua casa. Ibaneis é o primeiro político citado pelo banqueiro nas investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal. 

À reportagem do Estadão, o governador, que não é investigado no caso, disse que esteve apenas uma vez na residência de Vorcaro. "Fui em um almoço, quando conheci ele. Entrei mudo e saí calado". 

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal apontaram indícios de que o Master vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras inexistentes ao banco estatal, que hoje tem rombo estimado em R$ 4 bilhões.

Com o avanço do escândalo Master, Fabiano Lana aponta que as revelações envolvendo o ministro do Supremo Dias Toffoli são tantas que o silêncio do magistrado se tornou uma espécie de confissão de culpa: "São suspeitas de ser proprietário oculto de resort via uso de laranjas (confira a reportagem do Estadão), sociedades com parentes de gente ligada à instituição financeira, tráfico de influência e algo a mais. Tudo somado com uma tentativa desesperada, na aparência, de controlar a investigação que o envolve por meio de decretação de sigilo e limites à ação da PF. Ainda não temos o chamado 'outro lado' de Toffoli". 

PRA: Nunca imaginei que pudesse ser diferente, ou seja, que um diretor de banco estatal decidisse sozinho uma compra de 12 bilhões.


A Ucrânia traída em Davos - Olena Tregub e Paulo Roberto de Almeida

 From: Olena Tregub, Transparency International 

“Listening to Western leaders at the Ukrainian Breakfast in Davos left a very bitter aftertaste. You can feel the fear of the US administration in the room, and the fact that almost no one dares to say openly what is obvious: Trump is putting pressure on Ukraine, not on Russia. There were only a few veiled remarks from Sikorski – and almost nothing from anyone else.

Instead, we hear things like the Belgian Prime Minister saying: “Europe is not at war with Russia, therefore we did not confiscate Russian assets.” Or Sikorski claiming that “Europe does not buy Russian energy,” which is simply not true. Then comes the self-congratulation about sanctions, about sanctioning the shadow tanker fleet, while in reality they add a few ships to each new package instead of adopting the radical and long-known solutions that would actually change the situation.

A special moment was the speech of a  “special envoy” who said he came only because a friend invited him and he couldn’t refuse. That he and Kushner are like two volunteers, working for free to end the war in Ukraine. That everything is going great, the result is coming soon, and Putin will agree to everything any moment now.

The only voices of reality came from Ukrainian soldiers. One of them said that Europe should not be surprised when the war comes to its own territory, and that Ukraine is currently holding back over a million Russian troops on Europe’s borders. In other words, Ukraine is already de facto the defensive shield of the European Union. Yet on stage, European leaders still spoke about Ukraine as something external: unclear timelines, unclear criteria, fears that Ukraine’s accession could “destabilize” the EU.

It feels like people whose house is already being approached by a maniac have locked themselves inside, while Ukraine is outside, fighting and defending their home. But for them, Ukraine is only a sacred sacrifice: something to praise for courage, for surviving winter without heating, for endurance under terror – but not something they are ready to fully let into their warm and comfortable house.

Their house is too safe, too warm, too comfortable. And somewhere out there, “two savages” – Ukrainians and Russians – are fighting, and maybe it will somehow pass, maybe it will not reach them, maybe the maniac is not really coming for their house after all.

In the end, everyone praised themselves. Everyone talked about how much they support Ukraine. One congressman even said he prays every night. And only one question remains: if the support is so extraordinary, why has Ukraine not yet won? 

The honest conclusion came from Niall Ferguson: Putin does not care about speeches in Davos. Ukraine needs weapons.”

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Acrescento (PRA): Trump e Putin não decepcionam: são irmãos gêmeos na destruição do multilateralismo e da vida civilizada no mundo. A Europa e os europeus me decepcionam.

A morte do multilateralismo como o conhecíamos - Paulo Roberto de Almeida

 A morte do multilateralismo como o conhecíamos 

Paulo Roberto de Almeida 

A “ONU paralela” de Mister Trump será mais uma degradação do multilateralismo criado em 1945, já abalado pelos atos bárbaros de Putin na Ucrânia e de Netanyahu na Faixa de Gaza.

Teremos alguns anos de horrores na política mundial, enquanto estiverem atuantes as três aberrações pessoais mencionadas acima nominalmente.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 23/01/2026

Como o Master invadirá o ano eleitoral - Maria Cristina Fernandes (Valor Econômico); comentário inicial de Paulo Roberto de Almeida

 Comentário inicial a este importante artigo de Maria Cristina Fernandes, traduzindo meu horror pessoal com a política brasileira, contaminada no mais alto grsu, e em quase todas as instituições, pelos interesses espúrios de grande parte da casta política.

Este artigo de Maria Cristina Fernandes confirma, uma vez mais, que a política brasileira é uma grande promicuidade de interesses pessoais essencialmente pecuniários prevalecendo sobre o interesse público. Dificilmente o meio político do país deixará de ser nos anos à frente essa pocilga na qual os porcos se refestelam nos despojos do Estado.  Não creio que tenha qualquer solução regeneradora a curto ou s médio prazo. Acredito mesmo que uma nova vitória da extrema-direita em outubro de 2026, será, como a vitória de 2018, a volta de todos os horrores a que já assistimos entre 2019 e 2022, inclusive na política externa, se por acaso Trump ainda estiver no poder. A degradação da política, em todas as suas vertentes, será a consagração da pocilga da qual temos ainda apenas uma dominação parcial do poder dos piores elementos da casta política que enlameia as atividades do Estado na vida da nação. Se achamos Trump um horror e uma degradação no caso da democracia americana, um trumpista na presidência do Brasil representará algo ainda pior: a promiscuidade com s submissão ao império corruptor.

Paulo Roberto de Almeida 

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Como o Master invadirá o ano eleitoral

Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico, 23/01/2026

Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula

A liquidação do Will, braço do grupo Master com clientela nas classes C e D, amplia as faixas de renda afetadas pelo desmonte de um banco cuja teia de interesses se infiltrou no Estado. Dos três Poderes saem as informações que os enredam, num filme parecido com o da Lava-Jato. O Executivo é o Poder menos envolvido, mas, paradoxalmente, é aquele que mais tem que se preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016?

É outro o país, tanto que Luiz Inácio Lula da Silva voltou à Presidência. É outra a natureza do caso. Não há contratos estatais - o que não significa que o Estado não venha a ser lesado - e, sim, negócios sancionados por brechas regulatórias que permitiram de ganhos estratosféricos a lavagem de dinheiro até do crime organizado. As brechas se alargaram com a conivência de agentes públicos e até de braços dados com eles.

E é outra a arbitragem do rolo, se é que existe alguma. Em 2016, quem arbitrou (mal) o jogo foi o Supremo Tribunal Federal que, desta vez, para dizer o mínimo, está sem legitimidade para fazê-lo enquanto não tomar providências para afastar, para começo de conversa, o ministro Dias Toffoli do caso. Da visita do presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, ao ministro Flávio Dino, no Maranhão, sobrou, como única conclusão, a que a questão Toffoli é incontornável.

Nesse jogo de várzea, os investigados tratam de jogar lama uns nos outros e naqueles que os investigam. Aliados do Master na política tratam de garantir um fôlego ali outro acolá nas instituições de controle para que ninguém pense em delação. Com seu questionamento à liquidação do Master pelo Banco Central, o ministro do TCU, Jhonatan de Jesus, cumpriu esta função, mas acabou enquadrado. Se ainda não fizeram o mesmo no STF é porque Toffoli conta com aliados dentro do próprio tribunal.

A origem da lama explica quase tudo. Aliados de Daniel Vorcaro têm se engalfinhado com aqueles de seu ex-sócio, Augusto Lima. Ambos foram presos na mesma operação. Soltos com tornozeleira eletrônica, continuam sob investigação. Lima é casado com uma ex-ministra de Jair Bolsonaro, mas seu ingresso no Master se deu a partir de negócio decorrente de uma privatização na Bahia pela gestão petista.

Este vínculo sempre preocupou o Planalto, mas não impediu que as operações seguissem. O sinal mais evidente desta preocupação foi a nomeação do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva. Antes de ocupar cargos sob Dilma Rousseff e Lula, Wellington foi o escolhido, de uma lista tríplice, para chefiar o Ministério Público da Bahia pelo então governador Jaques Wagner.

Ao fim de sua primeira reunião no Planalto, o novo ministro disse que o principal tema havia sido o Master, no que foi logo corrigido pelo ministro Sidônio Palmeira (Secom). Se é verdade que nenhum MJ controla a Polícia Federal, é razoável imaginar que o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que não tem proximidade com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, cultive, pelo menos, a expectativa de ser melhor informado.

Na dita reunião, com Wellington, Sidônio, Costa, Andrei e Dario Durigan (Fazenda), Lula cobrou investigação. O presidente o faz com a mesma veemência de Dilma Rousseff no início da Lava-Jato. Como acredita que não tem nada a ver com tudo isso, manda ir pra cima, não sem antes garantir um melhor fluxo de informações.

Em 2016, os próceres do Centrão envolvidos derrubaram Dilma, subiram ao poder com Michel Temer e propiciaram a ascensão da extrema-direita bolsonarista. Entre os petistas presos, aquele que hoje governa o país é obcecado em vingar sua biografia. Se o presidente está escaldado, o Centrão sofisticou sua blindagem enredando o Legislativo e o Judiciário no crime e ampliou sua presença no Congresso tornando o Executivo mais dependente.

Basta ver como este bloco de poder foi capaz de envolver, na mesma trama, o escritório da família do ministro que enfrentou o golpismo, Alexandre de Moraes, e o filho que Bolsonaro quer colocar no Planalto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mora numa casa financiada a modestíssimos juros pelo BRB, sócio do Master.

Só será possível medir a temperatura com a qual o caso Master afetará a relação entre os Poderes neste ano eleitoral quando o Congresso voltar do recesso. Lula entregou o comando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a quem não apenas cabe chancelar uma eventual CPI como conduzir a aprovação do ministro Jorge Messias (AGU) para o STF. É tão incerto o desfecho de uma CPI e tão grandes as contas a pagar de suas lideranças, que o Congresso tende a se acautelar. Já a pauta governista na Casa passará por barganhas sem fim.

Lula conta com dois ativos para evitar que a imagem de seu governo seja contaminada por esta crise. Um se pauta numa política externa que administrará o bônus do acordo do Mercosul com a União Europeia ante o avanço de Donald Trump. O outro são as próprias eleições presidenciais.

Se, em 2016, a blindagem do Centrão foi alcançada pela derrubada de Dilma, desta vez, a melhor maneira de fazê-lo será pela derrota de Lula. Para convencer o eleitor de que a alternativa à sua eleição é a entrega do Estado brasileiro para o crime, Lula não terá como tergiversar na garantia de que a PF vai até o fim.


Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista - Paulo Roberto de Almeida

Combatendo a extrema-direita na diplomacia brasileira, partir de agora até as eleições...

    Posso ser liberal na economia, anarquista na cultura, democrático na política, conservador na diplomacia (ou seja, em defesa dos padrões tradicionais da diplomacia brasileira (contrário, portanto à política externa partidária, ideológica e personalista tal como praticada atualmente), mas uma coisa que não suportaria contemplar seria a destruição da diplomacia e da política externa tal como foi posta em prática pelo bolsolavismo diplomático, uma vergonha para o Brasil, dada a submissão abjeta, não só aos EUA, mas ao presidente desequilibrado que voltou ao poder em 2025, e já se ativa em destruir a ordem global e o multilateralismo.
    Vou dedicar-me a relembrar o horror que foram os anos de dominação do Itamaraty e da política externa por um bando de beócios amadores, ignorantes em política externa, subservientes ao império americano e partidários da degradação das instituições multilaterais (no que seguiam o antiglobalismo imbecil da extrema-direita americana) e da integração regional.
    Começo por relembrar um trabalho daquela época:

“Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista”. Incorporado como parte de um capítulo no livro Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira (2020).

Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista

Paulo Roberto de Almeida

A diplomacia bolsolavista, formulada em grande medida fora do Itamaraty e operada apenas formalmente por auxiliares da Casa, é feita de rupturas com respeito aos padrões históricos da política externa brasileira, que sempre foi tradicionalmente caracterizada pela busca de autonomia e comprometida, antes de mais nada, com o interesse nacional. Ela é tão bizarra no horizonte bissecular de nossa diplomacia que sequer pode ser assemelhada a uma espécie de desvio padrão numa linha de tendência da política externa nacional, pois ela se situa completamente fora do quadro. Observando-se cronologicamente seu desempenho em um ano e meio de esquisitices de inspiração bolsolavista, pode-se identificar os sete pecados capitais dessa diplomacia sui generis:

1) Ignorância: não parece haver dúvidas de que os que conduzem, de fato, as relações exteriores do Brasil são profundamente ignorantes sobre as relações internacionais e sobre a própria política externa do Brasil. O filho 03 do presidente, que exerce esse papel, não tem a menor ideia de quem foi, nem nunca ouviu falar de Henry Kissinger.

2) Irrealismo: esses “decisores” começam partindo de uma fantasmagoria, o tal de globalismo – que nunca demonstram existir empiricamente – e passam daí a atacar o método por excelência da diplomacia contemporânea: o multilateralismo.

3) Arrogância: como a anterior tribo dos lulopetistas, eles acham que tudo o que existia antes deles foi errado; o chanceler acidental vive apontando distorções na política externa dos últimos 30 anos (falou até “depois de Rio Branco”), não mencionando que serviu de forma obediente todas essas distorções até com entusiasmo (existem provas disso). Ele fez uma completa reforma do Itamaraty sem jamais consultar seus colegas de carreira: por cima.

4) Servilismo: a frase símbolo desse alinhamento automático é o famoso “I love you Trump”, disparado pelo presidente a seu colega americano em setembro de 2019 na ONU. Teve início no primeiro dia de governo quando se ofereceu uma base militar americana no Brasil, prontamente rejeitada pelos ministros militares; mas tem muitos outros exemplos.

5) Miopia: já manifestada numa alegada “ameaça globalista”, tem recusado a cooperação multilateral no combate a um desconhecido, até aqui, “comunavirus”; ela se manifestou em especial na animosidade em relação à China e numa adesão unilateral ao governo de Israel, desconhecendo a complexidade dessas relações e ameaçando negócios e investimentos extremamente relevantes para o presente e o futuro do Brasil.

6) Grosseria: Ela se manifestou sobretudo em direção de líderes estrangeiros que não pensam como o presidente, com ofensas a estadistas europeus comprometidos com a defesa do meio ambiente e também a dirigentes vizinhos de outras correntes políticas.

7) Inconstitucionalidade: a primeira já está comprometida no servilismo, ou seja, a renúncia à independência nacional, para subordiná-la a um dirigente estrangeiro, mas também existe a intervenção nos assuntos internos de outros países; a mais grave é o desconhecimento do Direito Internacional, manifestado no apoio às sanções unilaterais do governo americano, o que pode concretizar-se inclusive contra o próprio Brasil, como no caso das salvaguardas abusivas (e ilegais) contra exportações brasileiras de aço e alumínio.

Todos esses pecados se revelaram abertamente na recusa do multilateralismo, na negligência de normas consagradas do Direito Internacional, no abandono da formulação autônoma da política externa brasileira, na relativização da noção de interesse nacional, na substituição da diplomacia profissional pelos preconceitos de amadores ignorantes, assim como o desprezo pelos princípios constitucionais das relações internacionais. Dois exemplos, entre outros, da subordinação aos EUA: a aceitação do candidato americano à presidência do BID e a adesão ao veto de Trump à participação da empresa chinesa Huawei no leilão do 5G.

Vou dar continuidade a esta ofensiva contra os ignorantes da política externa e destruidores da qualidade de nossa diplomacia.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 janeiro 2026



Moedas no Brasil: um percurso pela sua história (Banco Central)

 MOEDAS NO BRASIL

(a partir do site do Banco Central)

Compilado e reapresentado por Paulo Roberto de Almeida em junho de 2004) (as ilustrações das moedas no site do BC não foram preservadas neste arquivo)

Introdução:

D. Sebastião determinou em 1568 a circulação de moedas portuguesas na nova terra descoberta, promovendo a integração entre a América Portuguesa e o império de Portugal. Começava ali a história da moeda no Brasil. Em cada um dos itens do sumário abaixo você vai saber como surgiram as nossas moedas e quais foram os principais acontecimentos históricos da época. Embarque nesta viagem e conheça o Brasil através deste importante elemento da vida nacional: a moeda.

Sumário do conteúdo:

1. A Moeda no Brasil Colônia
O Pau-brasil
A Cana-de-açúcar
As Minas Gerais
2. A Moeda da Colônia ao Império
A Peça da Coroação
O Café
O Papel-moeda
3. A Moeda na República Velha
4. A Moeda na Era Vargas
5. A Moeda no Período Democrático (1946-1964)
6. A Moeda no Regime Militar
7. A Moeda na Nova República e na Atualidade

Texto, de aproximadamente 20 páginas, disponível neste link:
https://www.academia.edu/149270754/Moedas_do_Brasil_Banco_Central_

Postagem em destaque

Esclarecendo minha posição política - Paulo Roberto de Almeida

  Vou deixar claríssima a minha postura política: fui um opositor precoce da políticas econômicas e diplomáticas do lulopetismo, por julgá-l...