sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Estudo do Banco Mundial aponta que preço invisível rouba 40% da renda do brasileiro

Estudo do Banco Mundial aponta que preço invisível rouba 40% da renda do brasileiro

(enviado por meu amigo Maurico David)

Preço invisível rouba 40% da renda futura do brasileiro
Rafael Vazquez

Os atuais déficits que o Brasil possui em saúde, educação e emprego geram
ao país uma perda de 40% da renda futura, segundo um novo relatório
revelado pelo Banco Mundial. Esse prejuízo, que a instituição internacional
denomina como preço invisível" da desigualdade nessas três áreas, ocorre
porque os economistas que conduziram o estudo detectaram que os bairros
moldam oportunidades que vão além da simples existência de escolas e
hospitais.
Liderado pelos economistas do Banco Mundial Alaka Holla, Norbert Schady e
Joana Silva, o relatório  analisou 129 países e detectou que, na média
global, a perda de renda futura causada por déficits em saúde, educação e
emprego chega a 51%. Em relação ao quesito mercado de trabalho foi
considerada não apenas a quantidade de empregos, mas também a qualidade.
O Brasil está em uma situação melhor do que a média mundial e acima da
América Latina, conforme aponta o relatório. Mas é citado inúmeras vezes ao
longo do estudo sob aspectos negativos, considerando a avaliação a partir do
recém-criado Índice de Capital Humano Plus (HCI+), lançado pelo Banco
Mundial em conjunto com o estudo para medir o capital humano médio que
uma criança nascida hoje pode esperar acumular ao longo de sua vida
produtiva. As análises contemplam os riscos à saúde, à educação e ao
emprego que prevalecem no país onde vive.
No novo índice, o Brasil aparece em posição intermediária, com 203 pontos,
acima da média global de 186 pontos e da média de 194 pontos da América
Latina. Entre os principais vizinhos, o Paraguai foi classificado com 181 pontos,
a Colômbia aparece com 198 pontos, a Argentina tem 200, enquanto o Uruguai
surge à frente com 206, e o Chile, com 226. Por outro lado, está
consideravelmente distante da pontuação máxima do índice (325 pontos) e dos
primeiros países do ranking - o melhor colocado é o Japão, com 284 pontos,
seguido por Singapura, com 282.
Além do acesso a hospitais, escolas e ao mercado de trabalho, os analistas do
Banco Mundial também consideraram, por exemplo, a exposição desde a
primeira infância à poluição, à criminalidade ou a infraestrutura como
elementos que afetam diretamente a saúde, o aprendizado e a possibilidade de
conseguir bons empregos. O estudo ainda sinalizou a importância de prover serviços de qualidade na primeira infância para que as crianças possam se
desenvolver melhor e conseguir melhores rendimentos no futuro.
"Em média, um indivíduo na Índia adquire apenas metade do capital humano
por meio do trabalho do que se adquire no Brasil; e um indivíduo no Brasil
adquire apenas metade do capital humano do que se adquire nos Estados
Unidos, destaca o relatório do Banco Mundial.
O ambiente familiar influencia a acumulação de capital humano desde o início
da vida. Aos cinco anos de idade, antes de ingressarem no sistema formal de
ensino, crianças de zonas rurais do Peru cujas mães têm apenas o ensino
fundamental ou menos dominam aproximadamente metade do vocabulário de
outras crianças cujas mães concluíram pelo menos o ensino médio. Padrões
semelhantes foram observados na Etiópia, na Índia e no Vietnã. A
desvantagem persiste durante toda a idade escolar e a adolescência,
acrescenta o estudo.
Especificamente no Brasil, de acordo com a pesquisa do Banco Mundial, o
maior problema está na área da educação, na qual o país atingiu 115 pontos e
ficou muito distante dos 188 pontos considerados como o nível ideal para o
índice HCI+.

Em questão de saúde, o Brasil atingiu 44 pontos, enquanto o ideal apontado
pelo Banco Mundial é 50 pontos. Em relação a mercado de trabalho, no qual o
índice analisa a qualidade dos empregos mais além apenas da quantidade, o
país chegou a 44 pontos, mais distante do ideal de 87 indicado pelo relatório.

Uma das consequências desses déficits, conforme analisa o Banco Mundial é
que o capital humano acumulado por trabalhadores brasileiros corresponde a
pouco mais da metade daquele registrado entre trabalhadores norte-
americanos no mesmo período. Isso não significa necessariamente que todos
os americanos produzem o dobro do que todos os trabalhadores brasileiros,
mas indica que, em termos gerais comparando as duas sociedades, a
produtividade nos Estados Unidos tende a ser duas vezes à do Brasil.
Como resultado, segundo o estudo, a perda de potencial pelo capital humano
acumulado no Brasil compromete 40% da renda futura dos trabalhadores
brasileiros.
"A prosperidade dos países de renda baixa e média depende da sua
capacidade de construir e proteger o capital humano. Hoje, muitos enfrentam
dificuldades para melhorar a nutrição, o aprendizado e as habilidades de sua
força de trabalho atual e futura, o que levanta preocupações sobre a
produtividade e os tipos de empregos que suas economias poderão sustentar,
afirma Mamta Murthi, vice-presidente do Grupo Banco Mundial.
Gênero
O estudo ainda identificou que dentro do Brasil os déficits em saúde, educação
e empregos de qualidade afetam mais as mulheres do que os homens.
De acordo com o índice, isolando somente o gênero masculino HCI+ alcança
210 pontos, enquanto o índice apenas entre as mulheres brasileiras fica em
196 pontos.
Como estratégias para reverter a perda da renda futura devido a esses
problemas, o relatório do Banco Mundial recomenda investimentos em maior
acesso a creches, programas de desenvolvimento infantil e educação pré-
escolar que fortaleçam a aprendizagem e o ambiente de cuidado das crianças,
além de maior atenção em políticas públicas para bairros desprivilegiados e
foco integrado à nutrição, ao aprendizado e ao desenvolvimento de habilidades
nos locais de trabalho. Também indica reformas no mercado de trabalho para
ampliar oportunidades de aprendizado prático.
Políticas que consideram os diferentes motores do capital humano em cada contexto podem gerar um ciclo virtuoso, no qual ganhos de produtividade
levam a salários mais altos e a maiores investimentos das famílias e
comunidades na próxima geração, destaca no relatório Norbert Schady,
economista chefe do Grupo Banco Mundial.


Magna Carta é finalmente aplicada na Inglaterra, mas 811 anos depois...

Exatamente 811 anos após a assinatura (imposta ao rei João Sem Terras), a Magna Carta é finalmente aplicada na Inglaterra:

Ninguém está acima da lei, nem mesmo o rei (neste caso a realeza, o príncipe Andrews).

Reproduzo aqui o que se diz sobre a Magna Carta, nos territórios de Madame IA:


A Magna Carta, promulgada em 15 de junho de 1215 na Inglaterra pelo Rei João, foi um documento fundamental que estabeleceu, pela primeira vez, que o rei estava sujeito à lei, limitando seu poder absoluto. Imposta por barões rebeldes devido a impostos excessivos e abusos, ela garantiu direitos essenciais, como o devido processo legal e a justiça para "homens livres".
Principais Pontos da Magna Carta (1215):

Limitação do Poder Real: O rei não podia mais impor impostos (como scutage) sem o consentimento do "Conselho Comum" do reino.
Império da Lei: Estabeleceu que ninguém, nem mesmo o monarca, estava acima da lei.
Direito a um Julgamento Justo (Artigo 39): Nenhum homem livre poderia ser preso, exilado ou ter suas propriedades confiscadas, a menos que por julgamento legal de seus pares ou pela "lei da terra".
Proteção da Igreja: Garantiu a liberdade da Igreja inglesa contra interferências governamentais.
Raízes Democráticas: A necessidade de consulta aos barões para novos impostos lançou as bases para o futuro Parlamento inglês.

Voilà, finalmente aplicam a Magna Carta a um membro da realeza. Viva a Magna Carta...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Mensagens presidenciais do regime militar, 1 (Castello Branco, Costa e Silva e Médici, 1965-1974): desenvolvimento com segurança nacional - Paulo Roberto de Almeida

 Trabalho mais recente publicado:

5038. “Mensagens presidenciais do regime militar, 1 (Castello Branco, Costa e Silva e Médici, 1965-1974): desenvolvimento com segurança nacional”, Brasília, 24 agosto 2025, 4 p. Nota sobre as mensagens presidenciais ao Congresso de 1965 a 1974. Publicado no portal Interesse Nacional (19/02/2026; link: https://interessenacional.com.br/portal/mensagens-presidenciais-do-regime-militar-1965-1974-desenvolvimento-com-seguranca-nacional/

Texto do trabalho:

As mensagens presidenciais da República Velha costumavam ser bastante detalhadas na exposição de dados econômicos e de propostas de políticas para a correção de crises e de dificuldades momentâneas, ao lado de anúncios de iniciativas de reformas setoriais ou gerais, nem sempre concretizadas pelo Parlamento ou levadas a cabo pelo Executivo. Entre 1933 e 1937, compreendendo os governos provisório e constitucional de Getúlio Vargas, as mensagens preservaram o caráter por vezes exaustivo das exposições sobre o estado da nação, bem como das propostas de ações nas áreas carentes de mais explícita regulação governamental, já numa fase de construção da postura anticomunista do Estado nacional.
Na República de 1946, os temas do desenvolvimento econômico e do papel do Estado no ordenamento geral e setorial foram predominantes nas mensagens, em especial nos cinco anos do governo JK, combinando democracia e desenvolvimento, mas com alguma erosão da solidez das políticas econômicas. Já os governos de Jânio Quadros e de seu vice João Goulart (parlamentarista e presidencialista novamente), de 1961 a 1964, conviveram com a crescente instabilidade política e o agravamento da situação econômica, culminando com a ruptura democrática provocada pelo golpe militar de 31 de março de 1964 e que também afetou, embora superficialmente, a política externa.
O volume 128 dos Documentos Parlamentares, editado pela Câmara dos Deputados, trazendo as mensagens presidenciais de 1965 a 1979, é um modesto volume de meras 240 páginas, desproporcional à importância das mudanças ocorridas na política e na economia nacional nos catorze anos por ele cobertos, inclusive na esfera do próprio Estado, sua estrutura institucional e as funções administrativas. Várias das mensagens trazem em suas respectivas introduções tentativas de legitimação dos poderes extraordinários assumidos pelas Forças Armadas na defesa do que elas chamavam de “movimento revolucionário” contra a ameaça comunista, o grevismo exacerbado e a corrosão da poupança popular pela aceleração inflacionária. Emitidos, porém, o AI-2, em 1965 – que reformou completamente o sistema partidário e eleitoral – e o AI-5, de dezembro de 1969, que representou um golpe dentro do golpe, fortalecendo o caráter ditatorial e censório do poder político, as mensagens se tornam surpreendentemente curtas e sintéticas, mais uma vez em contradição com a nova face do Estado intervencionista em praticamente todas as esferas da vida nacional.
Com efeito, desde cedo se revelou o caráter tecnocrático do regime autoritário, super estatizante e dotado de múltiplos instrumentos de planejamento global e setorial, destinados à reforma completa do Estado, da economia – em todas as suas vertentes: fiscal, monetária, cambial e políticas setoriais – e das relações entre os entes da federação, num sentido mais centralizador e verticalizado, de cima abaixo. Um dos analistas mais precisos do sistema político e constitucional brasileiro, o senador Afonso Arinos de Melo Franco – chamado, na redemocratização, a oferecer um novo projeto de Constituição – chegou a dizer, ainda na vigência do regime militar, que a República, a partir de 1964, tinha entrado numa fase de constante estabilidade de poder e de permanente instabilidade institucional. De fato, não houve, nos cinco governos dos generais, o que se poderia chamar de continuidade política, pois cada um deles manipulou as rédeas do poder segundo seus próprios instintos políticos.
O marechal Castello Branco, por exemplo, esforçou-se sinceramente por devolver certa normalidade institucional ao país, pois que ele foi eleito pelo Congresso, na primeira quinzena de abril, para concluir o mandato do presidente deposto. O Ato Institucional – “adicionado à Constituição de 1946” – que legitimou a ruptura não tinha número e estavam, portanto, previstas eleições presidenciais em 1965. Os dois prováveis candidatos mais promissores eram Juscelino Kubitschek, por um lado, representando, de certo modo, a continuidade da aliança PSD-PTB que vinha da era Vargas, detestada pela maior parte dos militares, e, de outro, Carlos Lacerda, o governador da Guanabara, estado criado na transferência do Distrito Federal para o planalto central, ipso facto separado do estado do Rio de Janeiro. Este último, junto com o então governador de São Paulo, Adhemar de Barros (antigo interventor de Getúlio Vargas no estado), e o de Minas Gerais, o banqueiro Magalhães Pinto, eram os mais notórios golpistas da fase terminal do governo Goulart, as “vivandeiras de quartel”, como o próprio Castello Branco chamava os políticos que ficavam rondando os generais do Exército pedindo golpe contra o incumbente.
Logo a início de sua curta primeira mensagem (apenas sete páginas), em 1965, Castello Branco expunha os rumos que desejava traçar para a sua administração, confirmando os interesses nacionais que já havia proclamado quanto “eleito” pelo Congresso Nacional: “arrancada para o desenvolvimento econômico, pela elevação moral, educacional, material e política” (p. 35). A preocupação central de sua mensagem era com a situação econômico-financeira, numa fase em que a inflação tinha se aproximado de 100% ao ano – sem qualquer mecanismo corretivo – e que o crescimento do PIB tinha derretido para menos de 1,5%; dentre os problemas citados estavam os subsídios oferecidos ao trigo e à gasolina, “através de uma taxa cambial fictícia” (p. 38). Nenhuma menção é feita a questões de política internacional, a não ser o fato de que as exportações estavam sendo estimuladas e que melhoravam as perspectivas para o Balanço de Pagamentos. No ano seguinte, 1966, Castello Branco teve a preocupação de confirmar a continuidade da orientação política da diplomacia nacional, como expressou em sua mensagem ao Congresso, acrescentando, logo em seguida, a fidelidade do Brasil à velha aliança com a principal potência hemisférica e mundial:
Em suas linhas gerais, não sofreu a nossa política externa qualquer modificação em relação às diretrizes adotadas pelo atual Governo. Assim, não perdemos de vista o nosso tradicional universalismo, demos especial ênfase às relações com os demais países do Continente, e mantivemos a nossa integração no mundo ocidental. São orientações condizentes com os grandes interesses nacionais, nos campos político, social e econômico. (...)
Ainda no plano continental, e pela importância que tem para os dois países, queremos assinalar a maneira profícua por que se têm desenvolvido as relações entre os Brasil e os Estados Unidos da América, cuja velha amizade e comunhão de interesses somente tem encontrado motivos para continuada intensificação. (p. 58)

Castello foi constrangido, naquele início conturbado do regime militar, a aceitar o prolongamento do seu mandato, como pressionado pela extrema direita do regime – capitaneada pelo “ministro da Guerra” Costa e Silva –, mas ainda assim mandou desenhar, por uma comissão de juristas, um novo texto constitucional, sob a forma da Constituição de 1967, de espírito razoavelmente liberal, ainda que cerceando o voto direto para cargos executivos. Já a mensagem de 1967, relativamente detalhada como uma espécie de balanço dos primeiros três anos do novo regime – fortalecido pela emissão do AI-2, que reformulou todo o sistema político-partidário-eleitoral do país –, não trouxe nada de política externa.
Já Costa e Silva, desafiado pelos movimentos de oposição ao regime, fez desabar sobre o país o peso de uma ditadura aberta, ainda mais agravada quando de sua doença e afastamento do poder, em 1969. Médici e Geisel se empenharam basicamente na repressão aos diversos movimentos de resistência armada ao regime – foi o auge das torturas, assassinatos e desaparecimento de opositores – e no fortalecimento da estatização e do planejamento centralizado nos órgãos federais.
O marechal Costa e Silva, na sua primeira mensagem, em 1968, simplesmente reproduz um burocrático relatório do Itamaraty, relatando os diversos “atos de natureza internacional” praticados pelo Brasil, com o objetivo de “confirmar os foros de excelência de nossa diplomacia” (p. 100). Entre esses atos, figurou o tratado de proscrição de armas nucleares na América Latina, ressalvando, porém, “o direito de produção e utilização da energia nuclear para fins pacíficos” (p. 1001). No mesmo sentido, na Comissão do Desarmamento, o Brasil defendia “a inclusão, no futuro Tratado Mundial de Não Proliferação de Armas Nucleares, de medidas capazes de assegurar aos países que não dispõem de armas nucleares o direito de produzir e utilizar artefatos atômicos, com finalidades pacíficas (sic; idem). Na época, se acreditava, talvez ingenuamente, que explosões nucleares controladas poderiam servir a grandes obras de infraestrutura ou para unificar jazidas subterrâneas de recursos fósseis, mas também poderia ser uma justificativa para o prosseguimento de projetos nucleares efetivos
A partir daí, as mensagens de Costa e Silva, de 1969, e as de Médici, de 1970 a 1973, sequer ultrapassaram poucas páginas, e não continham senão tentativas canhestras de legitimação da continuidade do “processo revolucionário”, sem qualquer abordagem, mesmo sumária, da política externa. Em sua derradeira mensagem, antes de ser acometido de grave doença, e de ser “sucedido”, não pelo vice-presidente “eleito” com ele, Pedro Aleixo, mas por uma Junta Militar, Costa e Silva afirma sem rebuços defender a própria liberdade dos brasileiros:
A edição do AI-5 e a dos Atos subsequentes configuraram procedimento típico de salvação pública, imposto por grave emergência. São comuns na história das nações mais amadurecidas, e se suas instituições políticas, os lapsos de restrições determinadas por emergências graves e que se hão de ter por hiatos inevitavelmente abertos em favor da própria liberdade, condição essencial em todos os tipos de sociedades humanas, à conquista do progresso como propiciador da felicidade coletiva. (p. 120)

As três mensagens do novo ditador, eleito às pressas para dar continuidade ao regime, constituem, entre 1970 e 1973, exemplos notáveis de concisão expositiva, às quais não faltavam fórmulas lapidares para caracterizar a situação do país: “vocação humanista que caracteriza o regime” (1971, p. 130); “criação de riqueza, expansão da economia... abrindo para a sociedade brasileira perspectivas promissoras quanto à elevação do nível de vida” (1972, p. 135); “conciliar o crescimento com as exigências do bem coletivo”, “recursos financeiros em proporções consideráveis, para empreendimentos que objetivam a proteção dos interesses humanos”, “democratização das oportunidades” (1973, p. 139
Em 1974, já na transição para o governo Geisel, a última mensagem enviada pelo general Emílio Garrastazu Médici se estendeu longamente por quase 20 páginas, mas não contém nada sobre política externa, a não ser duma referência à exportação de manufaturados. Em contrapartida, o cenário econômico interno mostrou-se mais preocupante, como se pode depreender de referências do seguinte teor: “Intensificou-se... a política de combate à inflação, dados os graves problemas que esta suscita”, “Especial empenho se buscou na busca do equilíbrio orçamentário...”; “A dívida externa deixou de ser elemento aleatório para se converter em valioso instrumento de cooperação no esforço nacional, como parte integrante e previamente programada da política econômica” (p. 143-44). Uma conclusão, bastante otimista, colocava o Brasil numa condição bastante promissora no plano internacional:
Em momento histórico extremamente complexo, quando a tônica, no quadro mundial, é a perplexidade e o sobressalto [o Brasil e o mundo estavam então vivendo sob o impacto do primeiro choque do petróleo], ... está o Brasil, seguramente, entre as nações que ... podem olhar para o futuro com justificada confiança. (p. 159)

Os dois últimos governos da “revolução” passariam a conviver com novas crises externas, com o aumento da inflação internamente, tendo, em função desses problemas, promovido um crescimento desmesurado da dívida externa. Os três fatores tornariam melancólico a fase declinante e agônica do regime militar.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5038, 24 agosto 2025, 5 p.

Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil: prefácio ao livro de André Heráclio do Rego: O século XIX na obra de Gilberto Freyre - Paulo Roberto de Almeida

 Meu colega e amigo André Heráclio do Rego, acaba de publicar seu livro mais recente, para o qual ele me convidou para escrever o prefácio, que reproduzo abaixo:


Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil
Paulo Roberto de Almeida
Prefácio ao livro de André Heráclio do Rêgo:
O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República
(Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026; ISBN: 978-65-5252-277-1; p. 7-15).

Sempre gostei de começar os livros pelo fim, isto é, pelo índice remissivo, que pode ser revelador sobre o conteúdo de cada um. Especialmente nos livros americanos, nos quais é obrigatório o Index, tenho o hábito de procurar diretamente o que o autor tem a dizer sobre o Brasil, sobre a América Latina, ou outros assuntos de meu interesse especial. Uma passagem pela bibliografia também é indispensável para constatar a amplitude das leituras do autor, assim como a concentração em determinadas áreas, quando não a descoberta de livros ou autores já conhecidos. Pois foi o que fiz quando percorri o manuscrito deste livro de meu colega e amigo, o historiador André Heráclio do Rego. A última página é ocupada por uma curta nota sobre o autor, apenas cinco linhas: além de doutor em história, seu vínculo a vários institutos históricos e geográficos, a começar pelo IHGB, nacional.
Vou em seguida às referências bibliográficas, ou seja, os livros usados para compor a sua obra: cerca de 40 livros e artigos dos mais pertinentes no tratamento do personagem principal e suas obras voltadas para o século XIX brasileiro, o tema título. O mais importante, porém, é o apêndice que relaciona as mais de cinco dezenas de obras de Gilberto Freyre usadas para compor um panóptico dos sete capítulos substantivos dedicados ao Brasil entre o Império e a República, abordando assuntos tão diversos, e complexos, quanto o movimento da independência, o processo revolucionário (especialmente presente no Nordeste), as singularidades da monarquia, as rupturas e continuidades entre o Império e a República, a questão da unidade nacional, e um pouco de assuntos internacionais, entre o Ocidente e o Oriente, tudo isso para confirmar que o sociólogo de Apicucos (sua residência recifense) era uma espécie de intelectual de sete instrumentos, da antropologia à sociologia, da política à história, passando pela cultura e pelas relações internacionais.
Gilberto Freyre, segundo a opinião de acadêmicos brasileiros de diversas correntes, foi um dos intelectuais mais singularmente antenado com aspectos por vezes corriqueiros da realidade social do país, não ordinariamente focados pelos analistas das grandes questões nacionais, como, por exemplo, sua mania seguir recortes de jornais locais tratando, entre outros assuntos, de compra, venda ou aluguel de escravos para trabalhos domésticos ou até para empreendimentos comerciais. O presente livro de André Heráclio do Riego constitui um notável esforço de síntese interpretativa sobre um dos autores mais fecundos do pensamento social brasileiro. Junto com Oliveira Lima e Manoel Bomfim, Gilberto Freyre foi um dos primeiros historiadores sociais do Brasil. Na verdade, ele foi bem mais do que isso: um antropólogo de formação, tendo estudado com Franz Boas, na Columbia (NY), veio a empreender um levantamento da cultura material e humana do Brasil colonial e imperial, compreendendo não apenas a sua análise da Casa Grande e [da] Senzala, o título de sua primeira grande obra (1933), como também a miscigenação geral do povo brasileiro a partir de suas fontes étnicas, os aportes estrangeiros à cultura material e espiritual, assim como a lenta emergência, a partir da sociedade patriarcal, de formações urbanas ao longo da costa atlântica e no interior próximo, tal como refletida em Sobrados e Mucambos (3 volumes, 1936) e no seu outro clássico, Ordem e Progresso. O extenso subtítulo dessa terceira grande obra, em 2 volumes (1959), revela, aliás, a extensão de seu trabalho analítico: “Processo de desintegração da sociedade patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da Monarquia para a República”.
Gilberto Freyre antecipou, de certa forma, a famosa escola francesa dos Annales, com sua forte ênfase no cotidiano das famílias, nos costumes do povinho miúdo, na alimentação e nas técnicas do trabalho humano; mais de um acadêmico francês em estágio universitário no Brasil dos anos 1930 e 40, na recém fundada Universidade de São Paulo por exemplo, se declarou pronto a reconhecer certa dívida interpretativa em relação ao “mestre de Apipucos”, sua residência e escritório de trabalho no Recife senhorial. Bem antes que entrassem na moda, justamente a partir da USP, críticas à sua visão do mundo patriarcal, supostamente na origem do mito da “democracia racial” no Brasil, muitos acadêmicos brasileiros reconheciam em Gilberto um dos intelectuais que mais se destacaram na tentativa de substituir o “olhar estrangeiro” por um olhar nacional na compreensão do Brasil, inclusive por conta da vastidão de sua obra. Para o historiador Evaldo Cabral de Mello, talvez por uma não secreta simpatia para com o colega e primo pernambucano, a riqueza e a variedade da obra de Gilberto de Mello Freyre exigiriam o “trabalho aturado” de muitos especialistas para ser bem compreendida.
É um fato que, até Freyre, a historiografia brasileira se ocupava muito pouco do lado antropológico da cultura popular como ele o fez desde seus primeiros trabalhos. Capistrano de Abreu se havia aventurado parcialmente pelo lado social da formação do Brasil, e ainda assim de forma esparsa e sem continuidade. “Os historiadores desconheciam o povo, como continuam a desconhecê-lo”, acusou José Honório Rodrigues numa de suas obras historiográficas mais marcadas por seu tradicional antielitismo. A história social brasileira teve, assim, seu iniciador em Capistrano de Abreu e seu continuador no antropólogo e sociólogo pernambucano, “pela maior atenção ao povo, às frustrações psicológicas, às alterações nas relações de família, às atitudes e ajustamentos sociais, às crenças fundamentais”. O mestre de Apipucos sugeriu que sua própria ambição seria a de ser o Ticiano ou o El Greco da história brasileira. Estes dois pintores, bem como Rembrandt, valeriam mais, para tais propósitos, por sua habilidade de evocação da vida e da atmosfera que circundava seus modelos do que pela beleza estrita de suas obras, como o autor escreve na Introdução.
Ganha corpo nesse sentido a interpretação de Evaldo Cabral de Mello da obra de Gilberto Freyre. Para este seu primo, a novidade da sua abordagem consistia na transposição para uma sociedade de tipo histórico, como a brasileira, até então examinada exclusivamente a partir dos métodos diacrônicos da História, da visão sincrônica desenvolvida pela antropologia para a descrição das sociedades primitivas. “O que era então uma ousadia teórica habilitou o mestre de Apipucos a dar uma das contribuições mais originais à cultura ocidental do século XX”, concluiu Evaldo Cabral de Mello.
Oliveira Lima, por quem Gilberto Freyre nutria uma grande admiração, que aliás era recíproca da parte do historiador e diplomata pernambucano, parece ser o sujeito oculto das influências freyreanas, pelo menos durante um certo período. Assim, conquanto o mestre de Apipucos tenha sido um grande divulgador da obra do dom Quixote Gordo, o reconhecimento de sua influência sobre a própria, ademais de escasso, é esporádico. Com a crítica é pior aindaː escreveu-se muito sobre Franz Boas e Gilberto Freyre, sobre o pensamento hispânico na obra freyreana, sobre o Gilberto Freyre vitoriano nos trópicos, mas pouquíssimo sobre a influência de Oliveira Lima, o maior historiador diplomático, mas também da história social do Brasil imperial. A obra de Gilberto Freyre influenciou fortemente a maneira como o brasileiro de hoje vê o seu passado, tendo contribuído, com sua obra de hermenêutica da sociedade nacional, para a valorização do mesmo passado e para a identificação de ligações que a sociedade transpõe do passado para a formação das imagens que, em cada presente, se desenham do próprio presente e, também, do futuro do país.
José Honório Rodrigues, o grande historiador brasileiro autor de livros de referência na metodologia, sempre demonstrou enorme respeito pela obra produzida pelo antropólogo recifense. Já na sua “Introdução Metodológica” à Teoria da História do Brasil (1949), Rodrigues reconhece a contribuição de Freyre para a plena realização do ideal de Martius de se traçar a história do Brasil pelo “estudo do indígena, do colonizador português e do escravo negro na formação da família e da sociedade brasileira”, referindo-se particularmente a Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso:
Se Varnhagen seguiu o plano de Martius, seguiu-o apenas na colheita do material, mas foi Gilberto Freyre que, demonstrando uma enorme capacidade de interpretação, reuniu e selecionou os fatos numa caracterização geral da sociedade e da família brasileiras. (4ª edição, 1978, p. 142)

Também numa obra posterior, A Pesquisa Histórica no Brasil (1952, 1968), José Honório destaca o papel de Gilberto Freyre na sugestão, feita aos próprios diplomatas, para a importância da correspondência consular na investigação sobre a produção intelectual dos historiadores a partir dos arquivos diplomáticos. Em sua seção sobre as “fontes” dessa obra, ele registra numa longa nota de rodapé:
Gilberto Freyre diferencia a correspondência consular da diplomática dizendo [citando seu livro Sociologia, na edição de 1945] que ‘os diplomatas propriamente ditos não se ocupavam em geral senão com o fato ou a ocorrência chamada única. Os cônsules é que nos seus relatórios se entregam principalmente ao registro das recorrências’. A distinção é resultado prático do princípio teórico estabelecido na sociologia, onde, inspirado por Rickert, Gilberto Freyre distinguira o fato sociológico, recorrente e plural, do fato histórico, único e singular. (3ª edição, 1978, p. 144)

Mais adiante, no mesmo volume (p. 197), José Honório chama a atenção para obras menos generalistas de Gilberto Freyre, como o Diário Íntimo do Engenheiro Vauthier, 1840-1846 (1940) e Um Engenheiro Francês no Brasil (1960), como exemplos de pesquisa que descem às minudências de processos microhistóricos, saindo do enfoque geral dos grandes conceitos, privilegiados em trabalhos como aqueles feitos na chamada “escola paulista de sociologia”, no âmbito da qual tinham sido feitas muitas críticas à visão inovadora de Freyre, em especial no tocante às relações raciais na sociedade tradicional.
Mas sua obra não influenciou apenas a visão dos brasileiros sobre o seu próprio passado, assim como a dos estrangeiros sobre o Brasil – pois que ela foi amplamente traduzida no exterior, inclusive em japonês –, mas igualmente a política externa oficial do Brasil, praticamente dominada, dos anos 1930 aos 60, por uma espécie de “lusotropicalismo binacional”, já que servindo a duas ditaduras unidas pelo conceito de Estado Novo, o de Salazar, em Portugal, e o de Getúlio Vargas, no Brasil, e até mais além, marcando a complacência diplomática brasileira com o ultracolonialismo português na África. Gilberto Freyre também foi o primeiro a destacar as conexões entre o Oriente e o Ocidente nesse mundo lusotropical, destacando os valores asiáticos absorvidos pela cultura lusobrasileira, chegando inclusive a falar, no caso do Brasil, de uma “China tropical”, tal como expresso em capítulo final ao seu livro dedicado ao público estrangeiro, New World in the Tropics.
Com sua visão originalíssima sobre essa imbricação de culturas, Gilberto Freyre padeceu, provavelmente, de uma ênfase analítica excessiva sobre seu primeiro grande clássico, causando uma distorção crítica quando da revisão historiográfica e sociológica sobre o regime escravocrata patriarcal da sociedade tradicional, considerada muito “nordestina”. De fato, é uma evidência acadêmica que grande parte dos estudiosos da obra de Freyre verteram um interesse desproporcionado por Casa Grande & Senzala. Como observou Peter Burke, “mesmo tendo sido prolífico em seus escritos e amplo em seus interesses, Gilberto Freyre é mais lembrado por um só livro, publicado em 1933, quando o autor tinha 33 anos”.
O leitor poderá observar no decorrer desta obra do também pernambucano André Heráclio do Rego, diplomata e historiador como Evaldo Cabral de Melo, que a análise de Gilberto Freyre sobre o século XIX não se limitou, de forma alguma, a Pernambuco e ao Nordeste. Ao contrário, sua abrangência é nacionalː o mestre de Apipucos tratou repetidamente de personagens como José Bonifácio e dom Pedro II, e de temas como a unidade nacional e a integridade territorial, ademais do movimento da Independência. O que ocorre é que fez isso em obras esparsas, publicadas em coletâneas, em plaquetes e em artigos de jornal, que na sua maior parte não tiveram a boa sorte de ser reunidas em volume mais vistoso. Esta é a matéria do livro que o leitor tem em mãos, graças à garimpagem muito bem conduzida por André Heráclio.
Ele se baseia num conhecimento profundo dessa obra esparsa de Gilberto Freyre e complementarmente naquelas obras “maiores” mencionadas por Peter Burke e Evaldo Cabral de Mello, ademais de trechos de várias outras em que se fazem referências e considerações sobre o século XIX no Brasil, seus personagens e seus temas. O resultado é um livro que passa a integrar o universo já bastante amplo dos estudos gilbertianos, mas de uma maneira original e inovadora, pois que chamando justamente a atenção para uma série de textos normalmente descurados na literatura interpretativa. Como referido ao início, seu apêndice, referenciando as dezenas de “pequenas” e grandes obras de Gilberto Freyre utilizadas por André Heráclio para compor este verdadeiro vade mecum do pensamento gilbertiano sobre nosso primeiro centenário independente, demonstra a intimidade do autor com o conjunto da obra de seu ilustre conterrâneo. Já sua introdução, ele oferece uma revisão atualizada de uma vastíssima bibliografia centrada no mestre pernambucano, à qual se seguem sete capítulos sobre o longo século XIX, explorando as ricas minas deixadas esparsas na obra multifacetada de Gilberto Freyre.
Destaco em particular a abordagem original do período monárquico, absolutamente fundamental para a preservação da unidade nacional, pois que as tentativas republicanas, no Nordeste e no Sul, poderiam ter levado à fragmentação da nação. Comparece, igualmente, na análise de André Heráclio, a importância da influência oriental na formação da cultura luso-brasileira, normalmente descurada na historiografia e na sociologia tradicionais. O capítulo final, “Considerações e sugestões”, é praticamente uma nova introdução e um convite ao aprofundamento continuado de novas interpretações sobre a densa produção intelectual do mestre pernambucano. André Heráclio não apresenta propriamente conclusões, mas faz algumas sugestões, entre elas esta:
E a primeira delas expressa de certa forma uma síntese do pensamento freyreano sobre a Independência, ao constatar que a pura Independência política não basta por si para que um povo se constitua em nação autônoma. É necessário, adicionalmente, que ela seja acompanhada por uma autonomia cultural ou, em outras palavras, por um estilo nacional de vida.

Aproximando, mais uma vez, Freyre do seu mestre autoexilado em Washington, quando ambos conviveram e aprenderam reciprocamente com as coisas do Brasil vistas de uma nova abordagem, André Heráclio faz uma outra consideração importante para a historiografia nacional:
É importante salientar que Gilberto Freyre, a exemplo de Oliveira Lima, nunca se limitou a ver Pernambuco com exclusividade, sem demonstrar interesse pelo restante do país. Ao contrário, procurou sempre ver a Nova Lusitânia como integrante e participante decisiva do todo nacional, e sem cuja participação o Brasil não existiria tal como é hoje, para o mal e para o bem. É assim que, nas suas análises, como nas do dom Quixote Gordo, destaca-se a participação pernambucana na formação nacional e no movimento da Independência, seja nas suas vitórias, como a de 1654, seja nas suas derrotas, como as de 1817 e 1824.

Ele traça, em suas considerações finais, um vasto panorama da participação das “classes humildes”, os “revolucionários rústicos”, na formação histórica do Brasil, na Independência, no Império e na República, o que faz do Brasil uma “nação única no mundo”, “una e plural no seu modo nacional de ser”, da mesma forma como Gilberto Freyre conseguia ser revolucionário e conservador ao mesmo tempo. No conjunto, a pequena, mas riquíssima, “freyreana” de André Heráclio já constitui – sem esquecer seus outros importantes trabalhos em torno da rica obra historiográfica de Oliveira Lima – um dos mais valiosos aportes ao estudo e ao conhecimento integral da obra de Gilberto Freyre no Brasil e sobre o Brasil.

Paulo Roberto de Almeida, diplomata e professor.
Brasília, novembro de 2025
[Revisto: 8/11/2025]

As razões da ganância de Trump pela Groenlândia - Daniel Gateno, William Brizola, Lucas Keske (Estadão)

 As razões da ganância de Trump pela Groenlândia

DANIEL GATENO 

WILLIAM BRIZOLA 

LUCAS KESKE

O Estado de S. Paulo, 19 de fev. de 2026

Presidente americano mira terras raras e usa argumentos militares

No meio do caminho entre Estados Unidos e Rússia, a Groenlândia virou objeto de cobiça de Donald Trump ainda em seu primeiro mandato. O presidente americano foi atraído pela posição estratégica do território, os minerais críticos e o potencial cada vez maior do Ártico por conta das mudanças climáticas. Apesar de a Dinamarca ter recusado a proposta de venda de Washington na primeira passagem de Trump pela Casa Branca, o republicano não esqueceu a ilha e parece irredutível em sua busca pelo território.

A tentativa de Trump em dominar uma parte ainda maior do Ártico adiciona mais tensão a uma região que se tornou mais disputada, militarizada e alvo de espionagem e sabotagem nos últimos anos. O Ártico é considerado um possível campo de batalha entre Rússia e o Ocidente, já que Washington, Moscou, Canadá e os países nórdicos possuem um flanco da região e o derretimento do gelo pode tornar os territórios mais acessíveis e próximos no futuro.

Segundo Trump, a disputa pelo Ártico é o que o motiva a tornar a Groenlândia parte dos Estados Unidos. “Existem barcos russos por todo lugar, barcos chineses por todo lugar – navios de guerra. Nós precisamos da Groenlândia”, afirmou o presidente americano em um discurso no Congresso no ano passado.

A alegação de Trump é rechaçada pelas autoridades locais da Groenlândia e por especialistas. “Não é útil para a China enviar navios militares tão ao norte e a Rússia não tem nenhuma razão para atacar a Groenlândia, já que o território faz parte do Reino da Dinamarca, que é da Otan”, opina Marc Lanteigne, professor de ciências políticas da Universidade de Tromso, na região do ártico norueguês.

Apesar disso, o especialista destaca que é necessário investir na segurança do Ártico porque a competição pelos recursos da região vai aumentar nos próximos anos. “Estima-se que em apenas 10 anos poderemos ver águas abertas sobre o Polo Norte no verão e os EUA acreditam que, se eles não conseguirem extrair os recursos do Ártico, outros países irão.”

ROTAS COMERCIAIS. As passagens estratégicas do Ártico também podem transformar o potencial comercial e geopolítico da região. As grandes potências já imaginam o dia em que os navios que viajam entre Ásia, Europa e América do Norte não precisarão mais seguir para os canais do Panamá e de Suez, e sim realizar rotas mais curtas pelo Ártico.

A chamada Passagem do Noroeste começa no Estreito de Davis, justamente entre a Groenlândia e o Canadá, enquanto a Passagem do Nordeste passa pela Rússia e termina no Estreito de Bering, que separa os EUA do território russo.

O derretimento cada vez mais rápido do gelo está abrindo outros caminhos, como a Rota Marítima do Norte, que se sobrepõe à Passagem do Nordeste e percorre a costa ártica da Rússia, da Europa à Ásia, e uma potencial rota ártica central, que pode ser viável através do Polo Norte no futuro relativamente próximo.

Em 2025, o navio porta-contêineres Istanbul Bridge se tornou o primeiro navio a viajar da China para a Europa pela Rota Marítima do Norte. O trajeto foi completado em cerca de 20 dias.

De acordo com a Marine Exchange of Alaska, uma organização de monitoramento marítimo, houve um aumento de 175% de navios que passaram pelo Estreito de Bering em 2024 em relação ao número registrado em 2010.

Em meio ao aumento de possibilidades comerciais e estratégicas, Rússia e China já deixaram claro que também querem expandir a sua presença no Ártico.

Pequim não possui território na região, mas sinalizou que deseja desenvolver a chamada “Rota da Seda Polar”, enquanto Moscou reativou bases navais e tem mísseis nucleares estacionados no Extremo Norte e na Península de Kola, perto da Noruega.

“O aumento da presença russa no Ártico abriu os olhos da Otan para uma possível rivalidade entre o Ocidente e Moscou na região”, avalia Lanteigne. Os movimentos da Rússia preocupam mais os países nórdicos, que sofrem com constantes casos de espionagem e sabotagem.

Para o professor da Universidade de Tromso, a região do Ártico central pode se transformar em uma zona de colisão entre Otan, Pequim e Moscou.

PRESENÇA MILITAR. Trump alega que os EUA são o único país com capacidade de garantir a segurança da Groenlândia.

Mas Washington não precisa ter soberania sobre a ilha se quiser reforçar a segurança do local.

Em 1951, Estados Unidos e Dinamarca firmaram um acordo de defesa que permitiu o estabelecimento de bases militares americanas na Groenlândia. Os EUA já tiveram mais de 20 bases na ilha e cerca de 10 mil soldados.

Durante a Guerra Fria, a Groenlândia se tornou peçachave no tabuleiro militar entre EUA e União Soviética, já que os possíveis ataques das duas partes seriam lançados pelo Círculo Polar Ártico.

Atualmente, Washington possui ali apenas a Base Espacial Pituffik, um dos pontos militares estrategicamente mais importantes do mundo, mas tem o poder de abrir mais bases militares quando quiser.

Apesar dos questionamentos aos argumentos trumpistas, a Dinamarca reconhece que pode fazer mais para defender a ilha e anunciou um pacote de US$ 2 bilhões em renovação militar para o Ártico, com a compra de novos navios, drones e satélites.

Segundo explica o professor da Universidade de Tromso, a Groenlândia precisa de mais bases para monitorar o chamado espaço GIUK (Groenlândia-Islândia-Reino Unido), ponto vital entre o Mar da Noruega e o Atlântico que fica entre os três países que compõem a sigla.

“Esse ponto é importante e precisa de monitoramento porque, se a Rússia quisesse enviar um navio de guerra ou submarino para o Atlântico, seria por essa rota que passa pela Groenlândia, Islândia e Reino Unido.”

TERRAS RARAS. A ilha semiautônoma da Dinamarca está entre os dez territórios com as maiores reservas de terras raras do mundo. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a ilha tem 1,5 milhão de toneladas de minerais críticos.

A Groenlândia também abriga dois dos maiores depósitos conhecidos de terras raras, em Kvanefjeld e Tanbreez. A empresa chinesa Shenghe Resources é a segunda maior acionista do projeto Kvanefjeld, com uma participação de 6,5%.

A busca por minerais críticos tem sido um dos focos do presidente Trump para competir com a China. Pequim domina a extração e o refino de terras raras, controlando 50% das reservas mundiais e 70% da produção. “Na cabeça de Trump, o Ártico é visto como um lugar de recursos importantes para a nova economia: gás, petróleo e terras raras”, avalia Lanteigne.

APLICAÇÃO. As terras raras são importantes para a confecção de produtos de alto valor no mundo moderno, como carros elétricos, celulares, equipamentos médicos, turbinas eólicas e chips de computadores, além de terem, também, uso em maquinário militar.

Mas Trump não precisa comprar a Groenlândia para explorar as terras raras da ilha. O governo do território já deixou claro que está aberto a investimentos, mas poucas empresas se interessaram por conta dos custos da operação e problemas relacionados a infraestrutura, mão de obra e gelo.

“A Groenlândia poss ui uma grande riqueza mineral, mas a mineração na ilha é difícil e cara. É preciso esperar muito tempo até que uma empresa obtenha algum lucro”, disse o professor da Universidade de Tromso.

NEGOCIAÇÃO. Mesmo com os argumentos de especialistas sobre o poder que os Estados Unidos têm sobre a Groenlândia e sua segurança, Trump se mostra irredutível em sua vontade de anexar a ilha.

O presidente americano anunciou uma série de tarifas contra países europeus por conta de sua defesa da soberania da Dinamarca, mas voltou atrás depois de uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial.

De acordo com informações do jornal americano The New York Times, as negociações têm se concentrado em propostas para aumentar a presença da Otan no Ártico, conceder aos Estados Unidos uma reivindicação soberana sobre partes do território da Groenlândia e impedir que China e Rússia explorem os minerais da ilha.

A Dinamarca apontou que se opõe publicamente à cessão da propriedade de qualquer terra groenlandesa, mas está aberta a negociar outras áreas que não afetem a soberania da ilha.

“Existe a esperança de que algum tipo de acordo possa ser alcançado, mas que não afete a soberania da Groenlândia”, aponta Lanteigne. “Poderia ser um acordo militar ou algum memorando de preferência para a mineração de terras raras, existem muitos pontos possíveis.” •

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PRA: Grato a Walmyr Buzzatto pela transcrição.


A China como o melhor aluno do FMI em 45 anos - professor Celso Hildebrand (Linkedin)

A China tem sido o melhor aluno do FMI desde que se associou às entidades de Bretton Woods em 1980, ou seja 45 anos de prosperidade continua. PRA

Copio de postagem do professor Celso Hildebrand (FIA-USP) no Linkedin:

“O Programa de Comércio Exterior Brasileiro da FIA (USP), identifica um otimismo moderado do FMI em relação ao desempenho da economia chinesa.

O Fundo reconhece haver na economia chinesa uma “notável resiliência, apesar dos múltiplos choques enfrentados nos últimos anos”.

Aponta para o crescimento do PIB real de 5% em 2025, graças a seus volumes exportados e aos estímulos concedidos pelo governo central. Identifica ainda que a demanda interna privada é modesta, embora tivesse ocorrido no ano que passou um pequeno recrudescimento inflacionário. Mesmo assim, a inflação geral continua baixa, com média de 0%. Essa baixa inflação em relação aos seus principais parceiros comerciais provocou uma depreciação da taxa de câmbio real, trazendo apoio ao ritmo intenso de suas exportações e dando causa ao aumento no saldo da balança corrente (coisa de 3,3% do PIB, no ano que se findou).

Apesar dos conflitos geopolíticos, da guerra tarifária e de outras incertezas, o FMI projeta uma desaceleração do crescimento do PIB de apenas 0,5%, para 4,5% em 2026. A economia neste ritmo deve embutir uma taxa de ociosidade igual ou pouco maior que a de 2025, com pressões deflacionárias e redução da força de trabalho. Esse quadro deve comprometer, em alguma medida, os retornos sobre investimentos e produzir um crescimento mais lento da produtividade. 

Os riscos não se alteram muito. Permanecem associados à contração do mercado imobiliário, que associados aos elevados níveis de endividamento, podem fragilizar ainda mais a demanda interna, contribuindo para a persistência da deflação e para a maior dependência de suas exportações. A escalada das tensões comerciais é o principal risco externo negativo. Neste quadro é de se esperar por novos estímulos governamentais e por esforços negociais para reduzir as tensões comerciais.”


Uma nação de privilegiados? - Wesley Galzo e Gustavo Côrtes (Estadão)

 Uma nação de privilegiados?

Os ganhos efetivos, reais (pois vários sem IR), dos excelentissimos aristocratas da magistratura representaram TRÊS VEZES o teto máximo autorizado pela legislação. O ministro Dino pretende, também, cortar TODOS os “penduricalhos” e exigir explicações em 60 dias?

Transcrevo do Estadão 19/02/2026:

“Em mais um capítulo da série Ilustríssimo Privilégio, os repórteres Wesley Galzo e Gustavo Côrtes revelam que ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Superior Tribunal Militar (STM) receberam, na reta final de 2025, em média R$ 129 mil líquidos — o triplo do teto constitucional — impulsionados por penduricalhos. Esses vencimentos ocorrem graças a artifícios usados para driblar os limites legais por meio do pagamento de verbas indenizatórias além dos salários. 

O Estadão analisou os contracheques de todos os membros dos três tribunais em dezembro e identificou que os salários acima dos R$ 100 mil foram viabilizados por uma miríade de adicionais, como licença compensatória, licença prêmio, gratificação por tempo de serviço, abono permanência e auxílios variados. 

O levantamento não contabilizou o 13º ou a venda de férias, pois são benefícios garantidos por lei a funcionários públicos e trabalhadores da iniciativa privada. 

Procurados, o STJ e o TST afirmaram que valores abarcam diversos benefícios autorizados por lei pelo CNJ; demais tribunais não se manifestaram. 

Nos bastidores do poder em Brasília, o colunista Álvaro Gribel observa que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), quer criar uma teoria da conspiração para desviar o foco do principal: o suposto contrato milionário entre o escritório da sua esposa e o falido Banco Master e a sociedade do ministro Dias Toffoli em um resort de luxo por valores muito acima da sua renda acumulada como servidor público.

Segundo o colunista, comenta-se nos corredores que o magistrado faz parte de um grupo de autoridades próximas ao banqueiro Daniel Vorcaro, ao lado de Toffoli e de políticos como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira e o atual presidente da Casa, Hugo Motta. A lista ainda incluiria dezenas de deputados e senadores que, direta ou indiretamente, surfaram na onda de crescimento da instituição financeira nos últimos anos. 

O que não para em pé na conduta dele, sinaliza Gribel, é o uso do inquérito das fake news — que tem a ver com a tentativa de golpe por parte de Bolsonaro em 2022 — para investigar a quebra de sigilo de membros da Corte e de seus familiares a partir de 2023, ou seja, durante o governo Lula. Leia a coluna na íntegra.”


PRA: O venerando jornal conservador tem sido revolucionário ao denunciar os abusos da casta politica em nosso país, assim como os privilégios indefensáveis da aristocracia da magistratura, que destroi qualquer laivo de moralidade ao quebrar ela mesma regras e normas que impediriam que altos mandarins do Estado assaltassem a nação dessa forma desavergonhada como vêm fazendo ao longo de anos e anos e de forma crescentemente despudorada.

Vivem melhor do que a nobreza do Ancien Regime, que acabou provocando uma revolução popular, com destruições seguidas de um regime de Terror. 

É a isso que suas Excelências pretendem conduzir o pais?

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 19/02/2026


Postagem em destaque

Convergências e divergências no regionalismo econômico e político da América do Sul: evolução histórica, dilemas atuais e perspectivas futuras (2008) - Paulo Roberto de Almeida

   1927. “ Convergências e divergências no regionalismo econômico e político da América do Sul: evolução histórica, dilemas atuais ...