Assistindo hoje à sessão da TV Justiça sobre o julgamento do Mensalão, ou Ação Penal 470 -- o maior crime político já cometido na história do Brasil (mas acredito que existem piores, que ainda vão vir, ou que já existiram mas não foram julgados, como por exemplo o fato de o chefe da máfia não fazer parte deste julgamento) -- cheguei a ficar constrangido, e sentir vergonha, ao imaginar diplomatas, jornalistas, observadores de outros países assistindo o triste espetáculo protagonizado hoje pelos que passam por ministros do Supremo (alguns certamente não mereciam estar lá).
Quando penso nas sessões extremamente objetivas da Suprema Corte dos EUA -- existe audios posteriores das sessões, não esse espetáculo pirotécnico que é a nossa TV Justiça em ação --, quando penso no extremo recato da Corte Constitucional da França, na Corte de Heidelberg, quando comparo tudo isso e veja o teatro lamentável oferecido por nossos "juízes", me dá esse mesmo sentimento de vergonha alheia já mencionado por um jornalista conhecido.
Quem duvidar de mim, veja a página da Suprema Corte dos EUA, leia o seu regimento (Rules, objetivas, em menos de 60 páginas), leiam as súmulas dos julgamentos, com menos de 20 páginas, e vejam o trabalho primoroso conduzido pelos juízes nos julgamentos, perfeitamente objetivo, conciso, sem floreios, sem demagogia.
Independentemente de quantos bandidos possam ir para a cadeia agora, o espetáculo da nossa "justiça" é algo deplorável, sob todos os aspectos.
E sabemos que não só pelo bandido principal que escapou, mas pelos vários outros estão soltos, que todos os prejuízos que eles provocaram para as nossas instituições -- e não só os as centenas de milhões roubados, mas a prostituição dos mecanismos do Estado conduzida pela banda de criminosos que nele se instalou -- tudo isso é mínimo se comparado com a imensa perda de credibilidade que agora temos, no Estado, na justiça, na decência moral neste país...
O Brasil é um país que anda para trás, e isso se reflete também nos juízes histriônicos que exibimos ao mundo todo. Que bandidos eleitos ocupem o poder, isso é de certa forma esperado. Que responsáveis pela suprema corte tenham um comportamento de serviçais dos primeiros, isso já é deplorável.
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Um comentário:
Mangabeira Unger está certo quando critica a formação bacharelesca do Direito no país... ótimos métodos de ensinamento de oratória burocrática.
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