terça-feira, 4 de junho de 2024

A "desrussificação" da Europa central e oriental começando pelos Estados bálticos

Uma série de videos extremamente úteis na compreensão dos fundamentos históricos e das implicações geopolíticas contemporâneas sobre a resistência dos povos da Europa central e oriental contra as ameaças colocadas pelo expansionismo da Rússia liderada por Vladimir Putin: 

https://www.youtube.com/watch?v=MNlWeul1IYA

How War In Ukraine is DERUSIFYING Baltic States

The Military Show

Explore how Lithuania and the Baltic states are actively derussifying and standing strong against Russian influence. 🇱🇻🇪🇪 Learn about their historical struggles, current political actions, and unwavering support for Ukraine. 🇺🇦✊ Understand why  these countries are drawing a clear line in the sand, rejecting Russian cultural and political presence, and leading the charge for a free and independent future. 🌍🚫 #Derussification #Lithuania #Latvia #Estonia#StandWithUkraine #BalticSolidarity #NoToRussianAggression #HistoricalStruggles #PoliticalActions #EuropeanUnity#Bal 


https://www.youtube.com/watch?v=QO9iJ2_aHaE

Why Kaliningrad Will be Ukraine 2.0

The Military Show
To the outside world, Kaliningrad is simply a part of Russia 🌍. But change is brewing in this western exclave. From a strategic military hub 🛡️ to a potential flashpoint for conflict ⚔️, Kaliningrad's future hangs in the balance. Could it become Ukraine 2.0? 🇺🇦 Dive into Kaliningrad’s complex history and evolving geopolitical significance in our latest video. #Kaliningrad #Russia #Geopolitics #Ukraine #BalticStates #NATO #Military #History #Conflict #Europe#WorldWarIII #BalticSea #Lithuania



How the US and UK’s Aid Package to Ukraine Will Destroy Putin

🇺🇦 Ukraine has faced immense challenges in its war with Russia, with significant losses including Avdiivka. However, new aid packages from the U.K. and U.S. are set to turn the tide. Massive military support is boosting Ukraine's defenses, potentially derailing Putin's ambitions. Join us as we explore how this seismic shift could reshape the war's outcome. 🌍✊ #UkraineWar #StandWithUkraine #UKAid #USAid #Putin #MilitarySupport #TurningTheTide #RussiaUkraineWar#DefendUkraine #SupportUkraine #UkraineStrong #FreedomForUkraine #EndTheWar #ww3 #worldwar3  #GlobalSu 

Como a Ucrânia pode vencer a Rússia - The Economist

 The Economist: In Crimea, Ukraine is beating Russia. It is becoming a death trap for the Kremlin’s forces.

Ukraine success in Crimea provides lessons about how Ukraine can succeed elsewhere. 

Those lessons are straightforward, really: 

1. Saturate Ukraine with weapons 1/

2. Provide long-range striking capabilities

3. Allow to use these capabilities on the target area

The Economist: Ukraine is now able to hit any target in Russian-occupied Crimea with deadly effect due to the arrival of ATACMS ballistic missiles with a 300km range. 3/

The E: The U.S. has eased restrictions on using American weapons against military targets in Russia, allowing Ukraine to hit Russian forces attacking or preparing to attack Kharkiv. 4/

The E: Ukraine is systematically making Crimea uninhabitable for Russian forces, degrading Russia's air defenses, hitting air bases, and striking critical logistics and economic targets. 5/

The E: Ukraine has demonstrated the ability to hit Russian warships, with many landing vessels destroyed and much of the Black Sea Fleet relocating away from Sevastopol. 6/

The E: Russia's expensive S-400 air defense systems have been found wanting, vulnerable to decoy drones revealing their positions and Ukrainian sabotage. 7/

The E: Ukraine aims to isolate Crimea, push Russian air and sea forces away from southern Ukraine, and strangle it as a logistics hub for Russia. 8/

The E: Disrupting the new railway line from Russia into Crimea will be a challenge, as Russia recognizes the vulnerability of the Kerch Bridge. 9/

There are two lessons from Crimea. 

1. It is possible to beat Russia with consistent application of long-range weapons. Yes, it is working.  10/

2. As Crimea is a weak spot for Russia and Putin, Ukraine can gain meaningful leverage over Russia by denying Crimea to Russians 11/

The first lesson implies that the West shouldn't be afraid to give Ukraine weapons to strike deeper into Russia. 

Indeed, Crimea, Black Sea Fleet, and the Kerch Bridge all have been pronounced a red line by Russia only to be revealed a bluff 12/

But also if Crimea goes, Putin is likely to lose power. He sold the entire project to Russian people on the ease of getting Crimea. 13/

Russia has become a victim of its own greediness. Once it got Crimea, it had to protect it. That's why the land bridge through Mariupol. This is in fact the only strategic achievement of Russia post 2022. 14/ 

But now Crimea and the land bridge create a weakness that Ukraine is exploiting making the Kremlin and Putin look losers. 15/

Ukraine should and will push harder on Crimea, getting badly needed leverage. 

Many people in the West believe Ukraine won't be getting Crimea back any time soon if at all. 16/

But if Ukraine continues bombing all military positions there, Crimea will de fact not be of any interest or use to Russia. 17/

Then, Russia might simply have to abandon it. I hope it happens soon. I also hope the lessons of the Ukrainian success in Crimea are applied elsewhere, in particular, across the border in Kharkiv. 18X

Louis Morquin:

Next step in my mind, should be, once Crimea is de facto demilitarised, to cut the land bridge just north east of Crimea. Witch could have secondary advantage to shorten the front line. Kharkiv should for now put out reach of Russian weapons.



O que há de errado com Javier Milei?- Anthony W. Pereira (Estadão)

O que há de errado com Javier Milei?

Presidente da Argentina se autodenomina o primeiro presidente ‘liberal libertário’ da história; análise de discursos mostra, no entanto, que ele promove princípios duvidosos que levantam questões sobre sua capacidade de gerenciar uma economia real

Por Anthony W. Pereira

O Estado de S. Paulo, 3/06/2024

https://www.estadao.com.br/internacional/o-que-ha-de-errado-com-javier-milei/

Javier Gerardo Milei, o presidente da Argentina eleito em 2023, se autodenomina o primeiro presidente “liberal libertário” da história. Ele está atacando o déficit fiscal do Estado para reduzir a inflação, que está quase 300%, embora seu adereço de campanha, uma motosserra, tenha se mostrado desnecessário.

Em janeiro, o governo federal da Argentina experimentou seu primeiro superávit orçamentário mensal em 12 anos. Muitos investidores domésticos e internacionais estão aplaudindo essas reformas. Os argentinos comuns esperam que a austeridade resultante seja em breve substituída por crescimento econômico e melhoria dos padrões de vida.

Até certo ponto, as reformas são uma resposta sensata a anos de gastos excessivos do governo. Os déficits fiscais em países em desenvolvimento são custosos, não apenas por causa da inflação resultante, mas também pelo alto custo dos empréstimos e o dinheiro perdido em pagamentos de juros. Pode-se pensar que Milei, cujo primeiro artigo publicado foi sobre hiperinflação e seu efeito nos mercados, é a pessoa certa na Presidência da Argentina no momento certo, bem preparado por sua educação (ele tem dois mestrados em economia) para reduzir a inflação e restaurar o crescimento da economia.

No entanto, Milei é uma figura complicada. Ele começou na corrente principal do pensamento econômico latino-americano, como um pós-keynesiano com inclinações estruturalistas. Durante seus estudos no Instituto de Desenvolvimento Social e Econômico e na Universidade Torcuato Di Tella, ambos em Buenos Aires, ele se apaixonou pelos pensadores da Escola Austríaca de Economia. Com o fervor de um convertido, ele desenvolveu um apreço particular pelas ideias do economista vienense Friedrich von Hayek (1899-1992). Isso tornou seu pensamento econômico incomum. Uma análise de alguns dos discursos e publicações de Milei revela que ele promove sete princípios duvidosos que levantam questões sobre sua capacidade de analisar e gerenciar uma economia real.

O primeiro princípio é que os mercados são sistemas naturais, espontâneos e autorregulados que antecedem os Estados e que são moralmente puros, pois são baseados na propriedade privada, contratos voluntários e respeito pelas vidas dos outros.

Essa ideia pode ser encontrada em O Caminho da Servidão de Hayek (1944). Os Estados, por outro lado, são artificiais e baseados na violência e predação. Nas palavras de Milei, “o Estado é financiado por meio de impostos, e os impostos são cobrados coercitivamente… Isso significa que o Estado é financiado através da coerção e que quanto maior a carga tributária, maior a coerção e menor a liberdade”.

Portanto, os Estados devem ser radicalmente limitados. Mesmo a aceitação de um Estado “vigia” que se limita à defesa nacional e à proteção da propriedade privada é perigosa. Na mente de Milei, o trabalho libertário de Robert Nozick (1974) é inaceitável. Isso torna Milei muito mais extremo do que os Chicago boys, incluindo Milton Friedman.

O problema com a caricatura de Milei sobre Estados e mercados é que ela ignora a história entrelaçada dos mercados capitalistas e dos estados-nação modernos. Como argumentou o antropólogo Karl Polanyi em A Grande Transformação (1944), os Estados muitas vezes criaram mercados onde antes não existiam. E os Estados não foram os únicos a exercer a coerção historicamente. Atores privados também o fizeram. Na Índia do século XVIII, por exemplo, a Companhia das Índias Orientais, uma empresa capitalista, colonizou o país com um exército privado.

O Estado pode reivindicar o monopólio dos meios de coerção legítima, mas raramente atinge um monopólio absoluto da coerção na prática. No século 21, grupos criminosos privados bem armados são atores significativos na economia global. E empresas legais podem usar a coerção, por exemplo, empresas de retomada de posse, agentes de fiança e empresas de segurança privada. A ideia de que as transações de mercado são sempre puramente voluntárias e consensuais é desmentida pela realidade e pela história do capitalismo.

Como consequência dessa dicotomia simplista que vê o mercado como puro e moral e o Estado como coercitivo e parasitário, Milei articula um segundo princípio enganoso: não há falhas de mercado. Ele apresenta esse argumento invocando uma definição casuística. Porque “o mercado é um mecanismo de cooperação social, onde você troca voluntariamente direitos de propriedade… falar de uma falha de mercado é um oxímoro”.

Mas isso contradiz a observação empírica e a teoria econômica. Os mercados respondem à demanda efetiva (o dinheiro que as pessoas têm para gastar) e regularmente subproduzem bens e serviços que as pessoas desejam: por exemplo, tratamento médico para os pobres ou habitação acessível para os jovens. E o professor Joseph Stiglitz ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2001, em parte, por seu trabalho mostrando a ubiquidade das falhas de mercado. Afirmar que os mercados não podem falhar por definição é uma forma perversa de fundamentalismo de mercado.

Milei também adota um terceiro princípio, defendido por Friedrich von Hayek em O Caminho da Servidão, de que qualquer intervenção do Estado nos mercados inevitavelmente arrasta as sociedades ao longo do “caminho da servidão”. 

Isso é um artigo de fé para muitos adeptos da escola austríaca de economia, mas é contradito pela história econômica. A afirmação de Hayek de que qualquer forma de regulamentação estatal ou medidas de Estado de bem-estar social levam inevitavelmente ao totalitarismo foi demonstrada como falsa na Europa, onde o tamanho do Estado de bem-estar variou entre os países e flutuou dentro deles sem qualquer tendência inevitável à asfixia dos mercados ou das liberdades individuais.

As reformas econômicas realizadas pelo presidente Reagan nos Estados Unidos (1981-1989) e por Margaret Thatcher no Reino Unido (1979-1990), inspiradas em parte por Von Hayek, contradizem sua ideia sobre a inevitabilidade do aumento do controle estatal.

Nas democracias, as fronteiras entre Estados e mercados podem ser redesenhadas a cada geração. E nas economias do século 21, a ideia de que os mercados podem funcionar bem sem nenhuma regulamentação – sem testes para novos medicamentos, sem proibições ao trabalho infantil, sem padrões de segurança – é absurda. Em muitos casos, as regulamentações são exigidas por investidores privados. Na privatização do setor de telecomunicações na América Latina nos anos 1990, muitos investidores privados exigiram regulamentação para poder prever seus ganhos futuros; o Estado foi levado ao trabalho de regular as novas empresas de telecomunicações pelas próprias empresas.

Um quarto princípio que Milei defende é que qualquer um que não seja um fundamentalista extremo do mercado é um “coletivista” e um inimigo do “Ocidente”.

Socialistas, social-democratas, democratas cristãos, teóricos do mercado social, progressistas – qualquer um que acredita em tributação progressiva, redes de segurança social e na necessidade de alguns bens públicos – são comunistas cuja ideologia é baseada na inveja, no ressentimento, no ódio e no roubo.

As pessoas no setor privado são “heróis”, mas as pessoas que trabalham para o Estado são burocratas tentando impor sua vontade sobre os outros ou membros parasitários da “casta” política.

De alguma forma, Milei se exclui dessas generalizações, embora esteja na folha de pagamento do setor público. Ele aparentemente quer que acreditemos que ele é motivado pelas intenções mais puras, enquanto todos ao seu redor no aparato estatal querem intimidar e roubar outras pessoas para ganho próprio.

O quinto princípio de Milei é que o establishment (“academia, organizações internacionais, teóricos econômicos e políticos”) é contra o capitalismo.=

Mais uma vez, isso é uma simplificação excessiva que distorce a realidade. A maioria das instituições tradicionais não é anticapitalista. Elas podem ter projetos de reforma, como reduzir a pobreza e a desigualdade, ou mitigar as mudanças climáticas, mas muitos desses projetos reformistas têm os mercados capitalistas em seu núcleo.

Pense em microcrédito ou esquemas de comércio de carbono. O pânico moral de Milei contra o “globalismo” tem mais a ver com seu desejo de se identificar com a extrema-direita transnacional do que com uma leitura precisa da realidade global.

O sexto princípio de Milei é que a União Europeia (UE) é uma performer econômica fraca, crescendo lentamente porque é excessivamente regulamentada.

Nesse ponto, ele é extremamente inconsistente. Segundo Milei, o capitalismo é bom porque criou prosperidade. Se Milei estivesse genuinamente interessado em prosperidade, em vez da promoção do fundamentalismo de mercado, ele poderia ter notado que 24 dos 50 países mais prósperos (medidos pelo PIB per capita em paridade do poder de compra) são membros da UE.

A receita tributária como porcentagem do PIB na UE é em média de cerca de 20%. Por outro lado, a lista de países onde a receita tributária é mais baixa como porcentagem do PIB, e, portanto, têm mais “liberdade”, pela definição de Milei, inclui alguns dos países mais pobres do mundo, como a República Centro-Africana, Iêmen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Chade, Bangladesh e Sudão.

Em vez de encontrar uma correlação estrita entre prosperidade e um Estado minimalista, o que encontramos é que as economias mais ricas do mundo, a maioria das quais também têm o maior desenvolvimento humano, são economias mistas com Estados ativos que combinam mercados capitalistas e setores públicos fortes que entregam serviços que as pessoas desejam, como transporte, saúde e educação.

O sétimo princípio de Milei é implícito, e não diretamente declarado. Este é o de que a Argentina prova a correção da economia da Escola Austríaca e que seus concidadãos devem apoiar suas reformas.

Em seu discurso inaugural, ele argumentou que a história do crescimento econômico na Argentina de 1850 a 1930, quando comparada ao período pós-1930, prova a superioridade da economia liberal sobre seus rivais heterodoxos. Mas as taxas de crescimento econômico nacional raramente têm uma única causa, e as condições na economia global criam variáveis que estão fora do controle dos formuladores de políticas no nível do Estado-nação.

A repulsa de Milei ao “coletivismo” não o impede de invocar um coletivismo próprio, o nacionalismo argentino. Em uma entrevista recente, ele foi citado dizendo: “Não há chance de uma revolta social, a menos que haja um evento politicamente motivado ou [um envolvendo] infiltrados estrangeiros. Governos de esquerda trabalham juntos para tentar sabotar aqueles que não são como eles”.

As simplificações excessivas e a certeza moral dos sete princípios de Milei se encaixam com a aspiração do presidente argentino de ser o bad boy da extrema-direita global.

Milei foi à Conservative Political Action Conference (CPAC) nos Estados Unidos em fevereiro de 2024 e abraçou entusiasticamente Donald Trump, interferindo na corrida eleitoral dos EUA, ao mesmo tempo que tentava obter o apoio da administração Biden para suas reformas econômicas. Milei também viajou para a Espanha para se misturar com seus irmãos no Partido Vox em 18-19 de maio de 2024.

Milei insultou o papa e outros presidentes da América Latina, incluindo Lula do Brasil, Gustavo Petro da Colômbia e Andrés Manuel López Obrador do México, bem como o primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez. O argentino também descartou as mudanças climáticas como uma “mentira socialista” e criticou o feminismo, sem reconhecer a enorme contribuição que o aumento da igualdade de gênero tem feito para o desenvolvimento econômico mundial.

Os princípios de Milei não são baseados em pesquisas empíricas sobre economias reais. Eles são artigos de fé. Milei grita slogans, exige lealdade e evita perguntas. Seu argumento de que não se pode falar de “justiça social” porque a frase foi contaminada pela esquerda não é coerente.

As palavras mais importantes no debate político – democracia, direitos humanos, legitimidade, consenso – são inerentemente contestadas. Se não pudermos usá-las quando são empregadas por pessoas com quem discordamos, o discurso democrático se torna impossível.

Por que as ideias de Milei importam? Pode-se pensar que são irrelevantes para seu desempenho como presidente. Muitos líderes de Estados tiveram ideias incoerentes ou ridículas, ou até mesmo nenhuma ideia. No entanto, o governo de Milei está engajado em uma luta intransigente para reduzir o déficit fiscal do Estado a zero. A questão é que isso provavelmente não vai satisfazer Milei.

Como um liberal libertário que acha que o Estado não tem direito de existir e que apenas o mercado deve operar em um nirvana de autorregulação, ele provavelmente quer reduzir o setor público a ponto de torná-lo disfuncional.

A visão excessivamente simplificada de Milei sobre o mundo, seus princípios enganosos e seu messianismo moral podem, portanto, eventualmente torná-lo muito perigoso para o bem-estar de seus concidadãos.


Unesp lança livro de memórias de Rubens Ricupero - Euler de França Belém (Jornal Opção)

 Imperdível!

Unesp lança livro de memórias de Rubens Ricupero

O livro do diplomata e ex-ministro da Fazenda discute o Estado Novo, a Segunda Guerra Mundial, o Plano Real e os governos do PT

O livro “Memórias” (Unesp, 712 páginas), de Rubens Ricupero, custa 144 reais e começa a circular nas livrarias em junho.

A rigor, por não ter lido a obra, não posso avalizá-la. Mas, pelo histórico de Rubens Ricupero, direi que se trata de um livro “imperdível” (ao menos para mim, que me interesso pela história do país). Com a vantagem de que escreve muito bem, com o máximo de clareza e percepção aguda do Brasil e do mundo.

“A Diplomacia na Construção do Brasil — 1750-2023” (Versal Editores, 756 páginas), de Rubens Ricupero, é um excelente livro sobre a história do país. Portanto, não apenas de sua diplomacia.

Então, pode-se esperar muito das memórias do diplomata e ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente.

Nas memórias, de acordo com a editora, Rubens Ricupero, que foi ministro da Fazenda do governo de Itamar Franco, revela os bastidores da elaboração e da aplicação do Plano Real.

Rubens Ricupero menciona a Segunda Guerra Mundial, definidora do mundo no qual vivemos, o Estado Novo — a ditadura cruenta de Getúlio Vargas, entre 1937 e 1945 — e o golpe civil-militar de 1964. Discute as questões climáticas e analisa os últimos governos, até o terceiro de Lula da Silva, entre 2023 e 2024.

Dado o conhecimento de Rubens Ricupero, além do fato de as memórias serem alentadas, o preço é quase irrelevante. As ideias e a história do ex-ministro valem ouro. Aos 87 anos, ele tem muito o que contar, e, sobretudo, sabe como contar.


TSE decide não participar como observador de eleições na Venezuela (G1 - Globo)

TSE decide não participar como observador de eleições na Venezuela
G1 - Globo | Política, 03 de junho de 2024 

Itamaraty não recebeu manifestação oficial do tribunal brasileiro. Na semana passada, venezuelanos revogaram convite para que a União Europeia enviasse observadores para acompanhar o pleito em julho.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que não vai enviar observadores brasileiros para as eleições presidenciais na Venezuela, previstas para o dia 28 de julho.

Ministério das Relações Exteriores (Palácio Itamaraty) não recebeu manifestação oficial do tribunal, mas diplomatas disseram que seguem monitorando o cenário no país vizinho e estão cientes da posição da Corte Eleitoral brasileira.

Os observadores, normalmente, são designados por organismos internacionais, por meio de um acordo prévio entre as nações, para acompanhar eleições de um país.

A presença dessas missões, segundo definição do próprio TSE, tem como objetivo garantir que o processo eleitoral decorra em clima de transparência, isenção e legalidade.

Na semana passada, a Venezuela revogou o convite para que a União Europeia enviasse observadores internacionais para as eleições presidenciais. O anúncio foi feito pelo chefe do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Elvis Amoroso.

O Conselho é controlado, na prática, pelo presidente Nicolás Maduro, que concorre ao terceiro mandato. O escritório da União Europeia em Caracas lamentou a decisão e solicitou ao Conselho Eleitoral da Venezuela para reavaliar a decisão.

O governo de Maduro fez um acordo com a oposição no ano passado para realizar eleições. Depois disso, os Estados Unidos retiraram as sanções econômicas.

No entanto, em abril, os americanos voltaram a impor sanções, pois consideraram que o governo venezuelano não estava se esforçando suficientemente para que a votação seja limpa.

Missões internacionais já fizeram denúncias sobre irregularidades em eleições venezuelanas no passado.

Os observadores afirmaram que houve uso de recursos do Estado na campanha, diferença de tempo de TV e meios de comunicação entre partidos e também desqualificação de candidatos.

As eleições na Venezuela ocorrem sob desconfiança da comunidade internacional de que Maduro não assegure eleições livres e democráticas - o que contraria um compromisso assinado pelo governo venezuelano em outubro de 2023.

Alinhado a Maduro, o Conselho Nacional Eleitoral tirou da disputa duas opositoras: Maria Corina Machado, desqualificada pela Controladoria da Venezuela, e Corina Yoris, que não conseguiu ao acessar o sistema automatizado do CNE por razões não especificadas.

Agora, as duas apoiam Edmundo González Urrutia.

Imagens de Virtude e do Poder - Bolivar Lamounier - Modesto Carvalhosa


 

Placa amarela com letras pretas

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

 

 

Vemos hoje a difícil construção de nossa democracia em meio a múltiplas narrativas e jogos de poder.

 

É hora de buscar marcos teóricos para esclarecer os horizontes. IMAGENS DA VIRTUDE E DO PODER é uma obra provocativa neste sentido.

 

Venha participar com seu autor Bolívar Lamounier, doutor em Ciência Política (Universidade da Califórnia, LA) e renomado especialista em Ciência Política.

Participe pelo YouTube, na segunda-feira, dia 03 de junho, às 18h30.

 

Para assistir a live de segunda é só clicar no link 👇

 

https://www.youtube.com/live/VepRjaLv318?si=VFmSYbe2CzmB9SDI

Quem compete com o Brasil pela liderança do 'Sul Global'? - Julia Braun (BBC Brasil)

 Quem compete com o Brasil pela liderança do 'Sul Global'?

Julia Braun

 Role, Da BBC Brasil em Londres

 Twitter, @juliatbraun

BBC-Brasil, 28 maio 2024, Atualizado 31 maio 2024

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0kl44720r5o


Em seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem sido apontado como um dos principais candidatos para liderar o chamado 'Sul Global' em sua busca por mais prestígio para países em desenvolvimento, principalmente da América do Sul, África e Ásia. 

Ao longo do segundo semestre de 2023, o Brasil ocupou a presidência temporária do Mercosul. Até novembro deste ano, o país também ocupa a liderança rotativa do G20, grupo que reúne as 19 principais economias do mundo, além da União Europeia e União Africana.


Em 2025, o governo brasileiro ainda assumirá a presidência do Brics e sediará a 30ª Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP-30).

Todas essas plataformas são vistas como oportunidades para que o país avance sua agenda — e de seus aliados. 

Essa imagem, entretanto, tem sido desafiada por um cenário internacional marcado por guerras e disputas geopolíticas e um contexto doméstico que requer cada vez mais atenção.

E críticos apontam que posicionamentos recentes de Lula, em especial sobre a guerra na Ucrânia, podem ser travas para a ambição do Brasil em se tornar uma ponte entre os países em desenvolvimento e as superpotências.

Nesse contexto, qual a força do Brasil nessa batalha pela liderança do 'Sul Global'? E quem são os outros concorrentes ao posto de 'capitão' desse grupo tão heterogêneo e etéreo?


O que é o 'Sul Global'?

Apesar do nome, o 'Sul Global' nada tem a ver com uma divisão geográfica, mas sim com as estruturas socioeconômicas, aponta Sara Stevano, professora da Universidade de Londres e economista especializada em desenvolvimento.

Eu consideraria como parte do 'Sul Global' um país que tem uma estrutura econômica típica de contextos pós-coloniais, o que significa que a economia é normalmente baseada na exportação de commodities primárias ou mesmo bens manufaturados considerados de menor valor agregado", diz.

O conceito também inclui as nações consideradas parte da "periferia da economia global" ou que mantêm uma certa dependência em relação aos países do 'Norte Global', em especial, Estados Unidos e Europa. 

"O espaço que os tomadores de decisões políticas têm nos países do 'Sul Global' tende a ser mais estreito do que nos países do 'Norte Global'", afirma Stevano. 

O termo é muito usado no contexto da mobilização de alguns países em torno de preocupações e interesses comuns, especialmente diante da relação com as grandes potências em questões como comércio ou mudanças climáticas. 

Na prática, atualmente tais interesses se manifestam principalmente por meio do Grupo dos 77 (G77) nas Nações Unidas. 

Formado por 134 países, o grupo afirma fornecer os meios "para os países do Sul articularem e promoverem os seus interesses econômicos coletivos e reforçarem a sua capacidade de negociação conjunta em todas as principais questões econômicas internacionais dentro do sistema das Nações Unidas e promover a cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento".

China e Brasil, por exemplo, estão entre os que defendem uma reforma da ONU para aumentar a representatividade e o direito à voz das nações do 'Sul Global'. 

Sara Stevano ressalta, porém, que há diferenças muito grandes entre os países que pertencem ao grupo que não devem ser ignoradas.

Brasil e Moçambique, por exemplo, são ambos considerados parte do 'Sul Global' e possuem economias baseadas na exportação de commodities.

Mas enquanto o Brasil é um ator de influência no grupo, cujo PIB (produto interno bruto) chegou a US$ 2,17 trilhões em 2023, o país africano terminou o ano com US$ 20,8 bilhões, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

"Há países que estão na periferia da periferia", diz Stevano. 

Da mesma forma, os interesses e as bases das relações cultivadas por cada uma das nações com seus parceiros do Sul — e as potências do Norte — diferem profundamente. 

Essa heterogeneidade está no cerne dos argumentos dos críticos ao termo, que temem que seu uso possa reforçar dicotomias e estereótipos imprecisos e ultrapassados.

Antes do termo 'Sul Global', a expressão '3º Mundo' era usada com frequência. 

O conceito surgiu durante a Guerra Fria e englobava as nações que não pertenciam nem ao chamado '1º Mundo' (nações ocidentais e desenvolvidas) nem ao '2º Mundo' (composto pelas nações socialistas e comunistas).

Outros conceitos, como 'país desenvolvido' ou 'em desenvolvimento', também ganharam mais espaço nas discussões internacionais. 

No entanto, segundo Sara Stevano, são expressões associadas a uma ideia de desenvolvimento linear que raramente é verdadeira. 

"Essa linguagem tem um ponto cego muito significativo, que é o fato de existirem relações de poder em jogo na economia global", diz. "De certa forma, a terminologia 'Sul Global' deixa isso mais claro."

Quais são, então, os países que se destacam no 'Sul Global' — e por quê?


China: força econômica e política

A China, segunda maior economia do mundo, é um caso bastante único — e por isso está no foco de muitos dos críticos da expressão 'Sul Global'.

O país passou por acelerado crescimento econômico a partir da década de 80. Entre 1994 a 2022, teve uma alta média anual de 8,7% no PIB, com um pico em 2007 (+14,2%).

Há quem aponte que não só a posição econômica da China diante da economia global, mas também os níveis de influência geopolítica exercidos pelo país atualmente, são incompatíveis com os conceitos do 'Sul Global'. 

Mas para Nikita Sud, professora da Universidade de Oxford (Reino Unido) e especialista no tema, as experiências passadas com o imperialismo justificam a inclusão no grupo. 

O grande período de influência europeia na China começou com as chamadas Guerras do Ópio entre 1839 e 1860, travadas contra o Império Britânico e motivadas principalmente pelo comércio do ópio. 

"As ideias pregadas (pelo colonialismo) de dominação racial e civilização continuam até hoje. E é por isso que a China se vê como parte do 'Sul Global' apesar de competir economicamente com os EUA atualmente", diz Sud. 

"Mas a política local, a origem do país e a hierarquia baseadas no racismo alinham a China mais com o Sul do que com o Norte."

O próprio governo chinês só passou a falar com mais frequência sobre o assunto e a se definir como parte do grupo recentemente (antes usava o termo "família de países em desenvolvimento").

Em setembro de 2023, durante o discurso anual na Assembleia Geral das Nações Unidas, o vice-presidente chinês, Han Zheng, disse que a China é um membro natural do Sul Global pois "respira o mesmo ar que outros países em desenvolvimento e partilha com eles o mesmo futuro".

Há quem veja nesse posicionamento mais uma estratégia para se opor à "hegemonia do Oeste" e disseminar uma imagem de grandeza. 

"Para concretizar o sonho do presidente Xi de rejuvenescer a grande nação chinesa, a China precisa assumir um papel de liderança no mundo e o Sul Global serve de veículo para isso (...)", afirmou Robin Schindowski, analista do think tank Bruegel, em um artigo de 2023. 

No entanto, segundo o especialista em China, "preocupações internas" do governo Xi também levaram o governante a impulsionar essa agenda. 

"Embora os fatores estratégicos não devam ser negligenciados, as preocupações internas mais humildes desempenham um papel igualmente importante na procura da China por mais oportunidades nas economias emergentes, especificamente os problemas de longa data do país com o excesso de capacidade industrial."

Mas são justamente a força econômica e política da China que colocam o país como uma das lideranças do 'Sul Global'.

Em uma reportagem publicada em abril, a revista inglesa The Economist utilizou um índice produzido pelo Centro Pardee para Futuros Internacionais (PCIF, na sigla em inglês), da Universidade de Denver, nos Estados Unidos, para comparar o nível de influência de alguns países entre os membros do G77.

Os Estados Unidos têm se destacado como o país com maior influência nas nações do grupo desde a década de 1970, mas a China aparece cada vez mais como um rival de peso, de acordo com o levantamento.

Segundo o Índice Formal de Capacidade de Influência Bilateral (FBIC) do PCIF, a influência chinesa começou a crescer a partir dos anos 2000 e deve ultrapassar a americana nas próximas décadas. 

Ainda de acordo com o índice, a "capacidade de influência" da China sobre o G77 é aproximadamente o dobro da exercida pela França, o terceiro país mais influente entre o grupo, e cerca de três vezes a do Reino Unido, da Índia ou dos Emirados Árabes Unidos. 

O índice é calculado com base em dados que abrangem as dimensões econômica, política e de segurança da influência bilateral formal. Isso inclui interações como intercâmbio diplomático, transferências de armas e comércio de mercadorias, mas não ações menos transparentes, como o financiamento de atores não estatais ou tentativas de interferir em eleições.

Os dados do FBIC apontam maior influência chinesa em 31 países do G77, com destaque para Paquistão, Bangladesh, Rússia e outros Estados do Sudeste Asiático. 

Outro foco da influência chinesa é a África. 

A China apoiou vários movimentos de independência africanos durante a Guerra Fria e, atualmente, a presença da potência asiática no continente se manifesta principalmente por meio de investimentos externos diretos, ajuda financeira, projetos de infraestrutura e empréstimos. 

Em 2013, a Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China foi lançada por Xi Jinping, apresentando a ambição de revigorar a antiga rota comercial da seda ao longo de parte da costa da África Oriental. 

Teoricamente, isso deveria ter concentrado o investimento chinês na África Oriental, mas muitos outros Estados africanos também procuraram oportunidades através da BRI, fazendo com que a iniciativa se expandisse rapidamente.

Desde então, a BRI assistiu à construção de inúmeros projetos de infraestruturas em toda a Ásia e África, financiados por empréstimos chineses.

O projeto também chegou a países latino americanos: atualmente, 22 nações da América Latina e Caribe fazem parte da BRI.

O comércio entre a China e os países latino-americanos, aliás, bateu um recorde histórico em 2023.

A troca de mercadorias entre a região e o gigante asiático ultrapassou US$ 480 bilhões, segundo cálculos da BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, com base em dados da Administração Aduaneira da República Popular da China (AGA, na sigla em inglês).

A balança comercial foi relativamente equilibrada, com um ligeiro superávit favorável à América Latina, de US$ 2 bilhões.

O novo recorde no comércio de mercadorias com a China constitui mais um passo em uma tendência ascendente que tem sido registrada ao longo deste século. 

O intercâmbio bilateral do país asiático com a América Latina e o Caribe (ALC) mal girava em torno de US$ 14 bilhões no ano 2000, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

A China também assinou nos últimos anos tratados de livre comércio com Chile, Costa Rica, Equador, Nicarágua e Peru, e já negocia com outras nações da região. 


Índia e a 'ponte entre o Sul e o Ocidente'

No bloco informal, a Índia é a grande concorrente da China e aparece no Índice Formal de Capacidade de Influência Bilateral (FBIC) como o país mais influente para seis nações do G77 — entre elas, vizinhos como Sri Lanka e Butão. 

Mas assim como Pequim, Nova Déli também tem buscado expandir sua influência para além de seus arredores, com foco especial na África. 

O número de embaixadas indianas no continente passou de 25 para 43 entre 2012 e 2022, segundo a The Economist.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, afirma ainda que o país é o quarto maior parceiro comercial africano e a quinta maior fonte de investimento direto estrangeiro na região.

O país também se destaca na área da tecnologia, com importação de sistemas e plataformas digitais, incluindo tecnologias de identidade biométrica.

Segundo um relatório do Centro de Investigação Econômica e Empresarial (CEBR, na sigla em inglês), uma empresa de consultoria com sede em Londres, a Índia deverá manter um forte crescimento de cerca de 6,5% ao ano entre 2024 e 2028, e tornar-se a terceira maior economia do mundo até 2032, ultrapassando o Japão e a Alemanha.

Apesar da ascensão meteórica de sua economia, a Índiacontinua a se classificar como parte do 'Sul Global' e impulsiona sua posição de liderança no bloco informal. 

O país organizou e presidiu em 2023 dois encontros da cúpula Voz do Sul Global, criada por Modi para realizar encontros online sobre desenvolvimento financeiro, crise climática e outros temas de interesse.

A abordagem indiana, porém, é distinta da chinesa. 

Enquanto Pequim se projeta como uma alternativa clara aos Estados Unidos, Nova Déli busca angariar influência se posicionando como um intermediário ou uma ponte entre seus aliados do Sul e o Ocidente.

O governo Modi mantém uma relação especialmente próxima com os EUA, mas, ao mesmo tempo, adota posições bastante pragmáticas em política externa, se recusando, por exemplo, a condenar a Rússia pela invasão à Ucrânia

"Só porque o país se identifica com o 'Sul Global' e é conveniente formar um bloco de aliados para negociar, por exemplo, questões climáticas, não significa que na hora de fazer comércio, atrair investimentos ou contrair empréstimos, ele não possa procurar um país do Norte", diz Nikita Sud.

Quando se trata da defesa por reformas no sistema internacional, a posição indiana também reflete sua postura pragmática. 

Na última reunião anual do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizada em outubro passado, China e Índia tomaram posições opostas na discussão sobre a reforma das instituições financeiras multilaterais e as cotas de voto dos países-membros no FMI. 

Enquanto o governo indiano apoiou a proposta dos EUA para um aumento "equiproporcional" das cotas de contribuição financeira sem alteração no poder de voto dos países-membros, a China defendeu um aumento de ambas as cotas como forma de refletir a crescente participação dos países em desenvolvimento na economia global.

Em tese, as cotas dos países no FMI estão relacionadas à participação de cada um deles na economia mundial. Essas cotas determinam, entre outros fatores, o poder de voto dos países dentro do organismo internacional e a possibilidade de acesso a financiamentos de emergência.

Atualmente, China e Índia possuem, respectivamente, 6,4% e 2,75%. O Brasil detém 2,32% das cotas. Os Estados Unidos têm 17,43% das cotas, enquanto Alemanha e Reino Unido detêm 5,59% e 4,23%, respectivamente.


Brasil e as agendas prioritárias de Lula

Para muitos analistas, o Brasil também é um candidato forte ao posto de "líder" do 'Sul Global'.

A ideia foi bastante debatida durante os dois primeiros governos do presidente Lula, que sempre teve essa como uma de suas agendas prioritárias em termos de política externa. 

Com a volta do petista para um terceiro mandato, o país voltou a ser apontado pela imprensa internacional como uma voz nesse debate. 

"Lula está se autodenominando o novo líder do Sul Global – e desviando a atenção do Ocidente", diz uma matéria de abril do jornal britânico The Guardian.

A reportagem afirma que 2024 será um teste para a ambição do presidente, já que o Brasil está na presidência rotativa do G20 e sediará a reunião de cúpula do grupo em novembro (além da COP30 em 2025).

Um dos pontos principais da política de Lula para o 'Sul Global' é a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com a criação de assentos permanentes para nações em desenvolvimento, além de equilíbrio do poder de veto.

Em uma entrevista no início do mês, Lula advogou por uma ampla reforma nos organismos financeiros multilaterais, como o FMI. E que os países que têm grandes dívidas externas possam pagar apenas parte delas, usando o restante em investimentos em suas infraestruturas nacionais.

"Uma coisa que queremos defender (no G20) é a mudança no sistema financeiro, criado após a Segunda Guerra. Aquelas instituições não funcionam mais. Elas sufocam os países", afirmou o presidente.

O petista também defende que os países mais ricos e desenvolvidos colaborem mais e financeiramente com os países pobres na luta contra o aquecimento global e desmatamento. 

Essa ideia é apoiada por outras nações do 'Sul Global', mas tem encontrado obstáculos nas últimas negociações. 

Os países industrializados têm se mostrado relutantes em se comprometer financeiramente, preocupados especialmente com a possibilidade de serem responsabilizados legalmente pelos impactos da mudança climática no processo.

Em um artigo publicado no final de 2023, os pesquisadores Christopher S. Chivvis e Beatrix Geaghan‑Breiner, do think tank Fundo Carnegie para a Paz Internacional, afirmaram que apesar da tradição brasileira de independência e não-alinhamento em termos de política externa, a autonomia do país se fortalece à medida que o impasse entre EUA e a China se amplia e o peso político e econômico da nação cresce.

"O Brasil quer evitar uma ordem mundial estruturada apenas pela competição entre grandes potências e, em vez disso, espera uma ordem multipolar onde os Estados do seu tamanho tenham mais voz nas instituições internacionais e maior influência em geral. Na opinião do Brasil, o surgimento de novas potências, especialmente a China, promete uma era de 'multipolaridade benigna', na qual o poder do Ocidente será reduzido e a influência das nações em ascensão será reforçada", argumentaram os pesquisadores. 

Mas para Laura Trajber Waisbich, diretora do programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford, falta ao Brasil protagonismo e capacidade de liderança em algumas áreas.

"O Brasil tem capacidade de liderar em algumas agendas, mas em outras não", diz a especialista. "E em quais áreas apostar deve ser uma decisão estratégica e pragmática".

Para Waisbich, o país se destaca quando o assunto é a agenda ambiental e a reforma das organizações ambientais, dois temas que fazem parte do programa de política externa brasileiro há anos. Por outro lado, quando assuntos de segurança com menor proximidade ao Brasil estão em discussão, o país pode escorregar ao tentar se colocar como protagonista.

"Existe capacidade de liderança, de articulação e de ser uma fonte de inspiração para discussões sobre problemas globais, mas [o Brasil] não deveria ter a pretensão de ser um modelo ou líder para tudo", diz. 

Leonardo Ramos, professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas), explica que o desafio de Lula em avançar com a agenda relativa ao Sul é maior hoje do que no passado.

"O mundo mudou e muitas questões delicadas surgiram desde a última presidência do Lula, como as tensões entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e a ascensão da nova direita", diz.

Segundo o especialista, em alguns momentos a política externa obriga os países a se alinharem ou condenarem um dos lados envolvidos nos confrontos, causando constrangimentos e prejudicando a ideia de não alinhamento defendida por muitas das nações do Sul.

"E as próprias tensões domésticas e a polarização extrema têm ocupado mais a atenção hoje do que no passado. Com tudo isso, ele tinha mais margem de manobra e respaldo interno."

Para Nikita Sud, nos últimos meses, dois países chamaram a atenção por seu posicionamento mais assertivo do que o normal frente à guerra em Gaza: Brasil e África do Sul.

Enquanto o governo sul-africano apresentou uma acusação de genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ), a diplomacia brasileira tem sido bastante crítica à atuação de Israel no enclave palestino e chegou a votar a favor de uma resolução da ONU que conclama o fim da venda e transferência de armamentos aos israelenses.

Segundo a professora da Universidade de Oxford, por terem se posicionado de forma distinta daquela incentivada pelos Estados Unidos, as nações se projetaram como "vozes" mais relevantes na disputa pela liderança de uma nova ordem global, apesar de terem sido alvo de muitas críticas.

Mas para o diplomata Paulo Roberto de Almeida, ex-ministro-conselheiro na Embaixada do Brasil em Washington e ex-assessor especial do núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, os posicionamentos pouco neutros do Brasil têm justamente o efeito contrário e prejudicam sua busca por liderança. 

Segundo Almeida, o governo do presidente Lula tem investido em uma política externa excessivamente "partidária e personalista" que causa fricções com as grandes potências do Ocidente.

O diplomata cita, em especial, a posição em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Apesar de defender uma mediação pela paz, o presidente brasileiro fez declarações que foram entendidas como uma forma de apoio brando à Rússia. 

Em janeiro de 2023, durante visita do chanceler alemão Olaf Scholz ao Brasil, Lula chegou a dizer que a Rússia estava errada em invadir a Ucrânia, mas também sinalizou para culpa do próprio país invadido. “Continuo achando que quando um não quer, dois não brigam”, afirmou. Em maio do ano passado, ao participar do G-7, no entanto, Lula disse que condenava a violação da integridade territorial da Ucrânia.

"A insistência do Brasil em considerar todas as partes legítimas e a falta de neutralidade recente têm minado a posição do Brasil como líder", diz Almeida. 

Ainda segundo Paulo Roberto de Almeida, a busca por uma maior cooperação com outros países em desenvolvimento não deve vir em detrimento da relação com Estados Unidos e Europa - algo que tem acontecido, segundo ele.

"Essa aproximação de Lula com os países proponentes de uma nova ordem global tem causado alguns problemas com os tradicionais parceiros do Brasil no Ocidente, Estados Unidos e Europa Ocidental basicamente."

Laura Trajber Waisbich, de Oxford, discorda. "Não precisa ser um ou outro", diz. "Às vezes pode haver uma decepção ou um desacordo mútuo, mas na minha percepção é um desacordo que afeta apenas partes da relação bilateral, não o todo."

Segundo a especialista, países como Reino Unido, EUA, Japão e Noruega, por exemplo, têm demonstrado confiança em relação à liderança do Brasil na área ambiental, apesar de tomarem posições distintas em relação a temas como a guerra na Ucrânia. 

Para além da política externa, o cenário econômico mundial mudou profundamente desde os primeiros governos de Lula. 

Entre 2002 e 2010, o PIB brasileiro teve um crescimento médio de 4,1%, ancorado, sobretudo, no crescimento das exportações de matérias-primas e commodities do Brasil para nações em vertiginoso crescimento, como a China.

Já em 2023, Lula assumiu em um momento de crescimento menor, inflação persistente e contas públicas afetadas pela pandemia de covid-19.

Ao mesmo tempo, há sinais de que o legado construído pelo atual presidente e pelo Brasil de forma geral ainda garante uma boa posição, segundo analistas. 

"O Lula foi o único chefe de Estado de país emergente que participou das reuniões de cúpula do G77, do G20 e do Brics ano passado, certamente já pensando em reforçar essa posição de liderança", diz Leonardo Ramos, professor da PUC-Minas. 

Os dados do índice elaborado pelos pesquisadores da Universidade de Denver mostram que o Brasil é o campeão de influência em três países do G77: Bolívia, Paraguai e Uruguai. O cálculo considera o ano de 2022 como referência.

O Brasil foi o país com maior influência sobre a Argentina até 1997, segundo o FBIC, mas ficou atrás dos Estados Unidos nos últimos anos. 


África do Sul: 'líder moral'

Correndo nas margens da disputa, está mais um dos membros "mais antigos" dos Brics, a África do Sul. 

O país se juntou em 2011 ao grupo que começou com Brasil, Rússia, Índia e China em 2008, mas é atualmente considerado um dos integrantes mais antigos, já que Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita foram convidados a aderir ao bloco.

A aliança, aliás, tem papel central no avanço da ideia do 'Sul Global' atualmente. 

A própria expansão do grupo após a 15ª Cúpula do Brics, em 2023, foi considerada um enorme passo para que o 'Sul Global' tome o centro do palco da política global.

O presidente da África do Sul e anfitrião daquela reunião de cúpula, Cyril Ramaphosa, disse à imprensa que uma ampliação ainda maior é esperada para os próximos anos.

Segundo ele, os Brics "embarcaram em um novo capítulo no seu esforço para construir um mundo que seja mais justo, honesto, inclusivo e próspero".

Sob a liderança de Ramaphosa, a segunda maior economia da África (atrás apenas da Nigéria, segundo dados de abril de 2024 do FMI) tem expandido sua força de liderança. 

Para Anthoni van Nieuwkerk, professor da Universidade da África do Sul, o presidente "está restaurando a posição e o papel do país como líder moral global".

"As mensagens e o tom usado por Ramaphosa sugerem um líder assertivo do Sul que compreende como o mundo funciona. Ele não tem medo de desafiar a narrativa dominante e está preparado para colocar sobre a mesa as exigências do Sul Global", afirmou, em um artigo publicado no portal The Conversation em dezembro de 2023.

Essa ideia foi reforçada especialmente pela apresentação da denúncia à Corte Internacional de Justiça em Haia contra Israel e pelo posicionamento da diplomacia sul-africana frente ao conflito na Ucrânia. 

Segundo Van Nieuwkerk, quando se trata da guerra travada no Leste Europeu, a África do Sul é especialmente motivada a advogar pela paz diante das consequências econômicas do confronto na África, que já sofre com a insegurança alimentar e energética.

Ramaphosa liderou uma missão de paz africana para o confronto, que apesar de ter fracassado em seus esforços de negociação, foi interpretada como um sinal da busca por liderança regional e global do presidente sul-africano, diz. 

Ao lado do Brasil, a África do Sul também é uma voz importante nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre agricultura e um intermediário entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.


Rússia: o debate sobre o 'R' dos Brics

Em agosto de 2023, durante o Fórum Empresarial do Brics em Joanesburgo, na África do Sul, o presidente Lula destacou a importância do bloco para o avanço dos países em desenvolvimento, classificando o grupo como a "força motriz" do 'Sul Global'. 

Mas há grande discussão em torno do papel do 'R' dos Brics entre os países em desenvolvimento.

Apesar de sua clara oposição às potências do Ocidente, há quem questione a inclusão da Rússia entre os países do 'Sul Global'.

"Assim como a China, a Rússia se encaixava nas leituras de potência média ou potência emergente quando esses conceitos se popularizaram. Mas vai ficando cada vez mais claro que são potências 'reemergentes' — foram grandes no passado, tiveram problemas e depois voltaram a crescer", diz Leonardo Ramos, da PUC-Minas.

O especialista ressalta, porém, que enquanto a China se alinhou mais ao 'Sul Global' por muitos anos — por sua política de não interferência —, a tensão da Rússia com o chamado "mundo Ocidental" sempre foi mais inflamada. 

Ao mesmo tempo, o governo russo parece interessado em promover a ideia de uma aliança contra o 'Norte Global' e usar alianças com o Sul a seu favor. 

"A Rússia vem se engajando de maneira explícita com alguns países do Sul Global nas últimas décadas, de forma a tentar desempenhar algum papel importante para que esses países votem com a Rússia em fóruns internacionais", diz Ramos. 

Em fevereiro, Moscou organizou o primeiro "Fórum pela Liberdade das Nações", com 400 delegados de 60 nações, para reunir os países do 'Sul Global' contra o que chamou de "neocolonialismo Ocidental".

No ano anterior, sediou uma reunião de cúpula entre Rússia e África, durante a qual o presidente Vladimir Putin anunciou o cancelamento de mais de US$ 20 bilhões em dívidas históricas de nações africanas, segundo a agência de notícias estatal Tass. 

O governo russo também fez lobby pela expansão dos Brics e enviou o ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, em várias viagens pelo 'Sul Global'.

Mas quando o tema é o confronto com a Ucrânia, o alinhamento absoluto não é a realidade.

China, Índia e Brasil adotaram uma posição mais neutra. Mas outros integrantes do 'Sul Global' têm demonstrado inclinação maior a apoiar o lado ucraniano, especialmente em votações nas Nações Unidas. 

Ainda assim, segundo o professor da PUC-Minas, os países do sul não deixam de ter um papel importante na política externa russa por representarem uma alternativa para importações e exportações em um momento de tensão e sanções internacionais. 

Os dados compilados pelo Índice Formal de Capacidade de Influência Bilateral (FBIC) também mostram um crescimento da influência de Moscou sob o G77 nas últimas décadas, com previsão de expansão ainda maior até 2035.

 

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