quarta-feira, 23 de julho de 2025

Quem quer ser um Império? - Paulo Roberto de Almeida

 Quem quer ser um Império?


        Impérios ainda são coisas do presente, mas cheiram a mofo, pois vêm de um passado muito distante.

        Impérios são coisas doentias, fadadas ao fracasso, ainda que possam ter sucesso durante algum tempo, por vezes durante séculos.
        Mas, eles tendem a ser dominados por personalidades autoritárias, algumas nitidamente desequilibradas.
        Alguns já ouviram certamente falar da sabedoria de um outro dos imperadores romanos, como Marco Aurélio, por exemplo.
Mas suponho que todos também ouviram falar da loucura de vários outros, entre eles Calígula e Nero. Sabemos o que ocorreu depois; Roma se afundou na confusão e os bárbaros chegaram, e se instalaram. Acabou o império de Roma; sobrou, durante mais mil anos o do Oriente, em Bizâncio, ou Constantinopla, que foi saqueada pelas cruzadas e depois conquistada pelos otomanos.
        O Império do Meio foi o mais exitoso durante séculos, mas em algum momento resolveu se fechar aos contatos com os estrangeiros, os europeus, que vinham para copiar coisas daquela civilização muito mais avançada do que os seus reinos barulhentos, briguentos, ensopados no sangue de suas batalhas contínuas, uns com os outros. Um imperador mal assessorado por mandarins introvertidos decidiu fechar a China; foi assim que o país economicamente e cientificamente mais avançado do mundo perdeu as revoluções científicas e industriais do Ocidente e acabou sendo humilhada por eles, que voltaram com canhoneiras. A China perdeu a primeira e a segunda revoluções industriais, pelo seu insulamento. Na terceira, já vivia sob o maoísmo demencial, que afundou ainda mais a China, com seu Grande Salto para a Frente (andou para trás, e eliminou mais ou menos 40 milhões de chineses) e depois com a Revolução Cultural, que destruiu as universidades e todo o sistema de ensino, substituído pela banalidade do Livrinho Vermelho do Presidente Mao. Se recuperou depois, com a tecnologia do Ocidente, e graças à energia e à educação do seu povo já superou o Ocidente, na quarta ou na quinta revolução industrial. Agora tem um novo imperador, o primeiro depois de Mao, e não sabemos como evoluirá daqui para a frente.
        O Império britânico foi o mais extenso do mundo – superado em longevidade pelos impérios centrais e pelo império otomano – mas dominou a indústria, as finanças, a cultura do mundo durante praticamente dois séculos. Quando visitei a Inglaterra pré-Thatcher já parecia um país do Terceiro Mundo, inviabilizada pelas políticas erráticas do Labour e mesmo dos Tories. Deu trabalho para colocá-la um pouco nos eixos, mas voltou a ter primeiros-ministros medíocres, e não sei se tem algum futuro.
        O império francês torrou o dinheiro continental e aventuras coloniais, que só beneficiaram seus plutocratas, o que talvez tenha motivado Jean-Baptiste Duroselle a escrever "Tout Empire Perira". É isso.
        O império americano, só tem cem anos mas já parece ter se esgotado antes mesmo de Trump, como relatam Paul Kennedy, Robert Gordon e outros. Trump veio para afundar ainda mais uma democracia disfuncional e um sistema econômico meio errático.
        E o império russo?: czarista, soviético, agora neoczarista, sob Putin? Teve algum sucesso, a roubar terras dos vizinhos, como a Finlândia, os bálticos, os povos do Cáucaso e da Ásia central (a China imperial inclusive. Vladivostock, por exemplo).
Creio que chegou ao seu limite expansionista e vai declinar, demograficamente, economicamente, militarmente (mas vai demorar nesse último aspecto, que foi o que precipitou a sua implosão, no regime soviético).
        A Europa continental, a da UE, é apenas um meio império, e vai demorar para se converter em um império verdadeiro, talvez nunca. É um conjunto agradável para passeios românticos e boa gastronomia, mas estão cansados de guerras, e talvez não queiram assumir as responsabilidades de um verdadeiro império, como os americanos (envergonhados), os russos (doentiamente vocacionados à supremacia) e os chineses (querem ser hegemons bem comportados, inundar os outros com seus produtos e nunca mais sofrer humilhações pelos estrangeiros).
        Impérios são resilientes, mas em algum momento um líder desequilibrado perturba a sua marcha. Alguns podem ter verdadeiros debiloides ignorantes no comando de um país vibrante e acolhedor, como os EUA, mas também com muita gente ignorante ao ponto de ser seduzida por demagogos como o atual presidente.
        O Brasil já foi um "império", de araque, um gigante de pés de barro, teve alguns estadistas no seu comando, mas a maior parte dos dirigentes também foi singularmente medíocre. AInda não conseguimos produzir novos estadistas, e parece que vai demorar. Calculo mais uma ou duas gerações, mas nunca seremos um império, a não ser no divertimento e na corrupção.
        Mil desculpas pela conclusão decepcionante.
        Vamos nos arrastando em direção ao futuro, pois como disse Mário de Andrade um século atrás:
        "Progredir, progredimos um pouquinho
        Que o progresso também é uma fatalidade..."

        Que seja...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 de julho de 2025

O Brasil, sem poder de barganha Celso Ming O Estado de S. Paulo

O Brasil, sem poder de barganha

Celso Ming
O Estado de S. Paulo, sexta-feira, 18 de julho de 2025

Aos poucos, a indignação infantil e inconsequente vai sendo substituída por uma visão mais realista das nossas precariedades.
A primeira reação do presidente Lula ao anúncio do presidente Trump sobre o tarifaço de 50%, a vigorar a partir de 1º de agosto, foi apelar para a soberania nacional e para revides em nome do princípio da reciprocidade. Lula chegou a avisar que recorreria à Organização Mundial do Comércio, providência que teria a mesma força de um pedido de apoio ao arcebispo de Nova York. Nesta quinta-feira, declarou que “gringo não vai dar ordens” e, em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, disse que “No Brasil, ninguém está acima da lei”.
Mas, na avaliação de parte dos empresários brasileiros, cutucar a onça com vara curta poderia levar ao pior. O País está na defensiva, tentando se apegar a alguma ajuda dos empresários norte-americanos prejudicados com a alta dos preços dos produtos exportados pelo Brasil. Nem a primeira carta enviada a Donald Trump, logo após o anúncio do tarifaço geral em abril, conseguiu resposta.
O presidente Trump parece ter eliminado a principal justificativa apresentada em sua carta do dia 11, quando alegou que o ex-presidente Jair Bolsonaro estava sendo vítima de uma caça às bruxas. “Bolsonaro nem chega a ser amigo”, disse Trump. “É apenas conhecido.”
A verdade é que o Brasil começa a se dar conta de que não tem poder de barganha diante de Trump, e qualquer alegação pode servir de pretexto para algum ato econômico de força. Até mesmo o Pix é acusado como política desleal aos Estados Unidos – apenas porque as bandeiras de cartões de débito começam a perder função e se tornar inúteis.
A economia brasileira carrega mazelas, enquanto o governo segue se enganando com a ideia de que somos “um país tropical, abençoado por Deus!”
Outra seria a condição do Brasil para enfrentar trancos como esse se não houvesse o rombo fiscal e, em consequência dele, os juros não tivessem de ir para a lua, derrubando a competitividade do produto nacional. Ou se a indústria e boa parte do setor produtivo não carregassem os problemas que têm hoje com seu sistema imunológico debilitado porque vivem dopados pelo protecionismo, pelos subsídios, pelas isenções tributárias, pela criação de reservas de mercado, pela imposição de conteúdos locais e pela artificialidade da competitividade zero, como a da Zona Franca de Manaus.
Bem outra seria a situação do Brasil se seus governos tivessem tomado a iniciativa de fechar acordos comerciais com o resto do mundo, em vez de insistirem tanto no Mercosul, que, até agora, não conseguiu passar ao estágio inicial de integração: o de área de livre comércio.
Esta é uma situação grave que, pelo menos, pode ser aproveitada pelo governo como oportunidade para abandonar a distribuição de presentes de Papai Noel, levar a sério a saúde das contas públicas e realizar as reformas sempre anunciadas e nunca enfrentadas.

Russia is our Rorschach - Emmanuel Todd (Substack)

Emmanuel Todd ataca outra vez, acusando britânicos e franceses de Russofobia. Talvez ele sofra de Russomania, ou pior, Russofilia. PRA

                 Emmanuel Todd

                Substack, July 20, 2025

Last April, I was interviewed by a Russian television channel about Western Russophobia and I had an epiphany. I more or less replied: "It's going to be unpleasant for you to hear this, but our Russophobia has nothing to do with you. It's a fantasy, a pathology of Western societies, an endogenous need of ours to imagine a Russian monster.”

As I was then in Moscow for the first time since 1993, I had experienced a shock of normality. My usual indicators - infant mortality, suicide and homicide - had shown me, without moving from Paris, that Russia had survived its crisis on the road out of communism. But such a normal Moscow was beyond anything I had imagined. And I had the intuition, on the spot, that Russophobia was a disease.

This intuition solves all sorts of questions. I had persisted, for example, in looking to history for the roots of British Russophobia, the most obstinate of all. The confrontation between the British and Russian empires in the nineteenth century seemed to justify such an approach. But then, in both world wars, Britain and Russia were allies, and they owed each other their survival in the second. So why so much hatred? The geopsychiatric hypothesis provides a solution. British society is the most russophobic, quite simply, because it is the sickest in Europe. As a major player and the first victim of ultraliberalism, the United Kingdom keeps producing dramatic symptoms: the collapse of its universities and hospitals, the malnutrition of its elderly, not to mention Liz Truss, the shortest and craziest of British prime ministers, a dazzling hallucination in the land of Disraeli, Gladstone and Churchill. Who would have dared a collapse of tax revenues without the protection, not just of a national currency, but of an imperial one, the world's reserve currency? Trump is also messing about with his budget, but he is not threatening the dollar. For the time being.

In the space of a few days, Truss had dethroned Macron on the hit-parade of Western absurdities. I confess to expecting a lot from Friedrich Merz, whose anti-Russian warmongering potential threatens Germany with much more than a monetary collapse. The destruction of the Rhine bridges by oreshnik missiles perhaps? Despite French nuclear protection? In Europe, it's carnival every day.

France is going from bad to worse, with its blocked political system, its economic and social system on credit, its rising infant mortality rate. We're sinking. And there we have it: an extra russophobic upsurge. Macron, the Chief of Staff of the French Armed Forces and the head of the DGSE (some secret service of ours) have just started singing the ultimate russophobic song: France now is Russia's number 1 enemy. This is crazy: thanks to our military and industrial insignificance, France is the least of Russia's worries, as it is busy enough with its global confrontation with the United States.

This latest Macronian absurdity makes recourse to geopsychiatry indispensable. A diagnosis of erotomania is inevitable. Erotomania is that condition, usually but not exclusively feminine, which leads the subject to believe that they are universally desired, sexually, and threatened with penetration by, say, all the surrounding males. Russian penetration, then, threatens...

I must confess to being weary of Macron bashing (others are taking care of this, despite general journalistic servility). Fortunately for me, we had been prepared for the President's 14 July speech with brand new official madness: idiotic speeches by two of the regime's little soldiers, Thierry Burkhard (Chief of the Armed Forces Staff) and Nicolas Lerner (head of the DGSE, the French foreign intelligence services). I'm not a constitutionalist, and I can’t tell whether it augurs well for democracy that two of the managers of the State's monopoly on legitimate violence are spilling out over the airwaves, in a press conference (Burkhard) or in anguished ramblings on LCI TV channel (Lerner), to define France's foreign policy in advance.

The fact remains that the public and free expression of their Russophobia is a treasure trove for the geopsychiatrist. I get two essential elements about the state of mind of the French ruling class (these interventions were taken as normal by the majority of the political and journalistic world and therefore tell us about the whole group).

Let's listen to Burkhard first. I'm using the Figaro transcript with its obvious imperfections. I'm not touching anything. How does our Chief of Staff define Russia and Russians? "It's also because of its people's ability to endure, even if the situation is complicated. Here too, historically and culturally, this is a people that is capable of enduring things that seem completely unimaginable to us. This is an important aspect of resistance and the ability to support the State". Let me translate: Russian patriotism is unimaginable for our military. He's not talking about Russia, he's talking about himself and his kind. He doesn't know, they don't know, what patriotism is. Thanks to the Russian fantasy, we are discovering why France has lost its independence, why, integrated into NATO, it has become a proxy for the United States. Our leaders no longer love their country. For them, rearmament is not about France's security, it's about serving an empire in decomposition which, after throwing the Ukrainians and then the Israelis into the fray against the world of sovereign nations, is preparing to mobilise the Europeans to continue sowing havoc in Eurasia. France is far from the front line. If Germany is a Hezbollah, our mission as proxies will be to be the Empire's Houthis.

Let's move on to Nicolas Lerner on LCI. This man seems to be in great intellectual distress. Describing Russia as an existential threat to France... With its shrinking population, already too small for its 17 million square kilometres? Only a nervous wreck could believe that Putin wants to penetrate France. Russia from Vladivostok to Brest? The fact remains that, in his distress, Lerner is useful for understanding the mentality of the people who are leading us to the abyss. He sees Russia imperial where it is national, viscerally attached to its sovereignty. “New Russia”, between Odessa and the Donbass, is quite simply the Alsace-Lorraine of the Russians. Would we have described the France of 1914, ready to resist the German Empire and take back its lost provinces, as imperial? Burkhard does not understand patriotism, Lerner does not understand the nation.

An existential threat to France? Yes of course, they sense it, they are right, but they are mistaken in looking for it in Russia. It is within themselves that they should be looking. The existential threat is twofold. Threat no. 1: our elites no longer love their country. Threat no. 2: they put it at the service of a foreign power, the United States of America, without ever taking our national interests into account.

When they talk about Russia, French, British, German or Swedish leaders tell us who they are. Russophobia is a pathology, no doubt. But above and beyond, Russia has become a formidable projective test. Its image is similar to the plates of the Rorschach test. The subject describes to the psychiatrist what he sees in shapes that are both random and symmetrical. In so doing, he projects some deep, hidden elements of his or her personality. Russia is our Rorschach.


La société française à la veille de la Révolution, vue par Hippolyte Taine - Gérard Grunberg (Telos)

 Estaria o Brasil no limiar de uma revolução, como a grande Revolução Francesa de 1789, por exemplo? Este autor recupera um trecho do historiador francês do século XIX, Hippolyte Taine, que toca em alguns pontos válidos para a França atual e talvez para o Brasil de nossos dias.

La société française à la veille de la Révolution, vue par Hippolyte Taine
Gérard Grunberg
La bibliothèque de Telos
July 19, 2025
    "Au moment où la situation du pays exigerait que les Français fassent corps derrière leurs gouvernants pour sortir de la grave crise financière qui menace le pays en acceptant leur plan de réforme, ils ne semblent pouvoir s’unir que pour le rejeter, et, avec eux, ceux qui l’ont élaboré. Cette incapacité des Français à faire peuple n’est pas nouvelle. À la fin du XIXe siècle Hippolyte Taine l’analysait dans ce monument de l’histoire politique française que sont Les Origines de la France contemporaine, tâchant de comprendre les raisons qui ont mené le pays à la situation de 1789. Selon ce républicain conservateur cette incapacité venait de loin. Son analyse mérite d’être rappelée aujourd’hui."


"« Depuis longtemps, et par un travail insensible, l’administration de Richelieu et de Louis XIV a détruit les groupes naturels qui, après un effondrement soudain, se reforment d’eux-mêmes. Sauf en Vendée, je ne vois aucun endroit ni aucune classe où beaucoup d’hommes, puissent, à l’heure du danger, rallier autour d’eux pour faire corps. Il n’y a plus de patriotisme provincial ou municipal. Le bas clergé est hostile aux prélats, les gentilhommes de province à la noblesse de cour, le vassal au seigneur, le paysan au citadin, la population urbaine à l’oligarchie municipale, la corporation à la corporation, la paroisse à la paroisse, le voisin au voisin. Tous sont séparés par leurs privilèges, par leurs jalousies, par la conscience qu’ils ont d’être frustrés au profit d’autrui. […] “La nation, disait tristement Turgot, est une société composée de différents ordres mal unis et d’un peuple dont les membres n’ont entre eux que très peu de liens, et où, par conséquent, personne n’est occupé que de son intérêt particulier. Nulle part il n’y a d’intérêt commun visible.” […] Depuis cent-cinquante ans le pouvoir central a divisé pour régner. Il a tenu les hommes séparés, il les a empêchés de se concerter, il a si bien fait, qu’ils ne se connaissent plus, que chaque classe ignore l’autre classe, que chacune se fait de l’autre un portrait chimérique, chacune teignant l’autre des couleurs de son imagination, l’une composant une idylle, l’autre se forgeant un mélodrame, l’une imaginant les paysans comme des bergers sensibles, l’autre persuadé que les nobles sont d’affreux tyrans. Par cette méconnaissance mutuelle et par cet isolement séculaire, les Français ont perdu l’habitude, l’art et la faculté d’agir ensemble. Ils ne sont plus capables d’entente spontanée et d’action collective. Au moment du danger personne n’ose compter sur ses voisins ou sur ses pareils. Personne ne sait où tourner les yeux pour trouver un guide. “On n'aperçoit pas un homme qui puisse répondre pour le plus petit district ; et, bien plus, on n’en voit pas un qui puisse répondre d’un autre homme” (Tocqueville — paroles de Burke). La débandade est complète et sans remède. L’utopie des théoriciens s’est accomplie, l’état sauvage a recommencé. Il n’y a plus que des individus juxtaposés ; chaque homme retombe dans sa faiblesse originelle, et ses biens, sa vie sont à la merci de la première bande qui saura se former. Il ne reste en lui que l’habitude moutonnière d’être conduit, d’attendre l’impulsion, de regarder du côté du centre ordinaire, vers Paris, d’où sont toujours venus les ordres. […] C’est à cela qu’aboutit la centralisation monarchique. Elle a ôté aux groupes leur consistance et à l’individu son ressort. Reste une poussière humaine qui tourbillonne et qui, avec une force irrésistible, roulera tout entière en une seule masse, sous l’effort aveugle du vent ».

A TEORIA DA MINEIRIDADE - BENÍCIO MEDEIROS (Blog de São João Del-Rei, de Francisco Braga)

 A Mineiridade e outras manias...

Não sou muito afeto a essas manias de peculiaridades regionais: "Ah, o carioca é assim, sempre chiando; o paulista insiste no "né"; o gaúcho tem aquelas manias farroupilhas; o baiano é isso mais aquilo; o pernambuco sabe se lá o quê. Acho tudo isso muito subjetivo. Mas não deixo de apreciar a boa literatura, como esta que fala de Otto Lara Resende e a Mineiridade.
Mineiridade, o que seria isso? Vamos ver... PRA

A TEORIA DA MINEIRIDADE
Por BENÍCIO MEDEIROS *
Blog de São João Del-Rei, de Francisco Braga
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/07/a-teoria-da-mineiridade.html
domingo, 20 de julho de 2025

A TEORIA DA MINEIRIDADE
Por BENÍCIO MEDEIROS *
Blogdomingo, 20 de julho de 2025

"O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza."
João Guimarães Rosa

Otto Lara Resende (✰ São João del-Rei, 1º/05/1922 ✞ Rio de Janeiro, 28/12/1992) ocupou a cadeira nº 39 da Academia Brasileira de Letras.

Minas assumiu o poder com a Revolução de 30. Não o poder político. O poder cultural. Embora o movimento tenha sido liderado pelos gaúchos, com Getúlio Vargas à frente, coube a um mineiro, Gustavo Capanema, dirigir a política educacional e cultural do governo Vargas, na qualidade de ministro da Educação e Saúde Pública.


Muito já se falou da luminosa passagem de Capanema pelo MES. Decerto favorecido pela ditadura estadonovista, que tornou de fato efetiva a carta-branca a ele conferida por Getúlio, Capanema, durante a sua gestão, promoveu a sua revolução particular, espanando, com extraordinário vigor, o empoeirado universo cultural da época.

Com o poder que lhe foi delegado, ele introduziu nos sistemas oficiais conceitos e pontos-de-vista ao gosto dos modernistas de 22 que não haviam no entanto, àquela altura, merecido o crédito da sociedade e, menos ainda, das chamadas autoridades constituídas. O Brasil, culturalmente falando, era ainda um país tacanho, dos saraus pseudoliterários e das conferências meloparnasianas, comandado, esteticamente, pelos cânones mais retrógrados das beaux arts.

Mineiro, Capanema cercou-se de mineiros. Pôs como seu chefe de gabinete Carlos Drummond de Andrade (como o ministro, de uma geração anterior à de Otto ¹), o que por si só equivalia a uma tomada de posição. O poeta, tido como comunista, não era benquisto pela nata da sociedade conservadora, incluindo-se aí os velhos mandarins dos círculos literários oficiais e os representantes da direita católica.

Eram conhecidas, por exemplo, as diferenças entre o poeta de Claro Enigma e o crítico Alceu Amoroso Lima ². Em março de 1936, Drummond recusou-se a assistir a uma conferência de Alceu, "A educação e o comunismo", no MES. Por causa disso, o poeta-funcionário-público se viu obrigado a por o cargo à disposição do ministro, que, no entanto, desconsiderou sua atitude.

O episódio pode parecer estranho à luz da atualidade. Mas fazia parte da guerra ideológica que se travava no período. Cruzado e patrulheiro da causa do catolicismo, embora com os anos tenha arrefecido sua posição no que esta tinha de mais intolerante, Alceu Amoroso Lima foi, na mesma época, o responsável pela demissão do cronista Rubem Braga do Diário da Noite, de Assis Chateaubriand. Irreverente e anticlerical, Braga escreveu, num momento infeliz, que a Igreja espanhola "não passava de uma pinóia". Só por causa disso Alceu, indignado, pediu a cabeça do jornalista. Chateaubriand a concedeu.

Outro mineiro ilustre no MES foi o jovem advogado, escritor e jornalista Rodrigo Melo Franco de Andrade. Para não fugir à regra da tradição da sua terra, tinha publicado um livro de contos tristes, Velórios, do qual aliás não gostava. Rodrigo foi o criador, em 1937, do antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN), voltado, pioneiramente, para a preservação do patrimônio cultural brasileiro.

A perspectiva do MES era a de reconhecer e identificar os valores notáveis do nosso passado, através do SPHAN, e, ao mesmo tempo, projetá-los ao futuro, a partir do reconhecimento de certas propostas da vanguarda que ainda causavam ojeriza tanto ao senso comum como às elites renitentes. Algumas das cabeças mais brilhantes da época se associaram a essa tarefa de redescobrir, com novos olhos, o passado cultural brasileiro.

Mário de Andrade, por exemplo, foi um colaborador incansável de Rodrigo desde os primeiros tempos, tendo redigido o anteprojeto de criação do SPHAN e, mais tarde, como um caçador de relíquias, saído pessoalmente à cata de dados pelo país, particularmente o interior de São Paulo, que enriqueceriam o repertório conceitual da instituição e engrossariam as suas primeiras listas de bens tombados.

Mário de Andrade se tornaria uma espécie de mentor e orientador intelectual do grupo de mineiros de que Otto Lara Resende fazia parte. De espírito aberto e extrovertido, entusiasta dos esforços literários da juventude, o autor de Macunaíma, a partir da sua obra e de suas passagens por Belo Horizonte, influenciaria de forma decisiva a carreira de Otto e de seus amigos, que, durante anos, mantiveram correspondência com o escritor, já então consagrado.

O MES, ou melhor, Gustavo Capanema, acolheu e prestigiou artistas que encontrariam, naquela época, pouco espaço de atuação fora do abrigo da estruturas oficiais. Encomendou painéis ao incompreendido Portinari. Esculturas aos malditos Celso Antônio, Bruno Giorgi e Lipchitz, cujo talhe moderno incomodava a muitos. E até um edifício inteiro, a superenvidraçada sede do MES, a um grupo de arquitetos liderados por Lúcio Costa, achando-se entre estes um jovem especialmente talentoso, porém ainda desconhecido: Oscar Niemeyer.

Tanto Lúcio Costa como Niemeyer — conduzidos logo depois, pelas mãos de Juscelino Kubitschek, a Belo Horizonte — teriam papel destacado no sentido de arejar um pouco a então fechada, e mesmo opressiva, sociedade mineira. Por volta de 1940, no entanto, os jovens mais esclarecidos de Belo Horizonte, entre os quais Otto Lara Resende, só tinham olhos para a guerra na Europa. E, apesar dos feitos vanguardistas do conterrâneo Capanema na Capital Federal, todos detestavam Getúlio.

Mais de uma vez, Otto Lara Resende valendo-se, em geral, de opiniões alheias pautadas no determinismo geográfico, descreveu o mineiro como um ser à parte no contexto das psicologias regionais. Se o brasileiro do litoral, por exemplo, tendia à comunicabilidade e à extroversão, o homem da montanha era, em geral, um ser reservado, desconfiado e muito cioso do seu universo individual.

Num artigo sobre Carlos Drummond de Andrade "O mel oculto, o áspero minério", na tentativa de explicar a personalidade do poeta, Otto se refere a um texto de Guimarães Rosa sobre o "enigma mineiro" (expressão de Otto). Nele, ao seu estilo, o autor de Tutameia arrola algumas características que lhe pareciam fundamentais do montanhês:

“Seu gosto do dinheiro em abstrato. Sua desconfiança e cautela. Sua honesta astúcia meandrosa, de regato serrano, de mestres na resistência passiva. Seu vezo inibido, de homens aprisionados nas manhãs nebulosas e noites nevoentas de cidades tristes, entre a religião e a regra coletiva, austeras, homens de alma encapotada, posto que urbanos e polidos.”
A opinião de Drummond não é muito diferente:
“O Estado mais tipicamente conservador da União abriga o espírito mais livre. Sua aparente docilidade esconde reservas de insubmissão, às vezes convertida em ironia, e de algum modo chocada na pachorra de esperar, que tanto ilude o observador apressado, incapaz de perceber a chama latente do borralho. As revoluções liberais em Minas ilustram isso.”
A teoria da mineiridade explicaria em parte, assim, a Inconfidência e outros episódios históricos. A ironia e a dicotomia de espírito a que se refere Drummond estariam também na base do extenso anedotário envolvendo alguns políticos mineiros ilustres, de Benedito Valadares a José Maria Alkmin e Tancredo Neves. Valadares foi o interventor escolhido por Getúlio para governar Minas no Estado Novo. A notícia da sua nomeação causou surpresa à própria mãe, que não confiaria muito nos dotes intelectuais do filho. "Mas será o Benedito?" ³ — teria ela exclamado, introduzindo assim no repertório popular uma nova interjeição.
Outra anedota envolvendo Benedito Valares versa sobre um discurso que o político teria feito numa cidade do interior de Minas, conhecida pelo cultivo de uma fibra vegetal chamada pita. Começava assim: "Nesta região, onde a pita abunda..." Percebendo o cacófato, ele voltou atrás, tentou corrigir, mas a emenda saiu pior que o soneto: "Nesta região, onde abunda a pita..."

A julgar até pela sua frase mais famosa, Otto Lara Resende, apesar da fidelidade às suas raízes, não cultivava bairrismo em relação a Minas. Disse ele:

“O fato de Minas produzir muito escritor e muito banqueiro tem certamente a mesma explicação pela ecologia e pela sociologia. Mineiro é o povo que se deixa cortar o pescoço para não pagar imposto, porque não acredita no Estado. A própria formação de Minas, com aquelas levas de aventureiros de diferentes etnias que procuravam vender pastéis e miçangas aos arruinados do ouro, determinou uma economia de reflexos fechados, à base do pé-de-meia individual.”
A mudança de eixo no poder, com a consequente abolição da "política do café-com-leite", pela Revolução de 30, gerou certamente, entre os mineiros, ressentimentos e preconceitos em relação ao governo central. Essa sensação de esvaziamento explicaria, em certa medida, o horror que Getúlio Vargas despertava em Minas, ao qual Otto e o seu grupo não eram indiferentes. Anos depois, já entendendo melhor os complicados meandros da política nacional, o escritor mudaria de ideia.
Como jovem repórter, já no Rio, cobrindo a instalação da Constituinte de 1946 para O Globo, Otto Lara Resende teve a oportunidade de conhecer de perto Getúlio Vargas, então um ex-presidente retornando ao poder, dessa vez ao poder legislativo, na qualidade de senador dos mais votados. Essa entrevista renderia a Otto, mais tarde, algumas de suas melhores páginas.

Ele encontrou-se com Getúlio no apartamento deste, no Morro da Viúva. Em vez do repulsivo tirano da sua adolescência, deparou-se com um homem algo bonachão, às vezes mesmo meio tímido, disposto a ouvi-lo paternal e pacientemente, sempre com um atencioso sorriso nos lábios. Deu até espaço para que Otto, um mero foca ³, explicitasse todas as suas furibundas críticas acumuladas contra o Estado Novo. Depois disse: "Tu és ainda muito jovem e não sabes que um ditador não pode fazer tudo. Um dia saberás."

Curioso, anotou o repórter, é que o ex-presidente chamava-se a si próprio de "ditador", mesmo termo usado pela imprensa de oposição para ofendê-lo. Anos depois, anotaria o escritor maduro:

“A despeito de seu estilo caudilhesco, de sua formação pouco inclinada ao prestígio das instituições democráticas, é possível que a História venha um dia a reconhecer, sem paixão, que Getúlio Vargas foi um momento importante em nossa trajetória republicana.”
Nos tempos da juventude de Otto, no entanto, eram poucos os mineiros que pensavam assim.


* Jornalista e escritor, nasceu em Niterói-RJ em 1947 e faleceu no Rio de Janeiro em 11/10/2019. Estreou na imprensa em 1970 como repórter do jornal Última Hora. Trabalhou como editorialista no Jornal do Brasil, no Estado de S. Paulo; foi repórter e crítico literário da revista Veja, redator da revista Isto É, editor do Jornal da Globo e redator-chefe da revista Manchete. Também foi diretor de jornalismo da Academia Brasileira de Imprensa (ABI), editor da Revista do Livro da Biblioteca Nacional, tendo participado do conselho editorial da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. É autor de “A poeira da Glória” (Relume Dumará, 1998), “Brilho e sombra” (Bem-Te-Vi, 2006), sobre a vida e obra de Otto Lara Resende, e “A rotativa parou” (Record, 2010), que relata a história do jornalista Samuel Wainer à frente do jornal Última Hora.


II. NOTA EXPLICATIVA do gerente do Blog


¹ Efetivamente, é da vida e obra de Otto Lara Resende que trata o livro "A Poeira da Glória" de Benício Medeiros, de cujo terceiro capítulo intitulado "A teoria da mineiridade", esse texto foi extraído.

² O célebre pensador e crítico literário brasileiro, Alceu Amoroso Lima, adotou o pseudônimo de Tristão de Athayde, ao se tornar crítico em O Jornal (1919).

³ Na gíria brasileira, "foca" significa jornalista novato, sem experiência.

⁴ Marcelo Duarte, in Guia dos Curiosos, dá a seguinte versão para o dito popular: "A expressão "Será o Benedito?" nasceu em 1933, quando o presidente Getúlio Vargas demorou muito para escolher o interventor de Minas Gerais. Todos temiam que ele escolhesse o pior candidato, Benedito Valadares. Por isso, a população se perguntava: "Será o Benedito?" E o Benedito foi o escolhido."


III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


MEDEIROS, Benício: OTTO LARA RESENDE: a poeira da Glória, integrante da série “Perfis do Rio”. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, 1998, 141 p.

__________________: À SOMBRA DO CARAÇA, 2º capítulo do livro A POEIRA DA GLÓRIA, postado no Blog de São João del-Rei em 08/01/2025
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/01/a-sombra-do-caraca.html
Postado por Francisco José dos Santos Braga às 17:01

terça-feira, 22 de julho de 2025

DUAS REVISTAS: UMA NAUFRAGOU, A OUTRA QUASE VIROU CINZA - Edmílson Caminha (ANE)

 Um artigo no site da Associação Nacional de Escritores, de Edmilson Caminha, provavelmente de 2019 ou 2020, do qual só tive conhecimento recentemente:


DUAS REVISTAS: UMA NAUFRAGOU, A OUTRA QUASE VIROU CINZA
Edmílson Caminha

Site da ANE
https://anenet.com.br/lygia-uma-saudade/

        Ao longo da História, o Itamaraty transcendeu o papel institucional que lhe cumpre exercer – representar diplomaticamente as posições políticas e os interesses econômicos do Brasil no concerto das nações – para também se fazer um centro de primazia acadêmica, à altura do que há de melhor no magistério universitário brasileiro. Prova disso são os homens e mulheres diplomatas que o honram e engrandecem, ontem como hoje: Guimarães Rosa, Antônio Houaiss, José Guilherme Merquior, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Sérgio Paulo Rouanet, Vera Pedrosa, Alberto da Costa e Silva, Evaldo Cabral de Mello, Francisco Alvim, Lauro Moreira, Carlos Henrique Cardim, Paulo Roberto de Almeida, João Almino, Gisela Maria Padovan, Sérgio Danese, Gonçalo Mourão, José Maurício Bustani e Irene Vida Gala, além de tantos outros. A par do desempenho das funções burocráticas e protocolares como embaixadores e cônsules, publicaram obras literárias (e muitos felizmente ainda as escrevem), dirigiram programas editoriais de relevo e possibilitaram o lançamento de periódicos que enriquecem a cultura brasileira.
        Criada em 1993 por decreto do presidente Itamar Franco, a Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil foi presidida pelo embaixador Lauro Moreira, responsável pela publicação de três excelentes números da revista Rumos. Com o subtítulo “Os caminhos do Brasil em debate”, abria as páginas para a discussão de ideias, a livre defesa de pensamentos e de opiniões, longe do oba-oba demagógico que está mais para a propaganda de governos do que para o diálogo intelectual. Sob a direção do jornalista Dirceu Brisola e o saber do também jornalista Daniel Piza, um dos editores, não havia dúvida quanto à seriedade do projeto, como se lê na apresentação do diplomata Lauro Moreira:
        A revista Rumos nasce com objetivos claros. Ela se insere na proposta da Comissão Nacional do V Centenário de fazer dos 500 Anos um momento de reflexão sobre caminhos e perspectivas do Brasil. (…) Como espaço de debates, Rumos será pluralista e crítica. Cada número privilegiará um tema, tratado por intelectuais de diferentes tendências. (…) Espero que Rumos contribua para mobilizar a sociedade brasileira em torno de uma reflexão crítica sobre o significado de nossos quinhentos anos de história, com os olhos postos no futuro.
        O primeiro número (dezembro de 1998 / janeiro de 1999), com o tema “Conflitos da identidade nacional”, traz longos e substanciosos ensaios de Jorge Coli, Olgária Matos, Carlos Guilherme Mota, Eduardo Portella, Renato Janine Ribeiro, Ismail Xavier e Rosa Maria Dias. Textos a que se somam uma entrevista com o professor João Luís Fragoso, poemas de Marly de Oliveira e a memória de Ferreira Gullar como uma das primeiras vítimas do AI-5, preso que foi no infausto dia 13 de dezembro de 1968. Que outra revista brasileira, mesmo as acadêmicas, reúne tanta gente boa logo na edição inaugural?
        Para o número 2 (março / abril de 1999) escrevem, como resposta à pergunta “Quem és tu, Federação?”, intelectuais com a relevância de Francisco de Oliveira, Fernando Luiz Abrucio, Isabel Lustosa, Rui de Britto Álvares Affonso, Celso Furtado, Luiz Roncari, Milton Hatoum, Rubens Ricupero, Roberto DaMatta e Daniel Piza. O entrevistado é o filósofo José Arthur Giannotti, que, há 25 anos, defendia ideias que continuam válidas:
Acho que a primeira coisa a fazer seria pegar a borracha e limpar a Constituição. Uma emenda supressiva. Não uma constituinte, mas uma reforma geral para que a Constituição fosse mais do tipo americano, mais com princípios, deixando o resto para a lei ordinária. Com um capitalismo desse jeito, com luta social, vai-se adaptando a lei. Definem-se grandes princípios, sem imaginar que a Constituição vá garantir tudo. E conforme venha um governo mais de esquerda, promulga certas leis, em vez de mexer na Constituição. O detalhismo da Constituição não tem sentido. Em segundo lugar é a reforma política. Esse negócio de partido nanico é altamente prejudicial para a política. Ter um jogo político mais limpo não permite, por exemplo, aventureiros que chegam a matar gente. A reforma política é fundamental.
“Brasil / Portugal, o legado ambivalente” é o mote da terceira edição de Rumos (maio / junho de 1999), com estudos de Aspásia Camargo, Evaldo Cabral de Mello, Miriam Dohlnikoff, Evanildo Bechara, João Almino, a portuguesa Graça Capinha, Jacqueline Hermann, Luís Antônio Giron e Leda Tenório da Motta. Entrevistado por Daniel Pizza, o historiador inglês Kenneth Maxwell não vê, hoje, afinidades maiores entre Brasil e Portugal:

        O Brasil é muito grande, muito diversificado, multiétnico e multirracial, com uma experiência histórica que seguiu caminhos muito diferentes dos de Portugal, por mais de um século, para que essa identidade reflita a realidade. Os laços de idioma e história, o passado colonial comum, algumas continuidades institucionais e atitudes burocráticas obviamente continuam. Mas me espantei em minha primeira visita ao Brasil com o quanto ele é diferente de Portugal, da mesma forma como os Estados Unidos são muito diferentes, em vários sentidos, do tipo de mundo inglês onde cresci.
        A capa não informa, como antes, “publicação da Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil”, mas apenas “publicação comemorativa do V Centenário do Descobrimento do Brasil”. Sinal, talvez, de que, por inveja ou por mesquinharia, já houvesse insatisfeitos com o brilho de Lauro Moreira à frente da Comissão, como a folclórica e ridícula figura do governo Fernando Henrique Cardoso que poria tudo a perder. Abandonou-se o belo programa de eventos culturais pela construção de uma réplica da caravela de Cabral, que afundou sem navegar sequer uma milha. Melancólico símbolo de como triunfam as nulidades, desde o tempo de Rui Barbosa. Assim naufragou a revista Rumos, que não chegou a padecer do “mal dos sete números”, como tantos bons periódicos brasileiros: foi morta aos três…

• •

        Em 2017, o presidente Michel Temer criou, por decreto, a Comissão Nacional do Bicentenário, responsável pelos eventos oficiais comemorativos dos 200 anos da Independência. Presidido pelo ministro da Cultura, o grupo jamais se reuniu, tão rapidamente se sucederam as nomeações para a chefia do ministério. Sabedor de que tudo resultaria em nada, o diplomata Paulo Roberto de Almeida, então presidente [Diretor] do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, sugeriu a formação de um Grupo de Trabalho do Bicentenário da Independência, no âmbito do gabinete do à época ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira. O coordenador-adjunto, embaixador Carlos Henrique Cardim, propôs a edição de uma revista que ombreasse com os 49 números da Oceanos, publicada em Lisboa, entre 1989 e 2002, pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.
        Criou-se, assim, a 200, cuja meta se patenteia na apresentação do editor Cardim:
        A revista 200 é uma publicação periódica de divulgação de artigos sobre a Independência: textos já publicados, mas de difícil acesso, e textos originais. Contribui para uma visão mais ampla do processo, com ênfase na sua dimensão de relações exteriores. Colabora, assim, com a “Comissão Nacional do Bicentenário”. (…) Assim inspirada, a revista 200 propõe-se difundir “monografias conscienciosas”, principalmente do ângulo das relações exteriores.

        “Muitas vezes o olhar estrangeiro enxerga mais nítido e seleciona melhor que a visão do nacional”, escreve o apresentador, para concluir com uma história:

No almoço oferecido pelo Presidente Tancredo Neves, em nossa Embaixada em Buenos Aires, em janeiro de 1985, em homenagem ao Presidente Raúl Alfonsín, Jorge Luis Borges, presença honrosa no ato, comentou ao Presidente Trancredo Neves duas coisas que impressionavam, e o tocavam forte sobre o Brasil: o livro de Euclides da Cunha, Os Sertões, e particularmente a frase do Hino da Independência: “Brava gente brasileira”, disse cantarolando.
        Tancredo ouviu com atenção e apreciou bastante. Borges – ao lado da mulher, María Kodama –, cego, e com bengala que trouxera dos pastores do Egito, viu claríssimo o espírito e o sentimento que movem o Brasil.
        Com data de outubro / dezembro de 2018, o primeiro número da 200 enfeixa páginas de Jean-Baptiste Debret, Arno Wehling, Gilberto Freyre, Márcia Regina Berbel, Raymundo Faoro, Carlos Lima Junior, Solange Ferraz de Lima, Pedro Calmon, José Murilo de Carvalho (com Lúcia Bastos e Marcello Basile), Gonçalo Mourão, João Alfredo dos Anjos, Paulo Roberto de Almeida e Manuel Diegues Júnior. Capítulos primorosamente ilustrados, a comprovar a excelência do projeto e o apuro da edição.
Impressa pela gráfica em dezembro de 2018, a revista foi censurada pelo governo Jair Bolsonaro, que se empossaria um mês depois. Sobre a espantosa decisão, lembra o diplomata Paulo Roberto de Almeida:

        Qual não foi a nossa surpresa quando a tropa de bárbaros que estava tomando posse do Governo e do Itamaraty, sob as ordens diretas do patético chanceler acidental, ordenou o “sequestro” – essa é a palavra – da revista e sua não distribuição. Depois, eu soube que foi ordenada a sua destruição, así no más…

        Sem lançamento nem circulação, nenhum exemplar da 200 chegou a leitores, a bibliotecas, a cadernos de cultura da imprensa. Não bastasse a asfixia, determinou-se a queima de toda a edição, como se regredíssemos aos autos de fé medievais, sob a loucura de infames que nos afrontaram como povo e nos comprometeram como nação. Milagrosamente, salvou-se a revista das chamas, para que ficasse como prova de que o bicentenário da Independência poderia ter-se comemorado de maneira digna, honrosa, decente.
        Em 7 de setembro de 1822, Pedro I gritou, às margens do Ipiranga, “Independência ou morte!” Dois séculos depois, o insano Bolsonaro empunha um microfone em Brasília e puxa o coro de “Imbrochável! Imbrochável! Imbrochável!” Que, daqui a cem anos, não voltem os brasileiros a passar por essa vergonha. Quem sabe, então, possa o Itamaraty publicar sua grande revista, com o título 300, devidamente atualizado…


Has Brazil Invented the Future of Money? - Paul Krugman (Substack)

Has Brazil Invented the Future of Money?

 Paul Krugman

Sunstack, July 22, 2025

Last week the House passed the GENIUS Act, which will boost the growth of stablecoins, thereby paving the way for future scams and financial crises. On Thursday the House also passed a bill that would bar the Federal Reserve from creating a central bank digital currency (CBDC), or even studying the idea.
Why are Republicans so terrified by the idea of a CBDC that they’re literally ordering the Fed to stop even thinking about it?
In 2022 the Fed issued a preliminary report on the possibility of creating a CBDC, which it described as “analogous to a digital form of paper money.” Currently, Americans are able to hold and spend one form of Federal Reserve liability: green pieces of paper bearing pictures of dead presidents. A CBDC would expand that right, allowing us to hold and spend deposits at the Fed, which, like all deposits these days, would just be digital records.
If this sounds outlandish, you should realize that we already have what amounts to central bank digital currency — but only for financial institutions. Banks maintain accounts at the Fed and can transfer funds to each other via an electronic payments system. Why shouldn’t comparable facilities be made available to individuals and nonfinancial companies?
Republicans say that they’re worried about invasion of privacy, that a CBDC would open the door to widespread government surveillance. But remember, these are the people who have handed over personal Medicaid data to ICE to facilitate arrests and abductions. If you think they’re deeply concerned about potential surveillance, I have some Trump family memecoins you might want to buy.
I’d also point out that the government can access private bank records under certain circumstances and certainly has the technological ability to watch every financial move you make. The only thing that keeps it from doing so is the law, specifically the Right to Financial Privacy Act. If we ever do create a CBDC, it will surely involve comparable privacy protection. Either you trust in rule of law or you don’t.
What Republicans are really afraid of, with good reason, is the likelihood that many people would prefer a CBDC to private bank accounts, especially but not only stablecoins. And in general any attempt to create a full-fledged CBDC would run into fierce opposition from the financial industry.
But what about the possibility of creating a partial CBDC? Could we retain private bank accounts but provide an efficient, publicly-run system for making payments out of those accounts?
Yes, we could. We know this because Brazil has already done it.
Most people probably don’t think of Brazil as a leader in financial innovation. But Brazil’s political economy is clearly very different from ours — for example, they actually put former presidents who try to overturn elections on trial. And the interest groups whose power, for now at least, makes a U.S. digital currency impossible appear to have much less sway there. Brazil is, in fact, planning to create a CBDC. As a first step, back in 2020 it introduced Pix, a digital payment system run by the central bank.
As I understand it, Pix is sort of like a publicly run version of Zelle, the payment system operated by a consortium of U.S. private banks. But Pix is much easier to use. And while Zelle is big, Pix has become simply huge, used by a reported 93 percent of Brazilian adults. It appears to be rapidly displacing both cash and cards:



Source: The Economist

And why not? According to an IMF report,

· Pix transactions take place almost instantaneously. A Pix payment settles in 3 seconds on average versus 2 days for debit cards and 28 days for credit cards.

and

· Transaction costs are low. The authorities have set a requirement on Pix to be free for individuals, and the cost of a payment transaction for firms/merchants is only 0.33 percent of the transaction amount, versus 1.13 percent for debit cards and 2.34 percent for credit cards.

I can’t help noticing that Pix is actually achieving what cryptocurrency boosters claimed, falsely, to be able to deliver through the blockchain — low transaction costs and financial inclusion. Compare the 93 percent of Brazilians using Pix to the 2 percent, that’s right, 2 percent of Americans who used cryptocurrency to buy something or make a payment in 2024.

Oh, and using Pix doesn’t create an incentive to kidnap people and torture them until they give up their crypto keys.

So, will we get a Pix-type system in the United States? No. Or at least not for a long time, for two reasons.

First, the U.S. financial industry just has too much power, and would never allow a public system to compete with its products — even, or actually especially, if the public system is superior. In fact, the Trump administration suggests that Pix’s mere existence in Brazil constitutes unfair competition for U.S. credit and debit card companies.

Second, the U.S. right is firmly committed to the view that the government is always the problem, never the solution. Republicans will never, ever admit that a government-operated payments system might be better than private-sector alternatives.

Other nations may well learn from Brazil’s success in developing a digital payment system. But America will probably remain trapped by a combination of vested interests and crypto fantasies.

As metamorfoses de Reinaldo Azevedo (2022) - Julian Rodrigues (A Terra é Redonda)

 Apenas para registro histórico, tantos personagens, tantos movimentos, tantos partidos, tantos partidecos, e evolução sempre surpreendente, em certos casos. PRA.


 As metamorfoses de Reinaldo Azevedo

 

Por JULIAN RODRIGUES*

Blog A Terra é Redonda

 

Da libelu ao neoliberalismo, do antipetismo ao antibolsonarismo: a peculiar trajetória do Tio Rei

Por honestidade intelectual sinto-me compelido a abrir esse texto com uma confissão. Assistir ao O é da Coisa, de Reinaldo Azevedo, transmitido pela Rádio Bandeirantes é para mim puro guilty pleasure. Trata-se provavelmente do melhor programa jornalístico do PIG (Partido da Imprensa Golpista – Paulo Henrique Amorim, presente!).

Reinaldo Azevedo é um quadro político preparado, formado dentro da tradição marxista e trotskista. Foi militante da quase lendária Libelu (Liberdade e Luta), tendência estudantil com epicentro na USP, criada em meados dos anos 1970, seção brasileira da Organização Socialista Internacionalista (OSI), atualmente na corrente petista “O Trabalho”.

Trata-se de uma tendência socialista e petista ligada à IV Internacional (aquela liderada pelo francês Pierre Lambert). Sabe-se que existiram e existem diferentes grupos mundo afora alinhados às distintas correntes do movimento trotskista. Em geral pouco expressivas a maior parte dessas organizações autoproclamaram-se nas últimas décadas como sendo as legítimas herdeiras e continuadoras da Quarta Internacional – aquela fundada por Leon Trotsky em 1938.

Leninistas, centralizados, organizados e geralmente pequeninos, os mais diferentes grupos trotskistas têm em comum o enorme esforço dedicado à formação política de seus quadros. Uma tendência histórica a continuo fracionamento, orgulhoso sectarismo mais a fragilidade orgânica da maioria dos grupos trotskistas em todo e qualquer tempo e lugar viraram lenda e senso comum. Tem inspirado décadas a fio toda uma tradição de piadas no campo da esquerda, uma mais outras menos razoáveis, digamos assim.

Resumidamente, no Brasil, as principais correntes trotskistas são as dos: morenistas(a ex-Convergência Socialista, hoje PSTU,) e o MES de Luciana Genro, a CST de Babá, e outras menores; lambertistas (O Trabalho é a mais relevante); mandelistasdo SU – Secretariado Unificado (origem da tendência Democracia Socialista do PT) e muitos microgrupos mais, digamos, exóticos – como os posadistas (seguidores do argentino Juan Posadas, conhecidos por postular a existência de extraterrestres). (Reparem que fiz questão de ignorar aquela oportunista e esdrúxula liberal-trosca seita armamentista, particular propriedade do senhor RCP. Prudência e tino político aconselham-me a não escrever o que realmente penso sobre o PCO. Melhor manter a elegância, não xingar ninguém, não ajudá-los a ganhar clicks e, ademais, evitar contendas judiciais.)

 

Liberdade e luta

Chama a atenção quanta gente hoje importante passou pela Libelu (Liberdade e Luta). A caminhada dessa corrente foi registrada no imperdível documentário dirigido por Diógenes Muniz: Libelu – abaixo a ditadura”, de 2020.

Talvez seja possível agrupar os ex-Libelu em três grupos: (i) os que continuaram na tendência; (ii) os que foram para o campo majoritário do PT ou permaneceram na esquerda moderada, alguns como militantes partidários outros não; (iii) os que se transmutaram em liberais e/ou conservadores de diversas cepas. Seriam aproximações toscas, of course. Toda taxonomia é falha e arbitrária a priori. Quase nunca é possível ou eficaz operar com categorias rígidas, estanques – sobretudo se estamos a lidar com tantos e tão heterogêneas personalidades.

Mas, vamos lá. Na primeira turma – a dos que continuam do lado certo da história, ademais no mesmíssimo lugar – temos  Markus Sokol, Misa Boito e Júlio Turra (atual e tradicional trio dirigente da tendência petista O Trabalho).

É preciso mencionar o deslocamento de parte importante dos quadros de OT (O Trabalho) em direção ao campo majoritário e mais moderado do PT em meados dos anos 1980. Tornou-se lendária tal movimentação – maldosamente apelidada de “Sonrisal” – rotulada como uma dissolução. Isso porque ao invés de os quadros lambertistas executarem a conhecida tática do “entrismo” – tentando influenciar os rumos da corrente majoritária do PT – ao contrário, terminaram muitos deles se incorporando à Articulação.

O plano era alojarem-se em postos-chave no interior da corrente mais influente do PT para tentar empurrar à esquerda suas formulações. Na política também atuam as leis da física e da biologia. Tais militantes acabaram por mudar de rota e optaram por aderir organicamente à corrente majoritária e “moderada” a mesma de Lula, dos cristãos da teologia da libertação, dos sindicalistas.

Fizeram assim Antonio Pallocci, Brani Kontic, Clara Ant, Ricardo Berzoini, Zé Américo, Jorge Branco, Antonio Donato, o saudoso Luis Gushiken – citando apenas alguns.

Em um segundo grupo podemos agrupar figuras públicas que continuam no campo progressista, embora não sejam mais militantes do PT. Curiosamente as e os mais destacados são jornalistas – todas/os com passagens pela redação do diário da Barão de Limeira como Laura Capriglione, Paulo Moreira Leite, Josimar Melo, Caio Tulio Costa e Ricardo Melo.

A ala que virou a chavinha inteiramente – bandeando-se para o liberalismo e/ou até para o reacionarismo – inclui nomes como Demétrio Magnoli, Matinas Suzuki, Mario Sergio Conti – todos jornalistas que também coincidentemente trabalham ou trabalharam na Folha de São Paulo.

Abster-me-ei de dedicar qualquer espaço para o talvez mais conhecido ex-militante de OT: Antonio Palocci – trânsfuga vulgar um verme. Canalha, vaidoso e corrupto trata-se de desprezível cachorro (delator). As elites as quais tanto obedeceu divertem-se zombando do ex-poderoso ministro da fazenda – agora usuário de tornozeleira eletrônica. Corrupto rastaquera, um traíra bajulado anos a fio pela grande mídia.

O sujeitinho de língua presa serviu tanto ao andar de cima e foi tão mimado por eles, que se achou inimputável (Vanity is my favorite sin ensina o Capiroto, interpretado por Al Pacino, no clássico The Devil´s Advocate). Quando acreditou já ter virado gente diferenciada seu Palocci pôs-se a roubar com espetacular sofreguidão. Anos a fio havia cultivado a imagem de pessoa sofisticada, inteligente, ponderada – cristal que desabou em um estrondo. Pallocci roubou e roubou, rápida e desbragadamente – sem nenhuma elegância nem método – pior até que um principiante tosco qualquer.

O ex-ministro não se via como o que de fato era: um “wannabe”. Depois terminou nos revelando sua verdadeira vocação, a de batedor de carteira – e ainda mais bobalhão que qualquer malandro de rua.

 

Primórdios

Inicialmente crítica ao movimento pró-PT, a então OSI brasileira – futuro O Trabalho, logo-logo incorpora-se ao esforço de construção daquele novo Partido plural, socialista, independente e classista.

O então estudante de jornalismo Reinaldo Azevedo foi trotskista. Militou no final dos anos 1970 em O Trabalho. Deve vir daí parte de sua consistente formação política – fundamentada naquela época em um marxismo-trosco-lambertista-pró-PT.

Não sei exatamente precisar em quais momentos Reinaldo Azevedo fez suas grandes transições político-ideológicas. Do socialismo revolucionário ao neoliberalismo tucano, passando pelo direitismo mais estridente até chegar ao exuberante progressismo liberal de hoje.

O fato é que durante muito tempo Reinaldo Azevedo foi um dos mais virulentos propagadores do antipetismo na grande mídia. Dotado de indiscutível talento oratório e texto primoroso, Reinaldo Azevedo esteve na linha de frente. Fazia agitação e propaganda – intelectual orgânico da direita, combativo. Incansável na conservadora oposição militante aos governos do PT.

Historicamente próximo ao PSDB, Reinaldo Azevedo esteve à frente da revista Primeira Leitura – publicação impulsionada e financiada pelo tucanato paulista, que circulou na metade inicial da década de 2000. O jornalista foi colunista da fascistóide revista Veja por 12 anos – o período mais tenebroso de sua trajetória pública.

Notabilizou-se como criador do neologismo “petralhas”carimbo que mostrou-se grudento, termo virulento ao qual conservadores de todo tipo recorrem a todo momento para rotular não apenas os governos Lula/Dilma mas também o conjunto da militância petista. Em 2008, o ex-trotskista publicou um livro (coletânea de artigos) com um doce título: O país dos petralhas – a obra fez sucesso e deu cria.

O segundo volume foi regurgitado em 2012. Tudo com ampla divulgação e apoio da revista Veja, onde Reinaldo Azevedo hospedava sua coluna semanal além de toda grande mídia. No ano de 2017 Reinaldo Azevedo saiu (ou foi saído da Veja). Babado, confusão e gritaria.

A incompatibilidade entre ele e a publicação hebdomadária dos Civita deu-se aparentemente em virtude das críticas que vinha começando a tecer e torpedeavam a queridinha-mor da mídia – a operação Lava Jato. O estopim dessa surpreendente ruptura se relaciona com o episódio no qual Sérgio Moro vazou a transcrição de uma conversa comezinha entre Reinaldo Azevedo e Andrea Neves (irmã de Aécio). Moro arrumou nesse episódio um inimigo de peso.

No derradeiro artigo que publicou naquela revistinha fascistóide Reinaldo Azevedo classificou como intimidatória a divulgação enviesada daquele trivial diálogo entre ele (jornalista) e Andrea (fonte). Comum o papo era mesmo, mas saber que o mesmo aconteceu foi didático, cá entre nós (diga-me com quem andas – ou conversas – e direis quem tu és).

Surpreendente e contundentemente Reinaldo Azevedo posicionou-se como um dos pioneiros críticos daquela supostamente maravilhosa operação justiceira, então patrocinada por toda mídia. Sabemos hoje que foi uma estratégia golpista e anti-esquerda, concebida e implementada desde as profundezas do deep state norte-americano. É o petróleo, estúpido!

A tal operação supostamente épica era protagonizada por dois vaidosos provincianos paranaenses, mal treinados nos EUA. Não sabiam falar ou escrever direito nem em português, muito menos em inglês – uma duplinha de limítrofes capachos das elites e protofascistas. Rapidamente a roda da história girou. É um prazer quase orgástico assistir dia a dia à fulminante, trágica e espetacular derrocada da dupla Moro-Dallagnol. Luis Inácio falou, Luis Inácio avisou.

Lúcido, alertou-nos Reinaldo Azevedo lá nos primórdios da operação ela que poderia ser o início de um “estado policial”. Importante lembrar: alguns setores da esquerda flertaram e até chegaram a elogiar a Lava-Jato no início – ranço udenista de uns e ilusões “republicanas” de outros. Ah, o Estado burguês…

Foi no mês de fevereiro de 2019 – quando atuava como comentarista político da Rede TV – que Reinaldo deu então um bas-fond antológico. Resolveu pedir as contas e se desligar da emissora televisiva em grande estilo. Estrelou um piti memorável – ao vivo e em cadeia nacional. Inesperada e rudemente arrancou seus microfones pondo-se de pé. Muitos alegam que foi além e fez um gesto similar ao de “coçar o saco”.

Na sequência, desdenhou solenemente a simpática despedida ensaiada pelo reacionário Boris Casoy – que era o âncora do telejornal. Daí foi-se embora brusca e teatralmente, espumando de raiva, performando a ira mais santa e vingativa.

 

Outro giro

Não sei precisar exatamente quando ocorreu (em 2019 talvez). O fato é que Reinaldo Azevedo se reposicionou again. Com a mesma ênfase e competência de sempre. Passou a propagar posições progressistas. Ao ponto de vir a constituir-se, nos meios midiáticos, em um dos mais ácidos críticos tanto do bolsonarismo quanto do lavajatismo.

Quase um cavaleiro solitário cavalgando na contramão pelos campos nem tão verdejantes da grande mídia (Reinaldo Azevedo trabalha na Band FM e na Folha-UOL). Reivindica garbosamente (dia sim e outro também) sua filiação ideológica ao que seria um tipo ideal de liberalismo “clássico”. Ademais, orgulhosamente ostenta ao fundo de seu cenário um porta-retrato com a imagem icônica da filósofa liberal-cult a queridinha dos EUA, Hanna Arendt.

Todavia, entretanto, porém, contudo, na prática o apresentador tem se apresentado de forma crescentemente crítica ao campo conservador – e até simpático ao PT. Chegou recentemente a entrevistar Lula não só corretamente (o que já seria invulgar), mas também com empatia.

A mim me parece que Tio Rei está a vibrar em uma frequência de reconciliação com as ideias daquele do jovem socialista que um dia foi. Mesmo quando faz juras ao liberalismo objetivamente cada vez mais sustenta posições social-democratas – que lembram um Welfare State com cara brasileira. Reparem que formalmente segue repudiando ideias progressistas e socialistas.

Parece que sonha nosso jornalista com um governo liderado por aquele velho PSDB de centro-esquerda – que seria naturalmente o porta-voz do bom senso e do reformismo pragmático. Teríamos um blending perfeito. Mistura ideal – e nas proporções certas – de um social-liberalismo com muita social-democracia.

Esse PSDB imaginário nos salvaria. Seria o portador de um projeto quase perfeito – mesmo sendo essencialmente paulista, elitista, modernizante, levemente reformista, mal-humorado, blasé, supostamente ilustrado e muito arrogante. Algo meio Covas, meio FHC, representação da elite cosmopolita à frente de um país católico, mas que deve se manter secular. Um governo de gente pacata, moderadamente conservadora, vaidosa e com dicção perfeita. Por onde anda esse PSDB, afinal?

O PSDB com o qual Reinaldo Azevedo sonha transformaria o Brasil em uma nação desavergonhadamente moderna, empreendedora e globalizada, mas sem cair em exageros ultraliberais como os de um João Doria. Em sua utopia tucano-liberal-progressista o país teria a cara da Fiesp e do agronegócio (que é pop). Mas com o charme da USP.

Esse projeto tucano-raiz que empolga Reinaldo Azevedo projeta um Brasil contemporâneo distante tanto de esquerdismos como de extremismos neofascistas. Tal país que deve conservar suas liberdades democráticas – com políticas públicas compensatórias e total pluralismo. Mas, sem vacilar nada de dar margem à ascensão das classes populares. Muito menos para que se façam reformas estruturais.

Seríamos então o país do presente, a terra prometida, paraíso neoliberal fingindo e se achando socialdemocrata. Vistos de longe pareceríamos civilizados, embora de fato continuaríamos profundamente oligárquicos. Para sempre haveríamos de ter governos medíocres, contudo racionais. Conservadores e (ou) liberais – entretanto sempre compassivos.

Esse Brasil simpático, no entanto, só vale até o momento no qual a esquerda não chega ao governo. Nessa hora imediatamente se rasgam todas máscaras. As classes dominantes impulsionam logo alguma modalidade de golpe: rápida, eficaz e despudoradamente.

Dono de oratória afiada, consistente repertório cultural e conhecedor da boa literatura Reinaldo Azevedo tem cumprido um papel importante. É até inusitado que continue dispondo de 60 minutos diários para opinar livremente em plena Band News, além de manter sua coluna na Folha de Sâo Paulo.

Reinaldo Azevedo, ex-professor de literatura, um jornalista experiente maneja com talento a “última flor do Lácio”. Esbanjando referências faz questão de exibir vaidosa e arrogantemente seu vasto repertório cultural – embora pareça tentar não se apartar totalmente de seu público-alvo (setores centristas liberais bem informados das classes médias urbanas paulistanas e paulistas).

O colunista da Folha de São Paulo não abre mão de executar um ritual – faz todos saludos à la bandera. Ou seja, deixa nítido que continua um liberal de carteirinha: segue confiável para seus atuais patrões, para o conjunto dos barões da mídia e amigo dos donos do capital. Quando em vez, ao reiterar sua posição ideológica, parece estar o âncora apenas a repetir um protocolo – que visa manter seu emprego e/ou conservar sua audiência entre ouvintes e leitores senso comum.

Cada vez são mais frequentes críticas muito ácidas que o apresentador expressa – tanto à política econômica capitaneada por Paulo Guedes como a um conjunto de clichês ideológicos disseminados diariamente pelo partido da imprensa golpista (o famoso PIG – termo criado pelo saudoso Paulo Henrique Amorim).

Recentemente Reinaldo Azevedo tem falado de política internacional. Suas análises sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia são semelhantes às da esquerda. Meu amigo Breno Altman, editor do site Opera Mundi, quadro petista formado na velha e boa tradição comunista, entrevistou Reinaldo Azevedo no início do mês de junho. O clima era de camaradagem. Bem à vontade, o colunista da Folha bateu sem piedade nos liberais brasileiros.

Entre muitas outras frases de efeito (o estilo é o homem) Reinaldo Azevedo afirmou diretamente a necessidade de cuidarmos das contas públicas. Mas, aí vem o que importa, sem uma rigidez que impeça o crescimento econômico.

Um dos maiores algozes do PT, o âncora da Band News reconheceu naquela entrevista que os governos do Partido implementaram uma política de inclusão “coisa que nossos liberais não teriam feito”. Além disso, enfaticamente postulou a constituição de uma frente ampla antifascista. Esculhambando os neoliberais brazucas, que não falariam com os pobres, provocou: “talvez o liberalismo seja de fato coisa de país rico”.

Qual é o perfil da maioria dos atuais ouvintes/leitores de Reinaldo Azevedo hoje? Eu queria muito saber. Intuo que atualmente ele tem muito mais audiência no meios progressistas do que entre supostos liberais e/ou democratas não bolsonaristas.

A trajetória de Reinaldo Azevedo é peculiar. Ter sido militante socialista na juventude, se formar na tradição marxista mudar de lado e aderir ao neoliberalismo – e/ou ao direitismo repugnante – não é algo raro, pelo contrário. Bem menos usual é deparamo-nos com alguém que começa na esquerda resolve atravessar o rubicão, alcança a margem oposta, mas anos depois engata (ao menos parcialmente) marcha a ré. E fica menos distante do lugar de onde partiu.

 

Distopia neoliberal-fascista

Nesses dias tão estranhos a poeira nem mais “fica se escondendo pelos cantos” (saudades do Renato Russo). O Brasil de Bolsonaro é pesadelo bruto. Distopia. Tudo de ruim elevado à enésima potência. Sociedade hiper-capitalista e pós-moderna, ao mesmo tempo arcaica. Um terço do povo está sob hegemonia e direção política da extrema direita.

Brasil desde sempre radicalmente desigual – e agora com fascistas armados até os dentes. Sob explícita tutela militar. Estrutural e conjunturalmente somos um país misógino, violento, racista, homofóbico. Em nossas metrópoles vegeta multidão de miseráveis a perambular – maltrapilhos e famintos – como zumbis de alguma série da Netflix. Enquanto isso um punhadinho de homens brancos (cidadãos do bem) – milionários toscos – refestelam-se entocados nos seus luxuosos condomínios-bunker. Protegidos e escoltados por milícias particulares – tal casta de rentistas flana mundo afora a praguejar contra nossos impostos supostamente abusivos, contra a corrupção dos políticos e a burocracia do Estado.

Mas, de fato, o esporte preferido dessa burguesia fascistóide que se acha liberal é resmungar contra a indolência da classe trabalhadora brasileira – esse bando de desqualificados: uma gente preta e parda, pobre e inculta. Fazem isso sem descuidar em nenhum momento das ações para garantir a hegemonia cultural e política dos dogmas pró-mercado. Ultimamente também do milico fascista que elegeram em 2018. Mas não tem conversa. Já decidiram que tudo farão para reeleger Jair Bolsonaro mesmo tendo um pouco de nojinho – ou não.

Não tem sido fácil enfrentar tanta desgraceira, tanta irracionalidade – essa baita regressão civilizatória que veio junto com o autoritarismo neofascista. Quedamo-nos imersos, dispersos – muitas vezes sem forças ou condições objetivas para coletiva e organizadamente remar contra esse tsunami de fétidos dejetos. Quase esmagados pela preponderância de uma ditadura da burrice – orgulhosa, arrogante, agressiva e parecendo invencível.

Mas tentamos seguir de espinha ereta e cabeça erguida. Dia após dia. Apanhando, recuando e também meio que avançando quando dá. Reagrupando, refletindo, reinventando. Lutando nas ruas e chamando o voto em Lula, única forma de começarmos a virar essa página horrível.

Daí também deriva a enorme relevância de toda e qualquer voz que venha a se perfilar ao lado das forças antifascistas. Mais gente contra Jair Bolsonaro. Ainda que marchando separados podemos – devemos – seguir golpeando juntos.

Vai, Tio Rei! Segue sendo um tanto gauche na vida. Se nosso existir está repleto nas palavras de Drummond: “ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera”, a voz de Reinaldo Azevedo: “é feia, mas é uma flor – furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.


*Julian Rodriguesjornalista e professor, é ativista do movimento LGBTI e de Direitos Humanos. É doutorando no Programa de América Latina da USP.

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