Abaixo uma matéria relativa a livro recusado para ser publicado pela Câmara dos Deputados. Após leitura da matéria conclui que os autores adotaram algumas expressões corretas, como "ditadura militar", em lugar de apenas "regime militar" (como parece ter sido sugerido por um deputado), assim como outras expressões duvidosamente genéricas ou subjetivas, a exemplo desta aqui:
"os direitos constitucionais dos indígenas são “vergonhosamente negados pelo Estado brasileiro”. PRA
Historiadores acusam comissão da Câmara de censurar livro sobre Independência do Brasil; veja trechos
Historiadores acusam comissão da Câmara de impor vetos e alterações em obra sobre a Independência; Casa afirma que ajustes fizeram parte do processo editorial e que livro não será publicado.
Por Octavio Guedes, Pedro Figueiredo
G1, 17/08/2026 20h56
Um grupo de historiadores acusa a comissão responsável pelas comemorações dos 200 anos do Congresso Nacional de impor mudanças e vetos ao conteúdo do livro “Independências do Brasil”, que seria publicado pela Editora da Câmara dos Deputados.
Segundo os organizadores da obra, uma das exigências foi a substituição da expressão “ditadura militar” por “regime militar” nas referências ao período iniciado em 1964. A comissão também teria determinado a retirada ou alteração de trechos sobre indígenas, direitos e marco temporal, além de referências ao Haiti e ao samba-enredo da Mangueira de 2019.
Documento de historiadores aponta trechos censurados de livro sobre a independência.
Em documento enviado ao blog, os organizadores da obra, André Roberto de A. Machado, Andréa Slemian e Cláudia M. G. Chaves, afirmam que o conselho solicitou repetidamente a substituição de termos ou a supressão de trechos.
No trecho sobre o protagonismo histórico dos povos indígenas, o conselho determinou a supressão da expressão que classifica o marco temporal como uma “aberração jurídica”. Em outro ponto sobre o mesmo tema, também pediu a retirada da frase segundo a qual os direitos constitucionais dos indígenas são “vergonhosamente negados pelo Estado brasileiro”.
A menção ao samba-enredo da Mangueira de 2019, que propõe buscar “a história que a história não conta”, também foi marcada para retirada.
A Câmara dos Deputados afirmou que a coletânea “Independências do Brasil” foi apresentada por iniciativa externa para eventual publicação pela Edições Câmara e que, durante a análise editorial, foram discutidos ajustes nos textos, sem que se chegasse a uma versão final considerada adequada para publicação. A Casa ressaltou que o envio de propostas à editora não implica compromisso de publicação e que a seleção segue critérios e normas internas.
Ainda segundo a Câmara, com o fim das comemorações do Bicentenário da Independência e diante das atuais prioridades editoriais, a publicação da coletânea não está prevista.
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
Livro controverso, de História do Brasil, recusado para publicação pela Câmara dos Deputados - Octavio Guedes, Pedro Figueiredo (G1)
Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior 2026 - Danilo Zimbres (Itamaraty, MinC)
O colega diplomata Danilo Zimbres enviou, via Linkedin, a seguinte mensagem, que achei extremamente positiva, por isso a divulgo em meus canais:
"Poucas coisas são tão gratificantes na vida pública quanto ver uma política que ajudamos a construir continuar produzindo resultados quinze anos depois.
Estão abertas, até 13 de setembro, as inscrições para o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior 2026.
O programa original foi criado em 1991. Em 2009, como Assessor Especial do Ministro da Cultura Juca Ferreira, concebi sua profunda reformulação, transformando-o em uma política permanente, com escala, previsibilidade e uma estratégia de internacionalização da literatura brasileira. A diferença é bastante expressiva: entre 1991 e 2009, o programa concedeu 161 subsídios à tradução; somente entre 2010 e 2013, esse número chegou a 422.
Em 2010, assumi a chefia do setor consular do Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt e participei diretamente da implementação e projeção internacional do novo modelo, tendo como horizonte a presença do Brasil como País Homenageado da Feira do Livro de Frankfurt de 2013.
Em 2011, apresentamos o programa ao mercado editorial internacional. A meta previa R$ 12 milhões até 2020 — cerca de dez vezes o apoio anterior.
Como disse à época, queríamos “uma presença internacional constante no âmbito da cultura”, capaz de projetar uma imagem do Brasil “mais positiva e menos estereotipada”.
O resultado fala por si: hoje, o programa já viabilizou a tradução de 1.600 livros brasileiros, em cerca de 70 países e mais de 50 idiomas.
Ver essa política chegar a 2026, institucionalizada e produzindo resultados, é motivo de enorme orgulho."
A semana na revista Será?
Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº724
Recife, 14 de agosto de 2026
Caro leitor:
Há momentos em que ler deixa de ser apenas um exercício de informação e se transforma num gesto de vigilância. Esta edição da Revista Será? atravessa algumas das questões decisivas do nosso tempo: a soberania nacional, a liberdade de imprensa, os limites dos poderes da República, a responsabilidade fiscal, as ameaças à democracia e a necessidade de recuperar a negociação política. Entre a urgência do presente e a permanência dos grandes livros, oferecemos aos leitores uma edição para inquietar certezas e alargar o horizonte.
Em “Uma pedra no caminho de Trump”, nosso Editorial examina a ofensiva de Donald Trump e de Marco Rubio para reafirmar a hegemonia norte-americana sobre a América Latina. O Brasil aparece como a grande pedra nesse projeto de subordinação continental. Às vésperas das eleições de 2026, o texto recorda que o voto decidirá não apenas quem governará o país, mas também se continuaremos livres para definir nosso próprio destino. Soberania nacional e democracia, afinal, são inseparáveis.
José Paulo Cavalcanti Filho, em “Sigilo da Fonte”, enfrenta uma questão essencial ao Estado de Direito. A partir de uma decisão que permitiu a apreensão de equipamentos de um jornalista e a identificação de seu informante, o autor distingue com precisão a proteção constitucional da fonte e a responsabilidade do profissional pelo conteúdo publicado. Sua crítica alcança o corporativismo judicial, a legalidade das provas e os limites do poder exercido pelo Supremo Tribunal Federal.
Também sobre o Judiciário, Helga Hoffmann escreve “Sob o manto da retórica...”. A autora percorre décadas de denúncias sobre privilégios, penduricalhos, remunerações acima do teto e mecanismos corporativos de autoproteção. Ao questionar códigos de ética sem sanções e artifícios linguísticos usados para encobrir benefícios, Helga defende transparência, prestação de contas e o direito dos cidadãos de compreender, em linguagem clara, aquilo que os intérpretes oficiais da Constituição fazem em nome da sociedade.
Em “A palavra maldita”, Hubert Alquéres examina a resistência do governo Lula à expressão “ajuste fiscal”. O problema, demonstra o autor, não desaparece quando seu nome é banido do discurso político. A expansão da dívida pública, os juros elevados, a compressão dos investimentos e as ameaças às políticas sociais exigem decisões responsáveis. Hubert sustenta que um ajuste planejado e concentrado nas despesas será menos doloroso do que aquele imposto, mais adiante, pela deterioração das contas públicas.
Rui Martins conduz o leitor para um cenário ainda mais inquietante em “Existe o risco de invasão norte-americana?”. Ao considerar possibilidades de intervenção militar, política ou digital dos Estados Unidos no Brasil, o autor recupera a Doutrina Monroe, as pressões de Trump, a atuação de brasileiros no exterior e o uso eleitoral das redes sociais. O texto não oferece tranquilidade: convida-nos a pensar os riscos geopolíticos, a fragilidade defensiva do país e as ameaças que podem acompanhar a disputa presidencial.
Em contraste com a política da imposição, José Arlindo Soares recupera a política da negociação em “Pacto de Moncloa e a Transição Democrática no Brasil”. O autor compara o amplo acordo espanhol de 1977 com a redemocratização gradual brasileira, construída sem pacto formal, mas influenciada pelos valores da conciliação, do pluralismo e dos consensos mínimos. De Tancredo Neves à Constituição de 1988, o artigo demonstra por que a memória histórica permanece indispensável diante da polarização e da erosão da confiança pública.
Paulo Gustavo nos conduz, então, a outro território fundamental da vida brasileira: o de nossa formação cultural. Em “Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre”, celebra os nove decênios de Sobrados e mucambos. O artigo revisita a arquitetura literária e sociológica da obra, seu olhar proustiano sobre o passado e a paisagem social que se estende entre sobrados e mucambos, entre a decadência do patriarcado rural e o desenvolvimento urbano. É um convite à redescoberta de um clássico incontornável.
Em “A Será? Há 14 anos”, recuperamos o Editorial “Democracia e mídia”. Publicado em 2012, o texto defendia a liberdade de imprensa, a pluralidade dos veículos e a circulação descentralizada das informações. Sua atualidade é evidente. Em meio à desinformação, à polarização e ao poder crescente das redes sociais, a democracia continua dependendo da diversidade de vozes, da responsabilidade, da ética jornalística e da recusa a qualquer monopólio da verdade.
Na “Última Página”, a charge de Elson
Boa leitura.
Os Editores
Índice
- Uma pedra no caminho de Trump – Editorial
- Sigilo da Fonte - José Paulo Cavalcanti Filho.
- Sob o manto da retórica... - Helga Hoffmann
- A palavra maldita - Hubert Alquéres
- Existe o risco de invasão norte-americana? - Rui Martins
- Pacto de Moncloa e a Transição Democrática no Brasil - José Arlindo Soares
- Os 90 Anos da Outra Obra-Prima de Gilberto Freyre - Paulo Gustavo
- A Será? Há 14 anos.
- Última Página, a charge de Elson
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Autobiografia de um fora-da-lei, 7: O Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)
Madame IA examina o mais recente artigo da série "Autobiografia de um fora-da-lei, 7", uma biografia sincera do Estado brasileiro, destacando a atuação do Barão, e outros aspectos da política externa e da política econômica brasileira, do Império à República Velha.
Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026;
link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/
divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html Relação de Originais n. 5396.
domingo, 16 de agosto de 2026
Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida
Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida
Introdução PRA: Vindos da pobreza, minha família e eu, junto com meus irmãos, nos alçamos pelo trabalho duro, por vezes mais duro do que muitos podem imaginar. Sempre achei isso, e atuei em conformidade com essa postura. Estudei, trabalhei e venci, como alguns poderiam dizer, ou seja, me alcei a uma posição de classe média, pelo estudo e pelo trabalho, e passei a integrar – como ressaltado por essas estatísticas da Oxfam – a minoria dos privilegiados, aqueles que possuem "renda alta", mas alta apenas em relação à miséria miserável da renda média da população brasileira, que é reconhecidamente muito baixa, ainda assim figurando entre os países de "renda média superior" (mas apenas porque existem alguns bilhões de miseráveis mundo afora).
Eles não são pobres ou miseráveis por culpa dos ricos e milionários gananciosos, como acredita a Oxfam, ou pela falta de assistência pública dada por um Estado generoso, como acreditam os petistas e os esquerdistas. São pobres porque não tiveram educação e trabalho dignos, e isso não é culpa dos países ricos, ainda que estes tenham sido colonialistas e imperialistas no passado (vários ainda o são). Só é colonialista, imperialista, dominador, explorador QUEM PODE, não quem quer. A capacitação tecnológica (e militar) é uma condição prévia a qualquer dominação, sobre o meio e sobre as pessoas. Mas ela não veio do céu, ou dada por outros, generosos e desinteressados. Só existe pela própria sociedade, pelas suas instituições, cultura, governos. Povos ricos tendem a produzir ricos, eventualmente dominadores.
O Brasil, por formação, foi colonizado por um país atrasado, mas empreendedor: Portugal dos Descobrimentos. Mas Portugal manteve analfabetos até meados do século XX, como meus avós de Trás os Montes, que vieram analfabetos ao Brasil mais de cem anos atrás, para simplesmente substituir os escravos nas fazendas de café. Minhas duas avós – os avôs já tinham morrido ou desaparecido antes de eu nascer –, a portuguesa e a italiana, morreram analfabetas, mas tinham orgulho de meus estudos, com razão, pois cedo eu me tornei um rato de biblioteca. Foi isso que me retirou de uma profissão manual e me permitiu ingressar na diplomacia, um dos exames de ingresso na burocracia estatal mais difíceis que existem no Brasil.
Muitos anos atrás, ostracizado no regime Lula 1 para trabalhar na Secretaria de Estado, acabei trabalhando no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, por contraditório que isso possa parecer. Acompanhei todos os "planejamentos" do governo, inclusive a famosa reconstrução do Bolsa Família a partir de programas dispersos da era FHC. Sempre me pronunciei contrariamente a esses programas de assistência pública, enquanto o NAE preparava um programa de desenvolvimento com mais de 50 prioridades. Eu preconizava apenas um programa modesto, de apenas 5 prioridades, todas elas concentradas na eduçação de base e profissional, apenas isso. Claro que fui execrado pelos "assistencialistas" mais extremados. Eu tinha certeza, então e agora, que o Brasil NÃO se desenvolveria pela via da assistência pública, mas foi o que mais cresceu, de 6 milhões de famílias, para mais de 12 milhões atualmente, ou 1/4 da população total do Brasil toda ela no cartão salvador e em vários outros programas complementares.
O artigo abaixo de Marcelo Guterman apenas confirma minhas percepções de várias décadas, mas infelizmente também reproduz certas crenças inabaláveis na esquerda econômica. O Brasil padece de excesso de estatismo, de assistencialismo, de intervencionismo, de nacionalismo e de outros ismos nefastos, mas carece do mais simples, que começa na escola primária e termina na adolescência (ou deveria): uma educação de qualidade, faria com que as pessoas trabalhassem, produzissem, inovassem e enriquecessem.
Infelizmente, a esquerda econômica, estilo Piketty e outros, acham que a função dos economistas é a de empobrecer os mais ricos, não a de enriquecer os mais pobres. Estamos nisso e parece que vamos continuar, pois isso não é privilégio da esquerda: todos os oligarcas, geralmente de direita, também acreditam no populismo assistencialista, no papel do Estado, e acabam produzindo a perpetuação da pobreza.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 16/08/2026
A mitologia completa de Lula
MARCELO GUTERMAN
AGO 16, 2026
Sérgio Fausto, presidente da Fundação FHC, em linha com a inspiração ideológica de seu patrono, não consegue largar das bolas de Lula. Crente da Igreja do Ajuste Fiscal Inevitável, está à espera desse profeta mítico, o Lula Pragmático, que, finalmente, colocará as contas públicas em ordem.
Mas antes de comentar esse ponto, não podia deixar de falar sobre outro ser mítico, igualmente adorado pelos filopetistas: o “Lula Redentor dos Pobres”. Segundo essa crença, Lula teria tirado um sem número de brasileiros da pobreza, em linha com as suas mais profundas convicções. Lamento dizer, mas não passa de mais uma mistificação, em que só caem aqueles mesmerizados pela pregação petista. Vejamos.
Há duas formas de tirar pessoas da pobreza: de maneira relativa, através da melhora da distribuição de renda, e de maneira absoluta, através do aumento do PIB/capita.
Em relação à distribuição de renda, de acordo com dados do Banco Mundial, de fato o Brasil melhorou desde que o PT chegou ao poder. Em 2002, o Brasil tinha um índice de Gini de 58,1 e em 2024 (último dado disponível), o Gini estava em 50,3. Lembrando que, quanto menor o Gini, melhor a distribuição de renda de um país. Então, de fato, houve uma melhora significativa da distribuição de renda nos últimos quase 25 anos.
Mas vejamos o que aconteceu em países similares (o primeiro número representa o Gini de 2002 e o segundo, o Gini de 2024):
África do Sul: 65,0 / 54,1
Argentina: 53,8 / 42,4
México: 50,6 / 43,5
Observamos, nestes países, também quedas significativas do Gini. A não ser que Lula tenha também implementado políticas públicas nesses países, devemos concluir que esse fenômeno de melhora na distribuição de renda foi universal, e o Brasil apenas embarcou nessa nau. Nossa melhora foi, inclusive, menor do que a dos países citados, o que pode nos levar à conclusão que as políticas adotadas por Lula, na verdade, atrapalharam a tendência global.
Com relação ao crescimento do PIB/capita, o Brasil saiu de um PIB/capita de US$ 14,2 mil em 2002 para US$ 19,9 mil em 2025 (conceito Purchase Power Parity). Melhorou, sem dúvida. Mas observando-se o que aconteceu no resto do mundo, a fotografia não parece tão bonita. Segundo dados do FMI, a renda/capita global em 2002 era de US$ 8,7 mil, tendo subido para US$ 25,2 mil em 2025. Ou seja, em 2002, a renda/capita do brasileiro era 60% maior que a média global. Em 2025, é 20% menor.
Então, sim, Lula tirou muitos brasileiros da pobreza. Mas a pergunta é: não teria sido ainda melhor se tivéssemos outras políticas econômicas? Se ao menos tivéssemos acompanhado o aumento do PIB global, seríamos hoje duas vezes mais ricos do que somos. Mesmo tirando a China dessa conta, hoje seríamos 75% mais ricos. Teríamos ainda menos pobres, certo?
Mas, de todas as evidências dessa fraude intelectual, a que eu realmente prefiro é o número de beneficiários do bolsa família: temos hoje quase 50 milhões de brasileiros dependendo desse programa governamental, ou quase 25% da população. E isso porque, segundo Sérgio Fausto, “com Lula na presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante”. Imagine se não tivesse se reduzido!
Fausto, depois dessa hagiografia de Lula, afirma que o ajuste fiscal é necessário justamente para manter essas políticas públicas que beneficiam os mais pobres. Mas esse é justamente o raciocínio dos “neoliberais”. Os petistas, Lula incluído, execram esse tipo de racional. Isso aí não passaria de uma versão requentada do Consenso de Washington, que condenaria os países subdesenvolvidos à pobreza e dependência eternas. Bom mesmo são programas sociais, incentivos ao crédito, manipulação do câmbio, fechamento do mercado nacional e subsídios a indústrias ineficientes.
O problema fundamental de Sérgio Fausto e de todos os filopetistas racionais que pensam como ele, é achar que Lula concorda com o diagnóstico de que contas públicas equilibradas são fundamentais para que o Estado tenha capacidade para ajudar os mais pobres. Esse tipo de premissa é totalmente estranha ao modo petista de pensar e governar. Para os petistas, o “mercado” precisa ser domado, como confessou, em um momento de sincericídio, o coordenador do programa de governo de Lula, Sérgio Gabrielli.
Fausto, assim como todos os tucanos da velha guarda, acham que os petistas são tucanos que vestem vermelho. Não, os petistas não são como os tucanos. Os petistas são… petistas. E sempre agirão como petistas.
Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.
Declaração de voto antecipada, 1 (as time goes by…) - Paulo Roberto de Almeida
Declaração de voto antecipada, 1
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Declaração de voto antecipada, 1 (as time goes by…)
Depois de 44 anos exercendo a carreira diplomática, durante a qual fui também um professor intermitente (minha primeira e permanente “profissão”), voltei a ser um modesto professor e observador diário da vida nacional e internacional, elaborando pequenos comentários pessoais, ou transcrevendo matérias de terceiros que julgo interessantes, e que posto em meu blog Diplomatizzando (que acaba de completar vinte anos de existência contínua, e que eu chamo de “quilombo de resistência intelectual).
Pois bem, acompanho eleições no Brasil desde 1960, quando, ainda pequeno acompanhei meu pai na cabine de votação para ele marcar na cédula um X no nome de Jânio Quadros (a grande esperança dos brasileiros em acabar com a corrupção, simbolizada pela “vassourinha” em metal que grudávamos na lapela das roupas).
A renúncia do bizarro presidente seis meses depois foi um outro acontecimento que chamou minha atenção, pois minha mãe foi me buscar na escola, temendo uma guerra civil ou sei lá o quê, um trajeto que eu sempre fiz sozinho, duzentos e poucos metros de nossa casa.
Depois, sem entender muito bem do que se tratava, tive notícias do plebiscito de janeiro de 1963, quando se teve o retorno ao presidencialismo, depois de um ano e meio de regime parlamentarista.
Mais um ano e meio de inflação, greves e disturbios civis (lembro-me da greve dos sargentos do controle aéreo, em setembro de 1963), veio o golpe militar, até recebido com alívio em minha casa, basicamente por causa da inflação penalizando os modestos ganhos paternos.
O golpe, aos meus 14 anos, correspondeu ao inicio de minha politização, e ela foi obviamente de esquerda, ao passar a ler material oposicionista e, logo em seguida, a literatura marxista original: Marx, Engels, Lênin e, sobretudo, os famosos intérpretes brasileiros progressistas, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Florestan Fernandes e vários outros, que li precocemente, anos antes de ingressar na faculdade, a chamada Fefelech da USP.
E assim passamos 20 anos sem eleições dignas desse nome, eu atuando contra a ditadura, nas ruas, desde os 16 anos, e assistindo ao começo da resistência armada e ao aumento da repressão. Já envolvido em diferentes (sucessivos) grupos de resistência armada (eu apenas no apoio logístico), senti que poderia ser preso, como vários colegas meus, amigos e terceiros já estavam sendo presos. Viajei ao exterior por conta própria (Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai) e tomei conhecimento de outros movimentos de resistência, trazendo alguma literatura em espanhol sobre o que se imaginava ser um grande movimento de resistência ao imperialismo americano na AL (mas nessa altura, Ché Guevara, na Bolívia, Carlos Marighella, no Brasil, já estavam mortos).
Decidi sair voluntariamente do Brasil, interrompendo Ciências Sociais na USP no segundo ano, deixando o Brasil em dezembro de 1970, mesmo mês em que o ex-deputado Rubens Paiva foi sequestrado pela repressão e desapareceu (só soube do caso em janeiro de 1971, já na Europa).
Depois de curta estada no socialismo (Praga, onde constatei o totalitarismo repressivo da ocupação soviética), em fevereiro de 1971 viajei para a Bélgica, onde me instalei para trabalhar e estudar pelos seis anos e meio seguintes: inscrevi-me no primeiro ano de Ciências Sociais da ULB, terminei a graduação em 1975, fiz imediatamente o mestrado na Universidade de Antuérpia, em economia do desenvolvimento, engajando logo em seguida um doutoramento em Sociologia Histórica, que deixei em suspenso em março de 1977, para voltar ao Brasil e juntar-me novamamente à luta contra a ditadura militar, já em sua fase declinante (mas ainda perigosa, pela atuação da extrema-direita de torturadores, terroristas e assassinos).
Sem concurso para alguma faculdade pública, comecei a dar aulas em faculdades privadas e deparei-me, em meados de 1977, com o anuncio de um concurso direto para o Itamaraty, pois, já no doutorado, não pretendia voltar a ser aluno de graduação (ainda que no prestigioso Instituto Rio Branco).
Só voltei a votar novamente em 1989, mas no Consulado em Genebra, onde eu trabalhava na Delegação junto aos organismos econômicos da ONU, com o embaixador Rubens Ricupero, o único diplomata (ainda conselheiro), repito, o único que me inpressionou favoravelmente nas palestras de “socialização” quando do ingresso no Itamaraty em 1977.
Volto ao mais importante: depois de ter assistido e participado ativamente de TODOS os escrutínios presidenciais desde 1989, só tenho uma recomendação a fazer: NÃO VOTEM NA EXTREMA-DIREITA, no horror abjeto do bolsonarismo vende-pátria, no negacionismo vacinal, anti-ciência e anti-cultura, inimigo das causas humanitárias, repudiem a submissão a um poder estrangeiro, os golpistas contra a democracia.
Este é o meu único recado: qualquer outro candidato fora da extrema-direita abjeta pode ser contestado. O bolsonarismo é um mergulho no mesmo horror submisso ao imperio como vimos em 2019-2022.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5426: 12 agosto 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/declaracao-de-voto-antecipada-1-as-time.html)
Uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada - Paulo Roberto de Almeida
Repostando uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada
Paulo Roberto de Almeida
Um texto de OUTUBRO DE 2025, ainda válido em suas grandes linhas, que agora vai cair, em mais um mês e meio, entre os dois turnos das eleições presidencias, atualmente, absolutamente imprevisíveis, no sentido em que QUALQUER UM pode GANHAR CONTRA LULA, tamanha é a rejeição do lulopetismo na sociedade.
O que eu poderia acrescentar em meados de agosto de 2026 às observações abaixo? Isto: o aumento do desmantelamento do sistema internacional provocado por Trump 2, cada vez mais alucinado. Em outubro de 2025, Putin começou a perder em sua ofensiva na Ucrânia, o que se confirmou de maneira desastrosa em 2026. Mas nem Trump nem Netanyahu tinham começado a desastrosa ofensiva contra o Irã, nem Trump tinha reincidido ainda mais ferozmente em sua insanidade tarifária, sobretudo contra o Brasil, alvo preferencial em sua ofensiva para dominar todo o hemisfério americano. Nem Canadá, nem o México, e muito menos o Brasil, vão se dobrar à prepotência trumpista, mas com uma dúvida neste último caso: se o Bolsonarinho ganhar, o Brasil será entregue unilateral e bilateralmente ao “Escudo das Américas” do desvairado Trump.
Eis o texto:
“Uma avaliação das relações internacionais numa data significativa [12/10/2025]
O dia 12 de outubro guarda um significado especial na história do mundo: marca a unificação da geografia e da própria história do mundo até então conhecido e registrado nas crônicas e relatos dos povos dotados de cultura escrita e das tecnologias adequadas ao comando da natureza e ao domínio de populações estrangeiras. A violência dos colonialismos e dos imperialismos nas primeiras ondas de globalização dominou as relações internacionais pelos quatro séculos seguintes, com o predomínio da Europa ocidental sobre parte significativa do mundo conquistado e explorado até a segunda revolução industrial.
Entre a primeira e a segunda onda da globalização, iniciada com as gestas de Cristóvão Colombo e de Fernão de Magalhães e continuada com a revolução das caldeiras a vapor, as máquinas fabris, os motores à explosão e a eletricidade, o tráfico comercial e o escravismo colonial produtivo marcaram terrivelmente o continente africano, violentado e depauperado de imensos contingentes humanos, assim como pela destruição de civilizações em estágios iniciais de desenvolvimento. A própria história do mundo, em especial nas Américas, ficou marcada pela violência do colonialismo e do imperialismo da Europa ocidental sobre praticamente todos os povos e civilizações existentes, culminando com a dominação da Ásia iniciada por Vasco da Gama. O Brasil foi parte quase passiva, durante mais de três séculos, nesse itinerário de conquista ocidental sobre o resto mundo, até conquistar sua independência pela própria força do povo aqui nascido e adquirido consciência política.
Depois de séculos lutando entre si, os impérios europeus provocaram duas guerras globais, na primeira metade século XX, que mudaram terrivelmente a geografia e a história do mundo, entre a segunda e a terceira onda de globalização. Em consequência, os velhos impérios europeus foram praticamente alijados do comando do mundo, em favor de duas grandes potências que se desenvolveram nas antípodas de concepções políticas e econômicas sobre sistemas constitucionais e sobre a organização dos seus respectivos modos de produção.
De Yalta a San Francisco, em 1945, moldou-se um sistema imperfeito, mas relativamente administrável, de relações internacionais, formalmente presidido pela ONU, de fato violado impunemente e constantemente pela ação unilateral de grandes potências, mais afetas ao seu próprio poder discricionário do que ao estrito respeito do Direito Internacional, duramente construído a partir de Kant e do liberalismo iluminista, também marcadamente ocidental.
Depois de quase 80 anos de predomínio incerto da autoridade do argumento sobre o argumento da autoridade, o funcionamento precário do sistema internacional onusiano começou a ser abalado por desejos de reconquista de seus antigos domínios coloniais por uma das potências herdeiras das vastas possessões imperiais czaristas e soviéticas.
Diferente das intervenções unilaterais na Ásia, no Oriente Médio e na própria América Latina, por parte do império ocidental, motivadas pela obsessão com o equilíbrio de poderes, na fase de disputas geopolíticas da primeira Guerra Fria, as novas intervenções unilaterais do império euro-asiático em seu entorno imediato atacaram profundamente os princípios fundadores da ordem internacional criada em Westfália e consolidada na Carta da ONU, a saber, a igualdade soberana dos Estados (cara a Rui Barbosa, e que se tornou o eixo central do multilateralismo contemporâneo), a não intervenção nos seus assuntos internos e a não usurpação pela força de territórios estrangeiros reconhecidos no Direito Internacional, ademais de cláusulas reconhecidas em declarações universais relativas a direitos humanos e às liberdades democráticas, precariamente resguardas nas relações entre os Estados membros da ONU ou de organizações regionais.
A Carta da ONU foi violada brutal e abertamente na Georgia, na Moldova, na península ucraniana da Crimeia e, finalmente, em toda a Ucrânia, no que se apresenta como a maior guerra de conquista empreendida por um poder imperial desde 1939-1941, duramente finalizada em 1945, em seus dois extremos, no continente europeu e na Ásia-Pacífico.
Países aderentes à Carta da ONU adotaram corretamente as sanções nela previstas, consideradas “ilegais” pelos relutantes em fazê-lo apenas por causa do uso abusivo do “direito” de veto justamente pela potência violadora, desconsiderando que a própria Carta prevê a solidariedade de todos os membros em socorro da parte injustamente agredida.
O Brasil, infelizmente, se coloca entre os “inadimplentes” desse dispositivo, por escusas formais e por razões atinentes a interesses politicos e inclinações ideológicas que não deveriam obstar ao seu estrito cumprimento do Direito Internacional, cujos princípios fundamentais foram, por sinal, incluídos entre as cláusulas de relações internacionais de sua Constituição.
O assim chamado “sistema internacional” atravessa atualmente uma de suas maiores crises, motivados pela ação imperialista de uma das duas grandes potências da primeira Guerra Fria, assim como pela ação destruidora do multilateralismo político e sobre o sistema multilateral de comércio pela outra grande potência daquela fase, hoje em aparente declínio em face do renascimento do antigo Império do Meio, hoje convertido em “parceiro” involuntário da segunda Guerra Fria, ainda em curso.
O cenário futuro é ainda imprevisível, mas estimo que o Brasil continuará aderente à sua tradicional autonomia decisória em matéria de politica externa, em face de conflitos entre grandes potências, e que a sua diplomacia confirme a credibilidade adquirida ao longo de um infalível respeito ao Direito Internacional.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12/10/2025
Post Scriptum, em 16/08/2026: Tenho de refazer esse texto para um novo balanço das relações internacionais de maneira abrangente, de acordo aos novos dados dos conflitos internacionais na atualidade dos impasses nas duas guerras principais, de natureza geopolítica, da atualidade: a de Putin contra a Ucrânia, e a de Trump contra o Irã. PRA.
Brasília, 5428: 16 agosto 2026, 3 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/uma-analise-das-relacoes-internacionais.html)
sábado, 15 de agosto de 2026
Todos sabem que sou contra o lulopetismo diplomático, mas cabe registrar que tenho HORROR ABSOLUTO ao bolsolavismo sabujo do trumpismo doentio. Paulo Roberto de Almeida
Todos sabem que sou contra o lulopetismo diplomático, mas cabe registrar que tenho HORROR ABSOLUTO ao bolsolavismo sabujo do trumpismo doentio.
Paulo Roberto de Almeida
Ouvi dizer que bolsolavistas, bolsonaristas abertos, enrustidos, envergonhados, desonestos, inclusive alguns antigos companheiros do Novo, andaram pegando seletivamente postagens minhas contra as deformações lulopetistas da diplomacia e na política externa do Brasil e andaram repostando em seus canais, como se eu estive condenando totalmente o patético lulopetismo governamental e endossando as barbaridades do bolsolavismo, do bolsonarismo em todas as suas versões, como se eu pudesse coonestar as estupidezes e as supremas desonestidades dessa tropa de elogiadores de torturadores e aderentes a uma dura ditadura militar.
Cada vez que encontro uma seleção dessas, feitas desonesta e maldosamente, eu me apresso a desmentir, a destroçar esse tipo de comportamento viciado e vicioso.
Para que não restem dúvidas sobe minha postura como diplomata profissional, ou como simples cidadão, atualmente apenas professor, quero reafirmar minha oposição a 25% por cento da pizza diplomática do lulopetismo (pois os outros 75% integram tradicionalmente a velha ideologia do Itamaraty: multilateralismo, desenvolvimentismo, nacionalismo e até estatismo), o quarto restante é feito de equívocos, a começar pelo apoio sempre aberto às mais execráveis ditaduras supostamente de esquerda, essa aliança contra a natureza do FRANKENSTEIN do BRIC-BRICS-BRICS+, um monstro metafísico que só serve aos interesses das duas grandes autocracias nucleares (sendo que esse bloco esquizofrênico NUNCA foi proposta do Itamaraty e sim uma imposição presidencial e do chanceler pró-russo), ao mesmo tempo em que aponto a SUPREMA CONTRADIÇÃO do partido supostamente progressista (pró DH, feminismo, essas coisas) apoiando uma ditadura reacionária de extrema-direita, conduzida por um criminoso de guerra e contra a humanidade, procurado pelo TPI, ademais da república teocrática dos aiatolás, que oprimem e matam mulheres e opositores pacíficos. EU CONDENO TUDO ISSO, e acho que faz um mal enorme à credibilidade da diplomacia brasileira, assim como aos princípios e valores que sempre pautaram nossa política externa antes do petismo.
Mas, QUERO DEIXAR CLARO, que eu abomino o negacionismo vacinal, educacional, ambiental dos estúpidos que comandaram criminosamente o país durante a pandemia, como milhares de mortes excedentárias, pela incúria e inépcia assassina dos dirigentes, no mais alto escalão, assim como repudio seu ódio à democracia e sua adesão a regimes de força. Mais do que tudo, condeno, execro, como diplomata, a submissão total ao demente imperador hemisférico que foi conduzida pelos golpistas no mandato anterior, assim como a previsão de que mais uma vez sujeitariam o Brasil à arrogância imperial do psicopata.
Creio que ficou muito claro o que penso.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 15/08/2026
O tirano de Moscou foca na Moldova - New York Times
Poutine prépare une opération de conquête de la Moldavie, suivant l’exemple de l’Ukraine.
Les autorités russes, avec la complicité d'un banquier en fuite qui a failli ruiner le système bancaire moldave, mènent une opération de longue haleine visant à déstabiliser l'ancienne république soviétique. Cette opération comprend la formation de provocateurs et de saboteurs dans des camps spéciaux en Serbie, en Bosnie et près de Moscou ; des actions destinées à détourner la Moldavie de son orientation pro-occidentale, notamment du centre d'innovation de Skolkovo ; la corruption massive d'électeurs et de prêtres orthodoxes locaux ; et des attaques contre les infrastructures.
La priorité absolue du Kremlin est la conquête de l'Ukraine, suivie de la prise de contrôle de la Moldavie, selon une enquête du New York Times basée sur des entretiens avec des militants agissant sur ordre de Moscou, de hauts responsables des services de renseignement moldaves, européens et américains, et l'analyse de milliers de documents relatifs aux tentatives russes de manipulation des élections moldaves. D'après les sources du Times, Vladimir Poutine espère s'emparer du sud de l'Ukraine afin de créer un corridor terrestre reliant la Russie à la Moldavie.
En attendant, le chef de cabinet adjoint de la présidence, Sergueï Kirienko, mène une opération contre les autorités moldaves pro-occidentales. Parmi ses collaborateurs figure Ilan Shor, condamné à 15 ans de prison en Moldavie pour avoir organisé une escroquerie ayant permis le détournement d'un milliard de dollars de banques locales en 2014. Selon des documents de sa société moscovite, Shor a recruté plus de 150 000 Moldaves en vue des élections législatives de l'automne 2025, les rémunérant pour leurs votes et leur participation à des manifestations. Cela représente environ 4,5 % du corps électoral.
Shor a débuté ses activités en 2024, lors d'un référendum en Moldavie portant sur l'inscription de l'adhésion à l'Union européenne dans la Constitution. En échange d'une compensation financière, des personnes étaient contraintes de publier des contenus pro-russes et antigouvernementaux sur les réseaux sociaux, de participer à des rassemblements organisés et de voter contre la présidente Maia Sandu et son parti, ainsi que contre l'adhésion à l'UE. Un programmeur travaillant pour Shor a conservé les enregistrements de ces contacts dans un dossier accessible à tous sur le cloud. Le New York Times a examiné cette base de données en contactant les personnes impliquées, en analysant les liens vers leurs publications sur les réseaux sociaux et en traçant les coordonnées GPS jusqu'à l'adresse d'une société de développement logiciel située près du centre d'innovation de Skolkovo, près de Moscou.
Avant le référendum de 2024, par exemple, Shor a versé près de 20 millions de dollars à 38 000 « activistes » en quatre mois.
Les services de renseignement russes ont également formé de véritables militants. Un camp a été ouvert dans une région reculée de Serbie, où les instructeurs étaient recrutés parmi les personnes affiliées au renseignement militaire russe – la Direction principale de l'état-major général des forces armées russes (GRU). D'après les responsables du renseignement de trois pays qui ont décrit ces activités, l'objectif était de constituer le noyau de troupes de choc entraînées à interférer dans les élections.
Durant l'été 2025, des Moldaves venus au camp ont suivi une formation de trois à quatre jours (rémunérée d'environ 400 dollars). Ils s'entraînaient à forcer les cordons de police et à incendier des bâtiments. Des enregistrements vidéo retrouvés sur les téléphones des participants par le parquet moldave et les services de sécurité montraient des individus en tenue de camouflage et gilet pare-balles s'entraînant au maniement d'armes automatiques.
Des camps similaires existaient en Bosnie et près de Moscou. Dans ce dernier, plus de 100 jeunes Moldaves ont été formés à la fabrication et à l'utilisation d'engins incendiaires et d'explosifs artisanaux, ainsi qu'au pilotage de drones équipés de dispositifs spéciaux pour explosifs ou incendies criminels, selon le parquet moldave. D'après deux agents des services de renseignement occidentaux, cette formation s'est déroulée sous la supervision du GRU.
Des prêtres de l'Église orthodoxe russe en poste en Moldavie ont également été recrutés pour diffuser de la propagande contre les autorités et leur politique. Depuis l'été 2024, des centaines d'entre eux ont été invités en Russie pour visiter des lieux saints et rencontrer les dirigeants de l'Église orthodoxe russe. Avant leur retour, chacun a reçu un contrat à signer. Ce document les désignait comme employés de l'organisation « Eurasie », liée au Kremlin et qui, selon les services de renseignement occidentaux, promeut des politiques pro-russes dans les anciennes républiques soviétiques. Shor est membre de son conseil de surveillance.
Après la signature du contrat, les prêtres ont reçu une carte de Promsvyazbank, banque qui fournit des services au complexe militaro-industriel russe et détient 49 % de la société A7, créée par Shor pour contourner les sanctions occidentales grâce aux paiements en cryptomonnaie. En échange d'environ 1 000 dollars, les prêtres devaient mener campagne auprès de leurs paroissiens contre l'adhésion de la Moldavie à l'UE et la politique pro-occidentale du gouvernement.
« Instrumentiser la religion » : la Russie a engagé des prêtres moldaves pour une campagne de désinformation anti-occidentale dans le pays.
N'ayant pas réussi à organiser d'attentats de sabotage d'envergure avec ses « activistes » entraînés (certains participants à des stages d'entraînement en Serbie ont été arrêtés en possession d'engins incendiaires le jour des élections, le 28 septembre 2025), la Russie a commencé à mener des frappes de son propre chef. En mars, elle a bombardé une centrale hydroélectrique ukrainienne près de la frontière moldave, contaminant ainsi les ressources en eau des deux pays. Des drones russes ont ensuite frappé une ligne à haute tension dans l'ouest de l'Ukraine, qui fournit jusqu'à 70 % de l'électricité à la Moldavie, provoquant des coupures de courant généralisées.
Les partisans de l'adhésion à l'UE et le parti de Sandu ont remporté de justesse les référendums de 2024 et 2025, grâce notamment aux votes de la diaspora. Mais Moscou joue la carte de la patience, reconnaît Chisinau.
https://www.nytimes.com/2026/08/14/world/europe/russia-moldova-putin.html
O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)
Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:
O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura
Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil
Por Pedro S. Malan
Estadão, 09/08/2026
Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.
Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.
Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.
A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.
A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).
É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.
Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.
Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.
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