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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Tobias Barreto: um intelectual em sua própria escola de inteligência - Paulo Roberto de Almeida (IHG-DF)

Este texto, reduzido a uma versão extremamente reduzida, servirá para minha alocução de admissão no Instituto Histórico e Geográfico do DF na próxima quarta-feira 14/08, às 19h30.


3478. “Tobias Barreto: um intelectual em sua própria escola de inteligência”, Brasília, 16 junho 2019, 11 p. Ensaio intelectual-biográfico sobre Tobias Barreto, com base nas obras disponíveis e na biografia de Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy. Tobias Barreto: uma biografia intelectual do insurreto sergipano e sua biblioteca com livros alemães no Brasil do século XIX (Curitiba: Juruá, 2018), para servir como alocução no discurso de admissão ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/40050575/Tobias_Barreto_um_intelectual_em_sua_propria_escola_de_inteligencia).

Aqui, a parte inicial desse texto: 



Tobias Barreto: um intelectual em sua própria escola de inteligência

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: ensaio sobre Tobias Barreto; finalidade: texto para posse no IHG-DF]


Tobias Barreto foi uma personalidade múltipla: latinista, poeta, jornalista, jurista, orador, político, filósofo, sociólogo, darwinista, feminista, panfletário, abolicionista, polemista, adepto do culturalismo, anticlerical, um dos raros germanistas brasileiros e uma capacidade rara de combinar todas essas qualidades numa inteligência aberta aos mais variados conhecimentos disponíveis em sua época, tudo isso num período finalmente bastante curto, praticamente as últimas duas décadas e meia do regime monárquico, em que pese sua precocidade como poeta e jornalista. Impossível cingir a enormidade de sua produção num ensaio breve como este que se oferece, daí a seleção de alguns traços apenas de sua contribuição intelectual, a que mais apresenta persistência e relevância na perspectiva diacrônica que é a nossa, aos 180 anos de seu nascimento, em 1839, e aos 130 anos de seu falecimento, em 1889.
Na apresentação de um de seus biógrafos, um jornalista sergipano da primeira metade do século XX, em obra publicada no exato centenário de seu nascimento, pode-se ler uma síntese magistral do que ele representou para o pensamento brasileiro:
Tobias Barreto ocupa no mapa geral da cultura brasileira um lugar do mais alto relevo. A sua obra é uma espécie de linha divisória entre duas épocas. A sua vida, com as circunstâncias em que ela decorreu, apenas em parte explica o seu pensamento. Este, realmente, muito raro descia até aquela. Enquanto a vida estava mergulhada num ambiente de miséria, de incompreensão, de necessidade, o pensamento estava entregue às cogitações mais altas do estudo, divulgação e análise do que o espírito humano vinha realizando. Foi um homem que, na falta de ambiente em que pudesse desenvolver-se, construiu um ambiente particular onde lhe fosse possível respirar à vontade. [Omer Mont’Alegre, Tobias Barreto. Rio de Janeiro: Vecchi Editor, 1939]

Sua principal característica intelectual é precisamente esta: a de ter sido único, absolutamente solitário no panorama da inteligência nacional, a ponto de podermos dizer que ele era a sua própria escola de pensamento, jamais igualada posteriormente. Nasceu na monarquia, ao final das regências, converteu-se em republicano, mas faleceu antes da derrocada do Segundo Reinado, em 26 de junho de 1889, e a despeito de ser originário do Sergipe, onde se formou precocemente em Latim e exerceu suas primeiras armas na poesia e no jornalismo em sua terra natal, fez-se famoso no Recife, onde se exerceu como professor, depois de uma vida atribulada, sempre em meio a dificuldades materiais. Como germanista, nos planos da filosofia, da sociologia, do direito, foi um dos poucos no Brasil, talvez único no Nordeste. Mas, como ressaltou Arnaldo Godoy, autor da melhor biografia intelectual sobre o “insurreto sergipano”, “Tobias era um germanista que jamais fora à Alemanha, nem mesmo saíra do Nordeste...”. Quando residente em Escada, cidade próxima do Recife, fundou um jornal em alemão, “do qual era provavelmente o único leitor”. [Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy. Tobias Barreto: uma biografia intelectual do insurreto sergipano e sua biblioteca com livros alemães no Brasil do século XIX. Curitiba: Juruá, 2018, p. 30 e 53; nessa magnífica obra, um capítulo de 50 páginas é inteiramente dedicado a examinar os autores alemães constantes da biblioteca de Tobias Barreto ou referidos em sua atividade intelectual.]
Como mulato e abolicionista não foi o único, nem o maior, dessa pequena tribo de lutadores pela emancipação dos escravos, mas foi, provavelmente, o mais agitado dos agitadores literários e políticos numa conjuntura de agitação social no Brasil, um intelectual dotado de grande densidade intelectual quando comparado a outros homens de letras e de pensamento no Brasil do Segundo Império, bem mais dominado pelo francesismo literário e político da belle époque. Numa época em que o catolicismo romano era a religião oficial do Estado, não hesita em entrar em polêmica contra a Igreja e contra os dogmas religiosos do catolicismo, não uma única vez, mas várias. Abolicionista, democrata, libertário, republicano, contra o patrimonialismo tradicional da sociedade escravocrata – que aliás perdurou na República –, Tobias Barreto pode ser considerado como situado na vanguarda do pensamento brasileiro, e não apenas ao final do regime monárquico, mas exercendo influência em direção ao futuro da República, que ele todavia não chegou a conhecer.
É propriamente incrível a intensidade, a variedade, a profundidade de sua produção intelectual em pouco mais de três décadas de vida ativa, o que se reflete nos dez volumes de suas “obras completas”, editadas sob a responsabilidade do governo do Sergipe, 1925-26, reeditados em sete volumes meio século mais tarde, ademais dos muitos volumes esparsos, organizados por admiradores tão distinguidos quanto Silvio Romero, Graça Aranha, Paulo Mercadante e Antonio Paim. Em sua vida, apenas uma dúzia de seus escritos, dos quais dois em alemão, vieram a público, mas as obras póstumas e edições posteriores cobrem uma biblioteca inteira, numa volumetria quase tão importante quanto sua famosa “biblioteca alemã”, objeto de um artigo de Vamireh Chacon, na Revista Acadêmica, da Faculdade de Direito do Recife (1971), da qual Tobias Barreto foi professor, mas apenas por pouco mais de sete anos.
Clovis Beviláqua, o redator final do Código Civil (que levava vários anos em preparação) e o mais longevo consultor jurídico do Itamaraty, escreveu sobre o papel de Tobias Barreto como renovador dos estudos jurídicos no Brasil: “Em Filosofia do Direito, Tobias Barreto adotara a escola de [Rudolf von] Jhering e Hermann Post, que refletiam no Direito, a teoria genealógica de [Charles] Darwin e [Ernest] Haeckel. Não era, porém, espírito que se limitasse a reproduzir as lições dos mestres. Filiado ao monismo, sabia extrair desse sistema filosófico a interpretação exata do fenômeno jurídico.” Beviláqua considera que a campanha que Barreto dirigiu contra o Direito Natural, em seus Estudos de Direito, e em Questões Vigentes (Obras Completas, vol. IX, 1926), constitui uma das partes mãos brilhantes de sua obra; transcreve ele: “É preciso bater cem vezes e cem vezes repetir: o Direito não é filho do céu, é, simplesmente, um fenômeno histórico, um produto cultural da humanidade.” [Clovis Beviláqua, “Tobias Barreto e a renovação dos estudos jurídicos no país”, in: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, Tobias Barreto (1839-1889): bibliografia e estudos críticos. Salvador, 1990, p. 38-44; cf. pp. 39 e 40] Barreto lia e escrevia em alemão, além de dominar várias outras línguas, entre elas inglês, francês, italiano, russo, grego e, obviamente, latim.
Antonio Paim, no mesmo volume de estudos críticos, apresenta a trajetória filosófica de Tobias Barreto, do “surto de ideias novas” do final dos anos 1860, que buscava argumentos em Comte, Renan e Taine, chega ao culturalismo dos anos finais, passando pela recusa do comtismo e da “religião da humanidade” e pela fase monista (haeckeliana) da constituição da Escola do Recife, que evolui para o neokantismo. O germanismo de Tobias Barreto constitui o objeto de um estudo de Paulo Mercadante, que ele atribui ao seu naturalismo científico e não a qualquer subserviência acrítica aos grandes filósofos e juristas alemães de sua época. Este pensador, autor de um famoso estudo sobre a consciência conservadora no Brasil, coordenou com Antonio Paim dois volumes de estudos de filosofia de Tobias Barreto, publicados pelo Instituto Nacional do Livro, do MEC, em 1966, reeditados em 1977. Mercadante ainda se debruçou sobre uma reavaliação de Barreto na cultura brasileira (1972) e Paim a ele dedicou vários de seus escritos, tanto em seu livro de História das Ideias Filosóficas no Brasil (1967), quanto um volume inteiro sobre A filosofia da Escola do Recife (1966).
Arnaldo Godoy enfatiza, em seu capítulo sobre a biblioteca alemã de Tobias Barreto, e baseado no volume de Estudos de Direito, de suas Obras Completas, como ele chegou ao darwinismo pela via dos juristas alemães que ele mais admirava:
Tobias citou recorrentemente Ernest Haeckel, especialmente quanto ao tema da dificuldade de se construir uma ciência social de natureza substancialmente descritiva. Haeckel era admirador de Charles Darwin (1809-1882), que Tobias também assimilou ao estudar Rudolf von Jhering (1818-1892). Tobias foi um veiculador do darwinismo social no Brasil, resultado de sua admiração intelectual perene que o pensador sergipano tinha para com autores como Haeckel e Jhering, introdutores de Darwin nas ciências sociais aplicadas. [Godoy, op. cit., pp. 204-5]

(...)

Ler a íntegra no link seguinte da na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/40050575/Tobias_Barreto_um_intelectual_em_sua_propria_escola_de_inteligencia


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