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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Embaixada em Washington: Rubens Ricupero e Roberto Abdenur (Época)

Não é para qualquer um

    DOIS EX-EMBAIXADORES BRASILEIROS NOS ESTADOS UNIDOS EXPLICAM POR QUE ACHAM QUE EDUARDO BOLSONARO NÃO DEVE SE MUDAR PARA WASHINGTON
    por Ruan de Sousa Gabriel
    Revista Época, 15/08/2019

    Na quinta-feira 8 de agosto, o Itamaraty foi informado de que o governo americano aprovou a indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), terceiro filho do presidente Jair Bolsonaro, para ser o embaixador brasileiro em Washington. Antes disso, o presidente americano, Donald Trump, já havia elogiado a nomeação de Eduardo para a embaixada. "Eu acho o filho dele (de Jair Bolsonaro) excelente. Ele é um jovem brilhante, maravilhoso. Estou muito feliz com a indicação", disse Trump. Em defesa da indicação do filho, o presidente Bolsonaro tem reforçado que a interlocução de Eduardo com os americanos è um ponto a seu favor - além do fato de ter morado nos Estados Unidos e de ser o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.
    O sinal verde dos Estados Unidos, no entanto, não quer dizer que Eduardo já pode Começar a arrumar as malas e preparar a mudança para a elegante residência que aparece nesta foto. Ele ainda precisa passar por algumas etapas de aprovação no Senado. Primeiro uma sabatina e depois duas votações: uma na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CRE) c outra no plenária Se aprovado, Eduardo poderá assumir a embaixada - caso não seja impedido pela Justiça. Na segunda feira 12, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com um pedido de liminar - decisão provisória - para barrar a nomeação O MPF considera o filho do presidente desqualificado para o cargo e defende que os indicadas a embaixadas precisam de, no mínimo, três anos de experiência diplomática no currículo Na sexta-feira 9, o partido Cidadania entrou com um mandado de segurança coletivo preventivo no Supremo Tribunal Federal (STF) solicitando uma limitar que impeça a indicação, por considerá-la nepotismo.
    ÉPOCA conversou com dois ex-embaixadores brasileiros em Washington sobre a nomeação de Eduardo: Rubens Ricupero, que serviu entre 1991 e 1993, e Roberto Abdenur. que chefiou a embaixada entre 2004 e 2007. Ricupero chegou a Washington depois de uma longa carreira diplomática. De volta ao Brasil, ele foi ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal no governo Itamar Franco e ministro da Fazenda durante a implantação do Plano Real. Abdenur foi embaixador no Equador, na China, na Alemanha e na Áustria antes de seguir para os Estados Unidos. Tanto Ricupero quanto Abdenur consideram equivocada a nomeação de Eduardo. Confira a seguir as principais razões apresentadas.
    Falta de qualificação
    RUBENS RICUPERO Falta a Eduardo qualificação, experiência, maturidade, peso intelectual e cultural. O posto de embaixador em Washington é, para quase todos os países, o mais importante de tipo bilateral. Todas as nações de peso diplomático, praticamente sem exceção, têm diplomatas de carreira em Washington. É verdade que, em circunstâncias excepcionais, uma pessoa que não é da carreira pode ser um excelente embaixador. O Brasil teve Oswaldo Aranha, que era uma grande figura no Brasil, um homem de grande estatura e que havia sido ministro da Fazenda. Era uma figura impar, respeitada pela sociedade. O outro exemplo foi Walther Moreira Salles, que esteve à frente da embaixada numa época em que o Brasil passava por grandes problemas cm termos de dívida, de balanço de pagamentos. Ele era, na época, o banqueiro brasileiro que gozava de melhores conexões com os bancos internacionais. Eduardo, por sua vez, é uma pessoa de um nível muito modesta
    ROBERTO ABDENUR Eduardo não tem quase nenhuma experiência internacional. Não tem nenhuma experiência em negociação bilateral ou multilateral. Jamais participou de uma conferência internacional. A tradição, a regra não escrita, é que sejam nomeados embaixadores em estado adiantado da carreira, com larga experiência, que já tenham chefiado dois, três, quatro postos antes. Washington foi meu quinto posto. Fui antes embaixador no Equador, na China, na Alemanha e na Áustria, além de ter sido secretário-geral do Itamaraty. A embaixada em Washington é a única que tem um alcance universal do ponto de vista do itamaraty e do governo brasileiro, porque os Estados Unidos estão presentes e atuantes em praticamente todas as questões internacionais. Então, é preciso ser capaz de acompanhar a evolução, no plano internacional, de múltiplos acontecimentos políticos, econômicos, de segurança e ambientais. A embaixada em Washington .abastece as demais embaixadas brasileiras com análises das políticas externa interna americanas. O embaixador em Washington tem multiplicidade de tarefas.
    Incapacidade de diálogo
    RR Eduardo é o representante na América Latina do movimento fundado pelo americano Steve Bannon, que é da extremíssima-direita. Portanto, Eduardo está no ponto mais extremo do espectro das opiniões de direita. Ele tem opiniões muito extremadas na política internacional, mais favoráveis a soluções bélicas. Normalmente, um embaixador precisa ter uma posição muito equilibrada, porque é representante do pais, não de um partido ou um governo. Ele é a própria encarnação do pais que representa. Para isso, é preciso alguém que não seja um extremista de esquerda ou de direita. É preciso que seja alguém que esteja dentro dc um mínimo denominador comum das opiniões.
    RA Esse rapaz se fez fotografar com um boné escrito "Trump 2020". Isso deve ter pegado muito mal junto aos democratas, que hoje têm poder político efetivo porque controlam a Câmara dos Deputados e estão investindo contra Trump. Se esse rapaz for embaixador, poderá ser um vínculo útil com a administração Trump, mas não terá interlocução com o conjunto do sistema político americano. O Congresso americano tem uma imensa importância na definição das questões de comércio exterior, por exemplo. Já existe entre os democratas uma visão negativa do Brasil de Jair Bolsonaro por causa das políticas regressivas que o presidente está aplicando neste momento, negacionistas em relação às mudanças climáticas, às questões indígenas, aos direitos humanos e por aí vai. Isso só fará piorar se esse rapaz for embaixador.
    Adesão aos EUA
    RR Uma vez, dando uma entrevista à televisão americana, Eduardo qualificou os imigrantes brasileiros irregulares como vagabundos, indivíduos que não mereciam ser acolhidos. Ele disse que muitos deles eram até criminosos. Um dos deveres do embaixador do Brasil é proteger seus cidadãos. Eu, quando fui embaixador lá, lidei com inúmeros casos de brasileiros maltratados pela policia da Imigração. Tomei uma iniciativa pioneira: organizei a primeira reunião dc todas os cônsules do Brasil no país com a polícia da Imigração, o Departamento de Justiça e o Departamento de Estado para ver se poderíamos ter um protocolo de atitudes para que nossos nacionais não fossem maltratados. Isso é uma coisa sagrada. A atitude de Eduardo revela uma coisa muito grave. Ele, talvez por ser jovem, por ler morado lá, por ter esse entusiasmo pelos Estados Unidos, identifica-se muito com os americanos. Eduardo quer ser simpático aos americanos e. ao dar uma entrevista, acha que uma das maneiras de obter o aplauso americano é condenar seus compatriotas que estão lá procurando uma vida melhor. Isso na diplomacia é gravíssimo. O maior defeito que um diplomata pode ter é se identificar mais com o país no qual ele está do que com o seu.
    RA O embaixador precisa conhecer extensamente as grandes questões internacionais, preparar relatórios - os chamados telegramas - com análises sofisticadas dos principais fatos e tendências que ocorrem no mundo. não apenas nos listados Unidos. O Brasil está e vai continuar sofrendo duras pressões americanas para esfriar suas relações com a China. E será extremamente danoso ao Brasil se cedermos 1 milímetro nisso
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    Para ser oficializado como embaixador nos Estados Unidos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro ainda precisa ser aprovado pelos senadores.

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