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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Ler Tocqueville para entender a America - Contardo Calligaris

Eduardo em Washington

Enquanto espera a sabatina, poderia ler Da Democracia na América, de Tocqueville

Paul Hollander, que morreu poucos meses atrás, escreveu repetidamente, desde 1995, sobre o antiamericanismo. Sociólogo, fugiu da Hungria para os Estados Unidos em 1956, quando seu país foi ocupado pelos soviéticos. Não estranha que tenha sido um crítico atento a qualquer esquerdismo fácil.
​Hollander fazia a seguinte distinção: 
1) Existem críticas legítimas e merecidas à política estrangeira dos Estados Unidos e ao modo de vida de seus cidadãos; 
2) E também existe o antiamericanismo propriamente dito, graças ao qual cada um culpa os EUA por todas as injustiças que acometem seu próprio país, mesmo que os EUA tenham pouco ou nada a ver com isso.
No Brasil é fácil ouvir que a ditadura militar foi uma trama da CIA, sustentada por uma frota dos EUA presente ao longo da costa brasileira para dissuadir qualquer reação contra o golpe de 1964. 
Agora, é certo que os EUA, menos de dois anos depois da crise dos mísseis soviéticos em Cuba, não gostariam que o Brasil entrasse no bloco comunista. Mas também é certo que eles se prontificaram a intervir (caso precisasse) mais do que intervieram. Culpar os EUA pelo golpe é um jeito de negar o peso e o tamanho das paixões totalitárias e fascistas que se expressavam nas marchas da Família com Deus pela Liberdade e que continuam vivas no Brasil de hoje.
Moral da história, em geral, o antiamericanismo serve para fazer de conta que nossos países não são responsáveis por suas mazelas: foi a culpa do tio Sam. 
Inversamente, o que é o filoamericanismo e para o que serve?
Na fim da Segunda Guerra, para um europeu, era uma forma de gratidão. Durante a Guerra Fria, era uma maneira de se declarar anticomunista. 
Mas hoje o filoamericanismo parece ser apenas uma adulação servil, que mal esconde um sentimento de inferioridade e uma decepção histórica por não ter dado certo. Ao filoamericanismo, em geral, os americanos destinam um desprezo condescendente, tipo: lá vem de novo o papagaio de pirata na hora do selfie… 
Enfim, para ser embaixador do Brasil em Washington, certamente não é bom ser estupidamente antiamericano e tampouco é bom ser estupidamente filoamericano.
O presidente Bolsonaro afirmou que o filho Eduardo, que ele gostaria de ver embaixador em Washington, fala inglês e fritou hamburguesas nos EUA. 
O inglês fluente é irrelevante de tão básico. Mas fico feliz com as hamburguesas. Admiro, no modo de vida dos EUA, o fato de que os jovens de classe média façam trabalhos manuais sem por isso se sentirem aviltados socialmente. 
Além disso, a experiência ajudará Eduardo a simpatizar com o grande número de brasileiros que vivem nos EUA sem visto de trabalho: para alguns, fazer faxinas ou fritar hamburguesas nos EUA é socialmente mais digno do que ser professor no Brasil. Enfim, graças às hamburguesas, Eduardo embaixador vai saber protegê-los e representá-los com carinho.
Mas vamos ao que mais importa. Um embaixador representa o governo do momento, mas, além ou aquém disso, representa o país —o que é bem mais complexo.
Tudo bem, qualquer aluno do Instituto Rio Branco lê, e ainda dá para encontrar num sebo, os três volumes de “Intérpretes do Brasil” da Nova Aguilar (ed. Silviano Santiago). Os colegas de Eduardo o ajudarão com  o resto da bibliografia.
Agora, os EUA não são menos complexos do que o Brasil. Mas não é nada irremediável: Eduardo adorará, suponho, aproveitar sua estada para se inscrever em um mestrado ou em uma pós-graduação em estudos americanos. 
O curso certamente o ajudará a ser o melhor embaixador possível. Se ele precisar de um tema de pesquisa, lembro justamente que quase nada foi escrito sobre filoamericanismo. Um orientador? Sem hesitar: Louis Menand, autor da melhor obra sobre as origens do pragmatismo americano, “The Mataphysical Club” (2001). 
Enfim, enquanto espera a sabatina do Senado, Eduardo poderia ler (ou reler) “Da Democracia na América” (1835), de Tocqueville, só para se lembrar que a simpatia pelos Estados Unidos não exclui a capacidade de crítica. 
Quem sabe, Eduardo, embaixador em Washington, possa escrever de lá despachos que, falando dos EUA, jogarão uma luz singular sobre o próprio Brasil.
Por exemplo: “Pai, imagina que aqui eles pensam que as leis (e a própria Constituição) não existem para proteger as maiorias, como você bem lembrou, mas para proteger (pasme!) as minorias! Esses americanos são bizarros!”.

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