quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Uma escritora chinesa universal: Can Xue - Nelson de Sá (FSP)

 Nobel não é importante, quero ser como Shakespeare, diz autora chinesa Can Xue


NELSON DE SÁ


A chinesa Can Xue, de 72 anos, liderou as apostas para o Nobel de literatura nas duas últimas edições. Um ano atrás, estava na dianteira na reta final com probabilidade de dez para um, segundo a empresa londrina de apostas Ladbrokes. Perdeu para a sul-coreana Han Kang.

Questionada, não hesitou. "Não considero o Nobel particularmente importante. Meu objetivo é me tornar um escritor como Shakespeare ou Dante."

Sua obra mistura tradições chinesas com experimentalismo ocidental. Ela conta por que enquadra sua escrita como performance, um ato que convida os leitores a não só observar, mas dançar a seu lado.

Diz que cada personagem é um fragmento da alma da autora e cada história é um teste desses fragmentos em um mundo em que explorar o amor e a liberdade é difícil, um tema central de "Histórias de Amor no Novo Milênio", que é lançado agora pela Fósforo.

Por fim, Can Xue confronta suas experiências durante a Revolução Cultural. Rejeita o envolvimento direto com fenômenos históricos ou sociais, dizendo em vez disso como tais experiências, transformadas no "oceano da memória", tornam-se a força motriz por trás da busca de liberdade de suas personagens.

* * *

— Suas obras são traduzidas e discutidas globalmente, e espera-se que você ganhe o Nobel. Ele significa algo para você? Acha que é capaz de reconhecer, por exemplo, a diversidade das vozes literárias chinesas?

— Não considero o Prêmio Nobel de Literatura particularmente importante. Meu objetivo é me tornar um escritor como Shakespeare ou Dante. Se eu ganhar o prêmio, a voz da literatura chinesa certamente será ouvida. E creio que, mesmo que não ganhe, minha voz ainda será ouvida. Isso foi comprovado em países ao redor do mundo. Estou confiante nisso porque minhas obras são realmente as mais universais e humanas, as melhores.

— Por que você descreve sua escrita como performance? E qual seria o nosso papel, como leitores?

— É porque ela pode ser comparada a uma espécie de dança física que ativa as funções do corpo humano. Os humanos possuem essa função, mas, ao longo da história, os povos de civilizações avançadas a esqueceram, substituindo-a por outras funções menos essenciais. Minha escrita é o despertar e a ressurreição dessa função ancestral. Sempre acreditei nisso. Quem pode se tornar meu leitor? Acho que são aqueles que podem dançar comigo. Estimulados e inspirados pela minha performance, eles iniciam sua própria dança inovadora.

— Sendo uma das raras escritoras chinesas contemporâneas com obras celebradas nos círculos literários estrangeiros, o que você acha que os leitores encontram de maior ressonância em suas histórias? Há temas nelas que requerem contexto adicional para compreensão?

— Creio que o que mais atrai leitores internacionais na obra é a maneira como captura a natureza humana mais universal em seu potencial máximo. Todos vivenciam graus variados de repressão na vida secular e anseiam por liberar seus desejos e emoções. Os romances oferecem um alívio profundamente satisfatório. Essas obras, com seus enredos inusitados, evocam paixão, atraindo inconscientemente para seu reino, liberando nossa própria criatividade em busca de um estilo de vida livre.

Entender as obras requer pouco conhecimento prévio da cultura chinesa. Elas são a essência dessa cultura, únicas, porém adaptáveis às necessidades espirituais e físicas de cada indivíduo. Os leitores que entram e dançam com elas as compreendem verdadeiramente.

— A língua chinesa é conhecida pela ambiguidade poética. Há desafios na tradução de seus escritos para o português decorrentes das nuances da gramática ou do vocabulário chinês?

— O chinês é difícil de traduzir. Mas creio que todas as línguas do mundo são comunicáveis. As línguas ganham vida através da comunicação. Imagino leitores no seu país lendo as obras. Que cena linda deve ser.

— Algum personagem de "Histórias de Amor no Novo Milênio" soou particularmente pessoal para você? Ou que você tenha visto como representativo de mudanças geracionais mais amplas de como o amor é vivenciado na China?

— Nunca descrevo experiências mundanas superficiais, minha literatura é uma espécie de literatura essencial. Cada personagem e objeto em meu livro é um fragmento da minha alma e do meu corpo. No entanto, permaneço desapegada das emoções mundanas. Simplesmente sublimo esses desejos, transformando-os em uma bela canção de humanidade. Coloco os personagens em ambientes hostis para testar sua humanidade e ver até que ponto cada uma de suas paixões pode ser liberada.

Este também é o significado do título do livro, "Histórias de Amor no Novo Milênio". Nele, interrogo a mim mesma e ao coração humano —como será nossa busca por amor e liberdade no novo século? Acredito que cada personagem do livro dá ao leitor uma resposta satisfatória. Em outras palavras, a própria atuação do autor deve inspirar uma atuação semelhante no leitor.

— Sua escrita reúne elementos de tradições culturais chinesas, como contos populares e taoísmo, com influências estrangeiras, como Kafka e Jorge Luis Borges. Como você equilibra essas duas correntes culturais?

— Essa pergunta exigiria um livro substancial para ser respondida. Estou trabalhando nele no momento. É um tratado filosófico sobre o desejo humano, que entrelaça filosofia antiga com ficção experimental. Escrevo há mais de uma década e vou enviar o livro à editora da Universidade de Pequim para publicação no próximo verão. Considero um livro que combina influências chinesas e ocidentais. Tornei as duas culturas mutuamente essenciais, criando uma visão de mundo e uma metodologia completamente novas.

— Você já mencionou Borges como uma influência literária fundamental. Quais aspectos específicos da escrita dele moldaram mais profundamente as suas escolhas?

— Borges não é o único escritor que influenciou fundamentalmente meu trabalho. Há uma longa lista deles: Dante, Shakespeare, Cervantes, Goethe, Musil, Kafka, Calvino, Bruno Schulz e assim por diante. A influência mais fundamental desses escritores, incluindo Borges, é que eles moldaram minha visão de mundo, permitindo-me ver o universo e a mim mesma sob uma luz completamente nova.

A influência de Borges está principalmente em sua obsessão pela prática criativa e em suas belas descrições de jogos simétricos e da integração do universo e do humano. Acredito que meu trabalho hoje continua sua narrativa. Em outras palavras, acredito que sua narrativa, como a de outros escritores experimentais antes dele, permanece atual e pouco apreciada.

— Por que você considera seu trabalho desvinculado de sociedade, história, política, economia e assim por diante? Quais são suas principais preocupações?

— Acho que é um hobby pessoal. Minha escrita não se concentra nos fenômenos que você mencionou. Meu foco está na exploração da essência da natureza humana. Meu trabalho também incorpora material social, cultural e político, mas esses materiais servem a um propósito diferente. Acredito que todos os romancistas experimentais escolhem e utilizam o material da mesma forma que eu. De modo geral, gosto de colocar personagens em situações desesperadoras para compeli-los a agir. Esses cenários geográficos ou históricos não são específicos de um país específico, como a China, mas sim de um cenário utópico.

É claro que, por conveniência, geralmente prefiro material chinês. Os leitores devem observar que essas descrições não são realistas; são materiais que extraio de experiências mundanas para criar uma utopia crua. Quero explorar como as pessoas podem se comportar em situações desesperadoras. Portanto, todos os personagens em minhas obras são partes fragmentadas de si mesmos, todos bons, sem nenhum verdadeiramente mau. Ler minha obra exige uma certa compreensão filosófica, uma necessidade de ver o enredo da perspectiva de toda a humanidade. Caso contrário, é difícil entrar na história, e só se pode vagar pela periferia.

— A Revolução Cultural foi um período de dificuldades para sua família e de censura extrema na China. Apesar dos desafios, suas primeiras leituras de obras filosóficas e literárias continuaram. Como você fez isso? E esse ambiente restritivo inspirou sua maneira de escrever por meio de simbolismo ou subtexto?

— Acho que minha explicação para a pergunta anterior já respondeu. Eu era uma criança sensível e reflexiva, mas nunca me baseei diretamente em experiências da infância ao criar. Toda experiência acumulada serve ao meu processo criativo, que irrompe de uma fonte central. Construo vários aspectos essenciais da natureza humana, permitindo que os personagens cresçam por meio dessas lutas.

Todas essas práticas levam ao surgimento de um reino utópico após o outro. Acredito que o trabalho de escritores experimentais como nós é a forma mais pura de criação. Comprimimos o desejo, permitindo que ele irrompa do centro de nós mesmos, criando um milagre da natureza humana após o outro, um após o outro, do nada.

A Revolução Cultural e o movimento antidireitista certamente tiveram um impacto profundo na formação da minha personalidade, mas esses elementos superficiais não são visíveis em minhas obras. Eles afundaram nas profundezas do oceano da memória, onde passaram por uma transformação fundamental. Quando irrompem do centro de nós mesmos, deixam de ser as experiências superficiais que já foram. Tornam-se a força motriz por trás da busca de liberdade de cada personagem.


Histórias de Amor no Novo Milênio

Preço R$ 104,90 (400 págs.); R$ 73,40 (ebook)

Autoria Can Xue

Editora Fósforo

Tradução Verena Veludo Papacidero

Foto: A escritora chinesa Can Xue, autora de 'Histórias de Amor no Novo Milênio' - Chen Xiaozhen/Divulgação.

FSP 19.09.2025

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Nova diretriz recomenda meta mais rígida de colesterol; veja o que muda - Ludimila Honorato

 Saúde

Nova diretriz recomenda meta mais rígida de colesterol; veja o que muda
Ludimila Honorato
São Paulo, 23/09/2025

Colesterol alto pode levar à formação de placas de gordura na corrente sanguínea e aumenta risco de doença cardiovascular

Depois de classificar a pressão arterial 12 por 8 como pré-hipertensão, a SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) trouxe mudanças na forma de acompanhar os níveis de colesterol. As metas foram intensificadas, com valores para pessoas com baixo risco cardiovascular e reconhecimento de uma nova categoria de risco.

O que aconteceu

Nova diretriz redefiniu meta para o LDL, conhecido como "colesterol ruim". Para pessoas com baixo risco cardiovascular, a meta é ficar abaixo de 115 mg/dL. Acima desse valor, a recomendação é adotar hábitos saudáveis de forma sustentada, como uma dieta equilibrada e exercício físico regular. Se o nível estiver acima de 145 mg/dL, deve-se considerar tratamento medicamentoso.

SBC reconhece categoria de risco cardiovascular extremo. Quem tem risco extremamente elevado, a meta é ficar com o LDL abaixo de 40 mg/dL. O risco extremo é definido como histórico de múltiplos eventos cardiovasculares (como AVC e infarto) ou um evento cardiovascular combinado com pelo menos duas condições de alto risco (como diabetes, tabagismo e doença renal crônica).

As metas recomendadas de acordo com a nova diretriz são:

Baixo risco: menor que 115 mg/dL
Risco intermediário: menor que 100 mg/dL
Alto risco: menor que 70 mg/dL
Muito alto risco: menor que 50 mg/dL
Risco extremo: menor que 40 mg/dL

Diretriz inclui novo marcador de risco. A SBC recomenda que todos os adultos façam, ao menos uma vez na vida, a dosagem de lipoproteína(a) —ou Lp(a)— para identificar risco residual elevado. Essa partícula semelhante à LDL tem efeitos pró-inflamatórios e seu nível não é influenciado por dieta, idade, sexo, estado de jejum ou estilo de vida, ou seja, é majoritariamente definida pela genética. Assim, é um marcador importante para o risco de doenças cardiovasculares.

Outros "colesteróis ruins" estão na mira. A diretriz estabelece metas para o colesterol não-HDL, que ficam 30 mg/dL acima da meta para o LDL.

Baixo risco: menor que 145 mg/dL
Risco intermediário: menor que 130 mg/dL
Alto risco: menor que 100 mg/dL
Muito alto risco: menor que 80 mg/dL
Risco extremo: menor que 70 mg/dL

Há uma nova avaliação de risco cardiovascular. A sociedade médica recomenda o escore PREVENT para estratificar o risco de eventos cardiovasculares em adultos sem doença prévia, com idade entre 30 e 79 anos. A avaliação é mais abrangente por incluir medidas como IMC e função renal.

Terapia combinada passa a ser recomendada em casos específicos. A medida é indicada como primeira linha de tratamento, de forma precoce, para pessoas com risco alto, muito alto ou extremo. Trata-se do uso de uma estatina (que reduz o colesterol) com outro medicamento.

https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2025/09/23/nova-diretriz-meta-colesterol.htm?cmpid=copiaecola

Fraude contra Academia.edu, ou apenas fraude contra usuários da plataforma?

 Atenção usuários da plataforma Academia.edu

Alert to the users of Academia.edu platform

    Since some few days, I have been receiving messages like the one inserted below, which are clearly an attempt to commit fraud against me, or at least trying to offer some publication of some of my free articles in an obscure scientific journal, against payment, of course. I recommend not to answer and delete those messages immediately.
    Nos últimos dias tenho recebido mensagens aparentemente elogiosas e atraentes, como esta que transcrevo abaixo, e deduzo que se trata de uma tentativa de fraude, contra mim, ou tentando atrair-me para a publicação de alguns dos meus artigos livremente disponíveis na plataforma em alguma obscura revista científica, contra pagamento, obviamente. Recomendo que não respondam, e apaguem a mensagem imediatamente.
Paulo Roberto de Almeida

Example:

"Enc: Interest in Your Research on Brazilian Multilateralism and International Relations
Dear Professor Almeida,
I hope this message finds you well.
I have been following your work on Academia.edu, particularly your extensive research on Brazil’s multilateral diplomacy, historical sociology, and political development. Your analyses on the evolution of multilateralism—from Bretton Woods to contemporary challenges—have provided me with valuable insights for my own study on Brazil’s role in regional and global governance.
I would greatly appreciate the opportunity to discuss your perspectives on how historical and diplomatic analyses can inform current international relations research, and to learn from your experience bridging academia and diplomatic practice.
Thank you very much for your time and consideration.
Warm regards,
Xxxxxx Xxxx"

Beware, then!
Atenção, portanto!

O Brasil e o multilateralismo: construção e desconstrução - Paulo Roberto de Almeida

 4946. “O Brasil e o multilateralismo: construção e desconstrução”, Brasília, 9 junho 2025, 29 p. Elaboração ampliada a partir do trabalho 4616 (25 março 2024, 23 p.), para aula a candidatos à carreira diplomática. Disponível em Academia.edu (link: https://www.academia.edu/144115270/4946_O_Brasil_e_multilateralismo_construcao_e_desconstrucao_2025_

Paulo Roberto de Almeida

Sumário:
Introdução: o multilateralismo econômico e político, emergência e crise atual
1. Multilateralismo: origens e desenvolvimento até Bretton Woods
2. Bretton Woods, 1944: o multilateralismo econômico
3. ONU: o multilateralismo político: paz e segurança internacionais
4. Desenvolvimento do multilateralismo em suas várias etapas: os grupos regionais
5. A fragmentação e a virtual inoperância do multilateralismo na segunda Guerra Fria
Anexo: Brasil: acordos e organizações multilaterais desde a criação da ONU
Referências bibliográficas

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido

Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 23/09/2025
        Muito se tem discutido sobre os desafios e oportunidades que a região amazônica apresenta para o governo e para o setor privado. Entre outros, são eles representados pelo desmatamento, pelas queimadas e pelo garimpo ilegal, inclusive nas terras indígenas. A ameaça à soberania nacional, pela crescente presença do crime organizado, torna mais difíceis as iniciativas para aproveitar a biodiversidade em favor da população local e para levar a riqueza da região aos povos nativos.
        Um dos temas mais importantes quando se trata do desenvolvimento da Amazônia é a questão do aproveitamento das riquezas da região pelas comunidades indígenas. O artigo 231 da Constituição prevê que as terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas são destinadas a ser por eles ocupadas para sempre, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Sem uma regulamentação mais precisa, essa disposição nem sempre é cumprida e em alguns casos, é flagrantemente desrespeitada, como no caso do garimpo ilegal e do desmatamento em terras indígenas.
        Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas, como importante contribuição para o desenvolvimento econômico da região e para tornar efetivo o cumprimento constitucional. É o caso do projeto Cachoeira Seca, desenvolvido pela comunidade indígena Arara.
        Trata-se do desenvolvimento do maior projeto de carbono em área indígena no Brasil, já de acordo com a lei que regula as bases do mercado de carbono, com todas as aprovações já obtidas, depois de consultas à comunidade, sob a supervisão da Funai e do Ministério Público Federal. O projeto socioeconômico está em andamento para melhorias efetivas para a comunidade e a geração de 1,8 milhão de toneladas/ano de créditos de carbono durante os próximos dez anos.
        A área total da reserva compreende 734.000 hectares da floresta amazônica, rica em biodiversidade e funcionalidade do ecossistema, e está hoje sob pressão pela ocupação ilegal de terras, derrubada seletiva, desflorestamento e mineração. Da área total, aproximadamente, 50 mil hectares já foram devastados e serão objeto de projeto de restauração florestal.
        O território indígena Cachoeira Seca, localizado nos municípios de Altamira (76%), Placas (17%) e Uruará (7%), no Pará, vai beneficiar cerca de 50 famílias indígenas. Todas essas municipalidades são alvos de prevenção prioritária de deflorestação, atividades de monitoramento e controle pelo governo federal. Na realidade, o projeto Cachoeira Seca perdeu mais de 70 mil hectares de floresta natural até 2024. Existem algumas iniciativas de prospecção mineral, ligadas especialmente ao ouro e ao minério de ferro, o que impõe ameaça aos recursos naturais (solo e água) e à vida selvagem do território.
        Levando em conta que a maior parte da área está ainda coberta por florestas nativas e habitadas pelo povo Arara, o projeto Cachoeira Seca representa uma parte crucial da floresta a ser preservada – por reduzir as emissões de GHG (gases de efeito estufa, na sigla em inglês), por preservar a sua biodiversidade e por reconhecer a governança do povo indígena sobre sua terra.
        De fato, essas pressões representam ameaças à valiosa cultura tradicional, herança e modo de vida dos povos indígenas que habitam o projeto. Nos anos recentes, ocorreram frequentes conflitos entre as populações indígenas tradicionais e o crime organizado, que tenta tomar posse da terra para a extração de madeira, expansão da agricultura e transações especulativas de terras. Manter as comunidades indígenas em seus territórios, protegidos de agentes destrutivos como desmatadores ilegais e ocupantes de terra, assegura a preservação da biodiversidade da floresta, na medida em que as práticas tradicionais apoiam o equilíbrio ecológico do ecossistema.
        Um censo socioeconômico vai ser conduzido na comunidade indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, que servirá como uma base para planejar e implementar atividades que ofereçam melhoria do bem-estar social, acesso à educação básica e a serviços de saúde para mais de 350 indígenas. Algumas iniciativas servirão também para criar fontes de renda sustentáveis que poderão gerar a independência do povo Arara.
        O projeto, que visa dar relevo ao papel da conservação, do manejo sustentável e do aumento de estoques de carbono florestal, foi desenvolvido pelo REDD+, sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal. Trata-se de mecanismo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que oferece incentivos financeiros a países em desenvolvimento para que reduzam o desmatamento e a degradação das florestas, além de conservarem e aumentarem os estoques de carbono.
        O principal objetivo do Projeto REDD+ dos povos Arara é evitar um desmatamento sem planejamento, dentro do território indígena Cachoeira Seca. Deve ser ressaltado que haverá a destinação de 70% do resultado líquido do projeto à comunidade indígena e 5% para um instituto que visa realizar pesquisas para o desenvolvimento da bioeconomia da floresta a benefício da comunidade. No tocante aos créditos de carbono, o projeto já foi aceito pela empresa Verra e foi incluído em sua plataforma para consulta.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

Dois discursos na AGNU, dos dois primeiros presidentes: Trump e Lula - Paulo Roberto de Almeida

 Dois discursos na AGNU, dos dois primeiros presidentes: Trump e Lula

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre os discursos de Lula e de Trump na AGNU.

Rotineiramente, os debates nas reuniões anuais da AGNU, desde 1946, começam pelo delegado do Brasil, eventualmente o presidente ou o chanceler, seguido pelo representante do país-sede, os EUA, raramente pelo presidente, mais frequentemente pelo Secretário de Estado ou o próprio represente diplomático na ONU.
Durante 70 anos, aproximadamente, os discursos inaugurais do Brasil refletiram os conceitos basilares de nossa diplomacia: estrito respeito à Carta da ONU e às normas mais elementares do Direito Internacional, aliás consolidados na Carta Constitucional de 1988. Ocorreu, sim, uma ruptura com os padrões tradicionais de nossa política externa e da diplomacia, durante os quatro anos do governo Bolsonaro, bizarramente oposta ao mecanismo fundamental da diplomacia contemporânea: o multilateralismo e a igualdade soberana das nações, substituídos pela submissão vergonhosa, não exatamente à nação ainda hegemônica na comunidade internacional, mas ao seu primeiro presidente claramente oposto aos mesmos princípios e supostamente um modelo para o seu subserviente colega brasileiro.
Esse mesmo presidente americano, eleito para um segundo mandato, persiste em seus propósitos de desmantelar o sistema multilateral, especialmente o comercial, e as regras consagradas do Direito Internacional.
Não cabe comentar o inacreditável discurso de Donald Trump, uma vez que não há uma única frase que corresponda à verdade dos fatos, um único argumento que reflita a realidade atual das relações internacionais, justamente afetadas pelas ações arbitrárias e unilaterais do Estado ainda mais poderoso do mundo (infelizmente para quase todo o resto da comunidade mundial). Cada palavra mais contundente, contra a ONU, os imigrantes, as múltiplas guerras supostamente terminadas por sua ação “merecedora de um Prêmio Nobel da Paz”, todos os conceitos constituem apenas o reflexo de seus preconceitos, obsessões e invenções de uma mente distintamente perturbada por uma megalomania raras vezes vistas no cenário mundial. Nada de muito novo, de fato, em termos de previsões sombrias para a Europa e o resto do mundo e de futuros radiantes para o seu próprio país.
Quanto ao discurso de Lula, pode ser considerado positivo — na defesa do multilateralismo e da soberania nacional, o que corresponde, na verdade, ao habitual costumeiro de nossa diplomacia — e correto nas críticas às sanções unilateralmente impostas ao Brasil, sem necessariamente vinculá-las ao presidente norte-americano.
Se examinarmos mais detidamente, porém, os primeiros parágrafos do discurso de Lula, chegaremos à conclusão de que todas as referências às violações à Carta da ONU, a condenação do recurso à guerra para resolver controvérsias e disputas entre Estados ou no tratamento do terrorismo, tudo isso se aplica, inteira e totalmente, à Rússia de Putin, sem que ela seja jamais equiparada às mesmas práticas delitivas e criminosas sendo infligidas à população palestina de Gaza.
[Discurso de Lula: “Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder. Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra.”]
Ao contrário, Lula repete ipsis litteris os argumentos de Putin no que respeita à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, jamais mencionada enquanto tal, como uma grave ruptura do Direito Internacional e dos mesmos princípios que a diplomacia brasileira defende estritamente.
[Discurso de Lula: “No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar. O recente encontro no Alaska despertou a esperança de uma saída negociada. É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista. Isso implica levar em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.” [Putin dixit] ]
Em resumo, o discurso de Lula pode ser considerado como 90% adequado aos requerimentos da ONU, mas totalmente falho no tocante à pior ameaça à paz e à segurança internacionais desde o final da Segunda Guerra Mundial.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 de setembro de 2025

Discurso de Lula na AGNU, 23/09/2025

 Discurso de Lula na AGNU, 23/09/2025

Senhor Secretário-Geral, António Guterres,
Caros chefes de Estado e de Governo e representantes dos Estados-Membros aqui reunidos.
Este deveria ser um momento de celebração das Nações Unidas.
Criada no fim da Guerra, a ONU simboliza a expressão mais elevada da aspiração pela paz e pela prosperidade.
Hoje, contudo, os ideais que inspiraram seus fundadores em São Francisco estão ameaçados, como nunca estiveram em toda a sua história.
O multilateralismo está diante de nova encruzilhada.
A autoridade desta Organização está em xeque.
Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder.
Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra.
Existe um evidente paralelo entre a crise do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia.
O autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente a arbitrariedades.
Quando a sociedade internacional vacila na defesa da paz, da soberania e do direito, as consequências são trágicas.
Em todo o mundo, forças antidemocráticas tentam subjugar as instituições e sufocar as liberdades.
Cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa.
Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia, reconquistada há quarenta anos pelo seu povo, depois de duas décadas de governos ditatoriais.
Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia.
A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável.
Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias.
Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil.
Não há pacificação com impunidade.
Há poucos dias, e pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito.
Foi investigado, indiciado, julgado e responsabilizado pelos seus atos em um processo minucioso.
Teve amplo direito de defesa, prerrogativa que as ditaduras negam às suas vítimas.
Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.
Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela.
Democracias sólidas vão além do ritual eleitoral.
Seu vigor pressupõe a redução das desigualdades e a garantia dos direitos mais elementares: a alimentação, a segurança, o trabalho, a moradia, a educação e a saúde.
A democracia falha quando as mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros e familiares.
Ela perde quando fecha suas portas e culpa migrantes pelas mazelas do mundo.
A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo.
Por isso, foi com orgulho que recebemos da FAO a confirmação de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome neste ano de 2025.
Mas no mundo, ainda há 670 milhões de pessoas famintas. Cerca de 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar.
A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza.
Esse é o objetivo da Aliança Global que lançamos no G20, que já conta com o apoio de 103 países.
A comunidade internacional precisar rever as suas prioridades:
•⁠ ⁠Reduzir os gastos com guerras e aumentar a ajuda ao desenvolvimento;
•⁠ ⁠Aliviar o serviço da dívida externa dos países mais pobres, sobretudo os africanos; e
•⁠ ⁠Definir padrões mínimos de tributação global, para que os super-ricos paguem mais impostos que os trabalhadores.
A democracia também se mede pela capacidade de proteger as famílias e a infância.
As plataformas digitais trazem possibilidades de nos aproximar como jamais havíamos imaginado.
Mas têm sido usadas para semear intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação.
A internet não pode ser uma “terra sem lei”. Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis.
Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual.
Ataques à regulação servem para encobrir interesses escusos e dar guarida a crimes, como fraudes, tráfico de pessoas, pedofilia e investidas contra a democracia.
O Parlamento brasileiro corretamente apressou-se em abordar esse problema.
Com orgulho, promulguei na última semana uma das leis mais avançadas do mundo para a proteção de crianças e adolescentes na esfera digital.
Também enviamos ao Congresso Nacional projetos de lei para fomentar a concorrência nos mercados digitais e para incentivar a instalação de datacenters sustentáveis.
Para mitigar os riscos da inteligência artificial, apostamos na construção de uma governança multilateral em linha com o Pacto Digital Global aprovado neste plenário no ano passado.
Senhoras e senhores,
Na América Latina e Caribe, vivemos um momento de crescente polarização e instabilidade.
Manter a região como zona de paz é nossa prioridade.
Somos um continente livre de armas de destruição em massa, sem conflitos étnicos ou religiosos.
É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo.
A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas.
Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento.
Outras partes do planeta já testemunharam intervenções que causaram danos maiores do que se pretendia evitar, com graves consequências humanitárias.
A via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela.
O Haiti tem direito a um futuro livre de violência.
E é inadmissível que Cuba seja listada como país que patrocina o terrorismo.
No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar.
O recente encontro no Alaska despertou a esperança de uma saída negociada.
É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista.
Isso implica levar em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.
A Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos da Paz, criado por China e Brasil, podem contribuir para promover o diálogo.
Nenhuma situação é mais emblemática do uso desproporcional e ilegal da força do que a da Palestina.
Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo.
Mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza.
Ali, sob toneladas de escombros, estão enterradas dezenas de milhares de mulheres e crianças inocentes.
Ali também estão sepultados o Direito Internacional Humanitário e o mito da superioridade ética do Ocidente.
Esse massacre não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo.
Em Gaza a fome é usada como arma de guerra e o deslocamento forçado de populações é praticado impunemente.
Expresso minha admiração aos judeus que, dentro e fora de Israel, se opõem a essa punição coletiva.
O povo palestino corre o risco de desaparecer.
Só sobreviverá com um Estado independente e integrado à comunidade internacional.
Esta é a solução defendida por mais de 150 membros da ONU, reafirmada ontem, aqui neste mesmo plenário, mas obstruída por um único veto.
É lamentável que o presidente Mahmoud Abbas tenha sido impedido pelo país anfitrião de ocupar a bancada da Palestina nesse momento histórico.
O alastramento desse conflito para o Líbano, a Síria, o Irã e o Catar fomenta escalada armamentista sem precedentes.
Senhora presidenta,
Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática.
O ano de 2024 foi o mais quente já registrado.
A COP30, em Belém, será a COP da verdade.
Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta.
Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs), caminharemos de olhos vendados para o abismo.
O Brasil se comprometeu a reduzir entre 59 e 67% suas emissões, abrangendo todos os gases de efeito estufa e todos os setores da economia.
Nações em desenvolvimento enfrentam a mudança do clima ao mesmo tempo em que lutam contra outros desafios.
Enquanto isso, países ricos usufruem de padrão de vida obtido às custas de duzentos anos de emissões.
Exigir maior ambição e maior acesso a recursos e tecnologias não é uma questão de caridade, mas de justiça.
A corrida por minerais críticos, essenciais para a transição energética, não pode reproduzir a lógica predatória que marcou os últimos séculos.
Em Belém, o mundo vai conhecer a realidade da Amazônia.
O Brasil já reduziu pela metade o desmatamento na região nos dois últimos anos.
Erradicá-lo requer garantir condições dignas de vida para seus milhões de habitantes.
Fomentar o desenvolvimento sustentável é o objetivo do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que o Brasil pretende lançar para remunerar os países que mantêm suas florestas em pé.
É chegado o momento de passar da fase de negociação para a etapa de implementação.
O mundo deve muito ao regime criado pela Convenção do Clima.
Mas é necessário trazer o combate à mudança do clima para o coração da ONU, para que ela tenha a atenção que merece.
Um Conselho vinculado à Assembleia Geral com força e legitimidade para monitorar compromissos dará coerência à ação climática.
Trata-se de um passo fundamental na direção de uma reforma mais abrangente da Organização, que contemple também um Conselho de Segurança ampliado nas duas categorias de membros.
Poucas áreas retrocederam tanto como o sistema multilateral de comércio.
Medidas unilaterais transformam em letra morta princípios basilares como a cláusula de Nação Mais Favorecida.
Desorganizam cadeias de valor e lançam a economia mundial em uma espiral perniciosa de preços altos e estagnação.
É urgente refundar a OMC em bases modernas e flexíveis.
Senhoras e senhores,
Este ano, o mundo perdeu duas personalidades excepcionais: o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, e o Papa Francisco.
Ambos encarnaram como ninguém os melhores valores humanistas.
Suas vidas se entrelaçaram com as oito décadas de existência da ONU.
Se ainda estivessem entre nós, provavelmente usariam esta tribuna para lembrar:
•⁠ ⁠Que o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis;
•⁠ ⁠Que os únicos derrotados são os que cruzam os braços, resignados;
•⁠ ⁠Que podemos vencer os falsos profetas e oligarcas que exploram o medo e monetizam o ódio; e
•⁠ ⁠Que o amanhã é feito de escolhas diárias e é preciso coragem de agir para transformá-lo.
No futuro que o Brasil vislumbra não há espaço para a reedição de rivalidades ideológicas ou esferas de influência.
A confrontação não é inevitável.
Precisamos de lideranças com clareza de visão, que entendam que a ordem internacional não é um “jogo e soma zero”.
O século 21 será cada vez mais multipolar. Para se manter pacífico, não pode deixar de ser multilateral.
O Brasil confere crescente importância à União Europeia, à União Africana, à ASEAN, à CELAC, aos BRICS e ao G20.
A voz do Sul Global deve ser ouvida.
A ONU tem hoje quase quatro vezes mais membros do que os 51 que estiveram na sua fundação.
Nossa missão histórica é a de torná-la novamente portadora de esperança e promotora da igualdade, da paz, do desenvolvimento sustentável, da diversidade e da tolerância.
Que Deus nos abençoe a todos.
Muito obrigado."

As opções da ONU em seu futuro sombrio: uma revolução, decadência ou ‘trumpificação’ - The Economist

As opções da ONU em seu futuro sombrio: uma revolução, decadência ou ‘trumpificação’

O Conselho de Segurança está praticamente paralisado e as missões de paz da ONU estão fora de moda

Por The Economist, 22/09/2025 | 14h30


A Organização das Nações Unidas passou por muitas crises desde sua fundação, em 1945: da misteriosa morte de seu secretário-geral, Dag Hammarskjöld, no Congo, em 1961, até a suposta “batida de sapato” de Nikita Khrushchev durante a Guerra Fria, os massacres de civis sob sua proteção na década de 1990 e a invasão americana do Iraque em 2003. Com os líderes se preparando para o 80º aniversário da ONU e a Assembleia-Geral em Nova York, os especialistas dizem que nenhum desses desastres parece tão calamitoso quanto o atual. Com o retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca, há muitos cenários traumáticos para a ONU, mas três se destacam: uma revolução interna, a decadência ou a “trumpificação”.

Ninguém na sede da ONU em Turtle Bay, Nova York, sabe ao certo o que as ideias do “America First” (América em primeiro lugar) de Trump trarão, em parte porque não há ninguém para lhes dizer. O Senado ainda não confirmou Mike Waltz, indicado por Trump para o cargo de embaixador. Todos estarão à procura de pistas nos discursos contraditórios de 23 de setembro, quando o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, adversário ferrenho de Trump, abrirá o debate na Assembleia Geral da ONU, seguido pelo próprio Trump.

O choque imediato é orçamentário. O governo Trump está privando a ONU de fundos antes mesmo de revelar sua prometida revisão das instituições multilaterais. Membro habitualmente inadimplente, os Estados Unidos não pagaram suas contribuições obrigatórias à ONU para 2025. A solicitação orçamentária do presidente para o ano fiscal de 2026, atualmente em tramitação no Congresso, “suspende” quase todos os pagamentos à ONU.

Enquanto isso, a ajuda externa dos Estados Unidos, grande parte dela encaminhada por meio de contribuições voluntárias a organizações humanitárias da ONU, foi drasticamente reduzida. Os orçamentos das agências da ONU encolheram em média cerca de um terço. Alimentos, medicamentos, ajuda a refugiados e outras formas de assistência a centenas de milhões de pessoas estão sendo eliminados. Abalado pelas tarifas dos Estados Unidos, o desenvolvimento econômico global pode entrar em retrocesso.

Mesmo com o esgotamento dos recursos financeiros, o Conselho de Segurança está praticamente paralisado e as missões de paz da ONU estão fora de moda. Os grandes membros zombam da proibição da Carta das Nações Unidas de tomar o território de outro Estado pela força: a Rússia, ao fazê-lo descaradamente, e os Estados Unidos, com suas declarações levianas sobre anexar a Groenlândia e absorver o Canadá como seu “51º Estado”.

O que acontecerá a seguir? Os Estados Unidos têm sido, há muito tempo, o ingrediente essencial nas tentativas de governança global. A primeira iniciativa mundial foi prejudicada desde o início pela recusa do Senado americano em ratificar a Liga das Nações, no final da 1ª Guerra Mundial. a Liga efetivamente morreu com a eclosão da 2ª Guerra Mundial. Sua herdeira, a ONU, perdurou em grande parte porque gerações de líderes americanos reconheceram que, apesar de suas falhas, ela promovia uma ordem liberal e o poder americano.

As pesquisas mostram que a maioria dos americanos ainda apoia a ONU, mas as opiniões estão polarizadas. Os governos republicanos há muito tempo desconfiam da instituição. John Bolton, ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU, chocou o mundo ao declarar: “O prédio do Secretariado em Nova York tem 38 andares. Se perdesse dez andares, não faria a menor diferença”. O nível de hostilidade republicana hoje é maior do que nunca e pode criar as condições para o primeiro cenário: que a ONU se torne adversária dos Estados Unidos, tornando-se “desonesta” em resposta ao radicalismo do America First.

Uma ruptura total com os Estados Unidos pode ocorrer em 2027, se seus atrasos orçamentários atingirem o valor de duas contribuições anuais, nível no qual um país perde seu direito de voto na Assembleia-Geral. Esse órgão deliberativo faz declarações em sua maioria não vinculativas, e os Estados Unidos poderiam vetar qualquer tentativa de forçá-los a sair do Conselho de Segurança. Mas a humilhação poderia provocar retaliação, se não a saída dos Estados Unidos.

A Palestina é outro catalisador potencial. Muitos membros da ONU a consideram a última grande causa colonial e a guerra de Israel como genocídio. Por sua vez, Israel e o governo Trump acham que a ONU está impregnada de antissemitismo. O último movimento para reconhecer a soberania palestina, liderado pela França e pela Arábia Saudita, pode crescer. O governo Trump negou vistos para a delegação palestina participar da reunião.

O governo Trump já está se recusando a participar da tomada de decisões globais. Os Estados Unidos pararam de financiar a UNRWA, a agência da ONU para refugiados palestinos. Estão saindo do Acordo de Paris sobre o clima, da Organização Mundial da Saúde, da UNESCO (a organização educacional e cultural da ONU) e do Conselho de Direitos Humanos. Retiraram-se das discussões sobre a resposta a futuras pandemias, a reforma do financiamento do desenvolvimento e a proteção de partes do alto mar. O governo agora se opõe aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um conjunto de 17 objetivos — desde a eliminação da pobreza extrema até a promoção da saúde — que são utópicos e abrangentes. Os Estados Unidos consideram esses objetivos como um governo mundial crescente, cheio de ideologias “woke” progressistas de gênero e clima, e um endosso às ideias chinesas.

Outros países poderiam tentar preencher o vácuo com dinheiro e esforços diplomáticos, alterando o equilíbrio de financiamento e pessoal dentro do sistema da ONU. A Europa poderia tentar defender os valores liberais, mas outros países não o fariam. Potências médias como a Turquia e os Estados do Golfo já estariam influenciando a entrega de ajuda em zonas de conflito com base em seus objetivos políticos, bem como em necessidades genuínas.

A ONU, especialmente a Assembleia Geral, poderia se tornar radicalmente antiamericana, como ameaçou fazer na década de 1970, quando muitos dos países recém-descolonizados a utilizaram para pressionar por uma “nova ordem econômica” para desfazer o capitalismo ocidental e o livre comércio. Ela poderia, por exemplo, começar a adotar exigências para que os países ricos paguem reparações climáticas ou compartilhem os impostos de forma mais equitativa. Mesmo que os Estados Unidos mantivessem seu veto no Conselho de Segurança, a ONU se tornaria um órgão para galvanizar a resistência contra eles.

Isso tornaria mais fácil para a Rússia e, especialmente, para a China reivindicar a liderança na ONU e em outros lugares. Eles já estão promovendo outros órgãos em paralelo, notadamente o clube econômico Brics e a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), um fórum de segurança eurasiano. Em uma cúpula da SCO no início deste mês, com a participação da Índia, o líder da China, Xi Jinping, falou da necessidade de “tomar uma posição clara contra o hegemonismo e a política de poder, e praticar o verdadeiro multilateralismo”. Muitos países desconfiam da China, mas podem achar a oferta de Xi mais atraente do que a de Trump.

Minh-Thu Pham, do Project Starling, um grupo que apoia a cooperação multilateral, afirma que o perigo não é tanto a ONU se tornar rebelde, mas sim os Estados Unidos. “A ONU está avançando sem os EUA, e não apesar dos EUA ou para contrariar os EUA”, diz ela; o abandono pelos Estados Unidos significa que a ONU se tornará mais “independente”.

Uma ONU zumbi

Um segundo cenário é um em que a ONU sobreviva — os Estados Unidos permaneçam nela e os países evitem antagonizar Trump —, mas o sistema se fragmente e entre em decadência. A China adotou o hábito americano de atrasar os pagamentos. Outros grandes contribuintes, principalmente os países europeus, estão cortando a ajuda externa para redirecionar os fundos para a defesa.

A OCDE, um clube formado principalmente por países ricos, projeta que seus membros cortarão a ajuda em 9% a 17% este ano, além do corte de 9% no ano passado. A resistência burocrática e os interesses conflitantes dos membros podem deixar o emaranhado de cerca de 140 órgãos da ONU praticamente intocado, embora com financiamento insuficiente. Tom Fletcher, chefe de assuntos humanitários da ONU, afirma que a organização recebeu apenas 19% dos fundos de ajuda solicitados em 2025.

A ONU também pode se tornar uma organização seletiva. Ela não teria garantia de fundos americanos, mas algumas de suas agências poderiam se beneficiar se, por exemplo, os Estados Unidos decidissem que sua agência para refugiados era útil para conter o fluxo de migrantes. Richard Gowan, do International Crisis Group, um think tank, argumenta que o Conselho de Segurança, em particular, poderia ficar meio morto, com apenas alguns espasmos reflexivos, por exemplo, para renovar o mandato das forças de paz da ONU em Chipre.

A assembleia poderia tentar reivindicar um papel maior em questões de paz e segurança. Algumas das agências especializadas da ONU — a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), por exemplo, ou a Organização Internacional da Aviação Civil — provavelmente continuarão existindo. “Poderíamos ver o surgimento de uma forma fragmentada de multilateralismo, sem um verdadeiro núcleo político, mas com muitas agências com um único objetivo”, diz Gowan. “Ela seria administrada principalmente a partir de Genebra ou Nairóbi, e não de Manhattan.”

O cenário final é uma reinvenção trumpiana. Waltz, o indicado por Trump para o cargo de embaixador na entidade, diz que pretende “tornar a ONU grande novamente”. Os Estados Unidos estão pressionando para restringir os direitos de asilo sob a convenção de refugiados da ONU de 1951; também querem que a ONU ajude a fortalecer a missão, liderada pelo Quênia, no Haiti devastado por gangues; e pressionaram a Europa a “retomar” as sanções ao Irã. Alguns países podem acolher com satisfação um maior foco na paz e menos tempo dedicado a questões sociais.

Trump gosta de pompa e pode buscar acordos ostensivos. Fontes internas da ONU esperam encontrar reformas, como um conjunto mais restrito de prioridades, que sejam boas para a ONU e agradem a Trump. Alguns diplomatas sugerem que a ONU deve se afastar da manutenção da paz para se ocupar da diplomacia da paz. Ou talvez algo mais prático possa substituir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que em grande parte não foram alcançados. Órgãos duplicados ou marginais poderiam ser abolidos.

Virando Maga

A votação do Conselho de Segurança dos Estados Unidos em fevereiro, com a Rússia e a China pedindo “uma paz duradoura” entre a Ucrânia e a Rússia, desanimou a Europa. Mas isso poderia levar a uma maior cooperação entre as grandes potências.

Depois de apoiar lados diferentes da guerra civil na Síria, os Estados Unidos e a Rússia estão apoiando o governo do ex-jihadista Ahmed al-Sharaa. O “acordo do século” para Trump, observa Pham, seria reformar a composição e os direitos de voto no Conselho de Segurança e redefinir o equilíbrio de poder global.

Muito depende dos caprichos de Trump e da habilidade do próximo secretário-geral da ONU. A campanha para substituir António Guterres em 2027 começa no final deste ano. Alguns candidatos, como Rafael Grossi, diretor-geral da AIEA, estão disputando a posição. Até recentemente, falava-se em uma mulher latino-americana. Os trumpistas podem achar isso muito politicamente correto. Brincando apenas pela metade, uma fonte interna propõe uma mulher querida por Trump: sua filha, Ivanka. Se é isso que é preciso para manter Trump envolvido, que assim seja. Tempos desesperados, medidas desesperadas.

https://www.estadao.com.br/internacional/as-opcoes-da-onu-em-seu-futuro-sombrio-uma-revolucao-decadencia-ou-trumpificacao/

Discurso de Lula na AGNU - Paulo Roberto de Almeida

Discurso de Lula na AGNU

Nenhuma dúvida de que o Itamaraty (se lhe deram essa chance) preparou um bom discurso para Lula nesta terça-feira. No Planalto certamente incluiram mais algumas frases duras contra o unilateralismo agressivo daqueles que se julgam os novos imperadores do mundo.

“Daqueles” inclui mais de um, claro.

O discurso de Lula será bom, mas só estará perfeito se tiver uma, só uma uminha, condenação da guerra de agressão unilateral de Putin contra a Ucrânia. 

Tenho muitas dúvidas de que terá a mesma coragem com a qual condena duramente o genocídio de Netanyahu em Gaza. Putin iniciou o seu em 2022 e ainda não ouvimos nenhuma crítica de Lula ao seu amigo russo.

Vai se redimir desta vez?

Minha aposta é que não!

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 23/09/2025


The world according to Trump: tarifas não MFN

 The world according to Trump: tarifas não MFN

Na visão tosca de Trump, existem países que são malvados com o comércio bilateral dos EUA (ou por motivos políticos, alheios ao comércio) que merecem as maiores tarifas, e existem aqueles que vão sendo "graduados" em função da relação de forças, ou dos interesses trumpistas estrito sendo:

🔝 The Highest Tariffs
• Brazil 🇧🇷 → 50% (the highest globally)
• Syria 🇸🇾 → 41%
• Myanmar 🇲🇲 → 40%
• Laos 🇱🇦 → 40%
• Switzerland 🇨🇭 → 39%
• Canada 🇨🇦 → 35% (non-USMCA exempt goods)
• Iraq 🇮🇶 & Serbia 🇷🇸 → 35% each

Strategic Mid-Tier Tariffs
• China 🇨🇳 → 30% (with some exemptions; still a central trade battleground)
• South Africa, Algeria, Libya, Bosnia & Herzegovina → 30%
• Mexico 🇲🇽 → 25% (non-USMCA exempt goods)
• India, Kazakhstan, Tunisia, Moldova → 25%



📉 Moderate Tariffs
• Bangladesh, Sri Lanka, Taiwan → 20%
• Philippines, Thailand, Nicaragua → 18–19%
• Pakistan, Indonesia, Cambodia, Malaysia → 15–19%


🟢 Standard Tariffs
• EU (most goods) → 15%
• Japan, Turkey, Israel, Ghana, Nigeria, New Zealand, Vietnam, Venezuela, Zambia, Zimbabwe → 15%
• All other countries → 10%

As coisas vão continuar na mais perfeita desordem e na total ignorância da cláusula de nação mais favorecida. É a mais completa subversão da política comercial americana desde a independência do país, desde os pais fundadores. Nunca houve nada igual na história dos EUA, na história econômica mundial e na história do sistema multilateral de comércio desde 1947.

Postagem em destaque

Lançamento do livro Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação, na Biblioteca Mario de Andrade

Lançamento do livro Intelectuais na Diplomacia Brasileira: a cultura a serviço da nação , na Biblioteca Mario de Andrade em SP, 12/05, 19hs,...