quinta-feira, 19 de março de 2026

Paulo Roberto de Almeida: Artigos publicados até 13/03/2026 na Revista Será?

Artigos publicados até 13/03/2026 na Revista Será?

Autor: Paulo Roberto de Almeida

 

China: 15th Five-Year Plan that will set the economic course between 2026 and 2030

The Chinese Embassy in Madrid presents the 15th Five-Year Plan that will set the economic course between 2026 and 2030

The new economic plan, focused on technological innovation and strengthening the domestic market, forecasts growth of 4.5-5% at the start of a new strategic cycle for China

Last Thursday, the Embassy of the People’s Republic of China in Madrid hosted a meeting to present the main points of the 15th Five-Year Plan (2026-2030), the new strategic framework that will guide the country’s economic development in the coming years.

The event was chaired by the Chinese Ambassador to Spain, Yao Jing, who outlined the priorities of the new plan to representatives from the institutional, academic, and diplomatic sectors. Among those in attendance were the former Spanish Minister of Foreign Affairs, Ana Palacio, as well as the Vice President of the China Chair Foundation, Marta Montoro, and experts in international relations.

During the meeting, the main pillars of the plan, previously presented by Premier Li Qiang to the National People’s Congress in Beijing, were analyzed. The plan places technological innovation, boosting domestic consumption, and developing new strategic industries at the heart of China’s economic policy.

Stable growth and economic transformation

The Chinese government report sets an economic growth target of between 4.5% and 5% for 2026, at the start of the new five-year planning cycle. Beijing seeks to maintain macroeconomic stability while promoting structural reforms aimed at modernizing its economy and strengthening its global competitiveness.

According to the document, the Chinese economy grew by 5% in 2025, reaching a GDP of €18 trillion and generating 12.67 million new urban jobs. The government presents these figures as proof of the country’s resilience in the face of an international environment marked by trade tensions, protectionism, and a global economic slowdown.

One of the pillars of the new plan is the promotion of scientific and technological innovation, with investments in sectors considered strategic, such as artificial intelligence, semiconductors, biomedicine, quantum computing, and the aerospace industry. With this, China seeks to strengthen its technological autonomy and consolidate a modern industrial system based on advanced industries.

On the macroeconomic front, the government is proposing a more expansionary fiscal policy, with a deficit close to 4% of GDP, as well as the issuance of special bonds earmarked for infrastructure, innovation, and stimulating domestic consumption. Monetary policy will remain flexible to guarantee liquidity and facilitate access to financing for priority companies and sectors.

A more active diplomacy on the international stage

The new economic cycle coincides with a more active diplomatic strategy on the part of Beijing. During a press conference held on March 8th on the sidelines of the National People’s Congress, Chinese Foreign Minister Wang Yi emphasized that China aspires to play a stabilizing role in an international system marked by increasing geopolitical tensions.

The Chinese foreign minister championed multilateralism, respect for international law, and international cooperation as pillars for addressing global challenges, in line with President Xi Jinping’s vision of building a “community with a shared future for mankind.”

Regarding Europe, Wang Yi emphasized that the continent is a key player in a multipolar world and an important partner for China’s modernization, underscoring the potential for economic cooperation between the two sides.

Domestic challenges and global ambition

The Chinese government acknowledges, however, several domestic challenges, including weak domestic demand, risks in the real estate sector, tensions in local finance, and the impact of an increasingly competitive geopolitical environment.

Despite these challenges, Beijing maintains that the structural advantages of its economy, such as its large domestic market, industrial base, and growing technological capabilities, will allow it to sustain growth and progress toward the goal of becoming a high-income economy in the coming decades. Against an increasingly fragmented international landscape, the new five-year plan confirms China’s intention to strengthen its technological autonomy, maintain stable growth, and consolidate its role as a central player in the global economy and governance.

Trabalhos mais acessados PRA na plataforma Academia.edu - Paulo Roberto de Almeida

Trabalhos mais acessados PRA na plataforma Academia.edu

De: 17/02/2026 a 19/03/2026

Compilação a partir do Analytics, excluindo trabalhos de terceiros.

Uma certa ideia do Itamaraty: A reconstrucao da politica externa e a restauracao da diplomacia brasileira (2020)
Paulo R. Almeida: O Mercosul no Contexto Regional e Internacional (1993)
Relacoes Exteriores e Constituicao (1986)
5238) Relação de trabalhos referentes a eleicoes e campanhas eleitorais (2026)
4656) A revolução que o PT nunca fez: sua modernização como partido socialdemocrata (2005-2024)
2258) O desenvolvimento do Mercosul: progressos e limitações (2011)
5206) O Brasil e a geopolitica da brutalidade (2026)
4275) A diplomacia de Lula, 2023-2026: mais do mesmo? (2022)
Mudanca a força: entrevista de Paulo Roberto de Almeida para Revista Crusoe
Marxismo e Socialismo (2019)
Os Primeiros Anos do Seculo XXI: o Brasil e as relações internacionais contemporaneas (2002)
012) Mercosul, Nafta e Alca: a dimensão social (1999)
14) O Estudo das Relações Internacionais do Brasil (2006)
5206) O Brasil e a geopolitica da brutalidade (2026)
2460) EUA e UE negociam uma super zona de livre comércio (2013)
1º Volume - Retratos sul-americanos: perspectivas brasileiras sobre história e política externa. Volume I. Bookess, Brasília: 2015.
4023) A diplomacia brasileira da independencia: Apresentacao (2021)
(...)

Listagem completa na própria plataforma Academia.edu, link:




Mudança à força: entrevista de Paulo Roberto de Almeida para Revista Crusoé (2021)

 Mudança à força: entrevista de Paulo Roberto de Almeida para Revista Crusoé

Tinha até esquecido desta entrevista. Alguém acessou-a em minha página na plataforma Academia.edu, e assim pude recuperá-la de um esquecimento involuntário. 

By Paulo Roberto de Almeida

5 Pages, 2021

Mudança à força: entrevista com Paulo Roberto de Almeida Eduardo Teixeira Revista Crusoé, edição 164, 18/06/2021 Um dos principais críticos da interferência petista e bolsonarista no Itamaraty, o embaixador Paulo Roberto Almeida diz que as correções de rumo na diplomacia brasileira só devem acontecer no atual governo por pressão externa Eduardo Teixeira Crusoé, 18/06/2021 O diplomata Paulo Roberto Almeida, de 71 anos, é conhecido por sempre dizer o que pensa. Por causa disso, levou diversos puxões de orelha e teve a carreira prejudicada. Na era petista, foi acusado de ser "neoliberal" e foi relegado ao que, entre os diplomatas, é conhecido informalmente como o DEC, departamento de escadas e corredores. Passou treze anos e meio sem ocupar um cargo. Em 2016, no breve governo de Michel Temer, foi reabilitado e assumiu a direção do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, o Ipri, vinculado ao Itamaraty. (...) 

Neste link de Academia.edu: 

https://www.academia.edu/49299957/Mudanca_a_for%C3%A7a_entrevista_de_Paulo_Roberto_de_Almeida_para_Revista_Crusoe

Nota PRA 19/03/2026:  Apenas uma parte pequena dessa entrevista, no site da revista Crusoé, está disponível, mas o conteúdo inteiro está reservado aos assinantes da revista. Em todo caso, deixo aqui o registro total deste trabalho, que resumiu minha entrevista ao jornalista Duda Teixeira, dileto amigo. Mais abaixo, transcrevo o conteúdo, tal como preservei na ocasião.

3930. “Sobre a política externa e a diplomacia brasileira: uma entrevista”, Brasília, 16 junho 2021, 14 p. Respostas a questões do jornalista Duda Teixeira, em formato de entrevista para a revista Crusoé sobre temas de diplomacia e de política externa, seguida de entrevista oral, combinando os dois formatos em matéria publicada na seção “Entrevista da Semana” da Revista Crusoé (edição 164, 18/06/2021; link: https://crusoe.com.br/edicoes/164/mudanca-a-forca/0). Sobre a política externa e a diplomacia brasileira, disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/49299957/MudancaaforçaentrevistadePauloRobertodeAlmeidaparaRevistaCrusoe). Parte relativa aos militares, divulgada de forma independente, sob o título de “Existe algum risco de golpe miliar no Brasil? Não, embora o capitão gostaria que ocorresse”, no blog Diplomatizzando (18/06/2021; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/06/existe-algum-risco-de-golpe-militar-no.html). Relação de Publicados n. 1406.

 


Homem de terno e gravata vermelha

Descrição gerada automaticamente

 

Mudança à força

Um dos principais críticos da interferência petista e bolsonarista no Itamaraty, o embaixador Paulo Roberto Almeida diz que as correções de rumo na diplomacia brasileira só devem acontecer no atual governo por pressão externa

Eduardo Teixeira

Crusoé, 18/06/2021

 

O diplomata Paulo Roberto Almeida, de 71 anos, é conhecido por sempre dizer o que pensa. Por causa disso, levou diversos puxões de orelha e teve a carreira prejudicada. Na era petista, foi acusado de ser “neoliberal” e foi relegado ao que, entre os diplomatas, é conhecido informalmente como o DEC, departamento de escadas e corredores. Passou treze anos e meio sem ocupar um cargo. Em 2016, no breve governo de Michel Temer, foi reabilitado e assumiu a direção do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, o Ipri, vinculado ao Itamaraty. Três anos depois, já no governo de Jair Bolsonaro, foi exonerado do posto após publicar em seu blog textos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do embaixador Rubens Ricupero e do ex-ministro Ernesto Araújo, discutindo a Venezuela. Os posts irritaram os bolsonaristas, que não gostaram de ver tucanos criticando o atual governo.

Almeida foi então transferido para a Divisão de Arquivos, no segundo subsolo do Itamaraty, onde não há wifi nem sinal de celular. “Enquanto os petistas não me colocaram em lugar algum, os bolsonaristas quiseram me humilhar”, diz o embaixador. Mesmo assim, ele não se intimidou e, desde 2019, publicou cinco livros. O último deles, Apogeu e Demolição da Política Externa, acaba de seguir para a última revisão.

O diplomata avalia que a nomeação de Carlos França para o cargo de chanceler melhorou o clima internamente. Como França consulta os colegas e segue os processos decisórios normais, as chances de erros diminuem. Contudo, Almeida afirma que ainda paira sobre o Itamaraty a influência de Jair Bolsonaro, seus filhos e assessores, o que pode resultar em constrangimentos – um exemplo é a indicação do ex-senador e ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, para a embaixada na África do Sul. “Isso demonstra, mais uma vez, que o presidente não hesita em tomar atitudes que prejudicam a imagem e os interesses do Brasil quando se trata de defender seus interesses eleitoreiros”, diz. Eis a entrevista.

 

Que avaliação o sr. faz da gestão de Carlos França, substituto de Ernesto Araújo no cargo de ministro das Relações Exteriores?

A chegada dele foi um alívio. A personalidade de França é o inverso da do Ernesto Araújo, que era rejeitado quase que unanimemente pelos profissionais. França sempre foi um excelente diplomata, com um trabalho impecável. É reconhecido pelo seu jeito afável e pela sua cordialidade sincera. Tem um modo de ser transparente, simples e modesto. Apenas a sua chegada já representou uma melhoria de 200% na gestão dos assuntos internos do Itamaraty. Além disso, ele retomou o processo decisório, o que é muito bom.

 

Como?

Isso acontece em todo lugar, nas empresas, nas organizações. Os funcionários de cada área, que estão na base, fazem relatórios em suas áreas de especialização. Essas informações sobem pela hierarquia até chegar à cúpula, onde as decisões são tomadas. No Itamaraty, quando se trata de algo muito importante, o assunto vai parar na Presidência da República. No governo militar, que tinha uma estrutura muito rígida, com planejamento e metas, eu era uma dessas pessoas trabalhando na base, em assuntos específicos. Quando o papa João Paulo II foi escolhido, em 1978, eu fiz um longo memorando sobre o que isso significava. O texto foi muito elogiado e possivelmente foi para a Presidência. Sempre tínhamos de produzir esses textos. Quando o balé Bolshoi, da Rússia, vinha para o Brasil, os militares sempre achavam que vinha um monte de espião comunista, e nós precisávamos escrever sobre aquilo. Algumas vezes, os relatórios de três ou quatro páginas voltavam com a rubrica “de acordo”, o que significava que o Itamaraty tinha feito uma exposição para o presidente, que tinha concordado com o conteúdo. Em outros momentos, vinha com a orientação para consultar outros ministérios. Foi assim com o Ernesto Geisel, com o Figueiredo. Foi assim também com o Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique. Uma mudança aconteceu com Lula. Em seu governo, ele pediu para que o Itamaraty mostrasse relatórios mais breves, com no máximo uma página.

 

E como era com o Ernesto Araújo?

Araújo tomava decisões trancado em seu gabinete, sem consultar diplomatas ou ler qualquer coisa. Despachava de um bunker, auxiliado apenas pelo deputado Eduardo Bolsonaro, pelo Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais da Presidência, e pelo Olavo de Carvalho. As notas que o Araújo soltava nada tinham a ver com a tradição do Itamaraty. Nenhum diplomata seria capaz de escrever aqueles absurdos. Os textos não faziam nenhuma referência ao direito internacional e traziam uma linguagem estropiada, com português mal escrito.

 

O que acontece quando não se respeita esses processos?

O risco maior é tomar decisões que vão contra os interesses nacionais. Uma delas foi o anúncio de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Isso seria desastroso para o agronegócio brasileiro. Se o governo tivesse deixado a empresa chinesa Huawei de fora do leilão de tecnologia 5G, a China teria imposto retaliações maciças ao Brasil. Os processos decisórios também são importantes na elaboração dos discursos oficiais, como aqueles que são feitos em foros internacionais. O embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que é sogro do Ernesto Araújo, fez um livro, em três tomos, sobre as posições do Brasil na ONU. Há 70 anos, o Brasil inaugura as sessões da Assembleia Geral, o que foi uma forma de compensar o país por não ter entrado no Conselho de Segurança. Esses discursos mostram como o Brasil tradicionalmente pensa em diversos temas. Está tudo ali. Há uma unidade muito clara. Mas provavelmente não haverá uma quarta edição. O primeiro discurso de Bolsonaro na ONU em setembro de 2019 foi muito estranho, e o segundo foi um pouco menos ruim. Faltou consultar os demais diplomatas.

 

Na prática, algo já mudou na diplomacia brasileira?

Acho que as mudanças ainda estão por vir. Elas devem chegar principalmente como resultado de pressão externa, que pode vir do agronegócio, do Senado, das empresas, da opinião pública ou de outros países. Não necessariamente virão da vontade do presidente e dos seus assessores. Por enquanto, olhando para algumas votações em Genebra, na área de direitos humanos, ainda não voltamos ao padrão anterior. Permanece aquela visão contra o aborto da Damares Alves (ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos). É uma visão ainda desconfiada de temas que possam levar a direitos da mulher e a direitos reprodutivos. O evento mais recente, ainda não resolvido, é essa indicação absolutamente estranha do bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, para ser o embaixador na África do Sul. Na verdade, o assunto dele é Angola, onde há pendências entre as autoridades locais e sua instituição religiosa. Sabe-se que há muita lavagem de dinheiro com destino à África do Sul. Isso foi revelado porque um dos brasileiros que trabalhavam em Luanda teve um acidente na estrada. A polícia encontrou 60 milhões de dólares no seu automóvel. Então, é comum que carros atravessem a Namíbia levando dinheiro para a África do Sul. Claro, o Crivella gostaria que o governo desse uma cobertura total para os negócios da Universal. Ele não poderia ir para Angola, porque há uma pendência judicial contra ele. Então Bolsonaro fez algo muito estranho, que é designar um bispo que não pode sair do Brasil, que foi preso em dezembro, para ser o embaixador na África do Sul, onde ele poderia atuar. Mas a África do Sul é a base financeira dos negócios de lavagem de dinheiro na África, que envia dinheiro para paraísos fiscais. Seria muito estranho ter um embaixador não do Brasil, mas da Igreja Universal, na África do Sul.

 

Acredita que a indicação pode ser aprovada pelo Senado?

Acho pouco provável. A Comissão de Relações Exteriores do Senado vai achar muito estranha essa designação. Mesmo assim, seria preciso aguardar a aceitação do país africano. Se acontecer, seria muito complicado para o Brasil. Crivella poderia se envolver nos negócios africanos da Universal, com o potencial de gerar novos escândalos. Isso demonstra, mais uma vez, que o presidente não hesita em tomar atitudes que prejudicam a imagem e os interesses do Brasil quando se trata de defender seus interesses eleitoreiros. A candidatura para a OCDE (o clube dos país mais ricos do mundo), por exemplo, poderia ser prejudicada porque ela exige cooperação nas operações contra lavagem de dinheiro e contra a corrupção.

 

Ainda soa estranho um político ser indicado para um cargo em embaixada?

A diplomacia petista estreou com a indicação de pessoas de fora da carreira diplomática. Lembro do caso do Tilden Santiago. Ele era formado em jornalismo e filosofia, e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Santiago tentou uma candidatura ao Senado por Minas Gerais em 2002, mas perdeu a eleição. Lula o mandou para a embaixada em Cuba, porque ele era admirador do Fidel Castro. Foi um dos poucos não diplomatas a serem enviados para embaixadas no exterior. Celso Amorim, depois, estabeleceu que todos os chefes de embaixadas deveriam ser diplomatas de carreira.

 

O clima sombrio que havia dentro do Itamaraty melhorou?

Em parte. Depois de se desentender com os senadores, principalmente com a Katia Abreu, Ernesto Araújo foi forçado a se demitir no dia 29 de março. No dia seguinte, o boletim do Itamaraty publicou a lotação dele na Subsecretaria Geral de Administração. Essa é a secretaria que cuida do que podemos chamar de “cozinha” do Itamaraty, da administração da casa. Ele estava tentando colocar seu chefe de gabinete como o subsecretário geral de administração. Pensei na época que o objetivo era construir um Ministério de Relações Exteriores do B. Eles seriam responsáveis por uma diplomacia paralela, com todo apoio do presidente, filhos e assessores. Mas o Ernesto Araújo não conseguiu o que pretendia e tirou uma licença de três meses.

 

Se o PT voltar em 2022, o sr. não teme ser novamente afastado?

Acho que vou me aposentar no final de 2022, talvez antes. Mas posso dizer que fui prejudicado tanto na era petista como na bolsonarista. Há uma grande diferença entre elas: os bolsonaristas são vingativos e mesquinhos. O PT me deixou fora do Itamaraty por treze anos e meio. Fui vetado e enviado para o departamento de escadas e corredores. Fiquei no limbo. Por dez anos, fiquei sem nenhum cargo na Secretaria de Estado. O Celso Amorim, ex-chanceler, tinha horror a mim, porque eu publicava e dizia o que pensava. Ele vetou uma promoção minha. Os petistas diziam que eu era ‘neoliberal’. Em 2014, eu publiquei o livro Nunca Antes na Diplomacia, com uma crítica pesada ao petismo. Com o bolsonarismo foi distinto. Em 2019, quando eu publiquei no meu blog um artigo do Fernando Henrique Cardoso, um do Rubens Ricupero e outro do Ernesto Araújo, eles me demitiram das funções que exercia. Mas, enquanto os petistas não me colocaram em lugar algum, os bolsonaristas quiseram me humilhar. Eles me mandaram para a Divisão de Arquivos. Então eu fiquei lá na biblioteca, sem função. Em 2019, eu publiquei um pequeno livro intitulado Miséria da Diplomacia: a Destruição da Inteligência no Itamaraty. Decidiram me retaliar. Sem que eu soubesse, eles foram computando minhas faltas. Em muitas delas, eu estava em bancas acadêmicas em São Paulo, em Curitiba, dando palestras. Uma vez, eu estava com o próprio Ernesto Araújo, no Ministério da Defesa, e eles me deram falta. Eu justifiquei e não aceitaram. Mais recentemente, passaram a me cobrar por horas não trabalhadas. Já tive um prejuízo de mais de 40 mil reais com eles. Só não conseguiram me demitir por justa causa porque veio a pandemia.

 

O Itamaraty, afinal, falhou na compra de vacinas?

Não, o Itamaraty, como instituição, não falhou na aquisição de vacinas pela simples razão que nunca lhe foi dada essa atribuição. O problema foi a oposição do presidente a uma ação vigorosa nessa frente. Araújo apenas se submeteu a isso. O governo falhou por inteiro em todas as fases, etapas e configurações de um enfrentamento sério da pandemia. O quadro de miséria moral existente nesse setor está na origem da tragédia acumulada em número de mortos e outras vítimas da Covid-19, por uma indiferença perversa. Tanto o Itamaraty não falhou que o novo chanceler proclamou, em seu conciso e objetivo discurso de posse, que sua primeira preocupação será com uma diplomacia da vacina, colocando os postos a serviço dessa meta.

 

Isso pode fazer diferença no combate à pandemia no Brasil?

Ainda estamos numa situação diferente da dos demais países, onde o combate à pandemia recebe o inteiro apoio dos chefes de governo ou de estado. Isso não é uma realidade no Brasil. Bolsonaro segue com a mesma indiferença perversa. Na verdade, em temas de interesse global – meio ambiente, desenvolvimento, cooperação regional, comércio internacional, direitos humanos, novas fronteiras dos direitos coletivos –, o Itamaraty sempre exerceu um protagonismo digno de nota, sendo conhecido pelos seus esforços de mediar interesses de países avançados e em desenvolvimento, num esforço notável em foros multilaterais. Não fosse este governo, o Brasil teria provavelmente liderado uma iniciativa de coordenação global contra a pandemia, unindo cooperação bilateral, regional, multilateral, em todos os foros e instâncias abertas ao engenho e à arte de nossa diplomacia.

 

https://crusoe.com.br/edicoes/164/mudanca-a-forca/

  

Novo Livro de Claudio de Moura Castro: Sucessos e Fracassos da Educação Brasileira

Tenho em meu computador (ou melhor, na nuvem) uma enorme pasta (aliás várias, de anos passados também) chamada simplesmente Exchange, na qual figuram dezenas de outras pastas, em ordem alfabética, de todos os meus contatos acadêmicos, de trabalho, para todos os objetivos. Uma dessas pastas se chama Claudio Moura Castro, cujos trabalhos eu sigo desde os anos 1980, quando nos conhecemos em Genebra, ele na OIT, eu na Delegação do Brasil junto aos organismos internacionais. Nunca deixei, desde então, de ler e guardar todos os trabalhos, praticamente semanais, que ele publicava como artigos na imprensa brasileira ou internacional.

É possível que eu já tenha lido vários dos capítulos deste livro, mas ainda assim vou comprá-lo, para reler muitas pílulas de sabedoria sobre a educação brasileira e internacional.

Seria a guerra no Irã o começo do fim do Império? - Alfred W. McCoy (CounterPunch, Outras Palavras)

Seria a guerra no Irã o começo do fim do Império?

Se a Crise de Suez, em 1956, marcou o fim do império britânico, talvez a aventura de Washington no Oriente Médio seja sintoma de seu declínio. Tudo saiu ao contrário do planejado. Talvez, no futuro, Trump seja lembrado como o maníaco que afundou os próprios EUA…

Outras Palavras, 17/03/2026 

Por Alfred W. McCoy, no CounterPunch | Tradução: Antonio Martins

No primeiro capítulo de seu romance de 1874, A Era Dourada, Mark Twain ofereceu uma observação reveladora sobre a conexão entre passado e presente: “A história nunca se repete, mas o presente muitas vezes parece ser construído a partir dos fragmentos quebrados de lendas antigas.”

Entre as “lendas antigas” mais úteis para entender o provável desfecho da atual intervenção dos EUA no Irã está a Crise de Suez de 1956, que descrevo em meu novo livro, Guerra Fria em Cinco Continentes. Depois que o líder egípcio Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez em julho de 1956, uma armada conjunta franco-britânica de seis porta-aviões destruiu a força aérea egípcia, enquanto tropas israelenses esmagavam tanques egípcios nas areias da Península do Sinai. Em menos de uma semana de guerra, Nasser havia perdido suas forças estratégicas e o Egito parecia indefeso diante do poderio avassalador daquele colosso imperial.

Mas, quando as forças anglo-francesas invadiram a costa norte do Canal de Suez, Nasser já havia executado uma jogada geopolítica magistral, afundando dezenas de navios enferrujados e cheios de pedras na entrada norte do canal. Com isso, ele cortou automaticamente a principal fonte de abastecimento de petróleo da Europa, que ficava no Golfo Pérsico. Quando as forças britânicas se retiraram derrotadas de Suez, a Grã-Bretanha já havia sido sancionada pela ONU, sua moeda estava à beira do colapso, sua aura de poder imperial havia se dissipado e seu império global caminhava para a extinção.

Os historiadores agora se referem ao fenômeno de um império em declínio lançando uma intervenção militar desesperada para recuperar sua glória imperial em declínio como “micromilitarismo”. E, na esteira da influência cada vez menor do império Washington sobre a vasta massa continental da Eurásia, o recente ataque militar dos EUA ao Irã começa a se parecer com uma versão norte-americana desse micromilitarismo.

Mesmo que a história nunca se repita de fato, neste momento parece bastante pertinente questionar se a atual intervenção dos EUA no Irã não seria, de fato, a versão norte-americana da Crise de Suez. E, caso a tentativa de Washington de promover uma mudança de regime em Teerã “tenha sucesso”, não se iluda pensando que o resultado será um novo governo estável e capaz de servir bem ao seu povo.

70 anos de mudança de regime

Vamos retornar ao registro histórico para desvendar as prováveis consequências de uma mudança de regime no Irã. Ao longo dos últimos 70 anos, Washington fez repetidas tentativas de mudança de regime em cinco continentes — inicialmente por meio de ações secretas da CIA durante os 44 anos da Guerra Fria e, nas décadas posteriores ao fim desse conflito global, por meio de operações militares convencionais. Embora os métodos tenham mudado, os resultados — mergulhando as sociedades afetadas em décadas de intensos conflitos sociais e instabilidade política incessante — foram lamentavelmente semelhantes. Esse padrão pode ser observado em algumas das intervenções secretas mais famosas da CIA durante a Guerra Fria.

Em 1953, o novo parlamento iraniano decidiu nacionalizar a concessão petrolífera imperial britânica na região para financiar serviços sociais para a sua democracia emergente. Em resposta, um golpe conjunto da CIA e do MI6 depôs o primeiro-ministro reformista e instalou no poder o filho do antigo Xá, há muito deposto. Infelizmente para o povo iraniano, ele provou ser um líder extremamente inepto, que transformou a riqueza petrolífera do país em pobreza em massa — precipitando, assim, a Revolução Islâmica do Irã em 1979.

Em 1954, a Guatemala implementava um programa histórico de reforma agrária que concedia à sua população indígena, majoritariamente maia, os requisitos necessários para a plena cidadania. Infelizmente, uma invasão patrocinada pela CIA instaurou uma brutal ditadura militar, mergulhando o país em 30 anos de guerra civil que deixou 200 mil mortos em uma população de apenas cinco milhões.

De forma semelhante, em 1960, o Congo emergiu de um século de brutal domínio colonial belga ao eleger um líder carismático, Patrice Lumumba. Mas a CIA logo o depôs do poder, substituindo-o por Josef Mobutu, um ditador militar cuja cleptocracia, ao longo de 30 anos, desencadeou uma violência que levou à morte de mais de cinco milhões de pessoas na Segunda Guerra do Congo (1998-2003) e continua a causar estragos até hoje.

Nas últimas décadas, os resultados das tentativas de Washington de promover mudanças de regime por meio de operações militares convencionais foram igualmente desastrosos. Após os ataques terroristas de setembro de 2001, as forças norte-americanas derrubaram o regime talibã no Afeganistão. Nos 20 anos seguintes, Washington gastou US$ 2,3 trilhões — e não, esse “trilhão” não é um erro de digitação! — em um esforço fracassado de reconstrução nacional, que foi varrido quando o Talibã ressurgente capturou a capital, Cabul, em agosto de 2021, mergulhando o país em uma mistura de patriarcado opressivo e privação em massa.

Em 2003, Washington invadiu o Iraque em busca de armas nucleares inexistentes e mergulhou no atoleiro de uma guerra de 15 anos que levou ao massacre de um milhão de pessoas e deixou para trás um governo autocrático que se tornou pouco mais que um estado cliente do Irã. E, em 2011, os EUA lideraram uma campanha aérea da OTAN que derrubou o regime radical do Coronel Muammar Gaddafi na Líbia, precipitando sete anos de guerra civil e, por fim, deixando o país dividido entre dois estados falidos e antagônicos.

Quando as tentativas de Washington de promover mudanças de regime fracassam, como aconteceu em Cuba em 1961 e na Venezuela no ano passado, esse fracasso muitas vezes deixa os regimes autocráticos ainda mais entrincheirados, com seu controle sobre a polícia secreta do país fortalecido e um domínio cada vez mais sufocante sobre a economia nacional.

Por que, você pode se perguntar, essas intervenções dos EUA invariavelmente parecem produzir resultados tão desastrosos? Para sociedades que lutam para alcançar uma frágil estabilidade social em meio a mudanças políticas voláteis, a intervenção externa, seja secreta ou aberta, parece ser invariavelmente o equivalente a bater em um relógio de bolso antigo com um martelo e depois tentar encaixar todas as suas engrenagens e molas de volta no lugar.

As consequências geopolíticas da guerra com o Irã

Ao explorar as implicações geopolíticas da mais recente intervenção de Washington no Irã, é possível imaginar como a guerra escolhida pelo presidente Donald Trump pode muito bem se tornar a versão de Washington da crise de Suez.

Assim como o Egito arrancou uma vitória diplomática das garras da derrota militar em 1956 ao fechar o Canal de Suez, o Irã agora bloqueou o outro ponto de estrangulamento crítico do Oriente Médio, disparando seus drones Shahed contra cinco navios cargueiros no Estreito de Ormuz (por onde passam regularmente 20% do petróleo bruto e gás natural do mundo) e contra refinarias de petróleo na costa sul do Golfo Pérsico. Os ataques com drones iranianos bloquearam mais de 90% das partidas de petroleiros do Golfo Pérsico e paralisaram as gigantescas refinarias do Catar, responsáveis por 20% da oferta mundial de gás natural liquefeito (GNL), fazendo com que os preços do gás natural disparassem 50% em grande parte do mundo e 91% na Ásia — com o preço da gasolina nos EUA caminhando para US$ 4 por galão e o custo do petróleo provavelmente atingindo a impressionante marca de US$ 150 por barril em um futuro próximo. Além disso, por meio da conversão de gás natural em fertilizante, o Golfo Pérsico é a fonte de quase metade dos nutrientes agrícolas do mundo, com os preços do fertilizante ureia subindo 37% em mercados como o Egito, o que ameaça tanto o plantio da primavera no hemisfério norte quanto a segurança alimentar no hemisfério sul.

A extraordinária concentração da produção de petróleo, do transporte marítimo internacional e do investimento de capital no Golfo Pérsico faz do Estreito de Ormuz não apenas um ponto de estrangulamento para o fluxo de petróleo e gás natural, mas também para a movimentação de capital de toda a economia global. Para começar pelo básico, o Golfo Pérsico detém cerca de 50% das reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em 859 bilhões de barris ou, aos preços atuais, cerca de US$ 86 trilhões.

Para se ter uma ideia da escala da concentração de capital na infraestrutura da região, as companhias petrolíferas nacionais do Conselho de Cooperação do Golfo investiram US$ 125 bilhões em suas instalações de produção somente em 2025, com planos de manter esse ritmo no futuro próximo. Para manter em operação a frota global de 7.500 petroleiros que atende principalmente o Golfo Pérsico, o custo de um único grande petroleiro “Suezmax” é de quase US$ 100 milhões — dos quais existem cerca de 900 normalmente em alto-mar, avaliados em um total de US$ 90 bilhões (com frequentes substituições necessárias devido à corrosão do aço em condições marítimas adversas). Além disso, Dubai possui o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, no centro de uma rede global com 450 mil voos anuais — atualmente fechado devido a ataques de drones iranianos.

Apesar de toda a propaganda da Casa Branca sobre a terrível e rápida ameaça dos recentes ataques aéreos norte-americanos, os 3 mil bombardeios EUA-Israel contra o Irã (que tem dois terços do tamanho da Europa Ocidental) na primeira semana da guerra empalidecem diante dos 1,4 milhão de bombardeios sobre a Europa durante a Segunda Guerra Mundial. O contraste gritante entre esses números faz com que os atuais ataques aéreos dos EUA contra o Irã pareçam, de uma perspectiva estratégica, como atirar em um elefante com uma espingarda de chumbinho.

Além disso, os EUA possuem estoques limitados de cerca de 4 mil mísseis interceptores, que custam até US$ 12 milhões cada e não podem ser produzidos em massa rapidamente. Em contrapartida, o Irã tem um suprimento quase ilimitado de cerca de 80 mil drones Shahed, dos quais 10 mil podem ser produzidos mensalmente por apenas US$ 20 mil cada. Na prática, o tempo não está a favor de Washington se esta guerra se prolongar por mais de algumas semanas.

De fato, em uma entrevista recente, pressionado sobre a possibilidade de que a vasta frota iraniana de drones Shahed, lentos e de baixa altitude, pudesse em breve esgotar o estoque norte-americano de sofisticados mísseis interceptores, o chefe do Pentágono, general Dan Caine, foi surpreendentemente evasivo, dizendo apenas: “Não quero falar sobre quantidades”.

De quem são as botas no terreno?

Enquanto as pressões econômicas e militares por uma guerra mais curta aumentam, Washington tenta evitar o envio de tropas para terra firme, mobilizando as minorias étnicas do Irã, que representam cerca de 40% da população do país. Como o Pentágono sabe silenciosamente, mas dolorosamente, as forças terrestres norte-americanas enfrentariam uma resistência formidável da milícia Basij, com um milhão de membros, dos 150 mil Guardas Revolucionários (bem treinados para guerra de guerrilha assimétrica) e dos 350 mil soldados do exército regular iraniano.

Com outros grupos étnicos (como os azeris no norte) relutantes ou (como as tribos balúchis no sudeste, longe da capital) incapazes de atacar Teerã, Washington está desesperado para usar sua carta curda, assim como tem feito nos últimos 50 anos. Com uma população de 10 milhões de pessoas ao longo das fronteiras montanhosas da Síria, Turquia, Iraque e Irã, os curdos são o maior grupo étnico do Oriente Médio sem um Estado próprio. Como tal, eles têm sido forçados a participar do Grande Jogo imperial, o que os torna um indicador surpreendentemente sensível a mudanças mais amplas na influência imperial.

Embora o presidente Trump tenha feito ligações pessoais para os principais líderes da região do Curdistão iraquiano durante a primeira semana da guerra, oferecendo-lhes “ampla cobertura aérea dos EUA” para um ataque ao Irã, e os EUA até possuam uma base aérea militar em Erbil, capital do Curdistão, os curdos estão se mostrando, até agora, excepcionalmente cautelosos.

De fato, Washington tem um longo histórico de usar e abusar de combatentes curdos, que remonta aos tempos do Secretário de Estado Henry Kissinger, que transformou a traição deles em uma arte diplomática. Após ordenar à CIA que parasse de ajudar a resistência curda iraquiana contra Saddam Hussein em 1975, Kissinger disse a um assessor: “Prometa a eles qualquer coisa, dê a eles o que eles receberem e que se danem se não souberem levar uma brincadeira na esportiva.”

Enquanto as forças iraquianas lutavam para invadir o Curdistão, matando centenas de curdos indefesos, seu lendário líder Mustafa Barzani, avô do atual chefe do Curdistão iraquiano, implorou a Kissinger, dizendo: “Vossa Excelência, os Estados Unidos têm uma responsabilidade moral e política para com o nosso povo”. Kissinger sequer se dignou a responder a esse apelo desesperado e, em vez disso, disse ao Congresso: “Ações secretas não devem ser confundidas com trabalho missionário”.

Em janeiro passado, numa decisão incrivelmente inoportuna, a Casa Branca de Trump traiu os curdos pela enésima vez, rompendo a aliança de uma década de Washington com os curdos sírios ao forçá-los a ceder 80% do território ocupado. No sudeste da Turquia, o partido curdo radical PKK fez um acordo com o primeiro-ministro Recep Erdoğan e está, de fato, se desarmando, enquanto a região do Curdistão iraquiano se mantém fora da guerra, respeitando um acordo diplomático firmado com Teerã em 2023 para uma fronteira pacífica entre Irã e Iraque. O presidente Trump chegou a pedir a pelo menos um líder curdo iraniano, que representa cerca de 10% da população do Irã, que incentivasse uma revolta armada. Mas a maioria dos curdos iranianos parece mais interessada na autonomia regional do que na mudança de regime.

Enquanto os apelos de Trump para que os curdos ataquem e o povo iraniano se levante são recebidos com um silêncio eloquente, Washington provavelmente encerrará esta guerra com o regime islâmico do Irã ainda mais consolidado, mostrando ao mundo que os Estados Unidos não são apenas uma potência disruptiva, mas uma potência em declínio da qual outras nações podem prescindir. Ao longo dos últimos 100 anos, o povo iraniano se mobilizou seis vezes em tentativas de estabelecer uma democracia real. Neste momento, porém, parece que qualquer sétima tentativa ocorrerá muito depois de a atual frota naval americana ter deixado o Mar Arábico.

Do granular ao geopolítico

Se formos além dessa visão granular da política étnica do Irã e adotarmos uma perspectiva geoestratégica mais ampla sobre a guerra com o Irã, a influência decrescente de Washington nas colinas do Curdistão parece refletir seu declínio geopolítico em toda a vasta massa continental da Eurásia, que permanece hoje o epicentro do poder geopolítico, como tem sido nos últimos 500 anos.

Por quase 80 anos, os Estados Unidos mantiveram sua hegemonia global controlando as extremidades axiais da Eurásia por meio de sua aliança com a OTAN na Europa Ocidental e quatro pactos bilaterais de defesa ao longo do litoral do Pacífico, do Japão à Austrália. Mas agora, à medida que Washington concentra mais sua política externa no Hemisfério Ocidental, a influência norte-americana está diminuindo rapidamente ao longo do vasto arco da Eurásia que se estende da Polônia, passando pelo Oriente Médio, até a Coreia, região que estudiosos de geopolítica como Sir Halford Mackinder e Nicholas Spykman certa vez denominaram “Rimland” ou “zona de conflito”. Como Spykman resumiu sucintamente em certa ocasião: “Quem controla o Rimland controla a Eurásia; quem controla a Eurásia controla os destinos do mundo.”

Desde a ascensão da política externa “América Primeiro” de Donald Trump em 2016, as grandes e médias potências ao longo de toda a orla eurasiática têm se desvinculado ativamente da influência dos EUA — incluindo a Europa (por meio do rearme), a Rússia (ao desafiar o Ocidente na Ucrânia), a Turquia (ao permanecer neutra na guerra atual), o Paquistão (ao se aliar à China), a Índia (ao romper com a aliança Quad de Washington) e o Japão (ao se rearmar para criar uma política de defesa autônoma). Esse desengajamento contínuo se manifesta na falta de apoio à intervenção no Irã, mesmo por parte de aliados europeus e asiáticos outrora próximos — um contraste marcante com as amplas coalizões que se uniram às forças norte-americanas na Guerra do Golfo de 1991 e na ocupação do Afeganistão em 2002. Com o micromilitarismo de Trump no Irã expondo, inadvertidamente, mas claramente, os limites do poder norte-americano, a influência decrescente de Washington na Eurásia certamente se provará catalisadora para o surgimento de uma nova ordem mundial, que provavelmente irá muito além da antiga ordem de hegemonia global dos EUA.

Assim como Sir Anthony Eden é lembrado com pesar hoje no Reino Unido como o primeiro-ministro inepto que destruiu o Império Britânico em Suez, historiadores do futuro poderão ver Donald Trump como o presidente que degradou a influência internacional dos EUA com, entre outras coisas, sua desastrosa aventura militar no Oriente Médio. À medida que impérios ascendem e caem, essa geopolítica permanece claramente um fator constante na definição de seu destino — uma lição que tento transmitir em Guerra Fria em Cinco Continentes.

Em tempos difíceis como estes, quando os acontecimentos parecem confusos e desconcertantes, os “fragmentos quebrados de lendas antigas” de Mark Twain podem nos lembrar de analogias históricas, como o colapso do poder e da influência da Grã-Bretanha ou da União Soviética, que podem nos ajudar a entender como o passado muitas vezes sussurra ao presente — como de fato parece estar acontecendo nestes dias no Estreito de Ormuz.

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Posse de André Heráclio do Rego como mais novo membro da Academia Pernambucana de Letras

 O historiador é também um escritor, ou, para ser um bom historiador há que escrever bem, e isso o torna competente e conhecido nos meios literários e na academia. André Heráclio não só é um bom historiador, como um diplomata competente, mas também um fino analista de nosso itinerário político, que deita raízes em Pernambuco, desde o século XVII pelo menos.



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