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domingo, 25 de janeiro de 2026

Outra Grande Depressão? O império que aprendeu a não cair - Johnny Jara Jaramillo Revista Será?

Outra Grande Depressão? O império que aprendeu a não cair
Por Johnny Jara Jaramillo
Revista Será?, jan 23, 2026
https://revistasera.info/2026/01/outra-grande-depressao-o-imperio-que-aprendeu-a-nao-cair/

Cada época acredita viver uma crise inédita. E, no entanto, a história insiste em retornar — não como cópia, mas como eco. A pergunta que reaparece hoje — nos Estados Unidos e, por extensão, no mundo — não é se estamos diante de outra Grande Depressão, mas algo mais inquietante: o que acontece quando um sistema aprende a sobreviver até mesmo à própria ruína?

A comparação com os anos 1930 não é arbitrária. Naquele momento, como agora, o capitalismo atravessava uma fase de concentração extrema de riqueza, uma fé quase teológica no mercado e uma desconexão alarmante entre a economia real e a vida da maioria. Wall Street prosperava enquanto o chão social se desfazia. Hoje, os índices bursáteis batem recordes enquanto milhões vivem endividados, precarizados, sem acesso real à moradia, à saúde ou a qualquer horizonte de futuro. O “sucesso econômico” volta a ser uma narrativa contada de cima.

Calvin Coolidge, um dos presidentes mais discretos — e talvez mais sinceros — do século XX norte-americano, disse sem pudor: “The business of America is business”. Não era metáfora; era confissão. Essa frase, pronunciada pouco antes do colapso de 1929, continua funcionando como chave moral do império. A política como extensão dos interesses corporativos; a democracia como cenário; a vida humana como dano colateral.

A Grande Depressão, porém, produziu uma ruptura. O colapso foi tão brutal que obrigou o sistema a se reformar para não ser destruído. O New Deal não nasceu da compaixão, mas do medo: medo da revolução, da desobediência, do colapso total. O Estado interveio não por convicção ética, mas para salvar o capitalismo de si mesmo.

Hoje, essa possibilidade parece mais distante. Não porque as injustiças sejam menores, mas porque o sistema desenvolveu mecanismos sofisticados para administrar a crise sem colapsar. Dívida infinita, emissão monetária permanente, financeirização extrema, guerras contínuas e um poderoso aparato de controle narrativo permitem adiar o estouro. O sofrimento não desaparece: ele se fragmenta, se normaliza, é exportado para o Sul global ou convertido em culpa individual.

Ao contrário dos anos 1930, vivemos numa era de vigilância digital, manipulação algorítmica e polarização dirigida. A raiva social já não se organiza facilmente contra o poder econômico; ela se dispersa em guerras culturais, identitárias, ou na fabricação constante de inimigos externos. O conflito é encenado para que jamais aponte para o centro.

Há ainda uma diferença decisiva: o contexto global. A Grande Depressão foi, em grande medida, uma crise do mundo ocidental. A atual é planetária — atravessada pela crise climática, pelo esgotamento dos recursos, por deslocamentos humanos massivos e por uma ordem multipolar que já não obedece docilmente a Washington. O império segue poderoso, mas deixou de ser indiscutível. E isso o torna mais agressivo.

Talvez, portanto, não estejamos diante de uma nova Grande Depressão no sentido clássico. O que vivemos se assemelha mais a uma depressão lenta, prolongada, administrada. Uma crise sem clímax, em que a exceção vira norma e a precariedade, paisagem. Um mundo cansado — não exatamente em colapso.

A pergunta decisiva não é econômica, mas política e moral: ainda existe um limite que o sistema tema atravessar?
Ou entramos numa fase em que o poder acredita poder sobreviver até mesmo ao desastre?

Aí reside a diferença mais inquietante em relação aos anos 1930. E também o desafio do nosso tempo: pensar, nomear e resistir num mundo em que a queda já não é necessária para que tudo continue igual. 

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