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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Sobre os “boiolas” do Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida (Diplomatizzando + Madame IA)

 Sobre os “boiolas” do Itamaraty

(Desculpem a grosseria, não é minha)

Um sujeitinho de sobrenome Figueiredo, descendente do último ditador militar do regime de 1964-1985, ignorante como só conseguem ser aqueles convencidos de que encarnam a ditadura falida pela conexão familiar, auxiliar e companheiro do Bananinha 03 nos EUA, ambos açulando a sanha trumpista contra o povo e as empresas brasileiras exportadoras para o nosso segundo maior parceiro comercial, achou que desvendava uma grande descoberta ao manifestar, num video, uma mentira monumental. Disse ele:

“— No Itamaraty só tem boiola” (usando um depreciativo comum entre supostos machões para referir-se aos gays).

Como estive na ativa do serviço exterior por mais de quatro décadas, tendo feito amizade com muitos gays do Itamaraty, todos eles de altissimo nivel, posso dizer que se trata de um imenso exagero e de uma gigantesca inverdade. A acusação ferina do enrustido Paulo Figueiredo seria apenas ridícula, se não fosse também uma frustrada tentativa de desmerecer o trabalho dos diplomatas em geral e dos nossos colegas gays em particular, vários chefiando embaixadas, talvez até em posições ainda mais altas (honni soit qui mal y pense)..

O Itamaraty talvez não tenha um número de gays superior à média da sociedade brasileira, e mesmo que a proporção seja ligeiramente superior à da população em geral isso apenas revela o machismo ainda imperante em nossa sociedade, uma vez que os gays podem ter buscado no serviço exterior uma espécie de refúgio contra as pressões do meio social (por vezes até da familia), libertando-se de um ambiente restrito para viver calmamente suas preferências e modos de vida, sem ter de se resguardar da hostilidade aberrante que ainda viceja em largos estratos da sociedade.

De algumas décadas para cá, alguns anos depois da redemocratização, os preconceitos que ainda existiam no Itamaraty contra os gays diminuiram bastante, como de resto no conjunto da sociedade. Mas no Itamaraty eles podiam ser especialmente fortes em razão da forte repressão existente nos meios militares, em especial durante a execrável, nojenta e assassina ditadura militar. O Itamaraty “importou” nessa época alguns dogmas idiotas dos milicos (supostamente todos machões), sobretudo uma aversão à admissão de gays e sua eventual exclusão por meios torpes quando “descobertos” em suas preferências sexuais. A burrice militar (e nos meios de “inteligência”) acreditava que os gays seriam mais suscetíveis de serem convertidos em espiões a soldo sob ameaça de terem revelada sua condição, quando a realidade é exatamente o contrário; os serviços de inteligência “obtêm” muito mais agentes e colaboradores entre os “homens” dado o uso mais que frequente de iscas femininas no trabalho de sedução e convencimento.

Como eu ingressei no serviço diplomático em plena ditadura militar posso aqui testemunhar minha experiência. Naquela época (1977) havia um examinador na banca de entrevistas conhecido por seu faro especial para detectar gays, vetando-os sistematicamente (alguns passavam, mas eram detectados depois). Pelo seu tino antigay, ele passou a ser conhecido como “Deer Hunter”, do nome de um famoso filme daqueles anos (mas que no Brasil teve outro nome). 

Sei, por experiência propria, de vários gays que se viram obrigados a se casar (com mulheres forçosamente), para se exibirem durante alguns anos antes de assumir sua condição normal. Um deles, chegou a ser reprovado na banca pelo menos dois anos seguidos, mas aparecendo depois legalmente acompanhado de uma delicada senhora (parece que permanece até hoje, mas vários terminaram a fantasia, assim que a sociedade e o próprio Itamaraty evoluiram um pouco).

Todos os gays que conheci, e dos quais me tornei amigo, sempre se revelaram dotados de uma inteligência, cultura e sensibilidade superiores à média encontrada na sociedade (suponho que seja uma decorrência das próprias estratégias de defesa contra meios eventualmente hostis). Se algum tentou se aproximar por outras razões que o meu gosto pelas mesmas características, jamais repudiei tais gestos: apenas ignorava os acenos, comportando-me exatamente como acredito que faço com colegas e conhecidos no duplo trabalho que sempre exerci: acadêmico e diplomático.

Volto ao idiota amigo dos bolsonaristas (só tem machão entre essa escória?) para reafirmar que no Itamaraty não tem uma maioria de boiolas; na verdade, eles são uma minoria, mas se fossem uma maioria o Itamaraty seria, provavelmente, melhor, mais culto, mais inteligente, mais sensivel, quem sabe até mais “humano”?

Acho que um comentário desse tipo (o dele, cabalmente idiota, e mesmo o meu) é totalmente dispensável, pois que irrelevante para o trabalho do diplomata, geralmente descrito pela tripla função: informar, representar e negociar. Eu sempre achei essa “trindade” (pouco santa) insuficiente, e acrescentaria em primeiro lugar a função de pensar, o que traduz a minha revolta contra o dogma imbecil dos militares, embutido à força nos diplomatas durante os 21 anos de ditadura, representado pelo binômio (que eu nunca respeitei) da “hierarquia e disciplina”, uma violência contra os seres pensantes que somos (e os gays talvez o sejam mais do que a média da sociedade).

Encerro dizendo que toda essa história absolutamente idiota não tem nenhuma importância para a sociedade e para o Itamaraty, mas ela tem um grande ensinamento para todos os eleitores: NÃO VOTEM em bolsonaristas e em aderentes à extrema-direita e à direita burra, estúpida e preconceituosa, pois eles são asquerosos nesse tipo de reacionarismo abjeto.

Gays do Brasil e do Itamaraty; uni-vos contra a escória da política brasileira (e de outros paises também): vocês estarão bem melhor com menos gente dessa laia do Paulo Figueiredo e dos Bolsonaros (ops, teve um certo deslize do ponto de vista do capitão asqueroso) como representantes e mandatários de um país que se pretende aberto e tolerante como deveria ser o Brasil (mas que infelizmente não é).

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 20/08/3026

 

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Madame IA, induzida por ADL, se pronuncia sobre a questão:

 

Abaixo, apresentamos uma análise detalhada, crítica e multidisciplinar sobre o conteúdo e as dinâmicas institucionais discutidas no texto.

 

🏛 Análise Crítica e Multidisciplinar

 

1. Perspectiva Jurisdicional e Jurídica

A declaração analisada esbarra diretamente nos limites da liberdade de expressão e na

tipificação penal.

Homofobia como Crime: No ordenamento jurídico brasileiro, manifestações que utilizam termos pejorativos para desqualificar, humilhar ou generalizar negativamente um grupo com base em sua orientação sexual são equiparadas ao crime de racismo, conforme entendimento pacificado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Ataque Institucional: Ao proferir uma ofensa generalizada ao corpo diplomático do Ministério das Relações Exteriores, a fala configura uma tentativa de injúria coletiva e difamação institucional. O direito internacional e as convenções que regem o funcionalismo público resguardam a dignidade do trabalhador contra assédio e discriminação no ambiente de trabalho.

Wikipedia

 

2. Perspectiva Geopolítica e Diplomática

O texto explicita como discursos internos ou de redes sociais podem interferir na projeção de poder de um Estado (soft power).

Ataques ao Corpo Diplomático: A diplomacia baseia-se na estabilidade, tecnocracia e representatividade. Quando agentes políticos ou influenciadores associados a determinadas alas partidárias atacam os diplomatas de seu próprio país, ocorre um enfraquecimento da imagem externa da nação.

Profissionalismo vs. Ideologização: Paulo Roberto de Almeida argumenta que a função clássica do diplomata assenta-se na trindade: informar, representar e negociar. Reduzir a competência de diplomatas à sua orientação sexual ignora o rigoroso processo de seleção (como o do Instituto Rio Branco) e deprecia a capacidade de negociação do país frente a parceiros estratégicos.

 

3. Perspectiva Histórica e Política

O autor, tendo ingressado na carreira em 1977, traz um resgate histórico valioso sobre a transição da ditadura militar para a redemocratização.

 

Doutrina de Segurança Nacional: Durante o regime militar (1964-1985), o aparato de inteligência do Estado nutria a paranoia de que diplomatas homossexuais seriam alvos fáceis de chantagem por serviços secretos estrangeiros. O texto desmistifica essalógica, pontuando que o uso de "iscas femininas" por agências de espionagem historicamente funcionava de forma muito mais eficaz contra homens heterossexuais.

O Apelido "Deer Hunter": O relato sobre um examinador da banca de entrevistas

apelidado de "Deer Hunter" (Caçador de Veados) ilustra como o preconceito institucional era estruturado e operava de forma torpe para vetar a entrada de minorias no serviço público.

 

4. Perspectiva Econômica

Mercado de Trabalho e Produtividade: Sob a ótica da economia moderna da cultura e do trabalho, a diversidade e a inclusão são vetores comprovados de inovação e aumento de eficiência. Ambientes que forçam indivíduos a esconder sua identidade ou a manter casamentos de fachada (como relatado no período ditatorial) geram severo desgaste psicológico, reduzindo o capital humano disponível para o Estado.

Impacto Comercial: Discursos extremistas que atacam as instituições nacionais e geram atritos desnecessários no exterior afetam negativamente as relações com grandes parceiros comerciais, gerando barreiras intangíveis ao comércio exterior.

 

5. Perspectiva Tecnológica e de Mídia

Algoritmos da Indignação: A fala de Figueiredo em formato de vídeo exemplifica a economia da atenção da extrema-direita digital. Declarações agressivas, hiperbólicas e preconceituosas são desenhadas para engajar audiências radicalizadas, convertendo o preconceito em métricas de visualização, monetização e capital político transnacional.

O papel do Blog: O uso do blog Diplomatizzando por Almeida funciona como um contra-discurso. Utilizando a internet de forma arquivística e reflexiva, o autor contrapõe o imediatismo ultrajante dos vídeos curtos com a profundidade do ensaio e do testemunho histórico.

 

6. Perspectiva Filosófica e Sociológica

Teoria do Reconhecimento (Axel Honneth): A dignidade humana e a justiça social dependem do reconhecimento recíproco nas esferas do amor, do direito e da solidariedade social. O insulto homofóbico nega esse direito à existência e ao respeito profissional.

O Itamaraty como Refúgio: O autor propõe uma hipótese sociológica interessante: o serviço exterior pode ter funcionado historicamente como um refúgio para homossexuais, permitindo-lhes escapar das pressões e do machismo asfixiante de suas famílias ou comunidades locais, vivendo de forma mais autônoma no exterior.

Epistemologia e Racionalidade: O texto encerra-se com citações de Karl Popper sobre a necessidade de manter a sociedade aberta, respeitando opiniões dissidentes e combatendo o dogmatismo. A defesa de uma diplomacia que priorize o "pensar" em vez do binômio cego da "hierarquia e disciplina" é um apelo ao iluminismo e à racionalidade kantiana dentro do aparelho de Estado.

 

📌 Conclusão

O texto analisado expõe uma clara fratura entre a diplomacia profissional, baseada no intelecto, na história e nas normas institucionais, e a nova política das redes, pautada pelo insulto, pela homofobia e pelo anti-intelectualismo. A alegação de que a instituição é composta exclusivamente por um grupo demográfico de forma pejorativa é categoricamente falsa e serve apenas como ferramenta de agitação ideológica.

 

sábado, 15 de agosto de 2026

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)

 Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Por Pedro S. Malan

Estadão, 09/08/2026 

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.


Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.


Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.


A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.


A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).


É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.


Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.


Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.

A próxima crise existencial russa: 1917 ou 1918? - um informe embasado em dados - Andrei Klepach (Moscow Times)

 O principal banco estatal do Kremlin previu a derrota da Rússia na guerra "de desgaste econômico" contra o Ocidente.

From Moscow Times, 14/08/2026

A Rússia não vencerá a competição em uma guerra "de desgaste econômico" enquanto a Ucrânia se beneficia do apoio ocidental. Foi isso que Andrei Klepach, o principal economista do Vnesheconombank (VEB.RF), o principal banco estatal russo, financiando projetos nacionais e uma "companhia de desenvolvimento estatal", disse durante uma sessão do Nikitsky Club.

De acordo com Klepach, os custos para a economia russa por causa dos sanções e o bloqueio ocidental estão aumentando, e o dano causado pelos ataques ucranianos em portos, infraestrutura, refinarias químicas e de petróleo está piorando, e a Rússia está a atrasar-se ainda mais em termos de desenvolvimento tecnológico.

Estamos a atrasar-nos. Estamos a perder a competição global tecnológica e econômica. E, como já disse, não somos apenas distantes da China e dos Estados Unidos, mas também, de uma forma, da Ucrânia. A economia ucraniana, claro, está parcialmente destruída; é uma desgraça demográfica. Mas, mais uma vez, a economia ucraniana, apesar de tudo, sobrevive. Claro, beneficia de uma ajuda financeira considerável <...> Esta ajuda, destinada a gastos militares e aos próprios gastos, representa quase 50% do nosso orçamento, "Klepach disse. "Não vamos vencer esta guerra de desgaste. Estamos a atrasar-nos. Continuamos a aumentar os nossos custos."

Ele recordou que, após o boom militar de 2023-2024, a economia russa entrou em recessão, com uma queda brusca de investimentos e um atraso neto nas indústrias civis, desde a aviação até à produção de materiais para a indústria, através da indústria leve e da agroalimentação. A situação está agravada pela política monetária extremamente restritiva da Federação Russa, que, de acordo com Klepach, é responsável pelo menos pela metade do nosso orçamento.

"O conflito na Ucrânia, no qual o NATO está envolvido, tem sido prolongado há muito tempo e não tem um fim de vista. As duas partes estão intensificando seus ataques, incluindo contra suas respectivas economias. As perdas causadas pelos ataques militares ucranianos contra nossa infraestrutura, portos, instalações de petróleo e gás, plantas químicas e logística, já estão acumulando-se e constituem um importante freio macroeconômico no crescimento econômico russo", disse Klepach.

"A reforço das sanções dos EUA no final de 2025 levou a Índia e a China a reduzir suas compras de petróleo russo, apesar de suas repetidas declarações de não respeitar as sanções", ele recordou. Dado a provável nova onda de sanções e as "perdas crescentes devido aos ataques das forças armadas", a potencial taxa de crescimento econômico da Rússia não poderia superar 1 a 1,5%.

Segundo Klepach, tudo isso inevitavelmente levará a Rússia a uma "crise social", e esta "em um momento em que ninguém espera particularmente".

"Mas ninguém esperava a Revolução de Fevereiro, lembro-lhe. Lenin escreveu em dezembro de 1916: 'Não veremos isso', mas ele o experimentou alguns meses depois. A situação na União Soviética em 1999, a qual nos preparamos há muito tempo, e todos entenderam que estávamos a caminho de uma crise, mas o colapso da União não foi inevitável", disse Klepach.

"Creio que a Rússia não vai colapsar, mas estou quase certo de que alcançaremos uma crise social. Não vamos colapsar economicamente, mas o nosso atraso criará, com todas as consequências que envolvem, limites à nossa capacidade de produção", concluiu.

Fonte 🇷🇺

https://ru.themoscowtimes.com/2026/08/14/vglavnom-gosbanke-kremlya-sprognozirovali-porazhenie-rossii-vekonomicheskoi-voine-naistoschenie-szapadom-a203552

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💡 As observações de Klepach são consistentes com as análises compartilhadas por muitos economistas e instituições internacionais:

O excesso de energia, seguido pelo desaceleramento: Após o forte estímulo fiscal relacionado ao gasto militar em 2023–2024, a economia russa está enfrentando os limites da sua capacidade de produção (falta de mão de obra, taxas de juros muito altas da Central Bank of Russia para conter a inflação, contratação civil).

O impacto das sanções e dos ataques na infraestrutura: Interrupções logísticas, o aumento do custo de contornar as sanções e os danos às refinarias e aos depósitos de petróleo afetam diretamente a rentabilidade dos exportações de energia e a indústria pesada.

Atraso tecnológico: A desconexão com as tecnologias ocidentais e a aumentada dependência da China criam um desequilíbrio estrutural de longo prazo.

As informações relatadas pelo Moscow Times, portanto, são credíveis e consistentes. Não refletem desacordo político (A. Klepach continua a ser um alto funcionário do sistema), mas ilustram a real preocupação da tecnocracia econômica russa diante da impossibilidade de manter uma economia de guerra de forma indeterminada, combinada com o desgaste da infraestrutura russa.

#Russia #Ukraine

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O tenebroso exército antivacinal coloca-se novamente em marcha - Julio Benchimol, Paulo Roberto de Almeida

 Minha introdução, PRA:

Os novos assassinos das crianças que nasceram recentemente e das que vão nascer doravante já estão à solta, atuando para matar crianças e adultos com o terrivel, nefando, escabroso negacionismo vacinal, agora com a poderosa ajuda do imperador hemisférico e candidato ao triunvirato imperial da atualidade, secundado pelo seu incrivelmente idiota secretário da anti-saúde americana, de nome tristemente famoso pelos antecendentes familiares, e auxiliado, na parte que nos toca, pelo excepcionalmente imbecil rebento politicamente ativo na politica nacional, embora autoexilado nos EUA, da familia mais destruidora que já existiu, até agora, na politica nacional, todos eles unidos na cruzada ideológica-mortífera, para deixar de imunizar crianças (inocentes, indefesas e dependentes dos emtes paternos e responsáveis) e adultos, estes eventualmente imbecilizados pela tropa de rufiões criminososque propagam o novo credo anti vacinal. Não posso deixar de me impressionar com a magnitude da estupidez antes marginal, que agora ganha foros de movimento com a adesão do dirigente demencial que infelicita e destrói os fundamentos da antiga primeira democracia do mundo. É preciso registrar este episódio tenebroso da vida nacional, agora precariamente exposta aos novos e repetidos débeis mentais antivacinais da politnacional, como o faz Julio Benchimol na postagem aue agora reproduzo, repassada por Olympio Pinheiro, aos quais agradeço pelo registro.

Paulo Roberto de Almeida (14/08/2026)

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A INTERNACIONAL ANTIVACINA CHEGOU AO PODER

Julio Benchimol Pinto

Donald Trump acaba de dar mais um passo na transformação da desinformação sanitária em política de Estado.

Assinou ordem para rever o calendário infantil americano, reduzir recomendações universais e espaçar vacinas. E voltou a ressuscitar o velho fantasma de que vacinação poderia estar relacionada ao autismo.

A ciência já enterrou essa história tantas vezes que o cadáver deveria cobrar adicional de insalubridade.

Estudos gigantescos, acompanhando centenas de milhares de crianças, não encontraram associação entre vacinas e autismo. Mas evidência científica tem um defeito terrível para o populismo: não cabe num slogan conspiratório.

E então entra em cena nosso correspondente brasileiro da trumpização.

Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo celebrando ter conseguido, no Texas, uma dispensa da exigência de vacinação da própria filha para frequentar a escola. Pagou cerca de dez dólares pela declaração e apresentou a façanha como triunfo da “liberdade”.

Pequeno detalhe doméstico. Em 2020, Heloísa Bolsonaro, mulher de Eduardo e mãe da menina, havia declarado publicamente que a filha “toma e tomará todas as vacinas para cada fase”. E ainda criticou duramente o movimento antivacina.

A família Bolsonaro conseguiu, portanto, uma proeza epidemiológica inédita: a mesma criança virou argumento a favor da vacina com a mãe e contra a vacina com o pai.

E há mais: o próprio Eduardo tomou vacina contra a Covid em 2021.

Eis o método: vacina no braço quando convém; guerra contra vacina quando rende voto.

Isso nunca foi propriamente uma discussão médica; é guerra cultural.

Trump fornece a doutrina, a máquina MAGA transforma desconfiança em identidade política e o bolsonarismo tropicaliza o pacote: ciência vira “sistema”, saúde pública vira “tirania” e carteira de vacinação vira manifesto ideológico.

Os vírus, naturalmente, continuam indiferentes à liberdade de expressão.

Julio Benchimol Pinto

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Brasil leva tarifas à OMC enquanto 25 estados contestam regra de Trump - Eloiza Matarese (Economic News Brasil)

Uma matéria sobre a insanidade tarifária do presidente demencial americano  (Título PRA)

Eloiza Matarese 

Economic News Brasil, 10/08/2026 

 

Brasil leva tarifas à OMC enquanto 25 estados contestam regra de Trump 

Brasil contesta tarifas dos EUA na OMC enquanto 25 estados questionam na Justiça americana a rodada que inclui a cobrança de 12,5% ao país. 

Os Estados Unidos informaram nesta segunda-feira (10) que aceitaram realizar as consultas solicitadas pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre as novas tarifas americanas. A tarifa dos EUA ao Brasil também está inserida em uma disputa mais ampla dentro dos próprios EUA, onde 25 estados contestam na Justiça a rodada tarifária de 10% a 12,5% criada pelo governo Donald Trump. O Brasil está entre as economias submetidas à alíquota de 12,5%. 

Mas as duas frentes não são o mesmo processo. Brasília questiona na OMC as sobretaxas americanas de 25% e 12,5%. Já os estados americanos contestam a legalidade da medida mais ampla relacionada ao trabalho forçado, que alcança 59 países e a União Europeia. A ação dos estados não foi apresentada em defesa do Brasil. A conexão está na regra questionada. O Brasil integra a rodada tarifária contestada internamente nos Estados Unidos, mas isso não permite antecipar seu resultado nem afirmar que a cobrança sobre produtos brasileiros será retirada. 

 

Tarifa dos EUA ao Brasil está dentro da regra contestada 

A cobrança de 12,5% decorre de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre políticas e práticas adotadas por parceiros comerciais relacionadas à importação de bens produzidos com trabalho forçado. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Brasil ficou entre 41 economias submetidas à alíquota adicional de 12,5%. Outras 19 economias receberam uma cobrança de 10%. 

Nos Estados Unidos, os 25 estados argumentam perante a Corte de Comércio Internacional que o governo Trump estaria tentando substituir, por outro fundamento jurídico, barreiras comerciais anteriores derrubadas pela Suprema Corte americana. A administração americana sustenta que as novas tarifas são legais. A cobrança atual utiliza a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Ela substituiu uma sobretaxa temporária de 10%, baseada na Seção 122, aplicada desde fevereiro e que expirou em julho. 

Para empresas brasileiras, essa diferença jurídica é fundamental: a ação dos estados questiona a rodada ampla que inclui a alíquota aplicada ao Brasil, mas não é um processo específico contra a tarifa brasileira nem produz, por si só, suspensão da cobrança. US$ 6,6 bilhões estão na faixa de maior exposição O tamanho da exposição brasileira explica por que a discussão interessa além da diplomacia. Com base nas exportações de 2024, o MDIC estima que 23,1% das vendas brasileiras aos Estados Unidos estejam sujeitas às duas novas medidas da Seção 301. Dentro desse universo, 4,7% das exportações são alcançadas exclusivamente pela sobretaxa de 12,5%. Outros 1,9% enfrentam somente a tarifa de 25%. A maior exposição aparece quando as duas regras alcançam a mesma mercadoria. 

Segundo o MDIC, 16,5% das exportações brasileiras aos EUA, equivalentes a US$ 6,6 bilhões na base de 2024, estão nessa situação. Nesses casos, as sobretaxas podem chegar conjuntamente a 37,5%. Outros 52,7% das exportações brasileiras ficaram sem essas sobretaxas específicas ou setoriais consideradas no levantamento do ministério. OMC abre conversa, mas tarifa continua valendo O Brasil argumenta que as medidas americanas são discriminatórias, unilaterais e incompatíveis com compromissos assumidos pelos Estados Unidos no sistema multilateral de comércio. 

O pedido de consultas abre a primeira etapa formal da contestação brasileira. Washington respondeu que aceita o pedido e está disponível para realizar as consultas em uma data conveniente às duas partes. Aceitar conversar não significa concordar em reduzir ou retirar as tarifas. É essa diferença que dá utilidade prática ao novo cenário. Há uma discussão entre Brasil e Estados Unidos no sistema da OMC e, separadamente, uma contestação doméstica contra a rodada tarifária americana na qual o Brasil está incluído. Para exportadores brasileiros atingidos, a tarifa dos EUA ao Brasil continua sendo cobrada enquanto não houver decisão ou mudança oficial que altere a medida. 

Agora, os pontos concretos a acompanhar são o avanço das consultas na OMC e o andamento da ação dos 25 estados nos EUA, sem tratar nenhuma das duas frentes como reversão antecipada das cobranças. Eloiza Matarese Jornalista e graduanda em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Atua na cobertura de economia, negócios e poder, com produção de conteúdos analíticos sobre decisões públicas, mercado, empresas, ambiente regulatório e impactos institucionais para o setor produtivo e para a sociedade.

 

domingo, 9 de agosto de 2026

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial? - Paulo Roberto de Almeida

Um sabor de anos 1930 a esta altura da geopolítica mundial?

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Mais uma das comparações históricas talvez indevidas.

 

“Possibilidades econômicas para os nossos netos” foi o título de um artigo mais filosófico do que econômico que o já famoso economista britânico John Maynard Keynes publicou em junho de 1930, declarando seu relativo otimismo no longo prazo em meio às angústias da crise econômica já convertida em mundial, depois da quebra da Bolsa de NY, em outubro de 1929. Keynes estava preocupado com uma solução imediata, ou seja, a curto prazo, dos enormes problemas econômicos criados pela grande crise, pois dizia que “a longo prazo todos estaremos mortos”, isto é, não adiantava esperar benesses no futuro distante, e sim trabalhar para que os problemas presentes fossem resolvidos de modo expedito.

Tanto foi assim que escreveu uma carta ao candidato Franklin D. Roosevelt, antes que ele vencesse e tomasse posse nos EUA, oferecendo “soluções” para a crise da Depressão e do desemprego. Não existem evidências de que Roosevelt tenha seguido qualquer recomendação de Keynes quando começou a formular e implementar políticas “keynesianas” antes que o britânico publicasse o seu famoso “Teoria Geral” em 1936 (que não é bem uma teoria, muito menos geral).

Permito-me relembrar que o Brasil de 1931 saiu relativamente rápido da crise de 1929, tendo começado a aplicar precocemente medidas “keynesianas” avant la lettre, sem que o conservador primeiro ministro da Fazenda do governo provisório de Vargas, um banqueiro paulista (antes de Oswaldo Aranha ocupasse a função no final de 1931), fizesse qualquer referência às ideias do professor de Cambridge.

Esta introdução histórica vai no sentido contrário ao otimismo do economista britânico em 1930, pois acredito que estamos pior no curto prazo e sem possibilidades econômicas positivas para os nossos netos no longo prazo.

A razão é que vejo um desmantelamento quase completo da ordem econômica e politica criada por nossos avós 80 anos atrás, sem qualquer visão ou mera possibilidade de correção no curto ou médio prazo, em virtude dos terríveis golpes assestados contra os sistemas multilaterais nos planos político e econômico por dois autocratas desvaiarados desde vários anos.

O desastre começou com a resolução de Putin de tentar recriar o espaço geopolítico conquistado pelos seus antecessores czaristas e soviéticos, anunciada desde 2005-2007 — quando ele falou da “maior catástrofe do século XX” como sendo a implosão do império soviético. Já em agosto de 2008 ele passou à ação, invadindo o norte da Georgia; recrudesceu em 2010, apoiando comunidades russas na Transnístria, Moldova do norte, fronteira com a Ucrânia; lançou sua grande ofensiva contra o maior país da Europa Ocidental, fomentando revoltas no Donbas (Ucrânis oriental) e invadindo e anexando ilegalmente a peninsula ucraniana da Crimeia em fevereiro de 2014. Foram suas primeiras violações da Carta da ONU, fracamente respondidas pelas potências ocidentais, e totalmente ignoradas pela diplomacia brasileira (em desrespeito às suas tradições e fundamentos doutrinais).

O desastre continuou sob Trump 1 (2017/2020), que desrespeitou de forma unilateral e brutalmente a cláusula de nação mais favorecida, e que continuou, sob Trump 2 (2025-202?), a desmantelar o sistema multilateral de comércio com suas medidas unilaterais de insanidade tarifária.

A terceira grande potência econômica, a China, observa esse duplo trabalho de destruição, colabora com o primeiro — em virtude de sua “aliança sem limite” com o tirano de Moscou — e assiste de maneira displicente ao segundo, certa de que tudo o que os dois autocratas fazem a beneficiará no médio e no longo prazo.

Mas o recrudescimento brutal dos ataques dos dois desvairados autocratas a seus supostos “inimigos” respectivos traz um sabor de “anos 30” aos tempos atuais, como mencionei no titulo desta nota. Não vejo condições de se retornar ao “status Social quo ante”, mesmo no desaparecimento dos dois citados autocratas (que espero no mais curtíssimo prazo).

A razão é que as instituições econômicas e políticas foram tão abaladas pelos dois dirigentes demenciais, que será preciso um enorme trabalho de reconstrução geopolitica para colocar novamente o mundo numa ordem aceitável nos termos requeridos pela terceira grande potência militar e segunda econômica, assim como pela meia grande potência econômica da UE, pelos outros grandes parceiros do G7 — Japão, Reino Unido, Canadá — e por alguns outros membros do G20, entre eles o Brasil, cujo governo atual anda pendendo para o lado de uma fantasmagórica “nova ordem global multipolar, propista pelas duas grandes autocracias antiamericanas.

Não creio que nós, ou nossos netos já presentes, enfrentaremos um novo conflito global — que desta vez poderia representar um enorme desafio civilizatório, de natureza nuclear —, mas acredito que conviveremos com esse caos relativo no curto e no médio prazo.

Sorry pelo pessimismo relativo, mas no mundo tudo é relativo, como poderia dizer um outro grandd pensador. O problema é que os dois perturbadores da ordem global não pensam muito, ou pensam errado. Nossos netos não terão o mundo benfajezo imaginado por Keynes em 1930.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5425: 9 agosto 2026, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/um-sabor-de-anos-1930-esta-altura-da.html)


A eleição presidencial e o comércio exterior - José Eduardo Faria (Jota Eleições)

 RELAÇÕES INTERNACIONAIS

A eleição presidencial e o comércio exterior

Pleito deve definir como Brasil equilibrará relações com EUA e China

08/08/2026|05:30
governo lula venezuela
Palácio do Itamaraty. Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Os jornais têm noticiado que mais de 200 milhões de chineses deixaram o campo e foram para os centros urbanos, nos últimos anos, atraídos pelo crescimento industrial de seu país. A expansão econômica da China foi tão expressiva que levou ao surgimento de uma classe média emergente, com alto consumo de laticínios, carne e alimentos processados.

Sem alta disponibilidade de terras aráveis, a China optou pelo Brasil como seu principal exportador em matéria da proteína animal. Entre 2000 e 2024, as exportações agrícolas para esse país cresceram 20%. Em 2025, as exportações do agro brasileiro totalizaram US$ 55,3 bilhões. O principal produto exportado – soja e seus derivados – propiciou uma receita de US$ 34,6 bilhões.

O que diriam os dois principais candidatos à Presidência se, num debate frente a frente entre eles, fossem indagados sobre o que pretendem fazer nesse setor, se vierem a ser eleitos?

Comecemos com Flávio Bolsonaro. Conhecido por sua submissão à política americana unipolar proposta pela Casa Branca, em junho ele enviou carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, dizendo que está confiante de que será o vencedor e prometendo colocar uma equipe de transição à disposição do governo Trump.

“Nossas nações foram construídas sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica a que nossos povos merecem”, escreveu. Com essa afirmação, o candidato revelou seu despreparo em matéria de relações internacionais. Mostrou não ter ideia da trajetória da política externa brasileira entre a segunda metade do século 20 e a década de 2010. E sequer sabe que, nesse período, o Brasil adotou uma exitosa política externa com o objetivo de diversificar o leque de compradores de produtos brasileiros e de reduzir sua dependência dos Estados Unidos na área comercial.

O acerto da chamada “Política Externa Independente”, que almejava equilibrar nossas relações internacionais mantendo portas abertas com diferentes polos de poder político e econômico por meio de alianças pragmáticas, levou o Brasil a ser visto como parceiro confiável. O desconhecimento desse fato por Flávio foi explicitado ainda mais pelo tarifaço imposto pela Casa Branca, justificada por Trump como resposta a “práticas comerciais negativas contra os interesses americanos”.

Em 2 de abril de 2025, que chamou de “dia da libertação”, Trump desorganizou a ordem comercial internacional ao impor altas tarifas de importação a dezenas de países. No caso do Brasil, os analistas apontam que, atualmente, só 12% de nossas exportações vão para os Estados Unidos. Por isso, o impacto do tarifaço sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos teria sido menos desastroso quando comparado com o impacto causado em outros países.

Não passou pela cabeça de Flávio que, ao converter o comércio exterior em instrumento de pressão geopolítica, Trump enfraqueceu uma ordem internacional cooperativa forjada há décadas. Flávio também não entendeu que os tarifaços trumpistas só estimularão o Brasil a diversificar ainda mais a rede de mundial de importadores de produtos brasileiros. Ao enfatizar o que chamou de “princípios de mercados livres” e revelar a disposição de fazer do Brasil um “fiel aliado americano”, Flávio foi além do aulicismo.

Ele evidenciou não ter ideia de que o objetivo de uma política externa responsável é equilibrar relações diplomáticas, ampliar mercados e manter portas abertas com diferentes polos de poder no cenário mundial. Subserviente, a ponto de abrir caminho para que Trump interfira na eleição brasileira, Flávio chegou a pedir à Casa Branca que esperasse passar a eleição para impor mais tarifas a produtos brasileiros. Ao desprezar a China por motivo ideológico, Flávio também relegou o fato de que o Brasil mantém uma importante relação comercial com esse país, independentemente de seu regime político.

Em 2024, a China foi responsável por 28% das exportações brasileiras. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para esse país cresceram 22%, enquanto para o Estados Unidos recuaram 13%. Ainda que a pauta de exportações para os Estados Unidos envolva produtos de alta tecnologia e valor agregado, esses números revelam que o futuro do Brasil no comércio exterior dependerá de como o país vier a agir, tendo de lidar simultaneamente com Estados Unidos e China, dois países hostis um ao outro.

Neste ponto, Lula destacou-se por olhar para outros lugares do mundo e demonstrou bom senso ao não se deixar levar pelo alinhamento automático com os Estados Unidos. Sem colidir frontalmente com este país, como evidenciou em sua visita a Trump em maio, o presidente optou por buscar alianças estratégicas, aprofundando o relacionamento do Brasil com a China.

Se por um lado Lula carece de uma visão de mundo refinada, deixando-se levar por declarações de inspiração nacionalista e soberanista, por outro teve o bom senso de, em seu terceiro, de deixar o Itamaraty sob controle de diplomatas respeitados. E estes o persuadiram a rejeitar retaliações aos Estados Unidos, ao menos num primeiro momento.

Também o advertiram para as armadilhas da polarização. E ainda o lembraram dos riscos de um eventual acionamento da Lei de Reciprocidade, o que, longe de quebrar as patentes de empresas americanas no país, poderia agravar muito mais a situação. Ao mesmo tempo, estimularam Lula a valorizar negociações, priorizando interesses econômicos de médio prazo, sem dar maior ênfase aos interesses políticos de curto prazo.

Contudo, após ter seguido esses conselhos num primeiro momento, com o tempo o presidente retomou suas falas recorrentes. Falou em defesa da Nação. Criticou os traidores da pátria. Disse que “ninguém nos vencerá com mentiras”. Voltou a ressaltar a importância da aproximação com a Ásia. E, em ligação telefônica com o presidente chinês Xi Jinping, voltou a falar no fortalecimento dos Brics sem, contudo, ter ideia de que alguns países que compõem esse bloco nem sempre falam a mesma linguagem nem as mesmas ambições – pelo contrário, têm interesses próprios que, muitas vezes, são divergentes. Além disso, muitos desses países não constituem fontes de capital significativas nem mesmo para si próprios.

No caso específico de Flávio Bolsonaro, se ele for eleito o Brasil terá um presidente incapaz de avaliar o custo que o país terá de arcar em decorrência do alinhamento automático com os Estados Unidos. Recorrendo a mentiras como palavras de ordem, Flávio é incapaz de compreender o quanto o país precisa agir de modo responsável no cenário internacional, abrindo caminhos, ampliando espaços, multiplicando fontes de capital e diversificando fluxos de comércio.

Já no caso da reeleição de Lula, o problema será outro. Como sua visão da economia mundial é mais ideologizada do que analítica, muitas vezes ele tende a ser raso e dúbio. Após o novo tarifaço, a chancelaria preparou para Lula minutas de artigos moderados mas oportunos que foram publicados pela imprensa americana. Ao mesmo tempo, o Itamaraty e o Ministério da Fazenda e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços agiram com sensatez ao enfatizar a importância de se identificar interesses comuns no cenário mundial.

Em termos concretos, porém, o presidente cogitou em tomar iniciativas perigosas, como a impetração de um recurso na OMC com base na Lei de Reciprocidade para “marcar posição”, esquecendo-se de que retaliações americana podem ter alto custos. De concreto, seu governo limitou-se até agora a lançar uma nova fase do controvertido Brasil Soberano, um programa concebido há um ano com para atender empresas brasileiras atingidas pelo tarifaço de 2025.

A verdade é que, além da falta de prudência e pragmatismo, o candidato incumbente carece de uma visão estratégica de médio e longo prazo para o país. Como advertiu o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador em Washington entre 1999 e 2004, se nada for feito nesse sentido “o Brasil continuará administrando as influências externas sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso no cenário global”.

Barbosa está certo. É por isso que só um debate entre estes dois presidenciáveis pode abrir caminho para que a retórica seja substituída por uma discussão responsável e substantiva sobre um tema vital para o futuro do país.logo-jota

Os artigos publicados pelo JOTA não refletem necessariamente a opinião do site. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o país, sempre prestigiando a pluralidade de ideias.

Trump prefere guerra ideológica com Brasil a interesse estratégico dos EUA no país, diz Anthony Pereira - Joâo Caminoto (BBC Brasil)

Trump prefere guerra ideológica com Brasil a interesse estratégico dos EUA no país, diz analista

'Se Trump olhasse Brasil de forma mais estratégica, estaria interessado em minerais críticos', diz Anthony Pereira


João Caminoto

De Paris para a BBC News Brasil, 7 agosto 2026


Em 2022, a eleição presidencial brasileira foi disputada em grande medida em torno de uma única questão: a sobrevivência da democracia. Anthony Pereira teme que 2026 seja diferente, e que isso, paradoxalmente, seja o maior risco.

Cientista político britânico, Pereira é uma das vozes de maior autoridade sobre o Brasil no exterior. Dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies, na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King's College, em Londres, que comandou por uma década.

Acompanha as eleições brasileiras desde 1989 e escreveu alguns dos livros de referência sobre o país, entre eles Ditadura e Repressão, sobre a legalidade autoritária dos regimes militares do Brasil, do Chile e da Argentina.

A entrevista foi realizada em um momento de tensão aguda entre Brasília e Washington. No mesmo dia, o governo de Donald Trump havia revogado o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, mais um capítulo de uma escalada que inclui ataques do secretário de Estado, Marco Rubio, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a indicação de um embaixador americano para Brasília feita sem a consulta prévia que o protocolo diplomático exige.

No pano de fundo regional, a viagem de Javier Milei a São Paulo, dias antes, para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), na qual o presidente argentino chamou Lula de ladrão, corrupto e presidiário, abrindo uma crise que culminaria na decisão do governo brasileiro de rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.

Para Pereira, o episódio diz menos sobre a política externa argentina do que sobre o próprio Milei, dividido entre o presidente que precisa recuperar a economia do país e a tentação de se tornar "a grande estrela global da direita".

Na conversa a seguir, Pereira fala sobre o isolamento diplomático do Brasil, a onda de direita na América Latina, o que uma direita radical internacionalmente articulada tem em comum e no que se divide, e por que, apesar de tudo, ele não é pessimista quanto ao futuro do país.

BBC News Brasil – O governo Trump acaba de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Como o senhor lê essa decisão?


Anthony Pereira – Acho que a decisão do governo Trump reflete a tendência que eles têm de ver o Brasil por uma lente ideológica, político-partidária, e não pela lente do interesse nacional.

Se tivessem olhado para o Brasil de forma mais estratégica e geopolítica, estariam interessados em minerais críticos, inclusive em terras raras. Estariam interessados em cooperar com o Brasil no combate ao crime organizado. Poderiam ter interesse mútuo na produção de etanol. Poderiam ter interesse mútuo na proteção da Floresta Amazônica.

Mas o que se vê do secretário de Estado, Marco Rubio, são ataques pessoais ao presidente Lula e uma alegação sem fundamento de que o Brasil não estaria negociando de boa-fé com os Estados Unidos. E agora vem essa revogação do visto da embaixadora brasileira.

E não devemos esquecer que o anúncio de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos no Brasil foi feito sem consulta ao Brasil, o que é protocolo, é tradicional, e não obriga o Brasil a aceitá-lo como representante dos Estados Unidos em Brasília.


BBC News Brasil – Na política de Trump para a América Latina, vê também uma estratégia ideológica?

Pereira – Eu estava falando com um ex-diplomata brasileiro sobre isso. O que ele gostaria de ver do governo Trump, e que não está sendo produzido, é uma política positiva para a América Latina. Ou seja: parar de criticar a China e a presença chinesa nas economias, especialmente na América do Sul, e propor algo positivo. Propor financiamento americano para infraestrutura, dar financiamento por meio dos bancos multilaterais e de bancos estatais, para empresas americanas investirem na infraestrutura de que a região precisa. Competir com a China positivamente.

Talvez um governo no futuro faça isso. Mas o governo Trump, para mim, é muito mais negativo. É um governo que olha para a região como fonte de drogas, de imigrantes, de coisas indesejáveis, e que tem de ser subordinada. É uma política que não víamos desde a época da diplomacia das canhoneiras, no fim do século 19 e começo do século 20, quando os Estados Unidos intervinham militarmente na América Latina para proteger seus interesses.

Não tem efeitos positivos, porque cria reação. Gera a sensação de que não se pode confiar nos Estados Unidos, porque vão impor tarifas contra a sua economia, vão deportar seus cidadãos. Não parece um parceiro confiável. A tendência natural será buscar apoio na Europa, na Ásia, com outros Estados. Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, foi para mim o expositor mais claro da posição das potências médias: é preciso contrabalançar com política multilateral para conter os danos nessas relações.

Isso é chocante. Se você produz esse tipo de reação no Canadá, que sempre foi confiável, sempre foi amigo dos Estados Unidos, imagine o efeito dessas políticas em outros países.

Foi dito abertamente que eles, a América Latina, precisam muito de nós, e que nós não precisamos deles. Quase se glorificou essa assimetria como uma coisa positiva para os Estados Unidos. Estes não são os Estados Unidos que eu conheço da minha juventude, de quase toda a minha vida até agora. É contraproducente tratar os aliados dessa forma.

Há muitas afinidades culturais entre o Brasil e os Estados Unidos, muitas razões para trabalhar juntos. Vi na Flórida muitas famílias com um pé nos dois países. Há muitas oportunidades de construir coisas juntos. Mas com essa atitude, acho difícil.


BBC News Brasil – O Brasil é hoje o último grande país da América do Sul governado pela esquerda. É uma exceção ou o último dominó?

Pereira – Eu acho que o Brasil, por enquanto, é uma exceção, porque representa uma perspectiva de economia política que está desaparecendo no resto da região. Se você pega o período posterior à crise financeira de 2008, na Europa e nos Estados Unidos, a resposta foi basicamente austeridade, apesar de a crise ter sido uma crise financeira do setor privado. A reação nos dois lados do Atlântico foi cortar o setor público. E o efeito indireto desses cortes foi aumentar a desigualdade.

O Brasil, entre outros casos no chamado Sul Global, tentou outra coisa: programas sociais, atenção ao salário mínimo, acesso à educação, acesso a treinamento, políticas de expansão e inclusão. Ao longo dos anos 2000, o Brasil estava diminuindo a pobreza e até reduzindo um pouco a desigualdade. A África do Sul fazia coisa semelhante, a Índia, até a China. Mas, em geral, no mundo do capitalismo avançado, não houve esse tipo de perspectiva.

Então o Brasil, para mim, continua nessa trajetória. Não radicalmente. Eu não diria que o governo atual é um governo radical de esquerda.


BBC News Brasil – O próprio Lula já disse que não é de esquerda.

Pereira – Ele próprio falou que não é. Mas o PT, o Partido dos Trabalhadores, tem esse compromisso com políticas sociais, com as condições de trabalho e com os salários dos trabalhadores. E, apesar de um Congresso muito mais conservador, que o obriga a fazer concessões, o governo representa o que eu chamaria de uma demonstração de que a social-democracia é possível no século 21. É diferente da social-democracia clássica da Europa. Mas, para mim, é muito importante que alguns governos no mundo continuem mostrando que isso é possível.

E que sirva também de contrapeso ao discurso da extrema direita de que o globalismo é um mal perverso que está destruindo o mundo. É um grande exagero, uma grande distorção do mundo atual, e conduz esses países a políticas públicas nefastas: xenofobia, divisão das populações, uns contra os outros.

A extrema direita eleva valores que considera mais importantes do que a democracia. É uma perversão. Nessa fala sobre a civilização ocidental, os valores associados a ela às vezes são os mais atávicos, os mais violentos. E as coisas boas se perdem: as instituições, a igualdade, a cidadania, a liberdade de expressão, a liberdade de pesquisa científica, o debate público sobre os meios de governar o país. Sobram as guerras de religião, as guerras sobre pureza étnica.

Talvez eu esteja dando importância demais à eleição de 2026 no Brasil, criando uma imagem além da própria realidade dela. Mas, para mim, essa eleição é muito importante, porque pode mostrar ao mundo que não é preciso chegar a esse extremo para preservar valores que são positivos para a maioria das pessoas.


BBC News Brasil – Há algo de legítimo no diagnóstico que a direita radical faz?

Pereira – Esse é o outro lado da moeda, e é verdade: os governos do status quo não necessariamente solucionaram esses problemas. Mesmo que a gente vá criticar esses partidos de extrema direita, temos que admitir que às vezes as críticas que eles fazem têm validade. Eles estão identificando problemas reais na sociedade. E simplesmente defender o status quo não é adequado aos desafios contemporâneos.


BBC News Brasil – Milei veio ao Brasil para o lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro e chamou Lula de ladrão, corrupto, presidiário, lixo socialista. Um presidente em exercício atacando o vizinho dentro da casa do vizinho. Já tinha visto algo assim?

Pereira – Na história recente, não. A única coisa que talvez possa salvar a situação é que, abaixo do nível dos presidentes, eu creio que ainda há diálogo entre Brasil e Argentina, que é o eixo fundamental do Mercosul, o bloco econômico que reúne os dois países ao lado do Paraguai e do Uruguai. Há diálogo positivo e pessoas solucionando problemas em comum nesse nível, nos ministérios das Relações Exteriores.


BBC News Brasil – Qual seria o objetivo de Milei com isso?

Pereira – Eu tenho a impressão de que ele gostaria de ser a grande estrela global da direita. Está muito alinhado com as afinidades que tem com Trump. Mas Trump não é um libertário. Trump não gosta do livre mercado. Trump gosta de controlar a economia. O ideal dele são as políticas públicas dos Estados Unidos na época de William McKinley, presidente no fim do século 19, associadas ao protecionismo e à defesa da indústria americana.

Há uma tensão na presidência de Milei. Ao mesmo tempo em que ele quer ser essa grande estrela da direita e, por isso, vai ao Vox, o partido de extrema direita espanhol, criticar o primeiro-ministro da Espanha, critica Lula, aparece na CPAC, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos, e cumprimenta Trump, ele também é responsável pela recuperação da economia argentina, que precisa da economia brasileira como parceira. E precisa de investimento internacional, o que exigiria um pouco mais de cautela, um pouco mais de discrição.

Ele está dividido. Às vezes tem a personalidade do presidente responsável, tentando recuperar a economia. Outras vezes, essa tentação de ser grande estrela, grande personalidade.

Tenho dúvidas de que ele tenha convencido muitos eleitores brasileiros, ou de que Flávio ganhe votos por causa do apoio dele.


BBC News Brasil – Existe hoje uma direita radical internacionalmente coordenada e alinhada?

Pereira – Há uma rede, com certeza. Eu vi isso quando Viktor Orbán era primeiro-ministro da Hungria. Orbán financiou, por exemplo, políticos do Reform, o partido de direita radical britânico. Pagou políticos nos Estados Unidos também. Gastou dinheiro para ajudar a criar essa rede. Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, também tentou cooperar com vários movimentos na Europa.

É complexo estudar isso, porque nem todas essas redes são visíveis. Há um encontro fascinante descrito no livro de Benjamin Teitelbaum, etnomusicólogo americano que estuda a extrema direita, sobre os tradicionalistas: um encontro em Roma entre Steve Bannon e Alexander Dugin, o filósofo ultranacionalista russo próximo ao Kremlin. Os dois analisaram o mundo e concordaram que o globalismo era o grande mal. Mas, para Dugin, a origem do globalismo eram os Estados Unidos, e, para Bannon, era a China. As soluções são muito diferentes.

Às vezes os pontos principais migram de um lugar para outro. Notei isso no bolsonarismo no fim de 2019 e em 2020. A educação domiciliar, o chamado homeschooling, é um movimento forte nos Estados Unidos, e houve alguns debates no Brasil sobre promovê-la. Mas não pegou, não há tradição disso no país. Talvez a coisa mais parecida tenha sido promover escolas militares, como escolas com disciplina.


BBC News Brasil – Todo esse debate de política externa, Trump, Milei, tem impacto decisivo no eleitorado brasileiro?

Pereira – Não tenho certeza. Eu estava olhando alguns resultados de pesquisa recentes sobre as ideias do eleitorado. Acompanho várias eleições desde 1989, e os temas fundamentais são economia doméstica, segurança pública, saúde, educação, talvez transporte público. Tenho dúvidas de que essas questões geopolíticas, por exemplo, a influência possível do governo Trump, sejam cruciais para muitos eleitores no Brasil.

Acho que isso vai ser fundamental também nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro. Muitos eleitores vão lembrar que, em 2024, Trump criticou a inflação do governo Biden, que realmente subiu e era um problema. Mas, desde então, os preços não baixaram. Estão mais altos do que em 2024. Essa questão, que em inglês se chama affordability, o custo de vida, vai ser fundamental. Talvez Brasil e Estados Unidos tenham afinidades nesse aspecto: muitos eleitores estão focados nessas questões cotidianas.

Talvez por isso as tentativas do governo Lula de promover soluções para o endividamento, um problema que cresceu bastante, possam render alguns frutos. É uma tentativa de aliviar as pessoas dessas dívidas pesadas, que afetam a capacidade de compra.


BBC News Brasil – A economia brasileira não vai mal, mas isso não se reflete na popularidade do presidente.

Pereira – Não é totalmente diferente da situação de 2024, quando os dados básicos da economia de Biden não eram horríveis, mas as pessoas não sentiram isso. Estavam reclamando. Mostra como é difícil governar. Sociedades polarizadas, com fontes de informação totalmente diferentes dos dois lados, tornam muito difícil criar um consenso sobre como interpretar os dados econômicos.

Em 2025, participei de um encontro com empresários brasileiros e argentinos em Buenos Aires, e tive a sensação de que eles não têm confiança no governo Lula em relação a gastos e ao déficit fiscal, mesmo que os resultados sejam razoáveis, se você pegar a inflação e o desemprego. Talvez com outro político eles tivessem mais confiança. Essencialmente, parece que não confiam nele para conter os gastos e manter um déficit fiscal razoável.


BBC News Brasil – Você já falou da necessidade de uma direita democrática na América Latina. Com a ascensão da direita radical, ela parece ter desaparecido. É um fenômeno reversível?

Pereira – Espero que sim. Vamos ver nos Estados Unidos se, depois da eleição de novembro, vão aparecer dentro do Partido Republicano mais figuras como as do passado. Republicanos capazes de criticar os excessos de Trump, capazes, por exemplo, de criticar a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, quando apoiadores de Trump tentaram impedir a certificação da vitória de Biden, o que a grande maioria dos republicanos não fez.

Nesse sentido, eu vejo o Brasil como um pouco mais positivo. Pelo menos em termos do establishment político, depois dos ataques de 8 de janeiro de 2023, os governadores dos partidos de direita, os membros do Congresso e a opinião pública em massa condenaram os ataques, a violência e os saques. Criaram um consenso muito mais amplo do que se viu nos Estados Unidos, onde a maioria dos republicanos não aceitou as críticas feitas pelos democratas.

Agora há muitas pessoas que querem anistiar os responsáveis pelos ataques de 2023 e não querem criticar a família Bolsonaro. Mas talvez depois desta eleição seja possível que algo emerja. Quem fala muito sobre isso é Sérgio Fausto, diretor do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Ele escreveu um artigo muito eloquente sobre a necessidade de a direita democrática assumir uma postura mais firme na política brasileira. Articulou essa ideia muito bem.


BBC News Brasil – Como você está vendo a eleição brasileira?

Pereira – Estou um pouco preocupado. Diferentemente de 2022, quando houve uma sensação muito forte de que a eleição girava em torno da defesa da democracia, uma coisa emblemática, tenho a impressão de que hoje menos pessoas acham que a democracia é um tema central. Seja Flávio, seja Lula, não importa tanto. Tenho essa impressão, ainda que esteja distante.

É um perigo, no sentido de que pode haver um retrocesso depois da eleição. Por exemplo, se houver anistia, se as coisas que foram feitas forem esquecidas.


BBC News Brasil – No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro?

Pereira – Não estou dizendo que toda a agenda de Flávio seja autoritária. Mas aumenta o risco, sim.


BBC News Brasil – E um quarto mandato de Lula?

Pereira – Para mim, falta uma ideia clara do projeto do governo atual, caso ganhe outro mandato. É claro que eles não querem um Bolsonaro de volta à Presidência. Mas, além disso, é preciso mostrar ao público um projeto de quatro anos que vá melhorar o país em várias áreas.


BBC News Brasil – Muito se falou no século passado que o Brasil era o país do futuro. Vê a perspectiva do Brasil dar um salto? E o que seria necessário?

Pereira – Eu não sou totalmente negativo sobre o Brasil. Li um artigo recentemente sobre a ansiedade nos Estados Unidos, com a percepção de que a agricultura americana, que era o berço da produção de comida para o mundo, está perdendo esse papel para o Brasil. O Brasil tem muita terra, tem uma fronteira agrícola enorme um uso de tecnologia muito avançado. Há áreas como essas em que o Brasil tem um futuro muito forte.

O medo que eu tenho, não só em relação ao Brasil, mas à América Latina em geral, é que se estagne nesse patamar de fornecedor de commodities, bens agrícolas e minerais, que ao longo da história sempre foi a armadilha. O sonho de industrialização em meados do século 20 era exatamente para escapar desse papel subordinado. Acho que o Brasil e os outros países da região têm muito mais a fazer para subir na cadeia de valor agregado: a transformação digital, uma força de trabalho mais educada, mais treinada, com mais habilidades.

Não vejo isso como impossível. Os Estados Unidos têm problemas sérios e estão em decadência, na minha perspectiva, em termos de papel global. A Europa também está em declínio na sua contribuição para o PIB global, e tem divisões culturais profundas, que estamos vendo nas eleições. A Ásia está em ascensão, e o Brasil tem uma conexão com a Ásia que é muito produtiva. Então não sou pessimista em relação ao Brasil. Acho que tem capacidade de solucionar problemas.

O que falta são políticos que falem sobre o interesse nacional. Nas campanhas, o que predomina são os ataques pessoais. Um debate interessante seria: é possível reindustrializar? O que significa reindustrializar com o tipo de produção que temos hoje? Não vejo muita discussão sobre isso, infelizmente.

BBC Brasil

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