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domingo, 5 de julho de 2026

A valorização do café e seu amargo legado - Edmar Bacha (Substack

 A VALORIZAÇÃO DO CAFÉ E SEU AMARGO LEGADO

As tarifas de Trump sob a ótica da centenária política brasileira do café

Em entrevista recente, comparei as tarifas de Trump com a política de valorização do café do Brasil (Bacha, 2025). Argumentei que ambas poderiam ser vistas como tentativas de exploração do poder de monopólio para melhorar as relações de troca do país. Acrescentei que tais políticas poderiam funcionar no curto prazo — seja aumentando os preços das exportações, no caso do Brasil, seja reduzindo os preços das importações, no caso dos EUA — mas que, no longo prazo, acabavam voltando-se contra o próprio país, pois o poder de monopólio se diluía ao longo do tempo, restando apenas as distorções provocadas por seu exercício.

Esta reflexão sobre os limites do poder de monopólio nas relações comerciais tem especial relevância para o Brasil. Afinal, fomos pioneiros de uma das mais longevas tentativas de exploração desse poder na história econômica mundial. 

No início do século XX, Brasil era café e café era Brasil – e foi aí que teve início a política de valorização do produto, com o Acordo de Taubaté de 1906. Quase no final daquele século, a Federação Brasileira dos Exportadores de Café declararia que o Brasil não mais dependia do café e que o mundo não mais dependia do café brasileiro – e foi aí, em 1990, que se fechou o Instituto Brasileiro do Café (IBC).

No entremeio, decorreram quase cem anos da história econômica do país, marcados pela ascensão, auge e declínio da política de valorização do café — o mais importante marco de política econômica continuada de nossa história. Foi também responsável pela introdução do verbo valorize e do substantivo valorization na língua inglesa. Diz o dicionário Merriam-Webster’s (1998, p. 1305), em tradução livre:

valorize vt ... [Pg. valorizar...] (ca. 1906): aumentar ou tentar aumentar o preço, valor ou status de, por uma ação organizada e geralmente governamental <usando subsídios para valorizar o café> — valorization, s.”

A palavra “subsídio” deve ser entendida em sentido amplo, pois a valorização do café consistiu, tradicionalmente, na compra e estocagem pelo governo dos chamados excedentes de produção, a preços predeterminados, usando para isso uma combinação de impostos, empréstimos externos e financiamentos oficiais.

Em 1992, escrevi uma monografia sobre o papel histórico do café na economia brasileira (Bacha, 1992 [2012]). A monografia trata da expansão da produção desde o século XIX, mas enfatiza a política de valorização iniciada em 1906. Ela detalha a evolução dessa política ao longo do século XX, até sua extinção em 1990, no governo Collor.

A monografia propõe inicialmente uma reavaliação do comportamento dos preços do café no século XIX. Mostra que houve um desequilíbrio fundamental entre o rápido crescimento da demanda mundial e o lento crescimento da oferta, o que fez com que o preço real do café apresentasse uma tendência de aumento secular, de meados da década de 1840 até o final da década de 1880.

Delfim Netto (1959 [1979, p. 28]) sustenta que foi o salto dos preços nominais provocado pela bolha do Encilhamento (1889-1891) que gerou a superprodução da década de 1890. Em contraste, meu texto argumenta que a causa do excesso de produção foi a tendência de aumento secular dos preços reais do café — em libras esterlinas de poder de compra constante — ao longo da segunda metade do século XIX. Essa tendência, não captada pelos dados nominais de Delfim Netto – que não levam em conta a deflação de preços na Inglaterra --, foi parcialmente mascarada por acentuadas variações cíclicas, que o autor enfatizou. A extraordinária melhoria das relações de troca brasileiras de 1840 até 1890 é documentada em artigo recente de Bacha, Tombolo e Versiani (2025).

A superprodução fez os preços do café baixarem muito a partir de 1896. A valorização do café foi a resposta a essa baixa, em um contexto em que o Brasil respondia por 70% das exportações mundiais.

Introduzida em 1906, a valorização manteve-se como característica da política brasileira do café até 1990. Ao Acordo de Taubaté sucederam-se a segunda e a terceira valorizações, respectivamente em 1917 e 1921. Em 1924, a valorização se tornou “permanente” com a criação do Instituto Paulista para a Defesa Permanente do Café.

Essa política, entretanto, não resistiu à debacle de preços causada pela crise mundial de 1929. Foi então substituída pela queima de 80 milhões de sacas de café, conduzida pelo Departamento Nacional do Café, criado por Getúlio Vargas em 1933.

Durante a 2ª Guerra, os preços do café foram congelados em níveis atrativos pelos EUA. Depois, elevaram-se mais ainda com o boom mundial associado à Guerra da Coreia.

Quando os preços começaram a cair, Getúlio Vargas, novamente no poder, retomou a valorização em 1952 com a criação do IBC, que passou a regular tanto o mercado interno quanto o externo — neste último caso, por meio de sucessivos Acordos Internacionais.

Criticada por Delfim Netto e Andrade Pinto (1965), em razão das perdas de mercado para os concorrentes, a valorização ainda deu um último suspiro no governo Geisel. Acabou, finalmente, no governo Collor, com a extinção do IBC e a suspensão das cláusulas econômicas do Acordo Internacional do Café.

Graças à política de valorização, o café conseguiu escapar da tese de Prebisch (1950) sobre a tendência secular de queda dos preços relativos dos produtos primários. Enquanto os preços reais de quase todas as outras commodities tenderam a cair, isso não ocorreu com o café. De fato, a relação entre os preços do café e um índice geral de commodities triplicou ao longo do século XX.

Apesar disso, a avaliação da política é bastante negativa. Por causa da valorização, o café se manteve como produto de exportação dominante por mais um século, ao mesmo tempo em que o Brasil perdia participação no mercado mundial. De 70% no início do século XX, a participação caiu para 20% ao final da política. Esse foi um dos legados centrais.

No entretempo, outros produtos nacionais além do café tiveram enorme dificuldade de competir nos mercados estrangeiros. Esses produtos se tornaram “gravosos”, na linguagem da época — ou seja, sua exportação implicava ônus ou prejuízo. Pois o preço em dólares do café era muito atrativo e a taxa de câmbio se mantinha sobrevalorizada.

Em consequência, a participação das exportações totais no PIB reduziu-se dramaticamente: de cerca de 20% em 1906, quando a valorização foi introduzida, para apenas 6,5% em 1964, quando o café perdeu sua posição dominante nas exportações brasileiras. Paradoxalmente, uma política que supostamente se destinava a maximizar a receita de curto prazo das exportações resultou, no médio prazo, numa crônica escassez de divisas.

Essa escassez teve como contrapartida a chamada política do similar nacional: produtos com similar produzido no Brasil não eram importados. Por outro lado, esses similares não conseguiam ser exportados devido a seus altos preços e baixa qualidade. Gerou-se, assim, uma indústria voltada quase exclusivamente para o mercado interno.

As divisas geradas pelo café eram reservadas para a importação de insumos e bens de capital dessa indústria. Durante longo período, isso se fez por controles quantitativos e licenciamento das importações. Mais tarde, por câmbios múltiplos que favoreciam as importações “essenciais”. E, enfim, por tarifas elevadas, das quais se isentam bens de capital, informática e telecomunicações sem similar nacional.

Em nível ideológico, havia uma hostilidade permanente entre a elite rural, que reclamava contra uma indústria “artificial” – porque não derivava de matérias primas locais --, e a elite urbana, que clamava que a proteção era necessária para industrializar o país. Mas as elites se aliavam na defesa da taxa de câmbio apreciada, pois ela valorizava o café e reduzia os custos dos insumos importados pela indústria. Essa postura foi apoiada por sucessivos governos, que tradicionalmente usaram o câmbio como âncora para os preços internos.

Desenvolveu-se, então, uma aliança implícita entre os interesses dos cafeicultores e os dos industriais. Essa aliança derrotou a tentativa do ministro da Fazenda de Café Filho, José Maria Whitaker, em 1954, de acabar com a política de valorização e com o sistema de taxas múltiplas de câmbio, introduzindo um câmbio flutuante unificado.

Foi a derrota de uma visão de crescimento apoiada na diversificação das exportações e o triunfo da visão oposta — explicitada no mandato de Juscelino Kubitschek --, de aprofundar a substituição de importações e manter a supremacia do café nas exportações brasileiras.

Essa supremacia deixou de existir a partir de meados da década de 1960, quando, às custas de fortes subsídios, as exportações industriais ganharam fôlego. Esses subsídios, entretanto, se tornaram ilegais com a assinatura pelo Brasil do Código de Subsídios do GATT em 1979.

Mais tarde, a ascensão da China no comércio mundial reduziu os preços dos produtos manufaturados e elevou os das commodities, gerando a chamada reprimarização das exportações brasileiras.

Hoje, outras commodities assumiram o protagonismo na pauta de exportações, e o Brasil já não depende do café. Mas o setor industrial, em processo de encolhimento, continua voltado para dentro, incapaz de competir nos mercados externos.

Além da introversão da indústria, a política de valorização também esteve associada a uma extraordinária concentração do poder econômico no Estado de São Paulo. Tanto o café valorizado quanto a indústria protegida tiveram nesse Estado o seu habitat natural.

Amargo, de fato, foi o legado da política de valorização do café. Assim como deve ocorrer com as tarifas de Trump, políticas que exploram supostos poderes de monopólio podem parecer eficazes no curto prazo, mas revelam-se custosas e insustentáveis no longo prazo.

Referências

BACHA, E. L. Política brasileira de café: uma avaliação centenária. In: Edmar Bacha e Robert Greenhill. 150 Anos de Café. Rio de Janeiro: Salamandra Consultoria Editorial S.A./Marcellino Martins & E. Johnston, 1992. p. 13-133. Reeditado com revisões em Edmar Bacha, Belindia 2.0. Civilização Brasileira, 2012. p. 305-408.

BACHA, E. L. “A era da incerteza e o trumpeconomics de inspiração dilmista” (entrevista para Cristiano Romero). Vero Notícias, 18/08/2025. https://veronoticias.com/entrevistas/a-era-da-incerteza-e-o-trumpeconomics-de-inspiracao-dilmista/

BACHA, E. L.; TOMBOLO, G. A.; VERSIANI, F. R. “Secular stagnation? A new view on the Brazilian economy in the 19th century”. Revista de Historia Económica/Journal of Iberian and Latin American Economic History, 2025, pp. 1–30 doi:10.1017/S021261092510058X.

DELFIM NETTO, A. O Problema do Café no Brasil. Boletim n. 5. São Paulo: Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo, 1959. Reproduzido pela Fundação Getúlio Vargas (Rio de Janeiro), 1979.

DELFIM NETTO, A. e ANDRADE PINTO, C. A. O Café do Brasil: Vinte Anos de Substituição no Mercado Internacional. Estudos ANPES n. 3, São Paulo, dezembro de 1965.

MERRIAM-WEBSTER’S Collegiate Dictionary – 10ª. ed. Springfield, MA: Merriam-Webster, Inc., 1998.

PREBISCH, R. The Economic Development of Latin America and its Principal Problems. Nova York: Nações Unidas, 1950.

EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque - O Estado de S. Paulo

 EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

Capa do video - EUA, 250 anos: O sonho americano em xeque

O passado, o presente e o futuro da maior nação do mundo depois de dois séculos e meio de sua independência. 

O Estado de S. Paulo, 4/07/2026

https://www.estadao.com.br/internacional/eua-250-anos-o-sonho-americano-em-xeque/?srsltid=AfmBOoqUuIfvndK4j92y1Vgt-_eMazMBugnFKMY8OeiEAepL63X692qT

 

BRASÍLIA E SÃO PAULO — Esse é o momento mais grave das relações entre o Brasil e os Estados Unidos em mais de 200 anos. O assombro e a perplexidade com a aparente falta de diálogo, a aposta no unilateralismo e as mudanças provocadas pela presidência de Donald Trump, além do comportamento do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, estão entre os ingredientes dessa situação e são descritos por diplomatas entrevistados para o projeto Memórias da Diplomacia da Brasileira, uma parceira do Museu da Pessoa e da Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB).

O Estadão consultou uma dezena dessas entrevistas, feitas sob a curadoria do jornalista e historiador Mauro Malin. Os entrevistados, como o embaixador Rubens Ricupero, serviram nos EUA e contaram a sua experiência, bem como avaliaram a atual situação da relação entre os dois países após o tarifaço de Trump. “Em Washington, o êxito ou não do teu trabalho depende das condições do país que você representa e eu, quando era embaixador lá, já tinha começado no Brasil a investigação do impeachment do (presidente Fernando) Collor. E depois houve o agravamento da inflação; o Brasil estava muito mal”, disse Ricupero

Na época, segundo o diplomata, o país latino-americano mais festejado nos EUA era o México, em razão do acordo de livre comércio. “Depois, admiravam muito o Chile. A própria Argentina de (Carlos) Menem. O Brasil era visto como um país muito complicado”, contou. A solução para lidar com essa imagem foi procurar think tanks e organizar seminários na embaixada brasileira, em Washington.

“E foi uma experiência boa. Agora, eu acho que não, com esse presidente que eles têm hoje, o Trump, é o momento mais grave do relacionamento com o Brasil. Nunca vi nada parecido em 200 anos de relação”, afirmou. Para ele, não há nada que se assemelhe ao momento atual. “Porque mesmo no golpe de 1964, que eles participaram da conspiração, mas não eram ostensivos, eles faziam isso clandestinamente. Dessa vez, é público, notório, ostensivo, com declarações de apoio a (Jair) Bolsonaro. Se isso continuar, é muito grave, porque nós vamos chegar às eleições e eles vão querer influir sobre as eleições”, disse Ricupero.

Para ele, no entanto, o tiro vai sair pela culatra. “Porque vai ajudar mais o presidente Lula do que o Bolsonaro, mas é uma tensão muito grande na relação com o Brasil.” O embaixador lembrou outro momento grave das relações entre os dois países: os meses que antecederam o golpe de estado de 1964. Em dezembro de 1962, ele testemunhou a visita inesperada ao Brasil de Robert Kennedy. Irmão do presidente americano John Kennedy, Robert era o chefe do Departamento de Justiça.

“Ele veio para dar um aperto no (presidente João) Goulart, porque os americanos já estavam conspirando no Brasil contra o governo Goulart, que era um governo de esquerda.” Ricupero contou que já estava deitado, quando o ministro das Relações Exteriores, Hermes Lima, que estava no Rio, telefonou e disse: “Olha, vai chegar o Robert Kennedy, você convoca aí os automóveis da garagem e vai recebê-lo na base militar (de Brasília).”

Ricupero disse: “Mas, ministro, como é que eu vou? Eu sou terceiro-secretário, é a função mais modesta da carreira”. Lima respondeu: “Não, você diz que é o representante do governo brasileiro. Porque eu não posso, estou no Rio de Janeiro e não vou chegar a tempo”. Ricupero foi lá. Robert Kennedy chegou às 2 horas. O embaixador americano em Brasília, Lincoln Gordon, estava ali. De manhã, às 11 horas, Robert foi recebido por Goulart no Palácio da Alvorada.

“Eu nunca soube, aliás nunca ninguém soube o que aconteceu. Apenas agora, 50 anos depois, os americanos publicaram um memorando de 11 páginas em que o Lincoln Gordon conta a conversa, porque na conversa só estava o João Goulart, do nosso lado não tinha ninguém, nem intérprete. E do lado americano tinha o Robert Kennedy, o Lincoln Gordon e o intérprete americano (José de Seabra), que eu conheci até por acaso. Então ele conta, é um aperto enorme, que ele vem dizer: ‘Olha, se isso continuar, você não conta com a nossa ajuda’. Ele diz claramente, ele só não diz que iam dar o golpe, mas é bem próximo disso. É uma entrevista dramática. Eu estava do lado de fora, eu não assisti.”

A dramaticidade dos eventos lembrados por Ricupero foi traduzida para o presente pelo também embaixador Paulo Sérgio Traballi Bozzi. “Estamos enfrentando o leão da montanha. O cara (Trump) é muito poderoso, um homem que tem um porta-aviões que leva 6 mil sujeitos embarcados, e tem 160 aviões de todo tipo e tamanho e sai de casa com uma força-tarefa, um submarino nuclear. Não se pode brincar com esse cara, não dá para brincar com esse cara. Não estou dizendo que temos que nos submeter à vontade dele. Não é isso.”

Além do período que antecedeu a derrubada de Goulart, os diplomatas entrevistados para o registro da memória do Itamaraty lembraram outros momentos das relações entre o Brasil e os Estados Unidos e apontaram também o papel do Brasil nesses episódios. A embaixadora Débora Vainer Barenboim-Salej trabalhou em Washington no tempo em que a embaixador do Brasil na capital americana era Marcílio Marques Moreira. “A simpatia pelo Brasil era tanta que o diplomata do Departamento de Estado coava cafezinho, na mesa dele, para me servir um café quando eu chegava. Não é porque eu sou bonitinha, é porque o Brasil tinha um peso, que em algum momento deixou de ter nos EUA.”

Baremboim-Salej atribuiu essa situação ao que chamou de a “politização, a ‘petização’ da diplomacia, em particular da embaixada em Washington”. Para ela, houve muita “pisada de bola” do governo Lula, como o apoio à candidata democrata Kamala Harris nas eleições presidenciais de 2024, quando ela foi derrotada por Trump. Para ela, “não tinha nada que dizer que queria que a Kamala ganhasse as eleições". “Isso é um tipo de ingerência em outros países, que não faz parte da diplomacia brasileira, não podia ter falado e pesou; é um dos fatores que criou o começo do mal-estar com o atual governo Trump.”

O embaixador Sérgio Eduardo Moreira Lima trabalhava em Washington em outro momento importante da história do hemisfério: quando a Argentina decidiu invadir as Ilhas Malvinas, em 1982. “Essa questão do conflito das Malvinas foi muito importante, porque o Brasil tinha um acordo, que se chamava Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Isso significava que se você tivesse uma potência de fora do hemisfério, de fora das Américas, atacando algum país (das Américas), como aconteceu, todos os países das Américas deveriam se apoiar por esse tratado”, contou.

Mas os americanos não fizeram isso. Os EUA decidiram apoiar o Reino Unido e cederam a base da Ilha de Ascensão, no Atlântico Sul, para os britânicos. O Brasil não apoiou os argentinos, mas, de acordo com o diplomata, a decisão de Washington “abalou a confiança na própria liderança americana”. “E mostrou que nós teríamos que buscar um entendimento a respeito da segurança hemisférica.”

Moreira Lima conta que o episódio ajuda a “entender o funcionamento dos poderes, entender o jogo”. “Perceber que, de repente, existe um tratado, acredita-se naquilo e que os americanos iriam apoiar os países da região, mas eles concedem todo o apoio à Inglaterra. Foi interessante. Para o Brasil foi um enorme desafio”, concluiu.

Na época, o Itamaraty adotou uma postura equidistante e conseguiu se credenciar para cuidar dos interesses dos dois beligerantes. Quatro décadas depois, o diplomata se espanta com a situação atual da diplomacia. “Nunca imaginei que fosse viver esse momento, um momento em que estamos nos afastando de uma ordem que tinha seu fundamento no direito.” Segundo ele, de repente, o mundo entrou em um terreno do unilateralismo, que significa uma desconstrução de séculos de tudo que o Brasil contribuiu – até com ajuda dos americanos – para construir.

Mário Vilalva, que foi foi cônsul-geral em Boston (EUA) entre 1996 e 1999, realçou a importância da “facilidade de acesso” para o trabalho dos diplomatas. “Se você não tiver essa facilidade, não consegue nada. Veja hoje o que está se passando aí, que ninguém consegue conversar com o governo norte-americano no momento, não tem facilidade de acesso neste momento”, disse.

O embaixador comparou a crise a partir da chegada ao poder de Trump ao momento em que viveu nos Estados Unidos. Também, naquela época, era preciso levar aos atores políticos e econômicos dos EUA “o conhecimento sobre o que era o Brasil” com o objetivo de evitar que legislações americanas comprometessem as exportações brasileiras. “Hoje, passamos por uma situação muito parecida, em que há um presidente nos Estados Unidos (Trump) que conhece pouco o Brasil e, quando você conhece pouco, você se arrisca a tomar medidas que não são justas”.

O diálogo e a estratégia de levar conhecimento do Brasil aos EUA foi o que fez o embaixador Carlos Alberto Lazary Teixeira. “Fui diretor da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos da Flórida. Ali desenvolvemos um trabalho importante de projeção do Brasil, de participação em feiras, toda a área comercial”. Esse interesse depende não apenas da diplomacia, mas do momento do País.

Teixeira conta que, após o Plano Real (1994), o interesse dos americanos pelo Brasil cresceu. “Eu fazia oito palestras por ano. No momento em que houve o lançamento do Plano Real, eu fui convidado, no ano seguinte, a fazer mais de 50 palestras. O Brasil entrou no radar com o Plano Real.”

Além da economia, temas como a proliferação de armas atômicas no hemisfério também despertavam a atenção dos americanos. E foram motivo de atritos entre os países. O embaixador Paulo Roberto Almeida, que trabalhou entre 1999 e 2003 nos EUA, contou que, naquela época, o “grande inimigo do Brasil era John Bolton”, descrito por ele como o homem forte do Departamento de Estado. Era Bolton, segundo Almeida, quem proibia a exportação de qualquer material sensível ao Brasil.

“Não estou falando de materiais militares, mas sim de supercomputadores, por exemplo, que você usa para definir clima, ambiente. Você precisa de supercomputadores para fazer a previsão de chuvas. E o John Bolton achava que os supercomputadores seriam usados para simulações de explosões nucleares clandestinas. Então, vetava tudo.” Isso ocorrido, de acordo com Almeida, porque o Brasil não havia assinado o Tratado de Não Proliferação de armas nucleares.

A reação americana ao programas nuclear e aeroespacial brasileiros começou ainda nos anos 1970, quando, durante o regime militar, o País assinou um acordo de cooperação espacial com a França para o lançamento de foguetes, mas que, para os americanos, podia significar mísseis. A mesma oposição ocorreu quando o Brasil firmou o acordo nuclear com a Alemanha Federal, em 1975, para a construção de reatores nucleares, além das pesquisas sobre a tecnologia de enriquecimento de urânio.

“Os americanos fizeram enormes pressões sobre o Brasil em 1975, 1976 e 1977, sendo contrários a esse acordo Brasil e República Federal Alemã”, disse o diplomata. Essa foi uma das causas que levou o presidente Ernesto Geisel cancelar o acordo de cooperação militar que o Brasil mantinha com os Estados Unidos. “Era uma cooperação antiga, vinha da Segunda Guerra Mundial”, lembrou.

Para ele, é preciso que o Brasil se lembre que é uma potência média, que deveria manter uma posição “imparcial, neutra, autônoma, em relação aos conflitos entre grandes potências”. Mas, segundo ele, não é o que Lula fez. Primeiro com os Brics, quando se uniu à China e à Rússia. Depois, ao apoiar “todas as eleições dos seus colegas esquerdistas na América Latina, desde 2003″. “Ou seja, interferiu nos assuntos internos de outros Estados.”

Ele citou ainda a declaração de Lula de apoio à candidata democrata Kamala Harris. Tudo isso aumentaria os desafios da atual situação. “E o Brasil, como potência média, devia estar unido a outras potências médias contra as violações do direito internacional pelas grandes potências. Infelizmente, não é o que está acontecendo hoje”, afirmou.

Seu colega, Tadeu Nascimento Valadares, afirmou que os desafios estão além dos desencontros entre a gestão de Trump e a de Lula. “Os desafios são muito claros: o que nós estamos vivendo não é só um momento; estamos vivendo uma época de grandes riscos. E por quê? Simplificando a mais não poder, vivemos uma época que os historiadores da longa duração chamam de um momento de mudança de paradigmas ou de mudança de transição de hegemonias.”

E como esse processo atinge a América Latina? Para ele, a região continua sendo dominada pelos EUA na área militar, por meio da projeção de sua força, como ocorreu na Venezuela, mas, ao mesmo tempo a “hegemonia comercial de cooperação hoje, apesar das diferenças de regime, já é chinesa”. O diplomata lembrou que “transições de hegemonia foram sempre resultantes de enormes conflitos bélicos”. “Esse é o quadro geral dos grandes desafios da diplomacia brasileira”, concluiu.

sábado, 4 de julho de 2026

Notícias recentes e relevantes sobre o Itamaraty, na visão de madame IA (via Airton Dirceu Lemmertz)

Notícias recentes e relevantes sobre o Itamaraty, na visão de madame IA
Em 03/julho/2026.  

O Itamaraty vive um momento de intensa atividade diplomática, marcado por uma severa disputa comercial com os Estados Unidos, acordos de segurança institucional e recepção de delegações estrangeiras. [1, 2, 3]
As principais notícias e atualizações do Ministério das Relações Exteriores envolvem:
⚠️ Defesa do Pix e contra-ataque ao "Tarifaço" dos EUA
O governo brasileiro apresentou sua defesa oficial ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) para tentar impedir tarifas que podem chegar a 40% sobre produtos brasileiros. [1]
  • O argumento: O Itamaraty protocolou um documento detalhado assegurando que o Pix opera em condições abertas e não discrimina corporações americanas (como Visa e Google, que lucram no ecossistema). [1]
  • Justiça e Meio Ambiente: A chancelaria também defendeu as decisões do STF contra plataformas digitais norte-americanas, classificando as queixas de "infundadas", e reforçou o avanço do Brasil no combate ao desmatamento ilegal. [1]
  • Tensões Políticas: O embate gerou atritos internos fortes. O Itamaraty usou as redes sociais para rebater críticas da oposição, afirmando que "traidores da pátria" deveriam pedir desculpas por tentar validar a interferência externa de Donald Trump na justiça brasileira. Em contrapartida, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou uma moção de repúdio ao órgão por postura considerada "militante e ideologizada". [1, 2, 3, 4]
🤝 Acordo Estratégico de Segurança com a Polícia Federal
A Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores assinaram um Acordo de Cooperação Técnica. O objetivo do tratado é otimizar e reforçar a segurança institucional de servidores, dados sigilosos e instalações físicas das embaixadas e consulados do Itamaraty, tanto em território nacional quanto em missões no exterior, mitigando ameaças cibernéticas e geopolíticas. [1]
🌍 Agenda Diplomática e Direitos Humanos
  • Visita da Alemanha: O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e oficiais da chancelaria recebem, entre ontem e hoje, o Ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul, para agendas bilaterais em São Paulo e Brasília. [1, 2]
  • Simore Brasil: Mauro Vieira participou do lançamento do Simore Brasil, um sistema voltado para monitorar e dar transparência ao cumprimento das recomendações internacionais de direitos humanos feitas ao país, consolidando novos pactos firmados perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. [1, 2]
💼 Movimentações Internas na Carreira
O Diário Oficial da União oficializou os decretos regulamentares de promoções de diplomatas referentes ao primeiro semestre. Diversos conselheiros e ministros de segunda classe ascenderam na hierarquia tradicional da instituição, preenchendo postos abertos por aposentadorias recentes. [1]


Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824 - Paulo Roberto de Almeida

 Hoje é 4 de julho de 2026: 250 anos da Declaração de independência das 13 colônias americanas com respeito à monarquia britânica. Abaixo um trabalho sobre as relações dos Estados Unidos com o Brasil desde a nossa independência, sob a forma de respostas a questões de um jornalista.


Relações entre Brasil e EUA: eventos marcantes desde 1824
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

1) De 1824 até agora, seria possível selecionar até cinco eventos, fatos, acordos ou tratados que envolveram o Brasil e os Estados Unidos que marcaram as relações entre os dois países?

PRA: O próprio reconhecimento precoce da independência de uma monarquia constitucional pelo governo americano, em 1824, antes das monarquias europeias, e da própria metrópole, representa um gesto importante no plano político hemisférico, mas enquadrado conjunturalmente na proclamação, um ano antes, da chamada Doutrina Monroe, uma postura de oposição à eventual reconquista das antigas colônias ibero-americanas pelas monarquias europeias da Santa Aliança.
Mais adiante, a entrada pelo rio Amazonas, em 1851, sem prévia autorização do Império, de um tenente da Marinha americana foi objeto de reclamações formais por parte do governo imperial, por ter havido fraude a pretexto de “expedição científica”. Desde o final da guerra civil americana, os EUA se converteram no maior importador de café brasileiro, cuja venda sempre representou um saldo significativo para o Brasil na sua balança bilateral.
Em 1889, o Império havia respondido ceticamente à proposta americana de uma união aduaneira hemisférica, tal como formulados pelo governo americano, por desejo de conservar relações privilegiadas com países europeus. A mudança de regime, no curso da conferência, alterou as instruções da delegação brasileira num sentido americanista.
A mudança de governo e de regime, em 1889, suscitou uma primeira onda de americanização na jovem República do Brasil, tanto é assim que o novo regime passou a se chamar de “Estados Unidos do Brasil”, e sua primeira constituição republicana, em 1891, espelhou diversos dispositivos da Carta americana, sob influência do federalismo de Rui Barbosa. Um acordo de comércio favorável amplamente aos EUA foi negociado logo ao início do novo regime, mas derrogado poucos anos depois pelo protecionista McKinley.
A revolta da Armada, em 1893, no governo de Floriano Peixoto, com o bloqueio da Baía da Guanabara, contou com o apoio decisivo de uma armada americana, mobilizada para permitir a passagem de barcos cargueiros, mobilizados justamente para furar o bloqueio.
A longa gestão Rio Branco, de quase dez anos à frente da chancelaria (1902-1912), representou uma nova orientação da política externa. no sentido de refletir a ascensão dos EUA sobre os assuntos do mundo. As boas relações não impediram uma denúncia contra o Brasil em cortes americanas contra o “comércio desleal” do Brasil no setor do café, ação motivada pela política de valorização do produto, ou seja, retenção de estoques para empurrar os preços para cima. Na mesma época, bancos de NY começaram a participar na emissão de títulos externos da dívida oficial brasileira.
Os anos 1930 representaram os maiores desafios para o que se poderia chamar de primeiro envolvimento do Brasil na geopolítica mundial, com pressões dirigidas pela Alemanha e pelos Estados Unidos em prol de relações econômicas e financeiras preferenciais no quadro da Grande Depressão, e da retração protecionista em quase todos os mercados. O Brasil contraiu um acordo de comércio liquidado não em divisas, mas em mercadorias, com a Alemanha, sob protestos americanos. Ao mesmo tempo conseguia renegociar algumas de suas dívidas com os credores americanos, com o apoio do Tesouro. Mais adiante, no curso da guerra, o chanceler Oswaldo Aranha conseguiu consolidar uma precoce aliança em apoio aos EUA, logo após Pearl Harbor (7/12/1941), convocando uma reunião extraordinária dos chanceleres hemisféricos, hipotecando solidariedade ao país atacado, em janeiro de 1942. Foi também um dos primeiros beneficiários dos Lend-Lease Agreements, de cessão de material e equipamentos militares americanos e programas de apoio econômico durante a guerra, no quadro das Nações Unidas. Mesmo tendo a Alemanha oferecido ajuda na construção de uma siderúrgica, foram os EUA que viabilizaram o grande investimento da U.S. Steel na construção de Volta Redonda, um primeiro grande marco na industrialização brasileira. Roosevelt se entreteve com Vargas, num encontro em Natal, que marcou o ingresso efetivo de forças brasileiras na guerra europeia contra o nazismo.
O imediato pós-guerra representou uma segunda americanização do Brasil, bem mais afirmada, pois os EUA eram os únicos países dotados de recursos para viabilizar programas de reconstrução (nos países europeus e no Japão) e de desenvolvimento, nos aliados da primeira Guerra Fria. Uma Comissão Mista Brasil-EUA, firmada por Truman e Dutra, em 1949, oferece um primeiro mapeamento completo da economia brasileira.
Em duas oportunidades, o governo brasileiro sugere a criação de uma espécie de novo Plano Marshall para a América Latina, sem sucesso porém: na conferência de criação da OEA, em Bogotá, em 1948, e já no governo Juscelino Kubitschek, em 1958, por meio da primeira iniciativa da diplomacia multilateral do Brasil, a Operação Pan-Americana (o único resultado foi a fundação do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em 1960).
Seu relatório, divulgado já no governo Vargas constitucional, sugere a criação de um banco de desenvolvimento, de um banco central e de diversos outros empreendimentos nessa área. Foi ainda no governo Vargas (1953) que se firmou um acordo de assistência militar que selou a vinculação entre os dois países, só suspendido pelo Brasil no governo Geisel (1977), por “interferência americana” nos assuntos internos do Brasil, no caso, relatório sobre direitos humanos requerido pelo Congresso para programas de ajuda. As relações, antes amigáveis, nos governos Nixon-Medici (inclusive pela participação do Brasil no golpe de Pinochet contra Allende, em 10973), se deterioram sob Geisel, a despeito de um acordo de consultas mútuas entre Azeredo da Silveira e Henry Kissinger.
Os EUA, seus bancos e funcionários do Tesouro, desempenharam um papel positivo durante a primeira crise da dívida latino-americana, nos anos 1980, quando o Brasil precisou de vários acordos stand-by com o FMI, o que continuou nos anos 1990. Os governos Lula, a despeito de uma aparente cordialidade com Bush filho, foram discretamente antiamericanos, não só formulando esquemas puramente latino-americanos de consulta e coordenação (a exemplo da Unasul, excluindo a OEA e os EUA), mas abertamente sabotadores de uma grande iniciativa americana, a Alca, sabotada em 2006 na conferência de cúpula de Mar del Plata, numa aliança Chávez-Lula-Kirchner. Antes disso, Lula se movimentou para impedir a invasão americana no Iraque, mas recebeu alertas do governo Bush para não se mostrar muito ativo nessa matéria: para realizar seu intento, o governo Bush conseguir “expelir” o diretor brasileiro da OPAQ, ainda no final do governo FHC.
As relações foram superficialmente cordiais durante o governo Obama, a despeito das revelações sobre espionagem da NSA sobre comunicações do governo e de empresas estatais do Brasil, o que causou a suspensão da visita de Estado que Dilma Rousseff pretendia fazer aos EUA em sua primeira gestão (2013). Michel Temer, por sua vez, se surpreendeu, numa de suas participações na Assembleia Geral da ONU, com um convite, formulado por Trump 1, num jantar oferecido a presidentes da América Latina, para participarem de um golpe contra o regime chavista da Venezuela: a diplomacia brasileira obviamente sabotou essa tresloucada aventura militar (que foi novamente tentada ao início de Bolsonaro).
As relações do governo Bolsonaro com Trump 1 foram de vergonhosa submissão, tanto é que nem cumprimentou Joe Biden por sua vitória em 2020, e até colocou em dúvida a lisura dessas eleições, tanto quanto o fez, sistematicamente, em relação aos pleitos brasileiros conduzidos por votação eletrônica. Altos funcionários americanos – Jake Sullivan, do NSA, e William Burns, da CIA – visitaram o Brasil em 2021 e 2022 para demonstrar abertamente a oposição do governo americano a qualquer tentativa de golpe continuísta de Bolsonaro.
Lula perpetrou o gesto indelicado, antidiplomático e até contra as regras expressas das convenções internacionais e da própria Constituição brasileira, ao interferir abertamente nas eleições americanas de 2024, apoiando a candidata democrata, derrotada por Trump 2. As relações entre ambos nunca foram de amizade, sequer de aproximação formal, no contexto das insanidades tarifárias do segundo governo Trump e da sua interferência direta no direito interno do Brasil, ao pleitear extinção do processo contra os golpistas da tropa Bolsonaro, chegando a escrever essa intromissão em carta aberta dirigida a Lula. Diplomatas e homens de negócios atuaram para permitir um primeiro entendimento para minimizar os conflitos econômicos e políticos – totalmente ilegítimos, pois que baseados em legislação unilateral dos EUA ou a expressando arrogância imperial da administração Trump – mas as ameaças de imposição de sobretaxas abusivas continuam pairando numa relação bilateral que pode ser considerada a pior possível em mais de dois séculos de relações diplomáticas. No momento presente, parece ser visível o programado apoio do governo Trump a um governo de extrema-direita nas eleições de outubro, preferencialmente o candidato ungido por Bolsonaro. Tudo indica que as relações possuem grandes chances de se deteriorarem ainda mais no futuro previsível.

2) Como o senhor avalia a qualidade e a importância atual dessa relação?

PRA: Ela sempre foi, no plano histórico, a mais importante relação diplomática, econômica, financeira, cultural e geopolítica, desde praticamente o final do século XIX, quando os EUA se convertem no principal parceiro brasileiro em todas essas vertentes, o grande fornecedor de financiamento, tecnologia e de assistência militar durante o último século, com altos e baixos no plano econômico comercial relativamente administráveis. No plano geral, elas não foram só basicamente corretas, no estrito plano diplomático, como substancialmente benéficas, aos dois países, ao permitir o acesso pelo Brasil a padrões superiores nos planos econômico, educacional, tecnológico e até “geopolíticos”, em todas as áreas abertas à cooperação bilateral e até regional, mas igualmente aos EUA, ao oferecer uma interface hemisférica que jamais representou algum tipo de ameaça aos interesses dos EUA.
A situação atual indica uma séria deterioração dessa relação, sendo que o governo Trump é o responsável direto e irrecusável pela presente situação, não exclusivamente dirigida contra o Brasil – pois que as insanidades tarifárias e o desrespeito a regras mínimas de correção diplomática, de cortesia ou de simples falta de desejo de qualquer entendimento razoável sobre as relações erga omnes, dirigidas contra todos os países, à exceção da Rússia de Putin –, mas com o potencial de atingir mais fortemente o Brasil, tanto por ser, aparentemente, o país mais irredutível do hemisfério, como pelos efeitos de uma diplomacia presidencial excessivamente personalista conduzida por Lula, em seus arroubos improvisados.
As turbulências no sistema internacional já tinham começado com as aventuras militares russas na Crimeia e na Ucrânia, em 2014 e a partir de 2022 até aqui, mas elas conheceram uma complacência pouco conhecida segundo os padrões diplomáticos do Brasil, desde o governo Dilma (invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia, sem qualquer postura compatível com a doutrina jurídica nacional, de absoluto respeito às normas mais elementares do Direito Internacional), mas foram acentuadas extraordinariamente a partir do governo Lula, que não só apoiou resolutamente a postura ilegal do governo Putin, como continuou sustentando objetivamente seu esforço de guerra, ao aumentar em níveis exponenciais as importações de fertilizantes e combustíveis russos, em total desacordo com o espírito e a letra da Carta da ONU, que comanda solidariedade e apoio a um governo sujeito a uma usurpação territorial ilegal e agredido brutalmente ao longo de todos esses anos.
Pode parecer paradoxal, mas o indisfarçável desapreço do lulopetismo diplomático pelo “imperialismo americano” encontra um terreno comum de convergência entre Lula e Trump, quando ambos atuam, de modo claro, em apoio às ações e objetivos de Putin, não apenas na Ucrânia, mas em várias outras vertentes das relações internacionais, pois os dois grandes dirigentes autocráticos parecem empenhados, por vias diversas, ao objetivo de se conformar uma “nova ordem global multipolar”, consigna à qual Lula já emprestou por diversas vezes seu apoio claro e aberto. Ninguém sabe, se, como ou quando será possível alcançar tal projeto lunático, mas Trump alimenta certamente o sonho de se sentar com os três grandes líderes imperiais, numa espécie de Yalta 2, conformando uma nova divisão do mundo em zonas de influência de cada um dos “impérios”. Xi Jinping certamente não se prestará a esse tipo de paródia, mas Lula sempre buscou se aproximar dos grandes líderes do poder mundial. Não se fazem mais conferências diplomáticas como antes...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5381, 30 junho 2026, 5 p.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Candidato da Direita se esforça para vender o Brasil ao governo Trump

Os "patriotas" estão satisfeitos com as "negociações" do candidato da Direita a respeito da insanidade tarifária dos EUA contra o Brasil?

"O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) também se manifestou sobre o tarifaço, mas foi bem além no que estaria disposto a negociar. O senador enviou ao governo dos EUA um documento oferecendo uma série de vantagens comerciais aos americanos, como a eliminação de tarifas sobre o etanol e a redução da carga tributária de empresas de cartão de crédito. O texto propõe ainda que o Brasil “se liberte das amarras” do Mercosul para firmar acordos bilaterais e defende que o Pix é um legado do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas sugere que o sistema não seja integrado a plataformas de pagamento “não ocidentais”, pedindo o adiamento por 180 dias da aplicação do tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. (Folha)
No dossiê, Flávio Bolsonaro afirma que a manutenção das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros representaria uma “vitória política” para o presidente Lula e poderia ser interpretada como interferência no processo eleitoral. Segundo ele, o adiamento da medida até depois das eleições evitaria esse efeito e reduziria o desgaste diplomático. (CNN Brasil)"

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Interferência do governo Trump nas eleições do Brasil - Respostas mal-humoradas - Paulo Roberto de Almeida

 Recebi mais uma dessas questões mal formuladas por jornalistas aprendizes, sobre um assunto dos mais chatos. Respondi de má-vontade, com frases até mal-humoradas. O tipo de assunto que abomino:


Interferência do governo Trump nas eleições do Brasil
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Respostas a questões de alguma agência folgada demais, e ainda apresentavam deadline (vou postar antes deles, que por acaso não vão postar nada do que escrevi).

Pauta: como os EUA podem interferir nas eleições do Brasil e quais métodos eles podem usar para isso
Deadline: 02/07/2026 às 19h30

Perguntas:
1. Acredita que os EUA usariam esforços para tentar interferir nas eleições brasileiras? O que eles ganhariam com isso?
PRA: Sim, Trump se acha o Imperador das Américas e acha que pode fazer com que um submisso a ele seja eleito nas eleições de outubro e assim ter o domínio quase completo da América do Sul.

2. Quais métodos o governo norte-americano poderia usar para tentar interferir no processo eleitoral?
PRA: Hostilizando o governo Lula, tentando mostrar aos eleitores que estariam melhores com um governo cooperativo, o que é contradito pelas suas próprias ações unilaterais, via tarifas ou outras medidas.

3. A participação dos EUA no golpe de 64 é de alguma forma semelhante ao momento atual? Acredita que uma possível interferência pode resultar em alguma consequência parecida?
PRA: Não existe NENHUMA comparação possível: em 1964 havia uma profunda crise política no Brasil, e os militares estavam prontos para mais um golpe de Estado, entre os muitos que deram a partir de 1889. Os militares atuais não querem nem ouvir falar em golpe, já escaldados pela experiência golpista de um tenente medíocre e covarde, incompetente até para dar um golpe.

4. Caso Trump tente interferir nas eleições brasileiras, é possível dimensionar o impacto dessa ação?
PRA: Ela será contraproducente. Lula aliás gostaria que Trump tentasse interferir nas eleições brasileiras, pois seria inteiramente a seu favor.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5384, 2 julho 2026, 1 p.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Brasil: dois séculos de crescimento revisitados - Edmar Bacha

Edmar Bacha revisa dois supostos de longa data sobre o desenvolvimento econômico brasileiro: um de que o século XIX teria sido de completa estagnação do crescimento per capita, ou outro de que os primeiros 80 anos do século XX teriam sido de um crescimento espetacular. Ambas suposições erradas, segundo ele:


Brasil: dois séculos de crescimento revisitados
Adaptado de palestra no EPEP — Estudos Políticos em Pauta, na USP, em 18 de junho de 2026, baseada em pesquisa conjunta com Guilherme Tombolo e Flávio Versiani (BTV)
EDMAR BACHA
JUL 1,2026

Duas afirmativas sobre o crescimento brasileiro circulam há décadas com força de verdade estabelecida. A primeira: a economia teria estagnado no século 19, com crescimento zero do PIB per capita — é o que registra o Projeto Maddison, a referência internacional para comparações históricas de renda. A segunda: o crescimento do PIB per capita brasileiro entre 1900 e 1980 teria sido o segundo mais rápido do mundo. Em dois artigos, BTV (2023) e BTV (2025), contestamos ambas. O século 19 brasileiro não foi de estagnação; e o milagre do século 20, embora real, foi menor do que se acreditava.

## O suposto século perdido

Comecemos pela primeira metade do século 19, onde as estimativas existentes são mais frágeis. Os números do Projeto Maddison para 1800–1850 vêm de Prados de la Escosura (2009), que por sua vez os atribui a Leff (1982), que de fato fez estimativas a partir da oferta real de moeda, mas somente referidas ao período 1800-1913, não à primeira metade do século 19. Já Furtado (1959) e, mais recentemente, Abreu, Lago e Villela (2022) estimaram crescimento zero com base em dados de exportação. Ocorre que esses dados foram revistos substancialmente para cima por Absell e Tena-Junguito (2018), o que mina a premissa do cálculo.

Ademais, a evidência histórica aponta na direção contrária à estagnação. A abertura dos portos e a liberação das atividades econômicas em 1808; a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, com a expansão do mercado interno e a especialização regional que ela induziu; o avanço do café, mais produtivo, em substituição ao açúcar; e o enorme aumento na entrada de escravizados africanos, inclusive para atender ao mercado interno — tudo isso é difícil de conciliar com uma economia parada.

Para a segunda metade do século, a controvérsia é menor. A fonte do Maddison é Goldsmith (1986), que obteve o PIB dividindo uma série nominal por uma soma de quatro índices de preços. Sua série mostra crescimento positivo em 1850–1870, mas queda a partir de 1870 — resultado que decorre de um índice de preços imperfeito; a série nominal parece adequada. Furtado já supunha crescimento significativo no período, e Tombolo (2013) o confirmou com metodologia mais elaborada, em estimativas depois adotadas por Abreu et al. (2022). Afora Leff, há razoável consenso quanto ao crescimento em 1850–1900 — e a evidência histórica é abundante: fim da escravidão, expansão das ferrovias, imigração europeia, auge do café, melhoria das relações de troca, industrialização incipiente.

## Nossa reestimação

Partindo de Tombolo (2013), reconstruímos o PIB per capita do século 19 com metodologia similar à série nominal de Goldsmith, mas com novos dados e métodos de agregação. Para os preços, partimos da nova série de Catão (1992), que se inicia em 1870; para 1820–1870, recorremos aos dois melhores índices anteriores, Lobo et al. (1971) e Buescu (1973).

O resultado: uma tendência de crescimento do PIB per capita de 0,9% ao ano para todo o século 19.

Posto em perspectiva internacional, o Brasil deixa de ser uma anomalia. Crescemos a taxas similares às da Europa Ocidental e do resto da América Latina — exceto na última década do século, quando a crise do Encilhamento e seus desdobramentos nos fizeram destoar.

Dois estudos recentes, com metodologias inteiramente independentes, confirmam nossos achados. Pereira (2026) propõe números mais baixos para a inflação no Império e, com base na série nominal de Goldsmith, estima crescimento do PIB per capita de 1,2% ao ano entre 1850 e 1889. Lambais e Palma (2026), em ampla pesquisa de arquivos históricos, constroem séries de salários reais para o Brasil de 1574 a 1920 e estimam crescimento de 0,7% ao ano entre 1822 e 1889. Nossos 0,9% estão confortavelmente entre os dois.

Por que, então, a comunidade acadêmica abraçou por tanto tempo a tese da estagnação secular? Vejo três razões. Primeiro, o argumento de autoridade: o Projeto Maddison é a referência canônica, e poucos se deram ao trabalho de rastrear a origem de seus números. Segundo, a tese se encaixava numa narrativa, em larga medida ultrapassada pela historiografia moderna, de três males — monarquia antinegócios, escravidão improdutiva, maldição dos recursos naturais — que pareciam exigir um século perdido como corolário. Terceiro, a renda per capita de 1900 no Maddison (USD 874) estava tão próxima da subsistência mínima estimada (USD 700) que qualquer crescimento anterior parecia aritmeticamente impossível.

## O século 20 foi menos milagroso

A segunda afirmativa corrente, sobre o milagre no século 20, exigiu outro tipo de cirurgia. As contas nacionais brasileiras existem desde 1947, pela Fundação Getúlio Vargas; Haddad (1980) estendeu a série de 1900 a 1947. Tanto a FGV quanto Haddad, porém, excluíram das contas os serviços de baixo crescimento, supondo implicitamente que eles avançaram tanto quanto os setores incluídos, de crescimento mais rápido. Os dados disponíveis para 1947–1966 e 1980–1990 mostram que não: os serviços excluídos cresceram pouco mais que a população.

Nossa correção reincluiu esses serviços em quatro subperíodos entre 1900 e 1980. Para 1947–1966, por exemplo: ΔPIB revisado = 0,7 × ΔPIB original + 0,3 × Δserviços excluídos. O efeito sobre as taxas é substancial:

| Período | PIB (Ipeadata) | PIB (BTV) | PIB pc (Ipeadata) | PIB pc (BTV)

1900–1980 5,7 4,9 3,3 2,5

1900–1947 4,4 4,0 2,4 2,0

1947–1980 7,4 6,2 4,5 3,3

## Consequências

Juntando as duas pontas, o retrato dos dois séculos muda de figura. O período 1820–1900 não foi de estagnação: em termos de tendência, o PIB per capita cresceu a taxas similares às da Europa e da América Latina, 0,9% ao ano. A diferença entre os dois séculos é, portanto, metade do que se acreditava — não 3,3 menos 0,0, mas 2,5 menos 0,9: 1,6 ponto percentual ao ano. O PIB do período de substituição de importações (1919–1980) cresceu menos do que se pensava: 5,3% em vez de 6,2% ao ano. Ainda assim, mesmo após nossos cortes o crescimento brasileiro de 1900–1980 foi de 4,9% ao ano, bem acima dos 3,2% da economia mundial segundo o próprio Maddison. O milagre encolheu, mas não desapareceu.

O contraste com o que veio depois é o que mais incomoda. Desde 1980, o crescimento do PIB per capita foi muito fraco, com divergência em relação aos Estados Unidos. O comportamento do IDH desde 1990 foi melhor — avançamos em saúde e educação mais do que em renda —, mas mesmo aí a convergência aos EUA vem desacelerando.

A revisão dos dois séculos não é exercício de antiquário. Ela muda a pergunta que a história econômica brasileira nos coloca. Se o século 19 não foi de estagnação e o século 20 foi menos excepcional, o Brasil aparece menos como um país de extremos — ora condenado, ora milagroso — e mais como uma economia de desempenho persistentemente mediano, pontuada por um surto industrializante que não se sustentou. A mediocridade, porém, era evitável. Continua sendo. Tema de Bacha (2026).

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**Referências principais**

“O Brasil Real e a mediocridade evitável”. Revista Será – Projeto Brasil, abril 2026. https://revistasera.info/projeto-brasil-integracao-competitiva-na-economia-globalizada/

Bacha, E., G. Tombolo e F. Versiani (2025). “Secular stagnation? A new view on Brazil’s growth in the 19th century.” *Journal of Iberian and Latin American Economic History* 43(2): 279–308.

Bacha, E., G. Tombolo e F. Versiani (2023). “Reestimating Brazil’s GDP Growth from 1900 to 1980.” *Revista Brasileira de Economia* 77(3): e132023.

Bacha, E., G. Tombolo e F. Versiani (2024). “A note on Brazil’s historical GDP per capita growth rates.” *Revista Brasileira de Economia* 78(3): e182024.

Lambais, G. e N. Palma (2026). “How a Nation was Born: Brazilian Economic Growth, 1574–1920.” CEPR Discussion Paper No. 21341.

Pereira, T.Z. (2026). “Inflation and Economic Growth in Imperial Brazil (1824–1889).” *European Review of Economic History*, heag013.

Uma nova ameaça “nuclear”? - IA, via Airton Dirceu Lemmertz

 Uma nova ameaça “nuclear”?

Vamos precisar de um novo tratado de “não proliferação da IA”?

Alertas recebidos via Airton Dirceu Lemmertz:


“Hoje (30/junho/2026): principais notícias sobre IA. 


O principal destaque global sobre inteligência artificial hoje (30/06/2026) é a declaração do diretor da CIA, John Ratcliffe, classificando os modelos mais avançados de IA como "armas nucleares digitais" durante uma conferência em Washington. [1]

As discussões do dia misturam forte teor geopolítico, novas restrições governamentais e impactos no mercado corporativo e cultural:

🛡️ Geopolítica e Segurança Nacional

Alerta da CIA: Em uma intervenção pública na conferência da Amazon Web Services (AWS), o diretor da CIA John Ratcliffe comparou as capacidades de IAs avançadas ao poder de armas atômicas e colocou as tecnologias emergentes no mesmo nível de prioridade estratégica que a China. [1]

Restrições da Casa Branca: Foi revelado que o governo dos EUA implementou controles rígidos de exportação sobre os modelos mais potentes do mercado. O acesso aos modelos Mythos 5 e Fable 5 da Anthropic foi limitado, e o lançamento do novo modelo GPT-5.6 da OpenAI foi restrito apenas a um círculo restrito de parceiros locais autorizados por Washington. [1]

📉 Impacto no Mercado e Economia

Boom Industrial na China: Dados econômicos divulgados hoje mostram que a atividade industrial chinesa voltou a crescer em junho, fortemente impulsionada pela demanda global por investimentos em infraestrutura de IA. [1]

Disputa de Poder: Uma análise da Bloomberg Línea destacou que os CEOs das grandes companhias de tecnologia estão deixando de buscar apenas mercados para tentar influenciar diretamente a geopolítica e sentar-se à mesa do G7. [1]”

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ainda sobre a mais importante questão diplomática da atualidade, Paulo Roberto de Almeida -Comentários recebidos de Demoiselle IA, via Airton Dirceu Lemmertz

Ainda sobre a mais importante questão diplomática da atualidade

Paulo Roberto de Almeida

Comentários recebidos de Demoiselle IA, via Airton Dirceu Lemmertz

        Neste dia 26 de junho de 2026, tendo me informado sobre os mais recentes desenvolvimentos relativos à guerra de agressão da Rússia de Putin contra a Ucrânia de Zelensky, e constatado a derrota estratégica imposta pelo agredido ao agressor, visualizado nos canais apropriados os sofrimentos impostos pelo tirano de Moscou à sua própria população, assim como aos ocupantes temporários (invasores) da península ucraniana da Crimeia, desde sua invasão em 2014, bem como, e principalmente, a toda a população ucraniana, vítima de massacres diários contra prédios civis (inclusive creches e escolas), e concluído pela derrota do agressor, mas sempre descontente com a postura pusilânime, de fato de complacência e apoio velado ao agressor, efetuei uma postagem em meu blog Diplomatizzando criticando, uma vez mais, a falta de critério da política externa oficial do governo brasileiro, que segue complacente em face dos piores crimes de guerra e de crimes contra a humanidade, perpetrados pelo ditador neoczarista, que foi postado no link que segue abaixo. Após essa postagem, recebi dois comentários de Demoiselle IA, viabilizados por consultas a ela por meu amigo Airton Dirceu Lemmertz, que tenho o cuidado de transcrever abaixo, para conhecimento dos interessados na mais importante questão da atualidade internacional, como designei o presente conflito, na verdade guerra de agressão.
Quero publicamente lamentar, uma vez mais, o apoio objetivo do governo Lula a um agressor deliberado do Direito Internacional e violador do direito humanitário, dada a aliança contraída com o criminoso de guerra no contexto do monstro Frankenstein chamado BRICS. Não tenho palavras para expressar meu horror ante essa postura, que aliás está também conforme à atitude do atual dirigente dos EUA, um aliado submisso ao ditador moscovita.

 
Paulo Roberto de Almeida, 26/06/2026

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Comentários de Madame IA:

1) Primeiro comentário:


Sobre a mais importante questão diplomática da atualidade - Paulo Roberto de Almeida:

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/sobre-mais-importante-questao.html

Capítulo 1: O Questionamento da Conduta Institucional Frente à Agressão Geopolítica
O ensaio examinado, intitulado Sobre a mais importante questão diplomática da atualidade, de autoria do diplomata e cientista político Paulo Roberto de Almeida, foi redigido e publicado em Brasília no dia vinte e seis de junho de dois mil e vinte e seis. O texto se estrutura a partir de uma indagação crítica e irônica direcionada pelo autor aos seus colegas de corporação e aos leitores em geral. Ele questiona se a Presidência da República ou o Ministério das Relações Exteriores do Brasil estão articulando o envio de uma nota formal de solidariedade ao mandatário russo Vladimir Putin diante do avanço das contraofensivas na península da Crimeia. [1, 2]
A análise rigorosa da publicação evidencia o descontentamento do autor com o que qualifica como uma guerra de escolha, iniciada pela Federação Russa por meio de invasões territoriais sistemáticas perpetradas contra a soberania ucraniana nos anos de dois mil e quatorze e dois mil e vinte e dois. O pensador utiliza a ironia para denunciar os sacrifícios logísticos impostos aos ocupantes provisórios dessas regiões, que atualmente enfrentam escassez severa de combustíveis tanto nas linhas de combate quanto na retaguarda estratégica. [1, 2]
Capítulo 2: Decodificação do Viés Partidário e a Erosão do Patrimônio Jurídico
Subcapítulo 2.1: A Continuidade do Alinhamento Míope entre Diferentes Gestões
O núcleo da desconstrução conceitual do texto reside na denúncia de uma cegueira deliberada que acomete a formulação da política externa brasileira recente. O autor decodifica o comportamento do corpo diplomático profissional ao apontar a sua incapacidade crônica de convencer os sucessivos mandatários do Poder Executivo federal a respeito da existência inequívoca de um polo agressor e de um polo agredido no conflito do Leste Europeu. Segundo o diagnóstico crítico apresentado, tanto a administração de Jair Bolsonaro quanto a de Luiz Inácio Lula da Silva operaram sob um desalinhamento normativo em relação ao Direito Internacional. Esta postura representaria uma transgressão direta aos preceitos elementares estipulados na Carta das Nações Unidas, rompendo com uma tradição de neutralidade legal que o Brasil preservava desde os períodos anteriores à consolidação da referida carta multilateral. [1, 2]
Subcapítulo 2.2: O BRICS como Anomalia Estratégica e o Ostracismo Profissional
O autor estende seu marco analítico retrospectivo para classificar o fenômeno histórico que denomina como lulopetismo diplomático, cujos efeitos teriam vigorado inicialmente entre dois mil e três e dois mil e dezesseis, retornando à atividade a partir do ano de dois mil e vinte e três. Ele estabelece uma equivalência crítica entre esse modelo corporativo e o período que qualifica como o horror diplomático da gestão de Bolsonaro, caracterizando ambos como manifestações de uma esquizofrenia institucional. No entendimento do especialista, a persistência dessas orientações resultou na inserção do Brasil em arranjos multilaterais disfuncionais, definindo explicitamente o bloco dos BRICS como um Frankenstein diplomático. A defesa intransigente dessa tese e a denúncia da perda de autonomia decisória frente aos interesses das grandes potências globais foram os fatores determinantes para que o autor fosse submetido ao isolamento acadêmico e ao ostracismo funcional dentro do Itamaraty. [1, 2, 3, 4]

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2) Segundo comentário:

Analise, de modo mais detalhado e mais crítico, o conteúdo da última postagem apresentada.

Capítulo 1: O Pragmatismo Deformado e a Crise de Identidade do Itamaraty
O ensaio do diplomata Paulo Roberto de Almeida, intitulado Sobre a mais importante questão diplomática da atualidade e datado de vinte e seis de junho de dois mil e vinte e seis, constitui um manifesto de ruptura intelectual contra o atual direcionamento da política externa brasileira. O cerne da crítica reside na denúncia de um pragmatismo deformado, que o autor identifica tanto no atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva quanto na gestão anterior de Jair Bolsonaro. Para o ensaísta, a incapacidade do corpo diplomático em induzir os mandatários a reconhecer a distinção jurídica elementar entre o Estado agressor (Rússia) e o Estado agredido (Ucrânia) não representa apenas um erro de cálculo geopolítico, mas uma erosão civilizatória das bases normativas que fundamentaram a inserção do Brasil no mundo moderno.
A análise detalhada do texto revela que o autor enxerga o Itamaraty contemporâneo não mais como uma instituição guardiã da legalidade internacional, mas como um aparato burocrático capturado por simpatias ideológicas e conveniências personalistas. Ao classificar as ações da Federação Russa na Crimeia e no Donbas como uma guerra de escolha, Almeida desconstrói a narrativa de que o conflito no Leste Europeu é uma consequência inevitável da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Ele reposiciona o foco sobre a soberania territorial e a violação flagrante da Carta das Nações Unidas, argumentando que a complacência brasileira desidrata o patrimônio jurídico que a diplomacia profissional construiu com rigor antes mesmo de mil novecentos e quarenta e cinco.
Capítulo 2: Decodificação Conceitual da Aberração Multilateral
Subcapítulo 2.1: O BRICS como um Frankenstein Diplomático
Um dos pontos de maior densidade analítica do documento é a desmistificação do bloco dos BRICS, classificado pelo cientista político como um Frankenstein diplomático. A decodificação dessa metáfora revela a contradição inerente a uma coalizão que costura, de forma artificial, democracias emergentes com regimes autocráticos e revisionistas dotados de ambições imperialistas. Almeida sustenta criticamente que a priorização desse arranjo desvia o Estado brasileiro de sua verdadeira urgência nacional, que deveria ser o desenvolvimento econômico e social interno amparado pela atração de investimentos produtivos e pela integração a mercados dinâmicos e transparentes. Ao atrelar-se ao bloco, o Brasil abdica de sua plena autonomia decisória para atuar, de forma satélite, em favor dos interesses de grandes potências autoritárias.
Subcapítulo 2.2: O Ostracismo como Preço da Racionalidade
A abordagem do autor assume um tom de denúncia institucional ao expor os mecanismos de cancelamento corporativo existentes na estrutura do serviço exterior brasileiro. O fato de suas posições rigorosamente pautadas no Direito Internacional terem culminado em seu ostracismo no Itamaraty e no distanciamento acadêmico evidencia uma patologia institucional contemporânea: a penalização do pensamento dissidente e o triunfo do conformismo burocrático. A crítica estende-se ao conceito de lulopetismo diplomático, um modelo que, segundo a exegese do autor, instrumentaliza a política externa para fins de projeção partidária e afinidades retóricas com o Sul Global, gerando um isolamento prático travestido de protagonismo.
Capítulo 3: A Ilusão da Neutralidade e o Desfecho Histórico Inevitável
O ensaio encerra-se com uma projeção sombria, porém confiante na força corretiva da história. O autor antecipa que um próximo desenlace da crise geopolítica global — a qual ele equipara em gravidade ao cenário de mil novecentos e quarenta e cinco — servirá como um choque de realidade capaz de desmascarar as orientações equivocadas adotadas pelo Brasil desde o início do século vinte e um. A neutralidade exibida pelo país é decodificada como uma omissão cúmplice que enfraquece a autoridade moral da diplomacia brasileira para atuar como mediadora em crises futuras.

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Fim dos comentários de Demoiselle IA:

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5372, 26 junho 2026, 2 p.


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