domingo, 13 de novembro de 2011

E por falar em racionalidade nas universidades brasileiras...

Meu post anterior trata da eleição de uma chapa sensata para o DCE da UnB.
Parece que a tendência a afastar os anacrônicos dos DCEs se instala, finalmente, nos campi universitários. 
Já não era sem tempo...
Paulo Roberto de Almeida 



Reinaldo Azevedo, 13/11/2011

O Diretório Central dos Estudantes da Universidade de São Paulo elege a nova direção entre os dias 22 e 24 deste mês. Nunca as instâncias da universidade precisaram tanto, como precisam agora, ouvir a voz da razão, do equilíbrio, do bom senso. A maioria silenciosa da USP tem de saber que os grupelhos de extrema esquerda - entre alunos, professores e funcionários - estão se organizando para, junto com os petistas, “decretar”, no ano que vem, o que pretendem que seja “a maior greve em dez anos”. Por qual motivo? Cinicamente, eles dizem em seus fóruns que “os motivos vêm depois”. Outros afirmam abertamente: “É para quebrar a espinha do Alckmin e do PSDB”. Querem fazer guerra política jogando com o curso, a carreira e o destino de milhares de estudantes. Para eles, tanto faz! Não estudam mesmo! Estão na universidade para cumprir tarefas partidárias.
Abaixo, segue uma entrevista com membros da chapa “Reação”. É a única não-esquerdista entre as que disputam o DCE. Também é a única que não conta com “estudantes profissionais”. Entre seus 61 membros, apenas sete são filiados a partidos. A filiação, já escrevi aqui, não é um mal em si ou um crime. É um direito democrático. Usar a USP para fortalecer uma agremiação ou seita é que é prática criminosa.
Votar ou não votar pode ser decisivo, alunos da USP, para garantir a sua paz no ano que vem. Votar ou não votar pode ser decisivo para garantir a sua segurança no ano que vem. Votar ou não votar pode ser uma escolha entre a democracia na universidade e a ditadura da minoria. Segue entrevista com Rodrigo Souza Neves (Gestão de Políticas Públicas - EACH, já graduado em História - FFLCH), Winicius do Carmo (Ciências Sociais - FFLCH), José Oswaldo de Oliveira Neto (Engenharia Elétrica - Escola Politécnica); Lucas Sorrillo (Engenharia de Materiais - Escola Politécnica); Edgar Cutar Junior (Engenharia Florestal - Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” - ESALQ) e Flavio “Morgenstern” (Letras, Alemão, FFLCH).
Vejam o que eles pensam e quais são as suas propostas. Uma delas me parece central: a USP já dispõe hoje de tecnologia para saber o que realmente pensam e querem os estudantes por meio de votações eletrônicas. Diz um dos entrevistados:
“Nas assembléias, marcadas invariavelmente no horário das aulas, são ‘decididas’ pautas impostas pela mesa, no olhômetro e por uma minoria que mata as aulas. Se as propostas, algumas até criminosas, não são aceitas, fazem outra até dar o resultado que querem, como se deu na invasão recente. Votação eletrônica mostra a real vontade dos estudantes da USP, que estudam e trabalham e não têm tempo a perder com assembléias.”
Perfeito! Segue a entrevista. Reitero: essa questão não interessa só à USP. A reação dos bons interessa ao Brasil.
O que é a chapa “Reação”?
Winicius do Carmo -
A chapa Reação é uma coalizão de estudantes dos mais variados cursos e campi da Universidade de São Paulo, os quais se uniram para reagir ao cenário antidemocrático do Movimento Estudantil da USP. A chapa Reação surge em meio à forte mobilização dos estudantes contra as atitudes autoritárias da atual gestão do DCE e de grupos radicalizados que promoveram a invasão e depredação dos edifícios da Administração da FFLCH e da Reitoria da USP. O grupo possui suas origens nas chapas Reconquista (2009) e Liberdade (2010), as quais foram compostas pelo Movimento Liberdade USP - grupo apartidário de oposição não-marxista ao DCE. O objetivo da chapa é promover a democratização do movimento estudantil da USP e resgatar a representatividade do DCE perante os estudantes, sempre se opondo ao aparelhamento político-partidário existente no movimento estudantil brasileiro, especialmente na USP.
Qual é a diferença entre a chapa “Reação” e o “Movimento Liberdade USP”?
José Oswaldo de Oliveira Neto -
O Movimento Liberdade USP é um dos grupos que compõem a coalizão da chapa Reação, porém não é a sua totalidade. Além do Movimento Liberdade USP, compõem a chapa Reação segmentos dos grupos “A USP pode mais”, de alunos de Ciências Sociais, e “União da Juventude Brasileira”, além de estudantes independentes desses grupos. Os integrantes dessa candidatura compartilham dos mesmos ideais, como democracia representativa, liberdade individual de pensamento, manifestação e excelência acadêmica e foco nos interesses dos estudantes.
Vocês têm contanto com o pessoal da “Liberdade UnB”, que venceu lá a disputa para o DCE?
Rodrigo Souza Neves -
Desde 2009 o Movimento Liberdade USP mantém contato com o Liberdade UnB, e, desde 2010, há uma aliança entre os dois grupos, caracterizada por um apoio mútuo na oposição à partidarização do Movimento Estudantil e pela troca de experiências e informações.
Na opinião de vocês, qual é a principal tarefa de um Diretório Central de Estudantes numa sociedade democrática?
Lucas Sorrillo -
Um Diretório Central Estudantil deve trabalhar na união de todos os centros acadêmicos de uma universidade, não apenas daqueles que comungam de seus ideais político-partidários, como tem ocorrido ultimamente no Brasil, especialmente na USP. Uma instituição do porte da USP é muito visada na sociedade, um centro acadêmico de nossa universidade não pode ser deixado sozinho, sem apoio institucional. O DCE deve ser a entidade que primeiro recebe as críticas, que apóia e dá suporte às ações dos alunos de todo e cada curso que representa.
Um DCE deve servir, também, como a entidade que reivindica e legitima anseios de cada aluno, de cada centro acadêmico, de cada grupo de cultura e extensão, empresa Junior, associação atlética, enfim, de cada entidade que une e representa estudantes, perante sua universidade. Sempre atuando em prol da ampliação e melhoria da infra-estrutura e qualidade do ensino, da pesquisa e da extensão, ou seja, do desenvolvimento técnico-científico e humano da universidade e da sociedade.
Mais um ponto de extrema importância na tarefa de um DCE é levar aos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário as necessidades dos estudantes de um município, de um estado ou de todo o país. A UNE pode ser citada como exemplo disso, entretanto após o movimento dos “cara-pintadas”, devido ao aparelhamento partidário, essa instituição deixou de ser representativa e, hoje, não passa de uma produtora de carteirinhas. Guardando as devidas proporções, isso acontece na USP. O DCE deixou de ser representativo, e hoje, apenas corrobora políticas partidárias da extrema-esquerda, numa oposição viciada a qualquer forma de poder existente no país, até mesmo à Constituição como um todo. De fato, em algumas situações, essas duas entidades reivindicam interesses dos estudantes, porém, mesmo tendo objetivos justos, fazem da maneira errada: reivindicam de maneira radical e sem apresentar propostas dos métodos que devem ser usados para se alcançar tais metas. Além disso, falta na USP a iniciativa do diálogo. Os estudantes que comandam o DCE há vários anos sempre partem para atitudes radicais, como greves, invasões e difamações.

Quantas pessoas na chapa têm filiação partidária?
Rodrigo Souza Neves -
Sete pessoas, sendo seis filiadas ao PSDB e uma ao PV. Entretanto, cabe ressaltar que estes não possuem o caráter de “militantes profissionais” como freqüentemente se vê entre os grupos de esquerda do movimento estudantil, em que, muitas vezes, os militantes não só são filiados como são funcionários e membros da hierarquia dos partidos. Também é preciso ressaltar que todos esses assumiram o compromisso de deixar suas fidelidades e simpatias partidárias para fora dos muros da universidade, diferentemente do que ocorre na prática dos partidos de extrema esquerda presentes na USP.
Por que é tão difícil convencer o estudante que realmente estuda a votar?
Edgar Cutar Junior -
Quem estuda hoje na USP dificilmente se sente representado pelo DCE devido a uma contínua sucessão de gestões ligadas a partidos de extrema esquerda, as quais utilizam de fóruns ilegítimos e métodos autoritários para impor a vontade de uma minoria perante a maioria dos alunos. Entre essas ações, encontram-se a promoção e apoio a greves impopulares, com causas muitas vezes opostas aos interesses dos estudantes; a recorrente prática de invasões e depredações de prédios públicos da universidade e o cerceamento do direito de ir e vir dos estudantes por meio de barricadas e piquetes.
Tudo isso fez com que os estudantes de verdade pegassem asco de uma entidade que supostamente deveria representar a todos, não somente os que fazem parte da própria gestão, como vem acontecendo. No caso específico dos campi do interior [Ribeirão Preto, São Carlos, Piracicaba, Lorena, Bauru e Pirassununga], o sentimento de desinteresse e falta de representatividade por parte do DCE é agravado pela quase total desconexão do DCE da realidade desses campi e práticas que impedem a participação destes estudantes no processo decisório.
Entre tais práticas está um tratamento patrão-funcionário por parte dos “coordenadores de campi” do DCE - quase sempre estudantes de Ciências Sociais, da capital, que visitam esporadicamente outros campi - com relação a seus pares.  Outro elemento desmotivador é a prática, por parte da gestão do DCE, de excluir a participação dos estudantes do interior ao se convocarem assembléias, reuniões e Conselhos de Centros Acadêmicos quase que somente na capital paulista.
Todos esses fatores geram um desinteresse destes estudantes e uma sensação, real, de que a gestão do DCE não faz a menor diferença no dia-a-dia dos estudantes desses campí; e que os braços do DCE só alcançam o interior em tempos de eleição, em que milhares de panfletos e militantes até mesmo de outras universidades rondam os campi em busca de “gado eleitoral”.
A PM deve continuar a fazer o policialmente do campus?
Lucas Sorrillo - Não cabe a uma gestão de DCE decidir isso em nome dos alunos. Cabe à gestão do DCE consultar os alunos, por meio de um plebiscito, e acatar a decisão tomada pela maioria dos estudantes. E, nessa questão, em plebiscitos realizados na FEA, POLI e num geral, organizado por alunos da EACH, mais de 60% dos estudantes se manifestaram favoráveis a essa posição.
Inclusive um representante do Grêmio da POLI, encaminhou pedido oficial ao DCE para que realizasse, após muitos debates com os alunos para informar os estudantes, um plebiscito amplo, geral e transparente na USP sobre segurança. Entretanto, a atual gestão negou o pedido, alegando que um plebiscito não representa a vontade real dos alunos. Ao que tudo indica, eles preferem assembléias em que se vota por contraste, e não se tem nem a certeza de que todos os presentes são estudantes.
Digam-me três propostas que vocês consideram centrais ou três compromissos da chapa caso vença a eleição.
Rodrigo Souza Neves -
1) Representatividade real dos estudantes e independência plena do DCE perante os interesses do Sindicato dos Trabalhadores da USP e de partidos políticos. DCE para, pelo e do estudante. 2) Democratização dos fóruns do movimento estudantil e consulta plebiscitária de temas de grande importância, como forma de evitar decisões tomadas em assembléias sem representatividade realizadas nos campi da capital. 3) Reestruturação financeira, transparência nas contas e atos do DCE e um projeto de captação de recursos para a universidade baseado no Endowment da Escola Politécnica
Quem tem medo da chapa “Reação” na USP?
Flavio “Morgenstern” -
Entre todas as chapas inscritas, aparentemente os criminosos da USP apenas temem a chapa “Reação”. É um excelente indício. Tais crimes, que vão de dano ao patrimônio a lesão corporal (já houve casos até de envenenamento de comida do Bandejão), são chamados de “perseguição política”. São crimes comuns que nunca são divulgados.
Quem mais teme a chapa, portanto, é a retórica: uma vitória da única chapa não-esquerdista mostra, afinal, que a comunidade acadêmica não quer crimes, invasões, depredações, greves, piquetes, agressões físicas, como de estudantes que declaram que “por enquanto a gente optou por não impedir fisicamente a entrada dos estudantes”. Assim, não se pode mais falar em nome dos “estudantes”.
Outro temor com a chapa é a proposta da realização de plebiscitos eletrônicos para votações, através de sistemas próprios da USP como o Júpiter Web. Nas assembléias, marcadas invariavelmente no horário das aulas, são “decididas” pautas impostas pela mesa, no olhômetro e por uma minoria que mata as aulas. Se as propostas, algumas até criminosas, não são aceitas, fazem outra até dar o resultado que querem, como se deu na invasão recente. Votação eletrônica mostra a real vontade dos estudantes da USP, que estudam e trabalham e não têm tempo a perder com assembléias.

Os resultados até agora são acachapantes: praticamente 80% da USP quer a PM no campus e é contra greves e invasões. Aqueles que querem impor sua vontade à força têm mesmo razão para temer uma chapa democrática, onde um homem significa um voto.

A Aliança pela Liberdade e os estudantes da UnB - Paulo Roberto de Almeida


A Aliança pela Liberdade e os estudantes da UnB

Paulo Roberto de Almeida

A UnB possui, ao que parece com status de ciência, um curso de Astrologia. Aliás, mais do que isso: trata-se de um Núcleo inteiro de estudos, o de Fenômenos Paranormais, que promove, ao que se informa, pesquisas e cursos em quatro áreas: astrologia, ufologia, conscienciologia e terapias integrativas.
Bem, eu aposto que nenhum dos especialistas trabalhando nessas áreas, ou mesmo qualquer outro ser pensante, operando com “chutes” a partir de dados empíricos da realidade, poderia prever que, num campus universitário tão bizarro quanto esse que responde pelo nome de UnB, o corpo discente acabaria colocando na direção do Diretório Central do Estudantes, a chapa vencedora que responde pelo singelo nome de “Aliança pela Liberdade”. Aposto, justamente, que colocando as eleições para o DCE no quadro de apostas daqueles bookmakers ingleses (que são capazes de apostar até qual é o número exato de gays da família real britânica), a vitória da chapa chamada de “conservadora” pelos sete outras concorrentes não faria mais do que 25 por 1, quem sabe até mais do que isso. Confesso que eu também, conhecendo a UnB, seus fantásticos alunos e seus professores maravilhosos, não apostaria muito dinheiro no sucesso dessa chapa.
Mas, por incrível que isso possa parecer, neste glorioso mês de outubro de 2011, venceu a sensatez, a racionalidade, o desejável, o simples bom senso. Em face de um vasto leque de chapas concorrentes (oito no total), todas com alguma coisa agressiva no nome – tipo “Ação Direta”, “Mobiliza”, ou mesmo aquela poeticamente intitulada “Canto Maior” –, de todas essas que prometiam, menos uma, continuar a luta de classes por outros meios, ganhou a única que declarava sua intenção de ocupar-se prioritariamente dos assuntos estudantis, da melhoria das condições de estudo, numa UnB passavelmente caótica e entregue a grupelhos políticos e seitas ideológicas que remetem não ao século XXI da globalização, mas ao século XIX dos movimentos anticapitalistas.
A esquerda delirante, subitamente acometida de alguns laivos de razão, atribui sua derrota à tradicional divisão entre essas tribos exóticas, que, de outro modo, teriam vencido pelo total de votos (4.004 votos, contra os 1.280 da chapa vencedora, ou 22% do total). As chapas de esquerda lutavam por coisas estranhas como: “Fortalecer o trote solidário”, “Combater o Plano Nacional de Educação” (e a UNE, por extensão), “Realização do Congresso Estatuinte”, ou ainda aumentar a assistência estudantil e as prestações de muitas coisas, sem quaisquer contrapartidas. A chapa vencedora, por sua vez, prometia objetivos compreensivelmente pragmáticos, do tipo: “Implantar parlamento de estudantes, onde cada Centro Acadêmico terá uma cadeira; Apoiar as fundações como forma de financiamento; Criação de Parque Tecnológico e término das obras da UnB-Ceilândia; Fortalecer as empresas juniores e o intercâmbio com instituições estrangeiras; Reivindicar por novas concessões de lanchonetes, reprografias, livrarias e restaurantes nos campi.”
Parece que, por uma vez, os estudantes da UnB resolveram deixar de lado a luta de classes e assumir a luta pela melhoria das condições de ensino e de estudo no campus.  Ainda assim, cabe registrar, como o fez o presidente da chapa eleita, que 25 mil alunos não votaram nas eleições, seja por cansaço natural, isto é, descrença nas possibilidades de ações pragmáticas, seja por desinteresse puro e simples pelo ativismo político. O fato é que o “caos natural” que afeta a UnB não é diferente dos problemas de muitas outras universidades públicas, federais ou estaduais, nas quais o corporativismo de professores e funcionários se mistura ao militantismo de correntes minoritárias para criar um ambiente de baixa produtividade, a ineficiência geral dos serviços de apoio e uma tolerância mediocrizante com os baixos padrões educacionais exibidos pela maior parte delas.
Eu encerro meu comentário, extremamente rápido, sobre as eleições na UnB com estas simples palavras, que pretendo reveladoras do meu pensamento e dos temores que mantenho – como provavelmente dezenas ou centenas de outros estudantes que simplesmente desejam estudar – em relação a um processo de degradação dos padrões educacionais no Brasil atual (e na vida pública em geral).

Considero que o Brasil enveredou, desde muito tempo – ou seja, todo esse cenário de corrupção agravada e de mediocrização crescente da vida pública vem de muito antes que energúmenos tenham conquistado o poder no Brasil – por uma via que só pode levá-lo à decadência gradual e constante. Trata-se de um processo já conhecido em outras experiências internacionais de retrocessos sociais, econômicos e políticos, como podemos constatar pela Argentina atual (que ainda não parou de decair), pela Grã-Bretanha pré-Tatcher (quero dizer, nos primeiros oitenta anos do século XX) e pela China pré-anos 1990 (mas que ainda não se enquadrou em padrões civilizatórios mais elevados no plano da estrutura política), ou seja, todo o processo de decadência chinesa, que leva de meados da dinastia Qing (talvez desde o século XVII), até a superação do maoísmo delirante, já sob o comando de novos mandarins esclarecidos (mas igualmente despóticos).
Esse retrocesso, no caso do Brasil, se traduz em sindicalismo mafioso (muito parecido com o processo argentino), em introversão econômica (e aqui temos muitos países que seguem a receita do avestruz), e em aumento da corrupção generalizada (pela chegada de amorais e de imorais no comando do Estado). Mais importante, porém, do que todos os atrasos e retrocessos materiais que possam ocorrer em decorrência dos fenômenos e processos apontados acima, o que é mais revelador do retrocesso brasileiro é o atraso mental em que vivem dezenas, centenas, milhares de pessoas detentoras de algum poder em escala social – militantes de partidos, dirigentes políticos, empresários e simples cidadãos – e que partilham das mesmas ideias imbecilizantes que as manifestadas em quase todas as chapas derrotadas nas eleições do DCE-UnB.
Os estudantes-militantes que defendem aquelas posições são perfeitamente representativos do que existe de pior na sociedade brasileira atualmente, e esse pior está perfeitamente instalado no poder. Sou, sim, pessimista quanto ao futuro do Brasil, ao vê-lo dominado pelas mesmas ideias – ou seus equivalentes funcionais – que levaram outros países à decadência e à irrelevância. De vez em quando, muito acidentalmente, pessoas sensatas resolvem dar uma virada, como ocorreu agora na UnB, mas na maior parte das vezes o quadro é desolador.
Espero que o exemplo da UnB frutifique e se multiplique, embora eu tenha muitas dúvidas sobre se, quanto, e quando isso vai acontecer em outros lugares e instituições. Espero estar errado em meu pessimismo pessimista – desculpem, mas a redundância me pareceu necessária – mas o que vejo pelo Brasil afora me deixa muito preocupado. Acredito que vamos empreender uma longa travessia do deserto, por paragens perfeitamente medíocres, com educação em retrocesso, com instituições dilapidadas pelos novos bárbaros que estão ai assaltando e dominando o Estado.
Espero estar errado, mas é o que penso atualmente.

Paulo Roberto de Almeida 
(Brasília, novembro de 2011)

Addendum em 17/11/2011:

Este texto foi postado num blog de alunos da UnB que se intitula
Como eles se definem?
Sinteticamente por estas palavras: 

Brasília, Brazil
Somos jovens universitários nadando contra a maré vermelha dentro da UnB. Temos valores. Temos princípios. Sim, somos conservadores. ;)

Fiz o seguinte comentário ao post, mais dirigido ao princípio do que ao post: 



Agradeço a transcrição desse post do meu blog Diplomatizzando neste blog de estudantes da UnB. Eu apenas o fiz porque se tratava realmente de algo excepcional, ou seja, de reação de estudantes a um quadro de deterioração visível das condições "mentais" de trabalho e estudo na UnB, ainda que as condições materiais possam melhorar gradativamente (o progresso é uma fatalidade, como diria Mário de Andrade).
Apenas uma observação, quanto ao fundo, e ela toca na própria designação do blog e do grupo de estudantes que o sustenta e agita.
"Conservador" é, por definição, o indivíduo que pretende conservar o que existe. Mas, e se o que existe é manifestamente mau, perverso, inadequado, anacrônico?
Sei que vocês querem conservar os bons valores, os princípios corretos e as diretrizes mais adequadas ao progresso da UnB e do Brasil, tal como espelhadas e representadas pelos personagens que vocês colocaram em destaque, todos intelectuais de destaque, e eu até diria progressistas, no contexto de suas respectivas épocas.
Se existe uma coisa de que o Brasil, e a UnB mais ainda, necessita são de reformas, reformas em todas as áreas e setores.
Então, eu diria que o que deveria distingui-los e guia-los nessa luta contra os novos bárbaros seria o sentido de REFORMA, não de conservação.
Cordialmente,
Paulo Roberto de Almeida 

Livro: Ascensão e Queda do Comunismo - Archie Brown

Eu já li o livro no original, e recomendo, vivamente.
Fiz um post sobre ele: 

A vida sob o comunismo (como devia ser insuportável...)



Como sempre, recomendo aos que desejarem adquirir esse livro que não o façam na edição brasileira, a menos que desejem perder dinheiro à toa. Por US$ 1 (sim, UM dólar), ou no máximo US$ 4 qualquer pessoa pode encomendar o livro no maior sebo eletrônico de livros do mundo:
www.abebooks.com
Provavelmente o frete vai custar entre 10 e 15 dólares, mas ainda assim vai sair mais barato (ainda que demore um pouco) do que os 60 ou 70 reais (talvez mais) do que vai custar o livro no Brasil.
Se ele estiver disponível em formato digital melhor ainda: chega em um minuto, mas aí pode custar um pouco mais (entre dez e 19 dólares, calculo) e pode ser mais incômodo ler um livro grande na telinha do Kindle ou do seu iPad (mas garanto que ficará mais leve...).
Leiam, eu recomendo vivamente.
Paulo Roberto de Almeida 
PS: Quem quiser ler mais um pouco do livro, suas primeiras páginas, por exemplo, pode fazê-lo na versão para Kindle, que a a Amazon disponibiliza em seu site, neste link.

Reinaldo Azevedo, 12/11/2011
A VEJA desta semana traz uma resenha de autoria deste escriba do livro “Ascensão e Queda do Comunismo”, de Archie Brown. Segue um trecho.

Não foi o então presidente americano, Ronald Reagan, que matou o comunismo. Também não foi o papa João Paulo II. Tampouco foram as fragilidades do modelo. O sistema cometeu suicídio quando resolveu experimentar um pouco de liberdade. É, ao menos, o que sustenta o cientista político e historiador escocês Archie Brown em Ascensão e Queda do Comunismo (tradução de Bruno Casotti; Record; 854 páginas; 89,90 reais). O ambiente era bem deprimente na União Soviética, como revela uma piada que circulava por lá em fevereiro de 1984, quando a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, compareceu para o funeral de Yuri Andropov, que comandara a “pátria do socialismo” por modestos quinze meses. O escolhido para sucedê-lo foi Konstantin Chernenko, de 72 anos. A piada reproduzia um telefonema fictício de Thatcher para Reagan: “Você deveria ter vindo ao funeral, Ron. Eles fizeram tudo muito bem. Com certeza, vou voltar no ano que vem”. E voltou mesmo, treze meses depois, tempo de sobrevida de Chernenko. Em 68 anos de história, a União Soviética tivera quatro dirigentes máximos: Lênin, Stálin, Krushev e Brejnev. Ao chegar ao poder em 11 de março de 1985, Mikhail Gorbachev era o terceiro governante em vinte e oito meses. Havia algo de podre e muito velho no Império Vermelho.
A piada é narrada no grande (em qualquer sentido) livro de Brown. Ao longo de mais de 800 páginas, noventa delas com notas explicativas, ele detalha a trajetória do comunismo mundo afora, do Manifesto de Karl Marx (1848) à dissolução da URSS. Em 25 de dezembro de 1991, seis anos e nove meses depois de se tornar um dos homens mais poderosos da Terra, Gorbachev renunciava à Presidência de um país que já tinha acabado. O homem da “perestroika”, da reestruturação, fora engolido por sua ingenuidade e traído por sua ousadia. Todos os sinos dobraram pelo Natal; nenhum por quem restituíra a liberdade religiosa. Era execrado pelos destituídos do antigo regime e desprezado pelos beneficiários do novo.
Brown, professor de Oxford, é um profundo conhecedor do assunto. Levou dois anos para escrever o livro, publicado em 2009, mas reuniu informações colhidas ao longo de 45 anos e muitas viagens aos países comunistas, especialmente durante a Guerra Fria. E é com essa autoridade que ele afirma: “Na União Soviética, a reforma produziu a crise mais do que a crise forçou a reforma”. Para Brown, embora o modelo soviético estivesse corroído pela ineficiência, pela estagnação e pela incapacidade de entrar na economia da informação, não havia pressão social ou política que tornasse urgentes as mudanças. O modelo poderia ter durado por muito tempo, não fosse Gorbachev.
A relação de Brown com o líder que matou o comunismo é ambígua. Admira sua vocação democrática e suas escolhas políticas e éticas, mas o caracteriza como um político ingênuo, que fez uma aposta brutalmente errada. Qual foi o erro - e, pois, o grande acerto - de Gorbachev? Para responder a essa questão, é preciso citar aquelas que o historiador considera as “seis características definidoras” do comunismo - elas também explicam por que o autor sustenta que o comunismo acabou, ainda que China, Vietnã, Laos, Cuba e Coreia do Norte se digam comunistas: 1) o partido único detém o monopólio do poder; 2) a burocracia partidária tem plena autonomia para tomar qualquer decisão; é o centralismo democrático; 3) há a posse não-capitalista dos meios de produção; 4) a economia é de comando, definida pelo estado, não pelo mercado; 5) há a convicção de que o comunismo está em plena construção e ruma para a perfeição; 6) os comunistas articulam-se em um movimento internacional.
(…)

OAB: um dos redutos do corporativismo classista

Apenas repassando a notícia, mas que diz muito sobre quem representa e dirige a classe dos mafiosos corporativos, uma das muitas máfias que atrasam o Brasil: 



Elvira Lobato
Folha de S.Paulo, 12/11/2011

O presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Filgueiras Cavalcante Júnior, é acusado de receber licença remunerada indevida de R$ 20 mil mensais do Estado do Pará. A ação civil pública foi proposta na semana passada por dois advogados paraenses em meio a uma crise entre a OAB nacional e a seccional do Pará, que está sob intervenção. Um dos autores da ação, Eduardo Imbiriba de Castro, é conselheiro da seccional. Segundo os acusadores, Ophir Cavalcante, que é paraense, está em licença remunerada do Estado há 13 anos -o que não seria permitido pela legislação estadual-, mas advoga para clientes privados e empresas estatais. Eles querem que Cavalcante devolva ao Estado os benefícios acumulados, que somariam cerca de R$ 1,5 milhão. Cavalcante é procurador do Estado do Pará. De acordo com os autores da ação, ele tirou a primeira licença remunerada em fevereiro de 1998 para ser vice-presidente da OAB-PA. Em 2001, elegeu-se presidente da seccional, e a Procuradoria prorrogou o benefício por mais três anos. Reeleito em 2004, a licença remunerada foi renovada.
O fato se repetiu em 2007, quando Cavalcante se elegeu diretor do Conselho Federal da OAB, e outra vez em 2010, quando se tornou presidente nacional da entidade. Segundo os autores da ação, a lei autoriza o benefício para mandatos em sindicatos, associações de classe, federações e confederações. Alegam que a OAB não é órgão de representação classista dos procuradores. Além disso, a lei só permitiria uma prorrogação do benefício.

Capitalismo: "o fim está próximo" (acreditem...)

Sempre tem aqueles cartoons, na imprensa americana, com aqueles profetas barbudos, roupas à la Woodstock (vale também a túnica branca de todos os profetas), empinando um cartaz nas esquinas e praças: "The End is Near", dizem eles, pedindo para as pessoas acreditarem que o apocalipse se aproxima e que é melhor começar agora mesmo a torrar o seu dinheiro, praticar todas as formas de prazeres imediatos (sexo, drogas e rock-and-roll, suponho) e ficar totalmente limpo para o dia do juízo final.
OK, OK, a imagem é caricata, mas acreditem, profetas do apocalipse existem nas melhores universidades americanas, e grandes idiotas podem se revelar já na idade madura - quem sabe na senil, também? -- como este eminente sociólogo dos sistemas-mundo, que há muito tempo prega o fim do capitalismo.
Ele mesmo, Immanuel Wallerstein, volta revigorado, para dizer que, finalmente, agora mesmo, o fim se aproxima.
Transcrevo in totum para que todos possam se deliciar com o pensamento iluminado de um profeta perfeitamente aceito nos ambientes imbecilizantes das universidades brasileiras...
Paulo Roberto de Almeida 


Sociólogo norte-americano antecipa que ‘o capitalismo chegou ao fim da linha’
Aos 81 anos, o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá em seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.
Correio do Brasil
capitalismo

capitalismo está derretendo
Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, em meio a uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num ato heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferentemente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não está sugerindo que as ações humanas são irrelevantes.
Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as ações coletivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”
É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá teria se quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemônico começa a declinar e o futuro abre-se a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o fato mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.
As declarações foram colhidas no dia 4 de outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze, que conduz o programa Interview na emissora de televisão russa RT. A transcrição e a tradução para o português são iniciativas do sítio Outras Palavras, 15-10-2011.
– Há exatamente dois anos, você disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está acontecendo agora?
– Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está chegando.
– Quem está em maiores apuros: Os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?
– Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também enfrentarão dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.
– Você está dizendo que o sistema financeiro está claramente quebrado. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?
– Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. Segundo meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns 20, 30 ou 40 anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que irá sucedê-lo. E é claro: podem existir duas pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.
– Qual a sua visão?
– Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa é uma bifurcação de um sistema.
– Então, a bifurcação do sistema capitalista está diretamente ligada aos caos econômico?
– Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como um sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas se desfez, como acontece com todos os sistemas.
– Esses tremores econômicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?
– Se você pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, eles são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos nos ajustar ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Você não sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos vendo no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está investindo, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e estão certas, as opções são escassas.
– Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Você vê uma saída?
– Sim! O que acontece numa bifurcação é que, em algum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos em um novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito otimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes. Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.
– O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?
– A situação muda quando você está em uma crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Esse é meu argumento básico.
– Você sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Você acredita que ele ainda seja tão relevante no século XXI?
– Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século XIX. Ele teve todas as virtudes, com suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século XIX. Uma de suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Ele viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou sugerindo que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do fato de ter sido um pensador do século XIX; eu sou prisioneiro do fato de ser um pensador do século XX.
– Do século 21, agora…
– É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século XX, eu sinto que sou um produto do século XX. Isso provavelmente se revela como limitação no meu próprio pensamento.
– Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos se diferem? Eles são realmente tão diferentes?
– Eu acredito que sim. Acredito que o ponto de virada deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, eu o considero o evento mais significantes do século XX. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem se tornado o poder hegemônico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.
– Você disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?
– Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje, elas têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.
– Você acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o fato de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?
– Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Eu não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.
– É isso que vemos hoje? O Ocidente tentando ensinar os bárbaros de todo o mundo?
– É o que vemos há 500 anos.

Idiotas da educaçao superior (superior?) contribuem para a imbecilizaçao da universidade brasileira

Eu nunca vou deixar de me surpreender com a capacidade que exibem certos professores do terceiro ciclo -- melhor essa designação do que "educação superior", que anda muito inferior no Brasil -- de manifestarem toda a sua idiotice assim à luz do dia, ofendendo a inteligência alheia e achando que todos são idiotas para concordar com o que estupidamente escrevem.
Assim, já não tão surpreendido com a absurda ocupação da USP por um bando de neobolcheviques anacrônicos, sou, sim, surpreendido nesta minha vida de retinas fatigadas (como diria o poeta) com a leitura de comentários perfeitamente idiotas em artigo em que três professores (professores?) da USP (Fefelech e Direito, onde se concentram grande número de idiotas, atualmente) se manifestam contra a presença de PMs no campus.
Leiam o que eles escreveram, aqui selecionado, eu comento em seguida. Eles acham que para a USP funcionar direito no plano das ideias, liberdade é fundamental, e que por isso mesmo a presença de PMs no campus é não só inaceitável, como potencialmente perigosa:

"A presença constante de qualquer agente com potencialidade repressiva, e que possa ser acionado por um poder central, certamente é elemento inibidor da gestação de ideias e, por consequência, da força motriz da universidade e de sua relevância para a sociedade."
PRA: Uau, os professores acham que PMs passeando pelas ruas da Cidade Universitária os impedem de pensar. Que bonitinho! Eles pensam melhor com maconheiros passeando pelos mesmos espaços...

"A reitoria pode, sob alegação de suposto interesse público, de ofício, acionar os meios repressivos."
PRA: Uau 2, eles estão preocupados com a livre manifestação das suas ideias (ideias?), mas o seu alvo é obviamente o reitor, que pode, quem sabe?, acionar os PMs cada vez que eles, diligentemente, propuserem aos seus encantados alunos alguma nova ideia sobre como PMs, ao contrário de maconheiros,  são nefastos à livre manifestação de ideias subversivas em plena sala de aula. Assim, "polícia do pensamento", como deve existir na Cuba querida e na maravilhosa Coreia do Norte...

"...mantendo-se no local um corpo militar, há a presença física que sempre se coloca, não somente de forma simbólica, à disposição para eventual repressão de atos ligados à livre expressão de ideias."
PRA: Uau3, triplamente qualificado. O reitor, perverso obviamente, pode decidir, ao ser delatado que qualquer um dos três professores idiotas que escrevem essas idiotices anda expressando ideias magnificas sobre como a liberdade de pensamento exige a exclusão de PMs -- mas a inclusão de jovens maconheiros -- nos espaços daquela magnífica obra do pensamento progressista que é a USP -- e a Fefelech e o largo de S.Francisco em particular -- esse perverso reitor, escrevia eu, pode decidir mandar os PMs, arautos de outro tipo de pensamento, baixar o cacete no cocoruto dos libertários professores cheios de ideias maravilhosas.

Por essas e outras que eu acho que também a nossa suposta maravilhosa universidade de São Paulo -- não merece mais um U maiúsculo -- e a Fefelech onde comecei estudos ideologicos (ops, sociais) algumas décadas atrás, abandonando, porém, em meio do caminho, que esse magnífico bastião do pensamento progressista há muito deixou de ser uma universidade, na acepção plena do termo, e também se converteu, no seu setor de Humanidades, num reduto das fortalezas imbecilizantes que contaminam a educação brasileira.

Em tempo: os professores que assinaram aquela extrovenga de artigo na FSP de 11/11/2011 (p. 3, Opinião), chamado "A Polícia Militar na USP", levam por nomes: Paulo Arantes, Marcos Orione Gonçalves Correia e Jorge Luiz Souto Maior. Trata-se, sem dúvida, de grandes nomes que contribuem para a mediocrização do terceiro ciclo da educação no Brasil (que já não merece o nome de superior) e que prometem continuar atuando para afundar ainda mais seus padrões.
Não se enganem: o processo de imbecilização vai continuar...
Paulo Roberto de Almeida

A imbecilizacao da educacao brasileira: um processo irremediavel?

Respondo pela afirmativa, com agravantes. Sim, acredito, não por uma crença pessoal, subjetiva, mas por conhecimento próprio, objetivo, que a educação brasileira, em todo e qualquer nível, e quanto mais alto pior, está, sim, em sério, acelerado e dramático processo de deterioração.
Não se trata apenas de mediocrização, o que já vinha ocorrendo antes que companheiros debilóide assumissem o comando da máquina de imbecilização social que constitui o MEC e outras agências da educação pública (mas que influenciam poderosamente o ensino privado, também).
O processo é muito pior, mais preocupante, perfeitamente dramático, totalmente previsível, infelizmente irrecorrível e aparentemente permanente: sim, estamos caminhando para a imbecilização completa da educação brasileira.
Nunca antes, tantos idiotas ocuparam tantos cargos nas instituições públicas de ensino, aquelas que determinam os padrões de ensino, que escolhem os livros que os estudantes vão ler (suponho) e aprender (aí já é uma hipótese), que nomeiam os outros idiotas que dirigem departamentos, secretarias e outras seções que dão as diretrizes para a implementação de programas idiotas, racistas, classistas e imbecilizantes -- como a obrigatoriedade de cursos dispensáveis em vários níveis, a exemplo de estudos afrobrasileiros e espanhol no primário e sociologia e filosofia no médio -- e que confirmam a continuidade da (de)formação de professores inúteis para uma educação medíocre que promete infernizar a vida dos alunos, de todos os alunos, pelo futuro previsível, e que deve continuar afundando intelectualmente o Brasil até onde a vista alcança e mais além. 
O que vai reproduzido abaixo é apenas uma pequena parte desse processo de imbecilização, e talvez não o mais importante ou dramático, pois conforma apenas um exame.
Alunos espertos podem entender o que os idiotas que formularam as perguntas querem que eles respondam e se conformar perfeitamente ao padrão imbecil pelos poucos minutos que vão estar envolvidos no exame idiota, responder o que se espera, e depois esquecer.
Muito mais grave é todo o processo de formação de professores -- com a pedagogia imbecilizante baseada em teorias idiotas, e manias ultrapassadas como Paulo Freire -- e de pedagogas ativas, as novas saúvas do Brasil, que preservam todo o conteúdo inútil que é servido muito mal a todos os alunos.
Grave também é a máfia sindical dos professores que ficam lutando por isonomia e benefícios materiais perfeitamente simétricos e sem qualquer conexão com o desempenho do professor e a perfomance geral do curso em causa.
Também grave é o culto das ideologias esquerdizantes, das concepções racistas sobre nossa formação étnica, do socialismo mais primário e rastaquera que possa existir, o que denota, mais do que militantismo político apenas ignorância e intolerância.
Enfim, tudo está errado na educação brasileira e vai demorar muito tempo para começar a consertar, se concertar...
Depois escrevo mais a respeito.
Paulo Roberto de Almeida 
PS1: Por ter lido alguns comentários a este post no avançado da noite no iPhone, sempre limitado em sua tela, acabei clicando errado num deles, o do Cristiano, colocando Recusar, em lugar de Aceitar (o espaço é diminuto). Depois não deu para consertar, pois o sistema do Blogger é implacável. Vou colocá-lo manualmente, desculpando-me pelo fato de aparecer sob meu próprio nome, e não no de seu autor legítimo, a quem agradeço e peço desculpas pelo ocorrido.
PS2: Os aliados dos idiotas que formularam essa questão imbecil nesta prova -- que deve se apresentar como eminentemente técnica em sua maior e essencial parte -- podem escrever, se desejarem, para este post, para protestar contra minhas palavras acima, exageradamente ofensivas, concordo, com muitos adjetivos e poucos argumentos substantivos, para dizer porque considero a educação brasileira em processo completo de imbecilização acelerada. Podem existir alguns visitantes deste blog que concordam, no essencial, com o que se está fazendo atualmente na educação brasileira (inclusão social, redução das desigualdades, correção do "neoliberalismo", etc). Sim, eles também têm direito à expressão neste blog, desde que venham com argumentos a favor legítimos, não com xingamentos contra este blogueiro. Eu me reservo esse direito...


Reinaldo Azevedo, 12/11/2011

A grande obra deste lamentável Fernando Haddad no Ministério da Educação é a ideologização do ensino e dos exames de proficiência em qualquer nível. O Enem, nas áreas antes chamadas “humanidades” e “comunicação” (rebatizaram tudo, com uma linguagem pseudo, como diria Tio Francis…), é, antes de mais nada, uma peneira ideológica.
Inexiste autonomia universitária no Brasil no que diz respeito ao pensamento. É permitido divergir desde que seja “no campo da esquerda”. Esses vagabundos que rejeitam a PM na USP, por exemplo, querem “autonomia” pra fumar maconha, não pra pensar. Nessa área, eles acreditam já ter descoberto a verdade.
A estupidez se espalha. Enviam-me o exame para residência médica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (íntegra aqui). Demorei um pouquinho para voltar ao blog porque estava lendo a estrovenga. Há coisas próprias da área, sobre as quais não tenho a menor idéia. Mas há outras que conheço bem. Tomo como exemplo a questão 82. Há tempos não vejo nada tão estúpido. Vou expondo a questão para vocês aos poucos, em vermelho, comentando em azul.

82 - A respeito das influências do neoliberalismo sobre a Saúde, considere as seguintes afirmativas:
Bem, temos já uma questão na largada. “Neoliberalismo” é uma palavra que indica uma escolha ideológica. É uma leitura feita pelas esquerdas sobre um momento da economia mundial, que trouxe, entre outros “desastres” para a humanidade, a moderna economia da informação… Mas vamos lá. O candidato a residente já sabe que tem de aceitar que há “influência do neoliberalismo sobre (sic) a saúde”. Vamos seguir.

1 - Têm gerado um processo de competição ilimitada, que promove uma espécie de guerra de todos contra todos à custa da saúde dos trabalhadores.
Competição de quem com quem? Entre os planos de saúde, por exemplo? Quer dizer que a competição capitalista, positiva no mundo inteiro, seria ruim só no Brasil, é isso? Os trabalhadores que têm plano privado de saúde estariam mais mal assistidos hoje do que estavam há 20 anos, quando só os endinheirados tinham essa possibilidade? Mais: o “neoliberalismo”, segundo os esquerdopatas, teria triunfado nas década de 80 e 90, certo? Foi justamente nos anos 1990 que o Brasil estruturou as bases do SUS. O serviço é deficiente, sim, mas muito melhor do que dos anos 80 para trás (piorou nos governos petistas). O estudante informado, racional, que sabe onde tem o nariz, concluiu que a afirmação está errada. PORQUE ESTÁ ERRADA! Prossegue o examinador. Vamos à segunda proposição.
2. Constituem um modelo de competição que é cego para suas consequências sociais, ao promover competição ilimitada, a aceitação da injustiça, da violência e do sofrimento no trabalho.
Uau! Notem que essa alternativa tem rigorosamente o mesmo conteúdo da anterior, só que com outras palavras. Quem fez a prova achou que não tinha sido contundente o bastante na censura ao “neoliberalismo”. E o que dizem na 3?
3. Impondo como premissa das reformas que preconiza a redução dos gastos públicos, conduz os governos a economizar à custa do sofrimento da Nação, deixando de investir em práticas sociais como Educação e Saúde.
Como se vê, já se extrapolou da saúde para as outras áreas. O Brasil tem, à diferença do que sustenta o pilantra que redigiu a questão, um alto desembolso com saúde e educação. O problema é de outra natureza: ineficiência. Reparem na linguagem: “sofrimento da nação”… Chamar educação e saúde de “práticas sociais” é coisa de analfabeto sociológico fazendo sociologice. A esta altura, o estudante informado está escandalizado. Mas também já ligou o desconfiômetro: “Espere aí: as três afirmações têm o mesmo conteúdo; são só variações em torno do mesmo tema.” Então ele saltou para a quarta suposta conseqüência.
4. Preconiza a parceria público-privada, na qual a relação do público com o privado acentua a dívida do Estado com a maioria da população e ao mesmo tempo favorece a esfera privada e a acumulação do capital.
Heeeinnn? Deu pra entender que, no fim das contas, quem enche o rabo de dinheiro é o “porco capitalista”. Em suma, não fosse o capitalismo, a saúde seria supimpa, como na China, por exemplo, onde não existe um sistema universal de atendimento. Reitero: o SUS foi estruturado na vigência do que esses ignorantes chamam “neoliberalismo”. Mas vamos à 5ª.
5. As reformas instituídas na formação dos profissionais de saúde procuram adaptá-la às necessidades atuais do capital, tendendo a reduzir os conteúdos e priorizar o alcance de determinadas habilidades e atitudes.
Quais reformas? Do que falam esses brutos? Bem, o candidato já percebeu que, segundo o examinador, esse neoliberalismo é muito mau, odeia o trabalhador e os pobres e não produziu nada de bom
ATENÇÃO, MEUS CAROS! TODAS AS AFIRMAÇÕES, MERAS VARIAÇÕES EM TORNO DO MESMO TEMA, SÃO FALSAS PORQUE A PREMISSA ESTÁ ERRADA. Mas chegou a hora de o aluno responder.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras.
b) Somente a afirmativa 5 é verdadeira.
c) Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.
d) Somente as afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.
e) As afirmativas 1, 2, 3, 4 e 5 são verdadeiras.
Parece piada, não? O examinador quer apenas a adesão do candidato a seu ponto de vista. Numa questão vigarista, em que todas as assertivas são falsas, é preciso dizer que todas são verdadeiras. É um troço orwelliano, é a “novilíngua”; o sentido está sempre pelo avesso: “liberdade é escravidão”.
Essas distorções estão em todo canto, em todas as provas, em todos os cursos — chegam também ao ensino privado de todos os níveis. Parece que o Brasil será o último país do mundo a abandonar esse submarxismo chulé, que vive mandando prender “os culpados de sempre”.
O que vai acima reflete um conjunto formidável de mentiras. A saúde privada precisa é de mais competição. A exemplo de qualquer outro setor, quanto mais se disputam os clientes, mais benefícios eles recebem. É por isso que há mais telefones do que brasileiros hoje; antes da privatização, tratava-se de um serviço de luxo.
É claro que, fosse levada a sério a Justiça, a questão deveria ser impugnada. Ela não testa um conhecimento objetivo; cobra do candidato um alinhamento ideológico, uma adesão a um valor triunfante entre os examinadores, o que jamais pode ser um critério de verdade.
É um escândalo político, moral e ético.

sábado, 12 de novembro de 2011

O pelotao da economia mundial: Brasil na frente? - Merval Pereira


Brasil no G-6
Merval Pereira
O Globo, 12/11/2011

Ao mesmo tempo que somos afetados pela crise internacional que se agrava a cada dia, ameaçando reduzir nosso crescimento a níveis medíocres, somos beneficiários dela e da transformação do quadro de relações de poder e de interesses globalizados num mundo multicêntrico que a duras penas vai abrindo caminho para os países emergentes que têm sua melhor expressão nos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e a recém-chegada África do Sul, o S de South Africa), acrônimo criado por um banco de investimento para facilitar a compreensão das transformações que ocorriam no mundo e que se tornou quase que uma instituição de vida própria.
Mesmo crescendo a apenas 3% ao ano, o PIB brasileiro aumentará mais que o dos países europeus e o dos Estados Unidos nos próximos anos, o que colocará o país no G-6 da economia mundial, à frente da França e da Inglaterra.
Mas crescerá menos que emergentes como China e Índia. Brasil e Índia, devido ao baixo índice educacional e à falta de infraestrutura, crescerão em velocidade menor que Rússia e China nos próximos 20 anos, segundo estudo da Goldman Sachs, criadora dos Brics.
Mas, mesmo a lista das dez maiores economias do mundo devendo ser bastante diferente da de hoje nos próximos anos, há um detalhe fundamental: as maiores economias, medidas pelo Produto Interno Bruto (PIB), provavelmente não serão as mais ricas em termos de renda per capita.
Pelas projeções, os cidadãos dos Brics continuarão sendo mais pobres na média que os cidadãos dos países do G-6 de hoje, com exceção talvez da Rússia. O Brasil, se conseguir manter uma média de crescimento do PIB de 3,5% ao ano, chegará a 2050 com uma renda per capita de US$26.500, próximo do que já têm hoje França e Alemanha (cerca de US$23 mil), menos do que o Japão e os Estados Unidos hoje (cerca de US$33 mil).
Para se ter uma ideia de como a evolução dos países não se dá de maneira uniforme, basta lembrar que o Brasil já teve crescimentos sustentados do PIB de níveis asiáticos: de 1950 a 1959, média de 7,15%; de 1960 a 1969, média de 6,12%; e, de 1970 a 1979, de 8,78%.
Até 1980, o Brasil cresceu mais que a média mundial: de 1900 a 1980, a renda per capita brasileira cresceu em média 3,04%, enquanto a renda mundial cresceu 1,92%.
O período de maior crescimento foi o de 1950 a 1980, quando o país cresceu em média 4,39% sua renda per capita, para um crescimento médio mundial de 2,83%.
Nesse período, o Brasil figurou entre os dez países mais dinâmicos do mundo. O PIB per capita do Brasil em 1980 equivalia a 30,5% do dos Estados Unidos e, em 2009, era de 22,7%.
No mesmo período, a Coreia do Sul, que tinha PIB per capita menor que o do Brasil, foi de 18,8% para 60% do PIB per capita dos EUA.
Mesmo que chegue a ser a 6ª economia de um mundo conturbado, o país continuará tendo desvantagens competitivas sérias.
Os países que fazem parte da OCDE, os mais avançados do mundo, aplicam cerca de 7% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil não passa de 1%, sendo suplantado largamente por Coreia do Sul e China, países que estavam atrás de nós nesse setor nos anos 1980.
Em 1960, a Coreia tinha escolaridade média superior à do Brasil em 1,4 ano de estudo, e essa diferença já está em mais de 6 anos.
A participação brasileira na produção mundial caiu de 3,1%, em 1995, para 2,9%, em 2009. No mesmo período, a China saltou de 5,7% para 12,5%, e a Índia foi de 3,2% para 5,1%.
O embaixador Marcos Azambuja, que já representou o Brasil em diversos organismos internacionais, inclusive em relação aos Brics, considera que o acrônimo foi “uma invenção necessária”, menos talvez para a China e para a Rússia, que, como grandes vitoriosas na II Guerra Mundial, já tinham espaço assegurado no sistema das Nações Unidas, mas, sobretudo, para a Índia, a África do Sul e o Brasil, as três potências às quais se aplica com maior propriedade, segundo ele, o rótulo de “grandes emergentes”.
Quando se assinou a Carta da ONU, lembra Azambuja, a Índia ainda não era sequer independente e apenas uma joia na coroa do Império Britânico; a África do Sul ainda montava o regime do apartheid isolada e depois enfrentada com a África pós-colonial que começava a nascer.
O Brasil, na sua análise, pesava muito menos do que hoje, e nossa contribuição na guerra para a causa aliada, embora certa e valiosa, foi menos importante do que pretendíamos então e pretendemos hoje.
A reivindicação de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, além dos aspectos objetivos do lugar que o país ocupa hoje na nova ordem mundial, tem um lado histórico pouco conhecido, já tratado aqui na coluna, que reforça tanto a aspiração brasileira quanto a ideia de que a importância estratégica do Brasil desde a origem foi minimizada pelas grandes potências vitoriosas.
Como único país da América Latina que lutou na Segunda Guerra Mundial ao lado das forças dos Aliados, o Brasil teve no presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, um defensor de sua participação no Conselho, mas na reunião de Dumbarton Oaks a proposta encontrou resistências da Grã-Bretanha e da URSS.
A própria delegação americana recomendou que Roosevelt desistisse da ideia. Tanto britânicos quanto soviéticos eram refratários a aumento no número de assentos permanentes além dos cinco já definidos — EUA, Rússia, China, França e Reino Unido —, alegando que, se fosse expandido, o conselho poderia ver sua eficácia comprometida.
Churchill e Stalin tampouco veriam com simpatia a hipótese de permitir o ingresso de mais um “voto certo” para os Estados Unidos.
O presidente Franklin Roosevelt, que se havia empenhado pessoalmente em favor da China, era quem melhor poderia levar adiante sua intenção de criar mais uma cadeira permanente, mas sua morte, pouco antes da Conferência de São Francisco, eliminou em definitivo essa possibilidade.
Quando Truman assume, não era mais imperativo cultivar a amizade de Getulio Vargas ou tolerar abusos de seu regime autoritário.

Universidade Privada do MST (com o nosso dinheiro, claro...)

A matéria abaixo é mais uma demonstração como certos ministérios brasileiros -- suponho que aprovados pela mais alta cúpula do governo que nos desgoverna -- chamam a todos nós de idiotas, se apropriam do nosso dinheiro para fins privados e considera que todos os brasileiros, mesmo os que não fizeram nenhum tipo de faculdade, devem pagar para que alguns militantes de causas esclerosadas possam se beneficiar do dinheiro público duplamente.
O ministro da Saúde está nos chamando de idiotas.
Como eu não aceito a condição, eu devolvo a designação: idiota é aquele que pensa que somos idiotas. Aliás, pior que idiotas, são desonestos e prevaricadores, ao usar dinheiro público para causas privadas.
Paulo Roberto de Almeida

Brasil terá 'cursinho' gratuito para médicos brasileiros formados em Cuba

12 de novembro de 2011 | 3h 00


LÍGIA FORMENTI / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O governo vai bancar uma espécie de cursinho para que médicos formados em Cuba possam atuar no Brasil. A ideia é facilitar a revalidação dos diplomas, oferecendo um reforço gratuito em universidades brasileiras com assuntos que não foram abordados na graduação cubana, como noções do Sistema Único de Saúde (SUS). O curso seria dado antes da prova para reconhecimento de diploma. Sem a validação, profissionais não podem trabalhar no Brasil.
Atualmente, para ter autorização de exercício profissional, médicos formados em outros países precisam passar por um exame organizado nacionalmente, o Revalida, ou se submeter a provas feitas por algumas universidades federais, que não aderiram ao exame nacional.
O processo, no entanto, não é fácil. Este ano, dos 677 inscritos no Revalida, 65 foram aprovados. Em 2010, quando a prova foi lançada, os resultados foram muito mais baixos: dos 628 candidatos, apenas 2 tiveram permissão para trabalhar no Brasil. Com o curso de reforço, médicos brasileiros formados em Cuba teriam mais chances de serem bem-sucedidos no exame de validação.
Assinado em setembro durante uma visita do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a Cuba, o acordo entre universidades estaduais e a Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), de Cuba, permite ainda que, durante o período de aperfeiçoamento, profissionais trabalhem, numa espécie de estágio.
A Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia, já prepara os detalhes do curso. Além das aulas teóricas e práticas, os formados receberiam, no período de dez meses do curso, uma espécie de bolsa de ajuda de custo, no valor de R$ 1.240.
O reitor da universidade, Joaquim Bastos, prevê que, além dos R$ 2 milhões para bolsas, seriam necessários recursos para pagamento de cerca de 15 professores que ficariam responsáveis pela formação dos médicos. Ainda não se sabe, no entanto, quem vai pagar a conta.
"Mas tenho certeza de que isso se resolve. O projeto tem todo empenho da Secretaria de Saúde, simpatia do governo do Estado e do ministro, como ficou claro na visita a Cuba", disse Bastos.
Oficialmente, no entanto, ninguém assume a responsabilidade. O Ministério da Saúde, por meio da assessoria de imprensa, afirmou que o projeto tem todo apoio de Padilha. Mas não há previsão de oferta de recursos, nem de envolvimento da pasta no projeto. O secretário de Saúde da Bahia, Jorge Solla, um entusiasta da iniciativa, avisou também que por enquanto não há nada definido. Terça-feira, em Brasília, Solla disse que os projetos estão avançados, mas admitiu haver preconceito em relação ao curso feito em Cuba. "Mas o nível do ensino é muito bom", garantiu.
Mesmo sem saber de onde o dinheiro virá, Bastos recebeu a recomendação de preparar um curso já para o próximo ano. "Isso não será uma iniciativa eterna. A ideia é fazer dois, três cursos", contou o reitor.
Pelas contas de Solla, existem cerca de 500 brasileiros formados em Cuba que poderiam se beneficiar da parceria com a Elam no processo de revalidação.
Durante a visita em setembro, Padilha afirmou que a parceria poderia ampliar o número de médicos nas regiões onde há carência de profissionais, como municípios do interior ou nas regiões pobres das grandes cidades.
Críticas. Mal foi lançada, a ideia já desagrada ao Conselho Federal de Medicina (CFM). "Não entendo essa lógica de mobilizar uma estrutura pública, com salas e professores, para um grupo pequeno de brasileiros", disse o vice-presidente da entidade, Carlos Vital. Para ele, no entanto, o que mais surpreende é o pagamento de uma "ajuda de custo." "Isso é tirar de dentro de casa para se dar o que não tem. Por que esses alunos merecem um privilégio como esse?", pergunta Vital.

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