Uma pesquisa feita no contexto da manifestação de Bolsonaro no Rio de Janeiro (Copacabana) que reuniu um público bemmais limitado de pessoas do que comícios anteriores do agora réu da Justiça. PRA
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
domingo, 30 de março de 2025
A animosidade contra a Justiça é definitiva e muito séria entre a direita - pesquisa de Pablo Ortellado
Estamos de volta à era das canhoneiras de um século atrás? - Paulo Roberto de Almeida
Estamos de volta à era das canhoneiras de um século atrás?
Paulo Roberto de AlmeidaO colonialismo e o imperialismo na era moderna, desde a época das grandes navegações, nunca tinham registrado declarações tão claras de um dirigente político reconhecido ao proclamar a "necessidade" de dominar territórios formalmente sob controle de uma soberania estrangeira.
Trump dixit:
“For purposes of National Security and Freedom throughout the World, the United States of America feels that the ownership and control of Greenland is an absolute necessity.”
Nunca antes neste planetinha redondo, já mapeado, delimitado, cartografado e legitimado por um instrumento universal, a Carta da ONU, que parte da soberania dos países membros e do princípio da não intervenção em territórios nacionais reconhedidos, tínhamos tomado conhecimento de uma vontade deliberada de romper com o Direito Internacional de uma maneira tão arrogantemente imperialista.
Trump conseguiu superar o arbítrio de seu amigo Putin que usou o subterfúgio de populações "russas" (na verdade falando russo) para invadir a Ucrânia.
Trump pretende invadir a Groenlândia apenas porque sua condição dinamarquesa ameaça a segurança dos EUA? Provavelmente, está tentando imitar o presidente McKinley, que em 1898 invadiu e anexou o Hawai, que tinha um reino em funcionamento quase normal...
Ou já imitando Theodore Roosevelt, que primeiro se distinguiu na guerra hispano-americana, ou melhor, dos EUA contra a Espanha, para dominar metade do Caribe espanhol...
Eleições democráticas - Paulo Roberto de Almeida
Eleições democráticas
Paulo Roberto de Almeida
O Canadá vai votar para o próximo governo. O candidato melhor posicionado é um economista com doutorado por Oxford e que foi presidente do Bank of England. O México, “sorprevisamente”, elegeu uma física com doutorado em energia elétrica. Os EUA elegeram pela segunda vez um PhD em fraudes e trambiques imobiliários, que possui a inteligência de um nabo, segundo algums críticos radicais.
O Brasil já teve pelo menos um intelectual na presidência, com sucesso razoável, mas também já teve a chance de eleger, e quase reelegeu, um energúmeno completo, aliás admirador do nabo americano.
A democracia, segundo já desconfiavam os gregos (que a inventaram) e temia Tocqueville, permite eleger demagogos medíocres, populistas espertos, mas profundamente ignorantes, se ouso dizer.
Creio que continuará a ser assim, pelo futuro indefinido, pois a vida é um longo aprendizado, mas alguns se perdem pelo caminho.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 30/03/2025
Ajudar um estudante ruandês a terminar seu doutorado - Lourival Sant’Ana
Um apelo de Lourival Sant’Ana
Em outubro de 2021, pedi aqui ajuda para o estudante ruandês de história Nepomuscene Niyobyiringiro realizar seu sonho de fazer mestrado e se tornar professor de História. Com a ajuda de alguns de vocês, e depois de muitas dificuldades, Nepo, como é conhecido, ingressou no ano passado no mestrado em História da Universidade Makerere, em Uganda. Disciplinado e espartano, trabalhando como pedreiro e como guia do museu de história da cidade, sem ter conseguido bolsa, Nepo está agora na reta final do curso.
Com a nossa ajuda, ele pagou o primeiro ano e fez um empréstimo para pagar o segundo. Ele já fez a pesquisa de campo com as vítimas, algozes e testemunhas do Genocídio de Ruanda. Agora Nepo precisa se concentrar na redação e defesa da dissertação.
Nepo precisa pagar 5.613.000 shillings ugandenses (veja a segunda foto), ou R$ 8.853, para a universidade. Se puder ajudar, e quiser falar com o Nepo, por favor me mande mensagem no particular. Conheci o Nepo em 2019, em Butare, Ruanda, quando ele fazia graduação em história e estágio no museu local. Ele me deu uma aula sobre o genocídio, tema do seu trabalho de conclusão de curso. Nepo nasceu quando o genocídio estava acontecendo, em 1994.
Ele não conheceu o pai e sua mãe foi embora depois que ele nasceu, fugindo de uma "feitiçaria", que deixou cicatrizes no corpo dele também. A avó cuidou dele até os 5 anos de idade, quando ela morreu. Uma família o adotou, e o maltratava. Nepo fugiu e passou a viver na rua. Contando com a ajuda de pessoas caridosas, conseguiu estudar. Destacou-se na escola e recebeu uma bolsa para fazer a graduação em história (todo ensino superior é pago em Ruanda).
Eu o ajudei modestamente, para que ele pudesse concluir a gradução. Agora, Nepo faz mestrado sobre o genocídio, em sua busca intelectual constante do significado de sua própria história.
Murakoze ("obrigado" em kinyarwanda, a língua nativa do Nepo).
Criei essa vaquinha: https://lnkd.in/db4kFyud
O batom de Bolsonaro - Marcelo Godoy (Estadão)
O batom de Bolsonaro
Marcelo Godoy
O Estado de S. Paulo, 30/03/2025
Atentar contra as liberdades é o pior dos crimes que alguém pode cometer em uma República
Marco Mânlio Capitolino aspirou à realeza e acabou precipitado da Rocha Tarpeia. É o que Tito Lívio conta no livro VI da História de Roma – Ab urbe condita libri. A República condenou Mânlio, apesar de suas ações nobres, porque – movidas pela “vergonhosa paixão de reinar” – deixavam de motivar recompensa e glória para se tornarem odiosas.
Bolsonaro, como os antigos acusados em Roma, compareceu ao fórum. Sua presença não constrangeu os ministros – Lula não esteve lá quando o STF definiu que os condenados em 2.ª instância deviam ir para o cárcere, antes do trânsito em julgado.
Bolsonaro sabe o significado de seu gesto. É de manipular as redes e de explorar meias-verdades que o bolsonarismo é sempre acusado pelos adversários.
A última delas foi o caso da cabeleireira Débora dos Santos, que foi a Brasília se unir aos acampados em frente ao QG do Exército, onde a palavra de ordem era a sediciosa “intervenção das Forças Armadas”. O ataque às sedes dos Poderes tinha o fim de ocupá-las para obter a adesão dos militares. Tudo provado à exaustão por centenas de mensagens entre os réus. A cabeleireira tem dois filhos. Uma condenação a 14 anos resultaria em dois de cadeia antes da progressão ao semiaberto.
Aqui é preciso diferenciar dois tipos de reações: a dos que procuram corrigir os excessos de uma Justiça afrontada e pedem aos julgadores equilíbrio e respeito ao estado democrático de direito e a da miríade de oportunistas que usa o caso de Débora para atacar o dever que a Justiça tem de mandar para a cadeia os golpistas que cometeram o pior dos crimes em uma República: aspirar à tirania e atentar contra as liberdades.
Há políticos que, em vez de se preocuparem com o gangsterismo em suas cidades e Estados, resolveram “salvar” a cabeleireira. Mal conseguem esconder o verdadeiro interesse: herdar os votos de Bolsonaro, o réu que, em breve, será atirado pelo STF, não da Rocha Tarpeia, mas ao malfadado rol dos culpados.
O batom da cabeleireira é parecido com o qual a Procuradoria diz que Bolsonaro escreveu sua participação no golpe. Era chefe supremo das Forças Armadas. Tomou conhecimento da conspiração para anular as eleições. Militares puseram em execução duas operações por fora da cadeia do comando. Iniciariam a empreitada. Bolsonaro não os impediu. Como seria beneficiado, aderiu à conduta. Está no Código Penal: comete-se crime por ação ou omissão. Essa é a lei. Eis o batom de Bolsonaro.
Negar o golpe é como negar o petrolão. Há muito este país espera uma revolução: a do cumprimento das leis. É isso que os Poderes da República e cada cidadão devem ao Brasil. Quando as leis são cumpridas, nenhuma anistia é “necessária”.
O afundamento da educação básica no Brasil - Fernando José Concioni e Paulo Roberto de Almeida (e outros)
O afundamento da educação básica no Brasil
Fernando José Concioni e Paulo Roberto de Almeida (e outros)
Li esta postagem de Fernando José Coscioni no FB e comentei (mais abaixo):
“ No meu retorno (a contragosto e por pura falta de opção profissional, esta é a verdade) à docência no ensino básico público, ocorrido há, aproximadamente, um ano, cada vez tenho estado mais convicto da inutilidade que é, na maioria dos casos, colocar dinheiro em educação escolar, afinal, entre 70 e 80 por cento dos adolescentes odeiam estudar e têm desprezo total e absoluto pelo ensino e por qualquer coisa que envolva o trabalho intelectual.
E eu nem vou falar da insolência sistemática e da agressividade com as quais muitos desses jovens tratam os professores; em alguns casos, tais situações beiram a delinquência pura e simples (o ECA, que impede a retirada desses tipos do ambiente escolar, é uma das grandes causas do nosso infortúnio educacional, e os professores, ironicamente, não param de votar em políticos e partidos que defendem a manutenção do "imaculado" Estatuto).
Na melhor das hipóteses, apenas o fundamental I deveria ser obrigatório. E, no fundamental II, deveria haver um filtro de acesso que selecionasse apenas aqueles alunos que têm disposição intelectual mínima, padrões decentes de comportamento e que aprenderam corretamente a ler (trabalho com fundamental II, e digo com tranquilidade: mais da metade dos estudantes não sabe ler).
O velho exame admissional do ginásio era uma coisa muito correta, que preservava a qualidade (mínima, é verdade) da escola pública. Jamais deveria ter sido abolido. A visão atual, dominante nas nossas leis e na formação de professores, de que o papel da escola seria a "inclusão" e a busca da "justiça social", é um câncer.
Bourdieu, quando percebeu que as classes populares, salvo exceções, têm uma relação tensa e difícil com a cultura letrada que a escola busca transmitir, e que, no limite, não veem qualquer sentido na experiência escolar, acertou em cheio.
O problema é que nossos "educadores" (odeio essa palavra, é muito piegas) pegaram esse diagnóstico dele para justificar o nivelamento da escola pública aos padrões baixíssimos dos alunos "oprimidos" ao invés de utilizar essa constatação para aceitar uma verdade dura: educação formal de qualidade não pode ser para todo mundo, pois a maioria dos jovens (ao menos no Brasil) não possui qualquer aptidão intelectual (e ficar no blá blá blá sentimentalóide sobre as condições sociais desiguais de formação das aptidões para o trabalho intelectual só vai nos jogar mais no buraco).
As escolas públicas deveriam concentrar tempo e investimentos apenas nos alunos minimamente capacitados, pois a presença dos insolentes, incapazes e, em muitos casos, agressivos, nas salas de aula, está inviabilizando com que os professores (que, infelizmente, são cúmplices dessas ideologias coletivistas toscas de educação como forma de "justiça social") possam trabalhar com o grupo minoritário que é capacitado.
Sei que nada disso vai mudar. Mas eu escrevo aqui só pra descarregar mesmo. E para expor também o quão bocó é a concepção dominante que fundamenta essa excrescência ideológica, filosófica, cultural e pedagógica que é o sistema educacional brasileiro. E para não deixar escapar uma coisa: os professores reclamam, mas, no fundo, eles acreditam nessa concepção, ainda que ela seja a causa primordial da inviabilização de seu trabalho.”
(28/03/2025)
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Meu comentário (PRA):
A postagem constata um problema real e efetivo: a deterioração geral do ensino público fundamental no Brasil, o que acaba repercutindo e influenciando também na má qualidade de certo ensino privado (não todo ele; familias pagantes selecionam os sobreviventes desse darwinismo vulgar). Mas a postagem também mostra um desalento com essa situação e uma proposta, talvez involuntária, de afunilamento elitista das etapas educacionais seguintes, deixando para trás todos os fracassados da péssima qualidade do atual sistema público. Se a péssima situação não se repetisse também nos níveis seguintes, poderia talvez representar um choque nos responsáveis pela atual condição medíocre do fundamental público, o que desconfiamos que não seria e não será o caminho. Temos analfabetos funcionais que chegam ao terceiro ciclo e conseguem sobreviver até a pós-graduação.
O Brasil é um país de lento crescimento justamente pela má formação do seu capital humano, o que repercute na baixa produtividade e na mediocrização crescente da casta política.
A solução falsa do darwinismo vulgar seria esse afunilamento já no médio, o que reduziria ainda mais as chances de desenvolvimento, pois no sistema atual um terceiro ciclo mediocre (como é o caso de muitas faculdades privadas) acaba “completando” as insuficiências dos dois ciclos anteriores, mal e porcamente é verdade, mas parece ser a única chance daqueles fracassados no fundamental público. O sistema S oferece alguns remendos para as necessidades das empresas privadas, ao passo que o sindicalismo corrupto (do sistema educacional público) vai empurrando, ladeira acima, os despreparados para a diplomação formal. É a ilha da fantasia de um país incapaz de criar um modo inovador de produção. Ficamos na rabeira do mundo e só não descemos mais porque o setor privado vai formando seus próprios quadros. Acredito que a outrora brilhante educação pública argentina, a de Sarmiento e Mitre, foi se deteriorando no último século de decadência do país, que hoje exibe resultados do PISA piores que os do Brasil. Somos dois países fracassados, o Brasil nunca chegou a ter uma educação decente para os pobres, a Argentina pós-1930 deixou decair a sua.
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Outros comentários:
“ Você fala o que realmente ocorre na educação pública, em sua totalidade, e na particular, em boa parte. Na pública, é mais fácil receber dinheiro sem trabalhar, através dos subsídios sociais, e nas particulares, onde muitos jovens, porque os pais pagam, se acham no direito de fazer qualquer coisa. Isso mostra a educação recebida em casa e a tremenda falta de respeito com e para os mestres.” (Vicente Ferrero)
“ Estou na mesma condição há um ano e meio. Durante um ano fui contratada pelo município. Achei ótimo. Agora, estou no Estado de MG desde 4 de novembro. É um caos em tudo. Não há nem pincel direito na escola, sem falar da indisciplina....” (Cintia Araújo)
“ É Fernando, cada vez te admiro mais. Disse tudo sobre a educação brasileira. É incrível que pessoal que estão na faixa dos 65+ , mesmo tendo só o primário, tenham mais aptidão cognitiva do que muitos que estão ingressando nas universidades, independente da modalidade (presencial ou a distância). Não poder reter alunos desde a alfabetização, pois irá frustar a criança, oras, como se na vida as frustrações não fizessem parte do crescimento. E para piorar, diante do sistema educacional que temos, o aluno sabe que mesmo não estudando, a escola aprova para garantir verba. E para piorar ainda mais, no ensino médio o aluno irá receber para não estudar! Esta é a educação resultado das teorias de Paulo Freire! Uma lástima!” (Marta Bertin)
“ Como professor universitário não exagero ao dizer que analfabetos funcionais, literalmente semi analfabetos que mal conseguem escrever, estão chegando e "se formando" na Universidade.
Tentei fazer licenciatura mas o viés é ideológico na formação de novos professores é tão grande que me tirou completamente a vontade de finalizar mesmo sendo EAD.” (Diego Paz)
“ Diria que tu foi otimista com os 80%. Eu na universidade estimo que uns 90% não querem saber de nada.” (André Luzardo); seguido de comentário de Coscioni: “André Luzardo: conforme a gente havia conversado no podcast, a maior destruição que a ascensão da sociedade de massas promoveu na contemporaneidade foi na educação. Uma educação massificada, por definição, só pode ser a negação da educação.”
“ Eu não aceito essa condição. Há décadas questiono a obrigatoriedade da presença no ensino médio, por exemplo. Não é possível ensinar quem não quer aprender. E sofro pelos que querem, pois são impedidos pelos demais. Cada reunião pedagógica, para mim, é como criar estratégias para receber o Papai Noel com alegria: papo de louco, de adulto infantilizado, incapaz de ver e enfrentar a realidade. Como esses adultos mandam em mim, adoeci. Cada vez mais aumento a medicação psiquiátrica.” (Paula Rosiska)
“ Você deveria escrever um livro sobre Educação Fernando. Eu acompanho o que você escreve e sempre concordo com o que você diz. Acho que você ainda tem muita coisa a expor sobre o tema e com certeza tem muita gente disposta a ouvir.” (Luis Felipe Blanco); seguido de resposta de FJC: “ Luis Felipe Blanco eu já pensei, na verdade, em escrever um romance sobre a mutação da personalidade e das posições políticas de um professor de formação uspiana progressista após se deparar com a realidade da escola pública. Quase um "romance de formação" às avessas, não com um processo de construção da personalidade, mas de demolição (tenho pensando bastante na famosa frase de Fitzgerald sobre a vida como um "processo de demolição"), de desmantelamento da identidade (essa palavra me dá calafrios, rs) diante da implosão das fantasias intelectuais que moldaram a sua forma de ser.”
“ Verdade pura Fernando. Inegável que os estudos mais avançados são para quem gosta e tem aptidões intelectuais. Seria maravilhoso se os alunos saíssem alfabetizados do curso fundamental, bem alfabetizados e sabendo as quatro operações. Não é o que acontece, vivemos num país de idiotice ideológica.” (Celia Marinangelo)
“ A escola pública é o reflexo da sociedade, a maioria dos estudantes que passaram pela três etapas: Fundamental 1, Fundamental 2 e ensino básico, a grande maioria sai despreparados, com deficiência em leitura, muitos leiam mal.
O governo federal gastam milhões com livros paradidaticos, a bibliotecas é cheia de livros, a sala é vazia. É um processo histórico, a educação brasileira não é vista como ascensão social, e cultural.
As escolas públicas não têm escolhas, são obrigado matricularem alunos indisciplinados, não respeitam os professores. Por isso a escola pública encontra-se em labirinto que não encontra saída.” (Israel Medeiros da Silva)
“ A verdade é que o Brasil tem a mania de pular etapas, passando da indigência para a melhor legislação do mundo, sem condições de suportar esse tipo inovação. Temos um ECA para Suecos, uma legislação ambiental para Noruegueses, regra de IA mais restritiva donqie os europeus, todas pensadas pelo burros letrados que nós governam.” (Julio Meireles)
“ Sou professora da rede pública de ensino. Durante 27 anos vivenciei todo tipo de humilhação, desrespeito, perseguição (direção/vice-direção), dentro da escola. Minha disciplina é sociologia. 99% e mais do alunado não gosta de estudar. Não consegue interpretar o que lê, nem transpor para escrita o que compreendeu. Esse mesmo alunado odeia o conhecimento. A educação está desmantelada, destruída. As salas de aula lotadas com mais de 40 alunos por turma. Sou vítima de piadas, risos, galhofa, zombaria, etc, enquanto tento, com muito esforço, explicar teoria social a essa clientela. As salas de aula não têm ar-condicionado. Os ventiladores velhos e de péssima qualidade. Ano passado, 15 alunos que nunca frequentaram minhas aulas foram aprovados pelo " conselho de classe " / professores. Nas reuniões de atividade complementar/AC, completamente inúteis, se discute sobre "empoderamento" feminino e "inclusão" social. O corpo docente não esboça absolutamente nada sobre o fato de a grande maioria dos alunos não conseguirem construir uma oração com sujeito, verbo e complemento. Seu brilhante texto retratou exatamente o que vem acontecendo no dia a dia do professor. No final, todos os alunos estão sendo nivelados por baixo. Na rede pública de ensino do Estado da Bahia, retiraram a quarta unidade e a média para ser aprovado é cinco.” (Paula Lopes Pontes)
Comentário final:
PRA: Essa é a maior tragédia brasileira, desde Pombal, ou melhor, desde que Pombal expulsou os jesuítas e as elites medíocres do Brasil português e independente preservaram a mediocridade, até hoje.
Infelizmente é isso, mas não se pode desistir de educar os que partem de uma condição modesta. O Brasil precisaria passar por uma revolução humboldtiana (Wilhelm) na educação, do fundamental à pós, o que sabemos não virá: continuaremos patinando na mediocridade, até uma pouco provável reforma geral do ensino.
Como disse Mario de Andrade em 1924: “Progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso também é uma fatalidade”.
Vamos continuar na fatalidade.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 30/03/2025
Jair é réu - Celso Rocha de Barros (FSP)
Jair é réu
Celso Rocha de Barros
O azar do mundo é que a democracia dos EUA não foi capaz de produzir coisa semelhante depois do 6 de janeiro
Folha de S. Paulo, 29 mar. 2025
Jair Bolsonaro agora é réu no processo que julgará se ele fez o que obviamente fez e passou quatro anos deixando claro que faria.
Ninguém que não receba suborno para dizer o contrário nega que Jair é culpado: seu governo foi um flagrante de quatro anos do crime de tentativa de extinção do Estado de Direito. Comparado ao nível de certeza da frase "Bolsonaro tentou um golpe de Estado", o teorema de Pitágoras é apenas um boato.
Diante da obviedade da culpa, o que está em julgamento é a capacidade das instituições brasileiras de punir os obviamente culpados.
Na quarta-feira, a Primeira Turma do STF passou no teste.
A ministra Cármem Lúcia foi feliz em citar o livro de Heloísa Starling ("A Máquina do Golpe. 1964: Como foi desmontada a democracia no Brasil". Companhia das Letras, 2024) sobre o golpe de 64.
Não foi só um floreio ou uma demonstração de erudição.
Foi um forte argumento jurídico: Starling mostra que a história do último golpe foi um processo bem mais longo que os dias que antecederam a tomada do poder pelos golpistas de 1964.
O golpe foi um longo processo, lutado em várias frentes, por muito tempo, em que golpistas diferentes desempenharam papéis diferentes.
Quando algum dos acusados disser que só participou de uma parte da ofensiva golpista, sem nunca ter se comprometido com a coisa toda, não caia nessa.
Alexandre de Moraes fez bem em apresentar o vídeo mostrando o quão violento foi o 8 de janeiro — não, não foi um passeio de mães de família —, mas Flávio Dino fez melhor: lembrou que o golpe tentou instaurar uma ditadura com o objetivo de matar, censurar e torturar muito mais gente.
A Débora do batom, como todos os outros golpistas, foi à praça dos Três Poderes para pedir que o Exército anulasse os votos de dezenas de milhões de brasileiros pobres que elegeram Lula, muitas vezes tendo que andar grandes distâncias para votar porque o acusado Anderson Torres bloqueou estradas no dia da eleição.
Os criminosos do 8 de janeiro também pediam que o Exército matasse o candidato vencedor, as autoridades que impediram o golpe bolsonarista e qualquer um se opusesse ao novo regime.
Como a maior parte da Redação da Folha de S.Paulo, eu teria sido assassinado se o golpe tivesse dado certo.
Em seu voto, Luiz Fux lembrou que "embaixo da toga bate um coração". Esse, para os bolsonaristas, era o problema. O golpe teria garantido que vários corações sob as togas do STF parariam de bater abruptamente.
O voto de Luiz Fux, aliás, foi mais confuso que os outros.
Não tenho problema com a proposta de revisar a dosimetria das penas, se a cada revisão de pena para baixo dos soldados-rasos houver uma revisão para cima da pena dos líderes.
Se Débora não é tão culpada assim, Jair só pode ser mais culpado ainda. O batom que interessa é o do Jair na cueca do golpe.
Mas Fux ensaiou um argumento sobre "tentativa do ato consumado de tentar" que dói no nervo da lógica e é muito perigoso para o resto do julgamento.
Espero que o ministro atente para não ser tentado a tentar a tentativa de continuar por esse caminho.
Foi uma boa semana para a democracia brasileira.
O azar do mundo é que a democracia americana não foi capaz de produzir coisa semelhante depois do 6 de janeiro deles.
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/celso-rocha-de-barros/2025/03/jair-e-reu.shtml
sábado, 29 de março de 2025
Brasil: um país de assistidos - IBGE, Ricardo Bergamini, Paulo Roberto de Almeida
Se, e quando, for implementado projeto de desoneração do imposto de renda dos trabalhadores com vencimentos inferiores a R$ 5.000, as receitas no quesito Renda dependerão de um punhado de algumas centenas de milhares de contribuintes, pois que a maioria da população estará isenta. Ou seja, um pais excepcional… (PRA)
Do Ricardo Bergamini:
“ Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Fonte IBGE
Base: trimestre encerrado em fevereiro de 2025
No trimestre encerrado em fevereiro de 2025, existiam 177,1 milhões de pessoas em idade de trabalhar, sendo 66,9 milhões fora da força de trabalho.
No trimestre encerrado em fevereiro de 2025, existiam 110,1 milhões de pessoas na força de trabalho, sendo 7,5 milhões de desocupadas e 39,1 milhões de informais.
No trimestre encerrado em fevereiro de 2025, existiam apenas 63,5 milhões de brasileiros formais, sendo apenas 40,6 milhões de declarantes de imposto de renda.
Resumindo: O Brasil é um acampamento de refugiados.
PNAD Contínua: taxa de desocupação é de 6,8% e taxa de subutilização é de 15,7% no trimestre encerrado em fevereiro
28/03/2025
A taxa de desocupação (6,8%) no trimestre encerrado em fevereiro de 2025 cresceu 0,7 ponto percentual (p.p.) frente ao trimestre anterior (6,1%) e caiu 1,1 p.p. ante o trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2024 (7,8%).
Indicador/Período | Dez-jan-fev 2025 | Set-out-nov 2024 | Dez-jan-fev 2024 |
Taxa de desocupação | 6,8% | 6,1% | 7,8% |
Taxa de subutilização | 15,7% | 15,2% | 17,8% |
Rendimento real habitual | R$ 3.378 | R$ 3.335 | R$ 3.260 |
Variação do rendimento habitual em relação a: | 1,3% | 3,6% | |
A população desocupada (7,5 milhões) cresceu 10,4% (ou mais 701 mil pessoas no trimestre e recuou -12,5% (menos 1,1 milhão de pessoas) no ano.
A população ocupada (102,7 milhões) caiu 1,2% (menos 1,2 milhão de pessoas) no trimestre e cresceu 2,4% (mais 2,4 milhões de pessoas) no ano. O nível da ocupação (percentual de pessoas ocupadas na população em idade de trabalhar) foi de 58,0%, caindo 0,8 p.p. no trimestre (58,8%) e crescendo 0,9 p.p. (57,1%) no ano.
A taxa composta de subutilização (15,7%) cresceu 0,4 p.p. frente ao trimestre anterior (15,2%) e caiu 2,1 p.p. ante o mesmo trimestre do ano anterior (17,8%). A população subutilizada (18,3 milhões) cresceu 2,8% (mais 491 mil pessoas) no trimestre e caiu 11,5% (menos 2,4 milhões) no ano.
A população subocupada por insuficiência de horas (4,5 milhões) recuou 10,9% (menos 557 mil pessoas) no trimestre e caiu 10,7% (menos 542 mil pessoas) no ano. A população fora da força de trabalho (66,9 milhões) cresceu 1,4% (mais 902 mil pessoas) no trimestre e ficou estável no ano. A população desalentada (3,2 milhões) cresceu 6,9% (mais 208 mil pessoas) no trimestre e caiu 11,8% (menos 435 mil pessoas) no ano. O percentual de desalentados (2,9%) cresceu 0,2 p.p. no trimestre e recuou 0,4 p.p. no ano.
O número de empregados no setor privado (53,1 milhões) caiu 0,8% (menos 440 mil pessoas) no trimestre e cresceu 3,5% (mais 1,8 milhão de pessoas) no ano. O número de empregados com carteira assinada no setor privado (exclusive trabalhadores domésticos) foi novo recorde da série histórica iniciada em 2012: 39,6 milhões, com altas nas duas comparações: 1,1% (mais 421 mil pessoas) no trimestre e 4,1% (mais 1,6 milhão de pessoas) no ano. O número de empregados sem carteira no setor privado (13,5 milhões) caiu 6,0% (menos 861 mil pessoas) no trimestre e manteve estabilidade no ano.
O número de empregados no setor público (12,4 milhões) recuou 3,9% (menos 496 mil pessoas) no trimestre e subiu 2,8% (mais 334 mil pessoas) no ano.
O número de trabalhadores por conta própria (25,9 milhões) ficou estável no trimestre e cresceu 1,7% (ou mais 434 mil pessoas) no ano. Já o número de trabalhadores domésticos (5,7 milhões) recuou nas duas comparações: -5,0% (menos 300 mil pessoas) no trimestre e -3,7% (menos 219 mil pessoas) no ano.
A taxa de informalidade foi de 38,1% da população ocupada (ou 39,1 milhões de trabalhadores informais) contra 38,7 % (ou 40,3 milhões) no trimestre encerrado em novembro de 2024 e 38,7 % (ou 38,8 milhões) no trimestre encerrado em fevereiro de 2024.
O rendimento real habitual de todos os trabalhos (R$ 3.378) subiu nas duas comparações: 1,3% no trimestre e 3,6% no ano, chegando ao recorde da série histórica iniciada em 2012.
A massa de rendimento real habitual (R$ 342,0 bilhões) foi novo recorde, mantendo estabilidade no trimestre e crescendo 6,2% (mais R$ 20,0 bilhões) no ano.
Estudo completo clique abaixo:
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/42964-pnad-continua-taxa-de-desocupacao-e-de-6-8-e-taxa-de-subutilizacao-e-de-15-7-no-trimestre-encerrado-em-fevereiro
Ricardo Bergamini
ricardobergamini@ricardobergamini.com.br
www.ricardobergamini.com.br
O apoio objetivo de Lula a Putin na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia - Julio Benchimol Pinto
O apoio objetivo de Lula a Putin na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia
Julio Benchimol Pinto
Introdução PRA: “ Lula nunca escondeu sua aliança implícita e explícita com a Rússia, e com Putin particularmente. Não quer reconhecer sua aliança com duas grandes potências autoritárias, bem mais forte nos objetivos inconfessáveis da “nova ordem global multipolar”, do que o apoio oportunista de Bolsonaro à Rússia. O ex-presidente havia insistido, contra as recomendações do Itamaraty, em visitar o ditador uma semana antes da invasão, quando se declarou solidário a ele, por razões basicamente eleitoreiras (fertilizantes e combustíveis).
Lula tem razões ideológicas, supostamente geopolíticas, para desejar a vitória russa, o que é uma postura sórdida.”
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Julio Benchimol Pinto (28/03/2025):
“ Nem todo “intermediador” é neutro - e nem toda “paz” é justa
Lula anuncia que conversará com Zelenskyy “esperando que agora ele esteja preocupado com a paz”. Como se a Ucrânia, invadida, destruída e mutilada, fosse a parte menos interessada em encerrar a guerra. Como se a vítima da agressão russa tivesse responsabilidade equivalente à do agressor. Como se “impor a vontade” fosse um gesto simétrico entre quem resiste e quem invade.
A retórica do presidente brasileiro busca se equilibrar sobre um falso “nem-nem”: nem com Putin, nem com Zelenskyy. Mas, na prática, relativiza a barbárie da invasão russa ao diluir responsabilidades e tratar a paz como uma equação matemática de boa vontade mútua - e não como o que ela realmente é: o fim da agressão iniciada por Moscou.
O direito internacional é claro: a invasão russa da Ucrânia é uma violação frontal do artigo 2º, § 4º da Carta da ONU. A Rússia é o agressor. A Ucrânia tem o direito, inclusive jurídico, de se defender com todos os meios necessários, inclusive com apoio de terceiros (artigo 51).
A fala de Lula joga água no moinho do discurso revisionista de potências autoritárias, que usam a retórica da “segurança” para justificar expansão territorial. O paralelo histórico é sombrio.
A neutralidade entre opressor e oprimido não é neutralidade - é cumplicidade.
O Brasil pode e deve buscar a paz. Mas uma paz justa, que respeite a soberania das nações e puna a violação do direito internacional. Paz sem justiça é apenas o nome elegante da rendição.
Se Lula pretende ser ouvido como interlocutor legítimo, deve começar por reconhecer, sem tergiversar: a Rússia é o agressor, a Ucrânia é a vítima.
E se alguém aí ainda duvida, a história julgará - e como sempre, será implacável com os omissos e equidistantes.”
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Oferecemos aos entrevistados uma longa lista de "inimigos" (usamos essa linguagem pesada, de propósito) do campo conservador que incluía a esquerda, o presidente Lula e a agenda "woke" e pedimos para escolherem apenas um deles. 59% escolheram o STF. Se entendermos que, no ambiente polarizado, as identidades se dão por antagonismo, isso significa que os conservadores se definem mais por oposição à Justiça do que por oposição à esquerda, seus líderes ou sua pauta. Isso não é pouco.
Os motivos para o ódio ao Supremo são esclarecidos nas outras questões. 96% dos manifestantes acreditam que os excessos da Justiça fazem do Brasil uma ditadura. 92% acreditam que o decreto de Estado de sítio que Bolsonaro cogitou assinar em 2022 não configuram um golpe de Estado. 95% consideram que o julgamento de Bolsonaro no STF não seria "nada justo".
Isso tudo talvez não fosse muito grave se o fenômeno se restringisse aos ativistas que estão mobilizados em manifestações como a que estudamos. Porém, pesquisas nacionais de opinião têm mostrado que a grande maioria dos apoiadores de Bolsonaro consideram o trabalho do STF ruim ou péssimo (59% dos simpatizantes do PL consideram trabalho do STF ruim ou péssimo, segundo Datafolha de março do ano passado, enquanto 49% dos simpatizantes do PT consideram ótimo ou bom).
Tenho defendido em minhas colunas no Globo que a situação na qual o país se encontra exige da Justiça uma combinação de rigor com sobriedade. Por um lado, precisamos punir com rigor quem atentou contra a democracia, do contrário o regime democrático não sobrevive. Por outro lado, não podemos fazer isso de maneira que pareça que a Justiça tem lado e está perseguindo os conservadores. Na minha opinião, a Justiça não tem encontrado esse equilíbrio e os números da pesquisa atestam isso. Nenhuma democracia fica de pé quando metade da cidadania desconfia da Justiça.
Entrevistamos 495 manifestantes e nossa margem de erro, em um intervalo de confiança de 95%, é de 4 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi uma parceria entre a More in Common e o Monitor do Debate Político do Cebrap e contou ainda com o apoio do professor José Szwako e de uma excelente equipe de estudantes da UERJ.