quarta-feira, 14 de maio de 2025

Entrevista: ‘Alinhamento de Lula com Putin afeta nossa neutralidade’, afirma pesquisador Vitelio Brustolin

Entrevista: ‘Alinhamento de Lula com Putin afeta nossa neutralidade’, afirma pesquisador Vitelio Brustolin

(O Globo, 13/03/2025)

Mundo
'Lula apareceu ao lado não apenas de ditadores, mas também de criminosos de guerra', afirma pesquisador
Em entrevista ao GLOBO, Vitelio Brustolin, professor da UFF, considera um 'contrassenso' do presidente em adotar um discurso pró-democracia e se sentar ao lado de autocratas
Filipe Barini
O Globo, 13/05/2025
Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador da Universidade Harvard

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos dezenas de chefes de Estado convidados pelo líder russo, Vladimir Putin, na parada militar que marcou os 80 anos da vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial. A participação em uma celebração também vista como um ato de propaganda russa provocou críticas internas e externas: sem citar o Brasil, o presidente da Polônia, Donald Tusk, disse que todos que aplaudiram Putin "deveriam se envergonhar".
Em entrevista ao GLOBO, Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade Harvard, considerou desnecessária a viagem de Lula a Moscou, e vê um contrassenso entre o discurso pró-democracia do Brasil e a decisão de se sentar ao lado de autocratas na Praça Vermelha, alguns há décadas no poder.
Por mais que a celebração na Praça Vermelha tivesse uma motivação histórica, a vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, a parada militar se inseriu na estratégia de propaganda russa sobre a guerra na Ucrânia. Como o senhor avalia a decisão do presidente Lula de ir até Moscou?
Considero desnecessária. O Lula não precisava ter ido pessoalmente, outros líderes foram convidados e não quiseram ir. Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, mandou representantes. Não havia necessidade de Lula ir a Moscou. Mas já que ele foi, por que não aproveitou a viagem ao funeral do Papa Francisco, no dia 26 de abril, e não ficou mais dois dias na Itália para homenagear os 457 pracinhas brasileiros da FEB mortos na Segunda Guerra Mundial? Já que o presidente Lula foi a Moscou se apresentando como mediador, por que não aceitou o convite da Ucrânia para ir ao país? Como ele vai ser mediador em um conflito em que só vai visitar o agressor? A viagem não trouxe vantagens ao Brasil, pelo contrário: o avião presidencial recebeu uma recusa de sobrevoar países, Estônia, Letônia e Lituânia não abriram espaço aéreo porque ele estava indo para Moscou. O Brasil afirma que quer assinar um acordo estratégico com a Rússia, mas quais países já o fizeram? A Coreia do Norte, que enviou tropas para ajudar Putin na guerra, a Venezuela, com quem o presidente Lula não falava desde a fraude nas eleições no ano passado, com ameaças do Maduro ao Lula para não se meter com ao país, e o Irã, que está sob pressão por causa do seu programa nuclear.
Na Praça Vermelha estavam alguns conhecidos autocratas, como Alexander Lukashenko, líder da Bielorrússia, no poder desde 1994, e outros que chegaram ao poder através de golpes, como o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. Até que ponto isso bate de frente com o discurso pró-democracia de Lula?
Existe um contrassenso. Lula se elegeu com um discurso de defesa da democracia, afirma ter combatido um golpe de Estado no dia 8 de janeiro, e Lula apareceu ao lado não apenas de ditadores, mas também de criminosos de guerra. Putin tem uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional por sequestrar milhares de crianças da Ucrânia. E além de ser um contrassenso, os países europeus veem ações assim com maus olhos. Enquanto Lula estava na visita, outros líderes estavam tentando negociar um cessar-fogo entre Ucrânia e Rússia, mas Lula não conseguiu estender a pausa nos combates em um só dia.
É importante aqui fazer uma distinção: a diplomacia profissional do Brasil desde o início da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia tem feito condenações na ONU. Isso foi antes do governo Lula tomar posse, ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, e ele também foi apertar a mão do Putin dias antes da invasão. Uma coisa é a diplomacia profissional do Itamaraty, respeitada no mundo inteiro. Outra coisa é a diplomacia personalista que o presidente faz com os seus assessores, especialmente Celso Amorim, uma diplomacia personalista que também é criticada dentro do Itamaraty.
Até que ponto podemos associar essa visita de Lula a Moscou ao fato do Brasil presidir o Brics em 2025? Até agora, por exemplo, não há confirmação se Putin virá ou não para a reunião de cúpula do grupo, em julho, no Rio de Janeiro…
Lula vem lamentando há algum tempo a ausência de Putin nas reuniões. Mas não é de hoje essa postura de tentar amenizar o que Putin vem fazendo. Antes de se eleger, Lula foi criticado por uma entrevista que deu à revista Time, e criticado pelo governo dos Estados Unidos na época e pela Europa, e chamado de “papagaio de propaganda russa”. [Volodymyr] Zelensky [presidente da Ucrânia], que pousou em Brasília para a posse de Javier Milei na Argentina, não foi recebido, ao contrário do que aconteceu em outros países. Há um alinhamento de Lula com Putin, e não podemos colocar isso na conta do Brics. Inclusive vários países do bloco não mandaram seus chefes de Estado para Moscou.
Lula disse que um dos objetivos da viagem foi ampliar as oportunidades de negócios com a Rússia, um país com o qual o Brasil tem um amplo déficit comercial...
Em 2023, o Brasil aumentou a importação de óleo diesel russo em 6.000%, comparado com 2022, no período anterior à guerra. E no ano passado aumentou em 9.000%. O Brasil é um dos financiadores da guerra de agressão de Putin. O Brasil votou na ONU contra a agressão e aumentou muito a importação de óleo diesel. O Brasil diz que a Ucrânia não deve receber armas, mas é a favor da soberania da Ucrânia. Então como é que a Ucrânia vai se defender? Então se o Brasil, um país que tem pouca projeção de poder, porque tem pouca força militar, fosse invadido hoje, ele não poderia ser protegido pela carta da ONU. O que a diplomacia personalista do presidente defende é que se alguém invadir a Amazônia, a temos que abrir mão em prol da paz. Todo mundo é a favor da paz, mas o problema é que a paz a qualquer preço, defendida pelo Lula, leva a outras guerras.
O senhor acredita que a decisão de Lula de ir à Rússia terá impactos a médio ou longo prazo no papel do Brasil no mundo?
A Rússia de Putin usou o evento de 9 de maio como um ato de propaganda, com soldados que estiveram na Ucrânia ou que irão para lá, com armas que provavelmente serão lançadas contra civis. Não ganhamos nada com isso, mas perdemos. Perdemos influência internacional, perdemos a neutralidade de nossa democracia, que é vista assim no mundo inteiro como neutra desde sua fundação.
A presença no desfile de 9 de Maio pode ser uma pá de cal nos planos do Brasil de eventualmente fazer parte do diálogo sobre o fim da guerra na Ucrânia?
Quem diz isso são os ucranianos. São eles que dizem que o Lula tem um lado. E isso independente da posição política, porque criticamos contra quando Bolsonaro foi apertar a mão do Putin. Isso não é uma questão de ideologia, não é uma questão de esquerda e direita. É uma questão de defesa dos princípios da Carta da ONU. Não consigo entender, por exemplo, por que o governo brasileiro é tão rápido para condenar Israel quando bombardeiam civis, quando [Benjamin] Netanyahu [premier de Israel] usa desproporcionalmente a força na Faixa de Gaza, mas quando Putin bombardeia áreas civis abertamente não há críticas. São dois pesos e duas medidas.
Todas as reações:
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Hungria: como se monta uma ditadura, estilo Putin ou Chávez - ELENA GIORDANO (Politico)

Orbán’s Fidesz party proposes Russia-style crackdown on Hungary’s civil society

“foreign agent” law that the Kremlin uses to suppress NGOs and independent voices.

A História pode até rimar, mas ela não se repete - Paulo Roberto de Almeida

A História pode até rimar, mas ela não se repete

Paulo Roberto de Almeida

A despeito de Trump ser uma espécie de Chamberlain, Istambul 2025 não será um Munique 1938: o Hitler do século XXI não dará as caras, as democracias estão mais unidas do que nos anos 1930 e as potências expansionistas agressoras — na verdade só a Rússia de Putin — não são tão poderosas quanto parecem.

Este é o meu vaticínio. PRA 

Revista Veja, 13/05/2025

“Os ecos são evidentes’, diz Keith Lowe, sobre mundo atual e antes da 2ª Guerra, em seu livro Medo e Liberdade.

Historiador analisa como a Segunda Guerra transformou o mundo sob os clamores do medo e da liberdade. 

Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/conta-gotas/os-ecos-sao-evidentes-diz-autor-sobre-mundo-atual-e-antes-da-2a-guerra/ 


terça-feira, 13 de maio de 2025

Os meninos da China - Marcos Magalhães (Metrópoles)

Os meninos da China 

Marcos Magalhães

O Brasil forma aproximadamente 50 mil engenheiros por ano. A China forma pelo menos 600 mil

Uma câmera instalada no teto de um refeitório escolar registrou a cena: estudantes olham fixamente para seus livros – e não seus celulares – enquanto aguardam a vez. A cena, que circulou nos últimos dias nas redes sociais, se passa na China – país onde se encontra neste momento o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A imagem se repete nas mais competitivas escolas do país, que renovam, a cada ano, seus bons resultados em testes internacionais, como o Pisa. Enquanto o Brasil, por outro lado, patina nos resultados e amarga o 60º lugar, entre 80 países.

O rigor extremo das escolas de elite chinesas tem sido questionado, muitas vezes, pelo estresse que causa aos estudantes, como ocorre com outros países da Ásia, especialmente os de cultura confucionista. Mas tem ajudado muito o país na formação de mão de obra altamente qualificada.

Um número ilustra a diferença entre os dois países. O Brasil forma aproximadamente 50 mil engenheiros por ano. A China forma pelo menos 600 mil. Segundo outros cálculos, esse total pode passar de um milhão.

Ainda existe em muitos países a impressão de que a China atrai investimentos por causa da mão de obra barata. Assim foi no começo. O país que Lula visita hoje é outro. A Apple que o diga: a empresa busca ali especialistas de alto nível e uma robusta estrutura industrial.

Para fugir da guerra comercial decretada pelo presidente americano Donald Trump – aparentemente suspensa no início desta semana – a Apple está ampliando a fabricação de iphones em outros países, entre os quais o Brasil. Mas ainda estamos longe de oferecer as mesmas condições a investidores como a empresa da maçã.

A visita de Lula à China coincide com a celebração de 40 anos da inauguração, no Rio de Janeiro, do primeiro Centro Integrado de Educação Pública (Ciep). Aquele seria o embrião de uma revolução no ensino básico idealizada pelo educador Darcy Ribeiro e pelo então governador Leonel Brizola.

Eram escolas de tempo integral. As crianças e os jovens entravam às sete da manhã, tinham três refeições, estudavam, praticavam esportes e faziam deveres de casa. Deixavam a escola às cinco da tarde de banho tomado.

Como costuma acontecer no Brasil, porém, as experiências de um governo são frequentemente abandonadas por governos seguintes. No ensino médio oferecido hoje pelo governador bolsonarista Cláudio Castro, apenas 14,9% das matrículas são de ensino integral – contra 24,2% da média nacional e 69,6% de um estado como Pernambuco.

Quando a experiência dos Cieps começou, a China ainda engatinhava nas primeiras reformas iniciadas pelo líder Deng Xiao Ping. De lá para cá, o grande país asiático não apenas se tornou a segunda potência econômica do mundo como já lidera em diversos setores a corrida tecnológica.

Nessa corrida, nada é muito fácil. Os Estados Unidos têm feito o possível, por exemplo, para atrasar o desenvolvimento de chips de alta capacidade na China. E a tentativa chinesa de se estabelecer como concorrente no mercado de aviação civil esbarra na necessidade de equipamentos aviônicos ocidentais de alta tecnologia.

Mesmo assim, a nova potência global tem demonstrado sua capacidade de desenvolvimento tecnológico. E aqui talvez resida um grande potencial para o futuro das relações bilaterais.

Brasil e China já colaboram, há bastante tempo, na construção de satélites de sensoriamento remoto da Terra. A cooperação pode se estender a outras áreas intensivas de tecnologia – desde o intercâmbio de estudantes universitários, se possível.

O caminho poderá ser longo. Mas o presidente Lula demonstrou vontade de dar um upgrade nas relações em discurso de encerramento do Fórum Empresarial Brasil-China, em Pequim. Ele recordou ter feito um acordo com o presidente Xi Jinping, em novembro, para estabelecer “sinergias” entre os planos de desenvolvimento dos dois países.

Os grandes projetos de cooperação bilateral ainda envolvem projetos de infraestrutura como os de ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico, para tornar mais rápido e barato o comércio bilateral – ainda marcado por exportações brasileira de soja e minérios.

Porém, como observou o presidente brasileiro, já existem novos espaços de integração. Ele citou o estabelecimento do Centro Virtual de Pesquisa e Desenvolvimento em Inteligência Artificial, fruto de cooperação entre o Dataprev e a Huawei, e a parceria entre a Telebrás e a Spacesail, para ampliar a oferta de internet por satélite no interior brasileiro.

O presidente mencionou ainda a futura instalação de um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Energia Solar, fruto de cooperação entre o Senai Cimatec e a empresa Windey. E observou que o país já tem aprovado um marco legal para investimentos em combustível sustentável de aviação e hidrogênio verde.

No seu discurso aos empresários, Lula admitiu que as exportações brasileiras para a China ainda são principalmente e produtos agrícolas e minérios, ou seja, commodities. Mas atribuiu parte da responsabilidade à falta de investimentos em educação nos últimos anos.

“É importante lembrar que a gente não vai conseguir ser competitivo no mundo tecnológico, no mundo digital, se a gente não investir em educação”, disse Lula. “Porque o ideal para o Brasil não é ficar exportando soja, mas é exportar inteligência, conhecimento”.

Ninguém vai “dar isso de graça aos brasileiros”, como expôs o presidente. “Para isso não tem milagre, nós temos que investir em educação, como os chineses fizeram”. E continuam a fazer, como mostram os jovens leitores do refeitório escolar.

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.


Brasil como potência média regional - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Brasil como potência média regional
Torna-se urgente a formulação de uma política proativa do Brasil para a região, que promova a intensificação do intercâmbio regional.
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 13/05/2025

As recentes visitas de Lula à Rússia, à China e a organização dos encontros do Brics e da COP-30 reforçam a presença global do Brasil, mas colocam crescentes desafios para a política externa.
As grandes transformações que ocorrem no mundo, tanto na economia global quanto na nova ordem internacional, estão acarretando impactos em todos os países. O fortalecimento do regionalismo surge como uma resposta à redução das vulnerabilidades e ao aproveitamento das oportunidades que estão surgindo. A América do Sul, na contramão do que ocorre em outros continentes, continua desunida e fragmentada.
Como potência média regional, o Brasil deveria exercer de maneira mais efetiva sua liderança em questões estratégicas que afetam a região, como na interferência externa no Panamá (que poderá se repetir no Brasil, em locais como Fernando de Noronha e Natal). Por outro lado, não poderia continuar isolado, como ocorreu recentemente com o resgate pelos EUA de cinco exilados venezuelanos na embaixada argentina, sob a guarda do Brasil. A situação poderá tornar-se mais complexa se a Doutrina Monroe for ressuscitada pelo governo norte-americano, como parece ser o caso pelas declarações do secretário de Defesa de que “os EUA desejam voltar a controlar seu quintal” e do presidente Trump, de que “os países da região talvez vão ter de optar entre os EUA e a China”.
Nas questões econômicas e comerciais, pouca atenção foi dada por Brasília à integração regional. Em 2023, o comércio entre países da América Latina e do Caribe correspondeu a menos de 20% das exportações da região. O Mercosul está estagnado e pouco se aproveitou da criação, na prática, da Área de Livre Comércio, formada pelos acordos negociados no âmbito da Aladi. Na recente reunião da Celac, o presidente Lula esboçou algumas ideias que deveriam ser aprofundadas e ampliadas, em especial o fortalecimento da integração econômica e regional. Essa visão estratégica é bem-vinda, levando em conta que nos dois primeiros anos do atual governo a região foi relegada a um distante segundo plano. A exceção foi a convocação de reunião de presidentes sul-americanos e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, com poucas ações efetivas de seguimento pelo Brasil.
Torna-se urgente a formulação de uma política proativa do Brasil para a região que promova a intensificação do intercâmbio regional, coordene medidas para a preservação do meio ambiente e para a mudança do clima, com o aproveitamento da biodiversidade e das fontes de energias renováveis, inclusive das reservas de minerais críticos, e da infraestrutura para facilitar o transporte, a comunicação e o combate ao crime organizado com os vizinhos. A resposta às decisões unilaterais que se tornaram o novo normal nas relações internacionais deve ser o estreitamento das relações entre todos os países da região, como estão fazendo, nas respectivas regiões, a Europa, a Ásia e a África.
Para avançar nesse sentido, o Brasil teria de liderar a tomada de medidas, nos fóruns apropriados, a fim de promover o comércio regional, de bens e serviços, sua diversificação e crescente facilitação, inclusive com a América Central e o Caribe. O volume de comércio anual que o Brasil mantém com os países da Celac é de US$ 86 bilhões, maior do que com os EUA e próximo do que com a União Europeia.
Com o objetivo de facilitar e ampliar o intercâmbio comercial, deveria ser examinada seriamente a possibilidade de ser reativado o Convênio de Pagamentos e Créditos Recíprocos da Aladi, a expansão do Sistema de Pagamentos em Moeda Local e ser estimulada a criação de cadeias regionais de produção com empresas brasileiras e de outros países para atender ao mercado regional.
A integração das redes de transporte, energia e telecomunicações incentivará sinergias entre cadeias produtivas. O Ministério do Planejamento está impulsionando cinco Rotas de Integração Sul-americana, que vão unir o Caribe, o Atlântico e o Pacífico, o que deverá permitir o acesso ao Porto de Chancay, no Peru, e abrir uma porta para o transporte direto dos produtos brasileiros para a Ásia, que hoje já concentra mais de 50% das exportações nacionais. Para garantir recursos para esses projetos, instituições financeiras regionais, como a CAF, o Banco de Desenvolvimento do Caribe e o Fonplata, além do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, deveriam ser acionadas. Um plano nacional de hidrovias deveria ser elaborado para modernizar o aproveitamento desse modal de transporte, inclusive com a criação de autoridades nacionais e internacionais para operá-las. Além da expansão do comércio e da infraestrutura, outras áreas, como meio ambiente, defesa e energia, também deveriam merecer a atenção dos formuladores da política externa para ampliar a cooperação regional.
Na presidência brasileira do Mercosul, no segundo semestre, o Brasil deveria liderar os esforços para assinar o acordo com a União Europeia e abrir negociações comerciais do grupo com o México, o Canadá e países asiáticos. A exemplo do que já fez o Uruguai, deveria pedir a adesão ao acordo comercial CPTPP (ex-Trans-Pacific Partnership), que congrega mais de dez países asiáticos.
O Brasil precisa voltar a fazer política de sua geografia.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/brasil-como-potencia-media-regional/

Middle Powers in a Changing World: How Australia and Brazil Navigate the China Dynamic - Robbin Laird and Kenneth Maxwell (SDL Info)

 

Middle Powers in a Changing World: How Australia and Brazil Navigate the China Dynamic

05/12/2025

By Robbin Laird and Kenneth Maxwell

SDL Info, May 12, 2025

In today’s rapidly evolving global order, middle powers find themselves in an increasingly complex position as they balance economic opportunity against strategic independence. Two nations, Australia and Brazil, offer a fascinating case study in how different countries are responding to China’s rise while pursuing their own national interests.

A Tale of Two Middle Powers

Despite being on opposite sides of the Southern Hemisphere, Australia and Brazil share remarkable similarities. Both are resource-rich middle powers with significant economic ties to China. However, their geographic, political, and historical contexts have led to distinct approaches in managing this crucial relationship.

Brazil is actually slightly larger than Australia in terms of landmass (by about 10%), yet their terrains couldn’t be more different. While Australia is dominated by desert and semi-arid land (approximately 70%), Brazil features nearly 60% rainforest cover. These natural endowments shape not only their resource bases but also their climate vulnerabilities and economic structures.

The China Connection: Trade and Dependence

Australia’s China Relationship

The Australia-China economic relationship is truly massive, with two-way trade reaching $325 billion in 2023-24. Australian exports to China exceeded $212 billion, forming the bedrock of Australia’s global trade. This relationship is dominated by resources, with iron ore alone accounting for over 150% of goods exports to China.

The China-Australia Free Trade Agreement (ChAFTA), in effect since 2015, has been progressively eliminating tariffs. By 2029, most resources and energy exports will be duty-free, with tariffs already reduced or eliminated on products like barley, beef, wine, and wool.

Beyond commodities, services trade has grown significantly, with tourism and international education seeing a 40% increase in 2023-24. The trade pattern is clear: resources and food flow from Australia to China, while manufactured goods move in the opposite direction.

Brazil’s China Relationship

Brazil’s trade with China is similarly substantial, exceeding $181 billion in 2023. However, Brazil’s export mix is even more concentrated on raw materials than Australia’s, dominated by what analysts call the “soy and steel connection.”

Soybeans represent Brazil’s top agricultural export to China, worth nearly $32 billion in 2022 – more than two-thirds of Brazil’s total soy exports. China sources approximately 60% of its soybean imports from Brazil. Iron ore forms the second pillar, with Brazil sending about $18 billion worth in 2022, roughly 63% of its total iron ore exports. Oil is the third major export, with nearly 40% of Brazil’s oil exports headed to China.

Chinese investment in Brazil is growing beyond resources, particularly in energy (especially renewables), electricity transmission, and increasingly, electric vehicles. Since 2021, all new Chinese automotive investment in Brazil has focused on electric or hybrid vehicles, with companies like BYD and Great Wall Motors establishing operations.

Manufacturing Decline and Economic Transformation

Both countries have experienced significant drops in manufacturing as a share of GDP over recent decades. Australia’s manufacturing peaked in the 1960s and fell below 10% by 2020, while Brazil’s high point came in the mid-1980s before dropping to around 11% recently.

The timing differs notably: Australia’s decline began earlier (1970s-80s), often linked to domestic trade liberalization policies before China became a major global player. Brazil’s more intense deindustrialization period coincides more directly with China’s economic surge in the 2000s.

Australia reportedly lost between 53,000 and 80,000 manufacturing jobs due to Chinese imports between 1991 and 2006. Brazil may have experienced an even more direct impact, as its manufacturers often produced similar goods to Chinese factories, facing tougher competition both domestically and internationally.

This has led to what economists call “primarization” – an increased focus on commodity exports at the expense of manufacturing – which has reportedly affected wages and formal employment in Brazil’s manufacturing sector.

Public Perception and Political Responses

Australia’s Balancing Act

In Australia, the China relationship represents a constant balancing act between enormous economic benefits and legitimate security concerns, particularly regarding China’s military presence in the region.

This tension played out in Australia’s 2025 election, with the Labor government highlighting improved relations and the lifting of some Chinese trade restrictions after 2022. The opposition Coalition employed tougher security rhetoric while simultaneously softening their tone on trade, recognizing the economic importance of the relationship.

The complexity of managing the U.S. alliance alongside the China relationship adds another layer of difficulty, especially with concerns about being caught in potential U.S.-China trade conflicts.

Brazil’s Approach

Brazil’s view of China reflects different dynamics, with clearer divisions based on economic interests. Manufacturing sectors tend to be critical of Chinese competition, while the agricultural sector generally embraces the China connection due to massive purchases of soy and beef.

Political attitudes have varied significantly. Former President Bolsonaro adopted an anti-China stance at times, while current President Lula has prioritized the relationship, visiting China in late 2024 and discussing a “community with a shared future.” Lula views China as a key strategic partner crucial for Brazil’s development and global standing, while still attempting to maintain good relations with the United States – a pragmatic form of non-alignment.

Unlike Australia, Brazil has been more cautious about directly confronting China on sensitive issues, though concerns about economic dependence, deindustrialization, and controversies around Chinese investment persist.

Diversification Strategies

Australia’s Urgent Pivot

Australia’s diversification strategy appears driven by greater urgency, spurred by geopolitical tensions and past trade disputes. Key elements include:

  • Focusing on Asia, particularly India (through the ECTA trade deal, roadmap, and investment funds) and ASEAN countries
  • Expanding globally through trade pacts like CPTPP and negotiations with the EU and UK
  • Developing domestic manufacturing and critical minerals through the Critical Minerals Strategy 2023-2030 and tax incentives
  • Reducing vulnerability in supply chains, often partnering with “like-minded” countries
  • Growing the service sector with more diverse student sources, specialized tourism, and financial hub ambitions

Brazil’s Regional Focus

Brazil’s diversification efforts appear more regionally oriented:

  • Emphasizing Mercosur, the South American trade bloc, especially regarding the potential EU-Mercosur trade deal.
  • Exploring a possible Mercosur-China FTA in the longer term.
  • Boosting manufacturing and innovation through tech parks and the “New Industry Brazil” initiative.
  • Leveraging their clean energy mix for competitive advantage.
  • Using e-commerce to sell directly to Chinese consumers.
  • Attempting to benefit geopolitically from US-China tensions.
  • Focusing on critical materials like lithium and rare earths to build higher-value green tech industries.
  • Using Chinese investment strategically for technology transfer.

Comparative Approaches

While both countries share the common challenge of asymmetrical trade dependence on China, their responses differ significantly.

Australia’s strategy appears more explicitly oriented toward the Indo-Pacific region and traditional Western allies, with a clearer goal of reducing China dependency. The focus on critical minerals, advanced manufacturing, and “friend-shoring” supply chains reflects geopolitical calculations.

Brazil’s approach seems more regionally focused and less explicitly concerned with reducing Chinese influence. The emphasis on Mercosur, the potential EU deal, and even exploring a Mercosur-China possibility suggests a strategy of geopolitical balancing rather than decoupling.

Both nations aim to climb the value chain by developing more sophisticated products and capturing more value domestically, though they face different obstacles. Australia contends with the entrenched economic complementarity with China and China’s dominance in mineral processing, while Brazil struggles with innovation coordination, energy costs, political stability, and private R&D investment.

Conclusion: Lessons for a Multipolar World

The contrasting approaches of Australia and Brazil offer valuable insights into how middle powers can navigate the complex challenges of the emerging global order. Their strategies reflect the specific constraints and opportunities they face, suggesting there is no one-size-fits-all solution for balancing economic engagement with China while maintaining strategic independence.

As the global system continues to evolve, other middle powers will likely look to these examples to inform their own approaches. The key question remains: which principles work best for protecting national interests while participating in an increasingly interconnected global economy? The answers may well determine how successfully countries navigate the shifting tides of global power in the coming decades.

Note: in 2026, the authors are publishing their book entitled: The Australian, Brazilian and Chinese Dynamic: An Inquiry into the Evolving Global Order.


Projeto florestal na Amazônia vira modelo global - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião : Projeto florestal na Amazônia vira modelo global

A iniciativa foi concebida de forma a ser permanente para melhorar as condições de vida das comunidades locais e o ecossistema existente
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 22/04/2025

A preservação da Floresta Amazônica entrou na agenda política e econômica nacional e, por sua relevância no contexto das florestas tropicais no mundo, será um dos temas a serem tratados durante a COP-30, em novembro próximo.
A I AMazonia, entidade internacional, está lançando a formulação de um modelo para projetos em florestas tropicais, inclusive no Brasil. Esse modelo visa a estruturar e a realizar investimentos em projetos que envolvem, de forma integrada, a conservação de ecossistemas naturais, com o desenvolvimento socioeconômico nos locais onde são implementados. Para participar no trabalho de desenvolvimento, foram convidadas a Fundação Getulio Vargas (FGV), a Universidade de Harvard, a PriceWaterHouseCoopers e a Caritas, entre outras instituições.
A principal característica do modelo de projeto é a combinação da conservação da floresta e da preservação da biodiversidade com as iniciativas sociais voltadas a promover o desenvolvimento das comunidades locais. Isso contribuirá para reduzir o desafio da mudança do clima, conter o aquecimento global, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, e para apoiar atividades econômicas que possibilitem a melhoria do nível de vida na região.
Trata-se de um modelo inovador de ação para a conservação de floresta e, em geral, para evitar o impacto da mudança de clima, baseado na experiência no tocante à energia renovável e à agricultura orgânica, no monitoramento constante e no estudo do mercado de créditos voluntários de carbono. E ainda levando em conta a comparação com os melhores operadores internacionais de mercado.
Os principais elementos do modelo em desenvolvimento pela I AMazonia incluem:
Melhora das condições de vida da população local (emprego e renda, educação, saúde, nutrição, engajamento social), com o envolvimento e a participação, desde o inicio, de um número significativo da população local;
Compartilhamento em favor da população local de grande parte do valor criado pelos projetos;
Inclusão de tecnologia, conhecimento técnico e recursos financeiros na infraestrutura produtiva dos projetos;
Criação de atividade econômica adicional, como a conservação da floresta;
Aumento dos recursos naturais renováveis do território;
Otimização do potencial de criação de valor por meio dos produtos florestais e sua transformação, sempre explorados de forma sustentável, iniciando pelos produtos madeireiros, até o extrativismo tradicional da região, como frutos, óleos essenciais, pesca e outros alimentos, fibras naturais e muitos outros;
Redução das emissões de gás de efeito estufa;
Direção dos projetos em estrutura aberta a parcerias com instituições de todos os tipos, inclusive políticas e sociais;
Estruturação financeira dos projetos de forma a compatibilizá-lo com os formatos usualmente praticados pelo ambiente financeiro de investimentos, de forma a facilitar o fluxo de recursos dos projetos, seja de crédito, seja de capital de investimento;
Responsabilidade fiscal pela renúncia de várias formas de otimização fiscal característica da indústria de créditos de carbono, por meio do pagamento dos impostos onde o projeto estiver sendo desenvolvido;
Adoção dos melhores padrões internacionais e melhores práticas para promover a avaliação, monitoramento e certificação dos diferentes aspectos do projeto; e
Perenidade, de forma que os projetos não impliquem no planejamento de seu encerramento e que seus efeitos positivos se mantenham de forma permanente.
Estes elementos do modelo já estão sendo praticados, desde o início desta década, no projeto Mejuruá, no Amazonas. O projeto Mejuruá, uma das maiores iniciativas em desenvolvimento na Amazônia, está localizado nos municípios de Carauari, Juruá e Jutaí, na região centro oeste do Estado do Amazonas. A cidade de Carauari, com cerca de 30.000 habitantes, é vizinha à área conhecida como Fazenda Santa Rosa de Tenquê. A área é privada, estendendo-se por mais de 900 mil hectares de floresta tropical amazônica, riquíssima em biodiversidade.
O projeto é concebido de forma a ser permanente para melhorar as condições de vida das comunidades locais e o ecossistema existente. O manejo sustentável da floresta será efetivado em perto de 160.000 hectares, cerca de 18% da propriedade, a ser operado de forma permanente em sucessivos ciclos de 30 anos cada, conforme certificação internacional do FSC. Concebido no contexto da iniciativa REDD+, o projeto, nos primeiros 30 anos, deverá evitar a emissão de perto de 82 milhões de toneladas de CO2 equivalente.
Iniciativa pioneira, o modelo de desenvolvimento de projetos florestais tropicais, a ser criado pela I AMazonia, poderá ser replicado no Brasil ou em outros países, fortalecendo o conceito de economia regenerativa.
O lançamento inicial das bases do modelo ocorre na data de hoje, Dia Internacional do Planeta Terra da ONU – International Mother Earth Day –, em encontro em Roma. Nesta ocasião, o projeto Mejuruá está sendo apresentado como o primeiro caso de aplicação do modelo em escala global. A divulgação dos resultados preliminares desse modelo para os projetos em florestas tropicais será feita em novembro na COP-30, em Belém do Pará.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/projeto-florestal-na-amazonia-vira-modelo-global/

Entrevista: ‘Alinhamento de Lula com Putin afeta nossa neutralidade’, afirma pesquisador Vitelio Brustolin (O Globo)

 Entrevista: ‘Alinhamento de Lula com Putin afeta nossa neutralidade’, afirma pesquisador

(O Globo, 13/03/2025)
https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2025/05/13/lula-apareceu-ao-lado-nao-apenas-de-ditadores-mas-tambem-de-criminosos-de-guerra-afirma-pesquisador.ghtml?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=newsdiaria

Mundo
'Lula apareceu ao lado não apenas de ditadores, mas também de criminosos de guerra', afirma pesquisador
    Em entrevista ao GLOBO, Vitelio Brustolin, professor da UFF, considera um 'contrassenso' do presidente em adotar um discurso pró-democracia e se sentar ao lado de autocratas
Filipe Barini
O Globo, 13/05/2025
        Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador da Universidade Harvard

            Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos dezenas de chefes de Estado convidados pelo líder russo, Vladimir Putin, na parada militar que marcou os 80 anos da vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial. A participação em uma celebração também vista como um ato de propaganda russa provocou críticas internas e externas: sem citar o Brasil, o presidente da Polônia, Donald Tusk, disse que todos que aplaudiram Putin "deveriam se envergonhar".

        Em entrevista ao GLOBO, Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador da Universidade Harvard, considerou desnecessária a viagem de Lula a Moscou, e vê um contrassenso entre o discurso pró-democracia do Brasil e a decisão de se sentar ao lado de autocratas na Praça Vermelha, alguns há décadas no poder.

        Por mais que a celebração na Praça Vermelha tivesse uma motivação histórica, a vitória sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, a parada militar se inseriu na estratégia de propaganda russa sobre a guerra na Ucrânia. Como o senhor avalia a decisão do presidente Lula de ir até Moscou?

            Considero desnecessária. O Lula não precisava ter ido pessoalmente, outros líderes foram convidados e não quiseram ir. Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, mandou representantes. Não havia necessidade de Lula ir a Moscou. Mas já que ele foi, por que não aproveitou a viagem ao funeral do Papa Francisco, no dia 26 de abril, e não ficou mais dois dias na Itália para homenagear os 457 pracinhas brasileiros da FEB mortos na Segunda Guerra Mundial? Já que o presidente Lula foi a Moscou se apresentando como mediador, por que não aceitou o convite da Ucrânia para ir ao país? Como ele vai ser mediador em um conflito em que só vai visitar o agressor? A viagem não trouxe vantagens ao Brasil, pelo contrário: o avião presidencial recebeu uma recusa de sobrevoar países, Estônia, Letônia e Lituânia não abriram espaço aéreo porque ele estava indo para Moscou. O Brasil afirma que quer assinar um acordo estratégico com a Rússia, mas quais países já o fizeram? A Coreia do Norte, que enviou tropas para ajudar Putin na guerra, a Venezuela, com quem o presidente Lula não falava desde a fraude nas eleições no ano passado, com ameaças do Maduro ao Lula para não se meter com ao país, e o Irã, que está sob pressão por causa do seu programa nuclear.

        Na Praça Vermelha estavam alguns conhecidos autocratas, como Alexander Lukashenko, líder da Bielorrússia, no poder desde 1994, e outros que chegaram ao poder através de golpes, como o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. Até que ponto isso bate de frente com o discurso pró-democracia de Lula?
        Existe um contrassenso. Lula se elegeu com um discurso de defesa da democracia, afirma ter combatido um golpe de Estado no dia 8 de janeiro, e Lula apareceu ao lado não apenas de ditadores, mas também de criminosos de guerra. Putin tem uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional por sequestrar milhares de crianças da Ucrânia. E além de ser um contrassenso, os países europeus veem ações assim com maus olhos. Enquanto Lula estava na visita, outros líderes estavam tentando negociar um cessar-fogo entre Ucrânia e Rússia, mas Lula não conseguiu estender a pausa nos combates em um só dia.
        É importante aqui fazer uma distinção: a diplomacia profissional do Brasil desde o início da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia tem feito condenações na ONU. Isso foi antes do governo Lula tomar posse, ainda durante o governo de Jair Bolsonaro, e ele também foi apertar a mão do Putin dias antes da invasão. Uma coisa é a diplomacia profissional do Itamaraty, respeitada no mundo inteiro. Outra coisa é a diplomacia personalista que o presidente faz com os seus assessores, especialmente Celso Amorim, uma diplomacia personalista que também é criticada dentro do Itamaraty.

        Até que ponto podemos associar essa visita de Lula a Moscou ao fato do Brasil presidir o Brics em 2025? Até agora, por exemplo, não há confirmação se Putin virá ou não para a reunião de cúpula do grupo, em julho, no Rio de Janeiro…

        Lula vem lamentando há algum tempo a ausência de Putin nas reuniões. Mas não é de hoje essa postura de tentar amenizar o que Putin vem fazendo. Antes de se eleger, Lula foi criticado por uma entrevista que deu à revista Time, e criticado pelo governo dos Estados Unidos na época e pela Europa, e chamado de “papagaio de propaganda russa”. [Volodymyr] Zelensky [presidente da Ucrânia], que pousou em Brasília para a posse de Javier Milei na Argentina, não foi recebido, ao contrário do que aconteceu em outros países. Há um alinhamento de Lula com Putin, e não podemos colocar isso na conta do Brics. Inclusive vários países do bloco não mandaram seus chefes de Estado para Moscou.

        Lula disse que um dos objetivos da viagem foi ampliar as oportunidades de negócios com a Rússia, um país com o qual o Brasil tem um amplo déficit comercial...
        Em 2023, o Brasil aumentou a importação de óleo diesel russo em 6.000%, comparado com 2022, no período anterior à guerra. E no ano passado aumentou em 9.000%. O Brasil é um dos financiadores da guerra de agressão de Putin. O Brasil votou na ONU contra a agressão e aumentou muito a importação de óleo diesel. O Brasil diz que a Ucrânia não deve receber armas, mas é a favor da soberania da Ucrânia. Então como é que a Ucrânia vai se defender? Então se o Brasil, um país que tem pouca projeção de poder, porque tem pouca força militar, fosse invadido hoje, ele não poderia ser protegido pela carta da ONU. O que a diplomacia personalista do presidente defende é que se alguém invadir a Amazônia, a temos que abrir mão em prol da paz. Todo mundo é a favor da paz, mas o problema é que a paz a qualquer preço, defendida pelo Lula, leva a outras guerras.

        O senhor acredita que a decisão de Lula de ir à Rússia terá impactos a médio ou longo prazo no papel do Brasil no mundo?

        A Rússia de Putin usou o evento de 9 de maio como um ato de propaganda, com soldados que estiveram na Ucrânia ou que irão para lá, com armas que provavelmente serão lançadas contra civis. Não ganhamos nada com isso, mas perdemos. Perdemos influência internacional, perdemos a neutralidade de nossa democracia, que é vista assim no mundo inteiro como neutra desde sua fundação.

        A presença no desfile de 9 de Maio pode ser uma pá de cal nos planos do Brasil de eventualmente fazer parte do diálogo sobre o fim da guerra na Ucrânia?
        Quem diz isso são os ucranianos. São eles que dizem que o Lula tem um lado. E isso independente da posição política, porque criticamos contra quando Bolsonaro foi apertar a mão do Putin. Isso não é uma questão de ideologia, não é uma questão de esquerda e direita. É uma questão de defesa dos princípios da Carta da ONU. Não consigo entender, por exemplo, por que o governo brasileiro é tão rápido para condenar Israel quando bombardeiam civis, quando [Benjamin] Netanyahu [premier de Israel] usa desproporcionalmente a força na Faixa de Gaza, mas quando Putin bombardeia áreas civis abertamente não há críticas. São dois pesos e duas medidas.


As relações internacionais do Brasil, 1925-2025 - Paulo Roberto de Almeida

 As relações internacionais do Brasil, 1925-2025

Paulo Roberto de Almeida

        Terminei um artigo sobre cem anos de relações internacionais do Brasil, 1925-2025, para comemorar o segundo centenário do Diário de Pernambuco (um artigo para o primeiro, nessa mesma temática, havia sido escrito por Oliveira Lima, a pedido de Gilberto Freyre, integrado ao Livro do Nordeste). Ainda vai demorar para ser publicado.

        Em todo caso, reproduzo aqui os argumentos finais desse artigo:
        "As incertezas mundiais assim criadas não teriam, teoricamente, o poder de também alterar as condições sob as quais o Brasil vinha conduzindo suas relações internacionais nas últimas décadas – ou seja, a de um clara autonomia decisória em sua política externa em face de eventuais conflitos interimperiais –, não fosse o fato incipiente de que o terceiro governo Lula já demonstrou, do lado de sua diplomacia presidencial “personalista”, certa propensão a alterar a imparcialidade anterior nesse contexto. Cem anos antes o governo brasileiro da ocasião havia renunciado formalmente à primeira organização multilateral dotada de aspirações universalistas à paz e à segurança internacionais, a Liga das Nações. Seria uma enorme inversão da postura diplomática do Brasil se o governo de plantão, cem anos após, decidisse renunciar informalmente ao eixo central da Carta da ONU no tocante aos dispositivos fundamentais garantindo a paz e a segurança internacionais."

Complemento pelo lado anedótico:

        Em 1925, os Estados Unidos não pertenciam à Liga das Nações, e o Brasil tinha a pretensão de representar as Américas. Dada a postura mais para o negativo dos demais latino-americanos e a decisão dos grandes de colocar a Alemanha derrotado no Conselho da Liga, não renovando a cadeira do Brasil, o governo do incompetente Artur Bernardes decidiu retirar o Brasil da organização.

        Em 2025, os Estados Unidos, por decisão imperial de Trump, já não pertencem, de fato, à Organização das Nações Unidas. A aspiração da diplomacia de ser admitida no inner circle do Conselho de Segurança da ONU não é de fato apoiada pelos demais latino-americanos, que prefeririam uma cadeira rotativa.

A coisa vai longe...
Brasília, 13 de maio de 2025


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