Estou lendo, na edição do Livre de Poche, em sua versão francesa, portanto, a obra que o grande escritor austríaco Stefan Zweig escreveu, em 1935, na Inglaterra, sobre o grande humanista do Renascimento:
Érasme: grandeur et décadence d'une idée
A capa reproduz o famoso quadro de Quentin Metsys, e na verdade todos os quadros conhecidos de Erasmo, sobretudo os de Hans Holbein, o jovem, o mostram cercado de livros ou escrevendo livros.
Não quero me comparar, mas eu também vivo cercado de livros, embora não tenha escrito nenhum tão famoso quanto o Elogio da Loucura (embora tenha escrito um "Elogio da Exploração", que não deve ter sido apreciado por certos marxistas obtusos).
A obra de Zweig reflete sua angústia com a chegada ao poder de Hitler, e o crescimento do fanatismo e da intolerância. Erasmo, o primeiro europeu, foi um humanista no sentido mais completo da palavra, amigo dos livros e do conhecimento, detestava todos os fanatismos.
O livro, feito em meio ao clima totalitário que já predominava em boa parte do mundo europeu, conserva toda a sua atualidade, em vista dos vários fanatismos que ainda vemos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, onde também predomina o segundo mal que Erasmo mais abominava: a ignorância, não a dos inocentes incultos, mas a dos arrogantes estúpidos, idiotas ativos que pretendem mandar e dominar.
Toda a angústia com essa situação levou Zweig a se suicidar, ao ver o seu mundo, que já tinha sido destruído uma primeira vez na Guerra de 1914-1918, descambar uma segunda vez no horror da segunda guerra mundial.
A despeito de apreciar Zweig, não pretendo, obviamente, seguir seu exemplo, ainda que eu também fique preocupado com o aumento da estupidez e da intolerância à minha volta.
Vou continuar lutando contra esses males tão comuns em todas as épocas.
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Aprender com a Historia: Erasmo de Rotterdam (Stefan Zweig)
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Erasmo de Roterdã,
Quentin Metsys,
Stefan Zweig
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5 comentários:
Senhor Paulo Roberto,
creio que certas faculdades e até mesmo “centelhas de conhecimento” estão impregnadas em nosso dna, só isso para explicar o amor aos livros, ao conhecimento e por consequência enfrentar uma luta “quase inglória” para não se deixar abater pelo obscurantismo. Luta igualmente aliada ao forte desejo de acrescer em humanidade a humanidade. Esses respingos de lucidez me surgem em simplesmente compartilhar teus escritos. Acredite, também luto contra a intolerância e a estupidez, principalmente aquelas residentes em mim.
Obrigado
Embora fosse clérigo e profundamente cristão, Roterdã foi notavelmente ousado por se opor ao dominio da igreja sobre a educação, a cultura e a ciência, defendendo a potencialidade do homem em todas as áreas do Saber. Isso, há 5 séculos atrás. Concordo, o senhor não escreveu (ainda) um livro da classe do Elogia a Loucura, mas suas propostas de extirpação à ignorância (ou a estupidez letrada), encaixam-o no mesmo patamar - Humanista.
Ínclito Dr. Paulo R. Almeida. Saiba V. Sa. que, há cerca de 4 meses, invado este seu espaço, quase diariamente, para me informar com seus abalizados conhecimentos, apreciar suas críticas e admirar suas crônicas, tudo sempre muito bem articulado. Sou pouco afeito a comentar em blogs. Todavia, lendo esta última matéria, senti-me impelido a dizer que Elogio da Loucura, de E. de Rotterdam, há muito disputa lugar no criado-mudo de minha cabeceira com (As) Forças Morais, de J. Ingenieros, e, claro com os Evangelhos, todos como um norte de minhas reflexões. Congratulações e não esmoreça.
Professor,
Se o senhor ainda não leu, creio que apreciará muito os estudos de Ortega y Gasset: "O homem massa".
É tudo o que o senhor vive combatendo aqui no blog.
Abraços.
"Ecrire est une vue de l'esprit. C'est un travail ingrat qui mène à la solitude."
*Blaise Cendrars; in; "Ouvres"(1960), p 115.
Vale!
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