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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Livro celebra 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco - Júlia Costa (Correio Braziliense)

 Livro celebra 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco

Coletânea celebra a produção intelectual de Afonso Arinos, que foi senador, deputado federal, diplomata e membro da ABL

Livro celebra 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco -  (crédito: Divulgação)
Correio Braziliense, 17/05/2026 07:00 / atualizado em 18/05/2026 12:55 

https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2026/05/7420627-livro-celebra-120-anos-de-afonso-arinos-de-melo-franco.html#google_vignette

Para celebrar a produção intelectual e o aniversário de 120 anos do ex-senador, deputado federal e diplomata Afonso Arinos de Melo Franco, o jornalista Rogério Faria Tavares e o professor Arno Wehling, membro da Academia Brasileira de Letras, organizaram a coletânea Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco. Dividido em 17 ensaios, escritos por estudiosos e contemporâneos de Arinos, o livro passa pelas diferentes áreas de atuação do intelectual. 

Durante a carreira política, Afonso Arinos foi deputado federal por Minas Gerais e senador pelo Rio de Janeiro. Entre os feitos do político, Rogério Faria Tavares destaca a Lei Afonso Arinos, de 1951, que transformou a discriminação de caráter étnico-racial em infração criminal. "É considerada um marco divisor de águas na história do antirracismo no Brasil. Isso foi muito importante. Por essa proposta, Afonso Arinos recebeu várias ameaças de morte e trotes e foi muito ofendido por conta da sua defesa do antirracismo", diz Tavares.

Como chanceler do governo de Jânio Quadros, em 1961, foi um dos elaboradores da Política Externa Independente, marco da diplomacia brasileira. "Até 1960, a política externa brasileira se alinhava muito aos interesses norte-americanos, afinal, nós vivíamos no tempo da Guerra Fria", explica Tavares. "Arinos enuncia a Política Externa Independente, que o Brasil agora se alinha sobretudo aos seus próprios interesses nacionais, que são aqueles que guiam as ações do Brasil na sociedade internacional." 

Arinos defendeu a maior aproximação entre o Brasil e os países africanos, asiáticos e latino-americanos e foi ainda o primeiro chanceler brasileiro a visitar o continente africano. Após sair do Itamaraty, foi chefe da delegação brasileira na Assembleia Geral das Nações Unidas e professor da UERJ e UFRJ. 

A produção intelectual de Arinos passa ainda pelo direito constitucional, ciência política e crítica literária. Para o livro, os organizadores elencaram as áreas de atuação de Arinos e convidaram autores que pudessem escrever sobre cada uma dessas facetas. "Formamos um grupo muito qualificado de autores que conviveram com Afonso Arinos e que puderam dar depoimentos pessoais, como José Sarney, Bernardo Cabral, Joaquim Falcão e seu neto Cesario Mello Franco", diz Tavares. "Encontramos autores contemporâneos como Christian Lynch, Airton Cerqueira Leite Seelaender e Luiz Feldman que são da geração jovem, mas que têm uma grande condição de analisar o que Afonso Arinos fez."

Tavares exalta o legado do intelectual como defensor da educação, cultura e escrita. "Um homem que defendia o poder das ideias, dos pensamentos e a importância de que todo cidadão tenha acesso à cultura, ao conhecimento, à educação, aos estudos e ao ensino. Ele foi um intelectual na política, um homem de reflexão, mas também de ação", afirma. 

Como político, lutou contra o autoritarismo e o fanatismo. "Ele teve adversários políticos de quem discordava e até de forma veemente, como Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas. Mas a situação de ter adversários políticos jamais fez com que ele elevasse esses adversários à condição de inimigos", afirma. "E esta é uma lição que Afonso Arinos deixa para nós. É possível discordar e divergir, isso faz parte do jogo político e democrático, mas não é necessário berrar, gritar, ofender, insultar ninguém."

*Estagiária sob supervisão de Nahima Maciel


sábado, 16 de maio de 2026

Suíça vai divulgar arquivos secretos sobre Mengele, o 'Anjo da Morte' nazista que morreu no Brasil - BBC (Correio Braziliense)

Suíça vai divulgar arquivos secretos sobre Mengele, o 'Anjo da Morte' nazista que morreu no Brasil

Mengele fugiu da Europa após a guerra e morou no Brasil, mas durante anos houve rumores de que ele passou algum tempo na Suíça.

O escritório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gênova emitiu esses passaportes em nomes falsos para os criminosos de guerra nazistas (da esquerda para a direita) Josef Mengele, Klaus Barbie e Adolf Eichmann -  (crédito: AFP via Getty Images)
 
O escritório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gênova emitiu esses passaportes em nomes falsos para os criminosos de guerra nazistas (da esquerda para a direita) Josef Mengele, Klaus Barbie e Adolf Eichmann - (crédito: AFP via Getty Images)

O Serviço Federal de Inteligência da Suíça disse que vai tornar públicos os arquivos secretos sobre o criminoso de guerra nazista Josef Mengele, que fugiu da Europa após a Segunda Guerra Mundial e morreu no Brasil em 1979.

Durante anos, havia rumores de que ele teria passado algum tempo na Suíça, embora houvesse um mandado internacional pedindo a sua prisão.

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Historiadores têm solicitado repetidamente acesso aos arquivos, mas até agora as autoridades suíças se recusaram a conceder o acesso.

Mengele era médico e serviu na Waffen-SS, um ramo da organização paramilitar nazista SS. Ele foi destacado para o campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia ocupada pelos nazistas, onde selecionava aqueles que seriam enviados às câmaras de gás – estima-se que 1,1 milhão de pessoas morreram, incluindo cerca de um milhão de judeus.

Conhecido como o Anjo da Morte, ele também selecionava prisioneiros, principalmente crianças e gêmeos, para experimentos médicos sádicos, antes de mandá-los também para a morte.

Após a guerra, Mengele, como muitos nazistas de alto escalão, rapidamente mudou tanto seu uniforme quanto seu nome.

Com uma identidade falsa, ele obteve documentos de viagem da Cruz Vermelha no consulado suíço em Gênova, no norte da Itália, e os utilizou para fugir para a América do Sul.

A Cruz Vermelha tinha como intenção fornecer documentos a milhares de pessoas em toda a Europa que haviam sido deslocadas ou tornadas apátridas pela guerra, mas os nazistas que tentavam escapar da Justiça também conseguiram adquiri-los, algo pelo qual a Cruz Vermelha posteriormente se desculpou.

Três documentos com fotos em preto e branco mostrando passaportes
AFP via Getty Images
O escritório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gênova emitiu esses passaportes em nomes falsos para os criminosos de guerra nazistas (da esquerda para a direita) Josef Mengele, Klaus Barbie e Adolf Eichmann

Então, qual é a conexão de Mengele com a Suíça?

Embora tenha fugido da Europa em 1949, Mengele passou férias esquiando nos Alpes suíços com seu filho Rolf em 1956. Essa informação é conhecida desde a década de 1980.

Oficialmente, depois disso, ele passou o resto de sua vida na América do Sul.

Mas a historiadora suíça Regula Bochsler sempre se perguntou se Mengele retornou à Europa depois que um mandado internacional de prisão foi emitido em 1959.

Bochsler, ao pesquisar o possível papel da Suíça como país de trânsito para os nazistas em fuga, descobriu que, em junho de 1961, o serviço de inteligência austríaco alertou os suíços de que Mengele estava viajando com um nome falso e poderia estar em território suíço.

Além disso, a esposa de Mengele havia alugado um apartamento em Zurique e solicitado residência permanente.

“Parece haver evidências de que Mengele estava planejando uma viagem à Europa em 1959", disse a historiadora à BBC. “Por que a Sra. Mengele alugou um apartamento em Zurique?”

O apartamento ficava em um subúrbio modesto, e a família Mengele tinha recursos para algo muito mais sofisticado. Mas ficava perto do aeroporto internacional.

Bochsler conseguiu consultar arquivos da polícia de Zurique que comprovam que, em 1961, o apartamento foi colocado sob vigilância; a polícia chegou a registrar a Sra. Mengele dirigindo seu Volkswagen, acompanhada por um homem não identificado.

Seria o seu marido?

Três homens com uniforme nazista da SS em uma foto em preto e branco
Universal History Archive
Mengele (centro) em 1944 com o comandante de Auschwitz Richard Baer (esquerda) e o ex-comandante Rudolf Höss (direita)

A prisão de um criminoso de guerra procurado, como Mengele era em 1961, teria envolvido a polícia federal suíça. Em 2019, Bochsler solicitou ao Arquivo Federal Suíço acesso aos seus arquivos.

O pedido foi negado. Os arquivos estavam lacrados até 2071 por razões de segurança nacional e para a proteção da família ampliada.

Bochsler não foi a primeira nem a última a ter o acesso recusado. Em 2025, o historiador Gérard Wettstein tentou novamente. Ele também teve o pedido negado.

"É ridículo", disse ele à BBC. "Enquanto estiverem fechados até 2071, isso alimenta teorias da conspiração; todos dizem 'eles devem estar escondendo alguma coisa'."

Wettstein contestou a decisão levando as autoridades suíças aos tribunais, um processo caro para o qual buscou financiamento coletivo. "Arrecadamos 18 mil francos suíços (cerca de R$ 100 mil) em apenas alguns dias."

Uma imagem em preto e branco de um homem e uma mulher comendo
Robert Nickelsberg / Getty Images
Mengele com uma mulher não identificada na década de 1970 no Brasil, onde viveu por décadas

E foi então que o Serviço Federal de Inteligência da Suíça finalmente mudou de posição. Em um comunicado neste mês, que sugere que a transparência total ainda pode levar algum tempo, afirmou: "O solicitante terá acesso ao arquivo, sujeito a condições e requisitos ainda a serem definidos."

Nem todo mundo tem certeza de que os arquivos revelarão muito sobre o próprio Mengele.

Sacha Zala, presidente da Sociedade Suíça de História, tem “certeza absoluta de que não há nada relevante sobre Mengele”, mas acha que pode haver referências a um serviço de inteligência estrangeiro ou a informantes estrangeiros.

No final da década de 1950, o Mossad de Israel trabalhou ativamente para rastrear criminosos de guerra nazistas fugitivos, e Zala suspeita que eles possam ter entrado em contato com os suíços. Isso daria às autoridades suíças motivos para manter os arquivos selados, já que informações confidenciais relacionadas a agências de inteligência estrangeiras costumam ser omitidas.

Mas será que uma simples menção ao Mossad, relacionada à sua conhecida perseguição a nazistas há 70 anos, realmente é algo tão sensível?

“Isso mostra a estupidez do processo de desclassificação de documentos sem conhecimento histórico”, acredita Zala. “Dessa forma, o governo alimentou teorias da conspiração.”

Outros historiadores, como Jakob Tanner, dizem que o sigilo sobre os arquivos revela mais sobre a Suíça do que sobre Mengele. “É um conflito entre segurança nacional e transparência histórica, e a primeira geralmente prevalece na Suíça.”

Um homem está do lado de fora de um prédio com neve na grama
BBC
O historiador Gérard Wettstein desafiou nas cortes com sucesso a decisão do governo suíço de manter os arquivos de Mengele sob sigilo

Tanner integrou a Comissão Bergier na década de 1990, que examinou as relações da Suíça neutra com a Alemanha nazista, em particular o papel dos bancos suíços.

Ele está muito familiarizado com a sensibilidade da Suíça, e com o sentimento de vergonha, em relação ao seu papel na Segunda Guerra Mundial, quando refugiados judeus foram rejeitados na fronteira, enquanto bancos suíços mantinham o dinheiro de famílias judaicas que mais tarde morreram em campos de concentração nazistas. "É um problema para um Estado democrático que esses arquivos ainda estejam fechados", argumenta Tanner.

Ainda assim, ele considera plausível que Mengele estivesse na Suíça em 1961.

O criminoso de guerra nazista procurado Adolf Eichmann havia sido preso pelo Mossad na Argentina em 1960, e há evidências de que outros nazistas que fugiram para a América do Sul acreditavam que também corriam risco no continente, e que a Europa, onde amigos e parentes permaneciam, poderia ser mais segura.

Tanner observa que Walter Rauff, outro criminoso de guerra nazista procurado que fugiu para o Chile, passou um tempo na Alemanha em 1960.

Um historiador integrante da Comissão Bergier teve permissão, brevemente, para examinar parte dos arquivos de Mengele em 1999 e concluiu que era impossível provar ou refutar sua presença em território suíço. Mas isso representava apenas algumas linhas em um relatório de 24 volumes sobre toda a guerra. Os arquivos foram novamente lacrados; o historiador morreu há sete anos.

Por ora, nenhuma data para a divulgação dos arquivos foi definida, e a declaração do Serviço Federal de Inteligência sobre “condições e requisitos” soa preocupante para Wettstein. “Temo que receberemos um arquivo mais preto do que transparente”, diz ele.

Bochsler também teme que os arquivos sejam fortemente censurados. “Não confio nem um pouco [nas autoridades]. Temo que se pareça com os arquivos de Epstein. Por que esses arquivos de Mengele ficaram fechados por tanto tempo?”

Mengele tem sido objeto de mistério, boato e conspiração por décadas.

Ele nunca foi preso, muito menos condenado por seus crimes terríveis. Quando morreu no Brasil em 1979, ele foi enterrado sob um nome falso.

Mas os rumores continuaram circulando. Em 1985, seu corpo foi exumado e, finalmente, em 1992, testes de DNA confirmaram que o corpo era dele.

O terrível médico de Auschwitz estava morto.

Mas ele já esteve na Suíça? Os suíços simplesmente não perceberam?

Eles teriam fechado seus olhos a uma presença potencialmente embaraçosa para evitar a atenção indesejada que uma prisão teria causado? Ou, como acontece com muito que envolve Mengele, tudo não passa de um boato?

“Talvez nunca cheguemos à verdade real”, diz Wettstein. “Nunca saberemos se ele esteve aqui ou não... mas talvez possamos ter pelo menos uma ideia mais clara.”

domingo, 29 de março de 2026

A ONU declarou o tráfico transatlântico como um dos mais atrozes crimes contra a humanidade - Natália Carneiro, Ana Flávia Magalhães (Correio Braziliense)

Em defesa da nossa humanidade, reparação!

Com a decisão da ONU de classificar o tráfico transatlântico como um dos mais atrozes crimes contra a humanidade, rompe-se com a ideia de que a escravidão é um evento distante e desconectado do presente e do futuro

A ONU declarou o tráfico transatlântico como um dos mais atrozes crimes contra a humanidade

Natália Carneiro, Jornalista e diretora executivada Casa Sueli Carneiro

Ana Flávia Magalhães, Professora do Departamento de História da UnB econselheira da Casa Sueli Carneiro

Correio Braziliense, 29/03/2026


Ao classificar o tráfico transatlântico como um dos mais atrozes crimes contra a humanidade, a Organização das Nações Unidas (ONU) elevou, na última quarta-feira (25), o patamar de reivindicações históricas dos movimentos negros na diplomacia institucional. Esse reconhecimento identifica a escravidão como uma herança viva que molda as disparidades do presente. Ao tipificar formalmente esse crime, a ONU estabelece um nexo de responsabilidade que vai além do dever de memória, admitindo as distorções econômicas, a exclusão civil e a própria dimensão estrutural das consequências dessa violação nas nações contemporâneas.

A resolução proposta por Gana recomenda que os Estados apresentem desculpas formais e contribuam para um fundo de reparações. O texto foi aprovado por 123 países, incluindo o Brasil, mas a votação também expôs diferentes formas de recusa da agenda. Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra.

Outros 52 países — majoritariamente do Norte Global e com protagonismo colonialista — optaram pela abstenção. Esse posicionamento, mais do que sugerir uma hesitação momentânea, atualiza a negação do enfrentamento aberto do tema e indica impossibilidades de consenso especialmente sobre a reparação. Espanha, França, Portugal e Reino Unido são países diretamente envolvidos na estrutura do tráfico transatlântico. A opção pela abstenção explicita uma dificuldade crônica de transformar reconhecimento discursivo em ações de impacto.

A resolução, de todo modo, está aprovada, e a forma como esses e outros países irão se posicionar será determinante para o alcance efetivo dessa deliberação. Afinal, com ela, rompe-se com a ideia de que a escravidão é um evento distante e desconectado do presente e do futuro. A narrativa estabelecida reposiciona a memória histórica em sua dimensão política e passa a exigir uma análise das estruturas que se renovam, transformando o reconhecimento do crime em uma ferramenta para a transformação das condições de vida e exercício de direitos.

A oportunidade favorece o entendimento da memória como um território de disputa política, que determina o que se torna visível e quem é institucionalmente legítimo na história de uma nação. Nesse sentido, a existência da documentação e a difusão das análises históricas sobre as trajetórias negras dela decorrente ultrapassam a preservação cultural como procedimento meramente técnico. Elas constituem matrizes estratégicas por meio do que se incide diretamente sobre a formulação do próprio alcance das ideias de cidadania e soberania nacional. Ao conferir centralidade a esse legado, cada país tem a oportunidade de alterar o enquadramento das próprias referências nacionais.

Um exemplo emblemático do que essa dinâmica permite se encontra em Ouidá, no Benin, onde a antiga Porta do Não Retorno materializa a escala e a organização do tráfico transatlântico. A recente mobilização do monumento retira a escravização do campo das abstrações e evidencia o caráter sistêmico das violências perpetradas, tornando incontestável a permanência de seus efeitos no presente. Para a população afrodescendente, o retorno a territórios como Ouidá tem um significado que transcende a experiência individual, pois atua na reinscrição de vínculos historicamente violados, após séculos de expropriação. Longe de apagar a dor da diáspora forçada, essa ressignificação evidencia as continuidades que resistiram ao deslocamento.

A resolução adotada pela ONU, ao enfatizar a importância das reparações, aponta alguns caminhos de ampliação. Ao incluir a restituição de bens culturais, arquivos e patrimônios, reconhece que a violência colonial também operou pelo manejo de memórias, conhecimentos e produções simbólicas.

Ainda assim, a agenda de reparação não se esgota nesses pontos. Reparação envolve políticas estruturais com impacto direto nas condições de vida. No Brasil, propostas como a criação de um Fundo Nacional de Reparação Econômica e Promoção da Igualdade Racial indicam tentativas embrionárias de institucionalizar essa agenda, ainda em disputa e atravessada por resistências e limites políticos. Mesmo com presença contínua nas lutas sociais e na produção de conhecimento, parte dessas demandas segue com menor incidência nos espaços onde se definem prioridades e diretrizes, o que não decorre de ausência de organização, mas de estruturas que ainda condicionam quem decide e como decide.

A ratificação do tráfico transatlântico como um crime contra a humanidade reposiciona esse evento como um processo vivo, contínuo e estruturante. Como acompanhamos após a Conferência de Durban, em 2001, o grande desafio que se impõe é transpor a barreira do discurso, de modo a garantir que a justiça se materialize na estrutura dos Estados e na vida da população afrodescendente. Especialmente no Brasil.

sábado, 7 de março de 2026

Guerra dá lucro - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

Opinião

Guerra dá lucro

Os Estados Unidos são um país que vive em guerra. Seu dispositivo militar determina a política externa e provoca conflitos que, para eles, são rentáveis.

Verbas para gastos militares dos EUA deverão alcançar US$ 1,5 trilhão em 2027.

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF — jornalista

Correio Braziliense, 7/03/2026

https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2026/03/7370012-guerra-da-lucro.html


As duas bombas atômicas que os Estados Unidos jogaram sobre Hiroxima e Nagazaki, no Japão, em 1945, acabaram com a Segunda Guerra Mundial, na sua fase asiática. Mas também serviram para avisar à União Soviética do poder devastador de suas forças armadas. Os russos explodiram sua bomba em 1949 e devolveram o aviso. Agora, a inesperada ação militar combinada de Estados Unidos e Israel contra o Irã tem por objetivo defender a nação judia e avisar a China que o país está cercado por eficientes equipamentos de ataque. É a advertência de que a guerra continua e o Império do Meio enfrenta concorrentes poderosos.

Os Estados Unidos detêm a liderança da economia mundial segundo a medição do Produto Interno Bruto. São US$ 33 trilhões contra US$ 22 trilhões da China. Os dois maiores são seguidos, nesta ordem, por Japão, Alemanha e Índia, que, nos próximos anos, deverá chegar ao terceiro lugar entre as maiores economias do mundo. O desempenho do Brasil é decepcionante. Cresceu 2,3% no último ano e desceu para o décimo primeiro entre as maiores economias do planeta. Já foi o sexto maior. Agora, está atrás de Canadá, Rússia e até da Itália. Desempenho muito fraco para quem pretende ter diplomacia influente.

O desenvolvimento econômico espetacular da China assustou o mundo e, particularmente, os norte-americanos. Eles já foram vencidos em várias áreas da alta tecnologia. No campo da inteligência artificial (IA), os chineses estão longe. A China transformou-se numa fábrica do mundo. Há produto chinês em quase tudo que o consumidor utiliza aqui, nos Estados Unidos e nos países europeus. O governo de Washington assiste a tudo isso com muita preocupação. Sua liderança está ameaçada. Enquanto as forças armadas norte-americanas massacravam o povo no Iraque durante nove anos, os chineses avançavam sobre os mercados de todo o mundo. 

Mas há um detalhe que explica a liderança dos Estados Unidos. É seu formidável poder bélico, sem paralelo no mundo. É um país que vive em guerra. Seu dispositivo militar determina a política externa e provoca conflitos que, para eles, são rentáveis. Seja pela venda contínua de novos equipamentos, seja pela obrigação de persistir nas pesquisas para aprimorar as máquinas de matar e de dominar áreas rentáveis, como são os campos de petróleo na Venezuela, no Iraque e no Irã. 

Não há objetivo estratégico na guerra contra a antiga Pérsia. Existe a preocupação de defender Israel e tomar os apetitosos campos de petróleo daquele país. Foi o que os ingleses fizeram em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh nacionalizou a empresa de petróleo Anglo-Iranian Oil Company. Um golpe militar derrubou o regime e colocou no poder o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi, que entregou o ouro negro aos ocidentais e deu início, com apoio de Washington, ao programa de enriquecimento de urânio, agora contestado pelos próprios norte-americanos.

O governo dos Estados Unidos mantém 750 bases militares fora do seu território continental, com presença em 80 países e territórios. Algumas instalações são pequenas (estações de radar, depósitos, centros logísticos), outras são temporárias ou secretas. Eles possuem bases militares no Japão, com 50 mil militares, baseados em Okinawa. Na Alemanha, onde funciona importante centro de logística com 35 mil militares. Na defesa da Coreia do Sul, contra o inimigo do norte, com 28 mil militares. Em Itália, Reino Unido, Espanha, Portugal (base de Lajes nos Açores). No Oriente Médio, em Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Turquia. Além dessas, nas Filipinas e na Austrália.

O governo dos Estados Unidos mantém cerca de 1,3 milhão de militares na atividade. A reserva e a Guarda Nacional adicionam outros 800 mil militares. O total combinado indica 2,1 milhões de homens e mulheres preparados para a guerra. No exterior ficam, de maneira permanente, 177 mil militares. A comparação entre quantidades de militares das grandes potências resulta no seguinte: Estados Unidos, 2,1 milhões (total mobilizável); China, 2 milhões; Índia, 1,4 milhão; e Rússia, 1 milhão na ativa. O Orçamento de Defesa aprovado para 2026 é de US$ 901 bilhões. O planejamento indica que, em 2027, as verbas para gastos militares dos Estados Unidos deverão alcançar US$ 1,5 trilhão.

Há dinheiro suficiente para manter a máquina de matar funcionando. A morte de militares e civis é evento colateral desimportante diante do gigantismo dessa operação. O que importa é o lucro final. É ilusão imaginar que o presidente brasileiro poderá ter algum ganho na sua relação com o bronzeado chefe de governo em Washington. Sorte do Brasil que, além de pobre, é apenas um razoável produtor de petróleo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O fim da inocência (Opinião) - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

 O fim da inocência

 Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

PRI-1701-OPINI -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
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ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista

Correio Braziliense, 17/01/2026

Mas há uma vantagem nesse novo cenário. Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio, que foi um ponto central e básico na argumentação norte-americana de como os países deveriam organizar seu mercado interno. Os chineses são mais ágeis, produzem mais e com menor preço. Se houver concorrência livre e aberta, os americanos perdem. Então, o melhor é recorrer ao poder dos formidáveis porta-aviões. Cada um com mais de 50 aviões de última geração, helicópteros maravilhosos e tripulação de 5 mil marinheiros. Essa brincadeira custa mais de US$ 1 bilhão por mês. O governo dos Estados Unidos mantém 11 porta-aviões, com suas respectivas defesas navais, em operação no mundo, ao mesmo tempo. É muito dinheiro para manter abertas as trilhas do comércio internacional.

O mundo está de joelhos diante da formidável demonstração de força, agilidade, capacidade de articulação em território inimigo ocorrida na Venezuela. Os aviões norte-americanos desligaram os radares do inimigo, apagaram a luz de Caracas, neutralizaram os sinais de geolocalização e mataram, com incrível rapidez, os cubanos que defendiam Nicolás Maduro. Material de última geração chinês e russo foi silenciado. Tudo ocorreu em questão de minutos. Vale a comparação: a poderosa Rússia está há longos e tortuosos quatro anos tentando dominar a pequena Ucrânia. Perdeu uma quantidade enorme de soldados, aviões, carros de combate, navios e até submarinos. No entanto, Volodymyr Zelensky continua no poder negociando a improvável paz. Putin não conseguiu demonstrar qualquer tipo de eficiência na sua guerra. Ele é um perdedor perante a história.

A conclusão é simples. Acabou a era da inocência. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia. No caso brasileiro, talvez os observadores acordem da letargia histórica e abram os olhos para a realidade. Os americanos estão na Venezuela. Dentro em breve, estarão na Colômbia. Muito perto da tão discutida Margem Equatorial. E de frente para a Amazônia, região que tem tudo o que eles mais desejam: terras raras, minérios em profusão, ouro em grandes quantidades, diamantes e, também, petróleo em generosos e extensos lençóis. É o paraíso capitalista na terra. 

O longo debate sobre a utilização da Amazônia, a preservação da floresta, a manutenção da grande faixa verde, tudo isso perde importância diante da possibilidade de traduzir o vasto cenário em dólares. Os norte-americanos têm larga experiência em exterminar povos originários, devastar o meio ambiente em busca do minério precioso. Nada os detém. Eles chegaram às margens da Amazônia. O Brasil não possui poder militar. O país depende da negociação possível dos diplomatas, o chamado soft power. Ocorre que a conversa agora perde espaço para bombardeios seletivos e manobras militares específicas. O sonho acabou. O Brasil desembarcou na realidade. A América Latina, que era a terra de grandes prosadores, poetas geniais, e de traficantes abusados, agora está no centro da disputa do capitalismo internacional.

A eleição presidencial que deverá ocorrer neste ano vai se processar dentro desse novo cenário. Um superpoder emergiu no Norte. Silenciou tudo o que havia ao seu redor. Ele determina o futuro no Irã, em Israel, na Ucrânia, na Groenlândia e em toda política internacional com virulência, objetividade e despreparo de um adolescente frente ao mundo. As relações de Washington com Brasília são, no mínimo, tensas. Um não gosta do outro. Americanos, que há muito namoram com a ideia de manter uma base militar no Brasil, gostariam de ter aqui um governo mais favorável a seus objetivos. Não é impossível que eles movimentem meios e modos para influenciar no resultado da eleição. Não é preciso consultar os astros para prever possível interferência estrangeira no pleito nacional.

Não é o fim do mundo. E também não é novidade. Os americanos já andaram por aqui em outros tempos. Agora, sem a fantasia e sem a alegada defesa dos princípios democráticos, a interferência poderá ser mais explícita. O jogo é objetivo e claro. É preciso ter olhos abertos. Olhos de ver. E descer das ideologias para o território da realidade. 


segunda-feira, 28 de julho de 2025

"Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia" - Rodrigo Craveiro Correio Braziliense

Post de Paulo Roberto de Almeida


Estou imaginando que com esta decisão, de uma Corte de justiça respeitável, o Itamaraty vai finalmente soltar uma nota elogiando a conclusão a que chegou a Corte Europeia de Direitos Humanos em face de tão flagrantes provas de desrespeito ao Direito Internacional. Uma nota firma e condenatória das ações da Rússia, como sempre fez em casos semelhantes e como faz frequentemente em face dos crimes israelenses em Gaza e na Cisjordânia. Nada menos do que isto.

Paulo Roberto de Almeida


"Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia" 


https://www.correiobraziliense.com.br/.../7196155-corte...


Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia

Tribunal de direitos humanos sediado em Estrasburgo, na França, conclui que as forças de Vladimir Putin cometeram abusos e violações flagrantes e sem precedentes. Papa Leão XIV oferece Vaticano para sediar diálogo entre Kiev e Moscou


Por Rodrigo Craveiro

Correio Braziliense, 10/07/2025

https://www.correiobraziliense.com.br/.../7196155-corte...


Vadim Yevdokimenko, 23 anos, perdeu o pai em 3 de março de 2022, em uma fábrica de vidros na cidade de Bucha, a noroeste de Kiev, capital da Ucrânia. "Os soldados russos o sequestraram e trancaram-no com cinco pessoas em uma garagem e o fuzilaram. Em seguida, atearam fogo aos restos mortais dele, pois queriam escondê-los", contou ao Correio. Ele soube da morte do pai da pior forma: por meio de um vídeo que acessou na internet mostrando moradores de Bucha torturados e assassinados. "Os bastardos que mataram meu pai merecem o fim doloroso", disse. 

No mesmo dia, Yevhen Kizilov, 49 anos, estava no exílio, quando as forças de Moscou invadiram a casa da família, também em Bucha, levaram o pai dele, Valeriy Kizilov, 69, ao jardim e o executaram com um tiro na cabeça. Nesta quarta-feira (9/7), Vadim, Yevhen e milhares de outros ucranianos tiveram um vislumbre de justiça. A Corte Europeia de Direitos Humanos, em Estrasburgo (França), concluiu que, desde 2014, a Rússia comete abusos flagrantes e sem precedentes na Ucrânia. 

A Rússia é acusada de execuções de "civis e militares ucranianos fora de combate", "tortura", "deslocamentos injustificados de civis" e até mesmo "destruição, saques e expropriações", disse o presidente do organismo, Mattias Guyomar. A decisão da Corte determina que o governo de Vladimir Putin "deve liberar imediatamente, e devolver de maneira segura, todas as pessoas que, no território ucraniano ocupado pelas forças russas ou sob controle russo, foram privadas de liberdade (...) e que estão presas".

Em seu julgamento, o tribunal cita evidências de uso de violência sexual disseminada e sistemática, acompanhada de atos de tortura, como espancamento, choques elétricos e estrangulamento. "Em nenhum dos conflitos anteriormente submetidos ao tribunal houve uma condenação tão universal do 'flagrante' desrespeito do Estado demandado aos fundamentos da ordem jurídica internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial", afirma a decisão. A instância também concluiu que a Rússia foi a responsável pela derrubada, em julho de 2014, de um avião da companhia aérea Malaysia Airlines, matando 298 pessoas. A aeronave havia decolado de Amsterdão em direção a Kuala Lumpur, quando foi derrubada por um míssil no leste da Ucrânia.

Yevhen considera a condenação, por parte da Corte Europeia de Direitos Humanos, um marco histórico. "Ninguém esquecerá os crimes da Rússia. Eles entrarão para a história da humanidade. Além disso, este veredicto constitui uma confirmação jurídica internacional do sofrimento das vítimas da agressão russa, uma das quais sou eu", observou. O jornalista ucraniano acredita que a decisão firmará a base para o pedido dele por indenização contra a Rússia. "O tribunal estabeleceu um precedente legal que simplificará significativamente a prova de culpa de Moscou no meu caso", acrescentou.

Horas antes de o tribunal proferir a decisão, as forças russas realizaram o maior bombardeio com drones e mísseis em 1.232 dias de guerra. Durante a madrugada, o Exército russo lançou 728 drones e 13 mísseis contra quatro regiões da Ucrânia, incluindo a capital, Kiev. Ao menos 711 drones foram interceptadas e sete mísseis, destruídos, segundo a Força Aérea ucraniana. Os ataques deixaram oito civis mortos e ocorrem depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que Putin é "inútil" e "fala muita besteira" e anunciar a retomada de ajuda militar para Kiev. 

Sanções

Em visita à Itália, onde se reuniu com o papa Leão XIV e com o presidente italiano, Sergio Mattarella, o líder da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tornou a cobrar "sanções rigorosas" contra a Rússia e, especialmente, contra o setor petrolífero de sua economia. "Todos os que querem a paz devem agir", declarou, ao lembrar que o petróleo russo "tem alimentado a máquina de guerra de Moscou por mais de três anos". Kiev tem insistido que somente o fortalecimento das sanções pode acelerar o fim da guerra.

No encontro com Leão XIV, na residência de verão de Castelgandolfo, Zelensky ouviu do pontífice a oferta de colocar o Vaticano como sede para um diálogo com Moscou.

Lista de violações

Os principais crimes apontados pela Corte Europeia de Direitos Humanos

Ataques militares indiscriminados;

Tortura e uso de estupro como arma de guerra;

Execuções sumárias de civis e militares;

Detenções arbitrárias e ilegais de civis;

Intimidação e perseguição a grupos religiosos;

Deslocamentos forçados e transferência de civis;

Destruição, saques e expropriação de propriedades;

Supressão do idioma ucraniano nas escolas;

Transferência de crianças para a Rússia e, em muitos casos, adoção.

Maksym Yakovlyev, chefe do Departamento de Relações Internacionais e diretor da Escola de Análise Política da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla.

"Nós, ucranianos, sofremos todos os tipos de torturas e terror da Rússia. Moscou viola, de forma contúnua, os direitos humanos. Insistimos em que os crimes russos devem ser punidos. Considero bom que haja um reconhecimento legal do fato de que os russos cometeram crimes. Mas, também, espero que eles sejam punidos por tais violações." 

Maksym Yakovlyev, chefe do Departamento de Relações Internacionais e diretor da Escola de Análise Política da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla

"A decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos envia um claro sinal à comunidade internacional sobre a natureza criminosa das ações da Rússia. Além disso, para as vítimas da agressão russa, como eu, a decisão tem enorme significado psicológico e moral. Isso significa que o nosso sofrimento foi reconhecido e confirmado por uma instituição internacional autorizada."

Yevhen Kizilov, 49 anos, jornalista ucraniano cujo pai foi executado à queima-roupa em Bucha.

 

correiobraziliense.com.br

Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia

Tribunal de direitos humanos sediado em Estrasburgo, na França, conclui que as forças de Vladimir Putin cometeram abusos e violações flagrantes e sem precedentes. Papa Leão XIV oferece Vaticano para sediar diálogo entre Kiev e Moscou

 

 

domingo, 20 de julho de 2025

Entrevista 'O Brasil já está condenado como na Inquisição', afirma Ricupero - Rosana Hessel (Correio Braziliense)

Entrevista
'O Brasil já está condenado como na Inquisição', afirma Ricupero

A abertura de investigação contra o Brasil, pelos Estados Unidos, no âmbito da Seção 301, já tem resultado, como na Inquisição, na avaliação do diplomata, mas medida poderá ajudar o país a ganhar tempo até a aplicação da sobretaxa.

Por Rosana Hessel
Correio Braziliense, 20/07/2025
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/07/amp/7205601-o-brasil-ja-esta-condenado-como-na-inquisicao-afirma-ricupero.html

A abertura da investigação contra o Brasil, pelos Estados Unidos, no âmbito da Seção 301 da Lei Comercial norte-americana, abriu mais um flanco na disputa comercial entre os dois países, mas pode ser positiva o governo brasileiro ganhar tempo na entrada em vigor da sobretaxa de 50% sobre os produtos brasileiros, prevista para 1º de agosto, na avaliação do diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero. "Isso pode permitir, primeiro, quem sabe, um prazo maior, porque a investigação não vai terminar no dia 1º de agosto. E, como há sessão marcada para o dia 3 de setembro, haveria mais tempo", afirma Ricupero, em entrevista ao Correio, na quinta-feira (17), por telefone.

Na avaliação do ex-ministro, contudo, o Brasil já está condenado antes mesmo de se defender na audiência marcada para 3 de setembro pelo representante de comércio dos EUA, o USTR, e não terá a mínima chance, "como no tribunal da Inquisição", na Idade Média. "Ele já está condenado", afirma. Para ele, o presidente dos EUA, Donald Trump, resolveu abrir o processo para tentar dar alguma justificativa às medidas contra o Brasil que não têm fundamento do ponto de vista técnico, mas seguirá uma estratégia de forçar uma negociação permanente.

Leia também: Lula critica revogação de visto de Moraes pelos EUA: "Medida arbitrária"
Diplomata de carreira, Ricupero não poupa críticas ao modus operandi de Trump e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seu filho, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está sendo patrocinado pelo ex-capitão em solo norte-americano. "O Eduardo Bolsonaro está cometendo um suicídio político. Ele, dificilmente, no futuro vai ter condições de poder enfrentar a opinião pública brasileira", profetiza. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O governo dos Estados Unidos no âmbito da Seção 301 e chegou a atacar o Pix e o comércio da 25 de Março, em São Paulo. Como o senhor avalia a reação do Brasil?

Bem, eu vejo a situação como, de fato, uma ameaça grave. Indo por partes, isso começou no dia 9 de julho, quando ele enviou aquela mensagem ao Lula por canais extraoficiais, tanto que que o Itamaraty depois teve que chamar o encarregado de negócios para confirmar se aquela mensagem era autêntica ou não. Normalmente, uma mensagem de um presidente a outro vem por canais oficiais, vem da Embaixada, que envia o Ministério das Relações Exteriores, que encaminha ao presidente da República. Existe um protocolo, mas o Trump mandou por uma mídia social qualquer, tanto que a mensagem foi devolvida, porque não vinha de acordo com as normas usuais. E essa mensagem misturava dois tipos de assunto. A primeira parte da carta era uma referência ao que ele considera perseguição a Bolsonaro e às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relativas ao conteúdo das plataformas, das big techs. E a segunda parte era mais parecida a essas mensagens que ele envia a muitos países, como a União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul, o México e o Canadá, ameaçando em cada caso aplicar uma tarifa num determinado nível, se eles não negociarem, e colocando um prazo. Então, são duas mensagens em uma, porque são dois temas diferentes. O primeiro tema é, obviamente, fora de qualquer possibilidade de negociação.

Pode explicar melhor?

É uma contestação à ação de um Poder soberano do Brasil, que é o Judiciário. Inclusive, uma mensagem enviada a um destinatário errado, porque o Lula não tem nada a ver nem com a punição do Bolsonaro, nem com as decisões do Supremo. O Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por causa daquela reunião que ele fez com embaixadores, no Palácio do Alvorada. E ele está respondendo, agora, a outro processo do STF, acusado de conspiração. Ainda que o Lula quisesse responder, ele não tem o que responder, porque isso deveria ser dirigido ao Judiciário. Essa é uma parte inegociável, que não pode ser objeto de nenhum tipo de consideração. Agora, a outra parte, que é a questão do comércio, não é diferente do que Trump tem feito com um número enorme de países.

Qual a sua interpretação da Seção 301?

A minha impressão é que isso aconteceu, porque o governo Trump se deu conta de que a aplicação de sanções de tarifas ao Brasil num contexto de um tema político de soberania era uma medida ilegal até do ponto de vista norte-americano. O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, por exemplo, escreveu duas postagens na internet citando a lei comercial mostrando quais eram os casos em que um presidente norte-americano poderia impor tarifas. Nenhum dos casos se enquadra no caso brasileiro. Acho que eles ficaram alertados para a falta de uma base legal e resolveram abrir essa investigação da Seção 301. Como a lei exige, eles mandaram esse documento de 15 páginas em que relacionam um número enorme de questões, até desconexas, porque vão do comércio da 25 de Março até o desmatamento da Amazônia. Porque no caso da alegação política, como eu disse, você não teria nem onde começar, não teria nem por onde dialogar. Nesse caso, não. Isso segue uma regulamentação. O USTR, inclusive, estabelece as audiências públicas e já tem uma marcada para 3 de setembro. Nessas audiências, ouvem-se as partes. Ao menos, agora, o governo norte-americano oferece um processo. Só que não dá qualquer garantia de imparcialidade.

Por quê?

Estamos falando de Trump. Esse mecanismo 301 é antigo, não é de agora. Quando fui embaixador do Brasil, no GATT, em Genebra, de 1987 a 1991, durante quase toda a rodada do Uruguai, eu era o chefe da delegação do Brasil lá em Genebra, que, agora, é a sede da Organização Mundial do Comércio (OMC). Na época que eu estava lá, os EUA já tinham acionado essa Seção 301, no caso do Brasil, sobre as patentes para remédios. Eles alegavam que o Brasil não reconhecia patentes para medicamentos nem o processo. É uma coisa antiga, tem mais de 30 anos. Não só o Brasil, mas também os outros países nunca admitiram a legalidade desse mecanismo, porque, pela lei internacional, teriam que pedir uma investigação na OMC, pelo Departamento de Solução de Controvérsias. Mas, obviamente, esse mecanismo deles é totalmente unilateral e parcial, porque é um tribunal em que o mesmo país é promotor público, é juiz e é executante do processo. É como se a mesma pessoa fosse o acusador, o juiz que dá a sentença e o carrasco que executa. É óbvio que é um tipo de mecanismo em que o acusado não tem a mínima chance. Ele (o Brasil) já está condenado, como tribunal da inquisição. Quem era denunciado à Inquisição nunca saía inocentado. Por definição, é culpado.

O senhor não está otimista?

Eu não sou otimista. O fato de eles mandarem essa carta com 15 páginas, em que todo mundo discute um argumento e outro, mas, no fundo, é claro, até por uma questão de dignidade, mostrar que tudo é bobagem. Mas você não pode ter muita esperança de que o resultado vai ser a condenação. Apenas a única coisa que eu diria é que isso pode permitir, primeiro, quem sabe, um prazo maior. Porque a investigação não vai terminar no dia 1º de agosto. E, como há sessão marcada para o dia 3 de setembro, haveria mais tempo. Seria bom se pudesse ter um prazo maior, porque é como no caso dos outros países, o prazo foi sendo estendido cada vez mais. E também porque acho que, com o atual governo dos EUA, o máximo que se pode desejar não é um acordo definitivo, mas é uma espécie de estado de negociação permanente, porque ele sempre reabre. O máximo que vai acontecer é negociar uma sanção menor do que essa de 50%.

Agora, é curioso que esse estado de negociação permanente parece uma marca do Trump. Ele estica a corda para depois negociar?

Ele quer deixar o adversário sempre desestabilizado. E, com isso, ele está sempre tomando novas iniciativas para obter mais concessões. Agora, eu acho que há muitas ilusões. Muita gente tem falado, até colegas meus diplomatas, dizem, que precisamos negociar, por exemplo, o etanol, porque o Brasil tem uma tarifa maior, de 16%, 18%, do que a tarifa deles sobre o nosso etanol e cana-de-açúcar. Agora, todas as pessoas que dizem isso estão partindo de uma pressuposição equivocada, a de que nós nunca quisemos negociar. A verdade é que isso não é certo.

Como assim?

O Brasil tentou negociar várias vezes e eles que é que não quiseram. É preciso lembrar uma frase que os americanos usam muito, eles dizem que para dançar o tango você precisa de duas pessoas. E a negociação é a mesma coisa. O Brasil, no mês de março, mandou uma missão aos Estados Unidos e tentou negociar. Essa presunção que está sendo repetida aqui não é verdadeira. Não é verdadeira. O Brasil sempre esteve disposto a negociar o comércio. Ele nunca quis negociar questões de soberania nacional. As pessoas que falam em negociação sobre o etanol, ou não conhecem, ou estão sendo ingênuas, porque o Brasil tentou negociar o etanol sugerindo que os americanos fizessem concessões, ou em suco de laranja, porque encontramos muitas barreiras no mercado norte-americano para o suco de laranja por causa da Flórida. Eles não aceitaram nem conversar sobre uma coisa nem sobre outra. Essas pessoas que fazem essas declarações pensam que os americanos estão de boa-fé. Mas, eu tenho minhas dúvidas. Na verdade, eles não querem negociar, eles querem extorquir. Eles querem que o Brasil faça concessões unilaterais sem esperar nada em troca.

E o que o senhor acha desse procedimento da Seção 301?

Infelizmente, esse mecanismo, vai demonstrar que eles não estão interessados numa negociação real. Oxalá eu esteja equivocado. Mas os precedentes me levam a crer que na área que eles são protecionistas, eles não vão ceder. Você sabe, as pessoas todas partem da presunção de que eles são os heróis e nós somos os vilões. Mas isso é equivocado. Eles têm protecionismo exacerbado, por exemplo, em açúcar, em arroz, em etanol, em suco de laranja, em algodão. O Brasil já ganhou uma vez um julgamento na OMC contra os Estados Unidos por causa dos subsídios ao algodão. Eles, em vez de retirar os subsídios, preferiram pagar a multa. Pagaram vários milhões de dólares ao Brasil, mas não retiraram os subsídios, porque os subsídios ao algodão decorrem da ação do lobby mais poderoso do Texas. Há muita ignorância sobre o panorama norte-americano, porque, mesmo a média das tarifas deles, que era baixa, agora com o Trump, já no mês de maio, estava em 8,5%, que é praticamente o nível teórico das tarifas brasileiras. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) publicou um documento há pouco tempo mostrando que as tarifas que o Brasil efetivamente aplica aos produtos americanos, como há muitas exceções, são menos de 3%. Na prática, o que é que o Brasil vai negociar?

Então o Brasil não é protecionista em relação aos Estados Unidos?

É, em teoria. No livro tem essas tarifas, mas, na aplicação prática, a tarifa aplicada aos produtos americanos é inferior a 3%. Por isso, é que os americanos têm exportado muito para o Brasil. Basta ver os documentos da AmCham que mostram que o saldo comercial americano aumentou. Então é preciso dizer isso. E a esperança que podemos ter de, pelo menos, reduzir essas tarifas para 10% é usar a ajuda do setor exportador americano. Se nós vamos perder, os americanos vão perder mais, porque eles têm saldo comercial positivo com o Brasil. É um raciocínio muito simples. Se, nos últimos 15 anos, venderam ao Brasil US$ 410 bilhões a mais do que compraram, se zerar o comércio, eles perdem mais.

E no Brasil, quem perde mais?

Os maiores prejudicados são a Embraer, a WEG, fabricante de motores de Santa Catarina, e a Tupi, que exporta ferro fundido. Mas é preciso ver caso a caso. A American Chamber of Commerce, que é uma câmara de comércio norte-americana, publicou um documento dizendo que mais de 6 mil pequenas empresas dos EUA dependem de importação de produtos brasileiros. A melhor esperança que o Brasil pode ter é mobilizar esse setor, porque, obviamente, ele tem mais influência sobre o Trump do que o governo brasileiro ou a nossa diplomacia.

A estratégia não será a via diplomática no caso?

O Trump não é sensível à diplomacia. Ele não fala com diplomata. Ele fala com homens de negócios. Os diplomatas brasileiros são úteis no caso da Seção 301, porque quem vai representar o Brasil vai ser a Embaixada ou o vice-presidente Geraldo Alckmin. O Brasil também pode procurar os diplomatas brasileiros em Washington, por exemplo, para mobilizar os estados americanos em que o Brasil já tem indústria. São vários. Se há 3.800 empresas americanas com investimento no Brasil, por outro lado, há mais de 2.600 empresas brasileiras com investimento nos EUA. É preciso mobilizar esses estados, porque muitos deles são republicanos e têm acesso ao presidente Trump. Há uma ampla gama de coisas que se pode fazer. Mas, sem muita ilusão, porque como eu disse, da parte deles, não há boa-fé. Só espero que essa decisão possa ser negociada quanto ao prazo e quanto ao montante da sobretaxa.

A Lei de Reciprocidade seria um tiro no pé do governo brasileiro?

Não, eu acho que não, porque a Lei de Reciprocidade dá ao Brasil a possibilidade de retalhar se o pior acontecer. A reciprocidade é como uma bomba atômica. Você tem que possuir um elemento para não usar. Você tem que dizer, olha, se você me aplicar tal e tal coisa. Você não me deixa retalhar. Eu não quero fazer isso, mas está nas suas mãos. Nessa investigação, por exemplo, eles fazem acusações infundadas, entre outras, de que o Brasil não protege a propriedade intelectual, de que o Brasil está aplicando taxas sobre serviços de telecomunicação. Você sabe, isso em inglês se chama uma self-fulfilling prophecy, uma profecia autorrealizável. Se eles estão me castigando por uma coisa que eu não estou fazendo, estão me convidando a fazer essa coisa. Isso pode ser utilizado como argumento dentro do processo da Seção 301, porque a impressão que eu tenho é que dentro desse processo, muitas das acusações vão se revelar infundadas, como essa do Pix. Isso vai se desmontar e no fim e vai ficar alguma coisa que eles vão se segurar para aplicar alguma medida. Esse é o cenário mais provável que vai acontecer.

Qual sua avaliação da escolha do vice-presidente Geraldo Alckmin como o negociador após as declarações de Lula na cúpula do Brics?

Primeiro, acho que o Alckmin é o interlocutor ideal. Ele é um conciliador, um homem que tem muito controle do que ele diz. Ele nunca faz declarações sem pensar, acho que ele é o interlocutor ideal para conduzir essa negociação. Por outro lado, independentemente das declarações de Lula na cúpula do Brics, mesmo se ele nunca tivesse dito uma palavra, ele já representa, pelas suas posições tradicionais, algo que é incompatível com o Trump. Certas pessoas têm dito que o Lula deveria tomar o telefone, deveria ir lá conversar com Trump, mas elas esquecem que, quando o Trump recebeu o Volodymyr Zelensky (presidente da Ucrânia), ele passou uma descompostura pública. O Lula também corria o risco de sofrer uma humilhação pública. É preciso tomar cuidado com o que se sugere. Já o Alckmin é diferente. Ele não vai negociar com o Trump. Vai negociar com os setores do governo americano, como o USTR, a Secretaria de Comércio, o Departamento de Estado.

Com a investigação da Seção 301, agora, esses canais são abertos. Antes não tinha. A investigação tem um lado negativo, que é aquele acúmulo de acusações, um pouco sem perna e cabeça, mas por outro lado proporciona, como eu disse, um procedimento com regras. E a investigação prevê audiências públicas, prevê apresentação de documentos. Tudo isso não existia antes, agora vai passar a existir.


As medidas anunciadas por Trump, de certa forma, defendendo o Bolsonaro, na verdade, estão beneficiando o Lula no campo político. As pesquisas da Quaest, por exemplo, mostraram que a aprovação de Lula aumentou e a desaprovação diminuiu. Quer dizer que Trump está ajudando mais o Lula do que o Bolsonaro indiretamente?

Eu concordo plenamente. Esse tipo de medida é contraproducente. Ter o apoio público do Trump é pior do que não ter nenhum apoio. Porque você vê, isso já aconteceu com nas eleições canadenses, há dois, três meses atrás. O Trump apoiou o candidato que era o adversário do atual primeiro-ministro. Perdeu a eleição por causa do Trump. A mesma coisa aconteceu na Austrália. Então, eu acho que vai acontecer aqui também no Brasil, já está acontecendo. Inclusive, como você sabe, tradicionalmente a opinião pública brasileira rejeita a intromissão de uma potência estrangeira. E brasileiros que apareçam conspirando com o governo estrangeiro para prejudicar o Brasil passam a ser rejeitados pela opinião pública brasileira. Acho que o Eduardo Bolsonaro está cometendo um suicídio político. Ele, dificilmente, no futuro, vai ter condições de poder enfrentar a opinião pública brasileira. O que esses brasileiros estão fazendo é castigando o Brasil. Eles são muito desequilibrados. Eles não estão castigando o Lula. Para o Lula, está sendo um presente fantástico para a eleição de 2026. O Lula não sai perdendo, politicamente. Quem sai perdendo são os trabalhadores, os empresários… 

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia - Rodrigo Craveiro (Correio Braziliense)

Estou imaginando que com esta decisão, de uma Corte de justiça respeitável, o Itamaraty vai finalmente soltar uma nota elogiando a conclusão a que chegou a Corte Europeia de Direitos Humanos em face de tão flagrantes provas de desrespeito ao Direito Internacional. Uma nota firma e condenatória das ações da Rússia, como sempre fez em casos semelhantes e como faz frequentemente em face dos crimes israelenses em Gaza e na Cisjordânia. Nada menos do que isto. PRA


"Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia"
Corte Europeia condena Rússia por atrocidades na Ucrânia
Tribunal de direitos humanos sediado em Estrasburgo, na França, conclui que as forças de Vladimir Putin cometeram abusos e violações flagrantes e sem precedentes. Papa Leão XIV oferece Vaticano para sediar diálogo entre Kiev e Moscou
Por Rodrigo Craveiro
Correio Braziliense, 10/07/2025
https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2025/07/7196155-corte-europeia-condena-russia-por-atrocidades-na-ucrania.html

Vadim Yevdokimenko, 23 anos, perdeu o pai em 3 de março de 2022, em uma fábrica de vidros na cidade de Bucha, a noroeste de Kiev, capital da Ucrânia. "Os soldados russos o sequestraram e trancaram-no com cinco pessoas em uma garagem e o fuzilaram. Em seguida, atearam fogo aos restos mortais dele, pois queriam escondê-los", contou ao Correio. Ele soube da morte do pai da pior forma: por meio de um vídeo que acessou na internet mostrando moradores de Bucha torturados e assassinados. "Os bastardos que mataram meu pai merecem o fim doloroso", disse.

No mesmo dia, Yevhen Kizilov, 49 anos, estava no exílio, quando as forças de Moscou invadiram a casa da família, também em Bucha, levaram o pai dele, Valeriy Kizilov, 69, ao jardim e o executaram com um tiro na cabeça. Nesta quarta-feira (9/7), Vadim, Yevhen e milhares de outros ucranianos tiveram um vislumbre de justiça. A Corte Europeia de Direitos Humanos, em Estrasburgo (França), concluiu que, desde 2014, a Rússia comete abusos flagrantes e sem precedentes na Ucrânia.

A Rússia é acusada de execuções de "civis e militares ucranianos fora de combate", "tortura", "deslocamentos injustificados de civis" e até mesmo "destruição, saques e expropriações", disse o presidente do organismo, Mattias Guyomar. A decisão da Corte determina que o governo de Vladimir Putin "deve liberar imediatamente, e devolver de maneira segura, todas as pessoas que, no território ucraniano ocupado pelas forças russas ou sob controle russo, foram privadas de liberdade (...) e que estão presas".

Em seu julgamento, o tribunal cita evidências de uso de violência sexual disseminada e sistemática, acompanhada de atos de tortura, como espancamento, choques elétricos e estrangulamento. "Em nenhum dos conflitos anteriormente submetidos ao tribunal houve uma condenação tão universal do 'flagrante' desrespeito do Estado demandado aos fundamentos da ordem jurídica internacional estabelecida após a Segunda Guerra Mundial", afirma a decisão. A instância também concluiu que a Rússia foi a responsável pela derrubada, em julho de 2014, de um avião da companhia aérea Malaysia Airlines, matando 298 pessoas. A aeronave havia decolado de Amsterdão em direção a Kuala Lumpur, quando foi derrubada por um míssil no leste da Ucrânia.

Yevhen considera a condenação, por parte da Corte Europeia de Direitos Humanos, um marco histórico. "Ninguém esquecerá os crimes da Rússia. Eles entrarão para a história da humanidade. Além disso, este veredicto constitui uma confirmação jurídica internacional do sofrimento das vítimas da agressão russa, uma das quais sou eu", observou. O jornalista ucraniano acredita que a decisão firmará a base para o pedido dele por indenização contra a Rússia. "O tribunal estabeleceu um precedente legal que simplificará significativamente a prova de culpa de Moscou no meu caso", acrescentou.

Horas antes de o tribunal proferir a decisão, as forças russas realizaram o maior bombardeio com drones e mísseis em 1.232 dias de guerra. Durante a madrugada, o Exército russo lançou 728 drones e 13 mísseis contra quatro regiões da Ucrânia, incluindo a capital, Kiev. Ao menos 711 drones foram interceptadas e sete mísseis, destruídos, segundo a Força Aérea ucraniana. Os ataques deixaram oito civis mortos e ocorrem depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que Putin é "inútil" e "fala muita besteira" e anunciar a retomada de ajuda militar para Kiev.

Sanções

Em visita à Itália, onde se reuniu com o papa Leão XIV e com o presidente italiano, Sergio Mattarella, o líder da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tornou a cobrar "sanções rigorosas" contra a Rússia e, especialmente, contra o setor petrolífero de sua economia. "Todos os que querem a paz devem agir", declarou, ao lembrar que o petróleo russo "tem alimentado a máquina de guerra de Moscou por mais de três anos". Kiev tem insistido que somente o fortalecimento das sanções pode acelerar o fim da guerra.

No encontro com Leão XIV, na residência de verão de Castelgandolfo, Zelensky ouviu do pontífice a oferta de colocar o Vaticano como sede para um diálogo com Moscou.

Lista de violações
Os principais crimes apontados pela Corte Europeia de Direitos Humanos

Ataques militares indiscriminados;
Tortura e uso de estupro como arma de guerra;
Execuções sumárias de civis e militares;
Detenções arbitrárias e ilegais de civis;
Intimidação e perseguição a grupos religiosos;
Deslocamentos forçados e transferência de civis;
Destruição, saques e expropriação de propriedades;
Supressão do idioma ucraniano nas escolas;
Transferência de crianças para a Rússia e, em muitos casos, adoção.
Maksym Yakovlyev, chefe do Departamento de Relações Internacionais e diretor da Escola de Análise Política da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla.

"Nós, ucranianos, sofremos todos os tipos de torturas e terror da Rússia. Moscou viola, de forma contúnua, os direitos humanos. Insistimos em que os crimes russos devem ser punidos. Considero bom que haja um reconhecimento legal do fato de que os russos cometeram crimes. Mas, também, espero que eles sejam punidos por tais violações."

Maksym Yakovlyev, chefe do Departamento de Relações Internacionais e diretor da Escola de Análise Política da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla

"A decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos envia um claro sinal à comunidade internacional sobre a natureza criminosa das ações da Rússia. Além disso, para as vítimas da agressão russa, como eu, a decisão tem enorme significado psicológico e moral. Isso significa que o nosso sofrimento foi reconhecido e confirmado por uma instituição internacional autorizada."
Yevhen Kizilov, 49 anos, jornalista ucraniano cujo pai foi executado à queima-roupa em Bucha

quinta-feira, 1 de maio de 2025

1º de Maio melancólico e de incertezas para os trabalhadores - Luiz Carlos Azedo (Correio Braziliense)

 Um 1. de maio de 2025, que virou o enterro antecipado do lulopetismo sindical:


1º de Maio melancólico e de incertezas para os trabalhadores
Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense, quinta-feira, 1 de maio de 2025

Lula decidiu ressarcir os aposentados e pensionistas que foram lesados, mas Haddad não sabe como. Aguarda uma indicação da CGU e da AGU para definir como isso será feito
Talvez esta quinta-feira seja o mais melancólico 1º de Maio para os sindicatos brasileiros desde século, embora um feriado de quinta-feira, para a maioria dos trabalhadores, seja motivo de regozijo; para muitos, esta sexta-feira será ponto facultativo ou dia de home office, em mais um feriadão. Não é melancólico por causa do esvaziamento das tradicionais manifestações de trabalhadores, que historicamente são uma montanha-russa, com momento de ascenso e descenso do movimento operário, mas por causa dos descontos não autorizados de aposentados e pensionistas por associações e sindicatos ligados às centrais sindicais, no montante de R$ 6,3 bilhões, o mais novo e maior dos escândalos da história do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
No ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou constrangimento por causa do esvaziamento das comemorações de 1º de Maio, no estacionamento da Neo Química Arena, em Itaquera, que reuniu menos de duas mil pessoas, um evento organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), da qual é grande patrono. Neste ano, o constrangimento é muito maior: o bilionário escândalo envolve o Ministério da Previdência, ao qual o INSS está diretamente subordinado. O ministro titular da pasta, Carlos Lupi, que é presidente do PDT, se recusa a pedir demissão do cargo. Houve incompetência, omissão e prevaricação.
O ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto e mais quatro dirigentes afastados dos cargos foram nomeações de Lupi: Vanderlei Barbosa dos Santos (diretor de Benefícios), Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho (procurador-geral), Giovani Batista Fassarella Spiecker (coordenador de Suporte ao Atendimento) e Jucimar Fonseca da Silva (coordenador de Pagamentos e Benefícios). O ministro alega que foi traído pelos subordinados, mas não explica como R$ 6,3 bilhões foram movimentados de forma fraudulenta sem que sequer tivesse conhecimento.
Em vez de comparecer ao ato de 1º de Maio, marcado para esta quinta-feira, em São Paulo, Lula optou por realizar um encontro com os dirigentes sindicais, na terça-feira passada, e gravar um vídeo que será exibido pelas centrais sindicais. Nele, o presidente diz que as pautas precisam ser novas e que os sindicatos precisam melhorar a comunicação nas redes sociais. Lula também se mostrou simpático à redução da jornada de trabalho e ao fim da escalada 6×1 (seis dias trabalhados e um de folga na semana).
Lula também fará um pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, no qual destacará os aumentos reais do salário mínimo, do número de trabalhadores com carteira assinada e a menor taxa de desemprego dos últimos tempos. Entretanto, nada disso resolve o problema político criado pelo escândalo do INSS: a oposição na Câmara conseguiu 185 assinaturas e protocolou, nesta quarta-feira, o pedido de criação da comissão parlamentar de inquérito (CPI) na Câmara para investigar o INSS.
De acordo com o relatório feito pela Controladoria-Geral da União (CGU), 70% das 29 entidades analisadas não entregaram a documentação completa ao INSS para a assinatura dos Acordos de Cooperação Técnica (ACTs), que foram todos cancelados pelo governo. A Polícia Federal já investiga 11 entidades sindicais. O problema também caiu no colo do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, porque Lula decidiu ressarcir os aposentados e pensionistas que foram lesados, mas não sabe como. Haddad aguarda uma indicação da CGU e da Advocacia-Geral da União (AGU) para definir como isso pode ser feito legalmente.
Passado e presente
No Brasil, passado e presente se misturam no mundo do trabalho. A escravidão, com sua violência estrutural, impregnou a estrutura social de tal forma que a discussão sobre as relações de trabalho se mantém como um conflito entre as elites políticas e a grande massa da população. Daí decorrem o desrespeito e a redução dos direitos sociais. E o patrimonialismo nas estruturas sindicais.
Não temos "uma ética do trabalho", como assinalou Antônio Cândido, em Dialética da malandragem, um clássico ensaio sobre a cultura nacional. A péssima remuneração dos professores, cujo trabalho é considerado "vocação", é um bom exemplo, em contraste com as altas remunerações do setor público desproporcionais aos serviços prestados à sociedade.
O trabalho intelectual no Brasil também é desvalorizado, não apenas o trabalho manual. De acordo com o Banco Mundial, 64% da riqueza mundial advêm do conhecimento. Entretanto, as deficiências do sistema educacional reproduzem o analfabetismo funcional em grande escala.
A inserção social pela via do emprego já não é dominante. O trabalho avulso remunerado pela via dos aplicativos e o empreendedorismo são duas realidades novas. O "chão de fábrica" como "locus" do trabalho produtivo é cada vez mais minoritário. Os aplicativos estão revolucionando as relações de trabalho no Brasil num contexto social muito mais injusto do que nos países desenvolvidos.
A questão social que resulta dessa realidade está escancarada. O exército de desempregados e subempregados formado a partir da extinção de profissões ou redução de seus postos de trabalho depende cada vez mais da assistência de um Estado deficitário e pouco eficiente. Vivemos uma era de incertezas.

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