quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Genocídio racial estatístico - José Murilo de Carvalho (2004, mas ainda muito atual)

 

Genocídio racial estatístico

O Globo (Rio de Janeiro) 27/12/2004

Está em andamento no Brasil uma tentativa de genocídio racial perpetrado com a arma da estatística. A campanha é liderada por ativistas do movimento negro, sociólogos, economistas, demógrafos, organizações não-governamentais, órgãos federais de pesquisa. A tática é muito simples. O IBGE decidiu desde 1940 que o Brasil se divide racialmente em pretos, brancos, pardos, amarelos e indígenas. Os genocidas somam pretos e pardos e decretam que todos são negros, afro-descendentes. Pronto. De uma penada, ou de uma somada, excluem do mapa demográfico brasileiro toda a população descendente de indígenas, todos os caboclos e curibocas. Escravizada e vitimada por práticas genocidas nas mãos de portugueses e bandeirantes, a população indígena é objeto de um segundo genocídio, agora estatístico. A não ser pelos trezentos e tantos mil índios, a América desaparece de nossa composição étnica. Restam Europa e África. 

O problema da cor ou raça persegue nossos demógrafos e estatísticos desde 1849. Haddock Lobo, organizador do censo do Rio de Janeiro desse ano, rejeitou o item cor por considerar essa classificação odiosa, além de inconfiável pela “infidelidade com que cada indivíduo faria de si próprio a necessária declaração”. O primeiro censo nacional, feito em 1872, enfrentou o problema e dividiu as raças (não se diferenciava raça de cor) em branca, preta, parda e cabocla (indígena). Os responsáveis pelo censo de 1890 substituíram pardo por mestiço, argumentando, corretamente, que a cor parda “só exprime o produto do casamento do branco com o preto”. O censo de 1920 eliminou o item raça porque “as respostas ocultavam em grande parte a verdade”, sobretudo as respostas dos mestiços. O registro de cor foi reintroduzido no censo em 1940, quando voltaram os pardos e se estabeleceu o padrão atual, com a única diferença que hoje se separam amarelos (asiáticos) e indígenas. 

Retrocedeu-se a 1872, ignorado o alerta feito em 1890. Os descendentes de indígenas ficaram embutidos na classificação de pardos, da qual são agora definitivamente enxotados. Ora, é óbvio para qualquer um que os 39% de pardos do censo de 2000 se compõem em boa parte de descendentes de indígenas. Aí está, aliás, a razão de ser do tribunal racial da Universidade de Brasília, destinado a apontar entre os pardos os afro-descendentes. A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, de 1998, mostrou que as pessoas classificadas como pardas pelos critérios impostos, quando deixadas livres para se autoclassificarem se disseram morenas e morenas claras em 60% dos casos. Apenas 34% dos pardos concordaram com essa classificação e apenas 2% se disseram mulatos. Pesquisa feita na Região Metropolitana do Rio de Janeiro em 1997 revelou que 50% dos que foram classificados de pardos pelos entrevistadores se disseram morenos ou brancos. Outra pesquisa no Rio, de 2000, mostrou que 48% dos pardos diziam ter antecedentes indígenas. Nos estados do Norte, onde foi fraca a presença da escravidão africana, os descendentes de indígenas formam sem dúvida a grande maioria dos pardos. 

A inspiração do genocídio vem naturalmente dos Estados Unidos. Mas a operação é falaciosa. Para corrigir os males de uma sociedade em preto e branco, os americanos começaram a valorizar todas as etnias. Como se sabe, não existem mais americanos. Lá, as pessoas são euro, afro, latino, nativo, asiático-americanas. Professores brasileiros quando vão dar aulas por lá têm que se autoclassificar racialmente. Eu sou latino. Importou-se essa valorização das etnias. A falácia consiste em ter sido ela importada não para acabar com a polarização, mas para implantá-la num país em que ela não existia. Valorizam-se duas cores, raças, etnias, seja lá o que for, com exclusão das outras. Viramos um país em preto e branco, ou melhor, em negro e branco. 

Deixados livres para definir sua cor, os brasileiros exibem enorme variedade e grande ambigüidade. Essa riqueza foi aprisionada no leito de Procusto das cinco categorias pré-codificadas do IBGE. Os americanizantes querem mutilá-la ainda mais, reduzindo-a à polarização branco-negro. Se é para valorizar as etnias, vamos copiar direito os americanos. Vamos incluir todas as etnias, sem esquecer a dos primitivos habitantes do país, instaurando entre nós a sociedade hifenizada. Para isso, nenhuma das opções dos censos, de 1872 a 2000, é satisfatória. 



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Brasil-China Ensaios 2002-2021, de Anna Jaguaribe (CEBRI)

 26/01/2022: 


 O CEBRI lança hoje o livro Brasil-China Ensaios 2002-2021, de Anna Jaguaribe, com o apoio da Fundação Alexandre Gusmão (FUNAG), do Banco BOCOM BBM e de Marcelo Vieira. A publicação traz artigos inéditos da socióloga pioneira nos estudos sobre a China e aborda temas como as relações diplomáticas entre China e Brasil, a presença chinesa no multilateralismo, a projeção internacional do país e suas consequências geopolíticas, o desenvolvimento chinês e a modernização de Pequim.

O projeto gráfico é assinado por Mariana Jaguaribe, sobrinha de Anna, e as fotos, muitas inéditas, compartilhadas pela irmã Cláudia Jaguaribe, retratam momentos especiais de sua trajetória.
 
Anna Jaguaribe contribuiu de forma inestimável com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). Foi membro do Conselho Curador, desde 2017 e estruturou o Núcleo Ásia e o Grupo de Análise sobre China. Seu legado é mais uma vez celebrado com a publicação deste livro.
 
Acesse a versão digital do livro aqui.

ARTIGOS
2002

032
 China modern: The city
as a battleground for identities

2010

054
 Visões de futuro:
A China e os seus desafios,

elementos do debate atual

2011

084
 Brasil e China na
reorganização das relações

econômicas internacionais:

Desafios e oportunidades

2013

104
 On state capacities
2014

120
 Políticas de inovação,
cruzando caminhos: Os casos

de Brasil e China

2015

142
 Estratégias de
governança no século XXI:

Observações sobre os novos

desafios da China

2016
166
 Desafios da economia
chinesa hoje

2018

174
 Characteristics and
direction of China’s global

investment drive

NOTAS SOBRE A

CONTEMPORANEIDADE

2019

210
 Brasil e China no
contexto da urbanização

2020

216
 Geopolitics and the
economics of innovation:

Different strategies

2021

222 Geopolitics and the rise
of China

228
 Reform and opening of
China’s financial system

Sobre a natureza do declínio relativo do Brasil no último meio século - Paulo Roberto de Almeida

 Sobre a natureza do declínio relativo do Brasil no último meio século 

Paulo Roberto de Almeida

Não existe qualquer fatalidade interna ou externa que explique a perda de impulso para o crescimento e o desenvolvimento econômico e social que afeta o Brasil desde a fase final, de crises e desacertos, do regime militar. As razões são essencialmente políticas e self-made.

O Brasil afundou menos pela ação persistente de algum projeto organizado de pensamento equivocado aplicado à nação — como podem ter sido os fenômenos do bolchevismo e do peronismo, nos casos bem mais graves dos desacertos ocorridos na Rússia e na Argentina durante décadas— e mais pela inconsciência geral quanto aos destinos do país por parte daqueles que ascenderam ao poder, de esquerda ou direita, desde aquela época.

Os problemas foram se acumulando lentamente, asfixiando não só a possibilidade de correções pontuais pela via da política, como a própria consciência de que problemas conjunturais estivessem reforçando tendências estruturais negativas, já longamente estabelecidas, como por exemplo a persistência de baixos níveis de educação na população.


A correção dos desacertos é difícil e incerta, ao observarmos o cenário de curto prazo, uma vez que ainda persistimos em identificar um improvável “salvador da pátria” como o redentor dos nossos males, sendo que este pode estar tanto à direita quanto à esquerda. Tais são as indefinições que persistem, e que mostram a divisão do país, num quadro de incerteza geral quanto a um programa geral de ajustes. As “soluções” ainda são buscadas em nível de pessoas, não de políticas.


Vejo qualquer inversão da atual tendência declinante e de recuperação da nação como um processo longo e desgastante, tantas são as deformações criadas por políticos desonestos e medíocres no comando do país — de esquerda e de direita —, ao lado da incultura ainda largamente predominante em todos os estratos sociais.

Não há nenhuma dúvida quanto a inexistência de fatalidades inevitáveis, pois todos os nossos problemas são o resultado de disfuncionalidades cumulativas criadas domesticamente. Mas muitas são as dúvidas de que possamos ter, no ambiente atual da fragmentada política brasileira (ou seja, as “elites dirigentes”) e da virtual inexistência de qualquer consenso sobre a natureza dos desafios entre as elites verdadeiramente dominantes (ou seja, os donos do capital), alguma possibilidade de correção de rumos no futuro previsível.


Em resumo: a retomada do dinamismo é incerta e provavelmente tomará mais de uma geração. Perdemos o rumo e até a consciência de que devemos ter algum tipo de rumo, qualquer que seja ele. Vai demorar para encontrar algum outro, tal a rigidez de interesses consolidados na atual anomia societal.

De minha parte, persistirei a pensar no Brasil do futuro, 80 anos depois que Stefan Zweig ousou predizer boas promessas nessa perspectiva, em boa medida pelo caráter plástico de nossas relações raciais. Parece que até isso se perdeu. Vamos insistir naquilo que nos distingue como povo tolerante e culturalmente integrado.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 26/01/2022

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Mini reflexão sobre mais do mesmo - Paulo Roberto de Almeida

 Mini reflexão sobre mais do mesmo

Paulo Roberto de Almeida

O Brasil vai saltando de salvador em salvador, continuando a afundar na mediocridade de esperar que um presidente “dê jeito nas coisas”. Construímos nós mesmos essa gaiola de ferro que não leva a nada, a não ser a novas frustrações. 

Ainda não crescemos o suficiente. Custa pensar?

Por que, como é que toda uma sociedade, que possui gente capaz, pesquisadores e professores que produzem obras magníficas de saber consistente, empresários inteligentes e batalhadores, e até alguns políticos sagazes, como é que tanta gente se deixa aprisionar e levar por um punhado de aproveitadores, mentirosos e incompetentes, que são saudados como “líderes”, dos quais se espera a solução a tantos problemas criados pelos mesmos mentirosos aproveitadores?

A sociedade como um todo, em sua grande maioria formada de cidadãos contribuintes e votantes, se deixa levar por alguns poucos pilantras, que continuam a praticar falcatruas a prazos regulares?

Mais de dez mil anos de “civilização”, religiões salvadoras, maravilhas da modernidade tecnológica, e até economistas competentes, para no final nos deixarmos levar por alguns espertinhos, que possuem a retórica adequada em face das dificuldades da vida e que continuam a apregoar falsas soluções? 

Somos tão crédulos assim, ou apenas passivos e acomodados?

Estamos no limiar de um novo exercício do mesmo gênero, mais um autoengano, que vai beneficiar velhos e novos espertinhos, e deixar a maioria mais ou menos como ela estava antes. 

Até a próxima vez…

É, parece que, finalmente, a humanidade, as sociedades nacionais, os povos constituídos em forma de Estados, nós não avançamos tanto assim: continuamos ingênuos e incapazes de cuidar de nós mesmos, e temos de recorrer a outros para organizar a bagunça. Tem um preço em tudo isso: não avançamos tanto quanto poderíamos: conflitos de opinião continuam possíveis. As paixões e os interesse ainda nos dominam.

Finalmente, não estamos tão longe assim da guerra de Troia. Acho que vou voltar para a minha Ítaca: o caminho será longo, e semeado de escolhos.

Mas há outra via?

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 25/01/2022


Chile: a direita militar pinochetista ensaia um começo de rebelião: não terá sucesso...

 Transcrevo o que recebi: 


Comienzan los problemas en Chile

¡CARTA DE UN COMANDANTE EN JEFE INSTITUCIONAL!!! 


Sugerencia del Comandante de Ejército: Jaime Manuel Ojeda Torrent 

Veterano del 73.


Del: Comandante en Jefe Institucional.

Al:  Señor Gabriel Boric Font, Presidente electo de la Nación.

Presente:

Me dirijo a usted en mi condición de Comandante en Jefe Institucional, conforme a las leyes y reglamentos vigentes, con el fin de reclamar por haber designado  como Ministro de Defensa a la señora Maya Fernández Allende. 

La designación de la señora Maya Fernández Allende, representa una severa afrenta y humillación para con nuestra institución y su sagrada historia.

El suscrito no pone en duda su derecho legal y constitucional de nombrar sus ministros, pero no puede aceptar la humillación a nuestra sagrada Institución que conlleva la designación que Ud. hace, como Ministra de Defensa,  de la señora Fernández Allende.

Su nombramiento, a todas luces, representa una subrepticia forma de vengar a su abuelo, el ex Presidente Salvador Allende Gossens, del cual usted, conforme públicamente lo ha señalado, es admirador. 

El único mérito que presenta la señora Maya Fernández Allende, para haber sido designada Ministro de Defensa, es el odio que siente para con las Fuerzas Armadas, las cuales el 11 de Septiembre de 1973, derrocaron a su abuelo 

Me es un deber moral, como Comandante en Jefe Institucional,  hacerle presente que el ex Presidente Allende, abuelo de la señora Maya Fernández, es reconocido en nuestra historia militar por el profundo daño causado a nuestra sagrada Patria y en particular a nuestra Institución.

El trascendental daño causado por el ex presidente Allende, abuelo de la Ministro de Defensa por usted designada, y sus consecuencias, aún lo pagamos con un inconmensurable daño humano, como es el que han padecido y padecen nuestros Veteranos del 73.  

Mi reclamo está basado en los siguientes hechos irrefutables que el ex Presidente Allende, realizó para  el logro de su objetivo político de imponer una dictadura comunista en el país:

-Intentó, sin lograrlo, sobornar a todos nuestros altos mandos.

-Trató de infiltrar ideológicamente nuestra Institución y fomentar la división entre oficiales y suboficiales. 

-Intentó crear un institución militar paralela a la nuestra, con el apoyo de Luis Fernández Oña, agente enviado por Fidel Castro para tales efectos, y nada menos que padre de la señora Fernández Allende.  

-Fomentó la formación, capacitación y entrenamiento guerrillero, con el apoyo humano y material, principalmente de Fidel Castro. 

-Sus terroristas del MIR, a quienes fraternalmente llamaba: "Los Jóvenes Idealistas", asesinaron a mansalva a muchos de nuestro personal y Allende graciosamente  los amnistió. 

-El primer decreto que firmó Allende, una vez que asumió el poder, fue indultar a los terroristas del MIR condenados por asesinatos, asaltos, secuestros y por colocación de bombas. 

(Espero que usted no lo imite, amnistiando a  los delincuentes terroristas responsables de las explosiones antisociales.)

En consideración a lo anterior, solicito a usted reconsiderar el nombramiento de la ciudadana Maya Fernández Allende, por conformar su designación una clara ofensa a nuestra Institución, a nuestros hombres de ayer, de hoy y del mañana.

De no hacerlo, la señora Maya Fernández, se verá expuesta a que uno de los nuestros, imite la honorabilidad y valentía moral de uno de los militares que se negó a rendir honores a Fidel Castro.

Me refiero al Coronel Alberto Labbé Troncoso (QEPD), cuyo nombre está grabado en letras de oro en la historia de las FF.AA.

Como también, por mínima moral, el suscrito le presentaría su indeclinable renuncia al cargo de Comandante en Jefe Institucional.

Ya que de no renunciar estaría traicionando a mi institución y también  a aquellos que, por culpa de Allende, han perdido la vida o se encuentran procesados, condenados, o prisioneros como los Veteranos del 73.

Si bajo resquicios legales se me acusa de deliberar, asumo las consecuencias con la dignidad que amerita mi alto cargo y por mi deber de lealtad de predicar con el ejemplo personal ante mis subalternos. 

Lo saluda atentamente,   

Fdo. Comandante en Jefe Institucional*( E,A y/o FA ).*


Eleições 2022: Terceira via, miragem e realidade - Demétrio Magnoli (O Globo)

Como eu próprio anunciei, assim que saiu essa novidade da aliança Lula-Alkmin, no último trimestre de 2021, ela está destinada a liquidar a fatura já no primeiro turno, sem precisar sequer fazer campanha, ou fazendo, pró-forma, pois também tem aquela dinheirama toda para gastar.
Paulo Roberto de Almeida

    Terceira via, miragem e realidade

    Demétrio Magnoli

    01:24:54 | 24/01/2022 | Economia | O Globo | Demétrio Magnoli | BR

    O fracasso da "terceira via" está expresso nas sondagens de opinião pública. Segundo as análises convencionais, a explicação para o fracasso encontra-se na polarização política entre Bolsonaro e Lula, que fecharia o caminho a uma candidatura alternativa, de centro. Há bem mais que um simples equívoco no diagnóstico.

    Polarização? As pesquisas evidenciam que a rejeição a Bolsonaro situa-se em torno de 60% do eleitorado. São os que não votariam no presidente em nenhuma hipótese, parcela que chega a 64% entre os pobres e 54% na Região Sul, suposta fortaleza do bolsonarismo. Se o pleito fosse hoje, Lula triunfaria no primeiro turno. A polarização circunscreve-se às redes sociais. Não existe polarização eleitoral.

    A tese da "terceira via" assenta-se exclusivamente sobre a antiga constatação de que o lulismo não controla a maioria do eleitorado. Isso ficou provado nas quatro vitórias consecutivas do lulopetismo, duas de Lula e duas de Dilma, que só tiveram desenlace no segundo turno. Daí os arautos da "terceira via" concluem pela existência de uma vasta parcela dos eleitores dispostos a sufragar uma candidatura alternativa.

    É uma tese que ignora a história. Ao longo de um quarto de século, o sistema político partidário brasileiro equilibrou-se sobre a polaridade PT-PSDB. Contudo, durante a crise aberta pelo impeachment de Dilma (2016) e pela eleição de Bolsonaro (2018), o polo centrista implodiu. A falência do partido de centro manifestou-se duplamente, nas formas do desastre eleitoral da candidatura Alckmin e da adesão das novas lideranças tucanas ao candidato da extrema direita. A miragem da "terceira via" hipnotiza os que se recusam a encarar a morte do PSDB original.

    "Terceira via"? Moro e Doria, que tentam colar o rótulo sobre suas próprias candidaturas, não conseguem decolar, pois são vistos pelos eleitores como ramificações do bolsonarismo. O passado recente esmaga o presente almejado: nenhum dos dois tem legitimidade política para ocupar o centro de uma cena supostamente tensionada entre polos extremos. Ciro, que poderia ocupar essa posição, carece de estruturas partidárias e alcance eleitoral: perambula numa paisagem árida, como um Quixote destituído até mesmo do inseparável Sancho Pança.

    Paradoxalmente, a "terceira via" vai se tornando uma realidade - e atende pelo nome de Lula. O ex-presidente definiu uma estratégia de campanha baseada na ideia de ocupar o centro do tabuleiro político. A democracia unida contra o autoritarismo -eis a mensagem que o candidato procura veicular. A manobra destina-se a fechar o caminho do centro, ocupando-o.

    Não é novidade. Lula operou segundo a mesma estratégia em seu triunfo pioneiro, duas décadas atrás, divulgando a Carta ao Povo Brasileiro e compondo chapa com o empresário José Alencar. A i novação é o passo ousado de articular uma chapa com Alckmin, símbolo de um PSDB que não mais existe. A mensagem: meu governo conectará as políticas sociais lulistas à política econômica tucana. Reconciliação é o nome de seu jogo.

    Nas hostes de esquerda, a valsa da aliança provoca acesa controvérsia. Tipicamente, surgiu um abaixo-assinado de lideranças relevantes e diminutas do PT contra o "pacto com a direita". A margem, os "companheiros de viagem" do PSOL manifestam santa indignação. José Dirceu, um realista que sabe calcular, já apresentou sua defesa do pacto lulista. Para persuadir a esquerda, sugere que a presença de Alckmin destina-se a evitar uma futura desestabilização do governo Lula pelas maléficas elites. Talvez cole, mas Dirceu sabe que a lógica estratégica é outra.

    A alta finança e os empresários financiados pelo BNDES amaram Lula durante dois mandatos e permaneceram com Dilma até 2015, depositando suas esperanças no providencial Joaquim Levy. A ruptura só se deu quando o populismo econômico atingiu o paroxismo, apontando rumo a um túnel argentino ou a um abismo venezuelano. Sem os feiticeiros dilmistas da "nova matriz econômica", Lula não corre risco de desestabilização. A chapa com Alckmin é para inscrever na pedra a "terceira via" - e, assim, triunfar no primeiro turno. 

    segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

    Maracá - Emergência indígena; denúncia de genocídio indígena

    O policial federal que preside a FUNAI desde o ano passado mandou processar a principal organização indígena do país, a Apib, por ter produzido a série em 9 capítulos chamada "Maracá", feita em 2020 para denunciar o genocídio indígena.


     Por favor, ajudem a divulgar, assistam, salvem os arquivos, compartilhem, traduzam e enviem para outros países. Divulgue isso amplamente, os indígenas agradecem

    Maracá - Emergência indígena

    Episódio 1 - Plano de Cura

    Episódio 2 - A mãe do Brasil é indígena

    Episódio 3 - Ancestralidade

    Episódio 4 - Antropoceno

    Episódio 5 - Genocídio
    https://youtu.be/i_BioJyaBe0

    Episódio 6 - Sangue indígena: nenhuma gota a mais.
    https://youtu.be/HzfRaGIOM8o

    Episódio 7 - O grande aldeamento


    Eleições 2022: Doria no Itamaraty: o que o presidenciável tucano tem a oferecer em política externa? - Ana Lívia Esteves (Sputnik)

    Doria no Itamaraty: o que o presidenciável tucano tem a oferecer em política externa?

    Ana Lívia Esteves

    Sputnik Brasil09:31 20.01.2022 

    https://br.sputniknews.com/20220120/doria-no-itamaraty-o-que-o-presidenciavel-tucano-tem-a-oferecer-em-politica-externa-21094505.html 


    Apesar das dificuldades para consolidar sua campanha dentro do PSDB e decolar nas pesquisas de intenções de voto, Doria pode usar CoronaVac para se promover como melhor candidato para política externa brasileira. 
    Depois de prévias tumultuadas no PSDB, que contaram com acirrada disputa interna e até ataques de hackers, o governador de São Paulo, João Doria, luta para consolidar sua pré-campanha à presidência da República. 
    Com desempenho desanimador nas pesquisas de intenção de votos, os caciques do partido teriam colocado um "prazo de validade" à candidatura de Doria, de acordo com o jornal Correio Brasiliense. 
    O governador de São Paulo teria até março para decolar nas pesquisas, sob pena de perder apoio interno do partido. Para melhorar sua posição na corrida ao Palácio do Planalto, Doria anunciou agenda de viagens pelo Brasil e reuniões com líderes do agronegócio e empresariado. 
    Além disso, a equipe econômica do tucano, que conta com economistas como Henrique Meireles, Zeina Latiff, Ana Carla Abraão e Vanessa Rahal Canado, foi anunciada em dezembro. 
    Assessores de Doria acreditam que o pré-candidato tem um trunfo perante seus adversários: o sucesso no desenvolvimento e produção da CoronaVac no estado de São Paulo, empreitada que beneficiou a campanha de vacinação nacional. 
    Governador de São Paulo, João Doria, com vacina CoronaVac, 22 de agosto de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
    Governador de São Paulo, João Doria, com vacina CoronaVac, 22 de agosto de 2021
    Essa carta na manga de Doria indica que o setor de política externa poderá gerar dividendos na sua campanha. 

    "Doria deve trazer a questão das vacinas para os debates [da campanha presidencial de 2022]", disse o doutorando em Ciência Política (UFSC) e membro do Núcleo de Estudos em Comportamento e Instituições Políticas (NECIP), Gabriel Mendes, à Sputnik Brasil. "Essa foi uma grande negociação internacional que ele liderou, diretamente com a China." 

    Para Mendes, o tucano deve enfatizar que, apesar de a China ser um país comunista, ela teve altivez e neutralidade para negociar a obtenção da vacina, em prol do povo paulista e brasileiro. Doria ainda deve capitanear na atuação internacional do governo paulista. 
    O governo do estado de São Paulo acaba de inaugurar um escritório de representação na América do Norte, sediado em Nova York, nos EUA, em prática conhecida como "paradiplomacia"
    "A paradiplomacia é quando entes não federais, como prefeituras, estados, ou o legislativo, fazem negociações com outros entes políticos internacionais não federais", disse Mendes. "Doria é muito afeito a isso." 

    Prefeito de São Paulo, João Dória, visita o papa Francisco - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
    Prefeito de São Paulo, João Dória, visita o papa Francisco
    O Palácio dos Bandeirantes ainda comanda representações em Munique, na Alemanha, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e em Xangai, na China, no âmbito do projeto InvestSp. 

    Política de Defesa 

    De acordo com Mendes, a política externa proposta por Doria poderá ser mais alinhada com os Estados Unidos do que aquelas propostas por Lula ou Ciro. 

    "Ainda que não proponha o alinhamento subordinado que vemos com o governo Bolsonaro [...] Doria se voltaria novamente aos EUA, talvez dando um pouco às costas para as relações Sul-Sul, como os outros governos do PSDB fizeram", acredita o especialista. 

    Nesse sentido, haveria baixa possibilidade de retomada de projetos de integração da América do Sul, como a UNASUL, durante um eventual governo Doria. "Sob um governo do PSDB, não vejo possibilidade de retomada da UNASUL [...] porque se trata de um projeto de alinhamento regional na área de defesa", garante Mendes. 
    O especialista lembra que a política de defesa nacional brasileira foi alterada durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, para adquirir um caráter de parceria em relação aos vizinhos sul-americanos. 

    Sede da UNASUL, em Quito: países da região não puderam chegar a um consenso em relação à participação da Venezuela na organização, levando a sua paralisação - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
    Sede da UNASUL, em Quito: países da região não puderam chegar a um consenso em relação à participação da Venezuela na organização, levando a sua paralisação
    "Antes, tínhamos uma política de defesa nacional que considerava cenários de guerra com Argentina e Uruguai", lembra Mendes. "Isso tudo o PT alterou, e hoje a política de defesa é voltada para os vizinhos no sentido de formar uma parceria. [...] E esse é o objetivo central da UNASUL." 
    Segundo ele, "o PSDB não está de acordo, está incomodado com a política nacional de defesa brasileira", e deve propor a sua alteração, como o fez durante as campanhas presidenciais de 2014 e 2018. 

    De volta para o futuro 

    Especialista em política externa partidária, Mendes sugere que a atuação internacional de um eventual governo Doria se assemelhe à política conduzida durante o governo de Michel Temer, entre maio de 2016 e 1º de janeiro de 2019. 
    Durante esse governo, o PSDB ficou a cargo da política externa brasileira e emplacou dois chanceleres: José Serra, entre de maio de 2016 a fevereiro de 2017, e Aloísio Nunes, de março de 2017 a janeiro de 2019. 
    "Eu apostaria que o governo Doria seria uma continuação da política externa do governo Temer", declara Mendes. "Na época, o PSDB solicitou [a condução da política externa] porque viu ali uma grande vitrine de políticas que poderiam surtir efeito nas eleições de 2018." 
    Uma das principais conquistas do governo Temer na área externa foi a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, depois de mais de 20 anos de negociações. O acordo, no entanto, corre o risco de não ser ratificado, em função da oposição de países relevantes, como a França. 

    Michel Temer, presidente do Brasil, na abertura da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
    Michel Temer, presidente do Brasil, na abertura da 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York
    "Acho que o PSDB retomaria a discussão do tratado com a União Europeia [...] e fortaleceria o Mercosul, que é considerado importante para a indústria brasileira", acredita Mendes. 
    Já quando o assunto é a aliança com países como Rússia e China, em fóruns como o BRICS, Mendes é mais reticente. 
    "Se avaliarmos pelo o que ocorreu no governo Temer, poderá haver um novo freio nas negociações com o BRICS. O PSDB é mais afeito a órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM), e países como os Estados Unidos. Prefere as relações hemisféricas", explica Mendes. 

    Da esquerda para a direita, Xi Jinping, presidente da China, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, após reunião do BRICS no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 14 de novembro de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 20.01.2022
    Da esquerda para a direita, Xi Jinping, presidente da China, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, e Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul, após reunião do BRICS no Palácio do Itamaraty em Brasília, Brasil, 14 de novembro de 2019
    Além disso, uma política externa tucana poderia voltar a dar prioridade a países desenvolvidos do continente asiático, com destaque para o Japão. 

    "Países da Ásia, principalmente Japão, sempre foram preferenciais nas políticas externas executadas pelo PSDB", lembra Mendes. "Então acredito em um resgate no investimento em países altamente capitalistas que deram certo, em detrimentos de áreas como América do Sul, África e Oriente Médio." 

    Quando o assunto é política externa, João Doria pode estar mais bem posicionado do que o atual presidente, Jair Bolsonaro. Só nos resta saber se o tema está na pauta do eleitor brasileiro para 2022 e "se é um capital político importante em termos de voto", conclui o especialista.

    domingo, 23 de janeiro de 2022

    Eleições 2022: os Faria-Lulers - Helena Chagas, Lydia Medeiros (Capital Político)

     Lá vêm os “farialulers”

    Helena Chagas, Lydia Medeiros

    Uma análise da conjuntura 

    Capital Político, Brasília, 23/1/2022 - no145

    A entrevista do ex-presidente Lula aos sites independentes, afirmando que não quer voltar ao cargo para resolver os problemas do sistema financeiro e dos empresários, que pretende “botar os pobres no Orçamento e os ricos no Imposto de Renda” e que não dará prioridade a compromissos fiscalistas, mas, sim, a “pagar a dívida social”, não compõe exatamente uma narrativa agradável aos ouvidos do chamado mercado.

     Mas a boa repercussão da fala junto ao setor financeiro não surpreendeu seus analistas, porque tem origem num processo de aproximação que começou há semanas. Setores do mercado que leram as pesquisas da virada do ano, confirmando a liderança isolada do petista e as chances rarefeitas de uma terceira via, começam, pragmaticamente, a trabalhar com a possibilidade de vitória do ex-presidente. Isso vem implicando um esforço para ver o copo meio cheio em relação a Lula e buscar convergências.

    No caso da entrevista, elas foram encontradas no discurso aliancista do ex-presidente, que praticamente confirmou Geraldo Alckmin como vice em sua chapa, enquadrou a ala petista contrária à parceria e mostrou que, se vencer, seu governo irá além do PT e da esquerda. A disposição de “conversar com todo mundo”, inclusive com o setor financeiro, foi o suficiente para “encher o copo” do mercado, com repercussão positiva no câmbio e nos negócios.

    Não há data para essas conversas. A pauta desses “farialulers”, como estão sendo chamados de brincadeira, é complexa. Terá que ser reduzida a pontos básicos quando for apresentada a Lula — se é que já não foi, informalmente. Um deles passa pela recuperação da imagem externa do país, com a urgência de se criar um ambiente favorável ao retorno de investidores, como os fundos ambientais que fugiram de Bolsonaro. Analistas acham que, se o próximo presidente sinalizar com nomes experientes e respeitados para essa área, a reação positiva será imediata.

    Há previsões também de que, eleito o petista, o mercado não vai confrontar sua prioridade aos investimentos públicos para retomada do desenvolvimento e a uma forte injeção de recursos no campo social. Aos olhos desse pessoal, esses gastos são comparativamente pequenos, e devem aumentar. Preocupam-se, sim, em compatibilizar princípios que sustentam a rentabilidade e a remuneração do setor com uma política desenvolvimentista. Vão lembrar a Lula que estão previstos investimentos

    privados maciços no setor de infraestrutura — portos, ferrovias, energias renováveis — no próximo governo. Já contratados, podem fazer parte da retomada da economia, organizada e conduzida por quem ganhar a eleição.

    Se a conversa avançar, certamente vai aflorar a ansiedade do pessoal do mercado em relação à escolha da futura equipe econômica. Nenhum dos nomes de petistas e antigos auxiliares que vêm circulando nas discussões sobre o programa de governo agrada ao setor — o que não chega ser novidade. Há torcida por um nome novo, técnico ou de político experiente, como, por exemplo, algum ex-governador que tenha fechado direitinho as contas do estado. Como a torcida do mercado financeiro pode ter efeito contrário, alguns acham melhor ficar calados.

    As referências do petista à reforma tributária agradaram, bem como o tom contido em relação à rediscussão da reforma trabalhista. Outra grande apreensão dessa turma começou a se dissipar. Lula não falou em reverter a autonomia do Banco Central. Agradou ao dizer que chamará para conversar o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, hoje com mandato, e que “o BC tem que ter compromisso com o Brasil, e não comigo”.

    Ao fim e ao cabo, ao falar para blogs de esquerda, o ex-presidente parece ter alcançado, mesmo sem mirar, inusitada sintonia com setores da direita no mercado. Foram tantos os recados considerados tranquilizadores que o serviço Scoop by Mover, um portal de notícias do ramo, chamou Lula de “roteador de sinais”.


    A parábola do Brasil no último meio século - Paulo Roberto de Almeida

     A parábola do Brasil no último meio século

    Paulo Roberto de Almeida

    O Brasil vinha construindo, desde a ditadura militar, um Estado atuante e funcional, com erros de gestão aqui e ali.
    Elevaram o patamar da economia, mas deixaram legados pesados na inflação e na dívida externa.
    O plano Real, com ajustes no tripé macroeconômico, venceu o fantasma da hiperinflação e melhorou a qualidade das políticas públicas, macro e setoriais.
    Lula, a despeito da corrupção e das alianças com ditaduras execráveis, elevou a imagem externa do país.
    Dilma, a arrogante incompetente, destruiu tudo isso, provocando a maior recessão da história do país, e ainda foi conivente com a megacorrupção do PT.
    Bozo está ultimando a catástrofe: se aliou aos piores meliantes da política, para exacerbar sua obra destrutiva no plano institucional e genocida no plano da saúde pública; como tantos ainda conseguem apoiar um psicopata perverso é uma infeliz descoberta sobre características pouco apreciáveis da sociedade brasileira, com insanos entre a própria elite social.
    Já chegamos no limite de nosso declínio de civilidade, ou ainda temos novas frustrações pela frente?
    No ano do Bicentenário, o balanço, para mim, é extremamente constrangedor ao contemplarmos as “realizações” do último meio século.
    Estaríamos em condições de esperar mais?
    Com nossas “elites” parece difícil…

    Brasília, 22/01/2022

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