terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Marcos Rolim: “Brasil precisa de políticas públicas de desradicalização” - Rafael Ciscati (Brasil de Direitos)

 Marcos Rolim apresenta e disseca um amplo panorama e uma análise ponderada e acurada sobre processos de radicalização e desradicalização, não só no Brasil. Um longo caminho na construção de nossa democracia. PRA

Entrevista

Brasil precisa de políticas públicas de desradicalização, defende professor

Na avaliação de Marcos Rolim, sociedade abriu espaço para radicais que ameaçam a democracia. Combate ao extremismo passa por ações educativas e pela regulação das redes sociais


Rafael Ciscati

O Brasil passa por um processo de radicalização política que coloca em risco a democracia. Apesar da gravidade do quadro, as medidas adotadas para deter os extremismos ainda soam tímidas. A avaliação é do sociólogo Marcos Rolim, do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), de Porto Alegre. Segundo ele, em nome da “liberdade de expressão” e sob as bênçãos das plataformas de redes sociais, a sociedade brasileira abriu “espaços da democracia para aqueles que se mobilizam para destruí-la”. 

Rolim estuda processos de radicalização política. A intenção é  entender o que leva uma pessoa a considerar justificável — ou até mesmo a adotar—  ideias e posturas violentas como forma de alcançar objetivos políticos. 

É uma preocupação coerente com o Brasil de 2024. Ainda em novembro deste ano, um radical de direita detonou uma bomba diante do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. E, em 8 de janeiro de 2023, uma horda enfurecida invadiu prédios e vandalizou a Praça dos Três Poderes, na esperança de derrubar o presidente recém-eleito.

Rolim explica que, embora a radicalização política não seja um fenômeno exclusivo da direita, é ela que mais preocupa no Brasil em função da proporção que tomou. Essa forma de extremismo ganha força no meio digital, em fóruns de internet e aplicativos de mensagem cujos participantes estimulam o radicalismo um do outro, dobrando a aposta continuamente: “ Ocorre mais ou menos assim: alguém tem uma posição conservadora mas não violenta. Quando começa a participar de bolhas radicalizadas, percebe que todos os demais compartilham posições tendencialmente violentas. Então percebe que se a sua posição for ainda mais extremada, isso lhe garantirá aprovação e prestígio”, conta Rolim

O radicalismo de direita no Brasil, por fim, carrega uma particularidade perigosa: ele tem representatividade política. “Ainda que sejam minoritários na sociedade, são grupos influentes e muito significativos politicamente, possuem bancadas inteiras que os representam e seus discursos foram “normalizados” nas redes e na mídia”. 

Na avaliação do professor,  reverter esse quadro exige a criação de políticas públicas de desradicalização que atuem em dois eixos: de um lado, envolvam ações educativas; de outro, atuem para regular as plataformas de redes sociais.

Outra medida importante, diz Rolim, é processar e punir extremistas:

“É fundamental transmitir para o conjunto da sociedade essa mensagem: quem tramar golpe de Estado, quem planejar assassinatos, quem reproduzir discursos de ódio, será processado, julgado e preso e as penas serão longas para que os punidos tenham o tempo necessário para refletir e desistir de seus ideais de morte’.

O que é a radicalização política e como identificar um indivíduo radicalizado? 

Marcos Rolim: Se tomarmos os estudos específicos sobre o tema como os trabalhos de  Olivier Roy e Gilles Kepel nos anos 1990, e de  Marc Sageman, como “Understanding Terror Networks” que saiu em 2004, a radicalização política é um fenômeno social que tem sido estudado, internacionalmente, já há pelo menos três décadas.   Antes disso, vários autores e autoras contribuíram teoricamente para a compreensão do fenômeno. Hannah Arendt, especialmente, foi muito importante e penso que seu livro sobre “As Origens do Totalitarismo” é um marco incontornável e, ainda hoje, muito atual.   Não há, nessa trajetória de estudos, um consenso sobre muitos conceitos, mas, como regra, pode-se dizer que se considera que uma pessoa ou um grupo social se radicalizou quando passa a propor, defender ou legitimar ações violentas e letais como meio para alcançar seus objetivos políticos. Há pessoas que se radicalizam apenas cognitivamente, uma parte menor delas vai além e se radicaliza comportalmente. A rigor, qualquer plataforma ideológica ou religiosa pode amparar processos de radicalização.  Pessoas e grupos radicalizados podem pensar de forma muito diversa e compartilhar noções antagônicas, à direita ou à esquerda, sendo cristão, judeus ou muçulmanos – para citar apenas três vertentes monoteístas.  O que todos os grupos radicalizados têm em comum é a disposição de empregar a violência em nome de uma “causa” que passa a oferecer um sentido as suas vidas, a ponto de estarem dispostas também a entregas as suas vidas em nome desse ideal. Funcionalmente, o processo de radicalização é uma preparação para o confronto violento e seu horizonte é sempre a guerra civil.

As pessoas que acamparam diante quartéis em 2022, por exemplo, eram radicais?

Não se pode afirmar isso com certeza para todas elas ou mesmo para a maioria, porque temos poucos dados empíricos a respeito. Algumas características ali presentes, entretanto, sugerem que muitas daquelas pessoas já haviam concluído seu processo de radicalização, enquanto outras estavam se radicalizando.  Não por acaso, aliás, partiram daqueles acampamentos muitos dos que se deslocaram à Brasília para participar da tentativa de golpe do dia 08 de janeiro.  O movimento que essas pessoas integravam – e muitas, certamente, ainda integram – era, claramente, um movimento radicalizado que propôs, desde o primeiro momento, uma ruptura com a ordem democrática, com a solicitação em favor do que chamavam, eufemisticamente, de “Intervenção militar”.  O Brasil e os Poderes constituídos, aliás, assistiram passivamente a ação de um movimento radicalizado que propunha a violência contra esses mesmos Poderes como se aquilo fosse muito normal e expressão da “liberdade de expressão”.   Tudo isso sob a vigência do Código Penal que em seu artigo  286 assinala: “Incitar, publicamente, a prática de crime: Pena – detenção, de 3 (três) a 6 (seis) meses, ou multa. Parágrafo único – Incorre na mesma pena quem incita, publicamente, animosidade entre as Forças Armadas, ou delas contra os poderes constitucionais, as instituições civis ou a sociedade”.   

Parece que uma boa parte dos indivíduos radicalizados no Brasil pertence a uma certa classe média. Não são pessoas em situação de vulnerabilidade, ou que sofram perseguições por pertencerem a grupos minorizados. Levando em conta o contexto brasileiro, existem fatores  que tornem uma pessoa mais ou menos propensa à radicalização?

Há vários fatores que podem desencadear processos de radicalização e não é necessário que uma pessoa ou um grupo social estejam em situação de vulnerabilidade para que se radicalizem. O mais comum, é que determinadas circunstâncias sociais promovam ideias como a da superioridade de um grupo que se imagina detentor de uma “verdade” a qual só ele teve acesso – essas pessoas teriam sido “escolhidas”, assim, para uma “missão”. Esse é um módulo muito comum aos movimentos terroristas de base religiosa. Outras vezes, um determinado grupo social pode se sentir  vítima de uma injustiça, de um logro, de uma manipulação, o que costuma mobilizar sentimentos profundos de ressentimento pré-existentes, etc   Quase sempre, a radicalização depende de uma crença de que a  situação  é  terrível e que os resultados que virão em breve levarão o mundo, o país, as famílias, nossa classe, nossa raça, nossa religião etc para a extinção. Essa enormidade do mal a ser enfrentado, que é sempre um mantra das teorias da conspiração, é exatamente o caminho que irá fazer parecer às pessoas radicalizadas que a opção pela violência é necessária, urgente e até mesmo lógica. Há outros processos que podem envolver dinâmicas de vingança. Assim, por exemplo, as “Viúvas Negras Chechenas” buscavam matar russos como resposta à dor e à humilhação que passaram por terem sido vítimas de estupro e por terem presenciado o assassinato de seus maridos. Os “Tigres Negros” das brigadas suicidas que lutaram pela independência do povo tâmil no Sri Lanka eram sobreviventes de atrocidades cingalesas. Vários dos suicidas palestinos agiram por vingança por conta de ataques das FDI contra vizinhos ou familiares como motivo para o auto-sacrifício e assim sucessivamente. Esse tipo de dinâmica, entretanto, não se verifica no Brasil. A radicalização entre nós é motivada ideologicamente, é criada em bolhas on-line em um processo de deslocamento das posições médias em direção ao extremo pelo desequilíbrio. Ocorre mais ou menos assim: alguém tem uma posição conservadora mas não violenta. Quando começa a participar de bolhas radicalizadas, percebe que todos os demais compartilham posições tendencialmente violentas. Então percebe que se a sua posição for ainda mais extremada, isso lhe garantirá aprovação e prestígio; todos os demais percebem o mesmo e a dinâmica, naturalmente, desloca o grupo para a radicalização crescente.

Há como combater esse processo de radicalização crescente?

Os estudos na área mostram que sim, que é possível e necessário desenvolver políticas de desradicalização. Sabe-se que os fenômenos de radicalização atuais têm sido potencializados pelas interações on-line. Antes das redes sociais, era possível recrutar pessoas para movimentos radicalizados, mas esse processo era muito limitado, porque dependia de interações face a face. Desde as redes sociais e a deep web, os recrutamentos ocorrem on-line e se multiplicam aos milhares através de plataformas oferecidas por impérios de comunicação digital que lucram com a viralização de conteúdos criminosos, com a proposição do ódio, do racismo, da homofobia, da misoginia e com a reprodução ampliada de mentiras que colocam a vida das pessoas em risco e que levam muitas à morte. Um jovem radicalizado que deseje montar uma bomba com potencial para demolir um prédio irá encontrar instruções detalhadas de como fazê-lo nessas plataformas e, também, de como apagar seus rastros e dificultar sua identificação pela polícia.  Movimentos antivacina se espalham entre as  pessoas incultas com a força de uma praga bíblica que irá nos trazer de volta a paralisia infantil, entre outras doenças praticamente erradicadas e, aí, quando se tenta  no Brasil, aprovar uma lei que responsabilize as  plataformas por esse tipo de conteúdo, se dissemina nas bolhas da extrema direita a desinformação de que “querem censurar a Internet”.  Então, a regulamentação das plataformas é uma medida essencial. Pouca gente soube, mas o bolsonarista que tentou explodir o STF foi radicalizado no movimento “QAnon”, uma das grandes Teorias da Conspiração disseminadas por “chans” na “deep web”, como a pesquisa do Stop Hate Brasil identificou a partir do processamento com IA do conjunto de postagens do terrorista. 

 A radicalização política observada no Brasil, hoje, é um fenômeno exclusivo da extrema direita?

Não é um fenômeno exclusivo da extrema direita. Há alguns pequenos grupos de extrema esquerda radicalizados ou em processo de radicalização no Brasil também, mas são grupos que não possuem qualquer expressão e não têm um só vereador eleito em todo o Brasil. Já os grupos radicalizados de extrema direita mobilizam milhões de pessoas. Ainda que sejam minoritários na sociedade, são grupos influentes e muito significativos politicamente, possuem bancadas inteiras que os representam e seus discursos foram “normalizados” nas redes e na mídia, sem que a ampla maioria das pessoas se dê conta de que estamos dando espaços da democracia para aqueles que se mobilizam para destruí-la.  Aqui seria importante retomar uma das mais qualificadas vertentes do pensamento liberal representada pela obra magistral de Karl Popper, “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, referida como “o paradoxo da liberdade”. Uma ideia cuja síntese é: não podemos tolerar a intolerância.

 No artigo publicado no Fonte Segura (boletim enviado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o senhor aponta que um caminho importante para conter a radicalização é responsabilizar e punir sujeitos que cometem atos extremos. Vários indivíduos que participaram da invasão à Praça dos Três Poderes foram presos. Mesmo assim, houve um atentado à bomba contra o STF recentemente. A via da responsabilização não é suficiente?

 A Alemanha, não por acaso, é, possivelmente, o país onde mais se avançou em estudos sobre radicalização e desrradicalização, o que tem se refletido em uma alta consciência sobre a necessidade de se reprimir movimentos radicalizados. Em diferentes operações policiais, grupos radicalizados, todos de perfil neonazistas, têm sido identificados e presos, o que é uma estratégia muito importante para a desrradicalização.  É fundamental transmitir para o conjunto da sociedade essa mensagem: quem tramar golpe de Estado, quem planejar assassinatos, quem reproduzir discursos de ódio, será processado, julgado e preso e as penas serão longas para que os punidos tenham o tempo necessário para refletir e desistir de seus ideais de morte. Se tivermos isso presente, fica claro que o processo de responsabilização em curso no Brasil pelo 8 de janeiro está apenas no seu início.  Além daquela massa de manobra, é preciso processar, julgar e punir os que as manobraram. Se isso ocorrer, e nunca se sabe, né, bem isso terá um efeito extraordinário por seu símbolo. Em um país que viu torturadores e assassinos da ditadura serem promovidos, aposentados e elogiados publicamente, não será pouco mandar golpistas para a cadeia.  É claro, entretanto, que a punição não é suficiente. Os governantes precisam produzir iniciativas mais amplas de desrradicalização e a sociedade civil deve debater esse tema. Há iniciativas importantes a tomar no sistema educacional, por exemplo, porque já estamos vivendo uma dinâmica de radicalização que alcança adolescentes.  A dificuldade maior aqui, como em tantos outros temas, é a ausência de uma cultura de política pública com base em evidências. No Brasil, somos apaixonados por narrativas ideológicas. Poucas pessoas, incluindo poucos políticos e gestores, lidam com evidências científicas, o que forma um cenário que torna os processos de radicalização mais fáceis. Nos faltam muitas coisas como nação, entre elas a coragem cívica, o ceticismo e a determinação de conhecer.

 Em um outro artigo, o senhor fala em processos de desradicalização coletiva conduzidos por lideranças que abandonam sua ideologia. O senhor vislumbra algo semelhante acontecendo no Brasil hoje?

 Há muitas pessoas que já foram radicalizadas e que superaram essa perspectiva. Uma boa parte da militância de esquerda sob a ditadura, por exemplo, se formou em um processo de radicalização e, desde o início da democratização, foi se distanciando dos pressupostos violentos que compartilhou. Eu mesmo vivi isso muito de perto e considero que integrei movimentos radicalizados em minha juventude. Evidente que regimes ditatoriais que impedem a luta política e que se mantém no Poder pelo arbítrio, pela prática da tortura e dos assassinatos irá ensejar resistência; um tipo de procedimento que foi, aliás, acolhido pela mais forte tradição liberal que sempre valorizou a resistência contra os tiranos, pacífica ou não.  Determinadas perspectivas ideológicas entre a esquerda, entretanto, como muitas das que se reivindicam do marxismo, por exemplo, assumiram a ideia da “Revolução” como sinônimo de luta armada e, em muitas oportunidades, na América Latina e em outras regiões, travaram a luta armada dentro de regimes democráticos o que não se pode tolerar.  Nem todos os que se envolveram nesses processos completaram um ciclo coerente autocrítico, mas, efetivamente, nenhuma dessas pessoas cogita o emprego de métodos violentos nas disputas políticas, o que é um resultado muito importante em termos históricos. Para uma referência mais recente, basta ter presente o processo de paz na Colômbia, por exemplo.  Atualmente, já temos no Brasil várias pessoas que se radicalizaram com o bolsonarismo e que conseguiram sair da “toca do coelho”, para usar uma expressão muito usado na literatura internacional para se referir ao processo de radicalização. Algumas dessa pessoas mantém posições ideologicamente de direita e seguirão votando em partidos conservadores – o que é da democracia, mas não querem saber de mais ódio, nem se dispõe a ser massa de manobra de espertalhões que compram mansões com dinheiro vivo e de covardes que açulam o povo enquanto preparam planos de fuga.  Será preciso que esse processo se amplie e que novos desiludidos surjam às centenas de milhares.


Justiça Companheira - Editorial Estadão

 JUSTIÇA COMPANHEIRA

Se fosse estadista, Lula se empenharia em desarmar o círculo vicioso de politização da Justiça e judicialização da política. Como não é, está colonizando a Justiça com leais servidores

O ESTADO DE SÃO PAULO - 16/12/2024 

Há tempos as pesquisas de opinião registram que a credibilidade do Judiciário junto à população, em especial a do Supremo Tribunal Federal (STF), diminuiu na exata proporção em que cresce a percepção de seu protagonismo político. Há pelo menos dez anos está em curso um círculo vicioso e antirrepublicano que não dá sinais de arrefecer: a judicialização da política retroalimentada pela politização da Justiça.

Há razões estruturais para isso. A Constituição de 1988 é um documento excessivamente abrangente e prolixo que, como já notou o presidente do STF, Luís Roberto Barroso, “constitucionalizou inúmeras matérias que, em outras partes do mundo, são deixadas para a política”.

Mas há razões conjunturais. Os freios e contrapesos estão estiolados. Sob chefes do Executivo fragilizados, o Congresso assumiu para si prerrogativas exorbitantes, mormente sobre o Orçamento, gestando uma espécie de parlamentarismo bastardo, em que os caciques têm muito poder e pouca responsabilidade. Com o colapso do presidencialismo de coalizão, ante um Legislativo indócil, o Executivo tem buscado no Judiciário um fiador da governabilidade.

Chamada para a dança política, a Suprema Corte não se fez de rogada, e tomou gosto em atuar ora como poder moderador da República, ora como poder tensionador, seja ditando políticas públicas às instâncias executivas, seja legislando a pretexto da “omissão” das Casas Legislativas. Na Lava Jato, instâncias inferiores do Judiciário se auto-outorgaram uma espécie de “competência universal de combate à corrupção”. Hoje, é o STF quem assume para si uma “competência universal de defesa da democracia”.

Os próprios representantes eleitos contribuem para a politização da Justiça. Partidos nanicos, sobretudo de esquerda, abusam do tapetão judiciário para reverter ou impor nas cortes causas que perderam no voto. “Nós temos culpa de tanta judicialização”, confessou ninguém menos que o presidente Lula da Silva, no início de seu mandato, num raro surto de sinceridade. “A gente perde uma coisa no Congresso Nacional e, ao invés de a gente aceitar a regra do jogo democrático de que a maioria vence e a minoria cumpre aquilo que foi aprovado, a gente recorre a uma outra instância para ver se a gente consegue ganhar.”

Se fosse o estadista que finge ser, Lula teria buscado sanear esse estado de coisas, desestimulando seus partidários de recorrerem ao tapetão sempre que perdem no voto e fazendo indicações técnicas para a Justiça. Ao contrário, Lula mandou às favas o pudor e o notório saber jurídico e indicou para o STF seu amigo e advogado Cristiano Zanin e o também amigo e correligionário Flávio Dino, realizando um “sonho antigo” de instalar nele alguém com “cabeça política”.

A colonização da Justiça não para por aí. Como mostrou reportagem do Estadão, Lula tem se dedicado com afinco a forrar não só o Executivo, mas tribunais superiores e regionais, além de órgãos e autarquias com leais servidores. As nomeações ligadas ao grupo de advogados militantes de esquerda Prerrogativas chegam às dezenas.

Respeitadas as prioridades técnicas, seria natural indicar figuras que compartilhem de uma visão progressista sobre a coisa pública. Mas não se trata apenas de alinhamento ideológico. Se fosse, a indicação de Joaquim Barbosa ao STF, em 2003, não seria considerada “desastrosa”, como disse um interlocutor próximo ao presidente à reportagem. Do que se sabe de suas manifestações públicas, Barbosa comunga dos ideais progressistas, mas seu pecado foi ter aplicado a lei no julgamento do mensalão petista.

“Estou convencido que tentar mexer na Suprema Corte para colocar amigo, para colocar companheiro, para colocar partidário é um atraso”, disse o então candidato Lula na disputa presidencial de 2022. Já o presidente Lula parece convencido de que se trata de um avanço. “A gente ganhou mais malícia”, disse o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do Prerrogativas e amigo de Lula. Quando a malícia é critério para indicações na Justiça, o corolário, por necessidade lógica, é um só: más escolhas e más consequências para a legitimidade do Judiciário.

A Lula o que é de Lula

O petista diz que o governo falha ao comunicar suas conquistas à população e avisa que vai ‘falar mais’. Mas esse é precisamente o problema: sempre que Lula fala, os problemas se agravam

Por Notas & Informações - 16/12/2024 

Ao participar do encerramento de um seminário do PT destinado a debater os rumos do partido – aquele tipo de encontro em que o comissariado petista costuma reafirmar vícios do passado para aprimorá-los no futuro –, o presidente Lula da Silva fez uma crítica contundente à comunicação do governo. “Há um erro do governo na questão da comunicação e sou obrigado a fazer as correções necessárias”, disse o presidente, em declaração interpretada como um prenúncio de que em breve trocará o responsável pela área, o desgastado ministro Paulo Pimenta, da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República. “Quero começar a resolver no começo de ano”, avisou. Apoquentado com o que considera um abismo entre suas grandes realizações e a tépida aprovação popular, Lula endossou e inflamou as queixas já recorrentes num tema que ganha evidência toda vez que o demiurgo sente que seus poderes divinos não estão sendo bem compreendidos.

A fala amuada de Lula contra a comunicação do seu governo até adquiriu contornos inéditos pelas palavras duras que escolheu, mas na prática ele só repetiu o velho hábito de terceirizar a responsabilidade por problemas que nascem, no fundo, no próprio gabinete presidencial. A Lula o que é de Lula: a despeito da inquestionável má qualidade da comunicação no atual mandato e do baixo nível de conhecimento dos seus artífices sobre as dinâmicas do ambiente digital, o defeito de origem está no produto, não no marketing destinado a vendê-lo. O fato é que não há ministro, marketing político ou estratégia de qualidade capaz de vender um produto ruim.

Ocorre que, com a fritura pública de Pimenta, a bolsa de apostas para substituí-lo já tem até favorito: o marqueteiro do presidente na eleição vitoriosa de 2022, Sidônio Palmeira, ideia que teria ganhado corpo após o ruidoso anúncio que misturou, em rede nacional de rádio e TV, o pacote de ajuste fiscal e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil. Coube a Sidônio a ideia de combinar as duas coisas e adornar a fala do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, convertida no primeiro ato de uma campanha institucional, lançada com slogan marqueteiro e consistência duvidosa. A mistura, o timing e a forma do anúncio provocaram estragos adicionais em um pacote que deveria comprovar a alegada sobriedade econômica do governo, mas foi levado adiante como peça de propaganda eleitoral. Ao que parece, contudo, Lula considerou a operação um sucesso.

Não faltou nem mesmo a velha tática de afetar humildade, quando Lula se incluiu entre os responsáveis pelos problemas de comunicação: “Há um equívoco meu na comunicação. O Stuckert (referência a seu fotógrafo oficial, Ricardo Stuckert) costuma dizer ‘presidente, o senhor é o maior comunicador do nosso partido, o senhor tem que falar mais’. E a verdade é que não tenho organizado as entrevistas coletivas”. Então estamos combinados: Lula, que já fala pelos cotovelos, avisou que vai “falar mais”.

E talvez seja exatamente esse o problema. Quando Lula fala, quase sempre de improviso, ou cria expectativas incompatíveis com a capacidade do governo de realizá-las, ou constrange a equipe econômica com discursos demagógicos que contrariam o compromisso com a saúde das contas públicas. O resultado é a crescente falta de credibilidade do governo.

Mas Lula está convencido de que seu governo é um primor e que a maioria dos brasileiros se convenceria disso se o presidente concedesse “mais entrevistas” – sobretudo para meios escolhidos a dedo pelo Palácio por deixarem Lula à vontade.

Enquanto isso, Lula não comenta sobre os problemas de coordenação política (liderada por ele mesmo), ou sobre a falta de um núcleo dirigente no Planalto capaz de corrigir os rumos ditados pelo presidente, ou ainda sobre a malaise provocada por um governo que chega envelhecido à metade do mandato. Como se vê, o que o presidente espera da comunicação do seu governo é algo que diz respeito mais a ele próprio. Uma certeza que só escancara a inutilidade do debate proposto na reunião do PT.

Mercator Institute for China Studies (MERICS) - Mercator Institute for China Studies (MERICS)

 Mercator Institute for China Studies (MERICS)

Quantum Technology for communications: China

China sees quantum technology as pivotal in global science and tech competition. It has stepped up government spending on scientific and industrial development to about USD 15 billion. At the same time, Beijing has increased secrecy and raised restrictions on the transfer of quantum-related knowledge outside the country.

According to MERICS experts Antonia Hmaidi and Jeroen Groenewegen-Lau, “current global competition in quantum technology is similar to that over nuclear capabilities during the early Cold War. Whoever develops quantum technologies first will have palpable military advantages in cryptology, detection and information processing, not to mention a symbolic victory in a tech field all global powers agree is of strategic significance.” 

In a new MERICS Report, they zoom in on China’s quantum ambitions. The report is part of a series of publications from the MERICS China Tech Observatory, a project funded by the Federal Ministry of Research and Education (Bundesministerium für Bildung und Forschung).

Key takeaways: 

📃China now publishes more quantum-related research papers annually than any other country, including the US. 

⏳As an early-stage technology, quantum computing and communication are the perfect research mission for China. They require long-term planning and large state investments, closely resembling past research missions. 

📡China leads the world in quantum communications, where it boasts the world’s largest quantum communication network, which includes two quantum satellites. 

🥇European countries are leaders in quantum research but have struggled to translate these research results into practical applications. 

🤝The EU should move beyond protecting technological advances by stepping up union-wide efforts to promote the scientific and industrial development of quantum capabilities. 

Links in the first comment.

🖇️ China’s long-term bet on quantum tech may leave the US and EU scrambling to catch up - MERICS Report by Antonia Hmaidi and Jeroen Groenewegen-Lau: https://merics.org/en/report/chinas-long-view-quantum-tech-has-us-and-eu-playing-catch

🖇️ Explore the MERICS China Tech Observatory: https://merics.org/en/china-tech-observatory



segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Acordo Mercosul-UE: dois blocos protecionistas concluem um acordo protecionista - PRA e Jamil Chade

 O último parágrafo confirma o meu titulo:

Acordo Mercosul-UE prevê suspensão por violar pacto do clima e punição por ataques à democracia

Por Jamil Chade 

O acordo entre Mercosul e União Europeia estabelece a suspensão do pacto caso alguma das partes viole o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas ou mesmo promova uma ruptura democrática. Mas o governo brasileiro conseguiu adiar a abertura do seu mercado de automóveis, que estará livre de tarifas apenas em 30 anos. Setores estratégicos que tinham sido abertos no governo de Jair Bolsonaro foram preservados.

Fechado na semana passada depois de 25 anos de negociações, o texto do acordo apenas está sendo divulgado nesta terça-feira no site da União Europeia e pelo governo brasileiro.

A publicação revela que o Itamaraty conseguiu desfazer concessões dadas por Jair Bolsonaro durante as negociações em 2019, preservando setores da economia nacional. Naquele ano, o ex-presidente ordenou que o pacto com a Europa fosse acelerado para que um anúncio fosse feito. No processo, abriu mão da proteção no setor automotivo, minérios e segmentos estratégicos como saúde e educação.

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/12/10/acordo-mercosul-ue-preve-punicao-por-violar-pacto-do-clima-ou-democracia.htm?cmpid=copiaecola 

Edição atual, 27, 2024, da Revista de História Econômica e História de Empresas

 Edição atual, 27, 2024, da Revista de História Econômica e História de Empresas

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Venezuela: morte de mais um preso político sob custódia do regime: alguma Nota do Itamaraty em vista? - Paulo Roberto de Almeida

 Não sei se o setor de Notas do Itamaraty vai preparar alguma nota a esse respeito:

Autoridades venezuelanas entregam corpo em decomposição de preso político.

Jesús Álvarez é o segundo preso durante os protestos contra Nicolás Maduro a morrer sob custódia do regime.”

Não sei se o Palácio do Planalto vai autorizar a publicação de uma nota, que só pode ser, conhecendo o brio de meus colegas do Itamaraty, de veemente protesto contra a iniquidade do regine chavista, que perpetrou mais um crime de um imenso rol de violência e exações já acumuladas contra manifestantes pacíficos, por parte de uma ditadura assassina.

Não sei se o Palácio Miraflores vai, uma vez mais e novamente, responder num tom zombeteiro contra o Brasil, dizendo a Lula para não interferir nos assuntos internos do país.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 16/12/2024

Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...