quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Brasil fica de fora de parceria por florestas na COP27 - Phillippe Watanabe (FSP)

 Até o final do desgoverno Bolsonaro, o Brasil permanecerá um pária ambiental

Brasil fica de fora de parceria por florestas na COP27

Iniciativa apresentada pelo Reino Unido inclui outros países amazônicos, como a Colômbia e o Equador

8.nov.2022 às 16h34
Atualizado: 8.nov.2022 às 19h24
Phillippe Watanabe

Para verificar os avanços na conservação das florestas, foi anunciada nesta segunda-feira (7) na COP27, a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudanças climáticas, a Parceria de Líderes para Floresta e Clima.

A iniciativa conta com 26 países e a União Europeia. Chama a atenção, porém, a ausência do Brasil, lar da Amazônia, maior florestal tropical do planeta —e também o país que lidera a derrubada. O Itamaraty, em nota, afirma que há foros com melhor formato para "tratar das necessidades dos países em desenvolvimento".

Há a presença de países amazônicos, como a Colômbia e o Equador, na lista de parceiros, além de outras nações com expressivas florestas, como a Indonésia e o Congo (a maior fatia de floresta da região fica, no entanto, na República Democrática do Congo, que não assinou a parceria).

"Ao se juntar, os países se comprometem a liderar pelo exemplo na implementação de suas metas e lutar para serem mais ambiciosos com o tempo", diz o documento de lançamento. Anualmente, os países que entraram no pacto terão que fazer um balanço da situação. Veja abaixo a lista de países que fazem parte da nova parceria.

A iniciativa tem relação direta com a Declaração de Florestas, que foi anunciada na COP26, ocorrida no ano passado em Glasgow, Reino Unido. Na ocasião, o Brasil assinou a declaração, que apontava o "comprometimento em trabalhar conjuntamente para frear e reverter a perda de floresta e a degradação do solo até 2030".

A nova parceria foi anunciada pelo Reino Unido e será inicialmente presidida pelos Estados Unidos e por Gana. A primeira reunião do grupo ocorrerá no dia 12 de novembro, ou seja, ainda durante a COP27 (o evento se estende até o dia 18, no Egito). Os membros do grupo já discutirão os progressos ou não desde a COP26.

Caso o Brasil fizesse parte do novo grupo, os dados mostrariam uma situação de desmatamento tão grave quanto a observada em 2021. As ações ambientais do governo Jair Bolsonaro (PL) não sofreram alterações nesse período —desde o início da atual administração houve discursos que minimizaram a destruição da Amazônia, além de falas críticas à atuação de órgãos de fiscalização.

Procurado pela Folha, o Itamaraty diz que não houve adesão do Brasil à nova parceria porque há foros melhores e mais ambiciosos.

"Embora tenha aderido à Declaração de Florestas lançada pelo Reino Unido informalmente em evento paralelo na COP26 em Glasgow, não consideramos que esta nova iniciativa na COP27 –o FCLP– ofereça o melhor formato para tratar das necessidades dos países em desenvolvimento", afirma o órgão, em nota.

Para o Itamaraty, seria melhor que o Fundo Verde para o Clima renovasse o programa de pagamento por redução de desmatamento, "que vem enfrentando resistências de países desenvolvidos". "Assinale-se, também, que outros países em desenvolvimento detentores de grandes florestas tropicais tampouco integram o FCLP [a parceria]", completa.

Os membros da nova parceria também se comprometem a liderar em pelo menos uma das seguintes áreas: colaboração internacional na economia do uso sustentável da terra; mobilização de financiamento público e de doadores para implementação; direcionamento no sistema financeiro privado; apoio a iniciativas de comunidades locais e de povos indígenas; fortalecer e escalar mercados de carbono para florestas —um tema caro ao Brasil—; e incentivos e parcerias para preservação de florestas altamente conservadas.

O Reino Unido, na esteira da parceria, anunciou a destinação de 90 milhões de libras esterlinas (cerca de R$ 535 milhões) para conservação da floresta tropical no Congo, na África.

Além disso, o país também confirmou a destinação de 65 milhões de libras (aproximadamente R$ 386 milhões) para o Fundo Nature, People and Climate Investment, que tem por objetivo o auxílio a povos indígenas e comunidades que vivem nas florestas.

PAÍSES QUE COMPÕEM A PARCERIA DE FLORESTAS E LÍDERES CLIMÁTICOS:

Austrália
Canadá
Colômbia
Congo
Costa Rica
Equador
União Europeia
Finlândia
Fiji
França
Gabão
Alemanha
Gana
Guiana
Indonésia (ainda considerando a entrada)
Japão
Quênia
Coreia do Sul
Países Baixos
Nigéria
Noruega
Paquistão
Singapura
Suécia
Tanzânia
Reino Unido
Estados Unidos

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.



Amazônia deve ter reservas multinacionais, diz Petro à Folha

Presidente da Colômbia afirma na COP27 que com mudança política no Brasil é possível iniciar uma agenda de cooperação para salvar a floresta

8.nov.2022 às 17h09
Atualizado: 8.nov.2022 às 17h23

Ana Carolina Amaral
SHARM EL-SHEIKH (EGITO)

"Com a mudança política no Brasil, podemos iniciar uma agenda de cooperação para salvar a floresta amazônica", disse à Folha o presidente colombiano, Gustavo Petro, na COP27, conferência do clima da ONU, que vai até o dia 18, no Egito.

"Penso que deve haver reservas multinacionais, é claro que sem perder a soberania nacional de cada país", ele respondeu, nesta terça-feira (8), ao ser questionado sobre as propostas de integração de territórios protegidos dos países que compartilham o bioma amazônico.

A principal ideia sobre os mosaicos de conservação —que conectam territórios de diferentes unidades de conservação, permitindo maior variedade biológica e resiliência— é da organização colombiana Gaia Amazonas. Ela vinha articulando com países amazônicos a criação do corredor triplo A, que conectaria áreas protegidas de três regiões com nomes iniciados nessa letra: Amazônia, Andes e Atlântico, unindo, segundo o plano, 309 áreas protegidas.

Em 2018, a proposta motivou receios do então recém-eleito governo de Jair Bolsonaro (PL) sobre a possível perda da soberania nacional sobre o território que integrasse o mosaico. Nos governos anteriores, no entanto, a ideia já tinha dificuldades de avançar por falta de interlocução do governo brasileiro com a pauta.

"Esse tema é complicado, porque se usa [como argumento] a floresta como bem natural da humanidade para tirar a soberania. Não creio que esse é o caso", disse Petro.

"As mesmas soberanias nacionais que existem sobre as florestas podem gerar os mecanismos multinacionais que permitam reservas com continuidade geográfica entre os países", completou.

Em fala a jornalistas na saída do pavilhão da Colômbia na COP, Petro foi perguntado sobre o impacto ambiental da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por diferentes veículos de imprensa.

"O Brasil é estratégico, pelo tamanho da floresta amazônica no Brasil. Sem ele, os esforços se tornam inócuos. Com o Brasil, é preciso que se dê esse passo fundamental. Trata-se de voltar à fronteira nacional da floresta", afirmou. "E [a conservação] vale dinheiro."

Para Petro, é necessário um fundo com "uma constância através dos anos, pelo menos duas décadas, para alcançar o objetivo de ver nascer floresta onde havia estrada e ver segurança em zonas onde havia perigo".

Em discurso na conferência na segunda-feira (7), Petro disse que a Colômbia mobilizará US$ 200 milhões por ano durante 20 anos para a conservação da Amazônia.

O novo chefe de Estado colombiano, que assumiu em agosto após uma vitória inédita da esquerda no país, encontrou-se no estande da Colômbia na COP27 com indígenas de diferentes regiões do mundo, incluindo o colombiano Dario Mejia Montalvo, presidente do fórum permanente da ONU sobre questões indígenas.

Na reunião, defendeu a abordagem indígena sobre a conservação ambiental conectada à cultura e às comunidades. "Conservar a floresta é a segunda maior medida para combater a mudança climática. A primeira é se livrar dos combustíveis fósseis", pontuou no evento.

O estande colombiano também recebeu nesta terça-feira o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e o líder do Suriname, Chan Santokhi.

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.


Começa a transição no Itamaraty com uma nomeação sugestiva - Lauro jardim (O Globo)

 Começa a transição no Itamaraty com uma nomeação sugestiva

Por Lauro Jardim
09/11/2022 08h27  Atualizado há 38 minutos

Começou a ser montado o gabinete de transição no Itamaraty. E sugestivamente o coordenador será Audo Faleiro, o embaixador que foi afastado por Ernesto Araújo da chefia da Divisão de Europa do Itamaraty, apenas quatro dias depois de ter sido nomeado.

Tudo indica que a exoneração tenha sido uma clássica caça às bruxas bolsonarista: numa de suas muitas funções na carreira, assessorou Marco Aurélio Garcia, ex- assessor internacional de Lula.


Política externa universalista? - Sergio Couri (FSP)

 TENDÊNCIAS / DEBATES

Sergio Couri

Política externa universalista?

A partir de agora, fecham-se os espaços para casuísmos e improvisações

FSP, 8.nov.2022 às 21h00

A política externa brasileira dita "universalista" teve seu berço em 1960, quando Jânio Quadros rompeu relações com os "bálticos" —como eram conhecidos os governos dos países do Leste Europeu no exílio— e enviou à região a missão Dantas.

Assentou-se em um olhar igual para o Ocidente, para aquele conjunto de países da Europa Oriental e para o terceiro mundo. Após 1990, com o fim do conflito leste-oeste, saem de cena os segundos como bloco político e entram em cena os emergentes asiáticos.

De uma ótica de longo prazo, o universalismo tem sido o parâmetro maior da política externa brasileira. Seus movimentos básicos são a política externa independente, quando a política interna se desloca da direita para a esquerda, e o pragmatismo responsável, se no sentido inverso.

Está sujeito, não obstante, a oscilações, como a participação do Brasil, em 1965, na Força Interamericana de Paz da OEA que interveio na República Dominicana —um recuo aos anos 1946-60, quando a Guerra Fria impunha ao Brasil estratégia de alta coesão com os Estados Unidos. "Não culpe o Itamaraty pelo que faz o Laranjeiras", diria o chanceler Vasco Leitão da Cunha ao receber do embaixador do país caribenho uma nota de protesto pela ocupação.

A partir de 2003, a política universalista seria alvo de interpelação por parte de segmentos conservadores da sociedade brasileira ante a disposição do Brasil de intensificar relações com países do terceiro mundo de modelo socializante. O clima se anuviaria com a visita, em 2007, do presidente George W. Bush.

Mais recentemente, o biênio 2019-20 também projetaria sombras sobre esse universalismo em face de uma política externa de declaradas preferências e preterições, o que começaria a mudar a partir de 2021.

O universalismo brasileiro é, contudo, de sustentabilidade real, porquanto suas raízes mais profundas são a estruturação do Brasil no cenário internacional, marcada por sua condição de país ocidental, pan-americano, sul-americano, sul-atlântico, multirracial e sem revisionismos ativos ou passivos, além de aberto para a cooperação internacional polidirecionada por sua própria amplidão geográfica e mercadológica.

Regida, assim, por uma mecânica que, qual na física newtoniana, a traz de volta ao universalismo como seu próprio ponto de equilíbrio, a política externa brasileira não tem como desafio maior mantê-lo, mas definir, a cada etapa das relações internacionais, o que pretende fazer com ele, que é seu ponto de partida, não de chegada.

Nestes tempos, o processo internacional estaria a indicar ao Brasil elaborar e executar estratégias sofisticadas de inserção global, com novas concepções, fórmulas, métodos, técnicas e instrumentos, que passam pela reorganização administrativa interna e delineamento de novas identidades e posturas profissionais dos atores brasileiros nas relações internacionais.

Trata-se não só de buscar "mais do mesmo", mas de lançar vetores novos de ação externa, com integração do conhecimento, da experiência, da imaginação e de uma lógica futurista, o que significa renovação ampla do fazer externo, ainda que sem abandono de hígidas tradições.

Num mundo cada vez mais interdependente na economia e tecnologia, que arrastam consigo a política, a ação externa não deve prescindir de metas de desempenho em medições como fluxo de comércio, de investimentos, cadeias de valor globais, termos de intercâmbio, "risco Brasil" e emissão de gás carbono, entre tantas outras relevantes.

Fecham-se os espaços para casuísmos e improvisações. Relações exteriores como que passaram a compor uma equação única de múltiplas variáveis, pedindo soluções compatíveis entre si e modelos sistêmicos e executivos, tão técnicos quanto políticos.

Esse é o desafio que o próximo quadriênio trará no campo das relações internacionais, ante a necessidade inadiável de o Brasil aprimorá-las como caudal de retomada do crescimento.


https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/11/politica-externa-universalista.shtm

Pobres pagam mais impostos no Brasil - BBC Brasil

 Por que donos de empresas geralmente pagam menos impostos do que seus funcionários no Brasil

  • Camilla Veras Mota - @cavmota
  • Da BBC News Brasil em São Paulo
Totem da Receita Federal

CRÉDITO, MARCELO CAMARGO/AG. BRASIL

Legenda da foto, 

Sistema de tributação sobre o consumo do Brasil é um dos 'piores do mundo', avalia especialista da Universidade de Leeds

"Eu, como CEO da companhia, pago menos imposto do que um operador de caixa da minha empresa. Isso é uma vergonha."

Foi com essa comparação que o empresário Sergio Zimerman defendeu, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na segunda-feira (7/11), uma reforma do sistema tributário brasileiro. 

Com o exemplo pessoal, o fundador da rede de pet shops Petz argumentava que a ênfase na cobrança de impostos sobre o consumo — em vez da renda ou do patrimônio, por exemplo — concentra riqueza.

De fato, os mais pobres no Brasil pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos. Essa é uma dinâmica que vai no sentido contrário do que diz a Constituição, segundo a qual, "sempre que possível, os impostos serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte" (Artigo 145). Ou seja, quem ganha mais deveria pagar mais.

A seguir, a BBC News Brasil discute em três gráficos algumas das distorções que explicam por que o conjunto de regras tributárias do país penaliza os mais pobres e permite, em algumas situações, que donos de empresas paguem proporcionalmente menos impostos do que seus próprios funcionários. 

Porquinho, dinheiro e calculadora

CRÉDITO, GETTY IMAGES

Legenda da foto, 

Vigente no Brasil desde 1996, isenção da tributação de lucros e dividendos é adotada em poucos países

Tributação concentrada no consumo

Em 2021, o governo arrecadou R$ 2,94 trilhões em impostos. A maior parte, 43,5%, veio da cobrança de tributos sobre bens e serviços. 

Um montante de R$ 1,28 trilhão, incluídos aí os tributos cobrados pelas três esferas: municipal (ISS), estadual (ICMS) e federal (IPI, PIS/Cofins).

A ênfase do sistema tributário brasileiro em impostos sobre o consumo é típica de países com baixo desenvolvimento socioeconômico, explica a professora de direito tributário da Universidade de Leeds Rita de la Feria. 

"Os países com nível de desenvolvimento mais alto tendem a dar mais importância à tributação sobre a renda dos indivíduos", ela destaca. 

Distribuição da carga tributária no Brasil. Em proporção do total (%) - 2021.  .
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Logo: Brasil Partido

Fim do Podcast

Incidência da tributação indireta na renda total. Por décimos de renda familiar per capita.  .
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Debate da PEC 110 na CCJ do Senado em 2019

CRÉDITO, FABIO RODRIGUES POZZEBOM/AG. BRASIL

Legenda da foto, 

Alíquota efetiva média do IRPF (%). Por faixa de renda - em salários mínimos mensais.  .
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terça-feira, 8 de novembro de 2022

Lula e a política externa do novo governo - Rubens Barbosa (Estadão)

LULA E A POLÍTICA EXTERNA DO NOVO GOVERNO

 Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 8/11/2022


No primeiro pronunciamento público, depois do anúncio dos resultados da eleição, o presidente eleito mencionou as principais prioridades de seu futuro governo na área externa. Lula ressaltou que o Brasil estará de volta ao cenário internacional com o protagonismo que gozava no passado, com o objetivo de recuperar a credibilidade, previsibilidade e a estabilidade para trazer de volta os investimentos externos. Enfatizou que o Brasil vai buscar um comércio internacional mais justo e retomar as parcerias com os EUA e a União Europeia, em novas bases. Nesse contexto, mencionou que não interessa ao Brasil acordos comerciais que condenem nosso país ao eterno papel de exportador de commodities e matéria prima. Seu governo irá apoiar uma nova governança global e, nas Nações Unidas, a reforma do seu Conselho de Segurança com o aumento do número de países com assento permanente e o fim do atual direito de veto. Vai combater a fome e a desigualdade no mundo e promover a paz. Destacou a importância do meio ambiente e a proteção da Amazônia, no contexto da política externa. Comprometeu-se a implementar políticas para o monitoramento e vigilância na Amazônia, a combater as atividades ilegais na região e a definir políticas para o desenvolvimento sustentável das comunidades amazônicas. Isso, além de retomar a cooperação internacional para a preservação da Florestas e dos povos indígenas. Afirmou que não quer guerra pelo meio ambiente e que a soberania do Brasil sobre a Amazonia não está em questão. Essas prioridades devem ser complementadas pelas incluídas na Carta para o Brasil de Amanhã, onde se dá importância à integração regional, ao Mercosul e a outras iniciativas latino-americanas, bem como ao diálogo com os BRICS, com os países da África, e ao fim do isolamento e a ampliação do comércio exterior e da cooperação tecnológica.

            É claro que o discurso da vitória não poderia descer a todos os temas, porém, chama a atenção algumas omissões importantes. Não houve qualquer referência ao cenário externo complexo: os efeitos da pandemia e a guerra da Ucrânia, nem a confrontação entre os EUA e China, com reflexos geopolíticos e econômico-comercias que poderão afetar os interesses brasileiros. A China, principal parceiro do Brasil não foi mencionada, nem as negociações sobre o ingresso na OCDE, iniciados por Dilma Rousseff. A menção `a possibilidade de renegociação do acordo comercial com a União Europeia, pronto para ser assinado, e de interesse dos países membros do Mercosul, motivou imediata reação da porta-voz de comércio exterior da UE, contrária `a reabertura dos entendimentos. Outro tema delicado é a informação de que os entendimentos com a OCDE seriam congelados, o que contraria o interesse do setor privado. Finalmente, no tocante à América do Sul, é possível antecipar uma mudança radical no relacionamento com a Venezuela, com relações normais, e a reabertura dos Consulados brasileiros para permitir a assistência de brasileiros naquele país, além da possibilidade de uma ação pró-ativa para ajudar o processo de democratização, como mencionado por Lula durante a campanha eleitoral.

As prioridades refletem as convicções pessoais do presidente eleito e a linha partidária do PT. As omissões mostram o cuidado para não mostrar tendências ideológicas que se afastariam das posições das forças políticas que o apoiaram. Na formulação de políticas de acordo com essas diretrizes gerais, medidas práticas tenderão a ser matizadas por sugestões que deverão ser apresentadas pelos partidos que apoiaram e viabilizaram a vitória. O futuro governo, não só na área externa, mas em todas as outras áreas, deverá ser o resultado desse entendimento.

O mundo mudou e o Brasil mudou. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia deixou o cenário internacional mais complexo e inseguro, com profundas consequências em todos os países. Promovida pelos EUA, a perspectiva de divisão do mundo, entre o campo democrático e autoritário coloca novos desafios geopolíticos para a diplomacia. Está se configurando uma nova Guerra Fria, entre o Ocidente e a Eurásia, não ideológica e militar, como ocorreu com a então União Soviética, mas de competição econômica, comercial e tecnológica. O Brasil deveria manter posição equidistante, sem escolher lados, visando sempre a defesa do interesse nacional.

A pandemia e a guerra tornaram evidentes as vulnerabilidades do Brasil e as oportunidades que se abrem e que poderiam ser aproveitadas. A volta de um ativo engajamento do Brasil no cenário internacional, em especial na questão ambiental no centro da política externa, será vital para restaurar a credibilidade do país e passar de novo a influir nas negociações sobre assuntos de seus interesses e os da região.

O novo governo terá a responsabilidade histórica de restabelecer o papel da Casa de Rio Branco como o principal formulador e executor da política externa e, seguindo o exemplo do patrono da diplomacia brasileira, de manter, acima de interesses ideológicos e partidários, as linhas permanentes da atuação externa como política de Estado e não de governo de turno.

Esses os grandes desafios para a política externa a partir de 1 de janeiro.

 

 

Rubens Barbosa, ex-embaixador em Londres e Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior


Fear of Nuclear War Has Warped the West’s Ukraine Strategy - Anne Applebaum (The Atlantic)

 

Fear of Nuclear War Has Warped the West’s Ukraine Strategy

Leaders shouldn’t give in to Putin’s nuclear rhetoric.

Most of the time, when heads of state talk about nuclear war, they speak in careful, measured tones, acknowledging the gravity of the nuclear taboo and the consequences of breaking it. The Russian president takes a different approach. Speaking at his annual foreign-policy conference a few years ago, Vladimir Putin reflected, without smiling, on the consequences of a nuclear war. “We will go to heaven as martyrs,” he said, “and they will just drop dead.”

At the same conference last month, a regime insider, Fyodor Lukyanov, asked him about this remark: “You said that we would all go to heaven, but we’re in no hurry to get there, right?” Putin did not answer. The seconds ticked by. Lukyanov said, “You’ve stopped to think. That’s disconcerting.” Putin responded, “I did it on purpose to make you worry a little.”

I did it on purpose to make you worry a little? Why does he want anyone to worry? Because fear is not just a feeling or an ephemeral emotion; it is a physical sensation. It can grip your stomach, freeze your limbs, make your heart beat faster. Fear can distort the way you think and act. Because it can be so paralyzing, human beings have always tried to make other human beings feel fear. If you can make your enemies afraid, they will not oppose you, because they cannot oppose you. You can then win the argument, the battle, or the war without ever having to fight.


Putin is a KGB officer who knows about the manipulation of emotions, fear most of all. For two decades, he has sought to evoke fear inside Russia. Unlike his Soviet predecessors, he doesn’t shoot or arrest millions of people. Instead, he uses targeted violence, specially designed to create fear. When the investigative reporter Anna Politkovskaya was gunned downin her Moscow stairwell, and when the businessman Mikhail Khodorkovsky was sent to prison for a decade, other journalists and other businessmen got the message. When the opposition politicians Boris Nemtsov and Alexei Navalny were murdered and poisoned, respectively, those incidents sent a message too. This isn’t mass terror, but it is just as effective. Fear keeps Putin in power by rendering people too frightened to report news, protest government actions, or conduct independent business or even independent activity of any kind.


Putin also seeks to create fear in the outside world, especially the democratic world. He does this, above all, by bantering about nuclear weapons, at conferences and everywhere else. Indeed, this has been a central subject of his public commentary, and of Russian propaganda more broadly, for many years. Pictures of mushroom clouds appear regularly on the evening news. Threats of nuclear strikes against Ukraine have been made repeatedly, as far back as 2014. Russia’s armed forces practice nuclear strikes as a routine part of military exercises. Back in 2009, they played out a war game that included dropping a nuclear bomb on Poland. This constant, repetitive nuclear signaling, which long predates the current war, has a purpose: to make NATO countries afraid to defend Poland, afraid to defend Ukraine, and afraid to provoke or anger Russia in any way at all.

In the past few weeks, Putin and those who echo Putin have been seeking to pump up fear once again. Russian television journalists now regularly allude to nuclear war in the same half-serious, half-sinister tone, coolly referring to World War III as “realistic” and saying “It is what it is,” because “we’re all going to die someday.” The Russian defense minister, Sergei Shoigu, has called his American, British, and French counterparts to accuse the Ukrainians of preparing a nuclear attack despite the fact that they don’t have nuclear weapons—immediately triggering the suspicion that he is planning one himself. Russian nuclear threats are now habitually echoed and amplified by proxies as disparate as the British politician Jeremy Corbyn and the tech billionaire Elon Musk, growing louder with each Ukrainian military victory. Unsurprisingly, the anxiety created by these repeated threats has already shaped American and European policy toward Ukraine, exactly as it was supposed to do.


Fear certainly explains why we in the West have given Ukraine some weapons but not others. Why no airplanes?  Why no advanced tanks? Because the White House, the German government, and other governments are afraid that one of these weapons would cross an invisible red line and inspire a nuclear retaliation by Russia. Fear also shapes tactics. Why don’t the Ukrainians more often target the military bases or infrastructure on Russian territory that are being used to attack them? Because Ukraine’s Western partners have asked its leaders not to do so, for fear, again, of escalation.

Fear also causes us to treat nonnuclear acts of mass violence and terror as if they are less important, less frightening, less deserving of a response. Right now, Russia is targeting Ukrainian utilities, openly seeking to deprive millions of Ukrainians of electricity and water. This policy could lead to mass evacuations, even mass death, maybe even on the same scale as a tactical nuclear weapon. The Ukrainians have accused the Russians of preparing to dynamite a dam that, if burst, would flood Kherson and other settlements. If a small terrorist or extremist group were even hinting at a similarly devastating blow, people in the West would already be arguing about how to force them to stop. But because this is Russia, and because these are just conventional weapons, we don’t think in terms of retaliation or response. We feel relieved, somehow, that people will die because they have frozen in unheated apartments or drowned in an artificial flood, and not from nuclear fallout.


Yet even as we feel this fear, even as we act on this fear, even as we let this fear shape our perceptions of the war, we still have no idea whether our anxious responses are effective. We don’t know whether our refusal to transfer sophisticated tanks to Ukraine is preventing nuclear war. We don’t know whether loaning an F-16 would lead to Armageddon. We don’t know whether holding back the longest-range ammunition is stopping Putin from dropping a tactical nuclear weapon or any other kind of weapon.


On the contrary, some of these decisions may have had precisely the opposite impact. Our self-imposed limitations may well have encouraged Putin to believe that American support for Ukraine is limited and will soon end. Our insistence that Ukraine not harm Russia or Russians in its own defense might explain why he keeps fighting. Perhaps our nuclear anxiety actually encourages him to carry out nonnuclear mass atrocities; he does so because he believes he will not face any consequences, because we will not escalate.

Given the growing popularity of the word restraint, we must consider how that concept might not only prolong the war but lead to a nuclear catastrophe. What if calls for peace actually reinforce Putin’s deep belief, one he has expressed many times, that the West is weak and degenerate? Before the war, Western shipments of weapons to Ukraine were limited because of similar fears. No one wanted to provoke Russia by offering the Ukrainians anything too sophisticated. In retrospect, this caution was disastrous. It meant that Putin thought the West would not come to Ukraine’s aid; it left Ukraine less prepared than it could have been. Had we armed Ukraine, we might have prevented the many tragedies that have unfolded on occupied territory. Had we helped make Ukraine into a difficult target, the invasion might never have taken place at all.

I can’t prove this to be true, of course, because no one can. We can’t consult a rule book, published military doctrine, or any other document to explain these issues, because Russia has no institutions governing the use of nuclear weapons, indeed no institutions that can check or balance the president. In a one-man dictatorship, the decision whether to use nuclear weapons lies in that one man’s head. Because no one else lives inside that head, no one else knows what would really provoke him or where his red lines really are.

The only guide we have is the past, and given Putin’s behavior in the past, we should at least consider the possibility that by arming Ukraine, by supporting Ukraine, we will also prevent the use of nuclear weapons in Ukraine. Notwithstanding his bravado about martyrdom, if Putin genuinely believes that a Russian nuclear attack will carry “catastrophic consequences,” to use National Security Adviser Jake Sullivan’s language, then he is much less likely to carry one out. The less fear we show, the more Putin himself will be afraid.

The Ukrainians are already ahead of us. One Ukrainian friend recently told me that she is having the windows on her house changed to make them more airtight—just in case. But she isn’t moving. She has learned not to let fear deform her decisions, and we should learn the same. Here is the only thing we know: As long as Putin believes that the use of nuclear weapons won’t win the war—as long as he believes that to do so would call down an unprecedented international and Western response, perhaps including the destruction of his navy, of his communications system, of his economic model—then he won’t use them.

He has to believe that a nuclear strike would be the beginning of the end of his regime. And we have to believe it too.

Anne Applebaum is a staff writer of The Atlantic.


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Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...