quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

China e Índia: Emergência e Impacto Cultural - Paulo Pinto (Linkedin)

China e Índia – Emergência e Impacto Cultural


Embaixador do Brasil aposentado. Percursos diplomáticos diferenciados.

Análises sobre a emergência atual da China e Índia costumam esgotar-se apenas na perspectiva da crescente inserção internacional de suas economias, bem como a partir da cobiça quanto ao acesso de bilhões de seus potenciais consumidores à oferta de produtos e serviços estrangeiros.

Prevalece, também, a dimensão de segurança, com foco em rivalidade entre a RPC e os EUA, no contexto de uma nova “Guerra Fria”. Haveria, ademais, ênfase excessiva na crença de que a ascensão chinesa se daria nos moldes do ocorrido com “potências ocidentais”. Isto é tratar-se-ia da criação de um “novo Império” ou “potência hegemônica” (refiro-me a texto meu anterior publicado neste espaço).

Esquecido fica, portanto, que valores daquelas civilizações asiáticas poderão influenciar o ordenamento internacional vigente. Isto poderia ocorrer, tanto no relacionamento sino indiano, quanto com impactos em outras partes do mundo.

Proponho, a seguir, exercício de reflexão – reconhecidamente simplificado – sobre a evolução de valores culturais indianos e chineses que diferenciam aqueles dois países.

Nessa perspectiva, verifica-se que a mente ocidental judaico-cristã desenvolveu e favoreceu uma visão otimista da evolução da humanidade e, nesse processo, consolidou-se uma fé na capacidade do homem aperfeiçoar-se, através de um melhor planejamento, da tecnologia, da ampliação da educação e da abertura de oportunidades para todos.

Enquanto isso, o pensamento asiático hindu budista se sente à mercê de forças destrutivas: da natureza, como doenças; dos homens, como a guerra; e do passar do tempo, que, ao decorrer da longa história das nações daquela parte do mundo, tem engolido indivíduos, reinos e cidades.

No Ocidente, valorizou-se a genialidade humana para inventar, organizar e disciplinar o espaço geográfico, com o intuito de controlar as forças móveis da natureza. Assim, os indivíduos são os agentes que provocam mudanças – a natureza permanece a mesma. Esta pode ser conquistada pela análise científica e pode ser subjugada pelos avanços da humanidade.

Os pensadores europeus do Século XVIII acreditavam no “iluminismo coletivo”, isto é, na sabedoria, como um combate à escuridão do desconhecimento, tornando a sociedade perfeita, nobre e pura. Os do Século XIX valorizaram o progresso material e coletivo, a conquista das forças da natureza, a abolição da violência, da escravidão, da injustiça e a vitória sobre o sofrimento e morte prematura. O Ocidente chegou, ao Século XX, ciente de que apenas com intenso a extenso planejamento e organização pode a civilização humana ser salva[1].

No mundo ocidental, hoje, a fragilidade da vida humana não causa mais obsessão, na forma sofrida pelos antepassados, dos Séculos XV e XVI. Ao invés de atitude de aceitação, resignação e contemplação, cultiva-se uma vida de movimento constante, provocando mudanças a cada volta, melhorando e planejando as coisas, submetendo o crescimento do mundo a alterações previsíveis.

Em suma, ao invés de procurar entender a vida e o cosmo como um todo, busca-se o controle sobre detalhes concretos.

Segundo estudiosos do assunto, a essência de qualquer sistema filosófico pode ser melhor entendida na forma condensada de seus termos principais. Uma exposição elementar, portanto, deve preocupar-se com a apresentação e interpretação das palavras através das quais as principais ideias devem ser formuladas.

O pensamento indiano é muito bem adaptado a tal abordagem, pois todos os seus termos pertencem ao Sânscrito e servem há longo tempo à língua diária da poesia e romance, bem como à literatura e à medicina. Não são, portanto, termos confinados à atmosfera estranha e pouco familiar das escolas de pensamento ou doutrinas especializadas[2].

Os substantivos, que constituiriam a maior parte da terminologia filosófica, são apresentados ao lado de verbos que derivam da mesma raiz e denotam atividades ou processos que expressam o mesmo contexto. Pode-se chegar ao significado básico das palavras através do estudo de seu uso habitual na vida diária, assim entendendo tanto seus valores e variações, quanto metáforas e conotações.

Tudo isso contrasta com a situação no Ocidente contemporâneo, onde a maior parte dos termos filosóficos foram emprestados do Grego ou Latim, situando-se, assim, destacados da vida real e, portanto, sofrendo de inevitável falta de vivacidade e claridade[3].

A palavra “ideia”, por exemplo, tem significado diferente para o momento histórico vivido por Platão ou John Locke, e ainda distinto para a história moderna das “ideias” ou Psicologia. Em cada caso, um autor ou escola de pensamento, esta palavra terá seu próprio significado.

No vocabulário indiano, contudo, as palavras terão sempre a mesma interpretação e serão entendidas de forma igual, seja qual for o momento histórico. Por exemplo, a ênfase colocada no ideal supremo e final de “moksa”, só pode ser entendida, no mundo ocidental, no contexto tradicional indiano e, não, no mundo moderno industrializado.  “Moksa” é uma força inerente em cada traço, em cada aspecto e em cada disciplina da vida indiana e que molda toda a escala de valores daquela sociedade[4].

A espiritualidade asiática foi sempre intensa, a ponto de permear a arte, tornando-a, com frequência, expressão tipicamente religiosa.

Na China, durante períodos como o da Dinastia Tang (entre 618 e 907 DC) houve a construção de estátuas imensas e pagodes. Mas os chineses vivenciaram momentos em que floresceu uma arte desengajada de qualquer preocupação divina.

A Índia, de sua parte, sempre esteve inteiramente voltada para a especulação religiosa. As primeiras grandes construções indianas datam do II milênio antes de Cristo e são santuários. Em seguida, vieram as “estupas”, que são imensas construções “hemisféricas” ou cônicas, ao mesmo tempo, símbolos místicos e monumentos comemorativos.

Entre os séculos IX e XVIII D.C. a Índia se cobre de templos, enquanto a influência espiritual indiana se estende pelo Sudeste Asiático. Os imensos conjuntos de Angkor Vat, no Camboja, e os templos de Bangkok são alguns exemplos do papel espiritual desempenhado pela Índia.

A Ásia das monções, contudo, não foi berço de religião alguma – no sentido de ter fornecido um conjunto de regras, dogmas, revelações religiosas precisas, acompanhadas de imperativos. A espiritualidade asiática, portanto, não segue ordenamento prático, nos moldes aos quais estamos acostumados no Ocidente. Trata-se, portanto, antes de tudo, de um exercício de meditação, um voltar-se para o seu próprio interior, um esforço de concentração.

Uma análise superficial da espiritualidade indiana parece indicar que esta se aproximaria de formas religiosas do Ocidente. À época das invasões indo-europeias, a Índia assiste à implantação em seu território de uma tradição religiosa à qual é dado o nome de “Veda” (O Saber).

O Veda é uma revelação “vinda do alto”, mas não pode ser comparada às revelações na forma concebida pelas “religiões mediterrâneas”[5] . O “Saber” seria proveniente do “Bhrama” que é, em grande medida, a “palavra”, o “Espírito Absoluto”. O Bhrama é a “unidade”, cada alma é uma parte destacada desta unidade, que só se reencontra quando volta a se fundir no “todo”.

Essa crença foi denominada Bramanismo ou Hinduísmo, com seus “deuses” maiores ou menores, seus templos e cerimoniais. Desenvolveu-se, assim, um ritual do Bramanismo, paralelamente a um aspecto puramente espiritual, que é a espera ao retorno ao “Universal”.

No século VI antes de Cristo, uma nova concepção espiritual, o Budismo, se expandiu a partir dos Himalaia. Verifica-se, a propósito, que o Budismo não pretende, nem inovar, nem complementar, nem combater, nem substituir o Bramanismo. Desenvolve-se ao lado do Bramanismo, sem confirmá-lo ou contradizê-lo.

O Budismo foi apresentado à Índia em momento de grandes convulsões sociais, provocadas por guerras internas e invasões externas. Seria, em grande medida, uma forma de consolo a povoações rurais que não dispunham de grandes expectativas quanto a sua própria existência.

As relações estreitas entre a natureza, a vinculação profunda num mundo camponês, limitado por laços familiares, são ainda mais sensíveis no universo chinês do que no espaço indiano.

O Budismo exerceu influência sensível na China. Durante a Dinastia Tang (618 a 907), manifestou-se através da influência no desenvolvimento de esculturas. Os chineses guardaram do Budismo, acima de tudo, o desprendimento das coisas deste mundo. Mas, com frequência, seguiram sua própria via.

No VI século AC, Confúcio veio propor-lhes soluções bem distintas do Budismo. Tendo como ponto de partida, também, sua sociedade contemporânea, Confúcio chegou a solução bastante distinta daquela do Budismo. Isto porque o “momento presente” também não lhe parecia perfeito – longe disso – mas ele identificava possibilidades de transformações. Estas aconteceriam através do controle dos impulsos pessoais. Não seria necessário, como acreditam os budistas, “escapar de tudo”. Pelo contrário, caberia adaptar-se.

Confúcio, assim, apresenta uma filosofia que considera o homem dentro da natureza, que se expressa pelo culto do passado, considerado como uma Era melhor, e pela comunhão com o mundo material. Daí resulta, para seus seguidores, a busca permanente da harmonia que se manifesta através do gosto por uma escrita extraordinária. A caligrafia é bela em seus menores detalhes. A pintura de paisagens, como se refletissem o estado da alma, é também levada a extremos do bom gosto.

A pintura, ademais, é influenciada por outro aspecto do pensamento chinês: o Taoismo, que é uma doutrina mais recente do que o Confucionismo. O Taoismo é uma forma de meditação sobre a ordem da natureza, muito mais mística do que o Confucionismo, na medida em que se submete à essência do mundo para poder penetrá-lo.

Alguns pensadores concluem que a espiritualidade oriental apresenta grandezas e fraquezas, na medida em que, por um lado, é superior ao pensamento ocidental, que jamais soube dedicar a mesma humildade e busca de compreensão – a exemplo da espiritualidade oriental – às leis do mundo, aceitá-las e ir além delas (“les dépasser”)[6]. A “simpatia universal” que, no entanto, submete o pensamento asiático à passividade, dificulta a luta das pessoas daquela parte do mundo, contra as forças da natureza, as destruições provocadas por sucessivas guerras e o condicionamento de hábitos consagrados por heranças milenares.

A sociedade indiana, por exemplo, é o resultado da assimilação de centenas de influências culturais, originárias da Europa e Ásia, trazidas dos continentes europeu e asiático. A Índia incorporou, portanto, costumes e crenças das diferentes civilizações que a invadiram ou lá se estabeleceram. Como resultados hoje existem no país 17 línguas oficiais e algumas centenas de dialetos.

Mas a Índia não foi apenas “importadora” de cultura. Foi também “exportadora”. O Sânscrito, como se sabe, é uma língua originária na Índia e raiz de línguas indo-europeias, como o grego e o latim.

O Budismo nasceu na Índia, derivado do Hinduísmo, mas praticamente desapareceu de seu país de origem, espalhando-se pela Ásia e outras regiões. O Hinduísmo, no entanto, foi difundido pelo Sudeste Asiático, mas continuou a florescer, principalmente no território indiano.

Verifica-se, a propósito, que o Hinduísmo parece adaptar-se perfeitamente à sociedade indiana – há quem diga que, nesse caso, a religião influencia a sociedade e vice-versa. Isto é, a profusão de “deuses” oferece ampla escolha de devoção aos fiéis e teria ajudado no estabelecimento de sistema de castas, que sobrevive há 3.000 anos.

É possível concluir que, na medida em que os seres humanos se apropriam de maior riqueza e educação, suas diferenças culturais se tornam mais pronunciadas – não menos. Nesse processo, diferentes grupos perseguem visões distintas de bem-estar, bem como reagem de formas agressivas a ameaças perceptíveis a sua dignidade cultural.

As pessoas, agora, aparecem menos como indivíduos egoístas, voltados para a satisfação material, e mais como seres inseridos em suas respectivas sociedades.

Melhor direcionamento de foco, no que diz respeito à atual emergência da China e da Índia, deveria levar em conta, portanto, que um dos grandes desafios do século atual seria o entendimento de como as culturas evoluem, adaptam-se ou permanecem estáveis. Que tipos de influência estas alterações exercem no cenário internacional?

China e Índia – A Disputa por “Soft Power”

Reitera-se que pouca atenção tem despertado a capacidade de Índia e China no sentido de atrair e influenciar outras regiões do planeta. Isto ocorreria como resultado da divulgação de práticas, hábitos, criações e formas de raciocínio herdado ou marcado pela longa história indiana e chinesa.

Em outras palavras, há pouca reflexão sobre a “soft power” - para utilizar o termo popularizado por Joseph Nye[7] - na competição entre as duas potências emergentes na Ásia.

Esta disputa ocorre em setores como: a reivindicação de ser sede do Budismo e, portanto, o espaço cultural de definição do “perfil espiritual” da Ásia; em Medicina e cinema, indianos e chineses aparecem, também, engajados em atrair e influenciar novos e velhos amigos.

O Budismo como “Soft Power”

Na medida em que a economia se abriu para o exterior e tem crescido a taxas surpreendentes, a RPC se torna mais disposta a aceitar e utilizar como “soft power” sua antiga civilização. Da mesma forma, ocorre com a Índia.

A China, portanto, tem demonstrado empenho em resgatar sua associação histórica com o Confucionismo. Assim, em novembro de 2004, Pequim determinou a abertura de seu primeiro “Confucius Institute”, em Seul. A partir de então, Institutos semelhantes foram instalados em diferentes países, inclusive em Nova Delhi, na Universidade Jawaharlal Nehru.

Evidentemente, tais representações visam a, além de divulgar o pensamento do antigo sábio chinês, promover a língua e cultura chinesas.

Tal esforço se enquadra no discurso atual do presidente da RPC, Xi Jinping, quanto ao encorajamento a uma “nova e gloriosa civilização” chinesa, com ênfase em projeto que valorize a antiga filosofia do país e, não, em valores ocidentais. O ressurgimento de Confúcio, assim, é particularmente notável, porque adota o mais conhecido princípio daquele antigo mestre, que diz respeito a uma “sociedade harmoniosa”, como meta de governo.

Na prática, o retorno do Confucionismo coincide com a renovação do Budismo, na China.

Enquanto isso, a Índia volta a abraçar, também, esta antiga religião, reivindicando sua condição de origem do Budismo. Em jogo, entre Pequim e Nova Delhi está a disputa pelo título de ser o espaço civilizacional que, com base neste aspecto de “soft power”, definirá a “feição espiritual” da Ásia.

Nessa perspectiva, a Índia construiu, em 2006, na cidade de Luoyang, na China, um templo budista, com características indianas. A mensagem pareceu clara. Há dois mil anos, o Budismo emigrou do país de origem para o território chinês, instalando-se, inicialmente, naquela cidade.

De igual importância foi o fato de que, em 2007, Nova Delhi estabeleceu, na Universidade de Nalanda, em Cingapura, um centro de estudo do Budismo. Isto porque, enquanto a China não tem tido problemas para participar de diálogo institucional com, por exemplo, a Associação das Nações do Sudeste Asiático ou a Comunidade Asiática das Nações, a Índia tem ficado fora de tais reuniões.

O passado colonial e a condição que lhe foi imposta de exportadora de mão de obra barata para plantações no Sudeste Asiático, distanciou a Índia dos demais ex-integrantes do antigo “British Empire”, na Ásia.

Agora, os indianos buscam resgatar a herança de exportadores de cultura hindu-budista para Indonésia, Malásia, Indochina, Tailândia e Mianmar.

Cabe lembrar, ainda, que a disputa territorial, entre a China e a Índia, pelo estado indiano de Arunachal Pradesh, fica incluída na agenda da competição sino indiana pela “soft power” no continente asiático.

Isto porque, segundo consta, o sexto Dalai Lama nasceu em Tawang (atual estado indiano de Arunachal Pradesh), em 1638. Isto levaria Pequim a considerar que aquele território faria parte do “Grande Tibete” e, portanto, integraria a RPC.

Curiosamente, os nacionais indianos da região em disputa têm fisionomia e características étnicas chinesas. Por ocasião de visitas a Goa, conheci funcionários indianos de hotéis e restaurantes, naturais de Arunachal Pradesh, com aparência chinesa.

A Concorrência no Oferecimento de “Wellness”

Existe crescente interesse, no mundo inteiro, na “arte de viver bem” - “wellness”. Tal benefício, parece haver consenso, poderia ser, hoje, proporcionado seja pela Medicina Tradicional Chinesa, seja pelos tratamentos oferecidos pela prática indiana da “Ayurveda”.

Enquanto a Ayurveda indiana cresce em popularidade, no Ocidente, a Medicina Tradicional Chinesa parece consolidar-se na Ásia Oriental. Ambas as práticas refletem um tipo de “soft power” que Índia e China pretendem exportar para o resto do mundo.

A Ayurveda é um sistema de tratamento tradicional indiano, praticado há mais de 5.000 anos. Hoje é reconhecida, fora da Índia, como “medicina alternativa”, dedicada ao prolongamento da vida humana. Busca o equilíbrio entre o corpo e o meio ambiente, criando a harmonia entre a pessoa e as condições que a rodeiam.

Baseia-se na teoria de “Cinco Grandes Elementos”: a terra, a água, o fogo, o ar e o espaço. Estes influenciariam diferentes funções do corpo humano e do meio ambiente em que se vive. Assim, por exemplo, o fogo regularia a digestão e assimilação de alimentos e ideias; o espaço influenciaria a “mobilidade mental”; e a água manteria o equilíbrio do peso, coesão e estabilidade. Diferentes combinações destes elementos levariam o indivíduo a “viver melhor”, desintoxicando, fortalecendo os tecidos e os sistemas imunológicos.

A Medicina Tradicional Chinesa explica que a energia (Qi) flui através de “meridianos” no corpo humano e sobre sua superfície. Estes canais são “rios de energia” que precisam ser balanceados. Tal processo pode ser realizado com a aplicação da acupuntura, que utiliza agulhas que estimulam a tal energia, em determinado local do corpo, fortalecendo-o e proporcionando a cura natural de doenças, sem a necessidade de cirurgia.

Os seguidores desta técnica acreditam que a saúde depende do equilíbrio do corpo, entre seus próprios órgãos e funções e entre o indivíduo e seu meio ambiente. Quando o corpo estiver balanceado e em harmonia com o exterior, a energia flui naturalmente através dos “meridianos” de forma que todas as suas partes são irrigadas adequadamente.

China e Índia, oferecem, assim, propostas originais da “arte de viver bem”, aos habitantes ricos de outros países. O grande desafio que se coloca a ambos, no entanto, é o de resolver seus respectivos problemas de fome e miséria.

Bollywood versus Filmes Chineses

A China tem obtido maior sucesso na obtenção de Oscars do que a Índia. Mas, pelo menos na Ásia, é possível notar que Bollywood[8] tem muito mais fãs do que o cinema chinês.

Com sua perene simplicidade temática, ensaios musicais e danças, as películas indianas ainda não frequentam grandes audiências cinematográficas europeias ou norte-americanas. Em países do Subcontinente Indiano, Sudeste Asiático, Oriente Médio e mesmo África, o interesse por estes filmes, no entanto, é enorme.

É necessário, contudo, definir a Índia que é apresentada nos filmes produzidos em Bollywood, que não podem ser considerados como representativos do país. São um espetáculo. A riqueza dos casamentos exibidos nas películas e a alegria de suas danças não refletem a realidade da população. O que está sendo projetado no exterior é uma caricatura.

Em sua dimensão econômica, fora das telas, a Índia real conta, ainda, com centenas de milhões de pobres. A infraestrutura lamentável e o ensino deficiente, mesmo considerando os centros de excelência existentes, não facilitam a inclusão da população rural no processo de crescimento tão alardeado nas áreas urbanas.

Os trunfos principais a serem projetados, como “soft power” da Índia são o fato de estar bem equipada, com instituições democráticas, e sua capacidade de promover a convivência entre suas distintas culturas, raças, religiões, castas e línguas.

A Influência em Outras Regiões

China e Índia buscam atrair e influenciar regiões do planeta, através da divulgação de práticas, hábitos, criações e formas de raciocínio herdadas ou marcadas por suas respectivas longas histórias

Cabe lembrar, a propósito, que os registros iniciais da China com a África nos levam ao século XV, quando o legendário navegador Zheng He trouxe do Quênia uma girafa.

Por coincidência, também foi do Quênia, a partir da cidade marítima de Mombasa, que um navegador muçulmano conduziu Vasco da Gama a Calicute, em 1498, levando os portugueses a “descobrirem o caminho marítimo para as Índias”, já havia muito tempo percorrido por comerciantes indianos e africanos.

Não tratarei, neste texto, mas abordarei o tema em artigo posterior, da questão do “Cinturão e Rota das Sedas da China”, pois me parece tratar-se mais de ação de “Short Power” – isto é “tentativa de imposição de exploração econômica, com a aplicação de recursos financeiros” – do que de “Soft Power”.

Verifica-se, finalmente, que, na medida em que se consolide a emergência da China e Índia, que possuem laços de vizinhança milenares, bem como se desenvolvam cooperação mais intensa e troca de ensinamentos, sobre como administrar seus respectivos processos de crescimento exponenciais, poderá haver impacto significativo no cenário político internacional.

Isto ocorrerá, tanto pela maior inserção de ambos na economia global, quanto por suas diferentes formas de atrair e influenciar novos e velhos amigos.

Cabe lembrar que, há 70 anos, Nova Delhi e Pequim foram os promotores dos chamados Cinco Princípios de Convivência Pacífica, durante a Conferência de Bandung, Indonésia, entre 18 e 24 de abril de 1955. Entre os objetivos anunciados encontravam-se a promoção da cooperação econômica e cultural entre nações da Ásia e África, além de fortalecer a solidariedade entre estes países, alguns dos quais haviam se tornado independentes havia pouco tempo.

Caberia, agora, desejar que, com sua crescente “soft power”, China e Índia contribuam para um contexto de respeito entre culturas diversas, que resulte em melhor ordenamento na governança mundial. [9]

Notas:

[1] Girard, Louis. “Le Monde Contemporain – Histoire – Civilizations”. “Collection d’Histoire”.  Bordas 1966.

[2]Zimmer, Heinrich.  “Philosophies of India”. Editado por Joseph Campbell. Bollingen Series/Princiton 1989.

[3]Zimmer, Heinrich. “Myths and Symbols in Indian Art and Civilization”. Editado por Joseph Campbel, Prince Town University Press., 1974.

[4]Zimmer, Heinrich.  “Philosophies of India”. Editado por Joseph Campbell. Bollingen Series/Princeton. 1989.

[5] Vide “Philosophies of India”, por  Heinrich Zimmer. Editado por Joseph Campbell. Bollingen Series/Pinceton 1989.

[6] “Le Monde Contemporain” “Histoire  - Civilisations” –Collection d’Histoire Luis Girard. Bordas, 1966.

[7] Nye, Jr. Joseph S. “Soft Power: The Means to Success in World Politics”. Public Affairs, 2004. O autor descreve tal poder como “a habilidade de obter o que você quer, atraindo e persuadindo os outros a seguirem objetivos seus”.

[8] Nome genérico dado à indústria cinematográfica indiana, sem que ocupe um local delimitado, na área de Mumbai.

[9] Servi, como diplomata, no “universo de influência cultural chinesa”, entre 1982 e 2006, sucessivamente, em Pequim, China; Kuala Lumpur, Malásia; Singapura; Manila, Filipinas; e Taipé, Taiwan – com intervalos de retorno a Brasília – e fui o primeiro Cônsul-Geral em Mumbai, Índia, com jurisdição sobre Goa, entre 2006 e 2009.

Trabalhos publicados de Paulo Roberto de Almeida, 29 (2024) Do n. 1.540 ao n. 1.567

Trabalhos publicados de Paulo Roberto de Almeida, 29 (2024)

2024: Do n. 1.540 ao n. 1.567

 

Pau1o Roberto de Almeida

Atualizada em 31 de dezembro de 2024; divulgado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/126713062/29_Trabalhos_publicados_de_Paulo_Roberto_de_Almeida_2024_)

 

Número de trabalhos publicados: 27 (ou aproximadamente 2,25 por mês)

 

1540. “BRICS reforça projeto por nova ordem financeira internacional”, Direito sem Fronteiras, Parte 1, 10/01/2024: https://www.youtube.com/watch?v=ZN9B7NR2yT0. Sem Original. Partes 1 e 2 registradas no blog Diplomatizzando (23/01/2024; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/01/direito-sem-fronteiras-brics-reforca.html).

 

1542. Treze ideias fora do lugar nas relações internacionais do Brasil: argumentos contrarianistas sobre a política externa e a diplomacia. Brasília: Diplomatizzando, 2024. 91 p.; ISBN: 978-65-00-91081-0; ASIN: B0CS5PTJRL; Kindle). Apresentação no blog Diplomatizzando (13/01/2024; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/01/treze-ideias-fora-do-lugar-nas-relacoes.html). Relação de Originais n. 4561.

 

1543. “O que aguarda o Brasil em 2024?”, revista Crusoé (n. 297, 12/01/2024, link: https://crusoe.com.br/edicoes/297/o-que-aguarda-o-brasil-em-2024/). Relação de Originais n. 4531. 

(…)

 

1564. “Diplomacia brasileira da Independência: primeiros obstáculos”, revista Nuevo Mundo, Mundos Nuevos (Univ. Paris; número especial: O bicentenário da independência do Brasil. História e memória de uma nação no mundo global, coord.: Janina Onuki, Amancio de Oliveira et Daniel Rojas; Colloques 2024; ISSN électronique: 1626-0252; linka do artigo: https://journals.openedition.org/nuevomundo/96978 e https://doi.org/10.4000/12hnw); disponível Academia.edu (link: https://www.academia.edu/125412810/4562_Diplomacia_brasileira_da_Independ%C3%AAncia_primeiros_obst%C3%A1culos_2024_); blog Diplomatizzando (9/11/2024; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/a-diplomacia-brasileira-da.html). Relação de Originais n. 4562.

 

1565. “O jornalismo como história da política externa brasileira”, Resenha do livro de Maria Helena Tachinardi: Política Externa e Jornalismo (São Paulo: Contexto, 2024, 511 p.), Publicado no Correio Braziliense (28/10/2024; link: https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/10/6974261-o-jornalismo-como-historia-da-politica-externa-brasileira.html#google_vignette). Relação de Originais n. 4718.

 

1566. “Como explicar nossa diplomacia?”, Resenha do livro de Maria Helena Tachinardi: Política Externa e Jornalismo (São Paulo: Contexto, 2024, 511 p.). Publicado no jornal O Estado de S. Paulo (12/11/2024; link: https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/como-explicar-nossa-diplomacia/?srsltid=AfmBOorVbdMEfZReFcbVSyk4a5BZV538b4WcsphySjpUMMoEI34EsWFF). Relação de Originais n. 4752.

 

1567. Constituições brasileiras: ensaios de sociologia política, Brasília: Diplomatizzando, 2024, 187 p; ISBN: 978-65-01-23460-1. Publicado em formato Kindle: ASIN: B0DNM4G28D; 1456 KB; 266 p. Disponível na Amazon.com.br. Índice e trecho da apresentação, blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/novo-livro-preparado-para-publicacao.html). Relação de Originais n. 4791.

 

Final da relação de publicados em 2024 

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Listagem dos trabalhos originais de Paulo Roberto de Almeida, elaborados no ano de 2024

 RELAÇÃO DE TRABALHOS, 38

Paulo Roberto de Almeida

(Brasília, 2024: do nº 4.541 ao nº 4.xxx)

Google Scholar: http://scholar.google.com/citations?hl=en&user=OhRky2MAAAAJ

 

Trabalhos do Ano de 2024 (janeiro-dezembro 2024)

Nºs 4.541 a 4.820 = 279 trabalhos

Algumas estatísticas: 

23,25 trabalhos por mês

5,3 trabalhos por semana

Um trabalho a cada 1,3 dias

Falta computar o número de páginas; média de cada um dos trabalhos e total geral de páginas escritas, confirmando o dito: nulle dies sine linea.

 

Atualizada em 31 de dezembro de 2024

[Disponível provisoriamente na plataforma Academia.edu, no link: https://www.academia.edu/126712932/38_Lista_de_Trabalhos_de_Paulo_Roberto_de_Almeida_em_2024]

 

4541. “Uma reflexão sobre o mundo real e o mundo acadêmico dos nossos tempos”, Brasília, 1 janeiro 2024, 1 p. Nota sobre uma das alienações mais frequentes no espaço acadêmico. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/01/uma-reflexao-sobre-o-mundo-real-e-o.html); postado novamente no Diplomatizzando (20/04/2024; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/04/uma-reflexao-sobre-o-mundo-real-e-o.html). 

 

(…)


4817. “As duas novas pragas da modernidade”, Brasília, 24 dezembro 2024, 2 p. Nota sobre o autoritarismo de Putin e de Trump, como os dois perigos rondando a humanidade nos tempos presentes. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/12/as-duas-novas-pragas-da-modernidade.html). 

 

4818. “Depois dos perigos "internacionais", os nacionais, que afetam a paz e a estabilidade no Brasil”, Brasília, 27 dezembro 2024, 2 p. Nota sobre os dois fenômenos que afetam a governança no país: o bolsonarismo e o lulopetismo. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/12/depois-dos-perigos-internacionais-os.html).

 

4819. “2025: o temido ano que ainda não começou”, Brasília, 31 dezembro 2024, 2 p. Nota sobre um ano pior do que o que termina, por causa de Putin e Trump. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/12/2025-o-temido-ano-que-ainda-nao-comecou.html).

 

4820. “Primeiras impressões revolucionárias: Chateaubriand, Tocqueville, Isaiah Berlin”, Brasília, 31 dezembro 2024, 3 p. Nota sobre o impacto de duas revoluções separadas por mais de cem anos, exerceram sobre grandes intelectuais, e sobre a minha própria. Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/12/primeiras-impressoes-revolucionarias.html). 

 

Atualizado em 31/12/2024.

Divulgado via Academia.edu, link: 

https://www.academia.edu/126712932/38_Lista_de_Trabalhos_de_Paulo_Roberto_de_Almeida_em_2024

Brasil: de país em desenvolvimento a país desenvolvido: síntese histórico-econômica - Paulo Roberto de Almeida

 Para terminar o ano de 2024 falando do único grande problema do Brasil: por que ainda não somos um país desenvolvido.

Uma explicação tentativa:

4598. “Brasil: de país em desenvolvimento a país desenvolvido”, Brasília, 9 março 2024, 14 p. Compilação de quatro artigos elaborados sobre o não crescimento do Brasil nas últimas décadas e sobre as condições para o país alcançar maior patamar do desenvolvimento econômico e social. Texto completo divulgado na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/117736151/4598_Brasil_de_país_em_desenvolvimento_a_país_desenvolvido_2023_2024_) e no blog Diplomatizzando (19/04/2024; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/04/brasil-de-pais-em-desenvolvimento-pais.html).



Primeiras impressões revolucionárias: Chateaubriand, Tocqueville, Isaiah Berlin - Paulo Roberto de Almeida

Primeiras impressões revolucionárias: Chateaubriand, Tocqueville, Isaiah Berlin

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. 

Nota sobre o impacto de duas revoluções separadas por mais de cem anos, exerceram sobre grandes intelectuais, e sobre a minha própria.


        Reconhecidamente adepto de livros, num grau extremo de dependência intelectual, sou levado a divagar, em momentos de reflexões reminiscentes, sobre alguns temas que ficaram imbricados em minhas memórias em torno de passagens lidas nas memórias de alguns escritores relevantes, em algum registro fugidio de antigas leituras. 

        O tema é o do impacto que eventos revolucionários de grande monta exerceram sobre a trajetória intelectual posterior de alguns autores que pertenceram ao universo mental de minha própria formação intelectual. Esses autores são François-René de Chateaubriand, em suas Mémoires d’Outre Tombe, Alexis de Tocqueville, em suas recordações de juventude (reportadas nas biografias), ambos no contexto da Revolução francesa de 1789 e da fase do Diretório sob o Terror robespierreano, e Isaiah Berlin, nos seus primeiros escritos, ainda pré-adolescente, sobre a revolução russa de 1917, mas não a de fevereiro, e sim o frenesi violento produzido pelo putsch bolchevique, de outubro-novembro do mesmo ano.

        Todos os três reportaram e vivenciaram episódios de violência, pessoal ou familiar, que impactaram suas personalidades ainda em formação e que depois foram refletidos em suas respectivas carreiras profissionais e intelectuais, em fases ulteriores de suas vidas adultas. De fato, certas cenas vistas e testemunhadas pelos três em cada um dos dois torvelinhos revolucionários vivenciados — 1789-1793 e 1917 —, como a cabeça ensanguentada de algum inimigo reacionário, decepada ou guilhotinada, ou a turba fanatizada de Petrogrado marchando contra os representantes do odiado regime czarista já derrotado, podem ter impactado as mentes dos três futuros escritores, tendo sido, como tais, formadoras de alguma consciência filosófica sobre aspectos contingentes da História que acabam se refletindo no percurso politico posterior de seus respectivos países: França e Rússia. Não há como negar a trajetória trágica dessas nações, na transição politica para dois impérios de excepcional importância geopolítica no século XIX e no século XX, o império napoleônico, de um lado, com as enormes transformações que acarretou no mundo europeu e extraeuropeu, e o império soviético, de outro lado, este prolongado no império neoczarista de mais recente aparição na cena mundial, já no século XXI, mas sobretudo ainda mais decisivo no “breve século XX”, a partir do desafio comunista à ordem liberal ocidental.

        Existe uma vasta literatura, não apenas vinculada à trajetória individual dos três autores por mim referidos — Chateaubriand, Tocqueville e Berlin —, sobre o impacto formidável que a grande Revolução francesa e a Revolução bolchevique exerceram na história do mundo, do século XVIII até os nossos dias. Não preciso retomar esse impacto, pois pretendo, na verdade, referir-me a um outro episódio “revolucionário” que impactou, talvez como farsa, minha própria trajetória intelectual: quero mencionar o golpe militar de 1964 e o regime ditatorial que se instalou no Brasil por duas décadas, como um componente decisivo nas reflexões, leituras e ações, naqueles anos formadores (dos 14 a 34) de minha consciência política e atividades correlatas.

Recebida inicialmente (na pequena confusão mental dos 14 anos) como uma bem-vinda escapada da confusão política dos anos Jânio-Goulart, a Revolução cívico-militar de 1964, logo revelou-se o que finalmente apareceu em 1965: uma reles ditadura, como constatei a partir de precoces leituras dos materiais de oposição, vários obviamente de esquerda, que passei a fazer logo depois. Lembro-me, por exemplo, de alguns artigos de Carlos Heitor Cony, na revista Manchete (leituras de cadeira de barbeiro), logo depois enfeixados em sua coletânea O Ato e o Fato), assim como as crônicas de jornalistas lidas nos grandes veículos nacionais (leituras de bibliotecas ou compradas em bancas de jornais, o que passei a fazer desde os 14 anos).

        Posso claramente dizer que, ao me politizar precocemente, logo em 1965, tornei-me um inimigo da “Revolução de 1964”, e como tal permaneci até o seu final (incluindo um autoexílio europeu entre 1970 e 1977, para escapar de uma possível prisão), um percurso que inicialmente me levou a ser um “amigo” de outros processos revolucionários, como o cubano, por exemplo, desvio oportunamente corrigido em meus anos de educação política e intelectual durante os anos de estudo na Europa, num triplo sentido democrático, de liberalismo econômico, de social-democracia politica e de anarquismo cultural (como bem mais tarde vim a descobrir pela leitura dos trabalhos de José Guilherme Merquior).

        Eu me permito formular estas reflexões a partir de minhas leituras pregressas no último dia do ano de 2024, e possivelmente o último trabalho escrito neste ano de intensas leituras e contínuos registros de uma atividade intelectual ainda em curso de aperfeiçoamento, talvez acabamento, ao desejar caminhar para uma síntese de mais de 60 anos de escritos diversos, vários livros publicados e algumas centenas de artigos divulgados em revistas acadêmicas ou aqui mesmo neste espaço de resistência intelectual que é o blog Diplomatizzando

        Não tenho uma obra intelectual comparável à dos três autores referidos nesta crônica rememorativa, mas posso orgulhar-me de ter contribuído, embora modestamente, para a formação intelectual de outros jovens que, como eu, possam ter saído de origens socialmente subalternas para alçar-se ao domínio de um conhecimento prático e livresco suscetível de também exercer algum impacto, por pequeno que seja, sobre a existência de alguns de meus concidadãos.

Boas leituras a todos.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4820, 31 dezembro 2024, 3 p.

 








2025: o temido ano que ainda não começou - Paulo Roberto de Almeida

2025: o temido ano que ainda não começou 

Paulo Roberto de Almeida 

O ano de 2025 corre o grande risco de não ser melhor que este que se acaba de 2024, justamente pela presença ativa no cenário internacional de dois personagens absolutamente nefastos para o bem da humanidade, assim como para o de seus próprios paises em especial, como destaca Helga Hoffmann (vide abaixo) a partir de uma caricatura, ou cartoon, pateticamente irônica da revista alemã Der Spiegel. Ambos possuem uma visão autoritária de como deve ser o mundo, a serviço de suas obsessões pessoais, no caso de Putin uma visão propriamente despótica, o que não chega a esse extremo no caso de Trump, uma vez que os EUA ainda pertencem ao universo das democracias, no caso uma tristemente falha, ainda que não falida.

Neste derradeiro dia de 2024, torna-se, portanto, arriscado, talvez mesmo cruel, se não perversamente irônico, desejar um “Feliz 2025”, sabendo que os dois nefastos personagens estarão no máximo de suas potencialidades e capacidades para converter este ano de 2025 num dos mais “eletrizantes” — se me perdoam a expressão — das relações internacionais contemporâneas. 

Como diplomata brasileiro, eu espero, e desejo, que pelo menos a política externa e a diplomacia do Brasil continuem equilibradas o suficiente, sob um governo personalista como é o de Lula 3, para preservar nossa tradicional autonomia decisória e neutralidade ponderada, em face de conflitos interimperiais dessas duas grandes potências, de molde a confirmar os valores e principios tradicionais de nossa postura equilibrada no plano externo, como garantem as cláusulas de relações internacionais de nossa Constituição e a própria história do “diplomacia na construção do Brasil” (se ouso retomar o titulo da mais importante obra do embaixador Rubens Ricupero).

2025 pode não ser tão catastrófico como prometem as idiossincrasias desses dois personagens, mas será certamente apreensivo para os espíritos mais temerosos.

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 31 de dezembro de 2024

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Helga Hoffmann:

“ Gosto do semanário “Der Spiegel”, ainda que não o veja tão útil quanto “The Economist”. Tipos diferentes de ironia. Comentários e noticiário do dia recebo do “Der Spiegel” toda tarde. Com o desta tarde (30/12/3024) veio este “cartoon”, resumo das primeiras declarações de Trump.  Para quem pensa que 2025 será melhor que 2024... Traduzo:

”OK, Vladimir, você fica com a Ucrânia e o Báltico, em troca eu fico com a Groenlândia e o Canadá! E ainda pego o Panamá, e em troca você pega a Polônia!

Importante são bons “deals”!

“Bom negócio” me parece tradução fraca para “good deal”...  Negócio é uma troca honesta no regime capitalista. “Deal” pode ser qualquer transação, inclusive alguma bastante diabólica.

Pretendo ficar uns dias fora de circulação digital. Einen guten Rutsch ins neue Jahr!  Menos categórico que "Feliz Ano Novo!””



segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Os Dois Lados da Moeda, de Gustavo Marques; uma exposição intelectualmente honesta sobre o golpe e a ditadura militar, contra a esquerda e a direita - Paulo Roberto de Almeida

Um livro relevante:

Uma das qualidades mais relevantes no trabalho dos historiadores é, ou deveria ser, a honestidade inatelectual, ou seja, a capacidade de enfrentar temas controversos, submetidos a opiniões díspares, quando não opostas, com o máximo de isenção possível, buscando sempre contemplar os fatos, não os posicionamentos pessoais.

Gustavo Marques, desde quando ingressou no Itamaraty, comprovou suas qualidades de historiador e analista das relações internacionais do Brasil, elaborando dois trabalhos de qualidade sobre a revolução cubana e as relações diplomáticas do Brasil com a ilha dominada pelos irmãos Castro, um dos quais eu tive oportunidade de resenhar para o Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros: 

        Gustavo Henrique Marques Bezerra: Da Revolução ao Reatamento: A Política Externa Brasileira e a Questão Cubana (1959-1986) (Brasília: Funag, 2012, 376 p.)

Mais adiante, espelhando uma enciclopédica obra coletiva sobre as vítimas do comunismo mundial, publicada na França, produziu obra igualmente relevante sobre o equivalente no Brasil, cujo prefácio eu tive a honra de assinar: 

        Gustavo Henrique Marques Bezerra, O livro negro do comunismo no Brasil: mitos e falácias sobre a história da esquerda brasileira (Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2019, 872 p.)


Ele agora assina um novo livro, sobre tema igualmente controverso: as versões diametralmente opostas, geralmente deformadas, sobre o golpe militar de 1964 e sobre o regime militar, pela esquerda e pela direita. É o livro cuja capa figura ao alto desta postagem, e que recomendo a todos os interessados na história do Brasil: 


        Gustavo Marques: Os Dois Lados da Moeda: versões e revisões sobre 1964 e os anos de chumbo no Brasil (Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2024), cujo sumário eu publico mais abaixo.


Tive o prazer de ler, logo na página dos Agradecimentos, esta simpática nota a meu respeito.: 



Aqui vai o sumário, recomendando uma vez mais sua leitura: 






Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...