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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Programa nuclear iraniano: acordo atual melhor do que o de 2010 com o Brasil, diz iraniano

Se é um iraniano quem diz, deve ser verdade.
Então, toda aquela conversa em torno das maravilhas do acordo tripartite de 2010 não parece condizer com a realidade das coisas.
Pior para a realidade, não é mesmo?
Mas o principal autor do acordo de 2010 defende a sua versão, mais abaixo...
Paulo Roberto de Almeida

Acordo com potências é melhor do que o acertado com Brasil, diz iraniano
Entrevista: Mohammad Ali Ghanezadeh
Folha de S. Paulo, 20/05/2015

O embaixador do Irã no Brasil, Mohammad Ali Ghanezadeh, acompanha as negociações sobre o programa nuclear de seu país com as potências mundiais com uma certeza: as condições agora são "muito melhores" para Teerã do que as acertadas em 2010 na negociação entre Irã, Brasil e Turquia.
"O primeiro acordo era mais positivo para os países ocidentais", disse em entrevista à Folha.
O diplomata, que trata a necessidade de transferência de urânio para um outro país como algo já fora do texto a ser finalizado pelo Irã e o P5+1 (EUA, França, Reino Unido, Rússia, China e Alemanha) até 30 de junho, diz ser essa a grande vantagem das novas negociações.
"Em 2010, foi acertado que o urânio do Irã deveria ser transferido a outro país, e não havia garantia de que o material, transformado em combustível, voltaria para o país a tempo", disse. "Agora manteremos o material no Irã e nós mesmos produziremos nosso combustível, o que é muito melhor", afirmou. Para ele, não há nada que possa ser aproveitado do Acordo de Teerã (2010) no novo texto.

Folha - O Congresso dos EUA aprovou uma lei que permite aos parlamentares revisar o possível acordo entre Teerã e as potências ocidentais sobre o programa nuclear do Irã. Isso gera uma desconfiança sobre o compromisso americano?
Mohammad Ali Ghanezadeh - Em nossas negociações na Suíça, chegamos a um entendimento geral com o P5+1, que é a base deste acordo que será preparado. Conforme esse entendimento, estamos avançando. Se houver alguma mudança, isso vai ser um problema [interno] dos EUA e eles terão que chegar a uma solução.
Apesar da desconfiança histórica que o Irã tem em relação aos EUA, mais uma vez estamos experimentando para ver até onde pode chegar a confiança.
O objetivo da delegação iraniana é seriamente alcançar um acordo. Se a negociação não chegar ao final, será culpa dos EUA.

Do que o Irã não abre mão para fechar o acordo?
Para os iranianos, o importante é o reconhecimento do direito do Irã de ter tecnologia nuclear para fins pacíficos. E também é fundamental que o país continue suas pesquisas na área de ciência e tecnologia.

O texto final do acordo com as potências tem que ser fechado até 30 de junho. É possível aproveitar algo do que foi acertado por Brasil, Irã e Turquia na Declaração de Teerã, de 2010?
Não. O primeiro acordo, entre Irã, Brasil e Turquia, era mais positivo para os países ocidentais do que para os iranianos. Agora, as condições mudaram.

O acordo negociado agora é mais positivo para o Irã que o de 2010?
Sim. Esse acordo é muito positivo. Em 2010, foi acertado que o urânio do Irã deveria ser transferido a outro país, e não havia garantia de que o material, transformado em combustível, voltaria para o país a tempo. Agora [se o acordo for fechado] manteremos o material no Irã e nós mesmos produziremos nosso combustível, o que é muito melhor.

O Brasil poderia ajudar nas negociações com as potências?
O Irã não fez pedido a nenhum país, mas o país que quiser ajudar é bem-vindo.

O que significaria para o Irã a retirada de sanções?
Apesar de 36 anos de embargo, continuamos avançando na área de tecnologia nuclear. Desenvolvemos um satélite e colocamos ele em órbita –inclusive com um ser vivo.
É claro que [o fim das sanções] iria aumentar a velocidade de avanço iraniano na área de pesquisa e tecnologia. Mas também, retirando as sanções, os outros países terão uma oportunidade de aproveitar um mercado de 80 milhões de pessoas. Será bom para as duas partes.

O regime não teme uma abertura maior ao Ocidente?
O que a cultura ocidental poderia trazer que deixasse os iranianos preocupados? Acreditamos que o Irã é o único país democrático no Oriente Médio e, em 36 anos, tivemos 34 eleições livres [contando pleitos parlamentares e regionais]. As mulheres têm atividades em todas as áreas, 63% dos estudantes universitários são mulheres. A porcentagem de deputadas na Câmara iraniana, em relação à população, é muito maior que na Câmara dos Deputados do Brasil.
O Irã não é como alguns países do Oriente Médio onde as mulheres não têm direito nem de dirigir. Se essa influência chegasse para a Arábia Saudita, poderia gerar temor. Não no Irã.

O presidente do Iêmen, Abd Rabbo Mansour Hadi, acusa o Irã de apoiar os houthis contra seu governo. Para Teerã, esse governo não é legítimo?
É trabalho dos iemenitas reconhecer um governo ou tirá-lo do poder, não de outros. Mas um terço da população não está reconhecendo.
Os houthis são um terço da população do Iêmen e eles têm direitos. A Arábia Saudita, ao invés de contribuir para o reconhecimento do direito deles, os atacou. Não quis reconhecer as realidades da sociedade iemenita.
Acreditamos que esses problemas devem ser solucionados pela população do Iêmen. Somos contra a intervenção de qualquer país. O Irã não tem nenhuma força militar nem consultiva no território iemenita.
Nós temos muita preocupação do ponto de vista humanitário. Desejamos que essa guerra acabe o mais rápido possível. Pensamos que a polarização no Iêmen é um perigo e queremos a unidade desse território.

O conflito do Iêmen pode alcançar uma escala regional?
Não acho que chegará a se tornar um conflito regional. O ataque da Arábia Saudita ao Iêmen é um erro estratégico, e as consequências só trazem prejuízo para os sauditas. Primeiro, porque aumentou o perigo de ação extremista dentro da Arábia Saudita, ao dar mais espaço para grupos ativos no Iêmen, como a Al Qaeda.
Além disso, a fronteira deles não estava em perigo antes, porque os houthis tinham enviado uma mensagem de que a fronteira estava segura. Agora há um risco.

Há uma chance de cooperação direta do Irã com a coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico no Iraque?
O problema do EI é uma produção desses países ocidentais, inclusive dos EUA, por isso eles não estão lutando seriamente contra a facção. Alguns países ocidentais e aliados dos ocidentais fornecem equipamentos e armas para o EI, por isso não nos juntamos à essa coalizão.
Mas como o Irã acredita que o EI é um perigo para o mundo islâmico e para o Irã, está lutando junto com o Iraque contra ele.

Com base em que o sr. diz que os EUA apoiam o EI?
Todos sabem que os americanos forneceriam equipamentos e armas aos curdos que lutam contra o EI, mas, de helicóptero, eles jogaram esse material justamente em locais onde está ativo o EI. Essas são informações da nossa inteligência.Além disso, os EUA dizem que eles são o país com maior poderio bélico, então como não conseguiram lutar contra um grupo?

Qual seria o interesse dos EUA em ajudar o EI?
Eles têm dois objetivos. Um é dar oportunidade para que extremistas que vivem em seus países migrem para [a Síria e o Iraque para] se unir ao EI e morram ali, tornando sua comunidade mais segura.
A outra razão é enfraquecer os países islâmicos para proteger a segurança de Israel. E os países islâmicos estão mais fracos.

Mas o EI não é uma ameaça também aos EUA?
Sim, mas eles não querem acreditar. Eles criaram a Al Qaeda no Afeganistão e deram a eles armas avançadas para lutar contra os russos [na década de 80]. A América não pensou que, um dia, eles poderiam se voltar contra os EUA, mas depois vimos o 11 de Setembro.

Como o Irã vê a abstenção do Brasil na votação na ONU sobre violações de direitos humanos no Irã?
A relação entre Brasil e Irã já tem 120 anos e nunca temos uma única mancha nela. Esse foi um movimento positivo, se comparado com votos anteriores, e nós agradecemos e saudamos. O Brasil tem ficado cada vez mais por dentro dos avanços dos direitos humanos no Irã e das medidas que temos tomados.
O governo brasileiro chegou a um entendimento que direitos humanos e democracia não são um projeto, mas um processo. O Brasil começou a entender mais a realidade da sociedade do Irã, deu um passo à frente baseado em fatos, e não em política.

E sobre a relação comercial entre os dois países? Ela teve uma queda no governo Dilma.
No início do governo Lula, nosso volume de comércio era de US$ 500 milhões [balança em 2002], e por causa da interação entre os dois governos, atingiu US$ 2,4 bilhões em 2011. Desde então, começou a cair. Em 2013, as trocas foram de US$ 1,6 bilhão.
O Brasil não tem usado as oportunidades que existem no Irã. No lado iraniano, estamos abertos e prontos para aumentar sem limitações.
O interessante é que essa relação é favorável ao Brasil. Dos US$ 1,6 bilhão, só 8 milhões foi de exportações iranianas para o Brasil. E esse mercado não usado pelo Brasil tem sido aproveitado por outros: China, Índia e até Austrália. Você não vai acreditar, mas no último ano, a nossa relação comercial com a América aumentou 30%, enquanto com o Brasil diminuiu.
Mas não acho que [a queda] seja uma questão política. Ela depende de alguns fatores, e um deles é a crise econômica mundial.

O jornalista americano-iraniano Jason Rezaian, do "The Washington Post", está detido desde julho passado e só no último mês foram apresentadas acusações contra ele –entre elas, espionagem. Diante de uma aproximação no diálogo com os EUA, não seria a hora de considerar sua libertação?
Ele foi preso por razões de segurança. A CIA e outros órgãos de inteligência nos EUA pediram que ele coletasse informações no Irã. Ele mesmo admitiu isso. Então ele não foi preso como jornalista. O caso está na Corte e eles estão avaliando [o caso] com base nas informações que eles têm. A decisão final sobre o seu destino é da Corte.
Não devemos ligar esse caso à questão nuclear. Os EUA também prenderam mais de 30 iranianos por causa de sanções e diferentes crimes, com diferentes acusações.
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 IRÃ
 Amorim contesta fala de embaixador do Irã sobre acordo mediado por Brasil
Isabel Fleck
Folha de S. Paulo, 20/05/2015

Em sabatina na Folha na manhã desta terça (19), o ex-chanceler Celso Amorim disse estranhar as declarações do embaixador iraniano no Brasil, Mohammad Ali Ghanezadeh, de que o acordo negociado com as potências agora é mais positivo para Teerã do que o acertado entre Brasil, Turquia e Irã em 2010, quando ele era ministro.
"É curioso porque as críticas que sempre foram feitas à Declaração de Teerã foi de que ela era insuficiente do ponto de vista do Ocidente, e agora o embaixador vem e diz que [a de agora] é melhor [para o Irã]", disse Amorim.
"Mesmo admitindo que pode haver ganhos para os dois lados, se eu tivesse que lidar com a opinião pública americana, eu ficaria preocupado com a declaração de que, depois de anos, os EUA negociam um acordo que é mais favorável ao declarado adversário do que o que havia sido negociado pelo Brasil e pela Turquia, e que os EUA rejeitaram."
Amorim reconhece que o acordo atual —que está sendo discutido entre o Irã o chamado P5+1 (EUA, França, Reino Unido, Rússia, China e Alemanha)— é mais amplo que o de 2010, que era mais "um gesto unilateral do Irã para ganhar confiança e possivelmente evitar que medidas fossem tomadas no Conselho de Segurança".
"É até possível que, do ponto de vista do Irã, que estaria, por exemplo, prevendo uma eliminação mais rápida das sanções, esse acordo possa ser mais favorável para eles", disse.
Para o ex-chanceler, que trata das negociações de 2010 em seu novo livro, "Teerã, Ramalá e Doha —memórias da política externa ativa e altiva", também chama a atenção o fato de os EUA negociarem um acordo agora, quando o Irã possui 10 toneladas de urânio levemente enriquecido.
"Naquela época, o Irã tinha 2.000 quilos, e uma das razões apontadas pela então secretária de Estado [Hillary Clinton] para não aceitar aquele acordo, contrariando o que o próprio presidente dos EUA havia sugerido, era o fato de o Irã ter aumentado de 1.200 para 2.000 quilos. Agora são 10.000", ressaltou.
"Evidentemente, com 10.000 quilos você está muito mais próximo de ter um pequenino arsenal do que com 2.000", disse.
Segundo Amorim, Hillary "sempre se revelou mais cética" da possibilidade de um acordo com o Irã do que o presidente Obama. "Também não se pode supor que ela não concordava, senão teria pedido demissão", afirmou. "Acho que os fatores eram complexos."
Ele revelou ter ouvido, depois, que nas três semanas que separaram o envio de uma carta por Obama a Lula e ao então premiê turco Recep Tayyip Erdogan respaldando as negociações e a divulgação da Declaração de Teerã, em 2010, Hillary teria assumido "compromissos com o Congresso norte-americano para que não adotasse sanções unilaterais e esperasse que ela conseguisse sanções do Conselho de Segurança da ONU".
OBAMISTA
Amorim contou ter escrito uma carta ao editor da "Foreign Policy", David Rothkopf, depois que este publicou um artigo no qual sugere que as negociações com o Irã serão o maior legado do governo Obama.
"Não me contive. Disse a ele: 'Primeiro, Cuba, depois, o Irã. Engajamento no lugar de confrontação. A política externa norte-americana está cada vez mais parecida com a brasileira'. Ele concordou comigo", contou Amorim, rindo. "Nesse ponto, sou Obamista", completou o ex-chanceler.
Apesar disso, ele revela que a relação do Brasil com os EUA durante o governo de George W. Bush era mais "direta".
"Nós tivemos muitas discordâncias, muito óbvias, desde o início do governo. (...) Mas a relação com o Bush era mais direta", disse. "A impressão que eu tinha nas conversas com o presidente Obama é que ele não dava atenção muito real ao que estava sendo dito. Ele [nos] tratava bem, mas eu discernia um certo paternalismo."
PROTAGONISMO
Amorim rejeitou a ideia de que o Brasil tenha deixado de ser um importante ator no cenário internacional nos quatro anos de governo Dilma Rousseff.
"O Brasil não caiu do mapa do mundo. O Brasil está presente no mapa do mundo, é sempre lembrado para funções, mas eu diria que os momentos variam", afirmou, citando que um dos principais programas de estudo em relações exteriores da Universidade Harvard inclui o Brasil na disciplina que estuda a política externa das potências.
"Tenho a certeza de que, no médio e longo prazo, a curva [da política externa brasileira] é ascendente. Pode haver momentos em que, por uma necessidade ou outra, certos aspectos recebam menor ou maior ênfase", disse.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

2059) EUA e Iran: esgotando as vias diplomaticas

O Irã e o instinto de Obama
Stefan Simanowitz, The Guardian
O Estado de S. Paulo, 21.04.2010

Consciência de líder está certa em evitar ao máximo um confronto militar direto com Teerã; é preciso insistir nas negociações, em vez de aplicar novas punições ao regime

Há alguns dias, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado de redução de armas estratégicas (Start) dando sinais de uma mudança significativa no foco da estratégia nuclear dos EUA - de seus antigos inimigos da Guerra Fria para os chamados Estados renegados. Na última semana, na cúpula sobre segurança nuclear em Washington, a China concordou pela primeira vez em trabalhar com os EUA numa possível aplicação de sanções contra o Irã. Enquanto cresce o ímpeto para novas sanções contra Teerã na ONU, crescem também os temores de que uma intervenção militar contra o Irã esteja se tornando mais provável. Os instintos do presidente Barack Obama assegurarão que ele fará tudo ao seu alcance para evitar um conflito militar com o Irã - mas ele enfrenta "falcões" em casa.

No mês passado, o senador americano Lindsey Graham disse a uma plateia que, se for usada, a força militar contra o Irã deve ser empregada "de maneira decisiva" assegurando que o Irã não tenha nem mesmo "um avião que possa voar ou um navio que possa navegar". Esse tipo de retórica belicosa não é nova vindo de falcões em Washington, mas as palavras do senador Graham refletem uma militância crescente no Congresso, que no ano passado autorizou US$ 46 bilhões em recursos militares de emergência. No fim de março, circulou uma resolução na Câmara dos Representantes endossando explicitamente um ataque militar israelense ao Irã se "nenhuma outra solução pacífica puder for encontrada em tempo razoável". O tipo de "solução pacífica" e o tempo que eles considerariam "razoável" não foi especificado.

Noticiou-se recentemente que centenas de bombas "arrasa bunker" (que penetram profundamente no solo antes de explodir) estão sendo enviadas dos EUA à base militar americana na Ilha de Diego García, no Índico, e o governo americano assinou contrato com uma empresa de transporte para levar 19 contêineres de munição para a ilha. Serão mandadas 195 bombas inteligentes Blu-110 com penetradores e 192 bombas Blu-117 de 900 quilos. Os EUA já possuem uma força militar poderosa no Golfo e estão realizando manobras navais em larga escala no Atlântico com britânicos e franceses.

Ao assumir a presidência, Obama fez uma clara ruptura com a estratégia para o Irã de George W. Bush, demonstrando a disposição de negociar diretamente com Teerã sem precondições. Em seu pronunciamento pela televisão voltado para o Irã e em seu discurso no Cairo, ele reconheceu publicamente os aiatolás como legítimos representantes do povo iraniano, admitiu o direito do Irã de enriquecer urânio e falou abertamente do papel da Agência Central de Inteligências (CIA) na deposição do primeiro-ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, em 1953.

Em outubro, ele manteve conversações diretas com os iranianos em Genebra depois das quais o jornal britânico Financial Times observou que Obama "obteve mais do Irã em oito horas do que a posição enérgica de seu antecessor conseguiu em oito anos".

Obama também herdou uma máquina militar cujos planos para um ataque ao Irã já estavam bastante avançados, e enfrenta uma mídia conservadora e um público pouco familiarizado com uma política externa com base na diplomacia paciente e na construção do consenso que muitos equiparam à fraqueza. A mais recente rodada de sanções envolverá exigências rígidas de inspeção de todos os bens que entram e saem do Irã e um embargo de produtos derivados de petróleo para o Irã. O bloqueio naval necessário para aplicar as sanções - seguramente envolvendo a Marinha Real britânica - poderá perfeitamente levar à guerra. Como se viu no Golfo de Ormuz nos últimos anos, escaramuças com a Marinha iraniana na região tendem à escalada.

Nas conversações em Genebra, o acordo proposto pelos EUA estabelecia que o Irã trocasse a maior parte de seu estoque atual de urânio pouco enriquecido por hastes de combustível para usinas vindos da Rússia e da França. Essa troca de "combustível por combustível" foi em grande parte aceita pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, Mas, preocupado com "promessas quebradas" anteriores, ele propôs que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) assumisse o controle do urânio pouco enriquecido no Irã até as hastes de combustível serem entregues. Como um passo para uma solução desse problema arrastado, a contraproposta do Irã parecia sensata, mas foi descartada. Em vez disso, os EUA não parecem dispostos a negociar, considerando o acordo proposto uma oferta para "pegar ou largar".

A aparente meta das negociações nucleares dos EUA de completa cessação de todas as atividades de enriquecimento pelo Irã é não só irreal mas, até certo ponto, indesejável. Ahmadinejad não vai desistir das atividades de enriquecimento que considera um direito inalienável do país.

Enquanto muitos têm preocupações genuínas de que o Irã está decidido a desenvolver armas nucleares, a maneira de assegurar que o Irã não se tornará uma nação nuclearmente armada não é isolar Teerã. Em vez disso, é preciso restabelecer rigorosas atividades de monitoramento internacional. Argumentos sobre o possível cronograma para o Irã obter uma capacidade de produzir armas nucleares tornam-se acadêmicos se assegurarmos a cooperação iraniana como o regime de inspeções da AIEA.

Com novo respeito nas ruas árabes por sua condenação, no mês passado, da política israelense de assentamentos, e mais legitimidade em seu apelo pela não-proliferação nuclear ao embarcar ele próprio na redução de armas, Obama deveria aproveitar essa oportunidade para prosseguir nas negociações com o Irã em vez de promover novas sanções. Os neoconservadores podem tentar convencer Obama de que, na condição de única superpotência global, os EUA precisam aproveitar este momento para garantir sua posição na região e assegurar controle das reservas cada vez menores de petróleo e gás. Eles podem argumentar que é preferível lançar um ataque preventivo contra o Irã mais cedo, enquanto a máquina militar americana está na região, do que mais tarde, quando o Irã se tornar ainda mais forte. Mas um ataque assim, com base no princípio da autodefesa antecipada e lançado antes de todos os meios pacíficos terem sido esgotados, seguramente não se coadunaria facilmente com a consciência de Obama. A nós, só nos resta esperar que Obama continue sendo um homem guiado por suas crenças.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Politica Nuclear do Iran (8): duas opinioes sobre o "acordo" tripartite

O Irã, o Brasil e as armas nucleares
Opinião - José Goldemberg *
Correio Brazilienze, 23/05/2010

O Itamaraty tem a reputação de ser um ministério competente, mas o imbróglio em que ele se envolveu no Irã não vai contribuir para aumentar essa reputação. Uma negociação bem-sucedida na área internacional envolve dois componentes: definir claramente o interesse do país e conhecer os detalhes técnicos ou administrativos do que se está negociando.

Na área interna, o presidente Lula deu inequívocas demonstrações de que é um excelente negociador desde os tempos em que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo. Defendia claramente os interesses dos trabalhadores contra os patrões e negociava salários e outros benefícios que são fáceis de definir.

No caso da negociação em que o Itamaraty e o presidente se envolveram em Teerã, recentemente, essas duas componentes estiveram ausentes. Em primeiro lugar é difícil ver qual o interesse do Brasil em mediar acordos do Irã com as grandes potências e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a não ser o de aumentar a presença do país no cenário internacional.

Tem havido dezenas dessas oportunidades sem qualquer beneficio claro para o país, salvo excelentes fotografias e captura das manchetes dos jornais. Sucede que o Irã tem sérios problemas de credibilidade no que se refere ao cumprimento de suas obrigações com a Agência Internacional, já foi objeto de sanções do Conselho de Segurança e está na iminência de receber outras.

Ele tem uma longa história de atividades semiclandestinas que não são aceitas pelos países que aderiram ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Mais ainda: as exaustivas negociações que tem tido durante os últimos cinco anos com os países europeus são consideradas uma estratégia para ganhar tempo e aumentar a sua capacidade de, eventualmente, produzir artefatos nucleares. Associar-se a ele nessas condições chama a atenção para o fato de que o Brasil poderia também ter interesses nessa linha. Essa não é uma hipótese vaga, porque, há cerca de 20 anos, estávamos exatamente na posição que o Irã está hoje — sob suspeitas de desenvolver um “programa paralelo” de energia nuclear para fins militares ao lado de um programa de fins pacíficos, como a instalação das centrais nucleares de Angra dos Reis. Foi preciso muito esforço para convencer a comunidade internacional que esse não era o caso, apesar de o país ter dominado a tecnologia de enriquecimento de urânio. A recente visita ao Irã ameaça jogar por terra esse esforço.

Em segundo lugar o “acordo” que o Brasil mediou não contribui em nada para resolver o conflito com a Agência Internacional e as grandes potências, que decorre do fato de o Irã continuar a enriquecer urânio a 20%, índice muito superior ao nível de 3% necessários para reatores nucleares. Ninguém nega o direito do Irã de enriquecer urânio, mas chegar ao nível superior ao necessário no uso para fins pacíficos cria serias suspeitas. Como os especialistas bem sabem é mais fácil passar de 20% de enriquecimento aos 80%, necessários para fazer armas nucleares, do que enriquecer de 3% a 20%. O Irã se recusa a limitar o enriquecimento, o que levanta suspeitas de que realmente está ganhando tempo. Enquanto negocia ele aumenta o número de centrifugas e o estoque de urânio que já enriqueceu.

O “acordo” que o presidente Lula assinou nem toca nesse assunto, como os próprios iranianos tiveram a indelicadeza de proclamá-lo publicamente antes que a tinta do “acordo” secasse, embaraçando o presidente. O que o Irã fez foi trocar uma pequena parte do seu urânio enriquecido a 3% por urânio enriquecido a 20% como combustível de um reator médico, o que, aliás, deveria ter feito há mais de seis meses, se o seu interesse real fosse a medicina.

Se o Itamaraty julgava que negociar com o Irã daria o Prêmio Nobel da Paz ao presidente Lula, ele se equivocou. Provavelmente, o papel do Brasil será visto como o de um “inocente útil” e, pior que isso, chamará a atenção para as próprias atividades nucleares do país.

* Professor emérito da Universidade de São Paulo

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O Brasil e a questão nuclear iraniana
Entrevista com o Embaixador Marcos Azambuja
Christian Carvalho Cruz
O Estado de São Paulo - Caderno Aliás, 23.05.2010

Uma moldura pesada demais
Para embaixador, Brasil deveria conter seu excesso de protagonismo em região tão complicada e em assunto tão turvo.

Para resumir o que se passou nessa semana na questão nuclear iraniana, com forte participação brasileira na assinatura de um acordo com o governo de Teerã, o embaixador Marcos Azambuja diria o seguinte, no popular: "Se meter no Oriente Médio é muita areia pro nosso caminhãozinho". Ou ainda: "Procuramos sarna pra nos coçar".
É claro que a elegância diplomática e pessoal - ele usa gravata borboleta e chapéu panamá - não lhe permite o apelo a tão baixo calão. Então, o embaixador do Brasil na Argentina (1992 a 1007) e na França (1997 a 2003), chefe da Delegação do Brasil para Assuntos de Desarmamento e Direitos Humanos em Genebra (1989 a 1990) e atual vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais disse verdadeiramente assim: "O acordo que o Brasil fez não foi ruim, mas era preferível que ele tivesse sido mais prudente ao entrar numa região tão complicada, onde seus interesses vitais não estão em jogo". E mais: "Não temos ali poder nem experiência que nos credenciem como grandes atores diplomáticos".
A seguir, trechos da entrevista em que Azambuja fala dos possíveis desdobramentos da situação, de um mundo sem armas nucleares, de direitos humanos e do samba atravessado com os Estados Unidos.

O Irã quer ter a bomba atômica ou não?
Não queria até a invasão do Iraque pelos americanos. Depois, chegou à conclusão de que ter uma capacidade nuclear, por menor que fosse, lhe daria garantias de sobrevida. O Irã acha que se o Iraque tivesse armas nucleares não teria sido invadido. Mas não estou convencido de que os iranianos estejam a caminho da bomba. Eles assinaram o Tratado de Não Proliferação (TNP) em 1968. É coisa de safra recente ter aquilo que julgam ser garantias adicionais de soberania. Há quem diga que, num mundo em que tantos países têm a bomba, o Irã também tem o direito de construir a sua. Discordo. Nessa questão, se levarmos adiante a velha máxima do "olho por olho, dente por dente" acabaremos todos cegos e banguelas.

O que o sr. achou do acordo com o Irã patrocinado por Brasil e Turquia?
Foi uma boa coisa, não se pode negar. Mas nos envolvemos num assunto complicado no lugar mais complicado da Terra. Ninguém entra nas questões do Oriente Médio sem o risco de sair chamuscado. Não temos ali poder nem experiência que nos credenciem como grandes atores diplomáticos. O que o Brasil fez não foi ruim, repito. Mas era preferível que tivesse sido mais prudente ao se meter numa região onde seus interesses vitais não estão em jogo. Não sou contra o Brasil mostrar mais sua cara e flexionar mais seus músculos. Apenas teria preferido que não tivesse escolhido o Irã para isso. Deveríamos fazê-lo nas Américas, que é nosso território, no Atlântico Sul, na África Ocidental, enfim, onde o Brasil tem projeções naturais de seu poder. No Oriente Médio nós não temos tradição, presença e, agora que somos autossuficientes em petróleo, não temos nem interesse energético.

Por que o Brasil se meteu lá, então? O sr. acredita na tese de que o presidente Lula esteja tentando ganhar um Nobel da Paz?
Não acho que o personalismo esteja envolvido. E não creio que naquela situação tão turva haja um Nobel a ser dado. O que ocorreu foi mais uma tentativa do Brasil de reforçar seus títulos para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil vai ter seu assento, mas não por um excesso de ativismo aqui e acolá. Ele vai conseguir porque seu peso e sua influência globais vão determinar, em certo momento, que o mundo o queira como membro permanente. Não é o resultado de uma campanha brasileira e sim o resultado de uma realidade brasileira que fará com que o País atinja esse objetivo.

Mas a atuação no Oriente Médio não faz parte desse processo?
Não ajuda. Não vejo de que maneira isso reforce amplamente nossas credenciais. O Brasil foi excessivamente protagonista nessa questão. Eu sou a favor de o Brasil se engajar no Irã em níveis menos íntimos, fazendo acordos de cooperação comercial, técnica, exportação de bens e serviços. Vejo um universo de cooperação entre Brasil e Irã que não deveria ter como fundamento uma área controvertida como a questão nuclear. Convinha ao Brasil, que tem um programa de enriquecimento de urânio para fins pacíficos, não se assemelhar ao Irã. Nós temos um programa aceito pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma Constituição que proíbe armas nucleares, um acordo com a Argentina, somos sócios de boa-fé do TNP e estamos numa região do globo, o Hemisfério Sul, em que não há uma bomba atômica sequer. Em vez de nos assemelhar ao Irã nós devíamos é sugerir que somos farinha de outro saco.

Já que se propôs a ir além, o País não poderia ter incluído no acordo tópicos relacionados aos direitos humanos no Irã?
Nesse caso não haveria diálogo. O Irã é um país que se move por motivos diferentes. O Brasil é uma democracia multirracial, tolerante, laica. O Irã tem uma série de características que correspondem a outra visão de mundo. Se você trouxer direitos humanos à mesa, o diálogo nem começa.

Os EUA ignoraram o acordo e propuseram novas sanções, sob o argumento de que o Irã não irá cumpri-lo. Em diplomacia, um governo pode desqualificar as intenções de outro por não achá-las críveis?
Não se pode prejulgar o outro. Não se pode garantir se o Irã cumprirá ou descumprirá um acordo internacional que assinou. Só que no Oriente Médio a suspeita é a moeda de troca. No clima de desconfiança em que ali se opera, a presunção é a de que todos tenham motivos ulteriores. A desconfiança não é sobre o estrito cumprimento desse acordo. Ninguém duvida que o Irã vá mandar o urânio para ser enriquecido na Turquia. A suspeita é que outra quantidade de urânio esteja sendo enriquecida internamente em posições não declaradas. Essa é a insinuação americana. Insinuações são terrenos pouco sólidos para se construir algo, mas a desconfiança é da essência da relação nesse caso. O que está sendo julgado não é a virtude do acordo patrocinado por Brasil e Turquia, mas o desejo que tinham os EUA de punir o Irã por sua política nuclear ambígua. O samba atravessou.

A relação Brasil-EUA perde algo com isso?
No curto prazo o que era uma lua de mel se transformou numa relação complicada. Semanas atrás havia uma disposição americana afetuosa de reconhecer o Brasil como potência global, havia boas relações pessoais do Lula com o Obama, do Celso Amorim com a Hillary Clinton. Houve o episódio do algodão, retaliações comerciais, mas isso faz parte da ação de duas potências com interesses contraditórios. Agora surgiu um elemento de irritabilidade. Os EUA acharam que o Brasil agiu de maneira a dar ao Irã mais credibilidade e mais prazo quando eles queriam o oposto. Ao fazer isso, o Brasil forçou os americanos, que tinham outro cronograma, a agir mais depressa para que um rascunho de resolução fosse apresentado. Há um pequeno dano. Mas não creio que ele afete de maneira profunda e duradoura as relações entre duas democracias maduras. Tudo vai depender do voto brasileiro no Conselho de Segurança para as sanções adicionais. O Brasil tem sido um membro bem comportado da comunidade internacional. Costuma concordar com tudo o que o Conselho recomenda. Além disso, os países que promovem as sanções são grandes parceiros nossos: EUA, Inglaterra, França, e dois colegas do Bric, Rússia e China. Pelas alianças tradicionais e pelas novas amizades, o Brasil não deveria contrariar uma resolução do Conselho de Segurança.

Mas aí o País estaria indo contra o acordo que se gaba de ter feito.
Há na diplomacia uma série de recursos para evitar parecer isso. Uma abstenção com uma declaração de voto inteligente e articulada, por exemplo. Eu volto ao ponto que é para mim uma obsessão: o Brasil se envolveu demais numa região em que nos convinha usar o multilateralismo para expressar nossos interesses, ou seja, atuando como membro temporário do Conselho de Segurança para influenciar um projeto de resolução que nos parecesse bom e votar de uma maneira que nos parecesse adequada. Nós não temos ali castanhas a tirar do fogo tão intenso que justifique um envolvimento direto nesse nível.

Os iranianos foram sinceros ao assinar o acordo ou só querem ganhar tempo para construir a bomba, como sugerem os EUA?
O Irã agora foi constrangido a reiterar suas intenções pacíficas. Se burlá-las, corre o risco de ficar totalmente isolado. Estaria se opondo não só a seus adversários, mas enganando os países que o ajudaram. Isso é um dado. Mas não há garantias de que se possa confiar somente em intenções. Em matéria de desarmamento as coisas funcionam com inspeções de alto rigor e não anunciadas. É isso o que vale. Os EUA e seus sócios estão convencidos de que o acordo é uma manobra dilatória e opaca do Irã para continuar fazendo o que bem entender. Daí a insistência em novas sanções (bloqueio de transações financeiras, interceptações de navios, congelamento de bens no exterior, entre outras). Só tem um problema: elas me parecem cosméticas. A única sanção que faria o Irã mudar seria uma que afetasse a sua capacidade de exportar petróleo. E isso não está em discussão, é claro, porque mexeria com os mercados mundiais. Se as sanções tocassem no petróleo iraniano a China não teria aderido a elas. Em outras palavras, o Oriente Médio está sendo exatamente o que costuma ser: complexo, teatral, perigoso. Particularmente, eu não creio que as sanções sozinhas resolvam. Elas são indutoras de um processo de negociação. Os países que as defendem acham que, se não houver mais penalização, o Irã não fará nada, continuará com o projeto que pode levar à construção de uma capacidade militar nuclear.

Nesse caso, há possibilidade de um ataque militar ao Irã?
Não creio. A intensa campanha no Conselho de Segurança por mais sanções traduz o fato de que a hipótese militar está descartada. Os EUA, intensamente engajados no Iraque e no Afeganistão e com problemas econômicos enormes, não me parecem com disponibilidade e vontade para agir. E o Irã não é o Iraque. O Irã não é um pequeno país, é o descendente do grande Império Persa. Suas instalações nucleares, se as houver, estão espalhadas e profundamente protegidas. O Irã não tem reatores nucleares industriais que possam ser alvos naturais em uma retaliação armada. Uma ação por parte de Israel seria um tanto arriscada e contraproducente. Todas as tensões existentes na região se amplificariam. Em diplomacia a gente nunca exclui totalmente nada, mas eu colocaria a retaliação militar numa posição muito baixa na minha hierarquia de possibilidades.

Estima-se que Israel tenha até 200 ogivas nucleares. O país se recusa a aderir ao TNP e não permite supervisão a AIEA em seu território. Por que o país não é tão pressionado como o Irã?
Aí precisamos entrar no âmago do relacionamento EUA-Israel, na culpa ocidental pelos episódios da 2ª Guerra Mundial, do Holocausto. Há toda uma história atrás de tudo isso, mas de fato o tratamento é díspar. Eu defendo que Israel abra mão de suas armas nucleares e caminhe para o estabelecimento de uma zona militarmente desnuclearizada no Oriente Médio. É obrigação dos signatários do TNP que não têm armas nucleares pressionar os que têm a declarar a posse, no caso de Israel, e a eliminar seus estoques, no caso de todos os outros.

O sr. vê alguma possibilidade de os países que têm a bomba desmancharem seus arsenais? Ou ainda vamos morrer disso?
Já vivemos num mundo sem o uso de armas nucleares. Elas deixaram de ser parte do arsenal das grandes potências para se tornar uma ambição da Coreia do Norte, da Líbia em certo momento... Houve uma degradação da importância estratégica das armas nucleares. EUA e Rússia acordaram em reduzir seus estoques recentemente. É claro que estão aperfeiçoando seus arsenais, porque 3 mil ogivas de hoje equivalem a 8 mil de 30 anos atrás. Mas estamos a caminho de uma sanidade crescente. Hoje, os países poderosos temem mais que as armas caiam nas mãos de terroristas, de países desqualificados, do que a hipótese inicial de um enfrentamento de superpotências. A arma nuclear será em breve um projeto de subpotências.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Revisitando a negociação nuclear Brasil-Turquia com o Irã - Rubens Barbosa (OESP)

 REVISITANDO A NEGOCIAÇÃO BRASIL-TURQUIA COM O IRÃ.

 

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 25/05/2021


Espera-se para esta semana, a conclusão dos entendimentos entre os Estados Unidos e o Irã a fim de definir as condições para a volta do governo Biden ao acordo nuclear, abandonado por Trump e, por isso, desconsiderado por Teerã. 

 

Por seu interesse e oportunidade, transcrevo a descrição que o ex-embaixador da França nos EUA, Gerard Araud, fez dos entendimentos sobre esse importante acordo. No livro Passeport Diplomatique (Grasset,2019), Araud, na época diretor político do Quai D’Orsay e negociador francês nas tratativas com o Irã, comenta as negociações encetadas pelo Brasil e Turquia com o Irã, segundo a visão dos países que negociaram com o governo iraniano.

 

A iniciativa brasileira e turca de levar adiante a negociação, na interpretação de Lula e de seu ministro do exterior, resultou de pedido formulado por carta do presidente Obama, na qual ressaltava que os EUA apoiavam a proposta do ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica no sentido de que o Irã transferisse 1.200 quilos de seu urânio de baixo enriquecimento para fora do país (Turquia). O presidente dos EUA lembra que havia pedido cautela a Lula nas negociações com o Irã, por não acreditar na boa fé do governo de Teerã, e instara o Brasil a insistir junto ao Irã a aceitar o oferecimento do governo de Washington de o país manter seu urânio na Turquia como caução, enquanto o combustível nuclear estava sendo produzido. Esse foi o encorajamento contido na carta de Obama. O acordo negociado pelo Brasil e Turquia com o Irã previa o envio por parte do Irã à Turquia de 1.200 quilos de seu urânio levemente enriquecido (a 3,5%) para uma troca, em um prazo máximo de um ano, por 120 quilos de combustível altamente enriquecido (20%), necessário para o reator experimental de Teerã. O acordo, que reconhecia ainda o direito do Irã de utilizar para fins pacíficos a tecnologia nuclear e o enriquecimento de urânio, segundo Celso Amorim, foi rejeitado pela secretaria de Estado Hillary Clinton, menos de 24 horas depois da sua assinatura.

 

Segundo Araud, no meio de uma difícil negociação que se estendia por mais de seis anos, “o Brasil e a Turquia, sem conhecer todos os detalhes desses entendimentos, decidiram interferir no processo, com base em uma interpretação da carta de Obama que reafirmava o objetivo que o grupo 5+1 (EUA, França, Reino Unido, Rússia e China) estava perseguindo (transferência do uranio para fora do país), sem entrar nos detalhes, como era de se esperar nesse tipo de correspondência”. “Os negociadores brasileiros e turcos, que desconheciam o histórico das longas negociações com o Irã, decidiram começar uma negociação paralela com base na carta de Obama a Lula e assinaram com os iranianos – que sabiam precisamente o que estava por detrás das palavras – um texto desequilibrado, que todos, inclusive a Rússia e a China, tiveram de rejeitar”. “No primeiro parágrafo do acordo, ficava reconhecido o direito do Irã de enriquecimento do urânio, que não estava em negociação com os EUA. Isso representava, de um lado, o descumprimento de cinco resoluções do Conselho de Segurança da ONU que solicitavam que o Irã suspendesse as atividades nessa área, e de outro, uma relevante inovação em termos de não proliferação, pois nunca o enriquecimento do urânio para programa nuclear foi considerado um direito, contrariamente ao direito no tocante ao uso pacífico da energia nuclear”. “O Brasil e a Turquia caíram em uma armadilha”. A bem da verdade, comenta Araud, “a carta de Obama era ao mesmo tempomuito pouco precisa e contribuiu para deixá-los perdidos em um labirinto, no qual os próprios negociadores do grupo estavam sem saída há seis anos”. “Brasil e Turquia se abstiveram na votação da Resolução do conselho de segurança que impôs sanções contra o Irã”. Araud conclui que, “além de desequilibrado, o acordo incorporou reivindicações do Irã que não haviam sido aceitas pelo grupo 5+1, como o direito ao enriquecimento do urânio para o programa nuclear, o que contrariava cinco resoluções da ONU, prevendo apenas sua utilização para fins pacíficos”.

Os comentários do ex-embaixador francês em Washington qualificam as reiteradas manifestações de Lula e de Amorim de que o Brasil se engajou na negociação com o Irã em decorrência de um pedido formal de Obama. Uma leitura atenta da carta do presidente dos EUA mostra que o governo americano apenas instou o Brasil e a Turquia a convencer Teerã a transferir o urânio de baixo teor para fora do país, nos termos da proposta a AEIA. 

 

Depois desse episódio que envolveu o Brasil diretamente, as negociações prosseguiram por quase uma década e foram concluídas em 2019. O Irã assumiu a obrigação de suspender por 15 anos seu programa nuclear com a redução do total de centrífugas e de seu estoque de urânio. Com a saída dos EUA, Washington voltou a impor sanções políticas e econômicas. A plena reativação do acordo sobre o programa nuclear de Teerã passa pelo cumprimento pelo Irã das restrições ao processamento do urânio e pela suspensão das sanções americanas.

 

Rubens Barbosa, presidente do IRICE e membro da Academia Paulista de Letras.

sábado, 26 de junho de 2010

Brasil-Iran-EUA: um triangulo pouco amoroso

A coisa tem tudo para dar errado: ameaça degringolar num festival de acusações mútuas, possibilidade de retaliações cruzadas e deterioração geral das relações bilaterais.
Mal comparando, creio que foram mexer num vespeiro: algumas pessoas podem sair picadas. Não foi por falta de aviso...
Paulo Roberto de Almeida

Em recado a Brasil, texto de sanções dos EUA ao Irã inclui menção a etanol
Por Patrícia Campos Mello (corresponde em Washington)
Estado de São Paulo, 26.06.2010

A lei de sanções contra o Irã, aprovada pelo Congresso americano quinta-feira, inclui pela primeira vez restrições à venda de etanol a Teerã, em um claro recado para o governo brasileiro. Enterrada no meio do texto do projeto de lei de 41 páginas, que deve ser assinada pelo presidente Barack Obama nos próximos dias, há uma ordem explícita para que o governo americano monitore as exportações de etanol para o Irã.
Segundo o texto, o presidente americano fica obrigado a entregar um relatório para o Congresso 90 dias após a publicação da lei de sanções, sobre os investimentos no setor de energia do Irã, que incluam “uma estimativa do volume de recursos energéticos, incluindo etanol, que o Irã importou durante o período”, além de uma “lista de todos os projetos, investimentos e parcerias fora do Irã que envolvam entidades iranianas em parceria com entidades de outros países, incluindo identificação das entidades dos outros países.” Isso vai valer para qualquer negócio feito a partir de janeiro de 2006
Durante deliberações que levaram à provação do projeto de lei no Legislativo, o deputado democrata Eliot Engel, líder da Subcomissão de Hemisfério Ocidental da Câmara dos Representantes, deixou claro que o texto tinha endereço certo.
“Quero manifestar meu apoio à seção 110 da lei, que exige um relatório sobre exportações de energia para o Irã; Os EUA e o Brasil são os maiores produtores de etanol do mundo e fiquei feliz de ouvir dos produtores brasileiros que eles não têm planos de fornecer etanol para o Irã”, disse Engel. “É por isso que a lei é importante, precisamos continuar monitorando essa área, já que exportações de etanol podem enfraquecer as sanções contra o setor de energia do Irã.”
Segundo uma fonte do Congresso, o estabelecimento do relatório é o primeiro passo para uma emenda que pode incluir o etanol na lista dos produtos cuja venda para o Irã estará proibida.
Desta forma, se a Petrobras resolvesse revender etanol brasileiro para os iranianos, poderia ser alvo de retaliação de Washington. Procurada pelo Estado, a estatal brasileira, por intermédio de sua assessoria, assegurou não ter planos imediatos de negociar o produto com o Irã.

“Sem discriminar”
O governo americano já havia indicado claramente que se opõe ao possível interesse brasileiro de fornecer etanol para os iranianos. “Qualquer iniciativa que burle as sanções prejudica nosso objetivo, então não é uma boa ideia”, disse um alto funcionário da Casa Branca ao Estado.
Diferentemente do reforço das medidas unilaterais que os EUA pretendem impor ao Irã, nas sanções aprovadas pela ONU - apesar da oposição de Brasil e Turquia - não há restrição explícita ao setor energético ou ao etanol.
O Congresso americano havia aceitado o pedido do presidente Obama para adiar a votação de sua lei unilateral de sanções até que a ONU aprovasse sua iniciativa. Agora, Obama deve sancionar o projeto, transformando-o em lei.
Na época, o governo brasileiro afirmou foi explícito: “Não vamos discriminar ninguém na hora de exportar etanol. Vamos exportar etanol para qualquer país que queira, nossa prioridade é abrir mercados”, tinha declarado, no início do mês, uma fonte do governo.
A possibilidade de o Brasil suprir parte das necessidades de combustível do Irã com etanol foi levantada pelo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, em visita a Teerã, em abril.
Jorge afirmou que o Irã está interessado em comprar etanol brasileiro, por causa dos problemas que enfrenta para comprar gasolina diante dos bloqueios comerciais que sofre. Mas os empresários brasileiros afirmam não ter intenção de correr o risco de ser sancionados pelos EUA.
Assim como a assessoria da Petrobrás, Adhemar Altieri, porta-voz da Unica, entidade que representa os produtores de etanol, disse que não há projeto nem de curto nem de longo prazo para exportar etanol para o Irã.

Para entender
As sanções aprovadas na quinta-feira pelo Congresso americano são ações unilaterais, aplicadas apenas pelos EUA - diferentemente das medidas multilaterais adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU, no dia 9, que devem ser seguidas por todos os membros da organização. As punições contra nas Nações Unidas são mais brandas porque, para aprová-las, era preciso o apoio de chineses e russos, que têm interesses comerciais e são contra medidas muito duras contra Teerã. Um caso semelhante ocorreu com o regime do apartheid, na África do Sul. A ONU adotou suas primeiras sanções contra os segregacionistas nos anos 60. As medidas, porém, eram amenas e foram facilmente burladas pelo governo branco. O sistema de segregação racial só começou a ruir anos 80, depois que EUA e Grã-Bretanha adotaram duras sanções unilaterais contra a África do Sul.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Brasil-Iran: nao se pode confiar mais nos amigos...

O Estadão parece possuir o seu próprio "Wikileaks". Só falta descobrir o "soldado" delator...

Irã faz protesto contra crítica de Dilma
Patrícia Campos Mello e Jamil Chade
O Estado de S.Paulo, 12 de janeiro de 2011

Diplomacia. Lula buscou aproximação com Ahmadinejad
Em telefonema à embaixada brasileira no país, governo de Ahmadinejad expõe mal-estar com declarações de autoridades da nova administração sobre a política de direitos humanos de Teerã; após o segundo turno, presidente condenou apedrejamento

O governo iraniano registrou um protesto contra as críticas do governo Dilma Rousseff à situação dos direitos humanos no Irã, num primeiro sinal de mal-estar entre os dois países, após anos de ótimas relações.

Em telegrama diplomático a cujo conteúdo o Estado teve acesso, com data de anteontem, diplomatas brasileiros em Teerã relatam que um assessor especial do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, telefonou para o embaixador brasileiro no Irã, Antonio Salgado, para se queixar. O assessor "transmitiu o incômodo de Teerã com as repetidas referências à situação dos direitos humanos no Irã, feitas por autoridades brasileiras". Segundo o telegrama, o assessor iraniano teria pedido ao embaixador que informasse o Itamaraty sobre o desconforto.

O Brasil, que antes adotava a posição de não condenar violações aos direitos humanos no Irã, mudou a posição com Dilma. Em entrevista ao jornal Washington Post, em 18 de novembro, Dilma criticou o comportamento do Brasil na ONU, ao abster-se de votar uma condenação às violações de direitos humanos no Irã. "Não concordo com o modo como o Brasil votou. Não é a minha posição", afirmou Dilma, mencionando "práticas medievais aplicadas quando se trata de mulheres". "Ficaria desconfortável, como uma mulher eleita presidente, em não me manifestar contra o apedrejamento", disse ela, referindo-se à condenação da iraniana Sakineh Ashtiani à morte por apedrejamento.

Em entrevista à revista Veja, publicada no domingo, o chanceler Antonio Patriota foi na mesma linha. "A questão da ameaça de apedrejamento da iraniana obviamente vai contra tudo o que nós representamos", disse Patriota. "Acho que vai haver uma reflexão interna sobre essa questão dos direitos humanos."

O protesto do governo iraniano é a primeira consequência formal da mudança de direção da política externa brasileira em relação ao Irã. O governo Lula foi marcado por uma posição de não intervenção nas questões que envolvem o país. Ele comparou os tumultos que se seguiram à eleição iraniana em 2009, quando centenas de iranianos foram detidos e agredidos por agentes do regime, a uma "briga de torcida" - não passaram de "uma coisa entre flamenguistas e vascaínos", disse Lula. Instado a protestar contra a condenação de Sakineh, Lula afirmou: "É preciso tomar muito cuidado porque as pessoas têm leis e regras. Se começarem a desobedecer às leis deles para atender aos pedidos dos presidentes, daqui a pouco há uma avacalhação." Depois, ofereceu asilo à iraniana, dizendo: "Se minha amizade e afeição pelo presidente do Irã são importantes e se essa mulher está causando problemas lá, nós a acolheremos aqui no Brasil." E o Itamaraty tradicionalmente se abstinha nas votações no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Tanto a diplomacia brasileira quanto assessores do governo evitaram nos últimos dias a falar sobre o assunto. No Itamaraty, diplomatas chegaram a negar a existência do comunicado, enquanto outros simplesmente afirmavam "desconhecer" a existência da ligação telefônica. O ministro Tovar Nunes, assessor do chanceler Antonio Patriota, afirmou ser "natural" essa comunicação entre as chancelarias. "Nosso diálogo é fluido, somos sensíveis às preocupações dos países, mas também temos nossas posições, manifestadas de forma clara", disse Tovar. "Não há mal estar nenhum."

Mas não é a primeira vez que um descompasso é explicitado na relação bilateral. Em fevereiro de 2010, o Estado publicou com exclusividade o conteúdo de um telegrama do Itamaraty sobre a situação de direitos humanos no Irã. O telegrama relatava um encontro realizado entre a embaixadora Vera Machado, a então subsecretária de Assuntos Políticos, e o embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh. Durante a reunião, a embaixadora ressaltou o fato de que a aproximação entre o Irã e o Brasil estaria sendo criticada pela "imprensa conservadora" do País. O apelo feito por ela era para alertar os iranianos sobre a situação dos direitos humanos, principalmente a situação da população Bahai, discriminada pelo regime de Teerã.

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PS.: Uma última observação sobre este "wikileaks" brasileiro [PRA]:

Sobre este trecho:
"Durante a reunião [com o embaixador do Irã em Brasília, Mohsen Shaterzadeh], a embaixadora [Vera Machado, subsecretária de Assuntos Políticos do MRE] ressaltou o fato de que a aproximação entre o Irã e o Brasil estaria sendo criticada pela "imprensa conservadora" do País."

Parbleu! Por que "imprensa conservadora"? Se fosse pela "imprensa progressista" seria aceitável a crítica? Apenas a "imprensa conservadora" não tem o direito de fazer críticas à aproximação do Brasil com o Irã, na verdade o apoio do Brasil ao regime e ao governo atual do Irã? Supostamente, a imprensa progressista não se ocupa de direitos humanos, ou exerce uma análise crítica da política externa?
A imprensa atua de uma ou outra maneira segundo sua "coloração ideológica"?
Talvez no imaginário de certos governos seja assim; no mundo da imprensa séria, e comprometida com a verdade, a imprensa costuma ser crítica de qualquer governo, em qualquer regime, em qualquer época...
Paulo Roberto de Almeida

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Toque de recolher
Dora Kramer
O Estado de S.Paulo, 12.01.2011

Nada de inusitado na proibição dos livros de Paulo Coelho no Irã. Gestos como esse são inerentes a ditaduras.
Diferente no episódio foi o Brasil cumprir sua obrigação de protestar e condenar a violência, considerada "abominável" pela ministra da Cultura, Ana de Holanda, que anunciou pedido de providências oficiais ao Itamaraty.
Diante de ataques aos direitos humanos e agressões à liberdade - morte de dissidentes em Cuba, fraude eleitoral no Oriente e matanças na África -, no governo Lula o Brasil não apenas calou como celebrou as ações dos regimes autoritários. Em pelo menos duas ocasiões, confraternizou publicamente com os ditadores e desdenhou da posição dos opositores.
Comparou os dissidentes cubanos a bandidos comuns e igualou os protestos da oposição iraniana contra a roubalheira eleitoral do regime ao choro de perdedores em partidas de futebol.
Manifestou-se a ministra, falta se posicionar a presidente Dilma Rousseff: pessoalmente seria o ideal, como fez no caso da condenação por apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani, mas se o fizer por intermédio do Ministério das Relações Exteriores já terá dado um passo a mais para reposicionar o Brasil no cenário internacional como uma democracia guardiã de princípios universais.
Condição que o antecessor subtraiu ao País quando subordinou valores a interesses de maneira equivocada e, sobretudo, perversa, contando para isso com a colaboração de um chanceler obcecado pelo ofício da bajulação.
Diga-se em defesa de Celso Amorim que não foi o único. São inúmeros os exemplos de exorbitâncias decorrentes da subserviência de auxiliares do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que, receosos de suas reações e curvados à sua popularidade, preferiam fazer suas vontades a cumprir a Constituição e preservar as respectivas biografias.
Amorim é apenas o caso mais patente. O fecho de sua gestão diz tudo: a concessão indevida de passaportes diplomáticos aos filhos maiores de idade e a um neto de 14 anos do então presidente, dois dias antes do encerramento do mandato, sob a justificativa de que atendia aos interesses do País.
Tanto não atendia que o Itamaraty calou a respeito. Sabe-se ali que o ato resultou do afã de cumprir ordens e agradar ao chefe que deixava o cargo consagrado, construindo um cenário de preservação de poder em perspectiva.
Quando a subserviência se sobrepõe a tudo o mais é que se deteriora a proposição fundamental do Estado de Direito: o respeito à legalidade, a observância a quesitos como probidade, impessoalidade e igualdade dos cidadãos perante as regras que regem a vida em sociedade.
No momento em que sai de cena o objeto do servilismo, se sobressai o burlesco da situação. Amorim foi para casa com esse troféu, outros a partir de agora provavelmente - vai depender de a presidente Dilma Rousseff conduzir-se por lógica diferente - dar-se-ão conta das oportunidades que deixaram passar de se dar ao respeito.
Para ficarmos nos episódios finais, temos o ministro da Defesa, Nelson Jobim, a classificar como "ridículas" as críticas à concessão de área militar para o ex-presidente tirar férias com a família.
Com perdão da deselegância do termo, ridículo é um ministro de Estado se prestar ao exercício da adulação com o dinheiro público para servir ao ex como se a prerrogativas presidenciais ainda tivesse direito.
Que o ar fica mais respirável, o ambiente mais ameno e saudável na ausência de Lula, não resta a menor dúvida.
Em boa medida pelo recolhimento (temporário?) dos bajuladores.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Iran: primavera iraniana? - Abbas Milani (Newsweek)




NEWSWEEK

Estariam os clérigos iranianos com os dias contados?

Queda de Bashar Assad na Síria pode ter reflexos sobre o regime do Irã

Por Abbas Milani




Newsweek - Iranian Clerics About to Fall?

Os clérigos do Irã estão apavorados. Com a Síria em frangalhos, eles se perguntam se sua aliança com Bashar Assad irá marcar o fim de seu próprio reinado despótico. O regime da Síria tem sido o aliado mais confiável – talvez o único – do Irã no Oriente Médio. Teerã enviou milhões de dólares para manter a Síria sob sua esfera de influência, e nos últimos meses, rumores de forças militares iranianas atuando sob o comando de Assad na Síria começaram a circular.
No entanto, enquanto democratas sírios continuam a surpreender o mundo com sua tenacidade, a longa união entre a Síria e o Irã começa a ruir. As declarações do governo iraniano são contraditórias, e são – ao mesmo tempo – uma tática para confundir o mundo, e um reflexo das enormes cisões e da briga de facções no poder central do Irã.
Inicialmente, o Irã ofereceu apoio ilimitado a Assad. Hoje, o país está recuando. Os clérigos iranianos querem afirmar tanto que a Primavera Árabe foi inspirada por seu modelo islâmico, quanto que a Síria é uma exceção, uma conspiração criada e colocada em prática por Israel e os Estados Unidos. Quando a Turquia, cada vez mais uma rival do Irã na luta por influência no mundo muçulmano, se aliou aos democratas sírios; quando pesquisas em países como o Egito mostraram um declínio na popularidade do regime iraniano; e quando sinais de preocupações entre os sunitas de que os iranianos estejam conspirando para reestabelecer um “Império Xiita” se tornaram cada vez maiores, o regime iraniano começou a se distanciar de Assad.
Afinidades marcam aliança
O Irã e a Síria são parceiros espirituais. Ambos são regimes pseudototalitários que governam em nome de uma ideologia: na Síria, a ideologia do Ba’ath, uma amálgama de fascismo europeu e nacionalismo árabe; e no Irã, a teoria do velayat-e fagih, uma mistura eclética de crenças xiitas na interpretação religiosa da lei e a noção de comando absoluto do rei filósofo, de Platão. Em ambos os países, uma pequena minoria se mantém no poder com o apoio de um sistema de inteligência opressiva, milícia e aparatos militares. Ambos os regimes são minorias xiitas que não contam com a confiança da população em um Oriente Médio dominado por sunitas. Ambos controlaram suas tempestades políticas com a ajuda econômica de forças estrangeiras: no caso da Síria, com o apoio do Irã e de outros Estados árabes; no Irã, por meio de um súbito aumento nos preços do petróleo. Em ambos, o líder vitalício absoluto – Khamenei no Irã e Assad na Síria – foi coroado por meio de golpes e sem eleições populares. Ambos ameaçam e intimidam seus vizinhos apoiando organizações terroristas. Os dois países consideram o Líbano como parte de sua área de atuação e usam o Hezbollah. Como xiitas, eles acreditam no tagiyeh, ou equívoco, um conceito central do xiismo que permite que os piedosos mintam e trapaceiem na defesa de sua fé. Essas afinidades marcam a aliança de 40 anos entre os déspotas do Irã e da Síria.
Agora existem sinais de que por trás do apoio intransigente à Síria, Khamenei e seus asseclas se preocupam com a possibilidade da queda de Assad e suas consequências no Irã. Uma Primavera Síria democrática poderia dar um fim ao longo inverno de despotismo iraniano.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Politica Nuclear do Iran - o compromisso com Turquia e Brasil

Apenas para registrar o que tinha ficado acertado entre os três países. Esta é apenas uma etapa num processo longo, que vem se arrastando pelos últimos cinco anos, pelo menos, e que deve se estender, talvez de modo dramático, pelas próximas semanas ou meses.
Difícil prever o desenlace, mas ele não será feliz, é a única coisa que posso antecipar...
PRA (19.05.2010)

Declaração Conjunta de Irã, Turquia e Brasil
17 de maio de 2010

Tendo-se reunido em Teerã em 17 de maio, os mandatários abaixo assinados acordaram a seguinte Declaração:

1. Reafirmamos nosso compromisso com o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) e, de acordo com os artigos relevantes do TNP, recordamos o direito de todos os Estados-Parte, inclusive a República Islâmica do Irã, de desenvolver pesquisa, produção e uso de energia nuclear (assim como o ciclo do combustível nuclear, inclusive atividades de enriquecimento) para fins pacíficos, sem discriminação.

2. Expressamos nossa forte convicção de que temos agora a oportunidade de começar um processo prospectivo, que criará uma atmosfera positiva, construtiva, não-confrontacional, conducente a uma era de interação e cooperação.

3. Acreditamos que a troca de combustível nuclear é instrumental para iniciar a cooperação em diferentes áreas, especialmente no que diz respeito à cooperação nuclear pacífica, incluindo construção de usinas nucleares e de reatores de pesquisa.

4. Com base nesse ponto, a troca de combustível nuclear é um ponto de partida para o começo da cooperação e um passo positivo e construtivo entre as nações. Tal passo deve levar a uma interação positiva e cooperação no campo das atividades nucleares pacíficas, substituindo e evitando todo tipo de confrontação, abstendo-se de medidas, ações e declarações retóricas que possam prejudicar os direitos e obrigações do Irã sob o TNP.

5. Baseado no que precede, de forma a facilitar a cooperação nuclear mencionada acima, a República Islâmica do Irã concorda em depositar 1200 quilos de urânio levemente enriquecido (LEU) na Turquia. Enquanto estiver na Turquia, esse urânio continuará a ser propriedade do Irã. O Irã e a AIEA poderão estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio na Turquia.

6. O Irã notificará a AIEA por escrito, por meio dos canais oficiais, a sua concordância com o exposto acima em até sete dias após a data desta Declaração. Quando da resposta positiva do Grupo de Viena (EUA, Rússia, França e AIEA), outros detalhes da troca serão elaborados por meio de um acordo escrito e dos arranjos apropriados entre o Irã e o Grupo de Viena, que se comprometera especificamente a entregar os 120 quilos de combustível necessários para o Reator de Pesquisas de Teerã.

7. Quando o Grupo de Viena manifestar seu acordo com essa medida, ambas as partes implementarão o acordo previsto no parágrafo 6. A República Islâmica do Irã expressa estar pronta - em conformidade com o acordo - a depositar seu LEU dentro de um mês. Com base no mesmo acordo, o Grupo de Viena deve entregar 120 quilos do combustível requerido para o Reator de Pesquisas de Teerã em não mais que um ano.

8. Caso as cláusulas desta Declaração não forem respeitadas, a Turquia, mediante solicitação iraniana, devolverá rápida e incondicionalmente o LEU ao Irã.

9. A Turquia e o Brasil saudaram a continuada disposição da República Islâmica do Irã de buscar as conversas com os países 5+1 em qualquer lugar, inclusive na Turquia e no Brasil, sobre as preocupações comuns com base em compromissos coletivos e de acordo com os pontos comuns de suas propostas.

10. A Turquia e o Brasil apreciaram o compromisso iraniano com o TNP e seu papel construtivo na busca da realização dos direitos na área nuclear dos Estados-Membros. A República Islâmica do Irã apreciou os esforços construtivos dos países amigos, a Turquia e o Brasil, na criação de um ambiente conducente à realização dos direitos do Irã na área nuclear.

Manucher Mottaki,
Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irã

Ahmet Davutoglu,
Ministro dos Negócios Estrangeiros da República da Turquia

Celso Amorim,
Ministro das Relações Exteriores da República Federativa do Brasil

sábado, 20 de abril de 2024

Especialistas analisam conflito no Oriente Médio, pós-ataque do Irã - Paulo Roberto de Almeida e Heni Ozi Cukier (revista Exame, Instituto Millenium)

 Uma entrevista feita pelo Instituto Millenium, integrada a outra entrevista, com um amigo e distinguido professor, com quem partilho posições fundamentalmente similares com respeito à política internacional e à diplomacia brasileira.

Especialistas analisam conflito no Oriente Médio, pós-ataque do Irã

Instituto Millenium conversou com o diplomata Paulo Roberto de Almeida e o cientista político Heni Ozi Cukier

No fim de semana passado, o mundo assistiu a mais um capítulo do conflito no Oriente Médio: o envio de mísseis e drones no território israelense, pelo Irã. Para entender as implicações disso não apenas no Oriente Médio, mas em todo o mundo, e como o Brasil será afetado, conversamos com dois especialistas no assunto: os professores Heni Ozi Cukier (HOC) e Paulo Roberto de Almeida.

Paulo Roberto de Almeida é doutor em Ciências Sociais, foi diplomata de carreira, serviu em diversos postos no exterior e exerceu funções na Secretaria de Estado, nas áreas de comércio, integração, finanças e investimentos. Já HOC, é cientista político, mestre em Paz Internacional e Resolução de Conflitos, palestrante e dono de um canal com mais de um milhão de inscritos no Youtube. Ele também já foi deputado estadual em São Paulo.

Paulo Roberto de Almeida, diplomata exonerado por Ernesto Araújo

Os dois especialistas divergem em algumas leituras e previsões, como a possibilidade de uma terceira guerra, as chances de diplomacia no Oriente Médio e o posicionamento de Israel e Palestina/ Irã no atual cenário. Mas ambos são críticos ao governo brasileiro no campo da diplomacia. Confira abaixo as entrevistas:

Instituto Millenium: Como o recente ataque do Irã contra Israel influencia a dinâmica do conflito em Gaza, especialmente considerando as tensões pré-existentes e as negociações de cessar-fogo em curso?

Paulo Roberto de Almeida: O ataque introduz uma nova camada de complexidade ao conflito em Gaza, uma região já marcada por décadas de tensões desde a fundação do Estado de Israel em 1948, e as guerras subsequentes com países árabes vizinhos. A situação foi moldada inicialmente pela primeira guerra, logo após a partilha da Palestina pela ONU, que levou à expulsão de palestinos e à ocupação de territórios durante conflitos como a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Este conflito prolongado tem sido caracterizado por uma série de retaliações e violências que persistem até hoje.

Desde a revolução iraniana de 1979, que alinhou o Irã contra Israel, o Oriente Médio tem visto um aumento no apoio iraniano a grupos como o Hezbollah e o Hamas. Estes grupos têm mantido uma resistência armada que frequentemente resulta em retaliações israelenses. A violência escalou significativamente, exemplificada pelo ataque de outubro do Hamas, que levou a uma intensa resposta militar de Israel. As violações de direitos humanos nos dois lados são inéditas pela sua intensidade e extensão, refletindo a severidade do atual estado de hostilidades.

Nos anos 80 e 90, tentativas de normalização entre Israel e alguns de seus vizinhos trouxeram esperanças temporárias de paz. Contudo, as intifadas palestinas e as invasões israelenses do Líbano contra o Hezbollah durante esses anos demonstraram que a paz duradoura ainda estava fora de alcance. Esses conflitos sublinharam a contínua instabilidade e a dificuldade de se chegar a um acordo de paz estável.

No século XXI, apesar de Israel ter encerrado sua ocupação em Gaza e concedido autonomia limitada à Autoridade Palestina na Cisjordânia, a vitória eleitoral do Hamas em Gaza, em 2006, e o contínuo controle do Fatah na Cisjordânia refletem a divisão política interna palestina. Estas divisões são agravadas pelas políticas internas israelenses e pela mudança nas políticas dos Estados Unidos, que juntas complicam ainda mais as negociações de paz.

A situação atual, exacerbada pelo recente ataque do Irã e pela contínua pressão interna sobre o governo de Benjamin Netanyahu em Israel, ilustra a complexa teia de desafios políticos e militares que impedem a resolução do conflito. A resposta de Israel aos ataques recentes e as violações de direitos humanos nos dois lados, inéditas pela sua intensidade e extensão, sublinham a urgência de buscar uma solução diplomática que possa finalmente trazer paz a uma região desesperadamente necessitada de estabilidade.

Heni Ozi Cukier: O confronto entre Israel e o Irã pode afetar Gaza dentro de um contexto de negociações ou pressão por parte dos EUA para Israel não atacar, não retaliar ao Irã, e Israel querer extrair algum tipo de concessão dos americanos, algum tipo de apoio para a sua ofensiva em Rafah. Do mesmo jeito, também tira um pouco da tensão de Israel com Gaza e coloca a preocupação com o Irã também.

De muitas maneiras, um conflito não estava separado do outro, porque o Hamas só conseguiu obter tamanho sucesso nesse ataque, com a ajuda do Irã. E a guerra no Oriente Médio já era uma guerra regional. Ela começa com o ataque do Hamas contra Israel, mas nós já tínhamos uma guerra regional antes. De baixa intensidade, mas era uma guerra regional, porque já tinha Houthis atacando do Iêmen, milícias xiitas no Iraque e na Síria atacando bases americanas, Hezbollah no Líbano atacando Israel, Hamas em Gaza atacando. Todos fazem parte do eixo da resistência do Irã e todos já estavam trabalhando contra Israel.

Então a guerra de Gaza já estava relacionada com o Irã em muitos níveis. A maneira mais decisiva é, talvez, outros países, como os Estados Unidos, colocarem mais pressão para que o Hamas ceda, uma vez que estão preocupados que Israel pode estar levando a guerra para um outro nível. E, como eles não querem que a guerra chegue nesse outro nível, então eles iriam trabalhar para colocar mais pressão no Hamas.

Não me parece que o Hamas é suscetível a nenhuma dessas pressões, então no final das contas, eu não vejo muita alteração no que está acontecendo em Gaza, a não ser que o conflito entre Irã e Israel se torne uma coisa aberta, direta, numa escala muito maior. Aí Israel vai tirar o foco de Gaza e, nesse sentido, o conflito em Gaza não seria resolvido, mas seria colocado em segundo plano.

IM: De que maneira esse ataque pode alterar a relação entre a comunidade internacional e Israel? Existem sinais de mudanças na posição de aliados tradicionais ou na abordagem de organizações internacionais como as Nações Unidas?

HOC: O ataque do Irã à Israel não faz a comunidade internacional ficar contra Israel. Ao contrário, aproximou a comunidade internacional de Israel. As organizações internacionais não, porque elas são organizações universais, e a grande maioria da comunidade internacional é composta por ditaduras. As ditaduras usam Israel como um grande bode expiatório, dedicam todo foco de investigação, de pressão em Israel para não sofrerem as consequências, ou não serem alvos de investigações desses órgãos internacionais.

Então é do interesse dos países direcionar a ação desses órgãos internacionais contra Israel, para que não tenham esses órgãos focados nos problemas internos que a maioria desses países têm, sendo que a maioria são ditaduras violadoras de direitos humanos e violadoras de uma série de outras coisas.

Certamente a maior parte do mundo é pró-Palestina, e isso faz parte dessa lógica anti-Ocidente, anti-capitalista, anti-democrática. Israel simboliza tudo isso e é natural que se você tem ideologia envolvida, a narrativa vem de que a Palestina é a vítima, é o mais fraco, é o mais pobre, é o explorado, o dominado… e que Israel, com o apoio dos Estados Unidos, são os poderosos, os colonizadores, os dominadores. E essa narrativa tem uma aceitação muito grande no mundo por questões ideológicas, questões políticas, questões diversas.

PRA: A relação da comunidade internacional com Israel já estava em processo de mudança, devido à percebida intransigência do governo israelense, que rejeita a solução de dois estados e parece empenhado em restaurar o 'grande Israel', dominando completamente os territórios palestinos. Apesar de haver uma população árabe ou palestina com cidadania israelense, o governo atual tem intensificado a ocupação, especialmente na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Recentemente, mesmo líderes como Joe Biden se declararam a favor da solução de dois estados, uma posição que os Estados Unidos nunca tinham adotado formalmente antes. A brutalidade e a destruição desumana perpetrada pelas forças israelenses em Gaza, que devastaram a região e levaram a população à fome, marcaram um ponto de inflexão na percepção global.

Esta nova realidade tem causado divisões na opinião pública mundial, incluindo na Europa e nos Estados Unidos, entre apoiadores de Israel, e uma maioria expressiva pró-palestina, que, embora crítica ao Hamas, reconhece a gravidade da situação. No Brasil, por exemplo, há quem compare as ações israelenses a um genocídio, embora isso seja uma analogia controversa e não comparável ao Holocausto.

Por fim, essa mudança de percepção também se reflete nas organizações internacionais. A Corte Internacional de Justiça, por exemplo, recebeu petições para examinar se Israel está cometendo crimes de guerra e crimes contra a humanidade sob a convenção sobre genocídio. Ainda que não haja uma decisão final, a disposição da Corte em considerar estas questões indica uma mudança significativa na abordagem internacional em relação a Israel e suas políticas.

IM: Com o recente agravamento das tensões no Oriente Médio, especialmente após o ataque do Irã a Israel, quais seriam os impactos diretos para a economia brasileira, considerando aspectos como exportações, preço do petróleo e segurança energética? Além disso, como esse cenário pode influenciar a postura diplomática do Brasil nos fóruns internacionais?

PRA: Em um cenário de guerra continuada entre Israel e o Irã, ou Israel e o Hezbollah, acredito que o setor da energia não é o mais relevante. Mesmo com a escalada do conflito, o Brasil não enfrentaria problemas significativos de abastecimento de petróleo, mas sentiria impactos mais no aspecto inflacionário. O aumento do preço do petróleo importado e seus derivados afetaria diferentes vertentes do comércio internacional, influenciando a economia brasileira, principalmente através de pressões inflacionárias.

No campo da diplomacia, a situação é mais complicada. As simpatias históricas do PT e de governos liderados por Lula por movimentos anti-americanos complicam as relações com Israel, visto como um aliado fiel dos Estados Unidos. Desde a sua fundação, o PT adotou uma postura tipicamente esquerdista latino-americana, caracterizada pelo anti-americanismo e anti-imperialismo, que não passou pelas reformas ideológicas que muitos partidos social-democratas e socialistas no mundo adotaram no final do século XX.

O PT não seguiu o exemplo de partidos como o SPD alemão, o partido socialista francês sob Mitterrand ou o New Labour de Tony Blair, que moderaram suas posições marxistas originais para adotar posturas pró-democráticas e pró-capitalistas reformistas. Em vez disso, o PT manteve uma orientação pró-cubana, pró-socialista e fortemente anti-americana, o que continua a influenciar sua política externa.

Essa orientação se refletiu nas políticas diplomáticas do Brasil durante os mandatos de Lula e menos durante o governo de Dilma, que não priorizou tanto a política externa. Com a volta de Lula ao poder, essa tendência se acentuou, com um apoio mais explícito a movimentos que desafiam a ordem global dominada pelo Ocidente e promovem uma alternativa ao sistema de Bretton Woods.

Portanto, nas arenas internacionais, é provável que o Brasil mantenha uma postura que privilegie alianças e posições anti-americanas, seguindo a linha de uma política externa que busca promover uma ordem global mais multipolar, em contraste com a preeminência americana tradicional.

IM: Considerando as alegações de que o Irã teria sinalizado previamente sobre o ataque, qual poderia ser a estratégia por trás dessa comunicação? Isso reflete uma tentativa de manter o controle da narrativa sem escalar o conflito para uma guerra aberta?

PRA: O Irã, ao sinalizar previamente sobre seu ataque a Israel, demonstra uma estratégia de manter controle sobre a narrativa sem escalar para uma guerra aberta. O Irã não tem interesse em uma guerra aberta contra Israel, que poderia expandir-se para envolver vários outros países ocidentais, especialmente considerando a continuidade de seu programa de enriquecimento de urânio e seu programa nuclear. Este último foi significativamente impactado quando Trump encerrou o acordo de 2015 estabelecido por Obama, o acordo de Genebra, que havia colocado o programa nuclear iraniano sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica, com envolvimento do P5+1 — os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha.

O Irã já possui capacitação nuclear em termos de capital humano e precisa apenas enriquecer urânio suficientemente para produzir um dispositivo nuclear, contando com mísseis e capacidades de lançamento. No entanto, o Irã opta por uma postura cautelosa e não busca um confronto direto; enfrentou uma guerra de oito anos com o Iraque nos anos 80 e continua a enfrentar sanções internacionais severas — sendo o estado mais sancionado do mundo até a Rússia assumir esse lugar após sua invasão da Ucrânia.

O Irã também atua por meio de proxies, como o Hezbollah na região do Oriente Médio, algumas brigadas islâmicas a partir da Síria, o Hamas na Faixa de Gaza, e os houthis do Iêmen do norte, além de grupos terroristas em todo o mundo, incluindo aqueles envolvidos nos atentados na AMIA nos anos 90. O Irã foi formalmente acusado pela justiça argentina, acusações que foram evitadas durante os governos peronistas de Cristina Kirchner.

Israel, por sua vez, pode retaliar com sabotagem eletrônica e ataques cibernéticos contra alvos iranianos, especialmente seu programa nuclear, e através da eliminação de generais e cientistas da Guarda Revolucionária Islâmica. Israel realiza essas ações provavelmente sem o apoio explícito de nenhum país ocidental, especialmente sem o apoio declarado dos Estados Unidos, que defendem Israel mas não apoiam um ataque externo. As reuniões do conselho de segurança de Israel estão focadas em decidir qual tipo de resposta será dada, que provavelmente envolverá diferentes estratégias para atingir os interesses iranianos sem provocar uma escalada aberta ou espetacular.

IM: Dado o contexto atual e as capacidades militares demonstradas, qual é a sua visão sobre os próximos passos tanto para o Irã quanto para Israel? Há espaço para diplomacia ou devemos esperar mais confrontos militares? 

HOC: Me parece muito difícil que a diplomacia vá ser efetiva, uma vez que o Irã cruzou uma linha que até então nunca havia cruzado. Nós nunca tivemos uma guerra Israel-Irã. Nós nunca tivemos o Irã atacando Israel diretamente, lançando mísseis e drones do seu território direto a Israel. Essa linha que foi cruzada pelo Irã era um sinal claro que diplomacia não tem nenhuma capacidade de lidar com os objetivos e estratégias e desenrolar de tudo que está acontecendo no Oriente Médio.

Nós estamos assistindo uma escalada crescente, consistente e bem sólida. E a diplomacia dificilmente terá a capacidade de desescalar essa situação. Não só porque o problema está alcançando níveis maiores dentro do Oriente Médio, mas porque o contexto geral do mundo é de mais conflito.

Guerra na Ucrânia, os movimentos da China em direção à Taiwan, e outros posicionamentos ao redor do mundo, uma série de conflitos na África, a Venezuela em relação à Guiana, Azerbaijão na Armênia…

A ordem internacional foi abalada e, com isso, a desestruturação traz muito mais instabilidade, e a diplomacia se torna muito ineficaz em conseguir conter o que está acontecendo no Oriente Médio e no mundo. As divisões entre blocos do mundo também contribuem para a dificuldade da diplomacia funcionar.

O mundo está claramente dividido em dois blocos, o que eu chamo de eixo das ditaduras, que é Rússia, Irã, China, Coreia do Norte, Venezuela -  e do outro lado, as democracias. O Conselho de Segurança, por exemplo, jamais vai chegar em algum consenso, dada essa divisão do contexto geopolítico da atualidade. Alguns anos atrás, o Conselho de Segurança chegou em decisões unânimes, pressionando o Irã pelo seu programa nuclear. Hoje, isso jamais aconteceria.

PRA: Sim, há espaço para diplomacia, mesmo em meio a conflitos armados. Sempre existe a possibilidade de negociação, seja diretamente entre Irã e Israel ou por meio de mediadores internacionais como os Estados Unidos. Surpreendentemente, os EUA têm desempenhado um papel crucial como mediadores, com o Secretário de Estado, António Blinken, realizando várias visitas ao Oriente Médio e dialogando tanto com aliados quanto com adversários, incluindo Rússia e China. Enquanto a Rússia pode ter interesse em complicar a situação para os EUA, a China mostra pouco interesse em envolver-se no conflito.

Apesar das possibilidades diplomáticas, as operações de inteligência e contra-espionagem, assim como as atividades de milícias e forças paramilitares, continuam a ocorrer. Essas ações sub-reptícias ou abertas são parte do jogo de poder na região. Por exemplo, enquanto o Irã realizou ataques com foguetes, mísseis e drones, sabendo que não seriam eficazes em termos militares, essas ações serviram para satisfazer uma demanda interna por uma resposta visível ao seu público e à Guarda Revolucionária.

Além disso, a diplomacia é acompanhada de retórica nos fóruns internacionais. Recentemente, o representante do Irã no Conselho de Segurança adotou um tom moderado, apelando ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas, destacando que Israel havia violado essa carta ao atacar uma instalação diplomática na Síria. De fato, ambas as grandes potências e Israel têm histórico de violações do direito internacional, mas o discurso iraniano apontou essas questões em um contexto diplomático.

No entanto, Israel também usou o direito internacional em sua defesa, visando mais a audiência internacional do que a doméstica, que se concentra mais nas demonstrações de força, como o lançamento de projetos contra o Irã. No final das contas, a diplomacia ainda é predominante, com os Estados Unidos desempenhando um papel chave na moderação do conflito, mantendo diálogo tanto com aliados quanto com inimigos de Israel e do Irã.

IM: Considerando os conflitos em andamento, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, como você avalia o risco de uma escalada para uma guerra de proporções globais, especialmente se a China decidir avançar sobre Taiwan e os Estados Unidos se envolverem diretamente?

PRA: Não acredito que o mundo esteja 'pronto' para um enfrentamento direto entre as três grandes potências militares — Estados Unidos, China e Rússia —, além da União Europeia, que considero um 'meio império'. Estamos assistindo a um aumento na preparação militar, especialmente da China, que está construindo uma marinha significativa e desenvolvendo novas armas aéreas. No entanto, a China não aspira a ser uma potência hegemônica; seu objetivo é ser respeitada internacionalmente e evitar a humilhação histórica que sofreu no passado.

Taiwan é um ponto focal nas tensões regionais. Historicamente, nunca pertenceu à República Popular da China. A ilha emergiu como um refúgio para as forças de Chiang Kai-shek após a vitória comunista no continente em 1949, representando a China na ONU até 1971. Xi Jinping, que recentemente assegurou um terceiro mandato, tem interesse em resolver a 'questão de Taiwan', possivelmente até o fim de seu mandato, da mesma forma autoritária que lidou com Xinjiang e Hong Kong.

A aliança declarada entre Xi e Putin antes da invasão da Ucrânia sugere que a China poderia ter considerado ações mais assertivas se não houvesse uma forte resposta ocidental. No entanto, a cautela chinesa em seu apoio à Rússia reflete a complexidade de suas ambições, sabendo que um conflito aberto seria desastroso em vários níveis, inclusive econômicos e tecnológicos.

Enfrentar Taiwan diretamente seria complicado para a China, que poderia optar por uma abordagem econômica e tecnológica para integrar a ilha gradualmente. Em termos de geopolítica global, é mais provável que vejamos guerras por procuração e 'golpes baixos' ao invés de um confronto militar direto. Esta postura é agravada pelo fato de que a ameaça nuclear, frequentemente levantada por Putin, é vista mais como uma chantagem do que uma intenção real, pois um conflito nuclear é impensável para as lideranças militares envolvidas.

Portanto, embora a tensão continue, a probabilidade de uma guerra global é baixa. Em vez disso, podemos esperar um aumento nos gastos militares e uma desaceleração na cooperação internacional e globalização, refletindo-se em divisões ideológicas que impactarão futuras conferências internacionais como o G20 ou a ONU. Este cenário sugere que o mundo enfrentará uma era de incertezas sem precedentes, com foco mais em preparação militar do que em soluções produtivas ou sociais para problemas globais.

IM: HOC, Você tem falado em suas palestras, vídeos e entrevistas que vê o cenário geopolítico se desenhando para uma terceira guerra mundial. Dadas as declarações pouco incisivas do governo brasileiro, quando se refere a condenar o terrorismo, e o conhecido antiamericanismo que é uma marca do PT e do atual presidente, de que lado acredita que o Brasil vai ficar, se uma terceira guerra realmente eclodir?

HOC: O Brasil tem demonstrado que quer estar do lado do eixo das ditaduras. É claro que o governo e seus simpatizantes acreditam que esse é o lado certo a estar. Acreditam que esse será o lado vitorioso. É uma aposta. A gente não sabe quem realmente vai sair vitorioso, caso tenhamos um conflito desse tamanho, dessa magnitude.

Eu entendo que esse é o lado errado para estar. Mas muita gente acredita que o Ocidente, o Mundo Livre, sairá perdedor. E não é impossível de imaginar que o Ocidente possa perder, uma vez que está dividido, polarizado, e não está trabalhando unido, da mesma forma que o eixo das ditaduras trabalha.

Então, existe um argumento para o PT e para os seus aliados, uma justificativa de por que o Brasil tem que estar do lado do eixo das ditaduras. Porque eles acreditam que quem vai vencer o conflito, ou esse choque, ou essa grande transição, serão esses outros países, serão as ditaduras.

Eu não acredito nisso, mas eu entendo que tem gente que aposta, e é plausível essa aposta. Não acho que é óbvio que as democracias irão vencer, dados esses problemas.

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Divulgado na plataforma Academia.edu, link:

https://www.academia.edu/117805447/3632_Especialistas_analisam_conflito_no_Oriente_Médio_2024_



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