Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Programa nuclear iraniano: acordo atual melhor do que o de 2010 com o Brasil, diz iraniano
Então, toda aquela conversa em torno das maravilhas do acordo tripartite de 2010 não parece condizer com a realidade das coisas.
Pior para a realidade, não é mesmo?
Mas o principal autor do acordo de 2010 defende a sua versão, mais abaixo...
Paulo Roberto de Almeida
Acordo com potências é melhor do que o acertado com Brasil, diz iraniano
Entrevista: Mohammad Ali Ghanezadeh
Folha de S. Paulo, 20/05/2015
O embaixador do Irã no Brasil, Mohammad Ali Ghanezadeh, acompanha as negociações sobre o programa nuclear de seu país com as potências mundiais com uma certeza: as condições agora são "muito melhores" para Teerã do que as acertadas em 2010 na negociação entre Irã, Brasil e Turquia.
"O primeiro acordo era mais positivo para os países ocidentais", disse em entrevista à Folha.
O diplomata, que trata a necessidade de transferência de urânio para um outro país como algo já fora do texto a ser finalizado pelo Irã e o P5+1 (EUA, França, Reino Unido, Rússia, China e Alemanha) até 30 de junho, diz ser essa a grande vantagem das novas negociações.
"Em 2010, foi acertado que o urânio do Irã deveria ser transferido a outro país, e não havia garantia de que o material, transformado em combustível, voltaria para o país a tempo", disse. "Agora manteremos o material no Irã e nós mesmos produziremos nosso combustível, o que é muito melhor", afirmou. Para ele, não há nada que possa ser aproveitado do Acordo de Teerã (2010) no novo texto.
Folha - O Congresso dos EUA aprovou uma lei que permite aos parlamentares revisar o possível acordo entre Teerã e as potências ocidentais sobre o programa nuclear do Irã. Isso gera uma desconfiança sobre o compromisso americano?
Mohammad Ali Ghanezadeh - Em nossas negociações na Suíça, chegamos a um entendimento geral com o P5+1, que é a base deste acordo que será preparado. Conforme esse entendimento, estamos avançando. Se houver alguma mudança, isso vai ser um problema [interno] dos EUA e eles terão que chegar a uma solução.
Apesar da desconfiança histórica que o Irã tem em relação aos EUA, mais uma vez estamos experimentando para ver até onde pode chegar a confiança.
O objetivo da delegação iraniana é seriamente alcançar um acordo. Se a negociação não chegar ao final, será culpa dos EUA.
Do que o Irã não abre mão para fechar o acordo?
Para os iranianos, o importante é o reconhecimento do direito do Irã de ter tecnologia nuclear para fins pacíficos. E também é fundamental que o país continue suas pesquisas na área de ciência e tecnologia.
O texto final do acordo com as potências tem que ser fechado até 30 de junho. É possível aproveitar algo do que foi acertado por Brasil, Irã e Turquia na Declaração de Teerã, de 2010?
Não. O primeiro acordo, entre Irã, Brasil e Turquia, era mais positivo para os países ocidentais do que para os iranianos. Agora, as condições mudaram.
O acordo negociado agora é mais positivo para o Irã que o de 2010?
Sim. Esse acordo é muito positivo. Em 2010, foi acertado que o urânio do Irã deveria ser transferido a outro país, e não havia garantia de que o material, transformado em combustível, voltaria para o país a tempo. Agora [se o acordo for fechado] manteremos o material no Irã e nós mesmos produziremos nosso combustível, o que é muito melhor.
O Brasil poderia ajudar nas negociações com as potências?
O Irã não fez pedido a nenhum país, mas o país que quiser ajudar é bem-vindo.
O que significaria para o Irã a retirada de sanções?
Apesar de 36 anos de embargo, continuamos avançando na área de tecnologia nuclear. Desenvolvemos um satélite e colocamos ele em órbita –inclusive com um ser vivo.
É claro que [o fim das sanções] iria aumentar a velocidade de avanço iraniano na área de pesquisa e tecnologia. Mas também, retirando as sanções, os outros países terão uma oportunidade de aproveitar um mercado de 80 milhões de pessoas. Será bom para as duas partes.
O regime não teme uma abertura maior ao Ocidente?
O que a cultura ocidental poderia trazer que deixasse os iranianos preocupados? Acreditamos que o Irã é o único país democrático no Oriente Médio e, em 36 anos, tivemos 34 eleições livres [contando pleitos parlamentares e regionais]. As mulheres têm atividades em todas as áreas, 63% dos estudantes universitários são mulheres. A porcentagem de deputadas na Câmara iraniana, em relação à população, é muito maior que na Câmara dos Deputados do Brasil.
O Irã não é como alguns países do Oriente Médio onde as mulheres não têm direito nem de dirigir. Se essa influência chegasse para a Arábia Saudita, poderia gerar temor. Não no Irã.
O presidente do Iêmen, Abd Rabbo Mansour Hadi, acusa o Irã de apoiar os houthis contra seu governo. Para Teerã, esse governo não é legítimo?
É trabalho dos iemenitas reconhecer um governo ou tirá-lo do poder, não de outros. Mas um terço da população não está reconhecendo.
Os houthis são um terço da população do Iêmen e eles têm direitos. A Arábia Saudita, ao invés de contribuir para o reconhecimento do direito deles, os atacou. Não quis reconhecer as realidades da sociedade iemenita.
Acreditamos que esses problemas devem ser solucionados pela população do Iêmen. Somos contra a intervenção de qualquer país. O Irã não tem nenhuma força militar nem consultiva no território iemenita.
Nós temos muita preocupação do ponto de vista humanitário. Desejamos que essa guerra acabe o mais rápido possível. Pensamos que a polarização no Iêmen é um perigo e queremos a unidade desse território.
O conflito do Iêmen pode alcançar uma escala regional?
Não acho que chegará a se tornar um conflito regional. O ataque da Arábia Saudita ao Iêmen é um erro estratégico, e as consequências só trazem prejuízo para os sauditas. Primeiro, porque aumentou o perigo de ação extremista dentro da Arábia Saudita, ao dar mais espaço para grupos ativos no Iêmen, como a Al Qaeda.
Além disso, a fronteira deles não estava em perigo antes, porque os houthis tinham enviado uma mensagem de que a fronteira estava segura. Agora há um risco.
Há uma chance de cooperação direta do Irã com a coalizão liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico no Iraque?
O problema do EI é uma produção desses países ocidentais, inclusive dos EUA, por isso eles não estão lutando seriamente contra a facção. Alguns países ocidentais e aliados dos ocidentais fornecem equipamentos e armas para o EI, por isso não nos juntamos à essa coalizão.
Mas como o Irã acredita que o EI é um perigo para o mundo islâmico e para o Irã, está lutando junto com o Iraque contra ele.
Com base em que o sr. diz que os EUA apoiam o EI?
Todos sabem que os americanos forneceriam equipamentos e armas aos curdos que lutam contra o EI, mas, de helicóptero, eles jogaram esse material justamente em locais onde está ativo o EI. Essas são informações da nossa inteligência.Além disso, os EUA dizem que eles são o país com maior poderio bélico, então como não conseguiram lutar contra um grupo?
Qual seria o interesse dos EUA em ajudar o EI?
Eles têm dois objetivos. Um é dar oportunidade para que extremistas que vivem em seus países migrem para [a Síria e o Iraque para] se unir ao EI e morram ali, tornando sua comunidade mais segura.
A outra razão é enfraquecer os países islâmicos para proteger a segurança de Israel. E os países islâmicos estão mais fracos.
Mas o EI não é uma ameaça também aos EUA?
Sim, mas eles não querem acreditar. Eles criaram a Al Qaeda no Afeganistão e deram a eles armas avançadas para lutar contra os russos [na década de 80]. A América não pensou que, um dia, eles poderiam se voltar contra os EUA, mas depois vimos o 11 de Setembro.
Como o Irã vê a abstenção do Brasil na votação na ONU sobre violações de direitos humanos no Irã?
A relação entre Brasil e Irã já tem 120 anos e nunca temos uma única mancha nela. Esse foi um movimento positivo, se comparado com votos anteriores, e nós agradecemos e saudamos. O Brasil tem ficado cada vez mais por dentro dos avanços dos direitos humanos no Irã e das medidas que temos tomados.
O governo brasileiro chegou a um entendimento que direitos humanos e democracia não são um projeto, mas um processo. O Brasil começou a entender mais a realidade da sociedade do Irã, deu um passo à frente baseado em fatos, e não em política.
E sobre a relação comercial entre os dois países? Ela teve uma queda no governo Dilma.
No início do governo Lula, nosso volume de comércio era de US$ 500 milhões [balança em 2002], e por causa da interação entre os dois governos, atingiu US$ 2,4 bilhões em 2011. Desde então, começou a cair. Em 2013, as trocas foram de US$ 1,6 bilhão.
O Brasil não tem usado as oportunidades que existem no Irã. No lado iraniano, estamos abertos e prontos para aumentar sem limitações.
O interessante é que essa relação é favorável ao Brasil. Dos US$ 1,6 bilhão, só 8 milhões foi de exportações iranianas para o Brasil. E esse mercado não usado pelo Brasil tem sido aproveitado por outros: China, Índia e até Austrália. Você não vai acreditar, mas no último ano, a nossa relação comercial com a América aumentou 30%, enquanto com o Brasil diminuiu.
Mas não acho que [a queda] seja uma questão política. Ela depende de alguns fatores, e um deles é a crise econômica mundial.
O jornalista americano-iraniano Jason Rezaian, do "The Washington Post", está detido desde julho passado e só no último mês foram apresentadas acusações contra ele –entre elas, espionagem. Diante de uma aproximação no diálogo com os EUA, não seria a hora de considerar sua libertação?
Ele foi preso por razões de segurança. A CIA e outros órgãos de inteligência nos EUA pediram que ele coletasse informações no Irã. Ele mesmo admitiu isso. Então ele não foi preso como jornalista. O caso está na Corte e eles estão avaliando [o caso] com base nas informações que eles têm. A decisão final sobre o seu destino é da Corte.
Não devemos ligar esse caso à questão nuclear. Os EUA também prenderam mais de 30 iranianos por causa de sanções e diferentes crimes, com diferentes acusações.
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IRÃ
Amorim contesta fala de embaixador do Irã sobre acordo mediado por Brasil
Isabel Fleck
Folha de S. Paulo, 20/05/2015
Em sabatina na Folha na manhã desta terça (19), o ex-chanceler Celso Amorim disse estranhar as declarações do embaixador iraniano no Brasil, Mohammad Ali Ghanezadeh, de que o acordo negociado com as potências agora é mais positivo para Teerã do que o acertado entre Brasil, Turquia e Irã em 2010, quando ele era ministro.
"É curioso porque as críticas que sempre foram feitas à Declaração de Teerã foi de que ela era insuficiente do ponto de vista do Ocidente, e agora o embaixador vem e diz que [a de agora] é melhor [para o Irã]", disse Amorim.
"Mesmo admitindo que pode haver ganhos para os dois lados, se eu tivesse que lidar com a opinião pública americana, eu ficaria preocupado com a declaração de que, depois de anos, os EUA negociam um acordo que é mais favorável ao declarado adversário do que o que havia sido negociado pelo Brasil e pela Turquia, e que os EUA rejeitaram."
Amorim reconhece que o acordo atual —que está sendo discutido entre o Irã o chamado P5+1 (EUA, França, Reino Unido, Rússia, China e Alemanha)— é mais amplo que o de 2010, que era mais "um gesto unilateral do Irã para ganhar confiança e possivelmente evitar que medidas fossem tomadas no Conselho de Segurança".
"É até possível que, do ponto de vista do Irã, que estaria, por exemplo, prevendo uma eliminação mais rápida das sanções, esse acordo possa ser mais favorável para eles", disse.
Para o ex-chanceler, que trata das negociações de 2010 em seu novo livro, "Teerã, Ramalá e Doha —memórias da política externa ativa e altiva", também chama a atenção o fato de os EUA negociarem um acordo agora, quando o Irã possui 10 toneladas de urânio levemente enriquecido.
"Naquela época, o Irã tinha 2.000 quilos, e uma das razões apontadas pela então secretária de Estado [Hillary Clinton] para não aceitar aquele acordo, contrariando o que o próprio presidente dos EUA havia sugerido, era o fato de o Irã ter aumentado de 1.200 para 2.000 quilos. Agora são 10.000", ressaltou.
"Evidentemente, com 10.000 quilos você está muito mais próximo de ter um pequenino arsenal do que com 2.000", disse.
Segundo Amorim, Hillary "sempre se revelou mais cética" da possibilidade de um acordo com o Irã do que o presidente Obama. "Também não se pode supor que ela não concordava, senão teria pedido demissão", afirmou. "Acho que os fatores eram complexos."
Ele revelou ter ouvido, depois, que nas três semanas que separaram o envio de uma carta por Obama a Lula e ao então premiê turco Recep Tayyip Erdogan respaldando as negociações e a divulgação da Declaração de Teerã, em 2010, Hillary teria assumido "compromissos com o Congresso norte-americano para que não adotasse sanções unilaterais e esperasse que ela conseguisse sanções do Conselho de Segurança da ONU".
OBAMISTA
Amorim contou ter escrito uma carta ao editor da "Foreign Policy", David Rothkopf, depois que este publicou um artigo no qual sugere que as negociações com o Irã serão o maior legado do governo Obama.
"Não me contive. Disse a ele: 'Primeiro, Cuba, depois, o Irã. Engajamento no lugar de confrontação. A política externa norte-americana está cada vez mais parecida com a brasileira'. Ele concordou comigo", contou Amorim, rindo. "Nesse ponto, sou Obamista", completou o ex-chanceler.
Apesar disso, ele revela que a relação do Brasil com os EUA durante o governo de George W. Bush era mais "direta".
"Nós tivemos muitas discordâncias, muito óbvias, desde o início do governo. (...) Mas a relação com o Bush era mais direta", disse. "A impressão que eu tinha nas conversas com o presidente Obama é que ele não dava atenção muito real ao que estava sendo dito. Ele [nos] tratava bem, mas eu discernia um certo paternalismo."
PROTAGONISMO
Amorim rejeitou a ideia de que o Brasil tenha deixado de ser um importante ator no cenário internacional nos quatro anos de governo Dilma Rousseff.
"O Brasil não caiu do mapa do mundo. O Brasil está presente no mapa do mundo, é sempre lembrado para funções, mas eu diria que os momentos variam", afirmou, citando que um dos principais programas de estudo em relações exteriores da Universidade Harvard inclui o Brasil na disciplina que estuda a política externa das potências.
"Tenho a certeza de que, no médio e longo prazo, a curva [da política externa brasileira] é ascendente. Pode haver momentos em que, por uma necessidade ou outra, certos aspectos recebam menor ou maior ênfase", disse.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
2059) EUA e Iran: esgotando as vias diplomaticas
Stefan Simanowitz, The Guardian
O Estado de S. Paulo, 21.04.2010
Consciência de líder está certa em evitar ao máximo um confronto militar direto com Teerã; é preciso insistir nas negociações, em vez de aplicar novas punições ao regime
Há alguns dias, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado de redução de armas estratégicas (Start) dando sinais de uma mudança significativa no foco da estratégia nuclear dos EUA - de seus antigos inimigos da Guerra Fria para os chamados Estados renegados. Na última semana, na cúpula sobre segurança nuclear em Washington, a China concordou pela primeira vez em trabalhar com os EUA numa possível aplicação de sanções contra o Irã. Enquanto cresce o ímpeto para novas sanções contra Teerã na ONU, crescem também os temores de que uma intervenção militar contra o Irã esteja se tornando mais provável. Os instintos do presidente Barack Obama assegurarão que ele fará tudo ao seu alcance para evitar um conflito militar com o Irã - mas ele enfrenta "falcões" em casa.
No mês passado, o senador americano Lindsey Graham disse a uma plateia que, se for usada, a força militar contra o Irã deve ser empregada "de maneira decisiva" assegurando que o Irã não tenha nem mesmo "um avião que possa voar ou um navio que possa navegar". Esse tipo de retórica belicosa não é nova vindo de falcões em Washington, mas as palavras do senador Graham refletem uma militância crescente no Congresso, que no ano passado autorizou US$ 46 bilhões em recursos militares de emergência. No fim de março, circulou uma resolução na Câmara dos Representantes endossando explicitamente um ataque militar israelense ao Irã se "nenhuma outra solução pacífica puder for encontrada em tempo razoável". O tipo de "solução pacífica" e o tempo que eles considerariam "razoável" não foi especificado.
Noticiou-se recentemente que centenas de bombas "arrasa bunker" (que penetram profundamente no solo antes de explodir) estão sendo enviadas dos EUA à base militar americana na Ilha de Diego García, no Índico, e o governo americano assinou contrato com uma empresa de transporte para levar 19 contêineres de munição para a ilha. Serão mandadas 195 bombas inteligentes Blu-110 com penetradores e 192 bombas Blu-117 de 900 quilos. Os EUA já possuem uma força militar poderosa no Golfo e estão realizando manobras navais em larga escala no Atlântico com britânicos e franceses.
Ao assumir a presidência, Obama fez uma clara ruptura com a estratégia para o Irã de George W. Bush, demonstrando a disposição de negociar diretamente com Teerã sem precondições. Em seu pronunciamento pela televisão voltado para o Irã e em seu discurso no Cairo, ele reconheceu publicamente os aiatolás como legítimos representantes do povo iraniano, admitiu o direito do Irã de enriquecer urânio e falou abertamente do papel da Agência Central de Inteligências (CIA) na deposição do primeiro-ministro iraniano, Mohammad Mossadegh, em 1953.
Em outubro, ele manteve conversações diretas com os iranianos em Genebra depois das quais o jornal britânico Financial Times observou que Obama "obteve mais do Irã em oito horas do que a posição enérgica de seu antecessor conseguiu em oito anos".
Obama também herdou uma máquina militar cujos planos para um ataque ao Irã já estavam bastante avançados, e enfrenta uma mídia conservadora e um público pouco familiarizado com uma política externa com base na diplomacia paciente e na construção do consenso que muitos equiparam à fraqueza. A mais recente rodada de sanções envolverá exigências rígidas de inspeção de todos os bens que entram e saem do Irã e um embargo de produtos derivados de petróleo para o Irã. O bloqueio naval necessário para aplicar as sanções - seguramente envolvendo a Marinha Real britânica - poderá perfeitamente levar à guerra. Como se viu no Golfo de Ormuz nos últimos anos, escaramuças com a Marinha iraniana na região tendem à escalada.
Nas conversações em Genebra, o acordo proposto pelos EUA estabelecia que o Irã trocasse a maior parte de seu estoque atual de urânio pouco enriquecido por hastes de combustível para usinas vindos da Rússia e da França. Essa troca de "combustível por combustível" foi em grande parte aceita pelo presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, Mas, preocupado com "promessas quebradas" anteriores, ele propôs que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) assumisse o controle do urânio pouco enriquecido no Irã até as hastes de combustível serem entregues. Como um passo para uma solução desse problema arrastado, a contraproposta do Irã parecia sensata, mas foi descartada. Em vez disso, os EUA não parecem dispostos a negociar, considerando o acordo proposto uma oferta para "pegar ou largar".
A aparente meta das negociações nucleares dos EUA de completa cessação de todas as atividades de enriquecimento pelo Irã é não só irreal mas, até certo ponto, indesejável. Ahmadinejad não vai desistir das atividades de enriquecimento que considera um direito inalienável do país.
Enquanto muitos têm preocupações genuínas de que o Irã está decidido a desenvolver armas nucleares, a maneira de assegurar que o Irã não se tornará uma nação nuclearmente armada não é isolar Teerã. Em vez disso, é preciso restabelecer rigorosas atividades de monitoramento internacional. Argumentos sobre o possível cronograma para o Irã obter uma capacidade de produzir armas nucleares tornam-se acadêmicos se assegurarmos a cooperação iraniana como o regime de inspeções da AIEA.
Com novo respeito nas ruas árabes por sua condenação, no mês passado, da política israelense de assentamentos, e mais legitimidade em seu apelo pela não-proliferação nuclear ao embarcar ele próprio na redução de armas, Obama deveria aproveitar essa oportunidade para prosseguir nas negociações com o Irã em vez de promover novas sanções. Os neoconservadores podem tentar convencer Obama de que, na condição de única superpotência global, os EUA precisam aproveitar este momento para garantir sua posição na região e assegurar controle das reservas cada vez menores de petróleo e gás. Eles podem argumentar que é preferível lançar um ataque preventivo contra o Irã mais cedo, enquanto a máquina militar americana está na região, do que mais tarde, quando o Irã se tornar ainda mais forte. Mas um ataque assim, com base no princípio da autodefesa antecipada e lançado antes de todos os meios pacíficos terem sido esgotados, seguramente não se coadunaria facilmente com a consciência de Obama. A nós, só nos resta esperar que Obama continue sendo um homem guiado por suas crenças.
sábado, 7 de março de 2026
Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos - Thomas Friedman (NYT, Estadão)
Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos
Ofensiva contra Teerã é chance de derrubar teocracia, mas carrega risco de colapso e fragmentação do paísImpacto econômico pode ditar ritmo, mas guerra não deve obscurecer pressões sobre democracia nos EUA e em Israel
Thomas Friedman
The New York Times, 3.mar.2026 às 15h34
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thomas-l-friedman/2026/03/guerra-no-ira-e-o-momento-mais-imprevisivel-no-oriente-medio-em-50-anos.shtml
Para pensar com clareza sobre as guerras no Oriente Médio é preciso manter múltiplos pensamentos na cabeça ao mesmo tempo. É uma região complicada e caleidoscópica, onde religião, petróleo e política das grandes potências se entrelaçam em cada grande história. Se você está procurando uma narrativa preto no branco, talvez seja melhor jogar damas. Então, aqui estão meus quatro pensamentos sobre o Irã—pelo menos por hoje.
Primeiro: espero que esse esforço para derrubar o regime clerical em Teerã tenha sucesso. É um regime que assassina seu povo, desestabiliza seus vizinhos e destruiu uma grande civilização. Não há evento único que faria mais para colocar todo o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança focada exclusivamente em permitir que o povo iraniano realize seu pleno potencial com uma voz real em seu próprio futuro.
Segundo: isso não será fácil, porque esse regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado apenas pelo ar. Israel não conseguiu eliminar o Hamas na Faixa de Gaza após mais de dois anos de uma guerra aérea e terrestre implacável
—e o Hamas está logo ali ao lado.
Dito isso, mesmo que esse ataque israelo-americano ao Irã não leve à revolta do povo iraniano que o presidente Donald Trump pediu, poderia ter outros efeitos benéficos não previstos, como produzir uma República Islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e vizinhos. Mas também poderia resultar em perigos não previstos, como a desintegração do Irã como uma única entidade geográfica.
Terceiro: devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e pelos mercados financeiros quanto pela situação militar dentro do Irã.
O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que vale pouco mais que papel de parede. A Europa tornou-se muito mais dependente do gás natural liquefeito do golfo Pérsico para mover suas economias, desde que eliminou gradualmente as compras de gás natural da Rússia.
Uma explosão sustentada de inflação causada por preços mais altos de energia irritaria a base de Trump, muitos dos quais já não gostam de ser arrastados para outra guerra no Oriente Médio. Há muitas pessoas que vão querer que esta guerra seja curta, e isso impactará como e quando Trump e Teerã negociarão.
Quarto: não devemos deixar que esta guerra para trazer democracia e Estado de Direito ao Irã nos distraia das ameaças à democracia e ao Estado de Direito representadas por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel.
Trump quer promover esses ideais em Teerã, mesmo enquanto seus agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) operaram por dois meses com pouca consideração por restrições legais no meu estado natal de Minnesota e enquanto ele lança ideias sobre restringir quem pode votar em nossa próxima eleição.
Se a guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano, será um grande propulsor para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um estado de apartheid, o que seria um grande golpe aos interesses americanos na região além do Irã.
A vida como colunista de opinião seria fácil se toda guerra sobre a qual você tivesse que se posicionar fosse a Guerra Civil Americana e se todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então vamos nos aprofundar um pouco mais nesses quatro pensamentos sobre o Irã.
Embora você nunca saberia disso se ouvisse a esquerda universitária nos últimos anos, a República Islâmica do Irã tem sido a maior potência imperialista na região desde 1979, cultivando representantes para controlar quatro Estados árabes —Síria, Líbano, Iraque e Iêmen— e minando reformistas liberais em todos os quatro ao promover divisões sectárias.
Apenas o enfraquecimento do regime de Teerã, graças aos golpes de martelo israelenses e americanos nos últimos dois anos, levou à queda do regime de Assad apoiado pelo Irã na Síria e permitiu que o Líbano escapasse do aperto da milícia Hezbollah apoiada pelo Irã, o que por sua vez deu espaço para o governo mais decente do Líbano em décadas —liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, está sendo celebrada silenciosa ou ruidosamente em toda a região.
Além disso, o povo iraniano está entre os mais naturalmente pró-Ocidente da região. Se esse impulso puder emergir e se espalhar, e substituir o veneno islamista radical e divisivo propagado pelo regime iraniano, temos a possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.
Como o estrategista libanês-emiradense Nadim Koteich me disse: Não é por acaso que um dos gritos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã tem sido: "Nem Gaza, nem Líbano. Minha vida pelo Irã".
Muitos iranianos ficaram enojados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias lutando contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acabou de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em modernização.
"Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão —foi o velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio", acrescentou Koteich. A morte de Khamenei, esperançosamente, "é a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria ser definido pela resistência e não pela inclusão e integração".
Esperançosamente, isso também acabará com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus predecessores como Mahmoud Ahmadinejad —que serviu como presidente do Irã de 2005 até 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israelo-americano— de que o Irã tem o direito de gritar abertamente "Morte à América" e "Morte a Israel" e depois alegar que também tem o direito de ser tratado como
a Dinamarca ou de enriquecer urânio para propósitos "pacíficos".
Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.
Quanto à ideia de que o povo iraniano agora se unirá e derrubará o regime, é difícil ver isso acontecendo tão cedo sem um líder claro e uma agenda comum.
Os analistas iranianos com quem converso dizem que o resultado mais provável é uma espécie de República Islâmica 2.0, onde reformistas proeminentes do regime—como Hassan Rouhani, que foi o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, e tem sido um crítico cada vez mais vocal da linha dura de Khamenei, ou o ex-ministro das Relações Exteriores e negociador nuclear Javad Zarif— pressionem a liderança sobrevivente a negociar um acordo com Trump.
Esse acordo poderia ser um que abandone o programa nuclear do Irã e aceite limites em suas guerras por procuração e mísseis balísticos —em outras palavras, o que Trump quiser— em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.
Tal regime de República Islâmica 2.0 poderia então ser capaz de supervisionar uma transição para uma verdadeira democracia iraniana novamente. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de jogar um salva-vidas para um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6.800 manifestantes, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos sediada nos EUA, e provavelmente muitos mais. Em outras palavras, começar esta guerra foi relativamente fácil. Terminá-la não será.
Tal acordo pode ser tentador para Trump, porém, para evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada por preços de petróleo disparados ou a desintegração do Irã. É por isso que não fiquei surpreso ao ouvir Trump dizer à The Atlantic: "Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então estarei conversando com eles".
No Oriente Médio o oposto da autocracia não é necessariamente a democracia. Frequentemente é a desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece. Ou elas implodem, como a Líbia fez, ou explodem, como a Síria fez. Os persas são apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azeris, curdos, lurs, árabes e balúchis. Cada um tem ligações com terras fora do Irã, especialmente azeris com o Azerbaijão e curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um deles a se separar e o Irã, na prática, explodir.
O Irã testemunhou o colapso de governos ou a queda de governantes ao longo de sua história. Em todas as vezes, "o Irã permaneceu intacto", disse Koteich.
"Pela primeira vez não tenho certeza de que permanecerá intacto."
Se você quiser ver petróleo a US$ 150 o barril, esse tipo de desintegração iraniana o levaria até lá. As exportações de petróleo do Irã de 1,6 milhão de barris por dia, que vão principalmente para a China, seriam completamente retiradas do mercado global de petróleo. Cerca de 20% de todo o comércio global de petróleo passa pelo Estreito de Hormuz, que o Irã pode fechar. As taxas de seguro para transportadores de petróleo já estão disparando, e cerca de 150 navios-tanque no Golfo estão supostamente paralisados.
Espero que até quarta-feira haja pelo menos mais três pontos competindo na minha cabeça para fazer sentido de tudo isso, porque este é o momento mais plástico e imprevisível no Oriente Médio desde a Revolução Islâmica em 1979. Tudo —e seu oposto— é possível.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Politica Nuclear do Iran (8): duas opinioes sobre o "acordo" tripartite
Opinião - José Goldemberg *
Correio Brazilienze, 23/05/2010
O Itamaraty tem a reputação de ser um ministério competente, mas o imbróglio em que ele se envolveu no Irã não vai contribuir para aumentar essa reputação. Uma negociação bem-sucedida na área internacional envolve dois componentes: definir claramente o interesse do país e conhecer os detalhes técnicos ou administrativos do que se está negociando.
Na área interna, o presidente Lula deu inequívocas demonstrações de que é um excelente negociador desde os tempos em que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo. Defendia claramente os interesses dos trabalhadores contra os patrões e negociava salários e outros benefícios que são fáceis de definir.
No caso da negociação em que o Itamaraty e o presidente se envolveram em Teerã, recentemente, essas duas componentes estiveram ausentes. Em primeiro lugar é difícil ver qual o interesse do Brasil em mediar acordos do Irã com as grandes potências e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a não ser o de aumentar a presença do país no cenário internacional.
Tem havido dezenas dessas oportunidades sem qualquer beneficio claro para o país, salvo excelentes fotografias e captura das manchetes dos jornais. Sucede que o Irã tem sérios problemas de credibilidade no que se refere ao cumprimento de suas obrigações com a Agência Internacional, já foi objeto de sanções do Conselho de Segurança e está na iminência de receber outras.
Ele tem uma longa história de atividades semiclandestinas que não são aceitas pelos países que aderiram ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Mais ainda: as exaustivas negociações que tem tido durante os últimos cinco anos com os países europeus são consideradas uma estratégia para ganhar tempo e aumentar a sua capacidade de, eventualmente, produzir artefatos nucleares. Associar-se a ele nessas condições chama a atenção para o fato de que o Brasil poderia também ter interesses nessa linha. Essa não é uma hipótese vaga, porque, há cerca de 20 anos, estávamos exatamente na posição que o Irã está hoje — sob suspeitas de desenvolver um “programa paralelo” de energia nuclear para fins militares ao lado de um programa de fins pacíficos, como a instalação das centrais nucleares de Angra dos Reis. Foi preciso muito esforço para convencer a comunidade internacional que esse não era o caso, apesar de o país ter dominado a tecnologia de enriquecimento de urânio. A recente visita ao Irã ameaça jogar por terra esse esforço.
Em segundo lugar o “acordo” que o Brasil mediou não contribui em nada para resolver o conflito com a Agência Internacional e as grandes potências, que decorre do fato de o Irã continuar a enriquecer urânio a 20%, índice muito superior ao nível de 3% necessários para reatores nucleares. Ninguém nega o direito do Irã de enriquecer urânio, mas chegar ao nível superior ao necessário no uso para fins pacíficos cria serias suspeitas. Como os especialistas bem sabem é mais fácil passar de 20% de enriquecimento aos 80%, necessários para fazer armas nucleares, do que enriquecer de 3% a 20%. O Irã se recusa a limitar o enriquecimento, o que levanta suspeitas de que realmente está ganhando tempo. Enquanto negocia ele aumenta o número de centrifugas e o estoque de urânio que já enriqueceu.
O “acordo” que o presidente Lula assinou nem toca nesse assunto, como os próprios iranianos tiveram a indelicadeza de proclamá-lo publicamente antes que a tinta do “acordo” secasse, embaraçando o presidente. O que o Irã fez foi trocar uma pequena parte do seu urânio enriquecido a 3% por urânio enriquecido a 20% como combustível de um reator médico, o que, aliás, deveria ter feito há mais de seis meses, se o seu interesse real fosse a medicina.
Se o Itamaraty julgava que negociar com o Irã daria o Prêmio Nobel da Paz ao presidente Lula, ele se equivocou. Provavelmente, o papel do Brasil será visto como o de um “inocente útil” e, pior que isso, chamará a atenção para as próprias atividades nucleares do país.
* Professor emérito da Universidade de São Paulo
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O Brasil e a questão nuclear iraniana
Entrevista com o Embaixador Marcos Azambuja
Christian Carvalho Cruz
O Estado de São Paulo - Caderno Aliás, 23.05.2010
Uma moldura pesada demais
Para embaixador, Brasil deveria conter seu excesso de protagonismo em região tão complicada e em assunto tão turvo.
Para resumir o que se passou nessa semana na questão nuclear iraniana, com forte participação brasileira na assinatura de um acordo com o governo de Teerã, o embaixador Marcos Azambuja diria o seguinte, no popular: "Se meter no Oriente Médio é muita areia pro nosso caminhãozinho". Ou ainda: "Procuramos sarna pra nos coçar".
É claro que a elegância diplomática e pessoal - ele usa gravata borboleta e chapéu panamá - não lhe permite o apelo a tão baixo calão. Então, o embaixador do Brasil na Argentina (1992 a 1007) e na França (1997 a 2003), chefe da Delegação do Brasil para Assuntos de Desarmamento e Direitos Humanos em Genebra (1989 a 1990) e atual vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais disse verdadeiramente assim: "O acordo que o Brasil fez não foi ruim, mas era preferível que ele tivesse sido mais prudente ao entrar numa região tão complicada, onde seus interesses vitais não estão em jogo". E mais: "Não temos ali poder nem experiência que nos credenciem como grandes atores diplomáticos".
A seguir, trechos da entrevista em que Azambuja fala dos possíveis desdobramentos da situação, de um mundo sem armas nucleares, de direitos humanos e do samba atravessado com os Estados Unidos.
O Irã quer ter a bomba atômica ou não?
Não queria até a invasão do Iraque pelos americanos. Depois, chegou à conclusão de que ter uma capacidade nuclear, por menor que fosse, lhe daria garantias de sobrevida. O Irã acha que se o Iraque tivesse armas nucleares não teria sido invadido. Mas não estou convencido de que os iranianos estejam a caminho da bomba. Eles assinaram o Tratado de Não Proliferação (TNP) em 1968. É coisa de safra recente ter aquilo que julgam ser garantias adicionais de soberania. Há quem diga que, num mundo em que tantos países têm a bomba, o Irã também tem o direito de construir a sua. Discordo. Nessa questão, se levarmos adiante a velha máxima do "olho por olho, dente por dente" acabaremos todos cegos e banguelas.
O que o sr. achou do acordo com o Irã patrocinado por Brasil e Turquia?
Foi uma boa coisa, não se pode negar. Mas nos envolvemos num assunto complicado no lugar mais complicado da Terra. Ninguém entra nas questões do Oriente Médio sem o risco de sair chamuscado. Não temos ali poder nem experiência que nos credenciem como grandes atores diplomáticos. O que o Brasil fez não foi ruim, repito. Mas era preferível que tivesse sido mais prudente ao se meter numa região onde seus interesses vitais não estão em jogo. Não sou contra o Brasil mostrar mais sua cara e flexionar mais seus músculos. Apenas teria preferido que não tivesse escolhido o Irã para isso. Deveríamos fazê-lo nas Américas, que é nosso território, no Atlântico Sul, na África Ocidental, enfim, onde o Brasil tem projeções naturais de seu poder. No Oriente Médio nós não temos tradição, presença e, agora que somos autossuficientes em petróleo, não temos nem interesse energético.
Por que o Brasil se meteu lá, então? O sr. acredita na tese de que o presidente Lula esteja tentando ganhar um Nobel da Paz?
Não acho que o personalismo esteja envolvido. E não creio que naquela situação tão turva haja um Nobel a ser dado. O que ocorreu foi mais uma tentativa do Brasil de reforçar seus títulos para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil vai ter seu assento, mas não por um excesso de ativismo aqui e acolá. Ele vai conseguir porque seu peso e sua influência globais vão determinar, em certo momento, que o mundo o queira como membro permanente. Não é o resultado de uma campanha brasileira e sim o resultado de uma realidade brasileira que fará com que o País atinja esse objetivo.
Mas a atuação no Oriente Médio não faz parte desse processo?
Não ajuda. Não vejo de que maneira isso reforce amplamente nossas credenciais. O Brasil foi excessivamente protagonista nessa questão. Eu sou a favor de o Brasil se engajar no Irã em níveis menos íntimos, fazendo acordos de cooperação comercial, técnica, exportação de bens e serviços. Vejo um universo de cooperação entre Brasil e Irã que não deveria ter como fundamento uma área controvertida como a questão nuclear. Convinha ao Brasil, que tem um programa de enriquecimento de urânio para fins pacíficos, não se assemelhar ao Irã. Nós temos um programa aceito pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma Constituição que proíbe armas nucleares, um acordo com a Argentina, somos sócios de boa-fé do TNP e estamos numa região do globo, o Hemisfério Sul, em que não há uma bomba atômica sequer. Em vez de nos assemelhar ao Irã nós devíamos é sugerir que somos farinha de outro saco.
Já que se propôs a ir além, o País não poderia ter incluído no acordo tópicos relacionados aos direitos humanos no Irã?
Nesse caso não haveria diálogo. O Irã é um país que se move por motivos diferentes. O Brasil é uma democracia multirracial, tolerante, laica. O Irã tem uma série de características que correspondem a outra visão de mundo. Se você trouxer direitos humanos à mesa, o diálogo nem começa.
Os EUA ignoraram o acordo e propuseram novas sanções, sob o argumento de que o Irã não irá cumpri-lo. Em diplomacia, um governo pode desqualificar as intenções de outro por não achá-las críveis?
Não se pode prejulgar o outro. Não se pode garantir se o Irã cumprirá ou descumprirá um acordo internacional que assinou. Só que no Oriente Médio a suspeita é a moeda de troca. No clima de desconfiança em que ali se opera, a presunção é a de que todos tenham motivos ulteriores. A desconfiança não é sobre o estrito cumprimento desse acordo. Ninguém duvida que o Irã vá mandar o urânio para ser enriquecido na Turquia. A suspeita é que outra quantidade de urânio esteja sendo enriquecida internamente em posições não declaradas. Essa é a insinuação americana. Insinuações são terrenos pouco sólidos para se construir algo, mas a desconfiança é da essência da relação nesse caso. O que está sendo julgado não é a virtude do acordo patrocinado por Brasil e Turquia, mas o desejo que tinham os EUA de punir o Irã por sua política nuclear ambígua. O samba atravessou.
A relação Brasil-EUA perde algo com isso?
No curto prazo o que era uma lua de mel se transformou numa relação complicada. Semanas atrás havia uma disposição americana afetuosa de reconhecer o Brasil como potência global, havia boas relações pessoais do Lula com o Obama, do Celso Amorim com a Hillary Clinton. Houve o episódio do algodão, retaliações comerciais, mas isso faz parte da ação de duas potências com interesses contraditórios. Agora surgiu um elemento de irritabilidade. Os EUA acharam que o Brasil agiu de maneira a dar ao Irã mais credibilidade e mais prazo quando eles queriam o oposto. Ao fazer isso, o Brasil forçou os americanos, que tinham outro cronograma, a agir mais depressa para que um rascunho de resolução fosse apresentado. Há um pequeno dano. Mas não creio que ele afete de maneira profunda e duradoura as relações entre duas democracias maduras. Tudo vai depender do voto brasileiro no Conselho de Segurança para as sanções adicionais. O Brasil tem sido um membro bem comportado da comunidade internacional. Costuma concordar com tudo o que o Conselho recomenda. Além disso, os países que promovem as sanções são grandes parceiros nossos: EUA, Inglaterra, França, e dois colegas do Bric, Rússia e China. Pelas alianças tradicionais e pelas novas amizades, o Brasil não deveria contrariar uma resolução do Conselho de Segurança.
Mas aí o País estaria indo contra o acordo que se gaba de ter feito.
Há na diplomacia uma série de recursos para evitar parecer isso. Uma abstenção com uma declaração de voto inteligente e articulada, por exemplo. Eu volto ao ponto que é para mim uma obsessão: o Brasil se envolveu demais numa região em que nos convinha usar o multilateralismo para expressar nossos interesses, ou seja, atuando como membro temporário do Conselho de Segurança para influenciar um projeto de resolução que nos parecesse bom e votar de uma maneira que nos parecesse adequada. Nós não temos ali castanhas a tirar do fogo tão intenso que justifique um envolvimento direto nesse nível.
Os iranianos foram sinceros ao assinar o acordo ou só querem ganhar tempo para construir a bomba, como sugerem os EUA?
O Irã agora foi constrangido a reiterar suas intenções pacíficas. Se burlá-las, corre o risco de ficar totalmente isolado. Estaria se opondo não só a seus adversários, mas enganando os países que o ajudaram. Isso é um dado. Mas não há garantias de que se possa confiar somente em intenções. Em matéria de desarmamento as coisas funcionam com inspeções de alto rigor e não anunciadas. É isso o que vale. Os EUA e seus sócios estão convencidos de que o acordo é uma manobra dilatória e opaca do Irã para continuar fazendo o que bem entender. Daí a insistência em novas sanções (bloqueio de transações financeiras, interceptações de navios, congelamento de bens no exterior, entre outras). Só tem um problema: elas me parecem cosméticas. A única sanção que faria o Irã mudar seria uma que afetasse a sua capacidade de exportar petróleo. E isso não está em discussão, é claro, porque mexeria com os mercados mundiais. Se as sanções tocassem no petróleo iraniano a China não teria aderido a elas. Em outras palavras, o Oriente Médio está sendo exatamente o que costuma ser: complexo, teatral, perigoso. Particularmente, eu não creio que as sanções sozinhas resolvam. Elas são indutoras de um processo de negociação. Os países que as defendem acham que, se não houver mais penalização, o Irã não fará nada, continuará com o projeto que pode levar à construção de uma capacidade militar nuclear.
Nesse caso, há possibilidade de um ataque militar ao Irã?
Não creio. A intensa campanha no Conselho de Segurança por mais sanções traduz o fato de que a hipótese militar está descartada. Os EUA, intensamente engajados no Iraque e no Afeganistão e com problemas econômicos enormes, não me parecem com disponibilidade e vontade para agir. E o Irã não é o Iraque. O Irã não é um pequeno país, é o descendente do grande Império Persa. Suas instalações nucleares, se as houver, estão espalhadas e profundamente protegidas. O Irã não tem reatores nucleares industriais que possam ser alvos naturais em uma retaliação armada. Uma ação por parte de Israel seria um tanto arriscada e contraproducente. Todas as tensões existentes na região se amplificariam. Em diplomacia a gente nunca exclui totalmente nada, mas eu colocaria a retaliação militar numa posição muito baixa na minha hierarquia de possibilidades.
Estima-se que Israel tenha até 200 ogivas nucleares. O país se recusa a aderir ao TNP e não permite supervisão a AIEA em seu território. Por que o país não é tão pressionado como o Irã?
Aí precisamos entrar no âmago do relacionamento EUA-Israel, na culpa ocidental pelos episódios da 2ª Guerra Mundial, do Holocausto. Há toda uma história atrás de tudo isso, mas de fato o tratamento é díspar. Eu defendo que Israel abra mão de suas armas nucleares e caminhe para o estabelecimento de uma zona militarmente desnuclearizada no Oriente Médio. É obrigação dos signatários do TNP que não têm armas nucleares pressionar os que têm a declarar a posse, no caso de Israel, e a eliminar seus estoques, no caso de todos os outros.
O sr. vê alguma possibilidade de os países que têm a bomba desmancharem seus arsenais? Ou ainda vamos morrer disso?
Já vivemos num mundo sem o uso de armas nucleares. Elas deixaram de ser parte do arsenal das grandes potências para se tornar uma ambição da Coreia do Norte, da Líbia em certo momento... Houve uma degradação da importância estratégica das armas nucleares. EUA e Rússia acordaram em reduzir seus estoques recentemente. É claro que estão aperfeiçoando seus arsenais, porque 3 mil ogivas de hoje equivalem a 8 mil de 30 anos atrás. Mas estamos a caminho de uma sanidade crescente. Hoje, os países poderosos temem mais que as armas caiam nas mãos de terroristas, de países desqualificados, do que a hipótese inicial de um enfrentamento de superpotências. A arma nuclear será em breve um projeto de subpotências.
sábado, 7 de março de 2026
Reflexões de Thomas Friedman sobre a destruição do Irã (O Estado de S. Paulo)
A ponderacão de Thomas Friedman no New York Times, traduzida no Estadão de hoje, merece ser lida, mesmo que não se concorde necessariamente com seus comentários.
Wylmar Buzzatto
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A guerra em quatro pensamentos
Thomas Friedman
O Estado de S. Paulo, 03 de mar. de 2026
Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.
Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.
1. Primeiro, espero que esse esforço para derrubar o regime clerical de Teerã seja bem-sucedido. Trata-se de um regime que assassina seu povo, desestabiliza vizinhos e destruiu uma grande civilização. Nenhum evento isolado contribuiria mais para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança com foco exclusivo em capacitar o povo iraniano para realizar seu pleno potencial, com uma voz real, em seu próprio futuro.
2. Segundo, isso não será fácil, porque o regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado por meio apenas de uma ofensiva aérea. Israel não conseguiu eliminar o Hamas em Gaza após mais de dois anos de uma guerra implacável por terra e ar – eo Hamas está bem ao lado. Dito isto, mesmo que não ocasione a revolta do povo iraniano que o presidente Trump tanto incentiva, este ataque contra o Irã poderá surtir outros efeitos benéficos e imprevistos, como a criação de uma república islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e seus vizinhos. Mas também pode resultar em perigos imprevistos, como a desintegração do Irã enquanto ente geográfico único.
3. Em terceiro lugar, devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e financeiros quanto pela situação militar interna do Irã. O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que não vale quase nada. A Europa tornouse muito mais dependente do gás natural liquefeito do Golfo Pérsico para sustentar suas economias, desde que reduziu as compras da Rússia. Uma onda inflacionária prolongada, causada pelo aumento dos preços da energia, irritaria a base de Trump, onde muitos já não gostam de ser arrastados para mais uma guerra no Oriente Médio. Há muita gente desejando que esta guerra seja curta, e isso influenciará como e quando Trump e Teerã negociarão.
4. Em quarto lugar, não devemos permitir que esta guerra – para levar democracia e estado de direito ao Irã – nos distraia da ameaça à democracia e ao estado de direito representada por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel. Trump quer promover esses ideais em Teerã mesmo enquanto seus agentes do ICE atuaram por dois meses com pouco respeito às leis em meu estado natal, Minnesota, e enquanto ele cogita restringir eleitores em nossa próxima eleição. A guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano será um grande impulso para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um Estado de apartheid – um grande golpe para os interesses americanos na região além do Irã.
A vida de colunista seria fácil se todo conflito fosse a Guerra Civil Americana e todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então analisemos um pouco mais a fundo essas quatro reflexões sobre o Irã.
Embora você jamais soubesse se desse ouvidos à esquerda universitária, a república islâmica do Irã é a maior potência imperialista da região desde 1979, cultivando aliados para controlar Síria, Líbano, Iraque e Iêmen – minando reformistas progressistas e promovendo divisões sectárias nos quatro.
O enfraquecimento de Teerã, graças aos golpes contundentes de Israel e EUA nos dois anos recentes, levou à queda do regime de Bashar Assad na Síria e permitiu ao Líbano escapar do domínio do Hezbollah, o que, por sua vez, abriu espaço para o governo mais decente do país em décadas – liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do aiatolá Ali Khamenei está sendo celebrada, discretamente ou ruidosamente, em toda a região.
Além disso, o povo iraniano está entre os mais pró-Ocidente da região. Se esse impulso for capaz de emergir e se espalhar, substituindo o veneno sectário e radical islâmico propagado pelo regime iraniano, haverá possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.
INDIGNAÇÃO. Como me disse o estrategista Nadim Koteich, não é por acaso que um dos cânticos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã seja: “Nada de Gaza, nada de Líbano. Minha vida pelo Irã”. Muitos iranianos estão revoltados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias que lutam contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acaba de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em processo de modernização.
“Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão. O velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio”, acrescentou Koteich. A morte de Khamenei,
tomara, “representa a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria se definir pela resistência e não por inclusão e integração”.
Tomara também que isso acabe com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus antecessores, como Mahmoud Ahmadinejad – que foi presidente do Irã de 2005 a 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israeloamericano – de que o Irã tem o direito de gritar abertamente “Morte aos EUA” e “Morte a Israel” e, ao mesmo tempo, alegar que também tem o direito de ser tratado como a Dinamarca, ou enriquecer urânio para fins “pacíficos”.
Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.
Quanto à união do povo iraniano para derrubar o regime, é difícil imaginar que isso aconteça em breve sem um líder claro e uma agenda comum.
TEOCRACIA 2.0. Analistas iranianos dizem que o resultado mais provável é uma espécie de república islâmica 2.0, na qual os principais reformistas – como Hassan Rohani, o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, um crítico cada vez mais ferrenho da linha-dura de Khamenei, ou o ex-chanceler e negociador nuclear Javad Zarif – pressionem a liderança remanescente a negociar um acordo com Trump. Esse pacto poderia incluir o fim do programa nuclear iraniano e limites às suas guerras por procuração e mísseis balísticos – em outras palavras, tudo o que Trump quiser – em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.
Essa república islâmica 2.0 poderia então ser capaz de organizar uma transição para uma democracia verdadeira. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de dar uma tábua de salvação a um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6,8 mil manifestantes, segundo a agência de notícias Human Rights Activists, sediada nos EUA, provavelmente muito mais. Em outras palavras, iniciar esta guerr foi relativamente fácil; encerrá-la será difícil.
NEGOCIAÇÃO. Mas um acordo desse tipo pode ser tentador para Trump, por evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada pela disparada dos preços do petróleo ou a desintegração do Irã. Por isso, não me surpreendeu ouvir Trump dizer à revista The Atlantic: “Eles querem conversar, e eu concordei, então vou conversar com eles”.
Como já observei nesta coluna, no Oriente Médio, o oposto de autocracia não é necessariamente democracia. Com frequência é desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece: ou elas implodem, como a Líbia, ou explodem, como a Síria.
Os persas representam apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azerbaijanos, curdos, luros, árabes e balúchis. Cada uma delas tem ligações com terras fora do Irã, especialmente os azerbaijanos com o Azerbaijão e os curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um a se separar e, na prática, explodir o Irã.
DESMEMBRAMENTO. O Irã testemunhou o colapso de governos e quedas de governantes ao longo de sua história. Em todas as ocasiões, “o país permaneceu intacto”, disse Koteich. “Pela primeira vez, não tenho certeza se o Irã permanecerá intacto.”
Se você quer o barril do petróleo a US$ 150, esse tipo de desintegração ocasionaria isso. As exportações de petróleo do Irã – de 1,6 milhão de barris diários, destinados principalmente à China – seriam completamente retiradas do mercado global. Cerca de 20% de todo o comércio de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, que o Irã tem capacidade de fechar. Os preços dos seguros para navios petroleiros já estão disparando, e cerca de 150 petroleiros no Golfo Pérsico estariam parados.
Enquanto isso, em Pequim, o presidente Xi Jinping deve estar se perguntando como seus sistemas de armas se comparariam aos fornecidos pelos EUA a Taiwan, depois de ver caças e mísseis inteligentes de fabricação americana burlar facilmente ou destruir os sistemas antiaéreos iranianos, de origem russa, e matar grande parte da elite de segurança nacional do Irã dentro de suas casas e escritórios. Talvez não seja esta a semana para invadir Taiwan – nem a próxima.
Mas esta pode ser uma boa semana para Pequim ver todo o povo iraniano dançando espontaneamente nas ruas para celebrar a morte de Khamenei e se perguntar se a República Popular da China deveria ter sustentado seu regime com compras de petróleo durante todos esses anos. Talvez devesse ter estado do lado do povo iraniano.
URNAS. É muito cedo para prever como esta guerra influenciará duas eleições cruciais este ano – em Israel e nos EUA. Para Trump, a coisa é simples. Ele não quer ver seu nome associado com a palavra “atoleiro” em nenhuma manchete antes das eleições de meio de mandato, em novembro. Quanto a Netanyahu, posso imaginá-lo convocando eleições antecipadas para usar a queda do regime iraniano para se manter no poder. Mas uma vitória sobre o Irã também poderia complicar sua política.
Netanyahu derrotou militarmente a curto prazo o Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah e o Irã, mas não transformou nenhuma dessas vitórias em ganhos diplomáticos ou políticos de longo prazo. Para isso, ele precisaria concordar em negociar novamente com os palestinos com base na estrutura de dois Estados para dois povos.
A oportunidade para Israel pode ser enorme: se a república islâmica do Irã for derrubada ou enfraquecida, não tenho dúvidas de que Arábia Saudita, Líbano, Síria, Omã, Catar, Kuwait e talvez até o Iraque se sentiriam muito mais confortáveis em normalizar as relações com Israel – sob a condição de que Netanyahu não anexe Gaza nem a Cisjordânia, mas concorde com um plano de separação e uma solução de dois Estados. Netanyahu aproveitará essa oportunidade? Os eleitores israelenses o puniriam se ele não o fizer?
Mas estou me adiantando. Imagino que até amanhã haverá pelo menos mais três pontos em competição na minha cabeça tentando dar sentido a isso tudo, porque este é o momento mais imprevisível no Oriente Médio desde a revolução iraniana de 1979. Tudo – e o contrário disso – é possível. •
terça-feira, 25 de maio de 2021
Revisitando a negociação nuclear Brasil-Turquia com o Irã - Rubens Barbosa (OESP)
REVISITANDO A NEGOCIAÇÃO BRASIL-TURQUIA COM O IRÃ.
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 25/05/2021
Espera-se para esta semana, a conclusão dos entendimentos entre os Estados Unidos e o Irã a fim de definir as condições para a volta do governo Biden ao acordo nuclear, abandonado por Trump e, por isso, desconsiderado por Teerã.
Por seu interesse e oportunidade, transcrevo a descrição que o ex-embaixador da França nos EUA, Gerard Araud, fez dos entendimentos sobre esse importante acordo. No livro Passeport Diplomatique (Grasset,2019), Araud, na época diretor político do Quai D’Orsay e negociador francês nas tratativas com o Irã, comenta as negociações encetadas pelo Brasil e Turquia com o Irã, segundo a visão dos países que negociaram com o governo iraniano.
A iniciativa brasileira e turca de levar adiante a negociação, na interpretação de Lula e de seu ministro do exterior, resultou de pedido formulado por carta do presidente Obama, na qual ressaltava que os EUA apoiavam a proposta do ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica no sentido de que o Irã transferisse 1.200 quilos de seu urânio de baixo enriquecimento para fora do país (Turquia). O presidente dos EUA lembra que havia pedido cautela a Lula nas negociações com o Irã, por não acreditar na boa fé do governo de Teerã, e instara o Brasil a insistir junto ao Irã a aceitar o oferecimento do governo de Washington de o país manter seu urânio na Turquia como caução, enquanto o combustível nuclear estava sendo produzido. Esse foi o encorajamento contido na carta de Obama. O acordo negociado pelo Brasil e Turquia com o Irã previa o envio por parte do Irã à Turquia de 1.200 quilos de seu urânio levemente enriquecido (a 3,5%) para uma troca, em um prazo máximo de um ano, por 120 quilos de combustível altamente enriquecido (20%), necessário para o reator experimental de Teerã. O acordo, que reconhecia ainda o direito do Irã de utilizar para fins pacíficos a tecnologia nuclear e o enriquecimento de urânio, segundo Celso Amorim, foi rejeitado pela secretaria de Estado Hillary Clinton, menos de 24 horas depois da sua assinatura.
Segundo Araud, no meio de uma difícil negociação que se estendia por mais de seis anos, “o Brasil e a Turquia, sem conhecer todos os detalhes desses entendimentos, decidiram interferir no processo, com base em uma interpretação da carta de Obama que reafirmava o objetivo que o grupo 5+1 (EUA, França, Reino Unido, Rússia e China) estava perseguindo (transferência do uranio para fora do país), sem entrar nos detalhes, como era de se esperar nesse tipo de correspondência”. “Os negociadores brasileiros e turcos, que desconheciam o histórico das longas negociações com o Irã, decidiram começar uma negociação paralela com base na carta de Obama a Lula e assinaram com os iranianos – que sabiam precisamente o que estava por detrás das palavras – um texto desequilibrado, que todos, inclusive a Rússia e a China, tiveram de rejeitar”. “No primeiro parágrafo do acordo, ficava reconhecido o direito do Irã de enriquecimento do urânio, que não estava em negociação com os EUA. Isso representava, de um lado, o descumprimento de cinco resoluções do Conselho de Segurança da ONU que solicitavam que o Irã suspendesse as atividades nessa área, e de outro, uma relevante inovação em termos de não proliferação, pois nunca o enriquecimento do urânio para programa nuclear foi considerado um direito, contrariamente ao direito no tocante ao uso pacífico da energia nuclear”. “O Brasil e a Turquia caíram em uma armadilha”. A bem da verdade, comenta Araud, “a carta de Obama era ao mesmo tempomuito pouco precisa e contribuiu para deixá-los perdidos em um labirinto, no qual os próprios negociadores do grupo estavam sem saída há seis anos”. “Brasil e Turquia se abstiveram na votação da Resolução do conselho de segurança que impôs sanções contra o Irã”. Araud conclui que, “além de desequilibrado, o acordo incorporou reivindicações do Irã que não haviam sido aceitas pelo grupo 5+1, como o direito ao enriquecimento do urânio para o programa nuclear, o que contrariava cinco resoluções da ONU, prevendo apenas sua utilização para fins pacíficos”.
Os comentários do ex-embaixador francês em Washington qualificam as reiteradas manifestações de Lula e de Amorim de que o Brasil se engajou na negociação com o Irã em decorrência de um pedido formal de Obama. Uma leitura atenta da carta do presidente dos EUA mostra que o governo americano apenas instou o Brasil e a Turquia a convencer Teerã a transferir o urânio de baixo teor para fora do país, nos termos da proposta a AEIA.
Depois desse episódio que envolveu o Brasil diretamente, as negociações prosseguiram por quase uma década e foram concluídas em 2019. O Irã assumiu a obrigação de suspender por 15 anos seu programa nuclear com a redução do total de centrífugas e de seu estoque de urânio. Com a saída dos EUA, Washington voltou a impor sanções políticas e econômicas. A plena reativação do acordo sobre o programa nuclear de Teerã passa pelo cumprimento pelo Irã das restrições ao processamento do urânio e pela suspensão das sanções americanas.
Rubens Barbosa, presidente do IRICE e membro da Academia Paulista de Letras.
segunda-feira, 30 de março de 2026
Augusto de Franco desmonta os argumentos da esquerda na guerra de agressão dos EUA contra o Irã (Revista ID)
A narrativa dos jornalistas simpáticos a Lula e ao PT que se apresentam como analistas internacionais chega a ser uma ofensa ao bom-senso e um insulto à inteligência. Mas é pior do que isso: é desonesta. Ela é repetida diariamente nos meios de comunicação, sobretudo nas TVs alinhadas ao governo Lula. Nem todos que replicam tais narrativas iliberais endossam os dez pontos abaixo, mas com certeza concordam com a maioria deles. É mais ou menos assim:
1 - As violações dos direitos humanos e a perseguição às mulheres no Irã é uma característica cultural de um país milenar. Não podem ser condenadas a partir da cultura ocidental. Ou, se condenáveis do nosso ponto de vista, não justificam os ataques bárbaros que os iranianos vêm sofrendo.
2 - O regime teocrático do Irã é também a expressão de sua cultura milenar. Querer que o Irã copie o modelo ocidental de democracia é não entender a complexidade da sociedade iraniana e seu direito soberano de construir seu próprio tipo de regime político.
3 - O Irã é um país pacífico. Só está em guerra porque foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, de modo covarde, pois isso aconteceu enquanto estava empenhado de boa vontade em negociações com esses países. Ah! Mas e a repressão sangrenta aos manifestantes iranianos, que assassinou a sangue frio, no início deste ano, dezenas de milhares de pessoas nas ruas e nas prisões do regime? Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. Isso é mais propaganda judaica colonialista e americana imperialista.
4 - O Irã era uma democracia plena. Mas o governo de Mossadegh foi derrubado em 1953 por um golpe militar promovido pela CIA (EUA) e pelo M16 (Reino Unido). Foi aí que começaram os ataques ocidentais ao Irã. Ah! Mas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo (como o V-Dem) atestam que nessa época o Irã era uma autocracia (e que nunca houve democracia por lá). Não importa: essas instituições devem estar mentindo (ou são expressões da visão parcial do Ocidente). Mossadegh era socialista e nacionalista, logo era um democrata, pois defendia a soberania do Irã contra o imperialismo e o colonialismo.
5 - O Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis, as milícias xiitas no Iraque, na Síria e em outros países do Oriente Médio - grupos jihadistas coordenados pelo Corpo da Guarda da Revolução Islâmica - não são entidades terroristas, mas apenas integrantes do "eixo da resistência" ao colonialismo de Israel e ao imperialismo dos EUA. Ah! Mas os ataques terroristas sangrentos que esses grupos cometeram em Israel e em outros países? Não importa. Se eles não resistissem aos ataques do Ocidente seriam liquidados ou violados em seus legítimos direitos de expressão e organização.
6 - O Irã só quer explorar recursos nucleares para fins pacíficos, de geração de energia e de construção de artefatos médicos. É mentira que seu programa nuclear visava a construção de armas. Ah! Mas e a quase meia tonelada de urânio enriquecido a 60%? Isso é mentira, assim como era mentira que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Ou, se não é mentira, 60% não permitem a construção de uma bomba atômica.
7 - Israel ataca o Líbano e não o Hezbollah. Aliás, sempre atacou o país para colonizá-lo, inclusive quando o Hezbollah não existia. Ah! Mas e a OLP no Líbano não era um grupo terrorista? Não era e sim legítima resistência aos ataques ocidentais. O Hezbollah está apenas se defendendo dos ataques colonialistas e imperialistas.
8 - Israel ataca os palestinos para genocidá-los (na base da limpeza étnica) e não o Hamas. A prova é que o Hamas continua organizado e armado, controlando cerca de 40% da Faixa de Gaza. Israel está mantendo um apartheid dos palestinos para impedir que construam seu próprio Estado. A prova disso é a ocupação crescente da Cisjordânia por colonos judeus supremacistas que cometem crimes diários contra as populações tradicionais da Judeia e da Samaria.
9 - O Irã está vencendo a guerra porque está resistindo bravamente aos ataques criminosos de Israel e dos Estados Unidos. Já era hora de alguém dar um basta nesses agressores.
10 - É admirável o que o Irã está fazendo, enfrentando Trump e Netanyahu. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo dos EUA estava nas mãos dos democratas Clinton, Obama e Biden. Não importa, é tudo a mesma coisa: imperialismo. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo de Israel estava nas mãos dos trabalhistas Rabin, Peres e Barak. Não importa, é tudo a mesma coisa: colonialismo.
Essa é mais ou menos a narrativa do PT. Essa é mais ou menos a narrativa dos governos Lula, que sempre apoiaram a ditadura do Irã, cuja entrada no BRICS foi comemorada pelo PT. E tanto é assim que Lula se aproximou de Ahmadinejad - um notório fraudador de eleições, como aquele seu outro amigo Maduro.
O que esses propagandistas iliberais nos meios de comunicação não enxergam é que o fato de Trump e Netanyahu serem populistas-autoritários muito ruins não torna aceitável (ou justificável) a teocracia assassina e terrorista dos aiatolás iranianos. Como escreveu Masih Alinejad (na foto: jornalista iranana e presidente do WL Congress):
“A República Islâmica é um regime terrorista. Deixou uma coisa brutalmente clara: a vida do seu próprio povo não lhe vale nada. Ela os mata. Depois exige dinheiro de suas famílias para devolver os corpos. E se essas famílias ousarem expressar seu luto, ousarem exigir justiça, são ameaçadas de estupro coletivo e depois presas. Há anos venho dizendo claramente: a República Islâmica não é um governo normal. É uma força de ocupação terrorista que só responderá à força e à pressão decisiva”.
Mesmo assim, parece óbvio que Trump, aliado a Netanyahu, não tinha razões fortes para desfechar a atual contra-ofensiva ao Irã. Errou na forma e no conteúdo. Desvairou. Já quer voltar atrás e não sabe como.
Mas o fato é que - independentemente do presidente americano ser o Belzebu em pessoa e de Bibi ser a encarnação de Asmodai - o Irã não pode continuar financiando e coordenando uma dezena de organizações terroristas ativas (capazes de cometer atentados em qualquer lugar do mundo). O Irã não pode continuar com seu programa de mísseis (com cada vez maior alcance e capacidade de destruição). O Irã não pode retomar seu programa nuclear. E o Irã não pode manter controle completo sobre o Estreito de Ormuz. Finalmente, o Irã não pode se estabelecer como o valentão e o manda-chuva do Oriente Médio (daqui a pouco vai passar cobrar proteção dos países da região, com o IRGC atuando como máfia estatal).
Todavia, não foram os erros crassos de Trump e Bibi que levaram o Irã a fazer tudo isso. Era o plano. Trump e Bibi só deram a chance do Pásdárán(o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica) começar a executá-lo.
Há uma guerra em curso. Não só no Oriente Médio, mas no mundo. É a guerra do Irã, que não começou em 2026, mas já dura quase meio século.
Uma nota sobre o programa Globo News Internacional
A crítica é própria da democracia. Então vamos lá. O Globo News Internacional do último domingo (22/03/2026) ultrapassou todos os limites. Pareceu um Pravda, ou melhor, um Granma. Chamou uma pessoa para comentar a guerra no Líbano que parecia (não estou afirmando que é) uma militante do "eixo da resistência" (a retórica é a mesma) ou uma funcionária de relações públicas do Hezbollah. Depois, entre tantas e descabidas parcialidades, tratou de Cuba, chamando o embargo de bloqueio (no passado, não agora, replicando exatamente a mesma narrativa surrada - e falsa - do regime). Chamou uma historiadora pró-cubana para dizer que está havendo, há muito tempo, uma transição em Cuba, conduzida pelo partido único (mas isso é só um detalhe pouco importante), confundindo solertemente medidas econômicas com abertura política. Nem vou falar da narrativa da guerra do Irã. É como se um país pacífico, enquanto estava negociando com a melhor das boas intenções, tivesse sido covardemente atacado pelos imperialistas e colonialistas. Ou seja, a guerra que a teocracia do Irã trava há décadas, por meios de seus braços terroristas (Hezbollah, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria, Jihad Islâmica, Hamas), seria somente uma demonstração de… paz! Sinceramente, isso não é jornalismo. Depois se assustam quando as pessoas, em sua maioria, não confiam mais nos meios de comunicação profissionais.
Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.
sábado, 26 de junho de 2010
Brasil-Iran-EUA: um triangulo pouco amoroso
Mal comparando, creio que foram mexer num vespeiro: algumas pessoas podem sair picadas. Não foi por falta de aviso...
Paulo Roberto de Almeida
Em recado a Brasil, texto de sanções dos EUA ao Irã inclui menção a etanol
Por Patrícia Campos Mello (corresponde em Washington)
Estado de São Paulo, 26.06.2010
A lei de sanções contra o Irã, aprovada pelo Congresso americano quinta-feira, inclui pela primeira vez restrições à venda de etanol a Teerã, em um claro recado para o governo brasileiro. Enterrada no meio do texto do projeto de lei de 41 páginas, que deve ser assinada pelo presidente Barack Obama nos próximos dias, há uma ordem explícita para que o governo americano monitore as exportações de etanol para o Irã.
Segundo o texto, o presidente americano fica obrigado a entregar um relatório para o Congresso 90 dias após a publicação da lei de sanções, sobre os investimentos no setor de energia do Irã, que incluam “uma estimativa do volume de recursos energéticos, incluindo etanol, que o Irã importou durante o período”, além de uma “lista de todos os projetos, investimentos e parcerias fora do Irã que envolvam entidades iranianas em parceria com entidades de outros países, incluindo identificação das entidades dos outros países.” Isso vai valer para qualquer negócio feito a partir de janeiro de 2006
Durante deliberações que levaram à provação do projeto de lei no Legislativo, o deputado democrata Eliot Engel, líder da Subcomissão de Hemisfério Ocidental da Câmara dos Representantes, deixou claro que o texto tinha endereço certo.
“Quero manifestar meu apoio à seção 110 da lei, que exige um relatório sobre exportações de energia para o Irã; Os EUA e o Brasil são os maiores produtores de etanol do mundo e fiquei feliz de ouvir dos produtores brasileiros que eles não têm planos de fornecer etanol para o Irã”, disse Engel. “É por isso que a lei é importante, precisamos continuar monitorando essa área, já que exportações de etanol podem enfraquecer as sanções contra o setor de energia do Irã.”
Segundo uma fonte do Congresso, o estabelecimento do relatório é o primeiro passo para uma emenda que pode incluir o etanol na lista dos produtos cuja venda para o Irã estará proibida.
Desta forma, se a Petrobras resolvesse revender etanol brasileiro para os iranianos, poderia ser alvo de retaliação de Washington. Procurada pelo Estado, a estatal brasileira, por intermédio de sua assessoria, assegurou não ter planos imediatos de negociar o produto com o Irã.
“Sem discriminar”
O governo americano já havia indicado claramente que se opõe ao possível interesse brasileiro de fornecer etanol para os iranianos. “Qualquer iniciativa que burle as sanções prejudica nosso objetivo, então não é uma boa ideia”, disse um alto funcionário da Casa Branca ao Estado.
Diferentemente do reforço das medidas unilaterais que os EUA pretendem impor ao Irã, nas sanções aprovadas pela ONU - apesar da oposição de Brasil e Turquia - não há restrição explícita ao setor energético ou ao etanol.
O Congresso americano havia aceitado o pedido do presidente Obama para adiar a votação de sua lei unilateral de sanções até que a ONU aprovasse sua iniciativa. Agora, Obama deve sancionar o projeto, transformando-o em lei.
Na época, o governo brasileiro afirmou foi explícito: “Não vamos discriminar ninguém na hora de exportar etanol. Vamos exportar etanol para qualquer país que queira, nossa prioridade é abrir mercados”, tinha declarado, no início do mês, uma fonte do governo.
A possibilidade de o Brasil suprir parte das necessidades de combustível do Irã com etanol foi levantada pelo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, em visita a Teerã, em abril.
Jorge afirmou que o Irã está interessado em comprar etanol brasileiro, por causa dos problemas que enfrenta para comprar gasolina diante dos bloqueios comerciais que sofre. Mas os empresários brasileiros afirmam não ter intenção de correr o risco de ser sancionados pelos EUA.
Assim como a assessoria da Petrobrás, Adhemar Altieri, porta-voz da Unica, entidade que representa os produtores de etanol, disse que não há projeto nem de curto nem de longo prazo para exportar etanol para o Irã.
Para entender
As sanções aprovadas na quinta-feira pelo Congresso americano são ações unilaterais, aplicadas apenas pelos EUA - diferentemente das medidas multilaterais adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU, no dia 9, que devem ser seguidas por todos os membros da organização. As punições contra nas Nações Unidas são mais brandas porque, para aprová-las, era preciso o apoio de chineses e russos, que têm interesses comerciais e são contra medidas muito duras contra Teerã. Um caso semelhante ocorreu com o regime do apartheid, na África do Sul. A ONU adotou suas primeiras sanções contra os segregacionistas nos anos 60. As medidas, porém, eram amenas e foram facilmente burladas pelo governo branco. O sistema de segregação racial só começou a ruir anos 80, depois que EUA e Grã-Bretanha adotaram duras sanções unilaterais contra a África do Sul.
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Não blefe com alguém que não sabe desistir - Arnaud Bertrand (Substack)
Não blefe com alguém que não sabe desistir
arnaudbertrand.substack.com/p/dont-bluff-someone-who-cant-fold
Arnaud Bertrand
9 de abril de 2026
A guerra contra o Irã ainda não acabou, mas parece que, na verdade, podemos estar diante de uma das maiores derrotas da história dos Estados Unidos e de Israel.
Como Ben Rhodes, ex-vice-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, disse: “É difícil perder uma guerra tão curta de forma tão abrangente.” Yair Lapid, ex-primeiro-ministro de Israel e líder da oposição, afirmou que “nunca houve um desastre político como este em toda a nossa história” e chamou-o de “colapso estratégico”.
Rhodes e Lapid estão certos. A magnitude dos danos que os EUA e Israel causaram a si mesmos em tão pouco tempo — e o quanto o Irã ganhou — é realmente impressionante.
Quero dizer, que loucura é essa: o JP Morgan calculou que, de acordo com o novo acordo de pedágio de Ormuz (que os países do Golfo confirmaram ser permitido no plano de cessar-fogo), o Irã pode obter US$ 70 a 90 bilhões em receita anual adicional, representando impressionantes 20% de seu PIB em receita extra. Curiosamente, Trump comentou no Truth Social que o acordo significa que “muito dinheiro será ganho” e que “o Irã pode iniciar o processo de reconstrução”. É verdade: eles conquistaram a renda geográfica mais valiosa do mundo, por uma margem enorme. Para comparação, o Canal de Suez rende ao Egito “apenas” US$ 9 a 10 bilhões/ano, e o Canal do Panamá cerca de US$ 5 bilhões.
Impressionante.
Impressionante também é a sequência de eventos. Na noite de terça-feira, Trump estava — aparentemente — à beira de lançar uma bomba nuclear no Irã, postando que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, apenas para basicamente se render poucas horas depois, concordando em negociar a paz com base no plano de 10 pontos do Irã (que ele chamou de “base viável”) — um plano que não faz praticamente nenhuma concessão aos EUA e representa uma vitória quase total para o Irã. Para ser justo, tratando-se de Trump, não está claro se ele sequer entendeu o que é o plano de 10 pontos do Irã, mas ele confirmou desde então que aceita o princípio de uma taxa iraniana no Estreito de Ormuz (embora agora diga que prefira que seja uma “joint venture” com os EUA).
O que levou disso a isso é uma incógnita — minha suposição é que ele tentou um último blefe gigantesco, e o Irã ainda assim não vacilou. O motivo, porém, não importa muito; o que importa mais é a mensagem que isso transmite: como afirma Jennifer Kavanagh, ex-diretora do programa de Estratégia do Exército da RAND (o think tank de defesa mais influente dos EUA): ao “elevar tanto as apostas de antemão, ele maximizou o dano à [...] percepção global do poder dos EUA”. Ela acrescentou: “esta é uma clara derrota estratégica para os EUA”
Há um ditado famoso no pôquer: “Não blefe contra alguém que não pode desistir.” No entanto, foi exatamente isso que Trump fez. O Irã literalmente não podia desistir. Sua própria sobrevivência como Estado dependia de não capitular. Portanto, a ameaça de Trump foi o pior tipo possível de blefe — apostas máximas, contra um adversário sem saída.
Quando não funcionou, ele se viu — tolamente, inteiramente por sua própria culpa — preso entre duas opções impossíveis: cumprir a ameaça e se tornar a figura mais odiada da história moderna (ainda mais do que já é), ou desistir. Ele desistiu.
As implicações geopolíticas são quase grandes demais para serem contempladas.
Em primeiro lugar, correndo o risco de afirmar o óbvio, isso tornaria o Irã a potência dominante no Oriente Médio:
O país ao qual todos os outros agora precisam prestar homenagem pelo privilégio de exportar seus recursos naturais
O país que derrotou os EUA e Israel em pouco mais de um mês
O país que provou ser capaz de, sozinho, sufocar a economia global
O país que provou ser capaz de atacar todos os Estados do Golfo, bem como Israel, e que os EUA não poderiam fazer absolutamente nada para protegê-los
O país que, sozinho, pôs fim à “liberdade de navegação”, a vantagem estratégica mais importante das Forças Armadas dos EUA
O país que sobreviveu a todos os truques possíveis — ataques de decapitação, tentativas de revolução apoiadas pela CIA, instrumentalização de divisões étnicas, operações psicológicas constantes e guerra de informação — e saiu do outro lado mais forte e mais unido do que antes
Como diz o ditado, o que não te mata te fortalece. Com esta guerra, acabamos de testemunhar o (re)nascimento de uma grande potência: agora são a China, a Rússia, os EUA… e o Irã.
Foi isso que argumentei em meu artigo anterior intitulado “A primeira guerra multipolar” (que envelheceu muito bem!): que esta guerra estava revelando o Irã como um verdadeiro polo de poder — um que não pode ser subjugado por outros. O que parecia uma afirmação ousada há três semanas é agora simplesmente a descrição factual do que aconteceu.
Outra consequência provável, que sem dúvida ficará mais clara nas próximas semanas, é que as relações entre os EUA e Israel estão fadadas a ser fundamentalmente remodeladas pelas consequências da guerra, ou pelo menos deveriam ser.
O New York Times publicou na terça-feira um relato extraordinariamente detalhado de “como Trump levou os EUA à guerra com o Irã”, no qual explica que essa foi, essencialmente, uma situação de “a cauda balançando o cachorro”, com Netanyahu tendo conseguido persuadir Trump a entrar na guerra em uma apresentação confidencial na Sala de Situação em 11 de fevereiro.
De acordo com o relato, Netanyahu prometeu que “o programa de mísseis do Irã poderia ser destruído em semanas”, que o governo ficaria “tão enfraquecido que não poderia bloquear o Estreito de Ormuz”, que “a probabilidade de o Irã desferir golpes contra os interesses dos EUA nos países vizinhos era mínima” e que protestos de rua — fomentados pela Mossad — levariam a uma mudança de regime. Apesar do diretor da CIA, John Ratcliffe, ter chamado essas alegações de “ridículas”, Trump se convenceu e seguiu em frente.
O resultado que todos testemunhamos hoje: absolutamente tudo o que Netanyahu previu para Trump acabou se revelando errado. As alegações de Netanyahu eram, de fato, ridículas.
Uma advertência justa: por se tratar do New York Times, devemos ter cuidado ao aceitar a matéria pelo valor nominal. O NYT é, antes de tudo, um veículo para a construção de narrativas da elite — e, com tais narrativas, a questão mais interessante raramente é o que está sendo dito em uma determinada matéria (o que muitas vezes é errado ou enganoso), mas por que uma matéria é uma matéria em primeiro lugar.
O “porquê” aqui é difícil de ignorar: com razão ou sem razão, a narrativa está sendo montada para fazer de Israel o bode expiatório — Trump e o establishment de segurança dos EUA têm pouca influência nessa história; eles são vítimas infelizes enganadas por um líder estrangeiro manipulador.
É uma história conveniente: a culpa recai sobre o exterior, o establishment mantém sua credibilidade — TODOS se opuseram à guerra (sendo o fracasso, como se sabe, um órfão) — e ninguém precisa fazer perguntas mais difíceis sobre o que poderia levar a um erro estratégico tão desastroso.
O que significa que o terreno político está mudando sob a “relação especial”, o que já ficou evidente pelo fato de que, como Yair Lapid apontou em seu post, Israel nem sequer estava à mesa quando Trump decidiu decretar o cessar-fogo e negociar com base no plano de 10 pontos do Irã.
Acima de tudo, porém, a consequência mais dramática desta guerra é o que ela significa para o poder dos EUA.
Como argumentei em meu artigo anterior, esta guerra é qualitativamente diferente de outras guerras dos EUA nas últimas décadas, como Vietnã, Afeganistão, Líbia, Iraque, Sérvia, etc. (a lista é, infelizmente, muito longa). Nessas guerras, o padrão era basicamente sempre o mesmo, com uma imensa diferença de poder entre agressor e vítima. Eram guerras imperiais, o império tentando esmagar um povo muito mais fraco cujo único recurso realista era a resistência guerrilheira.
Como escrevi, como espectadores dessas guerras, se você tivesse algum senso moral, a emoção dominante era uma espécie de repulsa impotente: você estava vendo um gigante pisoteando a casa de outra pessoa.
Esta guerra não foi nada assim: surpreendentemente, o Irã conseguiu se manter firme simetricamente e taticamente contra os Estados Unidos e Israel. Essa é uma diferença absolutamente crucial, pois muda o que significa perder. Quando os EUA perderam no Vietnã ou no Afeganistão, foi embaraçoso, mas, no fim das contas, administrável — o gigante saiu de lá com o ego ferido, e o mundo deu de ombros. Impérios perdem para guerrilheiros às vezes; isso não diz muito sobre a capacidade do império de travar uma guerra de verdade.
Mas perder simetricamente — perder quando seus caças stealth mais avançados são abatidos do céu, suas bases militares são neutralizadas em todo o teatro de operações, seus sistemas de defesa antimísseis mais avançados são destruídos, seu inimigo assume o controle da via navegável mais estratégica do mundo, sua marinha não consegue reabri-la e seus “aliados” são bombardeados impiedosamente apesar de sua “proteção” — isso é um tipo de derrota totalmente diferente.
Isso diz ao mundo que o gigante não é mais tão gigante assim.
Está se tornando clichê dizer isso, mas imagine uma guerra convencional contra a China neste momento. Os EUA conseguiram resistir 40 dias contra o Irã: quanto tempo durariam contra a China? O próprio Pete Hegseth admitiu que a China poderia “afundar todos os porta-aviões dos EUA nos primeiros 20 minutos de um conflito”. E esse é um homem que, como o Irã deixou claro, superestima ENORMEMENTE o poder das Forças Armadas dos EUA.
Concretamente, isso significa que o próprio conceito de ser um “aliado” dos Estados Unidos tornou-se completamente sem sentido: de que adianta ser protegido por alguém que obviamente não pode protegê-lo?
Isso também significa, porém, que o inverso é igualmente verdadeiro, e talvez ainda mais consequente: o Irã acaba de provar que você não precisa de um protetor, para começar.
Aqui está um país que está sob sanções devastadoras há mais de quatro décadas, isolado da tecnologia ocidental, incapaz de comprar um único caça avançado — e acabou de lutar contra os EUA e venceu. Fez isso com mísseis produzidos internamente, defesas aéreas de fabricação própria e tecnologia de drones desenvolvida localmente. A lição para todas as potências de médio porte do mundo é extremamente óbvia: se o Irã consegue fazer isso nessas condições, praticamente qualquer um consegue.
Tive uma espécie de discussão com um amigo jornalista no início do conflito, que argumentou que a China não estava sendo uma boa “aliada” do Irã por não se juntar à luta ao lado deles. Um argumento também hilariamente apresentado pelo ex-embaixador dos EUA na China, Nicholas Burns, que literalmente zombou da China no início do conflito por ser o que ele chamou de “um amigo irresponsável” ao não ajudar o Irã a repelir os americanos. Isso diz muito sobre o quão sociopatas as elites americanas se tornaram, a ponto de um alto funcionário dos EUA zombar de uma grande potência com armas nucleares por não entrar em guerra com os Estados Unidos…
Eu ouvi novamente o que respondi ao meu amigo na época (em uma mensagem de voz no WhatsApp no dia 2 de março):
Você tem uma grande suposição aí: que o Irã vai perder. Eu não apostaria nisso. Pode ser o que você está dizendo, com o precedente estabelecido de que “resista aos Estados Unidos e seu destino estará selado” se, de fato, o Irã perder feio. Mas também pode ser que, desta vez, os iranianos dissuadam, em certa medida, os americanos, e então o precedente exatamente oposto esteja sendo estabelecido.
Além disso, talvez os iranianos simplesmente tenham algum senso de dignidade, querendo não depender de ninguém e traçar seu próprio caminho independentemente de qualquer outro ator.
De Gaulle tinha essa ótima citação de que os americanos tendem a confiar no que é brando em vez do que é sólido, no sentido de que eles realmente insistem que seus “aliados” sejam vassalos e representantes, não aceitando qualquer forma de independência. Isso fomenta fraqueza e brandura, sendo a União Europeia um exemplo muito claro disso. A abordagem de não ter aliados que a China está adotando é certamente muito menos gentil com aliados em potencial, porque é como se dissesse “você está por conta própria, lide com isso” — talvez eu esteja exagerando, mas há um pouco disso —, mas, por outro lado, também gera força.
Alguns países se oporão aos EUA, não porque sejam encorajados pela China, pela Rússia ou por qualquer outra coisa, mas simplesmente porque não querem ser vassalos de ninguém. A abordagem dos EUA fomenta a oposição porque insiste em ter representantes e vassalos, e a abordagem chinesa, que é o oposto disso, não fomenta a oposição à China porque todos ficam felizes em se limitar ao comércio. E isso também gera — a longo prazo — força, porque você precisa confiar em si mesmo, então precisa ser forte.
E aqui estamos nós, cinco semanas depois, com o Irã comprovando meu argumento além de tudo que eu poderia imaginar. Eles não precisaram da China para travar sua guerra. Eles precisaram de si mesmos — isso foi o suficiente, e torna o que cada vez mais parece uma vitória incontestável ainda mais honrosa e significativa.
Essa é a lição mais profunda da guerra, e a que tem a meia-vida mais longa: o modelo chinês de relações internacionais, em que os países se mantêm em pé com sua própria soberania em vez de se amontoarem sob o guarda-chuva de outra nação, acaba de receber a validação empírica mais espetacular da história moderna.
A distinção de De Gaulle entre o que é flexível e o que é sólido nunca foi tão vívida: o sistema de vassalagem dos EUA produziu Estados do Golfo que não conseguiam defender suas próprias refinarias; a lógica da autossuficiência produziu um Irã capaz de enfrentar os EUA e vencer.
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