segunda-feira, 14 de abril de 2025

Vargas Llosa, prêmio Nobel e último gigante da geração dourada da literatura latino-americana - Juan Carlos Pérez Salazar (BBC)

 Morre Vargas Llosa, prêmio Nobel e último gigante da geração dourada da literatura latino-americana

Mario Vargas Llosa

CRÉDITO, GETTY

Mario Vargas Llosa, escritor peruano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2010, morreu neste domingo em Lima, aos 89 anos, segundo informaram seus filhos em um comunicado.

Vargas Llosa foi autor de obras marcantes da literatura latino-americana, como "A Festa do Bode", "Conversa no Catedral" e "A Guerra do Fim do Mundo".

"Sua partida entristecerá seus parentes, amigos e leitores, mas esperamos que encontrem consolo, como nós, no fato de que ele teve uma vida longa, múltipla e frutífera, e deixa para trás uma obra que o sobreviverá", disseram no comunicado os filhos do escritor, Álvaro, Gonzalo e Morgana.

"Agiremos nas próximas horas e dias de acordo com suas instruções. Não haverá nenhuma cerimônia pública. Nossa mãe, nossos filhos e nós mesmos esperamos ter o espaço e a privacidade para nos despedirmos em família e na companhia de amigos próximos. Seus restos mortais, como era sua vontade, serão cremados", acrescentaram.

Obra prolífica

Vargas Llosa soube desde muito jovem que queria ser escritor.


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E a isso dedicou sua vida com a disciplina de um operário, até alcançar o reconhecimento universal como autor — e também uma divisão de opiniões em torno de sua figura pública que não se via no Ocidente desde a época do filósofo Jean-Paul Sartre.

Talvez não seja totalmente coincidência: Sartre foi um de seus primeiros modelos (os colegas de juventude o chamavam de "o pequeno Sartre corajoso") e, embora depois tenha criticado as ideias políticas do francês, até o fim foi um escritor engajado, comprometido com sua realidade, como pregava o famoso existencialista - Vargas Llosa chegou a ser candidato à presidência do Peru em 1990, mas perdeu para Alberto Fujimori.

Essa disciplina e compromisso o levaram a produzir uma obra de surpreendente abundância: 20 romances, um livro de contos, 10 peças de teatro, 14 livros de ensaio, dois de crônicas e um de memórias, além de múltiplas coletâneas de suas colunas e textos avulsos.

Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em 28 de março de 1936, em Arequipa, no sul do Peru.

E embora sempre a tenha apontado como seu lugar de origem (e é lá que, na casa colonial onde nasceu, repousa sua biblioteca), viveu nela apenas um ano.

Em 1937, seu avô Pedro J. Llosa decidiu mudar-se para Cochabamba, na Bolívia, para administrar uma fazenda de algodão. Lá, cercado por mulheres e pela autoridade benigna do avô, Vargas Llosa viveu aquilo que ele próprio descreveu como uma espécie de paraíso.

A queda na realidade viria nove anos depois, quando a família materna retornou para viver no Peru, desta vez na cidade de Piura, onde seu avô foi nomeado prefeito.

A figura paterna


Fim do Novo podcast investigativo: A Raposa

O que aconteceu em Piura foi um dos eventos fundamentais de sua vida — tanto que é com ele que começa "Peixe na Água", o mais próximo de uma autobiografia que Vargas Llosa chegou a escrever.

"Minha mãe me pegou pelo braço e me levou para a rua pela porta de serviço da prefeitura. Caminhamos em direção ao Malecón Eguiguren. Eram os últimos dias de 1946 ou os primeiros de 1947, pois já havíamos feito as provas no Salesiano, eu havia terminado a quinta série primária e já era verão em Piura, com sua luz branca e um calor sufocante.

— Você já sabe, é claro — disse minha mãe, sem que sua voz tremesse. — Não é verdade?

— O quê?

— Que seu pai não está morto. Não é verdade?

— Claro. Claro que sim.

Mas eu não sabia. Nem remotamente suspeitava."

Ernesto Vargas, o homem que havia abandonado a mãe do futuro escritor poucos meses antes de seu nascimento, estava de volta para ocupar seu lugar patriarcal no centro da família.

E como ocupou: naquele mesmo dia, sem sequer avisar à família de sua esposa, Dora, levou todos para viver em Lima, capital peruana.

É possível que a pulsão de Mario, o escritor, tenha nascido ali — na luta descomunal e desigual de vontades que se iniciou entre aquele menino e seu pai tirânico.

Lima, detestável

Também em "Peixe na Água", Vargas Llosa conta que detestou Lima desde o primeiro momento e se refugiou nas revistas em quadrinhos e nos romances de aventura de Júlio Verne, Emilio Salgari e Karl May.

Quando Mario tinha 14 anos, seu pai cumpriu a ameaça de colocá-lo num colégio militar, o Leoncio Prado. Lá, passaria quatro anos e, ao contrário do que seu pai desejava, enfrentaria um microcosmo do que era o Peru — com jovens de todas as classes sociais e raças do país — além da tremenda violência que emergia desses encontros. E foi isso que o convenceu de seu desejo mais íntimo: ser escritor.

Sobre sua experiência no colégio militar, escreveria, aos 26 anos, seu primeiro romance: "A Cidade e os Cachorros", que não apenas o lançaria à fama como também inauguraria o movimento literário com o qual seria identificado por toda a vida: boom da literatura latino-americana.

Mas isso viria um pouco mais tarde. Antes haveria a experiência completa de Lima (com um breve intervalo em Piura para concluir o ensino médio, escrever sua primeira peça de teatro, A Fuga do Inca, e trabalhar na editoria policial de um jornal), cidade que já não lhe pareceria tão detestável.

Na capital, trabalhou em jornais e como assistente de um historiador, estudou Direito e Literatura na Universidade de San Marcos, foi brevemente membro do Partido Comunista (então proibido) no Peru e ganhou uma viagem de 15 dias a Paris pelo conto O Desafio, que integra seu único livro de contos, "Os Chefes".

Foi nesse período que conheceu a obra de José Carlos Mariátegui, Karl Marx e Sartre — fundamentais para sua formação política inicial — e também a do norte-americano William Faulkner, que o marcou profundamente por sua técnica narrativa prodigiosa. Leu também com avidez Alexandre Dumas, Victor Hugo e Gustave Flaubert, outro de seus grandes mestres.

Foi também nessa época que, num ato de rebeldia tribal, casou-se, aos 19 anos, com sua tia materna, Julia Urquidi, 11 anos mais velha e divorciada.

Da relação com ela e de seu trabalho na Rádio Panamericana surgiria um de seus romances mais bem-sucedidos e divertidos: "A Tia Júlia e o Escrevinhador". Da experiência em Lima durante a ditadura do general Manuel Odría viria a monumental Conversa no Catedral, e de Piura e duas estadias na Amazônia peruana, A Casa Verde.

Mario Vargas Llosa

CRÉDITO, GETTY

Legenda da foto, Vargas Llosa durante festival literário na Alemanha

Paris, Cuba

Em 1958, graças a uma bolsa de estudos, Vargas Llosa muda-se com Julia para Madri, onde pretende fazer um doutorado em literatura.

No entanto, permanece apenas um ano na Espanha e, ao término da bolsa, decide perseguir seu sonho de viver em Paris — um lugar mítico para escritores latino-americanos de sua geração (e das anteriores), como Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Octavio Paz, Alejo Carpentier e Severo Sarduy.

As condições em que vivia com a esposa no Hotel Wetter no bairro latino eram extremamente modestas. Trabalhou como professor de espanhol e, inclusive — segundo relata Julia Urquidi em seu livro "Lo que Varguitas No Dijo" (O que Varguitas não disse, em tradução livre) — atuou como escritor fantasma para uma senhora peruana que queria publicar suas experiências no Oriente Médio.

Tudo mudaria com a publicação, em 1963, de "A Cidade e os Cachorros" (vencedor do Prêmio Biblioteca Breve da editora Seix Barral em 1962), que lhe traria fama internacional e repúdio local: centenas de exemplares do livro foram queimados pelos militares no colégio Leoncio Prado, por considerarem que a obra havia manchado a reputação da instituição.

Já mais bem estabelecido na França — embora com o casamento em crise — e trabalhando na rádio e televisão francesa, Vargas Llosa começou a escrever seu segundo romance, "A Casa Verde", onde aparece pela segunda vez (a primeira havia sido em um conto) o sargento Lituma.

Foi nessa época que passou a apoiar plenamente a Revolução Cubana, para onde havia viajado algumas vezes como jornalista.

"Para a minha geração, e não só na América Latina, o que aconteceu em Cuba foi decisivo — um antes e um depois ideológico. Muitos, como eu, viram na gesta fidelista não apenas uma aventura heróica e generosa, de combatentes idealistas que queriam não só acabar com uma ditadura corrupta como a de Batista, mas também construir um socialismo não sectário, que permitisse a crítica, a diversidade e até a dissidência", escreveria no prólogo de seu livro de ensaios O Chamado da Tribo.

Também foi o período em que estreitou laços com outros escritores latino-americanos que começavam a despontar, como Carlos Fuentes (Julio Cortázar ele já conhecia de antes — o argentino inclusive leu "A Cidade e os Cachorros" antes mesmo de sua publicação).

"A Casa Verde" — ambientado na selva amazônica e em um prostíbulo em Piura, e onde Vargas Llosa demonstra seu extraordinário domínio da técnica romanesca moderna — foi sua consagração definitiva. Publicado em 1966, venceu o Prêmio Rómulo Gallegos em 1967.

Em seu discurso de aceitação do prêmio, delineou o que seria seu credo literário:

"A vocação literária nasce do desacordo de um homem com o mundo, da intuição de deficiências, vazios e impurezas ao seu redor. A literatura é uma forma de insurreição permanente e ela não admite camisas de força."

O mesmo poderiam ter dito vários colegas obcecados pela literatura que, paralelamente a Vargas Llosa, buscavam escrever romances totais — que não apenas complementassem a realidade, mas rivalizassem com ela.

E em 1967 foi publicado um desses romances:"Cem Anos de Solidão", do colombiano Gabriel García Márquez — a locomotiva que pôs em marcha o trem imparável do boom da literatura latino-americana, como batizou o movimento o crítico chileno-americano Luis Harss.

Foi precisamente em agosto daquele ano, durante a entrega do Prêmio Rómulo Gallegos em Caracas, que Vargas Llosa e García Márquez se conheceram e iniciaram uma profunda amizade — que terminaria de forma explosiva em fevereiro de 1976, na Cidade do México.

Ascenção e queda do boom latino-americano

Foram os anos dourados do "Boom", ao qual pertenceram formalmente apenas Cortázar, Carlos Fuentes, Vargas Llosa e García Márquez.

Se a grande literatura da primeira metade do século XX pertenceu aos Estados Unidos, a latino-americana foi o grande fenômeno da segunda metade do século — e não apenas serviu de impulso para consolidar escritores como o chileno Jorge Donoso ou o cubano Guillermo Cabrera Infante.

O apetite que se despertou pela literatura da América Latina foi tão grande que também ajudou a redescobrir, para um público mais amplo, mestres mais antigos como o argentino Jorge Luis Borges, o uruguaio Juan Carlos Onetti, o mexicano Juan Rulfo, o paraguaio Augusto Roa Bastos e o cubano Alejo Carpentier.

Nesse mesmo ano milagroso de 1967, Vargas Llosa (já casado com sua prima Patricia Llosa) mudou-se para Londres, onde exerceu várias atividades (ainda não podia viver apenas dos direitos autorais), sendo a principal delas lecionar literatura no Queen Mary's College. Também atuou ocasionalmente como colaborador do Serviço Latino-Americano da BBC — o que hoje é a BBC Mundo.

Paralelamente, trabalhava em seu romance mais ambicioso até então: "Conversa no Catedral".

Foi então que surgiu uma proposta irrecusável: a superagente literária Carmen Balcells lhe ofereceu a chance de se mudar para Barcelona, comprometendo-se a fazer com que ele pudesse viver exclusivamente de sua escrita.

Assim, a família Vargas Llosa acabou morando na rua Caponata, na capital catalã, praticamente parede com parede com os García Márquez.

Era tamanha a fascinação de Vargas Llosa por García Márquez que ele dedicou dois anos à escrita de um livro sobre "Cem Anos de Solidão" (que também serviu como tese para o doutorado que não havia concluído), intitulado "García Márquez: História de um Deicídio" — o primeiro grande texto crítico dedicado à obra do colombiano.

O começo do fim do "Boom", da amizade utópica entre esse grupo de escritores e do compromisso de alguns deles com a Revolução Cubana, começou a se delinear em Paris, em 1971.

E justamente dentro de um projeto que prometia se concretizar.

Impulsionados pelo espanhol Juan Goytisolo e financiados por uma rica herdeira boliviano-francesa, alguns dos escritores latino-americanos mais renomados se reuniram para editar, a partir de Paris, a revista de esquerda Libre.

Lá estariam os quatro principais nomes do "Boom", além de Octavio Paz, José Donoso, Severo Sarduy e Jorge Edwards.

Llosa em 1975

CRÉDITO, GETTY

Legenda da foto, O escritor em 1975

A história completa está narrada em detalhes no quarto capítulo do livro "En los Reinos de Taifa", de Juan Goytisolo: o primeiro número da revista "Libre" já estava pronto para ser impresso quando foi divulgado, em Cuba, o chamado "Caso Padilla".

Heberto Padilla era um poeta cubano que havia participado ativamente da Revoluçã Cubana e inclusive chegado a ocupar o cargo de vice-ministro do Comércio Exterior. No entanto, no final dos anos 1960, passou a criticar abertamente a política cultural do governo.

Em março de 1971, foi preso e, pouco depois, veio a público uma "confissão" caricatural, que lembrava os julgamentos stalinistas, provocando a fúria de muitos escritores estrangeiros amigos da Revolução.

Liderados por Goytisolo e Vargas Llosa, vários intelectuais e escritores (incluindo Sartre, Susan Sontag, Italo Calvino, Simone de Beauvoir, Octavio Paz, Alberto Moravia e Marguerite Duras) enviaram duas cartas a Fidel Castro em apoio a Padilla — o que enfureceu o comandante-em-chefe, que pronunciou um duro discurso contra os signatários e os proibiu de entrar em Cuba "por um tempo indefinido e infinito".

O primeiro número da "Libre" foi adiado até o outono para incluir um dossiê completo sobre o caso Padilla, com diferentes pontos de vista — inclusive um poema de Julio Cortázar, no qual ele se distanciava completamente das críticas ao governo cubano.

Esgotada pela falta de recursos e pelas divisões internas, a revista só conseguiu publicar quatro edições. Mas isso não significou o fim imediato do "Boom". Vargas Llosa continuou amigo de Julio Cortázar até a morte do argentino, em 1983, e manteve sua amizade com García Márquez enquanto ambos viveram na Espanha.

A amizade entre os dois escritores terminou em 1976, no Palácio de Belas Artes da Cidade do México, no dia da estreia do filme "Os Sobreviventes dos Andes", quando Vargas Llosa deu um soco em García Márquez — aparentemente por um desentendimento amoroso, sobre o qual nenhum dos dois quis falar enquanto viveram.

Etapa cômica, erótica e histórica

Talvez seja coincidência, mas depois de sua ruptura pública com a Revolução Cubana, a escrita de Vargas Llosa passou por uma mudança: ele começou a experimentar com o humor.

Desse período surgiram as comédias "Pantaleão e as Visitadoras" (1973) e "Tia Julia e o Escrevinhador" (1977), ambas com grande sucesso de público.

Em 1981, o escritor voltou a surpreender com sua primeira — e ambiciosa — novela histórica: "A Guerra do Fim do Mundo", um retorno à chamada "novela total", na qual relata a sangrenta rebelião religiosa ocorrida em 1897, em Canudos, no Brasil, liderada pelo messiânico Antônio Conselheiro.

Mais adiante voltaria ao romance histórico com "O Paraíso na Outra Esquina" (2003) e "O Sonho do Celta" (2010).

A etapa seguinte de sua literatura seria a erótica, iniciada com a novela curta "Elogio da Madrasta" (1988) e continuada em obras como "Os Cadernos de Dom Rigoberto" (1997) e "Travessuras da Menina Má" (2006).

No entanto, a mudança mais profunda que ele experimentou não foi no plano literário, mas no político.

No final dos anos 1970, Mario Vargas Llosa voltou a residir em Londres, em circunstâncias muito diferentes: já era um autor consagrado, que podia viver daquilo que escrevia.

Foi uma fase fundamental: presenciou a ascensão de Margaret Thatcher ao poder e, ao mesmo tempo, leu — e chegou a conhecer — grandes pensadores liberais contemporâneos, como Isaiah Berlin e Karl Popper.

Em uma mudança ideológica profunda, ele adotou as ideias liberais e, desde então — assim como havia feito anteriormente com as ideias de esquerda — passou a defendê-las com unhas e dentes, tanto por escrito quanto em público.

Em 2019, quando o entrevistei pela última vez, ele continuava firme em suas convicções:

"O liberalismo está associado à ideia de liberdade e acredito que a defesa das liberdades é algo absolutamente essencial... Para o liberalismo, o essencial são as ideias, os valores, e dentro deles a ideia de liberdade é absolutamente central. Uma ideia que não pode ser dissociada, dividida ou fragmentada."

"A liberdade, segundo os liberais, é uma só e deve ser garantida simultaneamente no campo econômico, político, social e individual. E tudo o que signifique mais liberdade é bom para o conjunto da sociedade."

Não muito depois de sua conversão, ele teria a oportunidade de defender essas ideias na arena política.

Em agosto de 1987, quando o então presidente peruano Alan García anunciou que nacionalizaria os bancos e as companhias de seguros, Vargas Llosa — que estava de férias em seu país — decidiu se opor publicamente.

O sucesso de sua mobilização foi tal que o presidente acabou desistindo do plano de nacionalização, e o escritor decidiu lançar-se à presidência pelo movimento Frente Democrático.

No entanto, depois de um início de campanha promissor, o escritor transformado em político enfrentou em 1990 um fenômeno que primeiro o surpreendeu e depois o derrotou: Alberto Fujimori, que durante a campanha passou a caracterizar Vargas Llosa como um neoliberal rico de ultradireita.

Vargas Llosa retornou imediatamente à Europa para lamber as feridas e escrever "Peixe na Água", jurando nunca mais se envolver diretamente com a política.

Sua caracterização como neoliberal e ultradireitista se manteve ao longo dos anos, apesar de muitas de suas posições em temas sociais e políticos serem progressistas: defendia o aborto, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a legalização das drogas e era crítico do tratamento dado por Israel aos palestinos.

Era, sim, um defensor ferrenho da democracia como sistema político e considerava o capitalismo, o livre mercado e a globalização como os melhores caminhos para tirar um país da pobreza.

E embora na entrevista à BBC Mundo já citada ele tenha ponderado dizendo: "Há quem acredite que o mercado resolve tudo, eu não acredito nisso, nem de longe, e tampouco acho que essa seja a essência do liberalismo", manteve até o fim sua admiração por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, além de uma relação próxima com políticos conservadores da Espanha e da América Latina, como Álvaro Uribe, Sebastián Piñera e José María Aznar.

Vargas Llosa durante uma visita em 2010 à zona árabe de Jerusalém para documentar a situação dos palestinos vivendo sob a ocupação israelense.

CRÉDITO, GETTY

Legenda da foto, Vargas Llosa durante uma visita em 2010 à zona árabe de Jerusalém para documentar a situação dos palestinos vivendo sob a ocupação israelense.

A festa do bode

Em 2000, quando ninguém esperava, Vargas Llosa voltou a publicar uma "grande novela" com "A Festa do Bode", que rivalizaria com seus maiores feitos na literatura, como "Conversa no Catedral" ou "A Guerra do Fim do Mundo".

Era o retorno do Vargas Llosa que mergulhava no calor dos grandes acontecimentos políticos e da violência. E também o retorno a um tema caro aos escritores latino-americanos: o caudilho transformado em ditador.

"Trujillo pertence àquela classe de ditadores que não apenas brutalizam e aterrorizam uma sociedade, mas chegam a seduzi-la. Conseguem se endeusar, e a maioria da população lhes presta culto", disse certa vez sobre o homem que controlou a República Dominicana por três décadas.

Foi, talvez, o último grande romance escrito por um integrante do "Boom", e é o mais admirado de Vargas Llosa no mundo anglófono.

Então, no dia 9 de outubro de 2010, quando Mario Vargas Llosa estava em Nova York dando um curso de literatura na Universidade de Princeton, chegou ao seu apartamento alugado o inevitável telefonema vindo da Suécia: ele havia vencido o Prêmio Nobel de Literatura daquele ano.

Era o que faltava, talvez, para imortalizá-lo. E, de quebra, para comprovar a relevância do "boom da literatura latino-americana" como algo mais do que um fenômeno comercial: é o único grupo literário da história que produziu dois prêmios Nobel.

Após um período em que publicou diversos ensaios e alguns romances menores, Vargas Llosa voltou às manchetes... mas das revistas de celebridades, pelas quais ele havia expressado desprezo em várias ocasiões: aos 79 anos, pôs fim a um relacionamento de meio século com Patricia para ir morar com a socialite espanhola Isabel Preysler, ex-esposa do cantor Julio Iglesias.

Desde então, não era incomum vê-lo nas capas de revistas como Hola. Nas poucas vezes em que falou sobre o assunto, explicou a decisão como resultado de um amor intenso, que pelo menos publicamente durou até dezembro de 2022, quando a separação do casal foi anunciada — dominando, mais uma vez, as capas da imprensa de celebridades.

Em 2022, aos 86 anos, ocupou a cadeira número 18 da Academia Francesa de Letras. Tornou-se, assim, o primeiro escritor que não havia publicado sua obra em francês a ocupar um posto nos quase 400 anos da ilustre academia.

Em 2023, publicou o que anunciou ser seu último romance: "Dedico a você meu silêncio". Também deixou de escrever sua coluna semanal, Piedra de Toque (Pedra de Toque), que manteve por décadas no jornal espanhol El País.

No momento de sua morte, Mario Vargas Llosa era o último representante de uma geração de gigantes que dominaram o cenário literário, intelectual e político da América Latina durante o século 20.

Nos últimos anos de sua vida, afirmou ser feliz.

Cinco obras imprescindíveis

- A Cidade e os Cachorros (1963)

- Conversa no Catedral (1969)

- Tia Julia e o Escrevinhador (1977)

- A Guerra do Fim do Mundo (1981)

- A Festa do Bode (2000)

Piketty prevê o declínio americano: alguma novidade? - Le Monde

 Thomas Piketty : « La réalité est que les Etats-Unis sont en train de perdre le contrôle du monde »

Thomas Piketty

Economiste

 

Le président américain voudrait que la pax americana soit récompensée par un tribut versé par le reste du monde, de façon à financer éternellement ses déficits. Le problème est que la puissance états-unienne est déjà déclinante et qu’il faut imaginer le monde sans elle, explique l’économiste dans sa chronique.

Publié aujourd’hui à 12h00, modifié à 16h24 Temps de Lecture 4 min. Read in English 

 

 

Les Etats-Unis ne sont plus un pays fiable. Pour certains, le constat n’a rien de nouveau. La guerre d’Irak lancée en 2003 – avec plus de 100 000 morts, une déstabilisation régionale durable et le retour de l’influence russe – avait déjà montré au monde les méfaits de l’hubris militaire états-unien. Mais la crise actuelle est nouvelle, car elle met en cause le cœur même de la puissance économique, financière et politique du pays, qui apparaît comme déboussolé, gouverné par un chef instable et erratique, sans aucune force de rappel démocratique.

Pour penser la suite, il faut prendre la mesure du tournant en cours. Si les trumpistes mènent une politique aussi brutale et désespérée, c’est parce qu’ils ne savent pas comment réagir face à l’affaiblissement économique du pays. Exprimé en parité de pouvoir d’achat, c’est-à-dire en volume réel de biens, de services et d’équipements produits chaque année, le PIB de la Chine a dépassé celui des Etats-Unis en 2016. Il est actuellement plus de 30 % plus élevé et atteindra le double du PIB états-unien d’ici à 2035. La réalité est les Etats-Unis sont en train de perdre le contrôle du monde.

Plus grave : l’accumulation des déficits commerciaux a conduit la dette extérieure publique et privée du pays à une ampleur inédite (70 % du PIB en 2025). La remontée des taux d’intérêt pourrait conduire les Etats-Unis à devoir verser au reste du monde des flux d’intérêts considérables, ce à quoi ils avaient jusqu’ici échappé grâce à leur mainmise sur le système financier mondial. C’est ainsi qu’il faut lire la proposition détonante des économistes trumpistes, visant à taxer les intérêts versés aux détenteurs étrangers de titres états-uniens. Plus direct encore, Trump veut renflouer son pays en s’appropriant les minerais ukrainiens, en prime du Groenland et de Panama.

Trump, chef colonial empêché

D’un point de vue historique, il faut noter que l’énorme déficit commercial états-unien (environ 3 % à 4 % du PIB en moyenne chaque année, de 1995 à 2025) a un seul précédent pour une économie de cette taille : c’est approximativement le déficit commercial moyen des principales puissances coloniales européennes (Royaume-Uni, France, Allemagne, Pays-Bas), entre 1880 et 1914. La différence est que ces pays détenaient d’énormes actifs extérieurs, qui leur rapportaient tellement d’intérêts et de dividendes que cela suffisait amplement à financer leur déficit commercial, tout en continuant d’accumuler des créances dans le reste du monde.

80 anos do Instituto Rio Branco - Paulo Roberto de Almeida

 80 anos do Instituto Rio Branco:


"Em 1945, na data comemorativa dos 100 anos de nascimento de Juca Paranhos, filho do Visconde do Rio Branco, foi criado o Instituto Rio Branco, que passou a exercer o monopólio da seleção, formação e treinamento dos candidatos à carreira,
constituindo seu corpo de professores, que no Rio de Janeiro incluíam grandes nomes da intelectualidade nacional: José Honório Rodrigues, Carlos Delgado de Carvalho, Américo Jacobina Lacombe, Afonso Arinos de Melo Franco e grandes sumidades do Direito e da Magistratura, da própria Academia Brasileira de Letras e do IHGB.
Essa seleção, primeiro dentro de um círculo mais restrito, de grandes famílias tradicionais e nas metrópoles mais importantes, depois, sobretudo a partir de Brasília, com pessoas recrutadas em estratos mais amplos e socialmente mais representativos da sociedade brasileira (filhos de imigrantes, por exemplo, pessoas de classe média-média, ou até baixa) aproximou o Itamaraty do universo estatal da fase nacional-desenvolvimentista (inclusive durante o regime militar) e imprimiu ao corpo profissional a mesma ideologia do desenvolvimento nacional que marcou o cerne do pensamento político e econômico das elites dominantes e dos setores dirigentes do Brasil.
O Itamaraty, como instituição nacional no Brasil do pós-guerra, combina elementos tradicionais, retirados da memória da Casa – os grandes estadistas do Império, a patrono incontornável na figura de Rio Branco – e os novos padrões criados a partir da fase do desenvolvimentismo nacionalista, que também reforçaram a endogenia típica do Itamaraty, sobretudo depois que os militares – irmãos estatais dos diplomatas – deixaram a Casa dirigir-se a si própria, nomeando funcionários da carreira como chanceleres (um ao início do regime, Vasco Leitão da Cunha, depois três na sequência: Gibson Barbosa, Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro). FHC e Lula preservaram esse encapsulamento burocrático, o que, de certa forma, reforçou o ethos corporativo dos diplomatas.
Por outro lado, a intensa competição interna também atuou no sentido de reforçar a dependência da trajetória individual dos diplomatas ao sabor das maiorias políticas ocasionais no plano congressual e do executivo, com o recurso ao tradicional “pistolão” nos momentos das promoções (duas vezes por ano) e nas designações para os bons postos no exterior. Por outro lado, a estrutura decisória da Casa – que reproduz a hierarquia típica da carreira militar – e os comportamentos pessoais a ela subordinados – a disciplina, que lhe é associada – foram elevados a dogmas intocáveis no ethos coletivo, o se revela no caráter híbrido do Itamaraty: ele é, ao mesmo tempo, weberiano, no sentido de serem os rituais e métodos de trabalhos altamente formalizados e burocratizados, e feudal, no sentido em que os barões da Casa têm o comando incontestável e incontestado de todos os demais funcionários do Serviço Exterior. (...)"
Trecho deste meu trabalho:
4464) Itamaraty: uma instituição de Estado, pouco independente de governos (2023) disponível no link:
https://www.academia.edu/106584032/4464_Itamaraty_uma_institui%C3%A7%C3%A3o_de_Estado_pouco_independente_de_governos_2023_?email_work_card=view-paper

domingo, 13 de abril de 2025

A “Operação Militar Especial” de Putin na Ucrânia está ficando custosa para o povo russo - CDS

 Putin caminha, irresponsavelmente com seu próprio povo, para completar o seu primeiro MILHÃO de baixas nas diversas frentes da sua criminosa guerra de agressão contra a Ucrânia, cija identidade nacional vem sendo por ele constantemente reforçada ao longo dos anos, desde 2014:

Russian operational losses from 23.02.22 to 13.04.25

Personnel - almost 932,670 (+1,220);

Tanks – 10,603 (+12);

Armored combat vehicles – 22,088 (+33);

Artillery systems – 26,163 (+71);

Anti-aircraft warfare systems – 1,128 (+1);

Vehicles and fuel tanks – 43,950 (+143);

UAV operational and tactical level – 32,425 (+147). 

Fonte: CDS, Ucrânia.

O pessoal da OTAN deve estar fazendo a conta do volume de equipamentos militares russos que ainda resta desde 3 anos atrás. Como Trump é um frouxo, os europeus, com poloneses à frente, terão de fazer um esforço extra para superar os russos em matéria de poder de fogo, mas, sobretudo, em vontade de lutar.

8 de maio de 2025, em Moscou: para comemorar o quê? - Paulo Roberto de Almeida

 8 de maio de 2025, em Moscou: para comemorar o quê?

Paulo Roberto de Almeida

        Desde que Lula aceitou participar das "comemorações" pelos 80 anos da vitória contra a Alemanha nazista, Putin, sem qualquer estratégia definida em sua "Operação Militar Especial", ou seja, a guerra de agressão contra a Ucrânia, eliminou, por bombardeios deliberadamente apontados para alvos civis, dezenas de vidas ucranianas, entre mulheres e crianças.

        Neste Domingo de Ramos, foram mais três dezenas de civis mortos por bombas de fragmentação e mísseis contra edifícios residenciais. Não existe um objetivo determinado, apenas destruição gratuita, mortandade errática assegurada.
        Lula tem certeza de que pretende, mesmo assim, apertar a mão do criminoso procurado pelo TPI por crimes de guerra e contra a humanidade?
        O Itamaraty não tem informado a Presidência sobre esse lado mais desumano da guerra de agressão contra a Ucrânia?
        Nosso embaixador em Kyiv não tem informado Brasília sobre esse acúmulo de mortos sem qualquer objetivo militar determinado, apenas quebrar a resistência do povo ucraniano?
        E Trump, pretende ainda assim conversar com Putin sobre seus projetos de "paz"?
        Em certos momentos, sinto vergonha de pertencer à classe dos diplomatas profissionais, uma vez que, aparentemente, não temos nenhuma voz nas decisões de política externa do chefe da diplomacia brasileira.
        Servimos para o quê, exatamente? Apenas para coonestar os impulsos pessoais do chefe de Estado? A imagem do Brasil no mundo não tem nenhuma importância nessa área?
        Denuncio o presidente Lula por sua decisão de participar de um evento que esconde o fato de que foi precisamente a URSS de 1939 que permitiu ao Hitler do século XX dar início a uma guerra de agressão contra um país vizinho. O Hitler do século XXI dá continuidade a essa prática violadora do Direito Internacional.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 13 de abril de 2025

Moeda chinesa e riscos sistêmicos da guerra tarifária - Luis Favre

MOEDA CHINESA E RISCOS SISTÊMICOS DA GUERRA TARIFÁRIA 

Limites estruturais da moeda chinesa e os riscos sistêmicos da nova guerra tarifária entre Estados Unidos e China.

Por Luis Favre , 12/04/2025

“A China não está prestes a substituir os EUA na sua hegemonia global, mas o sistema que os EUA construíram pode colapsar sem que nenhum outro esteja pronto para assumir o lugar.”

— Adam Tooze, historiador econômico e professor na Universidade Columbia (EUA), autor de Crashed e Shutdown, obras de referência sobre crises financeiras globais.


Yuan digital e CIPS da China 

Desde 2015, com a criação do sistema CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), e a partir de 2020, com o início dos testes públicos do yuan digital (e-CNY), a China tem gerado a expectativa em alguns esquerdistas, de que estaria se preparando para romper com a hegemonia do dólar e do sistema SWIFT. 

Embora ambiciosas do ponto de vista tecnológico, essas iniciativas ainda operam dentro dos limites de um sistema financeiro internacional do qual a economia chinesa continua altamente dependente.

As reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978 integraram a China ao capitalismo global. A introdução da propriedade privada, a abertura ao investimento capitalista estrangeiro e as facilidades outorgadas pelos Estados Unidos no acesso ao seu mercado — com a concessão anual do status de Nação Mais Favorecida a partir de 1980, transformada em status permanente em 2000, como preparação para a entrada da China na OMC — geraram um crescimento econômico espetacular, transformando o país na segunda maior economia do mundo. 

A adesão formal à Organização Mundial do Comércio se deu em 2001. Desde então, a China tornou-se um centro de manufatura global, atraiu centenas de bilhões em investimentos estrangeiros e acumulou superávits comerciais monumentais. A força da economia chinesa contemporânea deriva diretamente dessa inserção nas cadeias de valor, no comércio internacional e nas finanças globais dominadas pelo dólar.

O yuan digital representa um avanço em infraestrutura monetária, mas seu impacto prático internacional ainda é limitado e assim será por muito tempo. Em 2024, apenas 2,6% das reservas cambiais mundiais estavam denominadas em yuan. As transações comerciais liquidadas em yuan não passam de 5% do total global. Mesmo em acordos bilaterais com países como Rússia, Irã ou Brasil, o dólar ainda prevalece na prática. 

A experiência da Rússia é reveladora: após ser banida do SWIFT e isolada pelas sanções decorrentes da sua guerra de agressão contra a Ucrânia, o país passou a aceitar cerca de US$ 300 bilhões em pagamentos internacionais em yuan, mas agora enfrenta graves dificuldades para utilizar esses fundos, que estão praticamente encalhados no banco central russo, devido à baixa aceitação do yuan fora da esfera financeira chinesa.

O sistema CIPS, promovido por alguns aqui como alternativa ao SWIFT, depende amplamente da própria rede que supostamente pretende substituir. Estima-se que 80% das transações processadas pelo CIPS utilizem mensagens SWIFT. Com cerca de 1.300 instituições participantes, o CIPS ainda é pequeno frente às mais de 11 mil conectadas ao SWIFT.

A exclusão da China do SWIFT, se porventura vier a acontecer, teria consequências globais severas. Cerca de 40% das transações externas da China poderiam ser inviabilizadas. O fornecimento de bens manufaturados seria interrompido, impactando empresas e cadeias de produção nos EUA, Europa, América Latina e África. O comércio global sofreria disfunções comparáveis a um colapso do Canal de Suez.

Segundo Barry Eichengreen, para que uma moeda se torne internacional, são necessárias: estabilidade institucional, conversibilidade plena, profundidade de mercado e confiança jurídica. O yuan falha em todas. A China mantém rígido controle de capitais, um judiciário subordinado ao Partido Comunista e mercados financeiros pouco transparentes.

O dólar mantém sua hegemonia não apenas pelo tamanho da economia americana, mas por oferecer liquidez, previsibilidade e liberdade institucional. A tentativa de instrumentalizar politicamente essa hegemonia pode gerar tensões, mas reforça a centralidade do dólar em tempos de crise.

O impacto global do enfrentamento de Trump contra China, a UE e o mundo

A guerra comercial iniciada por Donald Trump se intensificou em 2025, com tarifas de até 145% sobre produtos chineses. A China respondeu com tarifas de até 125% sobre exportações americanas. Agricultores, industriais e consumidores nos EUA enfrentam aumento de custos, queda de competitividade e inflação.

Mais grave que as tarifas é a imprevisibilidade do governo Trump. A incerteza sobre novas medidas, rupturas institucionais e sanções paralisa investimentos e gera volatilidade nos mercados. O índice global de incerteza econômica atingiu recordes desde abril de 2025.

A China detém mais de US$ 775 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA. Embora a venda em massa desses papéis prejudique também suas reservas, o efeito de desvalorização do dólar e aumento dos juros americanos seria considerável. Como alertou o economista Kenneth Rogoff: “A arma dos títulos do Tesouro não é para ser usada facilmente. Mas é como uma ogiva nuclear: o poder está em possui-la, e na ameaça crível de uso.”

Por ora, o comércio está suspenso, com contêineres parados e contratos congelados. Caso o impasse persista, a China poderá redirecionar seu excedente industrial para o Sul Global, gerando um choque competitivo devastador para economias frágeis da Ásia, África e América Latina.

A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, declarou que uma escalada descontrolada da guerra comercial pode provocar uma queda de até 7% no PIB global, o que equivaleria a uma crise de magnitude histórica.

Para efeito de comparação:

• Durante a Covid-19, o PIB mundial caiu cerca de 3,1% em 2020, segundo o FMI.

• Na Grande Depressão (1929-1933), o PIB global caiu cerca de 15% ao longo de quatro anos.

• A projeção de queda de 7% em poucos trimestres, como alerta a OMC, situaria essa crise entre as mais profundas da era moderna — e o diferencial é que ela seria provocada deliberadamente por escolhas políticas e não por choques naturais ou sanitários.

Conclusão: Um Mundo em Suspensão, sem Hegemonia Substituta

A guerra econômica deflagrada pela administração Trump — com tarifas massivas, ameaças unilaterais e o uso político do dólar — representa um ponto de inflexão para a ordem econômica global. 

Seus impactos não se limitam à China. Para os Estados Unidos a imposição de tarifas elevadas, especialmente sobre produtos chineses, tem contribuído para o aumento da inflação, com expectativas atingindo 4,4% em abril de 2025, o nível mais alto em décadas. O crescimento econômico desacelerou, com projeções do PIB caindo para 0,5% em 2025, em comparação aos 2,8% do ano anterior. Além disso, a confiança do consumidor despencou, com o índice da Universidade de Michigan registrando 50,8 pontos, o segundo nível mais baixo desde 1972. A volatilidade nos mercados financeiros aumentou, refletindo a incerteza gerada pelas políticas comerciais imprevisíveis. Empresas como a Tesla suspenderam pedidos de veículos importados para a China devido às tarifas proibitivas, ilustrando a disjunção nas cadeias produtivas. Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, alertou que a escalada das tarifas pode levar o país a uma recessão, potencialmente resultando em 2 milhões de perdas de empregos e uma redução de US$ 5.000 na renda familiar média.

A China, por sua vez, também não sai ilesa. Embora o governo tenha reforçado políticas voltadas à substituição de importações e fortalecimento do mercado doméstico, esse ainda representa apenas cerca de 38% da demanda da indústria nacional. O PIB per capita chinês, de aproximadamente US$ 13 mil em 2024, é significativamente inferior ao dos países desenvolvidos — menos da metade do europeu e cerca de um quinto do norte-americano — o que limita severamente o poder de compra interno. A taxa oficial de desemprego urbano era de 5,4% em março de 2025, o maior nível em dois anos, com destaque para a faixa etária de 16 a 24 anos, que enfrenta um desemprego de 16,9%, evidenciando as dificuldades de absorção de jovens no mercado de trabalho.

O impacto da guerra comercial sino-americana não se limita aos dois protagonistas. Países como Japão, Coreia do Sul, Índia e os membros da ASEAN se veem pressionados a redefinir seus posicionamentos econômicos e estratégicos. A Índia, por exemplo, tem buscado capturar parte do fluxo de investimentos redirecionados por empresas que buscam diversificar sua presença industrial fora da China — uma política conhecida como “China + 1”. Japão e Coreia, por sua vez, mantêm laços econômicos profundos com a China, mas dependem dos Estados Unidos para sua segurança, o que os coloca em constante equilíbrio tático. No Sudeste Asiático, países como Vietnã, Indonésia e Malásia tentam atrair cadeias produtivas globais deslocadas pela disputa, ao mesmo tempo em que evitam hostilizar qualquer das partes. Já o Brasil se encontra diante de uma oportunidade delicada: reforçar sua posição como fornecedor confiável de alimentos, minerais e energia, sem se alinhar automaticamente a nenhuma potência. O governo Lula tem atuado com prudência diplomática, mantendo o comércio com a China enquanto evita gestos que possam ser interpretados por Washington como alinhamento automático. 

A combinação de guerra comercial e excesso de capacidade industrial pressiona o governo chinês a buscar novos mercados para seus produtos. Isso alimenta preocupações globais com dumping, e já levou União Europeia, Brasil, Índia e México a adotarem ou considerarem medidas antidumping contra produtos chineses — especialmente aço, têxteis, veículos elétricos e painéis solares. Um redirecionamento maciço das exportações, diante do bloqueio parcial dos EUA, pode provocar choques de competitividade devastadores nos países do Sul Global. Nesse cenário, a ideia de que o mercado interno chinês possa compensar o recuo nas exportações parece, ao menos no curto prazo, mais desejável do que plausível.

A novidade desta crise, no entanto, não é apenas a escala da destruição econômica potencial — estimada pela OMC em até 7% de queda no PIB global — mas o fato de que ela ocorre sem a perspectiva clara de uma nova hegemonia capaz de restaurar a ordem. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como potência dominante, oferecendo capital, segurança, instituições e uma moeda confiável. Mesmo com desgaste cada vez maiores esta posição dominante persiste e se Trump não recuar, a erosão desta dominação sera bem maior. Por outro lado, nenhuma dessas condições está hoje disponível em Pequim.

Em vez de uma transição de hegemonia, o mais provável é que o mundo mergulhe em um período de fragmentação econômica e instabilidade institucional. Comércio regionalizado, moedas paralelas, cadeias de suprimento menos eficientes e um crescimento global mais baixo podem se tornar a norma. 

A China pode ampliar sua influência, sobretudo sobre países do Sul Global, mas isso ocorrerá em um cenário de competição multipolar e multilateral, com desconfiança sistêmica — e não como substituta da "ordem americana".

Como escreveu o historiador Adam Tooze, “a China não está prestes a substituir os EUA na sua hegemonia global, mas o sistema que os EUA construíram pode colapsar sem que nenhum outro esteja pronto para assumir o lugar.”

Luis Favre

12/04/2025


Hegemonia da China em 2049 (provavelmente antes disso, com a ajuda de Trump) - Marcos de Paiva Vieira

HEGEMONIA DA CHINA EM 2049. 

Internacionalização do RENMINBI YUAN, seus Avanços, Tendências e Incertezas

Postado por Marcos de Paiva Vieira | abr 11, 2025     

 

Será ? Um exagero, talvez, de um articulista excessivamente pró-chino, que vê tudo “amarelinho” e de olhinhos repuxados...Hegemonia da China em 2049...É daqui a 25 anos. Até lá, muitos de nós estaremos mortos. Difícil será comprovar, então, as previsões amalucadas do Marcos de Paiva Vieira...Não sei quem é o Marcos de Paiva Vieira. Mas me pareceu um daqueles ‘fellow travellers” de uma esquerda simpatizante dos antigos PCs (já não existem mais – os PCs...- me parece que o último que existe é o da Coréia do Norte... O da China só é “Comunista” no nome, poucos partidos existem no mundo mais “capitalistas” que o Partido Comunista Chinês...).

Mauricio David: 


... Atualmente, a China tem acordos de trocas diretas com cerca de 40 países, dentre eles: África do Sul, Argentina, Austrália, Bielorrússia, Brasil, Canadá, Catar, Cazaquistão, Chile, Cingapura, Coréia do Sul, UE, Hungria, Indonésia, Irã, Islândia, Malásia, Mongólia, Paquistão, Reino Unido, Rússia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Uzbequistão.( acordo com a Ucrânia ??? Faz-me rir : a China está participando da invasão  militar da Ucrânia... Bielorrússia ? Islândia ? Uzbesquistão ? Faz-me rir...Faltou incluir as ilhas australianas habitadas por pinguins...

MD

 

HEGEMONIA DA CHINA EM 2049. 

Internacionalização do RENMINBI YUAN, seus Avanços, Tendências e Incertezas

Postado por Marcos de Paiva Vieira | abr 11, 2025   


Já há alguns anos, a importância do Renminbi Yuan – CNY (moeda chinesa) vem crescendo no âmbito internacional, pari passu com a crescente participação da China na economia mundial. Em um movimento inevitável, o CNY vem ocupando espaços importantes, o que deverá levar-lhe a uma posição de protagonismo, assim como a China deverá cumprir papel de hegemonia na economia e na geopolítica mundial, em futuro breve.

Pretende-se, aqui, situar a questão da internacionalização do CNY, dentro de uma visão do que poderá ser a geopolítica global e a economia mundial em 2050, de maneira mais reflexiva, levantando questões e fatores correlatos ao tema, sem estatísticas e análise histórica. A ideia é apontar a situação atual dos avanços deste processo, suas tendências mais prováveis, e as incertezas inerentes em 2049, quando se completa um século da Revolução Comunista. 

A tarefa não é simples, visto que suscita questionamentos ligados ao tema, como: a disputa geopolítica, com risco real de conflito armado entre EUA e China; sustentabilidade energética; segurança alimentar; distribuição desigual da renda; fragmentação social e riscos de instabilidade política, além da permanente revolução tecnológica com transformações provindas da Inteligência Artificial – IA e das mídias sociais. 

Antes de citar os principais avanços do CNY no âmbito internacional, há que se relembrar as funções básicas da moeda, aliando-as aos fatos. São elas: Meio de troca, reserva de valor e unidade de conta.

Em sua relação econômica com os demais países, a China vem tomando uma série de medidas para facilitar os negócios, como acordos bilaterais de trocas diretas entre moedas locais, utilizando o CNY e a moeda daquele país (“currency swap agreements”) implementados desde 2009). Para isso, são estabelecidas linhas de crédito específicas, pelos bancos da China, facilitando o início deste fluxo inovador.

Atualmente, a China tem acordos de trocas diretas com cerca de 40 países, dentre eles: África do Sul, Argentina, Austrália, Bielorrússia, Brasil, Canadá, Catar, Cazaquistão, Chile, Cingapura, Coréia do Sul, UE, Hungria, Indonésia, Irã, Islândia, Malásia, Mongólia, Paquistão, Reino Unido, Rússia, Suíça, Turquia, Ucrânia e Uzbequistão.( acordo com a Ucrânia ??? Faz-me rir : a China está participando da invasão  militar da Ucrânia... Bielorrússia ? Islândia ? Uzbesquistão ? Faz-me rir...Faltou incluir as ilhas australianas habitadas por pinguins...(MD)

Porque é mais vantajoso realizar trocas diretas entre o CNY e a moeda local do país? Um dos principais fatores é que se elimina a moeda Americana, USDollar, do meio da transação e, com isso, também o risco cambial. Menor risco representa maior competitividade para ambas as partes. Esta modalidade de troca direta entre duas moedas, ajuda a aumentar o volume de comércio da China.

Para operacionalizar este “swap agreements”, há bancos com câmaras de troca de CNY em 23 países, até o momento. E, há uma Câmara de Compensação Internacional do CNY em Londres (desde 31Mar’2014), onde se obtêm cotações diárias do CNY. Além disso, para conseguir realizar as transações bancárias há o Cross-Border Interbank Payment System – CIPS (desde 2015), que é o sistema Chinês, paralelo ao Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunications – SWIFT (criado em 1977 pelos EUA e UE, entre outros). Para transações bancárias dentro dos EUA, há um outro sistema: Clearing House Interbank Payment System – CHIPS. Em outras palavras, praticamente eliminou-se a dependência do USD nas trocas internacionais chinesas.

Mais de 80 bancos centrais, dos mais diversos países, já utilizam o CNY como parte das suas Reservas. À medida em que os países firmam mais “swap agreements”, seus respectivos bancos centrais terão mais motivação para aumentar os respectivos volumes e proporção de CNY em suas reservas. Contudo, a posição relativa do CNY nas reservas globais ainda é tímida (5º. Lugar).No Brasil, o CNY está em 2º. lugar.

Em 2016, o Fundo Monetário Internacional – FMI, solidificou a posição do CNY como moeda de reserva, ao adicioná-lo como parte da cesta de moedas do Special Drawing Rights – SDR. Isto validou o CNY perante o sistema financeiro global. 

Apesar destes fatos, a China não parece pretender que o CNY seja a moeda dominante como reserva em termos globais. Assim, o que se percebe é que a China promove a internacionalização do CNY, mas não para tomar o lugar do USD.

No conflito com os EUA, o Irã passou a sofrer sanções em 2018. A China não aderiu ao boicote e continuou importando petróleo do Irã, e conseguiu estabelecer um acordo em que o preço desta commodity fosse estabelecido em CNY. Foi o rompimento de uma seríssima barreira, deixando margem para a China ter a sua moeda como referência no mercado internacional do petróleo.O estabelecimento de mercados futuros denominados em CNY reforçam este processo. As sanções impostas sobre a Rússia, em guerra contra a Ucrânia, aumentaram a proximidade Rússia-China, com petróleo e gás sendo exportados em CNY. 

Há possibilidade de a China aproveitar-se da sua política de multipolaridade global e apresentar seu CNY como alternativa para países expulsos da comunidade econômica internacional, como a Rússia. Assim, lamentavelmente, conflitos armados apresentam mais oportunidades à China para ampliação do uso do CNY.

A Iniciativa da Rota da Seda – Belt and Road Initiative-BRI demandaria um capítulo à parte para abranger todos os seus mais variados aspectos, em especial o de reforço da hegemonia da China em 2049. Uma das funções do CNY que a BRI fomenta é a de moeda de financiamento, como “offshore financial instrument”. É irrefutável a percepção de um quadro, em 2050, em que esta proporção da atuação do CNY será muitas vezes maior do que os níveis atuais.

O mesmo poder-se-ia dizer do volume, também crescente em larga escala, dos títulos de dívida denominados em CNY, atualmente em 7º. lugar no ranking financeiro internacional. Isto também é consequência da atuação da China através da BRI. 

Para complementar, há que se mencionar uma tendência de enorme crescimento também do chamado “Trade Finance”, ou seja, o financiamento à exportação e importação denominadas em CNY, ocupando atualmente o 2lugar no mundo.

Há obstáculos à expansão do CNY. Entre eles, a forma rígida que o Governo da China mantém no controle de capitais e a relativa falta de transparência nos mercados financeiros chineses. De qualquer maneira, em função do crescimento do comércio bilateral da China a tendência é que o sistema monetário internacional passe de bipolar (USD e Euro) para tripolar, incluindo o CNY.

Uma incerteza reside na ameaça da Inteligência Artificial. Ela irá energizar a rivalidade entre EUA e China. Muito antes de 2050, será fundamental que se encontre algum tipo de entendimento entre os dois.

Por todo o Planeta, a base tecnológica belicista e o equilíbrio do poder estão se transformando tão rapidamente que os países buscarão um acordo que servirá de base para o estabelecimento da ordem. Qualquer conflito armado na região do Indo-Pacífico trará prejuízos à China, e sua tentativa em internacionalizar o CNY.

Uma incerteza reside em torno de Taiwan (pivô da disputa entre EUA e China). Desde Mao Ze Dong, a China mantém a sua secular postura de paciência, esperando o momento correto para anexar definitivamente a ilha. Os EUA não compreendem a estratégica chinesa e insiste em imaginar uma invasão iminente. Este é um fator de risco e incerteza, com consequências de difícil previsão.

Outra séria incerteza e ameaça: a ordem internacional proposta pelos Americanos tenta impor regras contra o protagonismo Chinês. Enquanto prevalecer esta falta de sensibilidade quanto às diferenças de paradigma, não há como se fazer uma “guesstimation” do rumo da disputa.

A pressuposição (errônea) de que a China pretende dominar o mundo (no sentido clássico dos séculos XX e anteriores) constitui outro erro clássico dos Americanos. A insistência nesta postura é ameaça clara a uma ordem internacional pacífica, que permita a internacionalização do CNY.

A postura Americana de buscar uma mudança de regime político da China, tentando impor um modelo de democracia ocidental é um outro erro crasso. Um eventual colapso do atual sistema Chinês certamente ocasionaria uma guerra civil, com fortes conflitos ideológicos, acarretando sérias consequências à instabilidade global. Os EUA não percebem que a forma de governar da China é mais Confucionista do que Marxista.  A internacionalização do CNY, sendo administrado por um regime de planejamento central comunista, como o Chinês, é menos ameaçador para os EUA se permanecer estável. 

A recomendação prioritária para se conseguir evitar as ameaças que o Ocidente sente em relação à China, para os próximos 25 anos, é compreender a China. Só assim, será possível caminhar para a promoção de um equilíbrio global razoável. 

Pode-se dizer que a maior fonte de esperança de se atingir, até 2050, algum tipo de equilíbrio é o medo da guerra. EUA e China percebem claramente que um conflito armado aberto e geral traz, no seu bojo, a ameaça da aniquilação mútua.

Um outro fator importante na construção de confiança mútua, seria dar protagonismo aos aspectos ligados às ameaças das mudanças climáticas. Objetivos comuns podem passar a prioritários, em contraposição aos conflitos. Desastres como os ecológicos, por vezes, levam à união e à paz entre adversários. A saúde do Planeta é fator prioritário para a paz em 2050.

 

O Brasil no término da II Guerra Mundial, o feito da FEB, 80 anos depois - Ney Iared Reynaldo (A Tribuna)

O Brasil no término da II Guerra Mundial, o feito da FEB, 80 anos depois

Caros leitores, 2025 celebra e não se comemora o fim de uma guerra tão devastadora como a ocorrida na II Guerra Mundial, destaco aqui os 80 anos passados da participação da Força Expedicionária Brasileira nesse conflito.

Oficialmente, o Brasil entrou na II Guerra em agosto de 1942. Inicialmente, Vargas, sob o Estado Novo, até então este nutria simpatia pelo fascismo italiano. Nos anos iniciais do conflito, a política externa brasileira foi hesitante, pois ambos os envolvidos eram economicamente atraentes aos interesses nacionais: EUA e Alemanha se posicionavam como primeiro e segundo principais parceiros comerciais do país na época.

Porém, uma série de ataques de submarinos a navios mercantes na costa brasileira produziu uma pressão maior por uma decisão de Governo para que lado apoiar ao entrar na guerra. Segundo Victor em O Brasil vai à guerra: a inserção brasileira em um conflito global, 21 submarinos alemães e dois italianos torpedearam e afundaram 36 navios mercantes brasileiros, causando 1.074 mortes (TEMPONE, 2007). Esse fato levou ao rompimento da “neutralidade oportunista” a dar lugar a uma adesão. O país fornecia matérias-primas importantes para os EUA e tinha uma posição estratégica, a ser utilizada como base americana, no nordeste do país.

Em janeiro de 1943, o governo brasileiro reúne com o presidente norte-americano Franklin Roosevelt, em Natal, para tratar da parceria dos países no conflito. Era um contexto geopolítico, na qual se fazia delinear um futuro pós-guerra, com organismo internacional, como a Organização das Nações Unidas. Já em agosto de 1943, era criada a Força Expedicionária Brasileira, cuja divisão contava com cerca de 25,9 mil homens.

A princípio, seu recrutamento deu início ao programa de alistamento voluntário, mas não teve êxito, o Governo então recorreu a uma convocação compulsória. A solução veio dos assim conhecidos reservistas, os homens com mais de 18 anos que haviam prestado o serviço militar obrigatório. Os integrantes da FEB, na maioria, eram “soldados de baixa patente e civis”. Mas, havia um problema inicial: quem mandar para a guerra? Na época, as Forças Armadas do Brasil contavam com pouco mais de 70 mil homens. Enviá-los ao front significaria ficar desprotegido, dada ao contexto de guerra mundial.

Conforme Edison, esses homens eram submetidos e “treinados às pressas para a guerra, de forma inadequada para o front e sem uma coordenação clara, no início houve dificuldade para integrar os pracinhas”. O termo pracinha designa os soldados cunhado pela mídia da época. O vocábulo “praça”, já fazia parte do “jargão” militar como eram chamados os ingressantes na caserna, os que haviam “sentado praça”. (VEIGA, 2025). Essa expressão carinhosa nasce no seio da sociedade brasileira, no final da II Guerra. Os brasileiros sequer conheciam a intensidade do inverno europeu, participaram do conflito sob condições precárias em sua maioria, eram civis com pouco treinamento.

A presença do país no conflito foi oficializada em 1944, quando mais de 25 mil militares foram enviados à Europa para integrar as forças aliadas. Nossas tropas foram reunidas em solo italiano, enfrentaram desafios que iam além do inimigo no campo de batalha. O rigoroso inverno europeu citado, relevo acidentado e a falta de experiência inicial impuseram dificuldades aos nossos combatentes. No entanto, a FEB provou seu patriotismo, conquistando respeito e admiração de aliados e inimigos. Sob o comando do gen. Mascarenhas de Moraes, responsável tático da conquista de Monte Castello, próximo a Bolonha, na Itália, então dominado pelas forças do Eixo, que era base estratégica para os germânicos, pois sua altitude permitia controle visual da região, dificultando o avanço dos aliados.

Entre novembro de 1944 e fevereiro de 1945, diversas ataques foram coordenadas pelos brasileiros, que enfrentaram resistência obstinada da 148ª Divisão Alemã e do 4º Regimento de tropas de elite nazistas. Após avanços e recuos, no dia 21 de fevereiro, com apoio da artilharia aliada, os pracinhas capitularam Monte Castello, obtendo novas vitórias da campanha italiana. Essa vitória mudou a reputação da FEB entre os aliados. Se a princípio pairava dúvidas sobre a sagacidade e competência dos soldados brasileiros, a conquista da montanha revelou sua eficiência, determinação e coragem no campo de batalha. Os aliados destacaram a resiliência e a capacidade de adaptação das tropas do Brasil, que conquistaram respeito como verdadeiros combatentes. O feito dos pracinhas contribuiu a consolidar a imagem das Forças Armadas brasileiras, no exterior e fortaleceu a identidade militar do país.

De setembro de 1944 a maio de 1945, quase 26 mil militares brasileiros lutaram no front contra os nazifascistas, sob o comando dos EUA. O Brasil foi o único país sul-americano a enviar tropas para atuar na guerra. A mestre em relações internacionais Carolina Pavese (2007), no Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) concorda que: “a batalha tem um peso muito secundário. Mas para o Exército nacional foi um episódio relevante na história moderna, marcando um divisor de águas, rompendo o isolamento, antes restrito a atuações no continente americano.” Oito décadas se passaram, a memória dos combatentes permanece viva. No total, 478 brasileiros morreram em combate, cerca de dois por dia.

Monumentos, museus e associações de veteranos reforçam a importância desse episódio para a história nacional, destacando o papel dos soldados brasileiros na luta pela liberdade. No Brasil e na Itália, cerimônias e homenagens ocorrem para lembrar a coragem dos pracinhas. A celebração dos 80 anos do fim da II Guerra Mundial é um marco para que não esqueçamos do horror de carnificina, que foi esse conflito e reafirmar seu compromisso com a paz e a democracia. A Tomada de Monte Castelo é mais do que um feito militar é um símbolo do espírito de resistência e bravura da nação brasileira. O legado dos pracinhas, lembra que, mesmo diante das adversidades, a determinação e a raça do povo brasileiro não foge a luta.

(*) Ney Iared Reynaldo, doutor em História da América, docente do Curso de Graduação em Ciências econômicas/FACAP/UFR. E-mail: ney.iared@ufr.edu.br

https://www.atribunamt.com.br/opiniao-do-leitor/2025/04/o-brasil-no-termino-da-ii-guerra-mundial-o-feito-da-feb-80-anos-depois/

Uma declaração aberta de OPOSIÇÃO à planejada viagem do presidente Lula à Rússia de Putin em 8 de maio - Paulo Roberto de Almeida

 Foi em 1ro de abril, mas não era uma troça, ok?:

terça-feira, 1 de abril de 2025
Uma declaração aberta de OPOSIÇÃO à planejada viagem do presidente Lula à Rússia de Putin em 8 de maio - Paulo Roberto de Almeida
Uma declaração aberta de OPOSIÇÃO à planejada viagem do presidente Lula à Rússia de Putin em 8 de maio
Paulo Roberto de Almeida

Assim que o atual presidente russo (na verdade um ditador, tendo eliminado todos os seus críticos e um grande opositor em duas “eleições”), Vladimir Putin, anunciou sua intenção de comemorar os 80 anos do final do que o stalinismo chamou de “Grande Guerra Patriótica”, em 8 de maio de 1945, o presidente Lula anunciou entusiasticamente sua presença nessas comemorações.

Pois bem, eu, Paulo Roberto de Almeida, diplomata de carreira aposentado, leitor de história, mas sobretudo um cidadão preocupado com as credenciais democráticas do Brasil, com os valores e princípios de nossa diplomacia, baseados no estrito respeito ao Direito Internacional, declaro minha oposição veemente a tal participação, por motivos que são muito claros a todos os que conhecem não só a história da IIGM, mas sobretudo o atual desrespeito do ditador russo pela Carta da ONU, assim como às regras mais elementares do Direito Internacional e do Direito Humanitário.

A “Grande Guerra Patriótica” só começou em 1941, mas seu início foi justamente permitido pela aliança espúria da URSS com a Alemanha nazista, em agosto de 1939, o que se traduziu no estraçalhamento da Polônia uma semana depois. Durante quase três anos a URSS subsidiou fartamente a Alemanha hitlerista com alimentos, combustíveis e equipamentos, o que lhe permitiu atacar militarmente as democracias da Europa Ocidental.

Putin é um criminoso de guerra, com apreensão ordenada pelo TPI (do qual o Brasil é membro), por crimes contra a humanidade, como o sequestro de milhares de crianças e jovens da Ucrânia ilegalmente invadida, enviadas forçosamente à Rússia.

Nem mesmo o Estado Novo, de notórias simpatias fascistas, reconheceu, em 1939, a usurpação violenta de um Estado, a Polônia, com o qual tínhamos relações diplomáticas, assim como não reconheceu, em 1940, a invasão e a anexação ilegais dos três Estados bálticos, com os quais também tínhamos relações, para recordar a solidez de nossa doutrina diplomática, aparentemente desprezada pelo atual governo brasileiro.

Com base nesse histórico, mas sobretudo em atendimento a critérios básicos de estrito respeito ao Direito Internacional, cujos princípios fundamentais estão consagrados como cláusulas de relações internacionais em nossa Constituição de 1988, reafirmo minha oposição e total contrariedade pessoal (mas certo de interpretar os sentimentos da maioria da população brasileira), a que o presidente do Brasil participe de um evento destinado a legitimar um dirigente que violou a Carta da ONU, que todo presidente brasileiro está cingido a respeitar e defender, consoante nossas tradições jurídicas e princípios de nossa doutrina diplomática. Sua presença em Moscou afrontaria um histórico de respeito ao Direito Internacional que sequer as ditaduras de 1937 e de 1964 ousaram desmentir.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 1/04/2025
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/04/uma-declaracao-aberta-de-oposicao.html

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