segunda-feira, 27 de maio de 2013

Roberto Civita: um editor que acreditava no seu trabalho (Abril-Veja)


Por Augusto Nunes
VEJA.com, 26/05/2013

“Gosto de ser editor e o que eu sei fazer é revista”, dizia Roberto Civita. Mesmo depois de 1990, quando a morte de Victor Civita o levou a assumir o comando da Abril e chefiar o processo de diversificação do grupo fundado pelo pai, ele nunca se afastou da atividade que o seduziu definitivamente na década de 60, quando começou a por em prática os conhecimentos assimilados anos antes, na sua segunda temporada nos Estados Unidos. Nascido em Milão, Roberto Civita morou em Nova York de 1939 a 1949, quando veio para São Paulo. O bom desempenho no Colégio Graded garantiu-lhe uma bolsa de estudos nos EUA, onde percorreu, ao longo da década de 50, caminhos que o levariam à descoberta da vocação profissional e à volta definitiva ao Brasil.
Depois de interromper o curso de Física Nuclear na Universidade Rice, no Texas, para diplomar-se em jornalismo e economia na Universidade da Pensilvânia, Roberto Civita conseguiu um estágio na editora Time Inc, que controlava as revistas Time, Life e Sports Illustrated. Durante um ano e meio, familiarizou-se com todos os setores da empresa, da redação à contabilidade. Em 1958, quando Victor Civita perguntou ao filho que acabara de voltar o que pretendia fazer, ouviu a resposta que apressaria a entrada da Abril no universo jornalístico: “Quero fazer uma revista de informação semanal, como a Time, uma revista de negócios como a Fortune e uma revista como a Playboy”, respondeu.
O pai prometeu preparar a empresa para o passo audacioso, consumado em 11 de setembro de 1968, quando chegou às bancas a primeira edição de VEJA. Roberto Civita participou intensamente das experiências pioneiras que resultaram no lançamento de Realidade, Exame, Quatro Rodas ou Playboy. Mas nada o deixava mais emocionado que recordar a trajetória descrita pela primeira revista semanal de informação do Brasil. Foi ele quem a criou. E foi ele o primeiro e único editor de VEJA, hoje a maior publicação do gênero fora dos Estados Unidos.
“Ninguém é mais importante que o leitor, e ele merece saber o que está acontecendo”, lembrava aos recém-chegados. “VEJA existe para contar a verdade. A fórmula é muito simples. Difícil é aplicá-la o tempo todo”. Sobretudo em ambientes hostis à liberdade de expressão, aprendeu Roberto Civita três meses depois do parto da revista. Em 13 de dezembro de 1968, a decretação do Ato Institucional n° 5 transformou o que era um governo autoritário numa ditadura militar sem disfarces. A capa da edição que noticiou o endurecimento do regime exibiu uma foto do general-presidente Arthur da Costa e Silva sentado, sozinho, no plenário do Congresso que o AI-5 havia fechado. Os chefes militares não gostaram da imagem, e ordenaram a apreensão de todos os exemplares. A essa violência seguiu-se a instauração da censura prévia, que só em meados da década seguinte deixaria de tolher os passos de VEJA.
Risonho, cordial, otimista, Roberto Civita sempre acreditou que nenhuma atividade vale a pena se não for praticada com prazer. “Você está se divertindo?”, perguntava insistentemente aos profissionais com quem convivia. Mantinha-se otimista mesmo quando contemplava a face sombria do país. Para ele, o Brasil só conseguiria atacar com eficácia seus muitos problemas se antes aperfeiçoasse o sistema educacional, modernizasse o capitalismo nativo, removesse os entraves à livre iniciativa e consolidasse o estado democrático de direito. “O que VEJA defende, em essência, é o cumprimento da Constituição e das leis”, repetia. Também essa fórmula parece simples. Difícil é colocá-la em prática. Foi o que o editor de VEJA sempre soube fazer.

domingo, 26 de maio de 2013

Brasil-Argentina: uma análise equilibrada por um conhecedor - Dante Sica


Dez anos de kirchnerismo e a relação com o Brasil

26 de maio de 2013 | 2h 06
DANTE SICA - O Estado de S.Paulo
As administrações kirchneristas completaram dez anos de governo ininterrupto, período que a presidente Cristina Kirchner chamou de "década ganha" (em contraste com a chamada "década perdida" dos anos 80), com certo fundamento se a análise se restringir a comparar pontas do ciclo. Mas considerar estes últimos anos como um todo e como um único esquema de política econômica é, a nosso ver, um erro. Porque, de acordo com nosso diagnóstico, ele é composto por três etapas, não uma só. Uma diferença que não é irrelevante, já que os resultados a que se chega seguindo esse caminho abrem um leque de dúvidas quanto aos benefícios da década.
A primeira etapa é a da abundância, caracterizada por alto crescimento num ambiente de baixa inflação, em que a economia mostrava fortalezas macroeconômicas inéditas. Isso se traduziu rapidamente em melhoria dos indicadores sociais, acompanhada por uma política agressiva das autoridades nacionais nesse campo. Nessa etapa, soube-se aproveitar o vento de popa externo que favoreceu toda a região. A isso se somou um ponto de partida pós-crise de 2001-02 muito favorável, com recursos produtivos ociosos e um câmbio real muito elevado, o que possibilitou um crescimento a taxas inéditas sem se chocar com as restrições fiscais e externas, evitando repetir a história das décadas anteriores. Porém, lamentavelmente, durante esse período se falhou em assentar as bases para sustentar o crescimento.
Isso deu passagem a nova etapa, na qual, em vez de melhorar e mudar essas questões, se tentou remendar as falhas da anterior. Uma etapa em que ficou de lado a abundância, as restrições fiscal e externa começaram a operar em maior ou menor medida e, portanto, os graus de liberdade da política econômica se reduziram. Assim, em meio a uma volatilidade mais acentuada associada a essas margens menores e a um contexto externo conturbado, a economia mostrou maior heterogeneidade em termos de crescimento, com tendência à desaceleração e uma característica que distinguiu essa fase: inflação ascendente até se estabilizar em níveis elevados.
Esse período terminou em 2011. Nesse ano todos os remendos nas inconsistências vindas da etapa anterior se mostraram insuficientes para conter as pressões de todo lado sobre a política econômica, forçando uma mudança de regime. Isto é, não só modificações sobre uma mesma base de política econômica, mas uma mudança total das regras do jogo. Isso abriu nova etapa, a da escassez.
Esse período apagou o crescimento. O investimento despencou e a economia parou de gerar postos de trabalho no setor privado. A economia voltou assim a entrar em cheio, definitivamente, nos ciclos stop-and-go que a caracterizaram em todo o pós-guerra, com uma sucessão de recessões e expansões no marco da inflação alta, embora com uma diferença não desprezível: o contexto internacional, representado pelo preço da soja em torno de US$ 500 a tonelada, e uma pressão fiscal inédita, com uma arrecadação que subiu 10% do PIB em todos esses anos. Num cenário com essas características, é praticamente inexplicável que haja falta de dólares e problemas fiscais. Só o mau desempenho das autoridades pode explicar isso.
Uma década de relação oscilante com o Brasil - A relação com o Brasil foi sempre um reflexo dessas etapas por que transitou a economia argentina nas administrações kirchneristas. Os primeiros anos se caracterizaram por forte aumento das importações do sócio principal, o que deteriorou rapidamente o saldo comercial bilateral. Mas também foi marcada por intensa chegada de investimentos brasileiros, que vieram substituir os de países desenvolvidos. Decisões de investimento que foram enquadradas numa estratégia de internacionalização de empresas do país vizinho, na qual o mercado argentino desempenha papel importante.
Mas no contexto de aumento incessante das importações vindas do Brasil começaram a se fazer ouvir vozes reclamando regulamentações do comércio que protegessem a produção argentina, sobretudo no setor industrial, situação que se agravou com a crise internacional. Assim se intensificaram os primeiros acordos sobre cotas para diversos produtos sensíveis.
Esse panorama se agravou ainda mais já bem entrada a terceira etapa. A necessidade de sustentar o superávit comercial como única ferramenta de geração genuína de divisas na economia obrigou a Argentina a implementar restrições amplas e universais à importação de todo tipo de produtos. O objetivo foi reduzir os déficits comerciais mais significativos em nível setorial, alcançando vários itens de que o Brasil é um dos principais provedores, o que endureceu as posições. Em especial porque a redução das importações oriundas do Brasil muitas vezes não foi compensada por maior produção argentina, mas por um aumento simultâneo da entrada de produtos de outras origens.
Esse cenário piora se somarmos a análise dos maus sinais provenientes do lado do investimento, que têm muito que ver com esse clima negativo em matéria comercial, mas também com a crescente incerteza para fazer negócios na Argentina. O caso Vale, incluindo a forma como se tratou a situação em ambos os países, parece ser a gota d'água do velho formato em que se baseou a relação bilateral (ainda que por trás da decisão da empresa mineradora haja questões próprias de seu negócio), abrindo a porta para um novo cenário que terá de se definir em algum momento próximo.
Assim, a relação bilateral parece estar passando por um equilíbrio muito precário. No entanto, o vínculo histórico e estratégico que nos liga permitirá superar esta e qualquer outra contingência. A vontade política e a vocação de integração nos dois países sempre foram suficientes para resolver as questões em aberto. Mas as tarefas pendentes terão de seguir esperando um momento mais oportuno.
DANTE SICA É ECONOMISTA, DIRETOR DA CONSULTORIA ABECEB.COM, FOI SECRETÁRIO DE INDÚSTRIA DA ARGENTINA 

Venezuela: luta de vida ou morte entre os herdeiros do caos

As armas não são exatamente para defender nenhuma soberania e menos ainda uma revolução que ameaça virar luta de foice entre os sucessores presumidos. São para salvar a própria pele do irresponsável que ainda vai contribuir para o aumento da violência, da delinquência, do banditismo, pois milícias desorganizados são um convite para o aumento do caos em que já vive o país.
Paulo Roberto de Almeida

Maduro anuncia que irá armar operários na Venezuela

  • Em ato oficial, presidente venezuelano anunciou a criação das Milícias Operárias Bolivarianas
  • Oposição qualificou o gesto de irresponsável e intimidador
O Globo, 25/05/2013

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CARACAS — O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ordenou às Forças Armadas que armem a classe operária para reforçar a defesa da soberania nacional e garantir a “estabilidade da Revolução Bolivariana”. Em um ato oficial televisionado na noite de quarta-feira, o governante anunciou que entregará até dois milhões de armas para operários e reiterou que o país deve articular força suficiente para “se fazer respeitar”. A oposição pediu que o presidente explique qual a verdadeira finalidade da medida e qualificou o gesto de irresponsável e intimidador.

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- A classe operária será cada vez mais respeitada uma vez que esteja mais consciente e produtiva - disse Maduro na noite de quarta-feira, anunciando que as Milícias Operárias Bolivarianas farão parte das milícias bolivarianas, um corpo criado por Hugo Chávez em 2005. - Seremos ainda mais respeitados se as milícias tiveram 300 mil, 500 mil, um milhão, dois milhões de operários e operárias uniformizados, armados e preparados para a defesa da soberania da Pátria, da estabilidade da Revolução Bolivariana.
Ainda segundo Maduro, a medida deverá armar trabalhadores e estabelecer laços entre associações de profissionais e as Forças Armadas. O presidente também ordenou ao ministro da Defesa, Diego Molero, a avançar o mais rápido possível no estabelecimento e organização da milícia. Mas não deu quaisquer detalhes sobre prazos, números ou sequer se as milícias serão, de fato, armadas. Hoje, estima-se que cerca de 120 mil voluntários façam parte dessa força.
A oposição - que contesta na Justiça o resultado das eleições de 14 de abril e sequer reconhece a legitimidade da Presidência - protestou. Para os críticos do chavismo, essas milícias serão usadas para perpetuar o regime bolivariano.
Nesta sexta-feira, o secretário-executivo da Mesa da Unidade Democrática (MUD), Ramón Guillermo Aveledo, disse que as declarações fazem parte de uma retórica intimidatória que evidencia a incapacidade administrativa do governo. Segundo ele, a ordem ainda contradiz a lei de desarmamento que tramita no Parlamento - e que o governo chavista diz apoiar.
- Que ele pare de dizer esse tipo de besteiras que, em vez de ameaçar, refletem irresponsabilidade - acusou.
O deputado opositor Ismael Garcia, que na semana passada revelou uma gravação de conversas comprometedoras do presidente da Assembleia Nacional, atacou:
- Isso é uma mostra de debilidade; cai mal nos setores que esperam que reine a harmonia e a paz, as empresas, que possam produzir em paz.
A presidente da ONG Controle Cidadão, Rocío San Miguel, também criticou a criação de novas milícias:
- Ele poderia estar interessado em retomar o caminho de uma sociedade obediente e subordinada, porque os membros da milícia não teriam liberdade de reivindicar questões trabalhistas, por estarem sujeitos à disciplina militar.
O anúncio polêmico aconteceu no Teatro Municipal de Caracas, onde Maduro entregou diplomas para a primeira turma da Universidade dos Trabalhadores, composta por 522 profissionais.


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Integracao latino-americana e mercosuliana - Sergio Fausto (InfoLatam)


Integração regional: hora de rever os erros e mudar o rumo


Por SERGIO FAUSTO
InfoLatam, 23 Maio 2013

Quando em 2005, Hugo Chávez, Nestor Kirchner e Diego Maradona encenaram a morte da ALCA, em comício paralelo à 4º Cúpula das Américas em Mar del Plata, o Brasil observou à distância, mas satisfeito. Era o que o governo brasileiro queria. Na óptica da política Sul-Sul, a ALCA era anátema. Representaria um projeto de anexação à economia americana. A integração que corresponderia aos interesses nacionais brasileiros seria essencialmente sul-americana, assentada no eixo Brasil, Argentina e Venezuela, nesta ordem.
Essa premissa levou o governo brasileiro a estabelecer relações especiais com Buenos Aires e Caracas. Na longa controvérsia diplomática entre Argentina e Uruguai em torno da instalação de indústrias de papel e celulose na margem uruguaia do rio que divide os dois países, o Brasil lavou as mãos. Nem o bloqueio sistemático de pontes sobre o rio Uruguai por manifestantes argentinos nem as solicitações do então presidente Tabaré Vázquez, temeroso de uma escalada do conflito, convenceram Brasília a assumir a mediação da discórdia, que acabou resolvida na Corte Internacional de Haia, em favor do Uruguai, em 2010.
Em relação à Venezuela, o governo brasileiro esmerou-se na política de dois pesos e duas medidas. Foi brando com Chávez diante de evidências do apoio de seu governo às FARC e duro com a Colômbia, como deveria ser, quando aviões colombianos bombardearam um acampamento da guerrilha no Equador, em 2008. Não disse uma palavra sobre o crescente autoritarismo do “socialismo do século XXI”, mas, invocando a cláusula democrática do Mercosul, foi implacável no apoio à punição ao Paraguai, quando, em 2012, o Senado daquele país votou o impeachment de Fernando Lugo. Seguiu-se a incorporação da Venezuela ao Mercosul, que se processou de maneira atípica e se consumou de modo arbitrário.
Em sua forma atual, o Mercosul reflete a preferência do governo brasileiro, desde Lula, e sobretudo com Dilma, por uma integração externa limitada, pouco exigente em matéria de abertura comercial e estabilidade das regras do jogo e altamente dependente da mediação governamental e do protagonismo do Estado, de suas empresas e de poucas grandes empresas nacionais. Prevalece em Brasília a visão de que o jogo assim armado é favorável ao país. Afinal, o Brasil entra em campo com gigantes como Vale e Petrobras, companhias privadas brasileiras globais e um banco de investimento, o BNDES, sem igual no hemisfério Sul. O objetivo comum de evitar a “subordinação” econômica da região aos Estados Unidos, as afinidades políticas entre governos e a suposta capacidade do Brasil de enquadrar o chavismo e o kirchnerismo dentro de certos limites de racionalidade econômica e prudência política assegurariam a convergência, sob a liderança do Brasil, dos interesses nacionais dos três países.
A realidade se encarregou de mostrar que o “interesse nacional” assim definido tende a misturar negócios privados com políticas de estado e políticas de estado com preferencias político-ideológicas, e que a propalada liderança brasileira é em grande parte ilusória. Nesses últimos anos, Venezuela e Argentina avançaram ininterruptamente na destruição das instituições formais e informais que assegurariam um funcionamento razoavelmente normal e previsível de suas economias e sociedades. E não hesitaram em contrariar os interesses do Brasil quando assim decidiram fazer. Livres do “imperialismo americano”, ambos os países foram submetidos à vontade de um poder nacional estatal exercido de forma personalista e arbitrária. Só isso pode explicar por que a Venezuela, com sua riqueza petroleira, num período de duradoura e exuberante alta dos preços internacionais do petróleo, vive hoje uma crise crônica de escassez de divisas e energia, com desabastecimento de vários produtos e apagões constantes. O mesmo se pode dizer, com diferença de grau apenas, em relação à Argentina, um país que dispõe de amplas reservas de gás natural e petróleo e oferta exportável de bens agropecuários, também favorecidos pelos preços internacionais. E que parece à beira de uma crise cambial.
Empresas brasileiras estão fechando as portas na Argentina. A Vale e a Petrobras descobriram que o apoio do governo brasileiro não é suficiente para proteger os seus interesses no país vizinho. Na Venezuela, grandes empreiteiras brasileiras têm uma carteira de projetos estimada em 20 bilhões de dólares. Só o incerto futuro dirá o retorno que terão esses investimentos. De alguma maneira, o setor privado se ajustará às novas realidades. Empresas desse porte têm capacidade de absorver perdas e redirecionar seus investimentos para lugares mais promissores. Não deveríamos nos preocupar com seus eventuais problemas, a não ser pelo fato de que recursos públicos foram empregados para viabilizar parte significativa de seus investimentos.
Mais importante é reorientar a política externa brasileira para a região, sem jogar fora o bebê com a água do banho. Ela não pode estar dissociada de uma visão mais realista do mundo. O Brasil não precisa reproduzir o modelo de inserção externa adotado por países como Chile, Peru, Colômbia e México. Mas não pode ignorar o fato de que a opção por um modelo ALCA plus Ásia, com múltiplos tratados de livre comércio, maior abertura das economias, maior protagonismo do setor privado e menor discricionariedade governamental vem produzindo resultados consistentemente superiores aos obtidos pela opção por um modelo Mercosul minus ALCA. O que está em jogo não são siglas, mas uma revisão dos pressupostos que têm orientado a agenda de desenvolvimento e inserção externa do país nos últimos dez anos. Não é fazer mais do mesmo, um pouco melhor. É fazer diferente. E isso requer uma nova visão e uma nova liderança política em Brasília.

O Bolsa Familia e a lei das consequencias involuntarias

Na sequencia do post anterior, retiro este argumento, que parece aplicar-se perfeitamente ao Bolsa Familia:

The law of unintended consequences codified the idea that the most ambitious government programs will have the most unexpected consequences, many of them malignant.

A semana que passou assistiu ao caos social no Nordeste ( mas revelador de certa psicologia coletiva nacional) derivado do boato sobre o término do programa assistencialista (e eleitoral) e também a reclamações de alguns beneficiários, para quem a esmola é tão pouca (na faixa de 170 reais, segundo a declaração) que "não dá nem prá comprar uma calça para a filha, que está custando 300 reais". 
Pois é, essa é uma perfeita demonstração da lei das consequências involuntárias. 
Governos populista e demagogos, como o nosso, estão sempre recaindo nela. Nós pagamos, claro. 
Paulo Roberto de Almeida

Os NeoConservadores Americanos - Patrick N. Allitt (blog do José Galisi Filho)


SEGUNDA-FEIRA, 23 DE JULHO DE 2012

The Neoconservatives 

by Prof. Patrick N. Allitt - Goodrich C. White Professor of History, Emory University (TTC Lecture)

Lecture Twenty-Seven The Neoconservatives

Scope: Among the earliest and sharpest critics of the new conservatives in the 1950s had been a group of liberal social scientists centered at Berkeley, Harvard, and Columbia, including Daniel Bell, Nathan Glazer, Samuel Huntington, and Daniel Patrick Moynihan. In the 1960s, however, many of them, reacting to the decade's social turbulence, began to raise doubts about the governability of their society and about the need for less far-reaching government programs. In 1965, Bell launched a new journal, The Public Interest, with Irving Kristol, dedicated to such practical policy questions as urban renewal, law and order, education, and racial politics. Before long, they and their contributors noticed a strong moral element in their ostensibly neutral analysis and admitted that they were implicitly arguing for traditional virtues. Although many of them had grown up on the political left, they gradually became known as the "neoconservatives" and, for the most part, accepted the label. Less tradition-oriented than most of the National Review group, and more confident that government programs can sometimes be benign, they nevertheless found themselves converging with their former antagonists, often to their own astonishment.

Outline

I. Daniel Bell's anthology, The New American Right (1955), was the most concentrated attack on the new conservatives in the 1950s.
A. It used social-psychological models to explain their conduct, rather than engaging in an analysis of ideas.
B. At its worst, it insinuated a continuity between European fascism and American conservatism.
C. This generation of sociologists was influenced by Theodor Adorno's The Authoritarian Personality.
D. Richard Hofstadter described the conservatives' approach to politics as part of the "paranoid style" and dismissed them as "pseudo-conservatives." E. William Buckley and Russell Kirk answered, in reviews, that if anyone needed psychological treatment, it was the liberal intellectuals.

II. Liberal social scientists were unnerved by the social upheavals of the 1960s and began to fear that America was becoming ungovernable.
A. Proud of their resistance to McCarthyism, they were not accustomed to being attacked from the left.
B. The new left regarded liberal intellectuals as supporters of the military-industrial complex.
C. As senior academics, they often suffered the brunt of student criticism in the campus uprisings.
D. Samuel Huntington speculated about the destabilizing character of too much political involvement, in direct contradiction of the idea that all citizens should take an interest in politics.

III. Daniel Bell and Irving Kristol launched The Public Interest in 1965 as an ostensibly nonideological policy journal.
A. Its contributors emphasized accurate, statistically informed studies of urban and social problems and offered practical solutions.
1. Many of the contributors were members of the New York intellectual family, mostly secular Jews.
2. Kristol himself was a former Trotskyist, long accustomed to arguing against Stalinists. B. Daniel Patrick Moynihan and Nathan Glazer had shown, in Beyond the Melting Pot (1963), that ethnic groups do not disappear in America. This discovery had implications for American racial policy after the civil rights movement.
C. Moynihan's report on African American families (1965) caused a furor and contributed to Moynihan's alienation from mainstream liberalism.
D. Glazer and other contributors began to criticize affirmative action.
1. It was based on a false idea about what society is actually like.
2. It cast doubt on minorities' achievements and provoked a white backlash.
E. Edward Banfield's The Unheavenly City (1970) won widespread praise from conservatives for its harsh summary of inner-city problems.
1. Banfield singled out the "preconventional morality" of the urban underclass.
2. The riots, he argued, were for "fun and profit" and were not political rebellions. F. Norman Podhoretz brought Commentary into the neoconservative orbit. In 1970, it began to attack feminism, black radicalism, and the McGovern movement in the Democratic Party.

IV. Among the neoconservatives' most distinctive ideas were the concept of the new class, the law of unintended consequences, and the theory of mediating structures.
A. The new class, according to their theory, thrives in bureaucracy and is sentimentally attached to the adversary culture rather than to the values of the bourgeois middle class.
B. The law of unintended consequences codified the idea that the most ambitious government programs will have the most unexpected consequences, many of them malignant.
C. Peter Berger, Richard Neuhaus, Michael Novak, and others developed the idea of mediating structures that stand between the individual and the state, generating healthy individuals and a healthy society. These include family, church and synagogue, and voluntary organizations.
D. In the late 1970s, neoconservatives also began to write with greater appreciation about capitalism. Suggested Reading: Banfield, The Unheavenly City. Dorrien, The Neoconservative Mind. Kristol, Two Cheers for Capitalism. Steinfels, The Neoconservatives.

Questions to Consider:

1. What events and conditions led this group of ex-radical liberals to change their political identities in the 1960s and 1970s?
2. Why was the controversy surrounding the Moynihan report so intense?

http://history.emory.edu/home/people/faculty/allitt.html

E por falar em decadas perdidas, a Argentina ja acumulou pelo menos oito...

Lembro-me perfeitamente bem, mais de dez anos atrás, quando o Brasil já tinha saído de suas décadas perdidas -- grosso modo o período que vai da crise da dívida externa, em 1982 (mas ela tinha raízes ainda no primeiro choque do petróleo, em 1973), até a estabilização parcialmente alcançada em 1994, e consolidada em 1999-2000 -- aí pelas alturas de 2001-2002, quando a Argentina ainda se debatia nas agruras da sua crise terminal da lei de conversibilidade e não tinha ainda entrado na gloriosa década dos K, a partir de 2003, lembro-me, pois, perfeitamente bem de uma discussão que tive com um alto figurão da república dos companheiros, que também se preparava, então, para tomar o poder, discussão na qual esse figurão (aliás do MRE) defendia ferrenhamente a decisão argentina de moratória unilateral (que até hoje não foi completamente absorvida pelas vítimas do calote) e as decisões posteriores de intervenções pesadas no jogo econômico, com perdas enormes para as empresas nacionais e estrangeiras que tinham investido em diversas áreas abertas pelo Estado na "década menemista", e eu, modestamente, dizia que tudo isso iria custar muito caro à Argentina e ao povo argentino.
Pois bem, parece que fui desmentido por muitos anos de grande crescimento argentina durante a primeira era dos K (mas muito era recuperação da enorme descida aos infernos nos anos 2001 e 2002, com um recuo de talvez 10 ou 15% no PIB), mas eu persistia em dizer que o preço ainda seria pago um dia.
Acho que esse dia já chegou, e a Argentina vai pagar caro, e o seu povo idem, coitado, por todos esses anos de abusos inacreditáveis não apenas contra a teoria econômica e o que dizem os manuais de faculdade, mas sobretudo contra os mais elementares princípios da boa conduta nos assuntos públicos, com atropelos constantes à legalidade e à própria constitucionalidade.
Os companheiros, que aplaudiam ruidosamente a conduta argentina -- principalmente seu calote contra os banqueiros internacionais, mostrando aliás que eles nunca entenderam de mercados financeiros -- devem estar hoje apreensivos, ao ver que esse "modelo" está fazendo água, e o pior é que vai prejudicar ainda mais o Brasil, como já tinha prejudicado desde os anos 1990 e especialmente a partir de 2002-2003, ante a completa passividade do nosso irresponsável dirigente, que deixou de defender os interesses nacionais e foi cúmplice no afundamento do Mercosul.
Mais um crime econômico que pode ser creditado ao inacreditável desastre moral que tem sido a nossa lula-década.
Paulo Roberto de Almeida


Os Kirchners e a década perdida

25 de maio de 2013 | 2h 04
Editorial O Estado de S.Paulo
Numa nova tentativa de reconquistar parte do apoio que a presidente argentina Cristina Kirchner perde velozmente, a Casa Rosada vem procurando popularizar o nome de "década ganha" para a grande festa de comemoração dos dez anos da chegada dos Kirchners ao poder. Para boa parte dos argentinos e, certamente, para a grande maioria dos produtores rurais, no entanto, a festa, se simbolizar alguma coisa, sintetizará uma década perdida.
A produção e as exportações de itens que, no passado recente, caracterizaram a pujança da agroindústria argentina estão em queda, há desânimo no campo e os agricultores lamentam a perda da oportunidade aberta no mercado internacional aos exportadores de commodities, com o alto preço desses itens. Mesmo que, daqui para a frente - numa inesperada e improvável correção de suas políticas nocivas para o setor produtivo e punitivas para os consumidores -, o governo Kirchner faça as coisas certas e libere as exportações, as vantagens para o país serão bem menores do que poderiam ter sido: os preços das commodities estão em queda.
Os problemas para a agricultura argentina começaram no governo de Néstor Kirchner (2003-2007). Sua sucessora e esposa, Cristina Kirchner, que está no segundo mandato presidencial, criou outros e, por causa do estrito controle exercido pelo secretário de Comércio Interior de seu governo, Guillermo Moreno, vem tornando ainda mais difícil a produção e, sobretudo, as exportações. Embora pareçam surpreendentes, os dados recentes sobre a notável perda de importância da agricultura argentina no cenário mundial são a consequência inevitável da política kirchnerista.
A Argentina é historicamente conhecida como importante produtor de carne bovina, pela qualidade de seu produto e, sobretudo, pela condição de ser um dos principais fornecedores mundiais. Cada vez mais, porém, o estrangeiro que quiser provar a qualidade desse produto terá de fazê-lo em território argentino. A carne foi o primeiro produto a entrar na lista baixada pelo governo Kirchner (o presidente era Néstor, morto em 2010) de itens que teriam sua exportação controlada, sob o argumento de que era necessário "garantir a oferta doméstica e preços acessíveis".
Disso surgiram duas consequências. A carne tornou-se um dos alimentos básicos mais caros da dieta dos argentinos. E a Argentina, que chegou a ser o terceiro maior exportador de carne do mundo, hoje está na 11.ª posição e exporta menos do que o Uruguai e o Paraguai (o Brasil é o segundo maior exportador, atrás da Austrália).
Em 2005, a Argentina exportou 771 mil toneladas de carne; em 2012, apenas 183 mil toneladas. As vendas externas do produto são taxadas com um imposto adicional de 15%, chamado de retenção. Além disso, os frigoríficos dispõem de cotas de exportação rigidamente fixadas por Moreno e seu fornecimento para o mercado doméstico está sujeito a tabelamento.
Como resultado, os pecuaristas passaram a se dedicar a outras atividades, como a produção de soja, cuja exportação está sujeita a uma retenção maior (35%), mas não depende de cotas. O rebanho, de 57 milhões de cabeças em 2007, se reduziu para 48 milhões em 2010. Houve uma pequena recuperação nos dois últimos anos.
O país vem perdendo posições também nas exportações de outros produtos, como leite e trigo. O problema tornou-se crítico no caso das exportações da área de energia. Em 2011, a Argentina tornou-se o quarto maior exportador mundial de biodiesel, mas, desde o ano passado, enfrenta crise nessa área. A produção no primeiro trimestre deste ano foi 39,8% menor do que a de igual período de 2012, enquanto as exportações diminuíram 51,2%.
É a consequência do gesto populista de maio de 2012, quando o governo Kirchner estatizou as ações que a espanhola Repsol detinha na petrolífera YPF. Em represália, a Espanha suspendeu as importações do biodiesel argentino. E a Espanha é a principal porta de acesso do produto à União Europeia, que absorvia 75% das exportações do biodiesel argentino.

Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...