segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Educacao brasileira: como melhorar (Instituto FHC)

Aprender a ensinar

Alterar profundamente a formação dos professores e também o sistema de administração escolar, além de criar um currículo mais adequado aos tempos atuais, que leve ao aluno o conhecimento de que ele realmente necessitará no seu cotidiano. Esses são alguns dos pontos sugeridos por especialistas para melhoria de nosso sistema educacional.
O economista Fernando Veloso, da Fundação Getulio Vargas Rio, acha que é preciso estabelecer metas de aprendizagem em todas as séries e disciplinas, criar um currículo nacional e integrar as metas de aprendizagem com avaliação, currículo, material pedagógico e formação de professores.
Como a condição socioeconômica é um determinante importante do desempenho educacional, é preciso ter políticas específicas para escolas que atendem crianças e jovens de famílias mais pobres , lembra ele, ressaltando que essas mudanças envolvem uma combinação de medidas, como elevação da carga horária (possivelmente tempo integral), melhores professores e infraestrutura de qualidade.
O sociólogo Simon Schwartzman, presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), diz que, para sairmos de onde estamos patinando, é preciso mexer na formação dos professores, nos sistemas de administração escolar e nos conteúdos do que é ensinado. Hoje, segundo ele, os professores são formados em cursos universitários que não os formam naquilo que devem ensinar (Português, Matemática, Ciências) nem em como ensinar. Melhorar o salário é importante para tornar a profissão mais atraente para gente mais qualificada, mas, ressalta Schwartzman, não ajuda em nada se os professores forem os mesmos e não puderem ser estimulados pelo bom trabalho e, eventualmente, afastados por mau desempenho, ou seja, sem um sistema de mérito contra o qual os sindicatos se opõem sempre.
Hoje os professores são formados em cursos universitários que não os formam naquilo que devem ensinar nem em como ensinar
Nesse esquema, as escolas seriam geridas por diretores responsáveis pelo desempenho dos alunos, e não meros burocratas ou indicados políticos, o que ainda ocorre em boa parte de nossas escolas. Em relação ao currículo, é necessário que seja bem estruturado para garantir que os alunos aprenderão o essencial nos primeiros anos, e a possibilidade de fazer opções, inclusive pela formação técnica de nível médio, a partir do segundo grau.
Schwartzman considera que hoje o currículo da educação fundamental é genérico demais, e o ensino médio é estrangulado por uma legislação que exige um número absurdo de matérias obrigatórias, e pelo Enem, que transformou as escolas em cursinhos de preparação para a prova.
João Batista Araujo e Oliveira, ph.D. em Educação e presidente do Instituto Alfa e Beto, acha que os grandes avanços em educação no Brasil são de quantidade, mas, na qualidade, patinamos, ou seja, não temos paciência para crescer com qualidade.
Além de formação, certificação e plano de carreira para os professores e um currículo para o ensino fundamental, Araujo e Oliveira quer diversificar o ensino médio e reformar o ensino superior na direção do Protocolo de Bolonha, que uniu os governos da União Europeia em ações com o objetivo principal de elevar a competitividade internacional do sistema europeu do ensino superior. O presidente do Alfa e Beto pede um federalismo para valer – com delimitação clara de papéis e, no caso do governo federal, troca do intervencionismo por sistemas de incentivo para promover a diversidade, e não para empurrar os programas do MEC goela abaixo.
Mozart Ramos Neves, do Instituto Ayrton Senna, acha que é preciso rever a formação dada pelas nossas universidades, não somente os cursos de Pedagogia, mas as Licenciaturas de um modo geral em busca de uma formação que seja capaz de integrar as novas tecnologias e plataformas de aprendizagem para o desenvolvimento humano.
Ele acha fundamental incorporar ao cotidiano das escolas as habilidades não cognitivas ou socioemocionais no processo de aprendizagem. É preciso ir além do cognitivo, que ainda é um grande desafio, diz ele, potencializando fatores como cooperação, resiliência, disciplina, planejamento e organização para alavancar os resultados de aprendizagem. Isso já vem sendo observado em escolas que empregam games associados a esses fatores, saltos de aprendizagem significativos são verificados , observa Mozart.

Carlos Rangel: o mito perverso do bom revolucionario latino-americano (grato a Orlando Tambosi)

Pouca gente conhece, infelizmente, o livro devastador de Carlos Rangel sobre o remorso europeu (especificamente parisiense) e sobre as ilusões latino-americanas em torno das causas do nosso subdesenvolvimento e a responsabilidade suposta do capitalismo e do imperialismo nessa trajetória de insucesso, equívocos conceituais, históricos e factuais que, por sua vez, alimentam o gigantesco e fraudulento mito das revoluções redentoras, de preferência socialistas, ao estilo cubano.
Eu conheci o livro desde que cheguei na Europa, no final de 1970, e posso dizer que suas principais teses e argumentos em muito contribuiram para uma revisão necessária do meu próprio pensamento sobre essas questões. Não apenas conheci o contra-argumento de Rangel, mas o do próprio Jean-François Revel, que o popularizou, ambos nadando contra a corrente e contra todas as preleções acadêmicas, que continuam a defender os mitos românticos sobre os processos revolucionários redentores, a despeito das mentiras, dos fracassos e do atraso objetivo que tudo isso provocou e que continua alimentando na região. Basta ver, por exemplo, a miséria terrível em que vive o povo cubano, sufocado por uma das duas últimas ditaduras totalitárias do planeta; basta observar o caos econômico criado pela ditadura chavista, a despeito dos bilhões de dólares trazidos pelo maná petrolífero; ou verificar, ainda, a degenerescência institucional decorrente da ação deletéria de partidos e de figuras políticas populistas e demagógicas que, a despeito de tudo, encontram certo sucesso eleitoral em alguns grandes países da região.
Carlos Rangel já tinha denunciado tudo isso muitos anos antes da publicação das denúncias devastadoras feitas nos dois livros sucessivos sobre o "perfeito idiota latino-americano", personagem nefasto que sobrevive e prospera a despeito de tudo, sendo que muitos podem ainda ser encontrados na academia brasileira, especialmente nas faculdades de ciências sociais. Mas o livro era praticamente desconhecido, no Brasil, e continuava "introuvable" na própria França, cuja elite acadêmica é, em grande parte, responsável pela criação e propagação desses mitos e equívocos (aliás até hoje: ainda ontem recebi um convite para um colóquio parisiense sobre a "circulação de ideias revolucionárias" e sobre seus modernos representantes bolivarianos).
Por tudo isso, nosso reconhecimento ao colega e amigo Orlando Tambosi, por ter divulgado em seu blog a disponibilidade dessa obra fundamental no desmantelamento dos mitos latino-americanos mais persistentes. Leiam, reflitam, façam bom uso dessa preciosisade intelectual.
Paulo Roberto de Almeida 

América Latina: do bom selvagem ao bom revolucionário

No livro Del buen salvaje al buen revolucionario,lançado há mais de 40 anos, o jornalista e ensaísta venezuelano Carlos Rangel (1929-1988), um dos principais defensores das ideias liberais na América Latina, desmascara os mitos cultivados na região em relação aos colonizadores e aos EUA e aponta o permanente desencontro, nessa cultura, entre ideias e realidade. O prólogo da última edição é de Jean-François Revel e o posfácio é assinado por Carlos Alberto Montaner, do qual cito um trecho sobre a importância da obra:
(...) En la medida en que iba leyendo se me iluminaba la mirada por la alegre sorpresa. Desde el brillante prólogo de Jean-Francois Revel resultaba evidente que estaba frente a un texto muy bien escrito, dirigido contra la perniciosa tradición victimista latinoamericana. Rangel denunciaba la falsedad esencial de la teoría de la dependencia -algo que años más tarde humildemente aceptaría Fernando Henrique Cardoso, uno de sus más fervientes apóstoles, cuando dejó de ser un sociólogo marxista para convertirse en el presidente serio y moderado de Brasil-, colocaba la responsabilidad de nuestros fracasos relativos sobre nosotros mismos, revelaba las contradicciones doctrinales de los seguidores de Marx, renunciaba a la versión infantil de una historia de buenos y malos, y se atrevía a defender apasionadamente los modos de vida occidentales, incluidas la democracia y la economía de mercado que habían transformado a ciertas naciones en los rincones más ricos del planeta, criticando sin ambages la barbarie totalitaria de izquierda, sin ignorar, por supuesto, al autoritarismo de derecha, que también le repugnaba al ensayista venezolano.

Agora, o melhor do post: o livro está disponível aqui. Boa leitura.

O cobertor curto da pesquisa: tirando de um lado para colocar em outro, eleitoralmente...

O corte de verbas para pesquisa

16 de dezembro de 2013 | 2h 06
Editorial O Estado de S.Paulo
 
Convertido na mais vistosa bandeira do governo da presidente Dilma Rousseff, no campo da educação, o programa Ciência sem Fronteiras - concebido para financiar estágios e cursos de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado no exterior de mais de 100 mil estudantes universitários, até 2014 - tornou-se uma das principais preocupações da comunidade acadêmica e científica.
Com vistas na campanha eleitoral do próximo ano, quando tentará se reeleger, Dilma destinou ao Ciência sem Fronteiras, no projeto de Lei Orçamentária de 2014, quase R$ 1 bilhão. O problema é que, para bancar esse investimento, o governo comprometerá parte significativa das verbas para o fomento da ciência e da tecnologia. Isso levou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências a protestarem, alegando que a redução das verbas da área científica ameaçará importantes pesquisas em andamento.
Os recursos para financiar cursos e estágios de universitários brasileiros no exterior sairão do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que é a principal fonte de financiamento das agências públicas de fomento à pesquisa. Os programas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que é a maior agência de fomento do País, dependem diretamente do FNDCT. Essa será a primeira vez que os recursos do fundo - vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) - serão utilizados para financiar o Ciência sem Fronteiras - um programa gerenciado pelo CNPq, em parceria com a Capes, mas basicamente dirigido pelo Ministério da Educação (MEC).
Como as verbas previstas para o Ciência sem Fronteiras, no Orçamento de 2014, representam um terço do montante do FNDCT, a redução dos recursos destinados à área científica pode inviabilizá-la, advertem os cientistas. "O impacto na pesquisa será trágico", disse Helena Bonciani Nader, professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente da SBPC, no Fórum Mundial de Ciência, no Rio de Janeiro. "Precisamos de recursos para pesquisas. De alguma forma o valor destinado ao Ciência sem Fronteiras terá de ser compensado. Caso contrário, o impacto na área científica vai ser grande", afirmou, no mesmo evento, o matemático Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências.
O órgão mais atingido pela redução das verbas do FNDCT destinadas à área científica é o CNPq. Entre as unidades e programas por ele financiados que sofrerão cortes profundos, em suas linhas de pesquisa, estão os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, o Programa de Capacitação de Recursos Humanos para o Desenvolvimento Tecnológico e o Edital Universal, que financia cerca de 3,5 mil projetos de pesquisa por ano. Serão afetados, ainda, programas financiados pelo CNPq em parceria com agências de fomento dos Estados.
As entidades científicas do País também chamam a atenção para a falta de planejamento e de rigor técnico, por parte do governo, na gestão das áreas educacional e científica. Elas alegam que o programa Ciência sem Fronteiras foi concebido às pressas, sem consulta à comunidade acadêmica e científica. Afirmam que não faz sentido reduzir o orçamento do MCTI para favorecer um programa em que o principal beneficiado, do ponto de vista institucional, é o MEC. E lembram que, apesar de o Ministério da Ciência e da Tecnologia ter incorporado a palavra "inovação" ao nome, ele não recebeu reforço orçamentário. As críticas não são novas. "O Ministério ganhou mais um penduricalho e está com menos dinheiro. É uma incoerência", já dizia a presidente da SBPC em 2012, alegando que a redução de verbas para a área científica poria em risco a competitividade da economia brasileira.
Desde então, as entidades científicas já enviaram várias cartas de protesto. Mas nenhuma delas produziu resultado concreto, pois os critérios que prevalecem no governo Dilma são eleitorais, e não técnicos.

Putin: o novo perturbador da paz europeia - Bill Keller (NYT)

The New York Times
December 15, 2013

Russia vs. Europe


The world needs Nelson Mandelas. Instead, it gets Vladimir Putins. As the South African hero was being sung to his grave last week, the Russian president was bullying neighboring Ukraine into a new customs union that is starting to look a bit like Soviet Union Lite, and consolidating his control of state-run media by creating a new Kremlin news agency under a nationalistic and homophobic hard-liner.
Putin’s moves were not isolated events. They fit into a pattern of behavior over the past couple of years that deliberately distances Russia from the socially and culturally liberal West: laws giving official sanction to the terrorizing of gays and lesbians, the jailing of members of a punk protest group for offenses against the Russian Orthodox Church, the demonizing of Western-backed pro-democracy organizations as “foreign agents,” expansive new laws on treason, limits on foreign adoptions.
What’s going on is more complicated and more dangerous than just Putin flexing his political pecs. He is trying to draw the line against Europe, to deepen division on a continent that has twice in living memory been the birthplace of world wars. It seems clearer than ever that Putin is not just tweaking the West to rouse his base or nipping domestic opposition in the bud. He is also attempting to turn back 25 years of history.
The motivation of Vladimir Putin has long been a subject of journalistic and scholarly speculation, resulting in several overlapping theories: He is the boy tormented in the rough courtyards of postwar Leningrad, who put on a KGB uniform to get even and never took it off. He is the cynical, calculating master of realpolitik, who sees the world in conspiracies and responds in kind. He is a tortured Russian soul out of Dostoevsky, distressed by godlessness, permissiveness and moral decline. He is Soviet Man, still fighting the Cold War. He is a classic narcissist, best understood by his penchant for being photographed bare-chested on horseback.
Since his current presidential term began in 2012, Putin has felt increasingly that his overtures to the West were not met with due respect, that Russia was treated as a defeated nation, not an equal on the world stage. His humiliation and resentment have soured into an ideological antipathy that is not especially Soviet but is deeply Russian. His beef with the West is no longer just about political influence and economic advantage. It is, in his view, profoundly spiritual.
“Putin wants to make Russia into the traditional values capital of the world,” said Masha Gessen, author of a stinging Putin biography, an activist for gay and lesbian rights and a writer for the Latitudes blog on this paper’s website.
What, you may wonder, does Russia’s retro puritanism have to do with the turmoil in the streets of Kiev, where Ukrainian protesters yearning for a partnership with the European Union confront a president, Viktor Yanukovich, who has seemed intent on joining Putin’s rival “Eurasian” union instead? More than you might think.
Listen to the chairman of the Russian Parliament’s International Affairs Committee, Alexei Pushkov, warning that if Ukraine joins the E.U., European advisers will infiltrate the country and introduce “a broadening of the sphere of gay culture.” Or watch Dmitry Kiselyov, the flamboyantly anti-Western TV host Putin has just installed at the head of a restructured news agency. Kiselyov recently aired excerpts from a Swedish program called “Poop and Pee,” designed to teach children about bodily functions, and declared it was an example of the kind of European depravity awaiting Ukraine if it aligns with Europe. (Kiselyov is also the guy who said that when gay people die their internal organs should be burned and buried so that they cannot be donated.)
Dmitri Trenin, a scholar in the Moscow office of the Carnegie Endowment for International Peace, is convinced this is not just pandering to a devout constituency, but also something more personal. In the past two years Putin has become more ideologically conservative, more inclined to see Europe as decadent and alien to the Orthodox Christian, Eastern Slav world to which both Russia and Ukraine belong.
“It’s tolerance that has no bounds,” Trenin told me. “It’s secularism. He sees Europe as post-Christian. It’s national sovereignty that is superseded by supranational institutions. It’s the diminished role of the church. It’s people’s rights that have outstripped people’s responsibilities to one another and to the state.”
To appreciate the magnitude of what Putin is doing, it helps to recall a bit of history.
In July 1989, the Soviet president, Mikhail Gorbachev, made a speech in Strasbourg that many took as an important step back from the Cold War. His theme was that Russia now regarded itself as sharing a “common European home” alongside its Western rivals. Mutual respect and trade should replace confrontation and deterrence as the foundations of the relationship. Military blocs would be refashioned into political organizations. What President Reagan dubbed “the evil empire” would be the good neighbor.
“The long winter of world conflict based on the division of Europe seems to be approaching an end,” Jim Hoagland, the chief foreign correspondent of The Washington Post, wrote at the time. It was a common theme.
When the Soviet Union unraveled a few years later, the largest of the 14 republics liberated from Russian dominion was Ukraine. While savoring their independence, many Ukrainians wanted to follow Russia on the path Gorbachev had announced.
“There was this slogan, ‘To Europe with Russia,’ ” said Roman Szporluk, former director of the Ukrainian Research Institute at Harvard. “Clearly that idea is now out, and I guess Putin must have decided to restore the empire.”
Nearly 25 years after Gorbachev’s “common European home,” Putin sounds like a common European home wrecker.
It is true that during the recent years of recession and austerity Europe has lost some of its dazzle. But it is still more alluring than Ukraine’s threadbare economy, presided over by an ineffectual and corrupt governing class. Ukrainians have never abandoned their hope to be part of the West. Protesters rallying at Independence Square in Kiev represent a generation that has studied, worked and traveled in Poland since it joined Europe, and that does not want to retreat to some shabby recreation of the Russian empire. They are backed, too, by a significant segment of Ukrainian business, which prefers Western rule of law to the corruption and legal caprice of Russia and Ukraine.
Putin may succeed in capturing Ukraine, but he could come to regret it. While he’s looking to the past, he might linger over the experience of an earlier potentate, Josef Stalin, who annexed western Ukraine from Poland. As Szporluk points out, Stalin thought he was being clever, but he ended up doubling his problems: He brought politically restive Ukrainians into the Soviet tent, and left a stronger, homogenous Poland no longer unsettled by its Ukrainian minority.
Likewise, if Putin dragoons Ukraine into his Russian-dominated alliance, he will need to pacify public opinion by showering the new member with gifts he can’t afford, and ceding it influence that he would rather not share. And even then, resentments of the young Ukrainian Europhiles will fester, and feed the already ample discontent of Russia’s own younger generation. As Trenin points out, “Ukraine will always be looking for the exit.” Putin may learn, as Stalin did, that a captive Ukraine is more trouble than it’s worth.

2014: uma ficção política - Paulo Roberto de Almeida


2014: uma ficção política

Paulo Roberto de Almeida

            Em 2014 o Brasil chega a novas eleições exausto de tanto discurso, de tantas palavras, tantas promessas. Nunca falaram tanto, em doses tão concentradas, em tão poucos anos, dentro e fora do governo.
            As promessas de continuar avançando, de fazer mais e melhor, de distribuir mais justiça, mais igualdade, mais segurança redundaram no que se esperava: mais do mesmo, sem ao menos o conforto de uma mudança de linguagem, de hábitos, de comportamentos políticos, de práticas administrativas. A justiça continuou tão lenta quanto sempre foi, com alguns escândalos, novos e velhos, emergindo aqui e ali. O Executivo continuou inchado, inclusive porque era preciso contemplar a base congressual com novos cargos e novos aportes financeiros. O Congresso, bem o Congresso não precisou mudar em nada: apenas aprofundou suas práticas e costumes, o que significa que continuou afundando nas práticas delituosas e nos costumes imorais, com alguns novos personagens mas os mesmos hábitos de sempre, agora um pouco mais indecentes, já que novamente sancionados pelo eleitorado.
            O discurso político, venha de onde vier, continuará permeado de mentiras e de demagogia, tanto mais extensas quanto o eleitorado foi, continua sendo e promete permanecer leniente com aqueles que o iludem. A mistificação política terá sido elevada à condição de instrumento vital da governança, e toda atividade governativa será precedida de um estudo de marketing político. Os administradores de imagem ganharão precedência sobre os ministros setoriais, que terão de adaptar suas propostas e programas ao governo “participativo” (que de participativo possui apenas a propaganda governamental, assegurando que o povo está sendo consultado para esta ou aquela medida).
            Em 2014, teremos aperfeiçoado novos métodos de extrair recursos sem dor dos cidadãos-contribuintes. A Receita, escaldada por excesso de transparência, conseguirá determinar os meios de alcançar a renda dos agentes econômicos antes mesmo de qualquer fluxo de ativos e de qualquer iniciativa declaratória dos produtores primários. Apenas por esse meio será possível atender a todos os compromissos governamentais – com os pobres, de um lado, com os ricos, de outro, estes bem mais exigentes como sempre ocorre – sem ter de negociar a criação de novos impostos com o Congresso.
            A imprensa não se terá dobrado, mas terá sido domada, ou contornada: os meios de comunicação do governo serão suficientes para levar sua mensagem aos eleitores-complacentes; o restante se contentará com a internet, num processo entrópico e semicircular. Muita energia será gasta com debates vazios, o que parece o ideal para uma sociedade de baixa educação política. As escolas continuarão ruins, e as universidades públicas também vão aprofundar seu processo de mediocrização e de decadência. Nada mais será como antes, e tudo será bem pior do que antes. Não importa quem entrou, não importa quem estará entrando novamente. Tudo é uma questão de lógica elementar, dada a tendência.
            Bem, tudo pode ser uma ficção, ou não...

Shanghai, 2.10.2010.

No Coracao das Trevas (Petistas) - Ricardo Velez-Rodriguez

ASSASSINANDO REPUTAÇÕES E DESAFETOS

Ricardo Vélez-Rodríguez
Blog Rocinante, 15/12/2013




O Livro do delegado Romeu Tuma Junior, o Tuminha, intitulado:Assassinato de reputações - Um crime de Estado (Rio de Janeiro: Topbooks, 2013, 557 páginas) não traz nada de novo na longa esteira de safadezas e truculências da petralhada. Registra, sob renovado viés, o caráter sistêmico que essas práticas ganharam na estratégia petista, rumo à consolidação da hegemonia partidária. Partindo da hipótese levantada por Antônio Paim na obrinha intitulada: Para entender o PT (Londrina: Edições Humanidades, 2002), no sentido de que o que inspira aos petistas é a ética totalitária ("os fins justificam os meios"), podemos dizer que o assassinato de reputações via dossiês falsos é um dos meios para a conquista do poder e para sua manutenção. Em época de eleições essas práticas voltam, turbinadas, ao cenário político sem que, evidentemente, se restrinjam a esses momentos. Vejam os caros leitores, por exemplo, o caso do CADE, sob direção do sobrinho do Gilberto Carvalho, que jogou os holofotes sobre a oposição do PSDB, para encontrar corrupção no financiamento das obras de trens e metrô ao longo das últimas duas décadas, analisando unicamente os desafetos. Esse estardalhaço todo vem justamente no momento em que os líderes petralhas do mensalão começam a cumprir penas. Pura ação de desinformantsia, diriam os russos, useiros e vezeiros nesse tipo de prática desde os tempos de Pedro o Grande, no século XVII.
As fontes para a estratégia de assassinato de reputações não são novas. De um lado, estão os russos, com a sua secular prática de criar confusão no galinheiro alheio quando as coisas não andam bem em casa. Essa estratégia recebeu sistematização aprimorada no Testamento Político de Pedro o Grande, que recomendava azucrinar a vida das potências inimigas, como a Grã Bretanha, plantando falsas informações que enfraquecessem o poder no seio delas. Discípulo aprimorado da estratégia grã russa foi, sem dúvida nenhuma, Vladimir Illich Ulianov, o Lenine, que aconselhava coisa parecida no início do século XX, com a finalidade de fortalecer o poder dos bolcheviques. Stalin foi um disciplinado e inescrupuloso realizador dessa estratégia, não só plantando falsos dossiês contra oposicionistas, mas também matando literalmente de fome os camponeses que integravam a classe média (fala-se em 20 milhões de vítimas), a fim de fortalecer a política centralista e estatizante das Granjas Coletivas Soviéticas. Lógica de ditador georgiano é outra coisa. Lógica de ferro. Stalin raciocinava da seguinte forma: "quem cria problemas são as pessoas; eliminem-se as pessoas e solucionar-se-ão os problemas". Lógica para deixar com água na boca a terroristas jacobinos como Saint-Just, Che Guevara, Fidel e outros...




Mas há outras duas fontes importantes na estratégia de assassinato de reputações. A literatura marrom dos que, ao longo dos séculos XVII e XVIII, viveram da escrita de libelos acusatórios contra quem quer que fosse. O único que importava era o pagamento em dia dos "honorários" combinados entre o escriba e os mandantes. Robert Darnton, aliás, em magnífica obra, O diabo na água benta- Ou a arte da calúnia e da difamação de Luís XIV a Napoleão(São Paulo: Companhia das Letras, 2012) traz-nos uma bela descrição desses profissionais da calúnia, que não eram grandes escritores, claro, mas que se identificavam com poetas falidos, ensaístas fracassados, militantes apalermados, todos aqueles que trocaram as emoções da praça pública e da pancadaria nas manifestações e arruaças pelas agressivas páginas dos libelos. Uma malta para ninguém botar defeito e que colaborou, de forma decisiva, para acirrar os ânimos e criar esse ambiente revolucionário de "guerra de todos contra todos" que caracteriza as últimas décadas do século XVII e as do século seguinte. É a razão individual maluca, solta em casa como louco cego, e que vai se alimentando de tudo quanto é dúvida contra o que está aí, dando ensejo ao clima de agitação universal que pairava no ar às vésperas da Revolução Francesa. A cabeça pensante do rei que governava absoluto no século XVII de Luís XIV, foi substituída pela multidão que pensa que pensa e que desafoga as suas contradições no movimento revolucionário: é a razão que toma conta da praça pública e que será coroada como rainha em Notre Dame pelos revolucionários de 1789.
A outra fonte importante para a estratégia de assassinato de reputações é a obra Du contrat social do filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que elaborou a estratégia para consolidação da "democracia de massas", origem remota do hodierno totalitarismo e dos populismos que estão atazanando a vida da América Latina. O arrazoado de Rousseau era claro: a felicidade geral da nação decorre da unanimidade. Logo: Pau na dissidência! À luz desse raciocínio foi criado o mecanismo para construção da democracia de massas. O Legislador, cercado pelospuros (aqueles que abdicaram da luta em prol dos seus interesses individuais para se dedicarem única e exclusivamente à defesa do interesse público), organiza o Comitê de Salvação Coletiva que tem como finalidade destruir todo aquele que ousar dissentir da unanimidade almejada. Fica como resultado dessa ousada ação a paz do cemintério, que é a sociedade neutralizada pelo Líder e os ses sequazes.
Com esse pano de fundo doutrinário dá para ver que a estratégia petista de assassinato de reputações não é nova. Estratégia que, se necessário, converte-se em via para o assassinato de pessoas, caso haja alguém suficientemente louco para peitar a unanimidade da vontade geral. Tuminha lembra o caso Celso Daniel. O PT também é capaz de crueldades maiores, diria o velho Lenine.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A economia politica do Papa Francisco: marxismo jesuitico? - Heather Horn

Pope Francis's Theory of Economics


  

Pope Francis and, clockwise from top left: Keynes, Polanyi, Hayek, and Marx (Reuters/Giampiero Sposito/Wikimedia Commons)
It would make for some pretty amazing headlines if Pope Francis turned out to be a Marxist.
Between his hints at rehabilitating liberation theology—condemned by his predecessors—and talk about casting off "the economic and social structures that enslave us," Marxism isn't totally out of the question.
But happily for nervous church leaders, Francis's first Apostolic Exhortation, issued Tuesday, doesn't quite suggest someone who would get "Marx" in an Internet-style "Which Economic Theorist Are You?" quiz. Granted, he wouldn't exactly get Friedrich von Hayek or Ayn Rand, either.
But you know whom he might plausibly be matched with, though? A favorite political economist of anti-free market academics: Karl Polanyi.
Karl Polanyi is most famous for his book The Great Transformation, and in particular for one idea in that book: the distinction between an "economy being embedded in social relations" and "social relations [being] embedded in the economic system." 

Polanyi's Big Idea: The Economy Has to Serve Society, Not the Other Way Around

Economic activity, Polanyi says, started off as just one of many outgrowths of human activity. And so, economics originally served human needs. But over time, people (particularly, policy-making people) got the idea that markets regulated themselves if laws and regulations got out of their way. The free market converts told people that "only such policies and measures are in order which help to ensure the self-regulation of the market by creating the conditions which make the market the only organizing power in the economic sphere." Gradually, as free market-based thinking was extended throughout society, humans and nature came to be seen as commodities called "labor" and "land." The "market economy" had turned human society into a "market society."
In short (as social sciences professors prepare to slam their heads into their tables at my reductionism), instead of the market existing to help humans live better lives, humans were ordering their lives to fit into the economy.
What Pope Francis Said
Now, back to the pope. Pope Francis, in his exhortation, notably does not call for a complete overhaul of the economy. He doesn't talk revolution, and there's certainly no Marxist talk of inexorable historical forces.
Instead, Francis denounces, specifically, the complete rule of the market over human beings—not its existence, but its domination.
"Today everything comes under the laws of competition and the survival of the fittest," he writes. "Human beings are themselves considered consumer goods to be used and then discarded," and "man is reduced to one of his needs alone: consumption." He rejects the idea that "economic growth, encouraged by a free market, will inevitably succeed in bringing about greater justice and inclusiveness in the world." Instead, he argues, growing inequality is "the result of ideologies which defend the absolute autonomy of the marketplace and financial speculation," which "reject the right of states, charged with vigilance for the common good, to exercise any form of control." And he repeats the exact language he used in an early address: "Money must serve, not rule!"
Seeing the similarities yet?

Polanyi, the Pope, and Blaming the Market for Big Crises

Where things get really interesting is when Pope Francis brings up the financial crisis. "One cause of this situation," he writes, "is found in our relationship with money, since we calmly accept its dominion over ourselves and our societies. The current financial crisis can make us overlook the fact that it originated in a profound human crisis: the denial of the primacy of the human person!"
It's nothing new to say the financial crisis came from a lack of regulation. That's a fairly popular analysis. But what Pope Francis is saying is more Polanyan, hearkening back to the idea that the tipping point has to do with the relationship between the market and society/humanity, and which is subordinate to the other. Just as Polanyi argued that the extension of the market economy across the globe (through the gold standard) was the root cause of World War I (and you'll have to go back to the original book for that, but it's a beautifully, hilariously gutsy, Guns, Germs, and Steel kind of argument), Francis is arguing that failing to keep humanity at the center of our economic activity was the root cause of the financial crisis.

A Vision for the Future

One of the tricky and crucial parts of Polanyi's argument is that he doesn't actually believe (at least, back in the 1940s, when he was writing) that we're living in a world where the economy has become fully disembedded from society. This "Utopia," he writes, that many economic theorists and policymakers are foolishly striving for, "could not exist for any length of time without annihilating the human and natural substance of society; it would have physically destroyed man and transformed his surroundings into a wilderness."
Pope Francis has a similarly gloomy view of global survival in the face of unchecked capitalism: "In this system, which tends to devour anything which stands in the way of increased profits, whatever is fragile, like the environment, is defenseless before the interests of a deified market, which become the only rule." 
So what's the way out? At the time Polanyi's book was published, he was betting on social democracy being the answer, so long as governments worked together internationally. And you know what? That is pretty darn close to what the pope urges as well. He doesn't think this can be solved with personal charity:
Growth in justice ... requires decisions, programmes, mechanisms and processes specifically geared to a better distribution of income, the creation of sources of employment and an integral promotion of the poor which goes beyond a simple welfare mentality. I am far from proposing an irresponsible populism, but the economy can no longer turn to remedies that are a new poison ... We need to be convinced that charity “is the principle not only of micro-relationships (with friends, with family members or within small groups) but also of macro-relationships (social, economic and political ones)”. ... Each meaningful economic decision made in one part of the world has repercussions everywhere else; consequently, no government can act without regard for shared responsibility. Indeed, it is becoming increasingly difficult to find local solutions for enormous global problems which overwhelm local politics with difficulties to resolve. If we really want to achieve a healthy world economy, what is needed at this juncture of history is a more efficient way of interacting which, with due regard for the sovereignty of each nation, ensures the economic well-being of all countries, not just of a few.
The parallels aren't perfect. Polanyi has some ideas about the Gospels ignoring social reality that the pope might not be on board with. But for now, at least, Polanyi certainly looks like a closer fit for the pope than Marx. And the pope and Polanyi have this in common: They're both surprisingly popular on liberal university campuses right now.
If you find a shot of His Holiness reading The Great Transformation onhis bus ride, let us know.


  


Heather Horn is a senior associate editor at The Atlantic. She is a former features editor and staff writer for The Atlantic Wire, and was previously a research assistant at the Carnegie Endowment for International Peace


Imposturas constitucionais de suas excelencias - Reinaldo Azevedo

Pois é… Como já escrevi aqui, se a essência das coisas coincidisse com a sua aparência, os idiotas seriam os cientistas, e os cientistas, os idiotas. Acompanhei atentamente o voto do ministro Luiz Fux, do STF, e não consegui achar em que ponto o doutor demonstra que o financiamento privado de campanha — a doação de empresas — viola cláusulas pétreas da Constituição. Quais cláusulas? Que direitos fundamentais ou que valores essenciais sobre os quais se assentam a Constituição e a República estariam sendo feridos de morte?
As cláusulas pétreas — e não adianta o leitor tentar encontra-las em algum artigo ou parágrafo porque se trata, vamos dizer assim, de um espírito — estão virando uma espécie de caminho do golpe constitucional. Quando uma maioria do STF decide que já é hora de legislar, então basta evocar as ditas-cujas e pronto! A partir daí, tudo é possível. Se, amanhã, algum amigo do doutor Luís Roberto Barroso cismar que o direito à propriedade fere a dignidade humana, joguem-se foram todas as garantias porque ninguém mais será dono de nada. E olhem que não estou brincando, não.
O Artigo 5º garante o direito à propriedade no caput e no Inciso XXII, mas o XXIII diz que “a propriedade atenderá à sua função social”. Como “a função social” é, convenham, matéria um tanto controversa porque depende do que cada um entende por isso, abre-se o caminho, como se tem visto por aí, para decisões judiciais as mais exóticas. O MST e um empresário do setor rural certamente não pensam a mesma coisa a respeito. Ah, sim: a “função social da propriedade” é cláusula pétrea, tá, pessoal? Não se pode fazer uma emenda suprimindo esse inciso.
Pilantragem retóricaFux e outros estão tentando meter goela abaixo do Congresso o financiamento público de campanha — que interessa principalmente ao PT — sob o argumento de que o financiamento privado agride cláusulas pétreas. Como não se pode fazer emenda suprimindo-as ou alterando-as, então os parlamentares estariam obrigados a aprovar o financiamento público. A indignação dos quatro ministros que já votaram, como se o Brasil fosse o único país a contar com financiamento privado em campanhas eleitorais, ou expõe a própria ignorância ou se aproveita da ignorância alheia — talvez as duas coisas. Como evidenciou Daniel Jelin em reportagem na VEJA.com, o financiamento privado de campanha é padrão no mundo democrático, não exceção.
Afirmar, como tenho lido aqui e ali, que não há dinheiro de empresas na eleição americana é coisa de vigaristas. Pra começo de conversa, as regras da disputa são muito diferentes. Não há a jequice cartorial do horário eleitoral gratuito (que nós pagamos) por lá. Os partidos compra tempo na TV. Empresas financiam think tanks que se encarregam de divulgar teses, palavras de ordem e pontos de vista identificados com este ou aquele candidatos. São os chamados PACs (Comitês Cívicos). Em 2010, a Suprema Corte do país decidiu que os SuperPACs — lobbies organizados — PODEM ARRECADAR QUANTO LHES DER NA TELHA, TAMBÉM DE EMPRESAS — para defender seus pontos de vista. Mais: o candidato pode usar o próprio dinheiro para fazer campanha — o que Fux também quer proibir por aqui.
Vale dizer: o sistema brasileiro — ao menos o que está na lei — É MAIS TRANSPARENTE DO QUE O AMERICANO. De fato, naquele país, uma empresa não pode doar a um partido ou a um sindicato, mas os PACs, na prática, fazem isso, só que de modo oblíquo. Ora, O DESVIO, NO BRASIL, ESTÁ NO CAIXA DOIS, NÃO NAS DOAÇÕES DEVIDAMENTE REGISTRADAS. Se acontecer o que querem Luiz Fux, Dias Toffoli, Joaquim Barbosa e Luís Roberto Barroso (por enquanto…), aí o desvio será a norma.
Volto ao eixoMas volto ao eixo deste texto. Evocar a cláusula pétrea tem sido o caminho para o Supremo legislar em lugar do Congresso. E notem: não é que 11 indivíduos possam substituir o Congresso, não! Bastam cinco! Cinco? Sim, para uma Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI) ser votada, é preciso que pelo menos oito ministros participem da sessão — nesse caso, bastam cinco para formar a maioria.
Se vocês recorreram ao arquivo, encontrarão as muitas vezes em que apontei que o STF estava indo além das suas sandálias — e as suas sandálias são a Constituição. No dia 26 de abril de 2012, escrevi aqui umpost (que está no livro “O País dos Petralhas II”, página 313) em que alertava justamente para essa hipertrofia do Judiciário. Por mais que se queira dar nó no verbo, o fato é que o STF tomou decisões sobre cotas raciais, casamento gay, marcha da maconha e aberto de anencéfalos CONTRA OU A LETRA EXPLÍCITA DA CONSTITUIÇÃO OU CONTRA A LEI EXPLÍCITA DA LEI.
Os tontos acharam, então, que critiquei o tribunal porque me oporia ao casamento de homossexuais. Não me oponho. Mas a Constituição existe e diz que união estável se dá entre homem e mulher. É preciso mudar a Carta, e quem faz isso é o Congresso! O Código Penal prevê as duas possibilidades para o aborto legal. Quem tem de introduzir uma terceira é… o Congresso! O código também dispõe sobre a apologia do crime — e consumir droga ilícita é crime. Para que deixe de sê-lo, é preciso votar uma lei no… Congresso!  O mesmo se diga sobre as cotas. Nesse caso, então, o malabarismo retórico é espantoso. É claro que elas ferem o fundamento da igualdade perante a lei — cláusula pétrea! Mas aí os doutores consideraram que se trata de uma igualdade formal que não realiza a igualdade material. E, vejam que fabuloso!, violaram uma cláusula pétrea e as consideraram constitucionais em nome da “verdadeira igualdade”, entenderam? Assim, quando lhes dá na veneta, em nome da cláusula pétrea, eles quebram a … cláusula pétrea!
Escrevi textos aqui contra essas decisões todas. E deixo claro: exceção feita ao caso do aborto de anencéfalos, incomodava-me menos o mérito do que a clara violação do que está escrito; incomodava-me menos O QUE ESTAVA SENDO DECIDIDO do que o fato de o tribunal estar tomando o lugar do Parlamento. Advertia aqui, quase solitariamente, que os bem-intencionados estavam botando uma corda à volta do pescoço.
Eis aí… Desta feita, evocando “cláusulas pétreas”, ministros querem proibir o financiamento privado, impor o financiamento público, ajudar a bater ainda mais a carteira dos brasileiros, elevar brutalmente o caixa dois de campanha e dar uma forcinha extra ao PT.
Usurparam uma vez a prerrogativa do Congresso. Foram aplaudidos. Usurparam uma segunda. Foram aplaudidos. Usurparam uma terceira. Foram aplaudidos. Usurparam uma quarta. Foram aplaudidos. Ficaram viciados. Querem mais.
E agora concluo
E notem que os ousados estão perdendo mesmo a cerimônia. A ADI que chegou com assinatura da OAB, insisto, tem as digitais de Luís Roberto Barroso. É ele o autor intelectual da causa de que se tornou um dos juízes. Isso fere a cláusula pétrea da ética e do bom senso.

Se os parlamentares não reagirem, seu destino será apenas mendigar um dinheiro do Executivo e, de vez em quando, aparecer nas páginas policiais, acusados de caixa dois. 

As boas intencoes da irracionalidade economica: a PEC das domesticas

A realidade no lar depois da lei das domésticas

  • Em Brasília, família desistiu do serviço diante do custo mais alto
  • Cassia de Almeida
  • O Globo, 14/12/2013

Apreensão. Para Solange, diarista, “ficou difícil"
Foto: Custódio Coimbra / O Globo

Apreensão. Para Solange, diarista, “ficou difícil" Custódio Coimbra / O Globo

RIO e BRASÍLIA — Os pouco mais de 6 milhões de empregados domésticos brasileiros passaram a ter os mesmos direitos que o restante dos trabalhadores no início deste ano. As discussões no Congresso se repetiram entre as famílias, de como arcar com os novos custos de horas extras e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O pagamento do Fundo ficou para depois, mas a proibição de mais de duas horas extras por dia e o reeembolso pela jornada a mais já é realidade. Entre as famílias acompanhadas pelo GLOBO, temos as duas pontas dessa equação. No Rio, a empresária Flávia Ritto, uma das sócias da holding de empresas Nova Rio, sentiu pouco os efeitos da lei, apesar de ter quatro funcionários na folha: uma empregada, um motorista, uma faxineira e uma passadeira.
— Não senti o peso da regulamentação. Eles estão registrados na minha empresa e já ganham FGTS e hora extra. Mas perdi uma empregada e até tentei viver sem, mas não deu.
Este ano, ela assumiu as despesas com mais uma empregada, a da mãe. O gasto ficou em torno R$ 1.500, sem o FGTS:
— Para ela, ainda não estamos recolhendo.
Na outra ponta, está a diarista Solange Moraes, também do Rio. O trabalho em três casas diferentes, sem horário fixo, permite que ela consiga fazer os cursos que deseja — este ano foi de espanhol — e se preparar para entrar na faculdade de Engenharia Química, na UFRJ, seu sonho. Está há 20 anos nessa vida. Nos primeiros anos, o trabalho era de domingo a domingo. Precisava sustentar os nove filhos. Adoeceu gravemente. Ficou três meses internada no Hospital Geral de Bonsucesso com a recomendação de deixar o trabalho árduo. Mas não deixou. Diminuiu o ritmo. Para ela, mais direitos acabaram provocando dificuldades, porque surgiu o temor de perder o emprego.
— Ficou difícil. Muita gente não questionou os patrões sobre os novos direitos para não perder o emprego.
Como é diarista, a rotina de Solange não mudou. Costuma trabalhar seis horas no máximo em cada casa, “para não ser muito explorada". Mas nada de carteira assinada, um desejo antigo que se tornou maior após a doença, quando ficou sem renda de uma hora para outra. O segundo casamento foi desfeito enquanto estava acamada com um doença rara nos rins. Ela perdeu o direito ao plano de saúde .
Em Brasília, a PEC das domésticas alterou os planos da família dos funcionários públicos Laurício Cruz e Andreza Monteiro. Hoje eles contam com uma diarista a cada 15 dias. Quando as contas com a reforma do sobrado diminuírem, será possível contratar a profissional para fazer a limpeza uma vez por semana. Mas ter uma empregada todos os dias está fora dos planos.
— Meu maior sonho de consumo hoje é ter uma empregada. Mas como? Vai custar pelo menos R$ 1,5 mil por mês, incluindo salário, imposto, transporte, alimentação. O quarto de empregada vai virar depósito. Não questiono o direito delas. Mas, com a nova lei, não dá para pagar. É uma questão de orçamento — afirmou.

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