segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Problemas na politica externa (que nao sao da politica externa) - Guilherme Casaroes

Nota Liminar: fui censurado, provavelmente por um aluno, a pedido do professor, por ter "censurado" a réplica do Professor, aos meus comentários sumários, enfeixados nas primeiras duas linhas do comentário preliminar abaixo, quando não era, e nunca foi, esta a minha intenção. Apenas a falta de tempo, as tribulações de um trabalho intenso, me fizeram descuidar dessa questão importante. Retifico abaixo, com todos os registros de envio.
Portanto, o que os leitores vão ter aqui é: a transcrição do artigo original, encimado pelo meu comentário de fato sumário, quase críptico, pelo que me desculpo, em relação ao artigo do professor em questão, seguindo pela réplica do professor, com novamente um comentário meu, dando as razões de minha discordância em relação ao artigo.
Aceito novos comentários, e até poderei colocá-los em destaque em novo post.
Não tenho nenhum problema, repito NENHUM problema, em debater questões como essas, que são o centro mesmo das preocupações deste blog.
Paulo Roberto de Almeida

O autor tece considerações genéricas sobre a diplomacia brasileira, sem mencionar o fato de que os problemas apontados não se devem ao Itamaraty, e sim a fatores externos, que ele ignora por completo.

Uma política externa à altura do Brasil

09 de setembro de 2013 | 2h 10
Guilherme Casarões * - O Estado de S.Paulo
Entre as análises de primeira hora sobre a diplomacia do governo Dilma Rousseff, não foram raras as menções ao seu aparente desinteresse por questões globais - ressalvado, pela própria biografia da presidente, o tema dos direitos humanos. Esperava-se uma mudança de forma, sem o ativismo dos anos anteriores, mas mantendo as linhas substantivas essenciais. O perfil mais técnico do então chanceler Antonio Patriota, nomeado por Dilma, indicava a preferência por uma política exterior sem voos altos nem o risco de tropeços ou atritos, mantendo-se o lastro institucional do Itamaraty.
Abdicando do exercício da diplomacia presidencial, parcialmente responsável pela (re)construção da imagem do Brasil nos 15 anos anteriores, a presidente mostrou-se muito pouco engajada nos temas internacionais - para além do óbvio protocolar, como reuniões de cúpula e algumas visitas a países amigos. No entanto, ao contrário do que se esperava, deixou pouco espaço para o Itamaraty trabalhar.
Isso parecia relacionar-se com as prioridades governamentais em tempos de crise e desaceleração da economia. O envio de estudantes brasileiros ao exterior, no desejo de qualificá-los nas áreas de ciência e tecnologia, virou bandeira governamental e ativo diplomático. Projetos de infraestrutura, sobretudo no nosso entorno geográfico, ganharam prioridade sobre as grandes estratégias costuradas nas duas décadas anteriores. Aos poucos, foram mudando os parceiros preferenciais e os temas centrais.
A despeito de conquistas maiúsculas, como a eleição do embaixador Roberto Azevêdo na Organização Mundial do Comércio (OMC), ou tentativas de avanços conceituais, como a "responsabilidade ao proteger" diante dos levantes árabes, a generalizada ausência de protagonismo internacional e o desencontro de interesses entre o Ministérios das Relações Exteriores e outros setores do governo reforçaram a avaliação de um importante jornalista: "O mundo de Dilma é o Brasil".
Não haveria problema algum caso se tratasse somente de uma questão de prioridades. Historicamente, em tempos difíceis, a redução do ativismo global é natural e esperada. Mas o estilo de governar de Dilma Rousseff, além de enfraquecer o Itamaraty, revelou um profundo dissenso sobre visões de mundo. A introspecção forçada da diplomacia dilmista entra em choque com duas dimensões essenciais da política externa do Brasil.
A primeira delas é histórica e mais profunda. Somos um país cuja identidade foi parcialmente forjada pela obra diplomática, que também nos logrou respeitável reputação internacional. Se hoje o Brasil é um ator global, isso é graças ao esforço coletivo do serviço exterior na construção permanente de uma sedutora narrativa de "quem somos" e "o que queremos" para o mundo.
Como estamos falando de um país cuja trajetória é marcada pela escassez de recursos tradicionais de poder - como dinheiro ou armas -, a projeção brasileira deu-se, de maneira geral, pela empatia global. Esse fato trouxe efeitos tangíveis, que vão desde a profusão de acordos bilaterais de cooperação com numerosas nações até o vertiginoso aumento do comércio internacional brasileiro na última década; e também intangíveis, que se traduzem em aspectos da liderança do Brasil em certos temas multilaterais, ou, se quisermos, na superação de um antigo complexo de vira-latas que por muito tempo nos definiu.
A segunda dimensão diz respeito ao chamado "insulamento burocrático" do Itamaraty. Ao longo do século 20, a Casa de Rio Branco foi-se profissionalizando e ganhando autonomia, seja com relação ao presidente da República, ao Congresso Nacional ou às forças sociais. Isso permitiu que se consolidasse uma espécie de repertório permanente da política externa, corporificado no serviço diplomático e, em geral, identificado com a bem-sucedida inserção internacional do Brasil.
Se, por um lado, as decisões diplomáticas permaneceram relativamente fechadas mesmo num contexto democrático, a ênfase na "tradição" foi capaz de blindar a política exterior de críticas profundas nas últimas décadas - limitando-se, desconsiderados os excessos retóricos, a contestações pontuais. Não à toa, no último meio século a enorme maioria de nossos chanceleres veio da própria carreira diplomática - ou, quando não era o caso, eles estavam afinados com as tradições e o legado do barão do Rio Branco.
Os eventos dos últimos dias jogaram, numa só tacada, toda essa narrativa por terra. As inesperadas tensões com a Bolívia fugiam de um script diplomático que prezava pela amizade - e pela cautela - com os vizinhos. A inédita quebra de hierarquia enfraquece, por sua vez, a reconhecida condição de infalibilidade do Itamaraty, sobre a qual assenta boa parte da reputação brasileira.
A pronta demissão do ministro Antonio Patriota, um dos melhores quadros de sua geração, revela, por fim, as dificuldades que a nossa tradicional diplomacia vem sofrendo no contexto de um governo para o qual o imediatismo dos resultados tangíveis e quantitativos precede o planejamento de longo prazo e a razão de Estado. Como se a política externa pudesse ser traduzida em planilhas ou balancetes.
E enquanto Antonio Patriota se prepara para retornar a Nova York (para assumir a chefia da representação brasileira nas Nações Unidas), onde suas habilidades certamente serão valorizadas, devemos desejar bons augúrios ao seu sucessor, Luiz Alberto Figueiredo Machado - um grande negociador, que terá diante de si o maior dos desafios: superar as amarras governamentais para fazer uma política externa que esteja à altura do Brasil.
*Guilherme Casarões é professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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O professor me enviou o seguinte comentário, devidamente absorvido na seção de comentários (embora com um atraso involuntário), a que eu respondi, distraidamente, sem ver que não estava respondendo a ele. Mas deixo registro mais abaixo do que escrevi.

On Sep 10, 2013, at 11:23 AM, Guilherme Casarões <noreply-comment@blogger.com> wrote:

Caro Prof. Paulo Roberto de Almeida,

Fico honrado que tenha reproduzido meu texto em seu blog; ao mesmo tempo, preocupa-me seu comentário introdutório ao artigo, falando em "considerações genéricas" ou fazendo menção a "fatores externos", que "ignoro por completo".

Talvez tenha me expressado mal, mas a linha argumentativa do texto é exatamente a de que a política externa (ou a ausência de política externa do governo Dilma) está sendo corroída por questões exógenas - leia-se, uma profunda divergência entre as visões de mundo da presidente e a leitura que o Itamaraty faz (e sempre fez) do interesse nacional.

Repito essa ideia ao fim do segundo parágrafo, no quinto, e nos três últimos. Reforço que nossa diplomacia - com a qual não há nada de errado, note-se - "vem sofrendo no contexto de um governo para o qual o imediatismo dos resultados tangíveis e quantitativos precede o planejamento de longo prazo e a razão de Estado". Em momento algum imputo à nossa diplomacia as mazelas atuais da política externa, pelo contrário.

Quero crer que sua crítica ao texto tenha sido fruto de um equívoco de interpretação, já que não consigo enxergar, como autor, a lógica que você mesmo ergueu para derrubar meus argumentos.

Atenciosamente,

Guilherme Casarões 
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Meu comentário inicial (em suposta resposta minha ao professor, que não lhe chegou, apenas por total distração minha no reply) foi o seguinte:

Desculpo-me pela leitura rápida, que parece não ter detectado todas essas nuances que você menciona agora. Vou retificar.
Mas você sabe perfeitamente bem a origem de todos esses problemas.
Creio que é preciso apontá-los e talvez denunciá-los. 
Paulo Roberto de Almeida 

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Meu comentário subsequente, feito depois que dois bravos alunos se mobilizaram na demanda de explicações, e até na censura (devidamente registrada), foi feito na resposta abaixo, que não é final, pois o assunto continua em aberto. 
Mais uma vez, não pude escrever diretamente ao professor, por não dispor de seu e-mail, e creio que certos assuntos são melhor tratados em particular. Mas, como nunca tenho nada a esconder sobre o que penso, sobre determinados assuntos, aqui vai o meu comentário principal: 

O artigo consegue acusar o Itamaraty de vários pequenos pecados e em NENHUM momento toca em duas coisas fundamentais: partido e partidarização da política externa, e a existência de um conselheiro partidário no Planalto, usualmente chamado de “chanceler para a América do Sul” (mas vai muito além disso). Como explicar esse amor desmedido do Brasil por várias pequenas e grandes ditaduras, como explicar essas alianças estratégicas com regimes de duvidosa reputação na área da democracia e dos direitos humanos, como explicar a brutal diferença de tratamento entre o caso do “golpe” em Honduras e o abrigo de um palanqueiro ba Embaixada do Brasil naquela capital, e o tratamento da questão boliviana, como explicar a rispidez no caso do Paraguai e a leniência, a conivência e a tolerância demonstradas em casos bem mais graves de ataques à democracia e à liberdade de expressão? Como explicar tudo isso pela ação do Itamaraty?
Gostaria de ver o professor se explicando em todos esses casos.
Paulo Roberto de Almeida
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O tem continua em aberto, para o professor e para todos os seus alunos, voluntariamente de preferência...
Paulo Roberto de Almeida 

Que ideia estúpida é esta de Brics? - Vaclav Smil

"Os BRICS são uma invenção completamente artificial"
Entrevista com Vaclav Smil, escritor e professor da Uni. Manitoba
Por Carlos Eduardo VALIM
IstoÉ Dinheiro, Nº EDIÇÃO: 830 | 06.SET.13 

O tcheco naturalizado canadense Vaclav Smil é o que se costuma chamar de um homem renascentista,no sentido de que suas 400 publicações acadêmicas e mais de 30 livros escritos demonstram interesses amplos como eram os de gênios de conhecimento multifacetado


O tcheco naturalizado canadense Vaclav Smil é o que se costuma chamar de um homem renascentista, no sentido de que suas 400 publicações acadêmicas e mais de 30 livros escritos demonstram interesses amplos como eram os de gênios de conhecimento multifacetado como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Nicolau Copérnico. Smil, que não tem telefone celular e garante ler até 80 livros por ano, publicou obras sobre assuntos tão diversificados que vão da evolução do consumo de carne no Japão à exploração da biosfera, passando pela desindustrialização dos Estados Unidos. Sua vasta produção faz parte da lista de leituras obrigatórias do bilionário americano Bill Gates, fundador da Microsoft, que escreveu em seu blog que Smil é um dos seus autores favoritos e que aprende mais com ele do que com qualquer outro. Nesta entrevista à DINHEIRO, Smil, com o seu forte sotaque do Leste Europeu, coloca em questão o sentido do termo Brics e o excesso de importância dada aos economistas.

DINHEIRO – Seu último livro trata da reindustrialização dos Estados Unidos. Por que acredita que ela não esteja realmente acontecendo?
VACLAV SMIL – Em uma perspectiva histórica, não ocorre um renascimento da manufatura americana. Muitos economistas não acreditam que a indústria seja uma atividade especial. Eles esperam que seja possível sobreviver somente com empregos em serviços. Mas as sociedades mais bem-sucedidas, não só em termos de geração de riqueza, possuem uma boa porção de empregos industriais. Fazer microchips é, apesar do que muitos economistas americanos pensam, bem mais importante do que servir batatas chips. Os índices de desemprego do país estão em 7%, o que é ok. Mas os postos de trabalho criados nos últimos cinco anos são, em grande parte, temporários e pagam mal. Com isso, surgem problemas, como a queda no número de casamentos. As pessoas querem se casar só depois de terem empregos estáveis. Ou seja, há tremendas consequências sociais, não apenas econômicas, na desindustrialização.

DINHEIRO – A terceirização de produção para o Exterior causará, então, grandes problemas nos países desenvolvidos?
SMIL – Esse é um grande problema, não só por criar um desequilíbrio na balança comercial. Há um grande impacto na classe média. Foi com bons e confiáveis empregos em fábricas que as classes médias surgiram pelo mundo. Sem eles, acontecerão dois movimentos: uma minoria se moverá para cima, para uma classe mais alta, e a grande maioria se tornará pobre.

DINHEIRO – Isso não é privilégio dos países desenvolvidos. No Brasil, há muitas discussões sobre a perda de atividades de manufatura para a China. 
SMIL – Até mesmo a China está perdendo empregos. Bangladesh já é o produtor número 2 em têxteis. O Paquistão passou a China e é o número 1 em roupas de algodão. Tudo isso por causa de uma procura louca por locais com mão de obra mais barata. As empresas vão para Bangla­desh, para aproveitar as condições locais horríveis de trabalho.

DINHEIRO – Não há um limite para isso?
SMIL – Não, até que se acabem as pessoas. As empresas sempre procurarão locais mais baratos, exceto por lugares aonde elas nunca iriam por serem muito perigosos, como alguns países muçulmanos. Acredito que nos próximos 10 a 20 anos estaremos atingindo o limite, porque já teremos passado por toda a América Latina e a Ásia e chegado à África. Então, o ciclo precisa terminar.

DINHEIRO – As empresas vão passar, então, a considerar mais a produtividade como fator para escolher onde se instalarem?
SMIL – Isso já acontece agora. A industrialização moderna não tem relação com a força de trabalho. A maior parte do trabalho já é feita por máquinas. Os iPhones, iPads e que tais não são feitos na China. São apenas montados lá, a partir de componentes construídos por máquinas nos EUA, na Alemanha, Inglaterra, Holanda, Coreia do Sul ou Cingapura. A produtividade já é muito alta. Então, eles buscam fazer de forma um pouco mais barata. Mas, dessa forma, quem terá empregos do futuro? Nem todo mundo poderá ser um consultor de negócios. Então, quem terá poder de compra para consumir esses produtos? Essas pessoas que eles empregam não poderão.

DINHEIRO – E que papel o Brasil pode ter nesse mundo?
SMIL – O Brasil é um País estranho. Por exemplo, que ideia estúpida é esta de Brics? Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul é uma combinação nada natural. Eles são países completamente diferentes: religiões, expectativas, história, meio ambiente, não há nada parecido entre eles. É algo completamente artificial os colocarem juntos só porque, por um tempo, tiveram altos índices de crescimento econômico. E isso nem acontece mais com o Brasil. Mesmo na China o crescimento caiu rapidamente. E, na Rússia, só há petróleo e gás. Não existe crescimento econômico lá. A Rússia é um país de mentira, que não produz nada. O conceito de Brics é a invenção de um economista britânico (Jim O’Neill – leia reportagem AQUI) que um dia teve essa ideia. Agora estão dizendo que 20 outros países serão a onda do futuro, no lugar dos Brics. São nações como Indonésia e a Nigéria. Boa sorte com a Nigéria!

DINHEIRO – Quais são os limites para o crescimento da China?
SMIL – O problema da China é que ela quer ser mais os EUA que os próprios EUA. Mas ela não tem os mesmos recursos, as mesmas capacidades, e não pode repetir a mesma evolução. Então, para que tentar? Os japoneses foram muito mais sábios. O consumo japonês é muito mais modesto e moderno.

DINHEIRO – O aumento do consumo chinês pode ser um problema para o mundo?
SMIL – Com certeza. É só observarmos a indústria da pesca. Estamos pescando próximo ou além dos limites, em todas as partes do oceano. Mesmo na Antártica e no Ártico. É como as plantações de eucaliptos. A Amazônia está sendo preenchida por eucaliptos da Austrália, que não pertencem a essa região. Estamos exaurindo os recursos e causando grandes problemas.

DINHEIRO – O sr. acredita que está havendo uma desmaterialização dos itens industrializados, com o lançamento de produtos que exigem menos materiais para serem produzidos?
SMIL – Sim e não. Nós estamos desmaterializando, em termos. Meu próximo livro, que será lançado em dezembro, tratará disso. Nossas geladeiras, é certo, possuem menos aço do que as de 20 anos atrás. O iPhone é mais leve do que os telefones de dez anos atrás. No entanto, com os automóveis isso não aconteceu. O motor é mais leve, porque tem menos alumínio. Mas o peso geral dos carros aumentou. Mesmo o telefone mais leve agora é jogado fora a cada nove meses. Podemos ter desmaterializado em cada unidade, mas, em termos absolutos, a desmaterialização ainda não aconteceu. Lembra que as pessoas falavam sobre o escritório sem papel e que tudo seria eletrônico? O consumo de papel se multiplicou nos últimos 20 anos.

DINHEIRO – Os avanços tecnológicos na agricultura darão conta do crescimento da população?
SMIL – Com certeza. Mas o maior problema é que, nos EUA e na Europa, jogamos fora 40% da comida que produzimos. Mesmo em países pobres acontece isso. Na China, na Índia e o no Brasil, as pessoas ricas desperdiçam comida demais. Estressamos o meio ambiente, aumentamos a produção e desperdiçamos quase a metade no final. Não faz o menor sentido. As pessoas perguntam como fazer para alimentar a todos e haverá falta de alimentos, mas ninguém fala que dois bilhões de pessoas estão desperdiçando comida.

DINHEIRO – Recentemente, o sr. escreveu um livro sobre se os humanos devem comer carne. Devemos?
SMIL – Não há nada de errado em comer carne, mas sim na quantidade em que fazemos isso. Todo mundo quer comer 100 quilos per capita. E as pessoas não querem comer comida eficiente como galinha e porco, mas sim vacas, que exigem muito espaço e o corte de florestas tropicais. Os fast-foods deveriam ser baseados em frango. Antes de pensarmos em animais e sementes geneticamente modificadas, poderíamos nos preocupar em encontrar métodos racionais para desperdiçar menos. As pessoas poderiam comer de 20 a 40 quilos por ano, como no Japão. Assim como na Europa, lá há uma diminuição do consumo per capita de uma série de coisas, por conta do envelhecimento da população e da economia mais lenta.

DINHEIRO – Mas não há uma grande pressão para que esses países cresçam mais rapidamente?
SMIL – Sim, com certeza. Mas é porque a sociedade moderna é comandada por economistas. E eles só sabem pedir uma coisa: crescimento. Diga a um economista moderno que podemos ter uma sociedade sem expansão, e para eles será o fim do mundo. Eles não conseguem imaginar uma sociedade estável. Em tudo, há nascimento, maturação e crescimento rápido, depois a saturação e, em um momento, o declínio e a morte. Seja isso em um organismo, em um ecossistema, ou em um grande sistema chamado economia global.

DINHEIRO – O sr. é um crítico das energias renováveis?
SMIL – Não há nada de errado com elas, mas depende de como as exploramos. Qual é o ponto de se derrubar florestas tropicais para plantarmos cana-de-açúcar para produzir etanol? Nos EUA, as pessoas colocam o etanol em grandes SUVs. Você produz esse combustível, que é relativamente caro, e usa para abastecer veículos monstruosos. Por outro lado, os motores estão mais eficientes. Mas, como a massa do carro é maior, o consumo também cresce.

DINHEIRO – O sr. acredita que os combustíveis fósseis ainda terão participação importante no mundo?

SMIL – Sim, porque cerca de 85% do combustível utilizado no mundo para alimentar as máquinas vem de fontes fósseis. E a transição para a energia renovável será lenta. Nós não estamos nem diminuindo o uso dos combustíveis fósseis, em termos absolutos. Por causa da China e da Índia, estamos, na verdade, consumindo mais desses combustíveis hoje do que há dez anos.

Pausa para... grandes projetos para o bem da humanidade...

Lei torna amendoim cozido patrimônio imaterial de Sergipe

Plenário da Câmara dos Deputados registrou a aprovação de lei estadual de Sergipe que reconhece o amendoim cozido como patrimônio imaterial do estado.
“A nova Lei contempla tanto a preservação de um bem cultural típico e exclusivo do estado como reforça a importância do produto para o comércio local”.

Atualmente, Sergipe possui mais de 5 mil vendedores autônomos de amendoim verde cozido, que, diariamente, produzem e comercializam cerca de 84 toneladas do alimento. Isso faz com que Sergipe seja exportador do produto para outros estados, como Bahia e São Paulo.
 “Ao dar visibilidade a um alimento que é único da cultura sergipana, a Lei 7.682 ajuda a manter viva a memória e a cultura”.

O amendoim cozido é o alimento mais consumido nas festas sergipanas, nas praias e bares, e ocupa um relevante lugar na preferência popular, e traduz com singularidade a raiz cultural, tradições e costumes do povo sergipano.

“Quem é de Sergipe sabe que o amendoim cozido faz parte das tradições do estado,.. e... é importante valorizar as tradições culturais de um povo e, principalmente, exaltar a importância desse alimento que faz parte da sergipanidade”.

Meu proximo iPhone ainda nao esta' pronto (tem de vir com uma biblioteca completa)

Apple Is Set to Announce Two iPhones



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SAN FRANCISCO — The handset market is so brutally competitive that Apple, the most successful smartphone maker, is preparing to step up its game this week by offering two new iPhones instead of one.
Toshifumi Kitamura/Agence France-Presse — Getty Images
Pedestrians in Tokyo last week passing posters for the iPhone. A new model with a faster processor is to be unveiled Tuesday.
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At an event on Tuesday at its Cupertino, Calif., headquarters, the company is set to unveil for customers worldwide a new iPhone with a faster processor, along with another model that will be sold at a lower cost.
The company’s profit growth has slowed in response to a saturated handset market in America and parts of Europe. Many people already own a smartphone and are not upgrading to new devices as often as before.
A lower-cost smartphone could allow Apple to expand into overseas markets — especially China, where the iPhone has been highly desired among many consumers but is just out of reach because of its price.
“A cheaper model will open up the market significantly for Apple,” said Chetan Sharma, an independent telecom analyst who consults for phone carriers.
Apple declined to comment on the new products. Butanalysts expect the higher-priced model to be an improvement over the current iPhone, including a faster processor and better camera flash, as well as a fingerprint sensor for security.
The second iPhone is expected to be a cheaper version of the soon-to-be-outdated iPhone 5, coming in a variety of colors, with a plastic case instead of aluminum. Analysts expect the full price of the lower-cost iPhone to be $300 to $400, positioning it as a midtier product.
Apple has been enormously successful, with the iPhone driving most of its revenue. In the second quarter, the company took 53 percent of the profit in the global smartphone market, with Samsung Electronics, which uses Google Android software to run its smartphones, taking the rest, according to a survey by Canaccord Genuity, an investment bank.
But both Apple and Samsung face a common enemy: the tide of manufacturers that produce dirt-cheap Android phones. While they make all the profits, Apple and Samsung have seen their combined share of the worldwide smartphone market drop to 43 percent in the second quarter from 49 percent a year earlier. The makers of cheaper phones — including Huawei, Yulong and ZTE of China, and Micromax and Karbonn of India — are raking in sales in emerging markets where high-end smartphones are not popular.
“We’ve had several indications from the handset market that vendors are in real trouble,” said Tero Kuittinen, an analyst for Alekstra, a mobile diagnostics firm. “The biggest threat to all the companies seems to be the low-end Androids.”
In terms of sales, smartphones surpassed traditional flip phones this year. There are a few markets remaining where traditional cellphones are still outselling the smartphone, including India, Brazil and Russia. Data from Qualcomm suggests that Latin America, China and India are adding substantially higher numbers of smartphone subscriptions than North America, Japan, Korea and Europe.
China, with its huge population, is an attractive target for Apple. But Timothy D. Cook, Apple’s chief executive, said recently in a call with investors that the company was puzzled about why sales of its products were struggling in China. Sales there fell 4 percent in the second quarter compared with the same quarter last year. And Apple’s sales in Hong Kong were down about 20 percent.
A cheaper iPhone could help it gain traction in China, depending on its cost.
Analysts said the introduction of the cheaper iPhone would probably coincide with an expected partnership deal with China Mobile, which has about 700 million subscribers — about seven times as many as Verizon Wireless. Capturing even a small percentage of China Mobile customers would translate to tens of millions more iPhone sales.
Apple already sells its phones in China through China Telecom, a major network operator, but it slipped into sixth place among smartphone makers there in the second quarter, with a share of only 4.8 percent, according to Canalys, a research firm. Over all, China is the largest smartphone market in the world, accounting for one-third of worldwide shipments of smartphones in the second quarter; the United States is in second place, accounting for about 14 percent of shipments in the same period, according to Canalys.
Despite Apple’s efforts to keep its plans secret, clues about the new iPhones leaked out. China Telecom briefly posted a message last week on a blog platform soliciting early orders for the new devices. It identified the high-end model as the iPhone 5S, and the lower-cost one as the iPhone 5C. The post was later removed. A spokesman for China Telecom declined to comment, citing nondisclosure agreements.
In Japan, where Apple is much stronger but faces a renewed challenge from domestic smartphone makers like Sony, the company has struck a deal to sell the iPhone with the country’s biggest mobile phone carrier, NTT Docomo, two people briefed on the situation said Friday. Docomo has 60 million customers, but it has been losing market share to Japan’s other two main mobile operators, SoftBank and KDDI, which operates under the brand name au. Both have been marketing Apple’s phones aggressively, giving Apple a 40 percent share of smartphone sales in the first quarter, according to IDC, a research firm.
Historically, so that it can protect the quality of its products as well as profit margins, Apple has refused to make cheaper products just to get more customers. Therefore, a lower-cost iPhone would most likely be positioned as a midtier product, similar to the approach Apple took with the iPad Mini. At $330, the iPad Mini is cheaper than the bigger, $500 iPad, but not as affordable as the smaller Android tablets offered by Google and Amazon, which cost from $160 to $230.
Realistically, a lower-cost iPhone will be $300 to $400 at full price, Mr. Kuittinen, the Alekstra analyst, said, significantly less than the current iPhone, which costs $650. Overseas, many phone carriers charge full price because they do not subsidize the upfront cost of a smartphone the way carriers do in the United States. And while a lower-cost iPhone would drive up Apple’s revenue, it would probably not be a blockbuster hit in economically disadvantaged markets, Mr. Kuittinen said.
“Nobody is saying Apple should have a $130 iPhone,” he said, “but if they price this iPhone 5C at $400 or above, it’s just not going to be effective in countries like India, China or even Brazil.”
Still, even if the price is fairly high, a cheaper iPhone should appeal to a subset of people in developing countries who flaunt gadgets as status symbols, like jewelry. People who were on the fence about buying an iPhone might pay a little extra just to be able to show off, Mr. Sharma, the telecom analyst, said. “Consumers are willing to shell out money to own a brand,” he said. “I think a $300 price gives them a chance to own it.”

Tribulacoes do Mercosul - Entrevista de PRA (eu mesmo) ao Instituto Millenium

“Para ser bem-sucedido, o Mercosul tem de voltar ao básico”, afirma diplomata

Entrevista com Paulo Roberto de Almeida 
Instituto Millenium, 9 de setembro de 2013

Apresentando uma rápida recuperação econômica, enquanto a China passa por um período de arrefecimento, os Estados Unidos vislumbram a possibilidade de acordo de livre-comércio com a União Europeia.
Em entrevista ao Instituto Millenium, o cientista social e diplomata Paulo Roberto Almeida aponta suas impressões sobre o pacto, incluindo as implicações para Brasil e América Latina. Considerando o posicionamento dos países-membros do Mercosul, Almeida analisa ainda a situação do bloco.
Confira a entrevista.
Paulo-Roberto-de-AlmeidaInstituto Millenium: Durante o auge da crise financeira de 2008 e nos anos seguintes, especialistas sinalizavam para um possível fim do predomínio econômico ocidental. Hoje percebemos um arrefecimento da economia chinesa e a rápida recuperação dos Estados Unidos. Como o senhor enxerga essa situação?


Paulo Roberto Almeida: Que os EUA declinem, relativamente, em face de países com taxas elevadas de crescimento, como a China, é absolutamente normal e esperado. Mas cabe retornar à história e registrar que, diferentemente dos velhos impérios do passado, que baseavam o seu poderio na dominação puramente militar, no controle de territórios e na extração de recursos, o império ocidental, ou americano, não está baseado nesses processos de força bruta, e sim no império do livre comércio, dos investimentos, da inovação tecnológica e, sobretudo, da inteligência.
Se impérios militares podem ser vencidos por uma coalizão de oponentes ou por algum adversário mais poderoso, um império baseado na inteligência e na interdependência é relativamente indestrutível. Na atual configuração da economia mundial, pode-se prever um declínio muito relativo para os EUA, e para a própria Europa. Eles são impérios da sociedade do conhecimento e, por mais avanços industriais que possam ocorrer em outras regiões, sempre estarão na vanguarda das descobertas científicas e das inovações tecnológicas.


Instituto Millenium: A Europa parece acreditar na manutenção dos EUA como potência econômica, ao iniciar negociações para um acordo de livre comércio. Caso aprovado, quais são as vantagens para as duas regiões?


Almeida: Se e quando for efetivado – e as apostas contrárias são poderosas –, tal acordo terá um impacto profundo em termos institucionais, ou seja, sobre o sistema internacional de comércio e suas rodadas de negociação e em relação a terceiros mercados. Mais ainda, um acordo desse tipo parece sintetizar todos os bons efeitos e todos os defeitos, todos os méritos e os muitos vícios do minilateralismo comercial.

Instituto Millenium: Quais seriam os impactos deste acordo para o Brasil e para a América Latina?
Almeida: Acordos regionais de comércio são potencialmente discriminatórios contra terceiras partes e podem reforçar as tendências ao desvio de comércio e de investimentos, mais do que ao crescimento global desses fluxos. No caso da UE e dos Estados Unidos, porém, essas ameaças são relativamente insignificantes, tendo em vista as barreiras tarifárias bastante reduzidas efetivamente existentes, exceto no setor agrícola, e o amplo grau de uniformização de práticas comerciais e contábeis já alcançadas dentro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
No entanto, não é improvável que, em um cenário como esse, os países da orla do Pacífico, e até do Índico e da Oceania, acelerem suas próprias negociações, algumas já em curso, com o objetivo de também estabelecer uma vasta área de preferências tarifárias, podendo evoluir, em médio prazo, para um acordo de livre comércio. Não foi por outra razão que alguns países latino-americanos – Chile, Peru, Colômbia e México – decidiram consolidar antigos laços de liberalização comercial parcial em um esquema que leva o significativo nome de “Aliança do Pacífico”.
A preocupação de países visivelmente excluídos desses processos de liberalização comercial pode levar a acordos de integração regional, entre eles, em especial, os do Mercosul, bloco que parece experimentar uma fase de retrocessos econômicos e de certa recaída na retórica integracionista de cunho político com efeitos totalmente inócuos para a integração real de suas economias.

Instituto Millenium: O Brasil enfrenta dificuldades para realizar acordos internacionais por pertencer ao Mercosul. O bloco representa 58% do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina, porém o país enfrenta o protecionismo argentino, o Paraguai foi suspenso e a Venezuela encontra-se em crise econômica. Qual a sua análise sobre o Mercosul?
Almeida: A base de todo empreendimento integracionista é a existência de uma vontade comum aos participantes em adotar as medidas necessárias para viabilizar os requerimentos do processo de desmantelamento de barreiras à formação de um espaço econômico comum. Se, em algum momento, essa comunhão de propósitos existiu entre os membros do Mercosul, essa vontade, há muito, parece ter deixado de existir. Basta observar, no decurso da segunda década do bloco, a adoção progressivamente crescente de medidas unilaterais de caráter exclusivamente nacional que passaram a afetar a conformação jurídica do quadro regional enquanto personalidade de direito internacional sob a forma de união aduaneira.
Todos reconhecem que, a despeito dos avanços realizados nos primeiros dez anos, os impulsos do Mercosul em direção a uma maior liberalização comercial e para a constituição de um espaço econômico unificado no Cone Sul foram paralisados a partir de 1999, e até retrocederam nos anos seguintes. A união aduaneira sequer consolidou-se sob uma autoridade comum, dotada de aplicação uniforme de suas regras, havendo, inclusive, a coexistência de enorme volume de exclusões à Tarifa Externa Comum.
Os governos dos países-membros favoreceram, em diversos setores da área econômica, o retorno a velhas posturas nacionalistas e estatizantes, atitudes que estavam em nítida contradição com os requisitos tradicionais da integração, que são a abertura econômica e liberalização comercial.

Instituto Millenium: O senhor vê solução para o bloco?
Almeida: Para ser bem-sucedido, o Mercosul tem de voltar ao básico, e cumprir o acordado no 1º artigo do Tratado de Assunção (TA), ou então começar por assumir a responsabilidade de efetuar uma reforma profunda de seus instrumentos constitutivos. Um bom começo de um processo de reformas seria um diagnóstico realista dos impedimentos sistêmicos ou contingentes ao acabamento da união aduaneira, a partir do qual se poderia prescrever uma arquitetura institucional, para a qual as autoridades políticas dos atuais parceiros poderiam concordar em dar apoio.
Nenhuma solução “cooperativa” em torno de um processo de integração elude, porém, a necessidade de reformas internas em cada um dos países participantes. E um compromisso inquebrantável com o respeito à legalidade democrática e aos bons princípios do estado de direito seria uma condição essencial para o sucesso de todo e qualquer esquema integracionista que se empreenda na região.
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Comentário recebido da leitora Regina Caldas: 


"Observações bastante pertinentes. Em 91, ao participar de um evento entre as lideranças dos países membros do Mercosul, observei que o mesmo atropelava os procedimentos. Na ânsia de sedimentação, seus membros decidiam precipitadamente..Naquela ocasião, dei como exemplo os passos cuidadosos da CE, em cada etapa do seu processo de integração. Mas o Mercosul, na pressa de consolidação, fazia o contrário. Pularam etapas, não realizaram os testes necessários para correção de caminhos, e não se importaram em dar o tempo necessário à assimilação...Deu nisto". 

domingo, 8 de setembro de 2013

Menos medicos, em Cuba e nos paises vizinhos: a perfeicao da medicina cubana...

Medicina de Cuba é cheia de exemplos a não ser seguidos
Revista Veja, 7/09/2013

Do remédio feito com veneno de escorpião-azul, que serve para todo tipo de câncer mas não cura nenhum, aos abortos em série, a saúde pública em Cuba é uma tragédia

O escorpião-azul (em espanhol, alacrán) é um animal peçonhento só encontrado em Cuba. Desde 1995, cientistas da ilha estudam o seu veneno e garantem que é eficaz no tratamento de vários tipos de câncer. A partir dele, fabricam e comercializam os remédios Escozul e Vidatox. Outra espécie endêmica na ilha é a medicina avessa às evidências. Submeter os estudos a uma publicação científica é considerado traição à pátria comunista, submissão ao imperialismo americano. Não há nenhuma comprovação de que o veneno funciona. 
No Pubmed, a maior base de dados científica sobre saúde no mundo, não há um registro sequer sobre o tal remédio. Sua suposta eficácia é um dos muitos mitos sobre a medicina cubana criados e perpetuados pelos irmãos ditadores Fidel e Raúl Castro para enganar governos incautos como o do Brasil, que pretende contratar 4 000 médicos cubanos até o fim do ano (os primeiros 400 chegaram há duas semanas).
A mentira – e não apenas na medicina  é a principal política de estado na ilha dos irmãos Castro. A atual epidemia de cólera, por exemplo, que as autoridades não conseguem mais esconder, é controlada com um remédio homeopático. “Dar cinco gotas via oral de uma droga homeopática sem eficácia comprovada em um país onde não há tratamento adequado da água e onde a falta de higiene é regra parece uma piada de mau gosto”, diz o médico cubano Eloy González, exilado nos Estados Unidos. 
Para se ter uma ideia de como Cuba está atrasada, a cólera foi erradicada no século XIX em vários países com o saneamento básico. Propagandear a obsoleta medicina cubana como avançada e pioneira é indispensável para a ditadura, que depende da exportação de mão de obra do setor de saúde para se sustentar. Os missionários de jaleco são atualmente a principal fonte de divisas do regime. Em dezesseis escolas de medicina, Cuba formou neste ano mais de 10 000 doutores e outros 20 000 profissionais de outras carreiras de saúde, como enfermagem e nutrição. 
Seria uma notícia boa em 1959, quando a Faculdade de Medicina de Havana era uma das dez melhores do mundo. Hoje o curso é uma vergonha e está em 68º lugar no ranking de qualidade da América Latina. 
Com as missões no exterior, pouquíssimos médicos ficam na ilha, o que levou ao fechamento de 54 hospitais nos últimos três anos. “Antes era preciso levar lençóis, lâmpadas, comida e seringas para o hospital para ser atendido. Daqui a pouco será preciso levar também o médico e a enfermeira”, diz por telefone um morador de Havana, que preferiu não ser identificado. Não é incomum ser atendido por um jamaicano ou um estudante chinês, que falam o espanhol com dificuldade.

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El plan de Brasil de contratar médicos extranjeros preocupa a países vecinos
El gigante sudamericano acepta a profesionales procedentes de países con grave déficit de médicos como Perú o El Salvador, si éstos ejercen en un tercer país con buenas tasas.

 El plan del Gobierno brasileño para contratar médicos extranjeros ha generado preocupación en algunos países vecinos, donde se teme que pueda agudizar el déficit de doctores en zonas rurales y fronterizas, un problema común en toda América Latina.
El programa "Más Médicos", que prevé incentivos para llevar a profesionales de la salud a zonas remotas del país, atrajo en su primera convocatoria a 282 extranjeros, en su mayoría procedentes de España, Argentina, Portugal y Uruguay, y ya ha iniciado una segunda leva, a la que se han inscrito 1.165 facultativos de 65 países.

Para no fomentar la emigración de países con problemas más graves de recursos humanos, el Gobierno de la presidenta Dilma Rousseff exige que el profesional proceda de un Estado que tenga más médicos per cápita que Brasil, donde esa tasa está en 1,8 doctores por cada mil habitantes.También se han ofertado plazas a brasileños y, de forma paralela, se ha incluido en el plan la contratación directa de 4.000 médicos cubanos, a través de acuerdos de cooperación que ambos gobiernos mantienen en el marco de la Organización Panamericana de la Salud (OPS).

Los únicos países latinoamericanos que cumplen este requisito son Cuba (6,7), Uruguay (3,7) Argentina (3,2), México (2) y Venezuela (1,9), según cifras de la Organización Mundial de la Salud (OMS).

Cruzada anti-idiotas; entrevista com Olavo de Carvalho - Marco Rodrigo Almeida (FSP)

Folha de S.Paulo, 08/09/2013 - 03h10

Cruzada anti-idiotas | Entrevista com Olavo de Carvalho

MARCO RODRIGO ALMEIDA

RESUMO Novo livro de Olavo de Carvalho, que reúne ensaios publicados em jornais e revistas, tornou-se um best-seller quase instantâneo. Em entrevista, o filósofo radicado nos EUA analisa criticamente tanto a esquerda brasileira como uma parte da "direita nascente", que ele diz serem formadas e formadoras de idiotas.
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O mínimo que todo mundo precisa saber para não ser um idiota não é tão mínimo assim. Ao menos na visão de Olavo de Carvalho, ela engloba quase 200 textos, espalhados por 616 páginas. Abarca uma miríade de temas --como história, democracia, religião, ciência, linguagem, educação, guerra (mas não só). Todo esse material, publicado originalmente pelo filósofo em jornais e revistas entre 1997 e 2013, é agora reunido em "O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota" [Record; 616 págs.; R$ 51,90].

Felipe Moura Brasil foi responsável pela seleção do material. "E agora o reparto com você, leitor, na esperança de que também se afaste da condição de bichinho e se eleve à altura dos anjos", escreve o jornalista na empolgada apresentação do volume.
Apontar um idiota, reconhece o livro, é tarefa fácil. Mais difícil é não sê-lo, nem fazer papel de um. Na nada modesta cruzada de livrar o leitor de toda forma de idiotice, o volume elege como alvo principal o pensamento de esquerda que considera hegemônico no país.
Dispara contra políticos e intelectuais (também sobra munição para a "direita nascente"), artistas, o MST, o movimento gay e as recentes manifestações no país. O autor destas parcas linhas também leva seu quinhão de farpas.

Olavo de Carvalho é um dos principais representantes do pensamento conservador no Brasil. Publicou diversos livros ("O Imbecil Coletivo", "O Futuro do Pensamento Brasileiro") e criou o site Mídia sem Máscaras (www.midiasemmascara.org).
Seus textos e aulas on-line têm conquistado um público fiel ao longo dos anos. O novo livro vendeu em apenas uma semana, segundo a editora Record, 10 mil exemplares. Dos Estados Unidos, onde vive desde 2005, Olavo de Carvalho concedeu à Folha a seguinte entrevista por e-mail.
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Folha - O título do livro é um tanto provocativo, até mesmo para atrair o leitor. Mas não seria pouco filosófico chamar de "idiota" quem não compartilha certas ideias?
Olavo de Carvalho - Ninguém é ali chamado de idiota por "não compartilhar certas ideias", e sim por pretender julgar o que não conhece, por ignorar informações elementares indispensáveis e obrigatórias na sua própria área de estudo ou de atuação intelectual.
Nesse sentido, creio ter demonstrado meticulosamente, neste e em outros livros, que alguns dos principais líderes intelectuais da esquerda brasileira, assim como uns quantos da direita nascente, são realmente idiotas e fabricantes de idiotas.

O sr. comenta que a normalidade democrática é a concorrência "efetiva, livre, aberta, legal e ordenada" entre direita e esquerda. Mas também que todo esquerdista é "mau, sem exceção". Como é possível equilibrar esses dois aspectos?
Depende do que você chama de esquerda. Há uma esquerda que aceita concorrer democraticamente com a direita, sair do poder quando perde as eleições e continuar disputando cargos normalmente sem quebrar as regras do jogo. O Partido Trabalhista inglês é assim. Nosso antigo PTB era assim. Disputavam o poder, mas sabiam que, sem uma oposição de direita, perderiam sua razão de ser.
Há uma segunda esquerda que deseja suprimir a direita pela matança dos seus representantes reais ou imaginários. Esta governa Cuba, a China, a Coreia do Norte etc., assim como governou a URSS e os países satélites.
Há uma terceira esquerda que, aliada da segunda, diverge dela em estratégia: pretende conquistar primeiro a hegemonia, de modo que, nos termos de Antonio Gramsci, o seu partido se torne "um poder onipresente e invisível, como um mandamento divino ou um imperativo categórico"; e, em seguida, tendo controlado a sociedade por completo, apossar-se do Estado quando já não haja nem mesmo a possibilidade remota de uma oposição de direita. Só aí virá um toque de violência, para dar acabamento à obra-prima.
A existência da primeira esquerda é essencial ao processo democrático. A segunda e a terceira devem ser expulsas da política e dos canais de cultura porque sua essência mesma é a supressão de todas as oposições pela violência ou pela fraude e porque se infiltram na primeira esquerda, corrompendo-a e prostituindo-a.
Ninguém pode apoiar esse tipo de esquerda por "boa intenção". Você já viu algum militante dessa esquerda sonhar em implantar o socialismo e depois ir para casa e viver como um humilde operário do paraíso socialista? Eu nunca vi.
Cada militante se imagina um futuro primeiro-ministro ou chefe da polícia política. Quando matam, é para conquistar o direito de matar mais, de matar legalmente. São porcos selvagens -sem ofensa aos mimosos animais.

O sr. argumenta que o brasileiro é maciçamente conservador, mas desprovido de representação política. Por que não temos políticos e partidos que tomem tal bandeira?
Já está respondido na pergunta anterior. O método da "ocupação de espaços" realizou no Brasil o ideal gramsciano de fazer com que todo mundo nas classes falantes seja de esquerda mesmo sem sabê-lo, de modo que toda ideia que pareça "de direita" já seja vista, instintivamente, sob uma ótica deformante e caluniosa, com chances mínimas ou nulas de argumentar em defesa própria.
Suas próprias perguntas ilustram o sucesso dessa operação no Brasil. Você pode não ser um militante de esquerda, mas raciocina como se fosse, porque na atmosfera mental criada pela hegemonia esquerdista isso é a única maneira "normal" de pensar, às vezes a única maneira conhecida.
Por isso, você, ao formular as perguntas, fala em nome dos meus críticos de esquerda, como se eles, e não o público que gosta do que escrevo, fossem os juízes abalizados aos quais devo satisfações.

Suas ideias podem ser consideradas de direita?
Algumas sim, outras não. Nem tudo no mundo cabe numa dessas categorias. Você não viu a turma da direita enfezada cair de paus e pedras em cima de mim quando afirmei que homossexualismo não é doença nem "antinatural"? É ridículo tomar uma posição ideológica primeiro e depois julgar tudo com base nela por mero automatismo, embora no Brasil de hoje isso seja obrigatório.

Em quais pontos suas ideias podem ser classificadas de direita e em quais não?
Não tenho a menor ideia, nem me interessa. O coeficiente de esquerdismo ou direitismo está antes nos olhos do observador e varia conforme as épocas e os lugares.
Só gente muito estúpida --isto é, a esquerda brasileira praticamente inteira-- imagina que direita e esquerda são categorias metafísicas imutáveis, a chave suprema para a catalogação de todos os pensamentos.
Outros, principalmente na direita, dizem que direita e esquerda não existem mais, o que é também uma bobagem, porque basta uma corrente se autodefinir como "de esquerda" para que todos os que se opõem a ela passem a ser julgados como se fossem a "direita", querendo ou não. A esquerda define-se a si mesma e define seu adversário, por menos que este se encaixe objetivamente na definição.
Nos EUA, alinho-me nitidamente à direita, porque ela existe como agente histórico, é definida e é autoconsciente, mas no Brasil essas coisas são uma confusão dos diabos na qual prefiro não me meter. O sr. Lula não foi, na mesma semana, homenageado no Fórum Econômico de Davos por sua adesão ao capitalismo e no Foro de São Paulo por sua fidelidade ao comunismo?
A última moda na esquerda nacional é cultuar o russo Alexandre Duguin, que é o suprassumo do reacionarismo, enquanto na "direita liberal" muitos adoram abortismo e casamento gay, pontos essenciais da estratégia esquerdista. Prefiro manter distância da direita brasileira, seja isso lá o que for.

No capítulo sobre o golpe de 64, o senhor diz que Castelo Branco foi "um grande presidente", e Médici, "o melhor administrador que já tivemos". Comenta ainda que está na hora de repensar o governo militar. Qual é sua opinião hoje?
No Brasil de hoje não se pode louvar um mérito específico e limitado sem que imediatamente a plateia idiota transforme isso numa adesão completa e incondicional. Neste país, as pessoas, mesmo com algo que chamam de "formação universitária", só sabem louvar ou condenar em bloco, perderam totalmente o senso das comparações, das proporções e das nuances. Isso é efeito de 30 anos de deseducação.
Os méritos dos governos militares no campo econômico, administrativo e das obras públicas são óbvios e, comparativamente, bem superiores a tudo o que veio depois. Ao mesmo tempo, esses governos destruíram a classe política, infantilizaram os eleitores e, por timidez caipira de entrar na guerra ideológica ostensiva, preferiram matar comunistas no porão (embora em doses incomparavelmente menores do que os próprios comunistas matavam em Cuba ou no Camboja) em vez de mover uma campanha de esclarecimento popular sobre os horrores do comunismo. Tudo isso foi uma miséria.
Foi o que eu sempre disse, mas, hoje em dia, se você reconhece uma pontinha de mérito em alguém, já o transformam em devoto partidário dele. Não distinguem nem mesmo entre aplaudir um governo enquanto ele está no poder e tentar avaliá-lo com algum senso de objetividade histórica depois de extinto, mesmo se você, como foi o meu caso, o combateu enquanto durou. O fanatismo idiota tornou-se obrigatório. É disso que o meu livro fala.

O sr. é bastante crítico ao movimento gay. Não acredita que ele foi o responsável por conquistas importantes?
No começo, quando lutava apenas contra a discriminação e a violência anti-homossexual, esse movimento parecia bom e necessário. Mas isso foi só a fachada, a camuflagem do que viria depois: um projeto de dominação total que proíbe críticas e não descansará enquanto não banir a religião da face da Terra ou criar em lugar dela uma pseudorreligião biônica, dócil às suas exigências.

O que o sr. pensa sobre o projeto da cura gay?
Ninguém pede ajuda a um psicólogo para livrar-se de uma conduta indesejada se é capaz de controlá-la pessoalmente ou se não quer abandoná-la de maneira alguma. Quando alguém vai a uma terapia com o propósito de livrar-se do homossexualismo, é porque não o vivencia como uma tendência natural da sua pessoa, e sim como uma compulsão neurótica que o escraviza.
É bem diferente de alguém que é homossexual porque quer, ou de alguém que deixou de ser homossexual porque quis e teve forças para isso. Proibir o tratamento de uma compulsão é torná-la obrigatória, é fazer de um sintoma neurótico um valor protegido pelo Estado. É uma ideia criada por psicopatas e aplaudida por histéricos.

O sr. apoiou a invasão do Iraque em 2003. Nos anos seguintes, vários abusos e atrocidades dos soldados americanos foram divulgados. Acredita que, no saldo geral, a guerra foi positiva?
Não apoiei a invasão do Iraque. De início fui contra. Foi só depois, quando os americanos começaram a exumar os cadáveres das vítimas de Saddam Hussein e viram que eram mais de 300 mil, que comecei a achar que a guerra era moralmente justificável.
Das tais "atrocidades americanas", a maioria é pura invencionice, e as genuínas, inevitáveis em qualquer guerra, nem de longe se comparam ao que Saddam Hussein fez contra o seu próprio povo em tempo de paz.
A guerra, em si, foi positiva do ponto de vista moral, mas a tentativa de forçar o Iraque a adotar uma democracia de tipo ocidental foi ridícula e suicida. A primeira Guerra do Golfo foi bem-sucedida porque se limitou às metas militares, sem sonhos "neocons" de reformar o mundo.

E como o sr. avalia as recentes manifestações em cidades do Brasil?
Tudo começou como uma tentativa de golpe, planejada pelo Foro de São Paulo [coalizão de partidos de esquerda latino-americanos] e pelo governo federal para fazer um "upgrade" no processo revolucionário nacional, passando da fase de "transição" para a da implantação do socialismo "stricto sensu".
Isso incluía, como foi bem provado, o uso de gente treinada em guerrilha urbana para espalhar a violência e o medo e lançar as culpas na "direita". Aconteceu que os planejadores perderam o controle da coisa quando toda uma massa alheia à esquerda saiu às ruas, e eles decidiram voltar atrás e esperar por uma chance melhor. Isso foi tudo. Não há um só líder da esquerda que não saiba que foi exatamente isso.

Mais Medicos e as taticas escravocratas dos companheiros - Percival Puggina


INIMIGOS MÉDICOS
Percival Puggina
Zero Hora, 8/09/2013


Quando viu o povo na rua, cobrando atenção à Saúde Pública, Dilma adotou prática tão antiga quanto namorar no portão. Escolheu um inimigo e o apontou à sociedade: os médicos brasileiros. A partir daí, jogou contra eles os raios e trovões que conseguiu recolher em seu repertório.

          A saúde pública tem problemas. Falta atendimento, dinheiro, leitos. São longas as filas. Espera-se meses por um exame e anos por uma cirurgia. De quem é a culpa? Segundo a presidente, a culpa é dos médicos. Sua Excelência cuidou de passar à sociedade a impressão de que eles preferem viver nos grandes centros não porque ali estejam os melhores hospitais, laboratórios e equipamentos, mas porque ali estão os melhores restaurantes, clubes e cinemas. Foi para a tevê tecer ironias com o fato de que os primeiros a fazerem opções no "Programa Mais Médicos" preferiram localidades litorâneas. A compreensão dessa mensagem pelos sem discernimento (estamos falando de dezenas de milhões) fica assim: os doutores gostam, mesmo, é de praia.

          Através dessas paquidérmicas sutilezas, o governo tenta convencer a sociedade de que os médicos não vão para as pequenas comunidades porque se lixam para as carências com que ele, governo, se preocupa. Opa! Preocupa-se agora, preocupa-se depois das vaias, preocupa-se depois das passeatas. E esquece que, pelos mesmos motivos, milhões de outros profissionais também preferem trabalhar em centros urbanos mais dinâmicos. Identificado o inimigo, a presidente partiu para o ataque. Criou um 2º ciclo de formação médica, obrigatório, a serviço do SUS, com duração de dois anos, a ser prestado onde houver necessidade. Fez com que os médicos perdessem a exclusividade de diversas atribuições relativas a diagnósticos e prescrição de tratamentos. Jogou na lixeira a insistente e lúcida recomendação no sentido de que seja criada na área médica uma carreira de Estado, semelhante à que existe para as carreiras jurídicas. Explico isso melhor: espontaneamente, nenhum juiz ou promotor vai solicitar lotação em Paranguatiba do Morro Alto. No entanto, como etapa de uma carreira atraente e segundo regras bem definidas, sim. É desse modo que se resolvem as coisas numa sociedade de homens livres.

          Nada revela melhor a vocação totalitária do partido que nos governa do que este episódio. É uma vocação que dispensa palavras, que atropela leis e se expressa nas grandes afeições. Cubanas, por exemplo. A vinda dos médicos arrematados em Castro & Castro Cia. Ltda. permite compor um catálogo de transgressões aos princípios da liberdade individual, da dignidade da pessoa humana, da justiça, da equidade, da proporcionalidade, do valor do trabalho. Repugna toda consciência bem formada a ideia de que um país possa alugar seus cidadãos a outro, enviá-los aos magotes como cachos de banana, beneficiar-se financeiramente dessa operação em proporções escandalosas e ainda fazer reféns as respectivas famílias por garantia da plena execução do mandado. E há quem afirme que toda oposição a uma monstruosidade dessas é "preconceito ideológico"! Pois eu digo diferente: acolher como louvável semelhante anomalia política é coisa que só se explica por desvio do juízo moral.

          Dilma e os seus gostariam de dispor dos brasileiros como coisas suas, assim como os Castro dispõem dos cubanos. Sendo impossível, buscam-nos lá, do mesmo modo como, antigamente, eram trazidos escravos das feitorias portuguesas no litoral africano.

Zero Hora, 8 de setembro de 2013

Unasul em boas maos, em otimas maos, eficientes, rapidas... - Editorial Estadao

Vexame na Unasul

08 de setembro de 2013 | 2h 08
Editorial O Estado de S.Paulo
O comunicado final da mais recente reunião de cúpula da União de Nações Sul-Americanas (Unisul) enfatizou o compromisso com "valores comuns como a democracia, o Estado de Direito, respeito absoluto pelos direitos humanos e a consolidação da América do Sul como uma zona de paz". Se é assim, nada justifica a entrega da presidência da Unasul ao Suriname, governado pelo notório Dési Bouterse.
A ficha corrida do presidente surinamês é extensa. Ele foi ditador entre 1980 e 1987, após um sangrento golpe militar, e de 1990 a 1991, também depois de uma quartelada. É acusado de diversas violações de direitos humanos, em especial o assassinato de opositores - no caso mais rumoroso, que gerou protestos no mundo todo, 15 jovens que haviam criticado a ditadura foram torturados e mortos pelos soldados de Bouterse na calada da noite. Em sua defesa, Bouterse diz que não foi ele quem "puxou o gatilho".
Em 2000, o ex-ditador foi condenado in absentia pela Justiça da Holanda a 11 anos de prisão sob acusação de tráfico de cocaína. Telegramas vazados pelo WikiLeaks mostram que Bouterse permaneceu no negócio das drogas pelo menos até 2006, organizando remessas de cocaína colombiana para a Europa, via Brasil, e há relatos de ex-colaboradores segundo os quais ele forneceu armas às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em troca de cocaína.
Há uma ordem de prisão contra Bouterse emitida pela Interpol, razão pela qual ele só consegue viajar por lugares que ignoram essa ordem e o reconhecem não como criminoso condenado, mas como chefe de Estado. Bouterse, por exemplo, esteve recentemente no Brasil, como convidado da presidente Dilma Rousseff, para prestigiar a visita do papa Francisco.
O ex-ditador, que nunca deixou de ser a figura mais influente do Suriname, tornou-se presidente em julho de 2010, em eleição indireta - ele foi escolhido pelo Parlamento graças a uma aliança com o partido de Ronnie Brunswijk, que um dia foi o principal inimigo de Bouterse e hoje é o homem mais rico do Suriname. Brunswijk também foi condenado na Holanda por tráfico de drogas.
Uma vez de volta ao poder, Bouterse nomeou o filho, Dino - outro narcotraficante condenado, inclusive no Suriname -, para chefiar a unidade de combate ao terrorismo no país. Dino esteve diversas vezes na Venezuela para apoiar Nicolás Maduro na sucessão do caudilho Hugo Chávez e também para negociar com as Farc a troca de armas por cocaína, segundo o jornal venezuelano El Nacional.
Foi justamente Dino o pivô do maior constrangimento da Unasul até a presente data. Poucas horas antes de seu pai tomar posse na presidência da entidade, na presença dos principais chefes de Estado do continente, ele estava sendo preso no Panamá portando cerca de 10 quilos de cocaína e um lança-granadas. Extraditado para os Estados Unidos, ele poderá pegar prisão perpétua.
Nada disso foi o bastante para constranger os dignitários sul-americanos reunidos em Paramaribo, a capital surinamesa. Nenhum presidente considerou a hipótese de rever a nomeação de Bouterse. Como se nada tivesse acontecido, a Unasul desejou "sucesso" ao ex-ditador condenado por narcotráfico.
Na mesma ocasião, como a comprovar a total desmoralização da Unasul, os presidentes renderam homenagem a Hugo Chávez, ressaltando "a dor do vazio que sua ausência nos deixou", qualificando-o como "símbolo de uma geração de estadistas" e exaltando seu "impulso visionário" para a criação da entidade. Entre as importantes decisões tomadas pela Unasul nessa vergonhosa cúpula está o compromisso em "participar e auxiliar nas atividades do Ano Internacional da Quinoa".
Seria apenas cômico, não fosse a Unasul, ao menos no papel, a principal iniciativa de integração continental. O Brasil poderia ter evitado o vexame estrelado por Bouterse, se seu governo não estivesse ideologicamente atado a compromissos que fazem da Unasul um palanque bolivariano.

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