quinta-feira, 20 de julho de 2023

Xi Jinping meets Henry Kissinger as US seeks to defrost China ties - Tessa Wong (Asia Digital Reporter, BBC News)

Xi Jinping meets Henry Kissinger as US seeks to defrost China ties

Chinese president Xi Jinping has given a warm welcome to former top diplomat Henry Kissinger, as the US pursues closer ties with China.

Mr Kissinger's surprise trip to the Chinese capital comes amid a flurry of visits by top US officials.

The former secretary of state, who is 100 years old, played a crucial role in helping China emerge from diplomatic isolation in the 1970s.

The US has stressed he is visiting in his capacity as a private citizen. BUT GIVEN HIS OUTSIZED STATURE IN CHINA, HE COULD ACT AS A BACKCHANNEL FOR US-CHINA NEGOTIATIONS.

State television showed Mr Xi smiling as he told Mr Kissinger: "I'm very glad to see you, sir."

They met at the Diaoyutai State Guesthouse, a more intimate space than the sprawling Great Hall of the People where official meetings with foreign diplomats are usually hosted.

Diaoyutai was also the place where, half a century ago, Mr Kissinger met Chinese officials in a secret visit that helped to kick-start the normalisation of US-China ties, noted Mr Xi.

"We will never forget our old friends, and will not forget your historical contributions to develop US-China relations and friendship between the two peoples," he added.

Mr Xi's affectionate tone mirrored the conciliatory messaging from other top officials who met Mr Kissinger after he touched down on Monday.

Chinese statements on his meetings with top diplomat Wang Yi and defence minister Li Shangfu emphasised the need for respect, co-operation and "peaceful co-existence" between the two superpowers.

The read-outs also quoted Mr Kissinger as saying he was a "friend of China", that "neither the United States nor China can afford to treat the other as an adversary", and that their relations would be "central to the peace in the world and to the progress of our society".

Chinese state media have cast Mr Kissinger's visit in a positive light, while on social media many marvelled at Mr Kissinger's stamina, discussing his trip with the Weibo hashtag "Kissinger can still fly to Beijing for a business trip despite being 100 years old".

But some online also lamented that the US was sending centenarians to promote ties. "Politicians with great wisdom are getting fewer," said one user.

'US needs Kissinger's diplomatic wisdom'

A State Department spokesman earlier this week said that they were aware of Mr Kissinger's trip and "would not be surprised" if he decided to brief them upon his return.

But they also stressed he was there "under his own volition" and not acting on behalf of the US government.

As a private citizen, Mr Kissinger can be more frank in his discussions with Mr Xi and other officials, affording him more leeway in presenting US concerns and demands.

It is also less controversial for him to meet figures such as Mr Li, who has been under US sanctions since 2018 for purchasing arms from Russia. Last month Beijing refused to let Mr Li meet his US counterpart Lloyd Austin at a forum in Singapore, citing the sanctions.

It may be of little surprise that Mr Kissinger decided to take matters into his own hands with his visit.

In an interview in December, Mr Kissinger had criticised the Trump and Biden administrations' approaches to China. He said the current US government was attempting a dialogue that "usually begins with a statement of Chinese iniquities" and that discussions were "stymied".

While Mr Kissinger is no stranger to China - he has visited it more than 100 times and last met Mr Xi in 2019 - this trip comes at a turning point in the US-China relationship.

After months of hostility exacerbated by this year's spy balloon incident, diplomatic negotiations appear to be back on track with China welcoming a series of top US officials in the space of a few weeks.

Apart from Secretary of State Antony Blinken who visited last month, Mr Kissinger is the only US figure Mr Xi has met in recent weeks - a measure of the respect the veteran diplomat still commands in China.

Treasury Secretary Janet Yellen and US special envoy for climate John Kerry have also paid visits to Beijing, but did not get face time with China's president.

With its overtly warm reception of Mr Kissinger, Beijing has clearly signalled it wants more engagement from the US, with Mr Wang saying "the US' China policy needs Kissinger's diplomatic wisdom and Nixon's political courage".

But this will not change the fact that China will, in the end, stick to its priorities, said Wen-ti Sung, a political scientist with the Australian National University.

"Beijing may potentially consider making token gestures of goodwill after Kissinger's trip both as a thankyou to its friend and boost Kissinger's standing," he told the BBC.

"But do not expect it to meaningfully shift the fundamentals driving US-China relations, which will be governed not by individual considerations, but by what Beijing sees as its own national interests."

Though Mr Kissinger has a controversial reputation in other parts of Asia for his role in the Vietnam War, in China he remains highly regarded for aiding the country's re-engagement with the world.

In 1971, while the US and China officially had no ties, Mr Kissinger had paid clandestine visits to Beijing to arrange a trip by then-US President Richard Nixon.

The following year Mr Nixon landed on Chinese soil and met top leaders including Mao Zedong. It paved the way for the normalisation of US-China diplomatic relations and the opening-up of China's economy.

Additional reporting by BBC Monitoring.



Sobre o atual estado das relações internacionais - Paulo Roberto de Almeida

Sobre o atual estado das relações internacionais 

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Nota sobre os impasses atuais no cenário internacional.

  

Vamos primeiro ao terreno das responsabilidades no atual quadro conflito das relações internacionais:

 

A responsabilidade principal pela atual GUERRA FRIA cabe inteiramente aos EUA, ao elegerem, equivocadamente, a China como sua adversária estratégica e ao tentarem, inutilmente, contê-la. O mundo poderia ter evoluído de forma diferente se não fosse a postura arrogante do grande Hegemon, o império americano, independentemente da postura interna da ditadura leninista da China, que preside à maior aventura capitalista dirigida da história.

Quanto à Rússia, trata-se apenas de uma ditadura cleptocrática gangsterista, responsável pela GUERRA ATUAL contra a Ucrânia, o grande fator de rompimento da paz e da segurança internacional, em face da qual a ONU tem sido incapaz de atuar. A Rússia já não tem nenhum poder econômico efetivo no mundo, a não ser o de chantagear outros países com seu poderio atômico e algumas commodities, mas que podem ter alternativas de mercado.

 

Vamos agora ao atual sistema defeituoso da ordem mundial: 

 

É um fato que o CSNU foi concebido como um esquema de monopólio de poder metternichiano sobre o resto do mundo. Isso ocorreu em Viena (1815), Paris (1919), Yalta (1945), e está ocorrendo agora, com a visita do atual Metternich a Beijing. Para mudar esse quadro, existem teoricamente duas vias:

1) Uma ruptura catastrófica e imprevisível da atual ordem mundial, o que só depende da loucura dos atuais dirigentes;

2) Um concerto da quase totalidade dos membros da ONU em favor de uma abolição do direito de veto, a única reforma realmente necessária da Carta da ONU, no atual jogo do poder global, seguida da aplicação do dispositivo que regula uma Comissão Militar da ONU, com mandatos atribuídos por um novo CSNU, ampliado, em bases de maioria simples.

As duas “opções” representariam uma espécie de ruptura, mas a primeira violenta e possivelmente desastrosa, a segunda institucional e quase consensual, o que de toda forma se afigura improvável.

 

O que é mais provável de ocorrer então?

 

O mais provável é que nenhuma dessas rupturas ocorra, e que o mundo permaneça no atual estado de tensão, com uma nova (sempre presente) corrida armamentista, que pode até ter spill-overs para a indústria civil, mas se daria, como sempre ocorreu, em detrimento dos países em desenvolvimento.

Este tem sido o cenário global dos últimos cinco séculos ou mais, ou seja, desde que o mundo se tornou global, com ascensão e declínio de impérios e de Estados nacionais, alguns mais poderosos do que outros, e dispostos a aumentar seu poder relativo no concerto conjuntural das relações internacionais.

 

Estamos numa espécie de Westfália da era atômica. Esta talvez seja a única garantia da não ocorrência de um novo confronto global, mas as proxy wars continuarão...

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4440, 10 julho 2023, 2 p.


A novela do acordo Mercosul-UE ainda não acabou - Eliane Oliveira (O Globo)

 Governo vai propor à UE vantagens para firmas brasileiras em licitação 


Brasil vai propor à UE vantagem para firmas brasileiras em licitação
Governo fecha contraposta para avançar com o acordo de livre comércio e envia texto aos outros parceiros do Mercosul
Por Eliane Oliveira — Brasília e Bruxelas
O Globo, 20/07/2023 

O governo Lula decidiu que vai exigir dos europeus ao menos três alterações nas chamadas “compras governamentais” para prosseguir com a negociação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE).

Em primeiro lugar, o Brasil quer que empresas da Europa que ganharem concorrências para fornecer ao governo brasileiro sejam obrigadas a oferecer algum tipo de contrapartida, como investimentos no país e transferência de tecnologia.

Em segundo, o governo propõe, nas disputas, uma margem de até 20% no preço do bem ou serviço em favor das empresas brasileiras. Ou seja, elas ganhariam a licitação mesmo com preço até 20% mais alto que o de europeias. Por fim, a ideia é que essa seja uma vantagem também para empresas de médio e grande porte do Brasil, não só para pequenas.

As compras feitas pelas Forças Armadas e, em alguns casos pontuais, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) já eram exceções no texto fechado há três anos por negociadores dos dois blocos. A ideia agora é retirar do acordo todas as aquisições do SUS.

A isonomia a empresas brasileiras e europeias nas disputas por contratos do governo é um dos pontos de maior discordância entre o Brasil e a União Europeia para que o acordo entre em vigor. Ontem, em Bruxelas, o presidente Lula afirmou que o Mercosul vai enviar sua contraproposta aos europeus em um prazo “de duas a três semanas”.

Segundo interlocutores envolvidos diretamente no assunto ouvidos pelo GLOBO, a contraproposta já foi encaminhada pelo Brasil aos demais integrantes do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai) e deverá ser apresentada aos europeus na primeira quinzena de agosto. Os termos também valerão para as concorrências públicas destes países.

— Nós fizemos a resposta brasileira. Está sendo discutida com os quatro países e, daqui a duas semanas, três semanas, vamos entregar definitivamente a proposta para a UE — disse Lula, em entrevista sobre a reunião de líderes da América Latina e UE.

Pela nova proposta, quanto mais sustentáveis ambientalmente forem as empresas brasileiras, mais altos os percentuais que elas poderiam ter como vantagem em uma licitação, até esse teto de 20%. No documento fechado em 2019, não havia previsão desse tipo de compensação nas compras governamentais, apenas uma margem de 10% restrita a micro e pequenas empresas, explicou um técnico do governo.

Aprovado na sexta-feira por Lula, o documento é uma resposta ao instrumento adicional ao acordo apresentado pela UE em março ao Mercosul. O texto prevê sanções em caso de descumprimento de compromissos ambientais.

A contraproposta não fala em retaliações, reforça os compromissos assumidos pelo Brasil — como o fim do desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 — e sugere parcerias.

O novo texto elaborado pelo Brasil está literalmente nas mãos dos demais sócios do país no Mercosul. Não foram feitas versões digitais, apenas de papel, para evitar vazamentos, ressaltou uma fonte.

No caso do SUS, um dos argumentos é o de que as negociações entre Mercosul e UE foram concluídas em meados de 2019, antes da Covid-19. O Brasil se viu refém da importação de insumos para vacinas e equipamentos de respiração artificial, o que reforçou a avaliação de que o setor é estratégico. As compras públicas são um instrumento para incentivar a produção local de insumos médicos.

A única exceção prevista no texto atual é para parcerias de desenvolvimento tecnológico com o setor privado. Com as novas regras propostas, o Brasil espera fortalecer a indústria nacional.

Em entrevista ao GLOBO, o assessor para assuntos internacionais de Lula, Celso Amorim, reforçou a motivação:

— Há um desejo de reindustrialização. Não é uma repetição do modelo antigo, mas mais adequada ao meio ambiente, ao clima. Isso tem que ser com algum apoio do Estado.

Em compras governamentais, o governo quer desenvolver uma política nacional de offset (compensações ou contrapartidas) e margens de preferência, que se estenderia tanto à UE como a outros parceiros internacionais. São mecanismos previstos na nova Lei de Licitações (14.133), que vai substituir a 8.666 a partir de 2024, explicou um interlocutor do governo.

As hipóteses de execução dessa política são variadas. Em uma pandemia, por exemplo, o fornecedor de respiradores teria de transferir tecnologia a fabricantes nacionais. Ou um grupo escolhido para construir uma rodovia teria de contratar empresas de determinado município para reflorestar as margens da estrada.

A expectativa é que as negociações entre Mercosul e UE sejam concluídas até o fim deste ano. O governo avalia que os europeus não devem criar problemas em compras governamentais, pois “o mundo inteiro está indo nessa direção”, priorizando a economia verde. A avaliação é que haverá maior dificuldade na aprovação do tratado nos 27 parlamentos. A equipe de Lula viu a carta adicional ao acordo (side letter, em inglês) da UE como “ameaçadora”. Para integrantes do governo, é preciso equilíbrio, para que os dois lados ganhem. (Colaborou Paola de Orte, especial para O GLOBO)

Conflito na Ucrânia revive batalhas da Segunda Guerra, 80 anos depois - Andrew E, Kramer (NYT, OESP)

 Conflito na Ucrânia revive batalhas da Segunda Guerra, 80 anos depois 

Andrew E. Kramer
THE NEW YORK TIMES, 19/07/2023

 Em meio a rochas enormes, pneus usados e restos de lata-velha, Oleksandr Shkalikov aventurou-se no leito seco do vasto reservatório. Um lembrete perturbador, de batalhas sucedidas há muito neste mesmo local no sul da Ucrânia, jazia na paisagem desolada: uma suástica esculpida em pedra apareceu no fundo do lago depois que as águas baixaram. O ano de “1942′', indicando o momento do entalhe, estava escrito ao lado.

“É a história se repetindo”, afirmou o piloto de tanques Shkalikov, que estava de licença do Exército ucraniano, a respeito do entalhe da época da Segunda Guerra. Ele notou a coincidência: a suástica ficou visível em razão de um ato de guerra mais recente; a explosão da Represa de Kakhovka, em junho, drenou um reservatório do tamanho do Grande Lago Salgado de Utah.


“Nós estamos travando esta guerra no mesmo local e com as mesmas armas” da Segunda Guerra, afirmou ele, evocando a artilharia pesada e os tanques que ainda forjam o curso dos combates.

A Segunda Guerra tem constituído um campo de batalha ideológico no atual conflito na Ucrânia, com a Rússia acusando falsamente o governo em Kiev de neofascismo e citando essa mentira como justificativa para sua invasão. O histórico de guerra no território ucraniano também brota no campo de batalha — e não apenas na forma de artefatos encontrados no solo, mas também nas lições que a Ucrânia aprendeu com uma guerra travada muito tempo atrás.

Um monumento em homenagem aos soldados que morreram na Segunda Guerra Mundial perto da linha de frente na região de Zaporizhzhia, Ucrânia, em 6 de julho de 2023.
Um monumento em homenagem aos soldados que morreram na Segunda Guerra Mundial perto da linha de frente na região de Zaporizhzhia, Ucrânia, em 6 de julho de 2023.  Foto: David Guttenfelder / NYT

Contornos do terreno e leitos de rios com frequência direcionam os Exércitos de hoje para os mesmos locais em que algumas das mais ferozes batalhas da Segunda Guerra ocorreram quando tropas nazistas e soviéticas varreram vales e vastidões de planícies abertas na Ucrânia.

De fato, os locais de algumas batalhas cruciais da guerra atual coincidiram tanto com áreas de batalhas da Segunda Guerra, afirma o Exército da Ucrânia, que seus soldados chegaram a buscar abrigo em bunkers de concreto construídos 80 anos atrás no entorno de Kiev. E descobriram ossos de soldados alemães e cápsulas de projéteis usados pelos nazistas enterrados quando cavaram trincheiras no sul do país.

O começo da Segunda Guerra foi em 1939 em território que pertence atualmente à Ucrânia, quando a União Soviética invadiu uma região então controlada pela Polônia, no oeste ucraniano, num momento em que os soviéticos e a Alemanha nazista compunham uma aliança. Quando seu pacto se rompeu, em 1941, os alemães atacaram a União Soviética de oeste para leste através da Ucrânia. A maré da guerra mudou em 1943, quando a Alemanha foi derrotada na Batalha de Stalingrado; e o Exército Vermelho atacou, então, os nazistas de leste para oeste, novamente atravessando a Ucrânia.

Um dos primeiros sucessos dos alemães no início da guerra ocorreu na Batalha do Mar de Azov, em 1941, quando as tropas nazistas avançaram de Zaporizhzhia para Melitopol. Ao longo de três semanas, as forças alemãs atravessaram esse terreno para se posicionar para atacar a Crimeia e cercar os soldados do Exército Vermelho na região de Kherson.

A Ucrânia ecoa atualmente aquela ofensiva da Segunda Guerra, combatendo em linhas a sudeste de Zaporizhzhia num trajeto que os militares ucranianos chamam de “direção Melitopol”. O objetivo estratégico é o mesmo de oito décadas atrás: isolar os soldados inimigos na região de Kherson e ameaçar a Crimeia; mas as tropas ucranianas estão se movimentando muito mais vagarosamente, ganhando poucos quilômetros em mais de um mês de operações.

“Paralelos históricos, infelizmente ou felizmente, não param de emergir”, afirmou conselheiro do generalato ucraniano Vasil Pavlov, que estuda em profundidade as semelhanças entre as duas guerras. Estrategicamente, afirmou ele, os generais da Ucrânia tiveram como exemplo direto a história da Segunda Guerra ao definir a defesa da capital, Kiev, no ano passado.

Dos primeiros dias da guerra atual, o Exército russo avançou por Belarus na direção das várzeas do Rio Irpin — mas logo as forças russas souberam que os ucranianos tinham explodido uma represa e inundado uma vasta área de planícies, bloqueando seu avanço. Foi uma reprise de um truque soviético de 1941, quando Moscou explodiu uma represa no Rio Irpin para bloquear um ataque de tanques alemão, afirmou Pavlov.

Uma granada da época da Segunda Guerra Mundial no rio Dnipro foi revelada quando as águas baixaram após a destruição da barragem de Kakhovka, na região de Zaporizhzhia, Ucrânia, em 11 de julho de 2023.
Uma granada da época da Segunda Guerra Mundial no rio Dnipro foi revelada quando as águas baixaram após a destruição da barragem de Kakhovka, na região de Zaporizhzhia, Ucrânia, em 11 de julho de 2023.  Foto: David Guttenfelder / NYT
“Os generais sempre se preparam para combater a guerra anterior”, afirmou ele. “Mas os generais russos nem isso fizeram.” As forças alemãs conseguiram capturar Kiev em 1941; os russos combateram um mês nos subúrbios da capital na primavera (Hemisfério Norte) do ano passado e bateram em retirada.

Quando a guerra atual mudou de direção, de Kiev para o leste, suas batalhas percorreram os mesmos caminhos dos combates da Segunda Guerra. Naquela época, assim como hoje, o curso sinuoso do Rio Siverski Donets tornou-se linha de frente — com suas margens elevadas e várzeas lamacentas servindo de barreira natural enquanto Exércitos rivais lutaram por cidades e vilarejos ao longo de sua extensão.

Na Segunda Guerra, o rio formou uma porção da chamada Linha Mius, uma posição defensiva que os nazistas construíram para conter contra-ataques soviéticos após a Batalha de Stalingrado.

Na guerra atual, várias cidades e vilarejos ao longo do Siverski Donets entraram em disputa. As forças ucranianas usaram as ribanceiras altas do rio e suas planícies alagadiças, por exemplo, tentando defender a cidade de Lisichansk, o que não conseguiram, e para evitar que os russos atravessassem nas proximidades de Bilohorivka.

Ambas as guerras deixaram cidades e vilarejos às margens de rios em ruínas. Os atuais combates também danificaram com estilhaços monumentos erguidos para marcar batalhas da Segunda Guerra.

O vilarejo de Starii Saltiv, na região de Kharkiv, foi castigado por ambas as guerras; e acabou gravemente destruído nas duas ocasiões.

Lidiia Pechenizka, de 92 anos, que viveu sua vida inteira no vilarejo, recordou que em ambos os conflitos os combates foram definidos principalmente por projéteis de artilharia disparados do outro lado do rio contra soldados abrigados no vilarejo. Para os civis, as experiências foram similares: esconder-se em porões de casas e adegas subterrâneas. “É horrível”, disse Pechenizka em entrevista nesta primavera.

A contraofensiva ucraniana ao sul da cidade de Zaporizhzhia é, segundo Pavlov, “uma analogia direta” da ofensiva alemã de setembro de 1941. Os objetivos foram similares: atravessar as planícies, cortar linhas de abastecimento das tropas russas na margem oriental do Rio Dnipro e alcançar posição para ameaçar o istmo da Península da Crimeia.

Mas os paralelos não passam daí.

Na Segunda Guerra, o Exército Vermelho não teve tempo de fortificar linhas defensivas nas planícies; os alemães avançaram rapidamente até o Mar de Azov, cercando dezenas de milhares de soldados soviéticos em um bolsão no norte.

Na guerra atual, os russos tiveram meses para se entrincheirar. Como resultado, a contraofensiva da Ucrânia empacou diante das formidáveis fortificações, que contam com campos minados, redes de trincheiras e bunkers.

Os combates de hoje também se distinguem de outra maneira. Os Exércitos nazista e soviético se enfrentaram na Ucrânia movendo-se perpendicularmente ao fluxo norte-sul dos principais rios. Em sua contraofensiva, Kiev está movendo suas forças principalmente em paralelo aos cursos dos rios, o que lhes proporciona uma vantagem militar: suas tropas não têm de cruzar águas com tanta frequência.

Um soldado ucraniano em cima de um tanque russo abandonado no rio Siversky Donets, em Bilohorivka, Ucrânia, em 24 de maio de 2022. (Ivor Prickett/The New York Times)
Um soldado ucraniano em cima de um tanque russo abandonado no rio Siversky Donets, em Bilohorivka, Ucrânia, em 24 de maio de 2022. (Ivor Prickett/The New York Times) Foto: Ivor Prickett / NYT

No inverno de 1943-44, a União Soviética perdeu torrentes de soldados cruzando o Rio Dnipro de leste a oeste. Alguns corpos foram encontrados décadas depois pela ONG ucraniana Memória e Glória, que localiza cadáveres de ambos os lados para lhes oferecer sepultamentos dignos. Desde sua fundação, em 2007, o grupo afirma ter encontrado na Ucrânia mais de 500 corpos de soldados que lutaram na Segunda Guerra.

No ano passado, membros da ONG se juntaram ao Exército ucraniano para vasculhar campos de batalha em busca de soldados desaparecidos em combate e encontraram mais de 200 corpos de militares mortos na guerra atual — com frequência nos mesmos locais que cadáveres da Segunda Guerra tinham sido encontrados, afirmou o diretor da entidade, Leonid Ignatiev.

“Quando nós cavamos” à procura de corpos de soldados mortos recentemente, afirmou ele, “nós encontramos trincheiras da Segunda Guerra”.

Próximo à cidade de Novi Kamenki, na região de Kherson, o grupo procurava recentemente um soldado ucraniano desaparecido em combate, mas acabou encontrando a ossada de um soldado alemão, afirmou Ignatiev. Os ossos foram enviados para sepultamento em um cemitério destinado a alemães mortos em combate na Ucrânia.

“Os terrenos elevados e as posições para instalação de defesas são os mesmos”, afirmou Ignatiev.

Zaporizhzhia, uma grande cidade industrial à margem do Reservatório de Kakhovka, que se esvazia, foi ocupada por forças nazistas na Segunda Guerra é uma das atuais linhas de frente, onde sirenes de alerta para ataques aéreos soam várias vezes ao dia e mísseis russos explodem ocasionalmente.

Mas quando a água retrocedeu após o rompimento da represa em relação às margens originais, diante da cidade, foram projéteis não detonados que representaram a pior ameaça. O serviço de emergência da Ucrânia afirmou que os bancos de areia e as novas ilhas que emergiram no leito do reservatório “se revelaram surpreendentemente abarrotados de artefatos explosivos da  Segunda Guerra”, informou a agência.

Shkalikov, o piloto de tanques, que vive a uma curta caminhada de distância do leito exposto da represa, combateu no início da contraofensiva ucraniana em campos a sudeste da cidade. Depois que seu tanque atingiu uma mina, ele foi dispensado da unidade, voltou para casa e começou a explorar o fundo do lago seco. Encontrar a suástica emergindo da água, afirmou ele, “não me surpreendeu absolutamente”. Décadas separam as guerras, mas “a paisagem natural não mudou”, afirmou ele. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

terça-feira, 18 de julho de 2023

Vidas Paralelas? Os processos de integração da América Latina comparados com os esquemas da Ásia Pacífico (2015) - Paulo Roberto de Almeida

 Um trabalho inédito, feito em 2015, antes que o TPP fosse confirmado, e antes de muitos outros desenvolvimentos nas duas regiões: 

Vidas Paralelas? Os processos de integração da América Latina comparados com os esquemas da Ásia Pacífico

Parallel lives? Regional integration processes in Latin America compared to the schemes in the Asia Pacific region.

 

Paulo Roberto de Almeida (2015)

 

Resumo: Ensaio sobre os processos de integração regional na América Latina e na região da Ásia Pacífico, em caráter comparativo e em perspectiva histórica. Examina as diferentes modalidades e esquemas de integração, em ambas as regiões, com destaque para os experimentos de áreas preferenciais de comércio – bem mais disseminados na região asiática – e de livre comércio ou de união aduaneira, sucessivamente tentados na América Latina, mas não conduzidos até sua implementação completa. Contrasta as políticas econômicas – macro e setoriais – aplicadas em cada uma das regiões, destacando o caráter mais aberto ao comércio internacional e aos investimentos estrangeiros no Pacífico asiático e a natureza mais introvertida, ou protecionista, com maior grau de dirigismo econômico, dos esquemas existentes na região latino-americana. Observa que, desde os anos 1960 se operou uma notável inversão de inserção econômica internacional de cada uma das duas regiões, uma vez que as perspectivas relativamente favoráveis existentes para a América Latina até os anos 1970 foram finalmente transferidas para a região asiática, que se inseriu de modo mais completo na economia mundial.

Palavras-chave: Integração regional. América Latina. Ásia Pacífico. Avaliação.

 

Abstract: Analytical essay dealing with the regional integration processes in Latin America and in the Asia Pacific regions, in historical perspective and with a comparative approach. Attempts an evaluation of the various modalities of the integration schemes, from more simple forms, as the preferential trade areas – more common in the Asia Pacific region – to the more complex free trade zones or customs unions, in implementation, albeit not completely, in the Latin American region. Compare and assess their differing economic policies – both macroeconomic and sectorial – and stress the more open features of the Asia experiments, integrated into the world trade and foreign investment flows, in contrast with the more introverted and protectionist nature of the Latin American experiments, characterized by various degrees of economic intervention by the States. A final observation can be made as to the clear inversion of the roles and respective places of the two regions in the world economy, from the early 1960s to our days, since the more favorable perspectives of Latin America seem to be transferred to the Asia Pacific region, where a deeper integration into the international productive networks is being operated. 

Kew words: Regional integration. Latin America. Asia Pacific. Assessment.

 

Ler a íntegra aqui: 

https://www.academia.edu/104708639/2796_Vidas_Paralelas_Os_processos_de_integra%C3%A7%C3%A3o_da_Am%C3%A9rica_Latina_comparados_com_os_esquemas_da_%C3%81sia_Pac%C3%ADfico_2015_

A torturante e difícil, mais do que isso, incerta e duvidosa, redemocratização da Venezuela chavista - Nota do Itamaraty

 A linguagem é suficientemente ambígua para permitir à ditadura venezuelana a continuar abusando de seu arbítrio para afastar qualquer possibilidade de eleições verdadeiramente livre no país caribenho.

Ministério das Relações Exteriores

Assessoria Especial de Comunicação Social 

Nota nº 301

18 de julho de 2023

 

Declaração Conjunta relativa à situação na Venezuela - Bruxelas, 18 de julho de 2023

Paralelamente à Terceira Cúpula de Líderes da União Europeia e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), o presidente da República Francesa, Emmanuel Macron, o presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da República da Colômbia, Gustavo Petro, o presidente da República Argentina, Alberto Fernandez, e o alto representante da União Europeia para Relações Exteriores e Política de Segurança, Josep Borrell, reuniram-se com Delcy Rodriguez, vice-presidenta do Governo da República Bolivariana da Venezuela, e Gerardo Blyde, negociador-chefe da Plataforma Unitária da oposição venezuelana. Essa iniciativa dá seguimento ao debate sobre a situação na Venezuela, organizado pelo presidente da República Francesa no Fórum pela Paz de Paris, em novembro de 2022.

Os presidentes da Argentina, Brasil, Colômbia e França, assim como o alto representante, expressaram sua solidariedade com os países que acolhem cidadãos venezuelanos que deixaram seu país. Eles saudaram a assinatura na Cidade do México de um acordo social inter-venezuelano, em 26 de novembro de 2022, e solicitaram sua implementação efetiva o mais rapidamente possível, em prol do povo venezuelano.

Os chefes de Estado e o alto representante instaram o governo venezuelano e a plataforma unitária da oposição venezuelana a retomar o diálogo e a negociação no âmbito do processo do México, com o objetivo de chegarem a um acordo, entre outros pontos da agenda, sobre as condições para as próximas eleições. Eles fizeram um apelo em prol de uma negociação política que leve à organização de eleições justas para todos, transparentes e inclusivas, que permitam a participação de todos que desejem, de acordo com a lei e os tratados internacionais em vigor, com acompanhamento internacional. Esse processo deve ser acompanhado de uma suspensão das sanções, de todos os tipos, com vistas à sua suspensão completa.

Os chefes de Estado e o alto representante concordaram que o relançamento das relações entre a UE e a CELAC representa uma oportunidade de trabalhar em conjunto em prol da resolução da situação venezuelana. Eles propuseram que os participantes da reunião continuem a dialogar, no marco das iniciativas estabelecidas, de forma a fazer um novo balanço no Fórum de Paz de Paris em 11 de novembro de 2023.

 

[Nota publicada em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/resultado-do-primeiro-turno-das-eleicoes-na-guatemala]

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Um livro em preparação: Gilberto Freyre sobre o longo século XIX, de André Heráclio do Rego - Prefácio de Paulo Roberto de Almeida

Acabo de colocar um ponto final no meu prefácio a este livro de meu colega e amigo, historiador pernambucano André Heráclio do Rego, do qual transcrevo apenas os primeiros parágrafos. O restante virá quando o livro for publicado...

Paulo Roberto de Almeida

ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA

O SÉCULO XIX NA OBRA DE GILBERTO FREYRE

André Heráclio do Rêgo

            (Edição de Autor)


ÍNDICE

 Prefácio: Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração, 5

       Paulo Roberto de Almeida                                                                                

Introdução, 11

Capítulo 1 – O Movimento da Independência, 33

Capítulo 2 – O processo revolucionário,  51

Capítulo 3 – As singularidades da Monarquia,  83

Capítulo 4 - Monarquia e República: continuidade e ruptura,  97

Capítulo 5 – O Império e a unidade nacional,  117

Capítulo 6 – O Oriente no Novo Mundo. Os três primeiros séculos da formação brasileira, 129

Capítulo 7 – Oriente X Ocidente: a Monarquia e a reeuropeização do Brasil no século XIX, 139

Considerações e sugestões,  149

Obras de Gilberto Freyre utilizadas,  163

Referências bibliográficas, 167 


Prefácio

Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração

 

O presente livro de André Heráclio do Rêgo constitui um notável esforço de síntese interpretativa sobre um dos autores mais fecundos do pensamento social brasileiro. Junto com Manoel de Oliveira Lima e Manoel Bomfim, Gilberto Freyre foi um dos primeiros historiadores sociais do Brasil. Na verdade, ele foi bem mais do que isso: antropólogo de formação, tendo estudado com Franz Boas, na Universidade de Columbia (NY), ele veio a empreender um levantamento da cultura material e humana do Brasil colonial e imperial, compreendendo não apenas a sua análise da Casa Grande e [da] Senzala, o título de sua primeira grande obra (1933), como também tratou amplamente da miscigenação geral do povo brasileiro a partir de suas fontes étnicas, dos aportes estrangeiros à cultura material e espiritual, assim como da lenta emergência, a partir da sociedade patriarcal, de formações urbanas ao longo da costa atlântica e no interior próximo, tal como refletida em Sobrados e Mucambos (1936) e no seu outro clássico, Ordem e Progresso (1959). O extenso subtítulo dessa terceira grande obra, em 2 volumes, revela, aliás, a extensão de seu trabalho analítico: “Processo de desintegração da sociedade patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da Monarquia para a República”. 

Gilberto Freyre antecipou, de certa forma, a famosa escola francesa dos Annales, com sua forte ênfase no cotidiano das famílias, nos costumes do povinho miúdo, na alimentação e nas técnicas do trabalho humano. Mais de um acadêmico francês em estágio universitário no Brasil dos anos 1930 e 40, na recém fundada Universidade de São Paulo por exemplo, se declarou pronto a reconhecer certa dívida interpretativa em relação ao “mestre de Apipucos”, sua residência e escritório de trabalho no Recife senhorial. Os métodos e os grandes temas da nova historiografia francesa, em pleno florescimento nos anos seguintes à Segunda Guerra, já estavam presentes na obra de Freyre desde duas décadas antes, como facilmente constatável.

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