quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A diplomacia amadora do Brasil, da dupla Bolso-EA - Afonso Benitez (El País)

Diplomacia do Brasil é vista como amadora, ainda que pragmática

Especialistas e diplomatas avaliam discursos de Bolsonaro e de Ernesto Araújo e dizem que a Argentina é o alvo que a China já foi no passado recente

Afonso Benitez
El País, 31/10/2019
O príncipe saudita Mohammed bin Salman e o presidente Jair Bolsonaro.
O príncipe saudita Mohammed bin Salman e o presidente Jair Bolsonaro.José Dias (PR)
A duas semanas de sediar a reunião de cúpula dos BRICS, o Brasil expôs uma diplomacia marcada por instabilidade e amadorismo, segundo especialistas e diplomatas estrangeiros lotados no Brasil. As avaliações negativas são direcionadas ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), e ao seu chanceler, Ernesto Araújo, responsáveis por liderar as tratativas com os parceiros internacionais. Em seu tour de 12 dias pela Ásia e Oriente Médio, Bolsonaro reforçou a percepção  de que prefere governar sob um discurso para agradar a seus eleitores radicais do que mandar mensagens para o mundo. Antes do imbróglio sobre a investigação de Marielle Franco, Bolsonaro causou espanto ao criticar a eleição de Alberto Fernandez para a presidência da Argentina e declarar que não iria parabenizá-lo. Disse ainda que mulheres gostariam de passar uma tarde com um príncipe (em referência ao príncipe saudita Mohammed bin Salman, acusado de matar um jornalista) e afirmou que tinha “afinidade” com Salman. Antes, falando para o seu público eleitor pelo Twitter já havia insinuado que o Foro de São Paulo estava vivo, por causa de um discurso do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
O EL PAÍS entrevistou dois representantes de embaixadas estrangeiras que vivem no Brasil, um diplomata brasileiro e dois professores de relações internacionais e ciências políticas. Os membros dos corpos diplomáticos falaram sob a condição de não terem seus nomes publicados. “Em termos de valores e tradições da política externa e do nível de profissionalização de nossos diplomatas estamos diante de um retrocesso”, avaliou a coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Fernanda Magnotta. Conforme essa especialista, colegas que atuam em universidades de outros países têm visto os representantes do Ministério das Relações Exteriores como amadores, algo que não ocorria em gestões passadas. “Do presidente Bolsonaro poderíamos esperar tudo, porque ele é um radical. Mas de seus diplomatas, esperávamos um pouco mais de bom senso. Algo que não temos visto na gestão Araújo”, afirmou um dos diplomatas estrangeiros entrevistados pela reportagem.
Na visão de Magnotta, o presidente Bolsonaro também tem demonstrado estar deslumbrado com o cargo máximo da República. “Antes de se empolgar com a suntuosidade do lugar que se visita, o presidente precisa pensar quais valores se está propagando”, afirmou a professora. Ao conversar com jornalistas em Riad, na Arábia Saudita, Bolsonaro foi questionado sobre o que esperava das reuniões que teria durante a tarde com o príncipe Salman. Ao que respondeu: “Todo mundo gostaria de passar a tarde com um príncipe. Principalmente vocês, mulheres”.
Quando o assunto foi a Argentina, o chanceler Ernesto Araújo manteve a estratégia de que sempre é necessário eleger um inimigo. Disse, por exemplo, que “forças do mal” celebraram a eleição de Fernandez. Em seu perfil no Twitter, Araújo escreveu que “as forças da democracia estão lamentando pela Argentina, pelo Mercosul e por toda a América do Sul”.
Já Bolsonaro afirmou que, apesar de não parabenizar o presidente eleito da Argentina, ele não pretende fechar portas a ele. As falas enviesadas a Fernandes responderam, de fato, ao que foi visto como provocação por parte do presidente brasileiro. “Estamos preocupados e receosos, tendo em vista até o gesto que ele [Fernández] fez de Lula Livre”. Defensor da liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fernández já criticou Bolsonaro em entrevistas anteriores. Disse, por exemplo, que celebrava quando o presidente brasileiro o criticava. O chamou de racista, misógino, violento e defensor da tortura. “Com Bolsonaro, não tenho problema em ter problemas”, disse em entrevista a uma emissora argentina.
Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), Paulo César Nascimento diz que a diplomacia brasileira tem se esquecido que as relações entre os países são entre Estados, não entre Governos. “A ideologia não deve ser trazida a nenhuma mesa de discussão”, disse.

Vitória do pragmatismo

Apesar dos discursos radicais de Araújo e Bolsonaro, até o momento o pragmatismo, defendido principalmente pela equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, tem vencido essa disputa interna no Governo. Meses após assumir a presidência, Bolsonaro chegou a dizer que os chineses queriam comprar o Brasil, e não do Brasil. Afirmou que as relações exteriores do Brasil seriam abertas a todo mundo, independentemente da ideologia, mas sempre criticou o comunismo chinês. “O Governo é obrigado a recuar por causa da realidade”, ponderou Nascimento.
Há quase uma década, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Dados do Ministério da Economia mostram que de janeiro a setembro deste ano a balança comercial entre os dois países atingiu a marca de 72,8 bilhões de dólares (291,2 bilhões de reais), o que representa 24% de tudo o que o Brasil comercializou com o restante do mundo.
Já a Argentina, o alvo da vez, está em terceiro lugar nesse ranking – atrás dos Estados Unidos. Registrou comércio de 15,2 bilhões de dólares (60,8 bilhões de reais) no período. É o principal parceiro na América Latina. “O presidente adota a estratégia do morde assopra. Tem uma narrativa muito agressiva, mas que não é acompanhada de uma prática do mesmo tom. Já mudou com a China. Em breve, também deve mudar com a Argentina”, ponderou a professora Magnotta. Os afagos ao príncipe árabe também respondem a uma ação concreta. A Arábia Saudita anunciou investimento de 10 bilhões de dólares em infraestrutura no Brasil.

Uruguai puxa a orelha do embaixador brasileiro por declaração intrometida de Bolsonaro

Uruguay le pidió explicaciones a Brasil | Bolsonaro... 

Página12, 31/10/2019

La cancillería uruguaya convocó al embajador brasileño para pedirle una explicación por las declaraciones de Jair Bolsonaro. El presidente de Brasil había dicho que esperaba el triunfo del opositor al gobierno uruguayo, el candidato del Partido Nacional Luis Lacalle Pou, porque es más cercano a “su equipo”. Lejos de agradecerle el apoyo, el candidato que tiene grandes chances de ganar las elecciones, salió a criticarlo.
Fiel a su verborragia, Bolsonaro no pudo evitar referirse al resultado de las elecciones presidenciales de Uruguay del domingo pasado. "Uruguay va a una segunda vuelta y la oposición (al gobernante Frente Amplio) está más alineada con nuestros pensamientos liberales y económicos. Esperamos que se produzca la elección de alguien más cercano a nuestro 'equipo'. Ahí tendríamos a Uruguay con más afinidad con nosotros", sostuvo Bolsonaro el martes pasado en diálogo con O Estado de San Pablo. "No tuvimos ningún problema con Uruguay en materia económica con el actual presidente (Tabaré Vázquez). Pero tenemos que prepararnos siempre para lo peor, porque no se puede decir que uno se ve sorprendido con los hechos. La política no ocurre de un momento a otro", sostuvo el presidente de Brasil.
El gobierno uruguayo se tomó unos días pero finalmente emitió una nota pidiendo explicaciones al embajador de Brasil, Antonio Simoes. “El Ministerio de Relaciones Exteriores convocó al embajador de la República Federativa de Brasil en Uruguay, señor Antonio Simões y le solicitó explicaciones sobre las expresiones vertidas por el señor presidente Jair Bolsonaro (…) relacionadas con el proceso electoral que se desarrolla en nuestro país", dice la nota oficial. 
El pasado domingo se dio la primera vuelta de las elecciones presidenciales en Uruguay . Allí obtuvo la mayor cantidad de votos el candidato oficialista del Frente Amplio, Daniel Martinez. Se impuso con 39.17 por ciento de los votos, que lo obligan a competir en ballotage con el candidato del Partido Nacional, Luis Lacalle Pou. Si bien este candidato de derecha obtuvo el 28.59 por ciento de los votos, los que le siguen en el tercer y el cuarto lugar, manifestaron que apoyan su candidatura en la segunda vuelta . Lo que lo deja muy cerca a obtener la presidencia de Uruguay.
Sin embargo, Lacalle Pou salió a depegarse de Bolsonaro. "Me parece que no es buena cosa que los distintos políticos y en este caso distintos gobernantes incidan, opinen, en lo que puede llegar a pasar en otro país", dijo en declaraciones a El Observador. "Uruguay, por suerte, no decide lo que piensan los brasileños, decide lo que le pasa y lo que necesitan los uruguayos", sostuvo el abogado de 46 años que competirá el 24 de noviembre para definir al próximo presidente de Uruguay.

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Uruguai convoca embaixador no Brasil após declarações de Bolsonaro

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O governo do Uruguai convocou seu embaixador no Brasil, Antonio Simões, para prestar esclarecimentos sobre declarações dadas pelo presidente Jair Bolsonaro em relação às eleições presidenciais no país.
A convocação foi anunciada nesta quinta-feira, 31, em comunicado do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai. 
A questão é referente a uma entrevista dada por Bolsonaro ao jornal Estado de S.Paulo, durante sua viagem pela Arábia Saudita. Na entrevista, Bolsonaro traçou um panorama das relações diplomáticas entre o Brasil e seus vizinhos sul-americanos, após as eleições presidenciais que ocorrem em diferentes países da região. 
O foco da entrevista era a recente eleição de Alberto Fernández na Argentina. Peronista, Fernández tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner. No entanto, Bolsonaro também mencionou suas preferências nas eleições uruguaias.
Na entrevista, ao ser questionado se a vitória de Fernández dificulta a relação entre Brasil e Argentina, Bolsonaro disse que, no momento, o governo não pensa em romper relações com o país vizinho, mas espera que o próximo governo mantenha as práticas de Mauricio Macri de “abertura” e de “liberdade econômica”. 
“Mas nos preparamos para o pior, porque o que foi anunciado até o momento no pacote econômico do presidente eleito, essa receita já sabemos, como em parte foi adotada no Brasil no passado, não tem como dar certo”, completou o presidente. 
Em seguida, Bolsonaro entrou na questão das eleições presidenciais no Uruguai, que serão disputadas em segundo turno, em 24 de novembro, pelos candidatos Luis Lacalle Pou, de centro-direita, e Daniel Martínez, de esquerda. Sem citar diretamente nenhum dos candidatos, Bolsonaro expressou apoio à chapa de Pou, à qual considerou “mais alinhada” ao “seu time”. 
“O Uruguai foi para o segundo turno, tem a situação, que vem da política do Pepe Mujica, e uma oposição que é mais alinhada com nossos pensamentos liberais e econômicos. Esperamos, torcemos que aconteça a eleição de alguém mais ligado ao nosso time, aí teríamos o Uruguai afinado conosco. […] Não tivemos nenhum problema com o Uruguai no tocante à economia com o atual presidente, mas temos de nos preparar sempre para o pior, porque você não pode dizer que foi surpreendido com os fatos. A política não acontece de uma hora para outra”, disse o presidente brasileiro.
A declaração de Bolsonaro repercutiu mal no Uruguai, por ser considerada uma intervenção que desrespeita os princípios da diplomacia. 
O candidato de centro-direita à presidência do Uruguai, Luis Lacalle Pou, rejeitou o apoio de Bolsonaro no segundo turno das eleições. 
“Se eu fosse o presidente e houvesse um processo eleitoral no Brasil, por mais que eu goste mais de um do que de outro, esperaria os resultados porque tenho que ter uma boa relação com o vencedor. […] Por sorte, no Uruguai os brasileiros não decidem”, afirmou Lacalle Pou. 
A postura do presidenciável uruguaio é oposta à adotada por Bolsonaro durante o processo eleitoral argentino, que culminou na vitória de Alberto Fernández. Ao longo de todo o pleito, o presidente brasileiro declarou sua preferência pelo então presidente Mauricio Macri, se posicionando contra a eleição de Fernández.
Em maio, Bolsonaro pediu para que os argentinos tivessem “paciência” com Macri, afirmando que a Argentina poderia se transformar em uma Venezuela no caso de vitória da chapa de Fernández. No mês seguinte, pediu que os argentinos votassem com “responsabilidade”. 
Já em agosto, Bolsonaro afirmou que o Rio Grande do Sul poderia se tornar “um novo estado de Roraima”, caso a chapa peronista vencesse. A referência de Bolsonaro foi com o êxodo de venezuelanos para o Brasil por Roraima. Já na semana que antecedeu o pleito presidencial, Bolsonaro ameaçou isolar a Argentina no Mercosul caso Macri perdesse.
Os posicionamentos de Bolsonaro quebraram a tradição da diplomacia brasileira – repetida em grande parte dos países democráticos do mundo – de manter um posicionamento neutro em processos eleitorais de outros países. A estratégia mantida pelo Brasil até então foi de esperar o resultado das eleições para ter um diálogo aberto com o candidato vencedor.
As afirmações de Bolsonaro contra a chapa peronista se mantiveram até mesmo após a vitória de Fernández. O presidente brasileiro afirmou que a Argentina “escolheu mal”. Em seguida, disse que não iria parabenizar o presidente argentino eleito pela vitória.
Ao contrário de Bolsonaro, diferentes presidentes da América do Sul cumprimentaram publicamente Alberto Fernández pela vitória. Entre chefes de Estado sul-americanos que parabenizaram o candidato vencedor estão Mario Abdo Benítez, do Paraguai, e Sebástian Piñera, do Chile, que se posicionam próximos a Bolsonaro, além de Nicolás Maduro, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, também expressou o desejo de manter a cooperação bilateral com a Argentina. 
O futuro presidente uruguaio será decidido no próximo dia 24 de novembro. Lacalle Pou deve receber parte substancial dos votos dos candidatos Ernesto Talvi, de viés liberal, e Guido Manini Ríos, de extrema-direita. Ambos declararam apoio ao presidenciável. 
Já Daniel Martínez, da Frente Ampla, conta com o histórico da coalizão a seu favor, que governa o Uruguai desde 2005, mantendo o discurso progressista. A coalizão é vista como principal responsável por avanços na área social, como a legalização do casamento gay, a descriminalização do aborto e a legalização da maconha.

PCdoB ainda não se livrou do trauma do Araguaia: autor do livro sobre a guerrilha, Hugo Studart, novamente atacado pelo partido

Borboletas e Lobisomens: a guerrilha do Araguaia, de Hugo Studart
Um comentário, por Paulo Roberto de Almeida

Dois anos atrás, o jornalista Hugo Studart procurou-me na direção do IPRI – onde eu me divertia intelectualmente, antes de ser defenestrado por um chanceler sem qualquer senso de humor – para mostrar-me sua tese de doutorado em História, na UnB, sobre a guerrilha do Araguaia.
Imediatamente constatei a qualidade da pesquisa, o rico conteúdo descritivo, objetivo, factualíssimo, embora recheada, a tese, de inúmeros academicismos supérfluos, que atrapalhavam a leitura de uma excelente história sobre uma das grandes tragédias da luta armada no Brasil, a insana aventura "maoísta" do PCdoB nas selvas do Araguaia, e a terrivelmente cruel operação (em três fases) das FFAA para extirpar completamente aquele "quisto" do território brasileiro, mesmo ao custo de execuções sumárias, assassinatos a frio, equivalentes a crimes contra a humanidade, pelos quais os verdadeiros chefes da contra-guerrilha, não apenas seus simples operadores, nunca foram punidos.
Recomendei a "limpeza" da tese de suas superfluidades acadêmicas e a publicação como um simples, mas poderoso livro de história. Já antecipava a contrariedade do PCdoB, o promotor daquela tragédia, junto com o Exército, que nunca fez autocrítica, nem sequer se explicou, por ter enviado à morte um punhado de jovens idealistas, além de alguns militantes e guerrilheiros profissionais. Expliquei isso ao autor, que caberia adicionar um texto sobre a responsabilidade política do PCdoB, que o partido sempre se recusou a fazer.
Ele então me convidou para escrever algo a respeito, o que fiz, de forma displicente, ou seja, um texto puramente opinativo, no estilo "falta alguém em Nuremberg", mas que ainda assim ele insistiu por colocar em posfácio ao livro já planejado.
Eis o meu registro de minha colaboração ao livro, sendo que o posfácio publicado apenas resumia meu texto original, razão pela qual eu disponibilizei a versão integral em meu blog: 

     1285. “Uma tragédia brasileira: a loucura amazônica do PCdoB”, Posfácio a Hugo Studart: Borboletas e Lobisomens: vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia (Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 2018, 660 p.; ISBN: 978-85-265-0490-5; pp. 503-507). Versão original publicada no blog Diplomatizzando (9/07/2018; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2018/07/golpes-revolucoes-e-movimentos-armados.html). 

Agora, depois de muitos ataques do PCdoB ao livro e ao seu autor, e ainda querendo esconder a verdade, o "historiador oficial" – esse título parece um escárnio, mas combina com as mentalidades ainda stalinistas do partido – vem com mais pedras na mão protestar contra o fato de que o livro entrou na lista dos finalistas do prêmio Jabuti. É seu direito.
Como também é direito do autor expor claramente o que está acontecendo, depois de todas as campanhas que o PCdoB fez contra a obra (que eu julgo uma excelente ajuda involuntária em termos de marketing, o que vale um exemplar grátis para o partido sortear entre os seus aguerridos e stalinistas membros).
Transcrevo, pois, o texto que me foi enviado por Hugo Studart, e não recomendo a leitura da "resenha" do stalinista, ops, historiador oficial do PCdoB, mas cada um é livre para escolher suas melhores leituras.
Paulo Roberto de Almeida
São Paulo, 31 de outubro de 2019


Nota de Hugo Studart sobre mais um ataque do PCdoB ao seu livro:

O Partido Comunista do Brasil, PCdoB, publicou manifesto violento em seu site oficial, o Vermelho.com.br, protestando contra a indicação a finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2019 do livro "Borboletas e Lobisomens - Vidas, sonhos e mortes dos guerrilheiros do Araguaia", de minha autoria.

Trata-se do 25º artigo-manifesto do partido contra a obra, resultado de minha Tese de Doutorado em História pela Universidade de Brasília. Assinado pelo historiador oficial do partido, Osvaldo Bertolino, são usados mais de 20 xingamentos ou adjetivos desqualificativos contra a obra, o autor e jornalistas que porventura tenham escrito artigos elogiosos (ou neutros): "livro farsa", "caluniador", "mentiras cabeludas", "crápula", "poço de imundice", "vazio de inteligência" e "pastel de camarão".

Eis um trecho do manifesto:

O autor optou por mobilizar um séquito de figurões moralmente subqualificados da mídia para defendê-lo. As palavras mentirosas surgiram das bocas e mãos de gente como — entre tantos outros — Alexandre Garcia (ex-Globo e ditadura militar), José Nêumanne Pinto (O Estado de S. Paulo), José Roberto Guzzo (revista Veja) e Augusto Nunes (Rádio Jovem Pan). Eles se esforçaram para tentar salvar a obra farsesca de Studart, mas o que saiu foi a velha semântica anticomunista, esvaziada por frases retorcidas e intelectualmente indigentes.

O partido também já organizou quatro atos de escracho públicos; piquete contra o lançamento no Rio de Janeiro; além de publicar 5 horas de gravações no YouTube (quase uma minissérie). Um grupo de militantes procurou a reitora da UnB pedindo para que cassasse meu título de Doutor e, sobretudo, cancelasse o Prêmio UnB de Teses de Doutorado, do qual fui vencedor. Obviamente, ela jamais cometeria tamanha sandice, nem poderia.

Em outro trecho, o manifesto do PCdoB compara "Borboletas e Lobisomens" à obra "A Terra", de Emile Zola:

"Ele tentou escrever um livro que impressionasse pela brutalidade dos detalhes, pelas cenas de vulgaridades que beiram a lascívia e chegam à fronteira do mau gosto. Seu séquito teve uma reação contrária à dos cinco discípulos mais fiéis de Emile Zola, que lançaram um manifesto de repúdio ao seu livro La Terre (A Terra), no qual se diziam escandalizados. Supomo-nos, ao lê-lo, diante de um tratado de escatologia: o mestre desceu ao fundo do poço da imundície. Anatole France também se pronunciou: “Escrevendo A Terra, o senhor Emile Zola nos deu as geórgicas da crápula.” “Jamais um homem fez tamanho esforço para aviltar a humanidade”, completou.

"Na verdade, a obscenidade alegada na obra de Emile Zola pode ser vista na produção do séquito de Studart. Não pela lascívia, mas pela libertinagem política e ideológica. Eles são mestres na arte de burlar os fatos para roubar a cena".

O jornalista Alexandre Garcia foi especialmente atacado no manifesto -- aliás, tanto quanto este autor. Assim, peço desculpas públicas a Alexandre por ter sido o indutor (ainda que involuntário) de tamanha covardia.

Os amigos podem optar por ler o artigo na íntegra, no link abaixo) Contudo, prefiro que avaliem o conteúdo lendo "Borboletas e Lobisomens":

A obra pode ser adquirida pelo site guerrilhadoaraguaia.com.br (envio com dedicatória)

... ou nas principais redes de livrarias do país, tais como as Livrarias da Vila, Cultura, Martins Fontes, Leitura, Travessa e Argumento. Desde já, grato pela leitura.
Hugo Studart

https://www.vermelho.org.br/noticia/323929-1?fbclid=IwAR1Yq70VfeNU9vgtnEj7VkkYHVKOnhQowwa3KiUZDsbIW8d9otS5sbH08RY

Meu texto sobre a integração regional entre os Top Ten de SSRN

Acabo de receber, mas não vou receber nada por isso, apenas um pouco de afago no amor próprio:

Dear Paulo Roberto de Almeida:

Your paper, "REGIONAL INTEGRATION IN LATIN AMERICA: HISTORICAL DEVELOPMENTS, CURRENT CHALLENGES, ESPECIALLY IN MERCOSUR", was recently listed on SSRN's Top Ten download list for: PSN: Latin America/South America (Topic).

As of 31 October 2019, your paper has been downloaded 147 times. You may view the abstract and download statistics at: https://ssrn.com/abstract=3182150.

Top Ten Lists are updated on a daily basis. Click the following link(s) to view the Top Ten list for:

PSN: Latin America/South America (Topic) Top Ten.

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Your paper may be included in future Top Ten lists for other networks or eJournals. If so, you will receive additional notices at that time.

If you have any questions regarding this notification or any other matter, please visit the SSRN Help Desk online at Support.SSRN.com or call 877-SSRNHelp (877 777 6435) in the United States or +1 212 448 2500 outside of the United States.

Thank you,
SSRN Management

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Regional Integration in Latin America: Historical Developments, Current Challenges, Especially in Mercosur

Abstract

Regional integration in Latin America has a long history dating back the wars for independence in the 19th century. Notwithstanding, there is no need, for our purposes, to go back to the autonomist struggles of Simon Bolivar and other political and military leaders at the beginning of the 19th century, and to their premature attempts to forge an alliance between the many former Spanish colonies being liberated, because those efforts were most of a political nature and did not result in any institutional innovation at that time. 
At the beginning of the Eighties, a new wave of democratization touched Latin America, with the return to civilian and elected regimes, particularly in Argentina (1983) and Brazil (1985), which signaled a new emphasis on economic integration. But the European model of a common market was too much ambitious for Latin American countries, which were in a de facto preferential trade area, with the signing, a few years earlier, of the second Montevideo Treaty (1980), performing a flexible bilateral trade network among the members of the Latin American Integration Association (ALADI). The change from ALALC to ALADI was permitted by a decision under the Tokyo Round of multilateral trade negotiations (1979), which enabled developing contracting parties of the GATT system to exchange more limited trade liberalization than previously disciplined by Article 24 of GATT, which settled the rules for exceptions to the most-favored-nation clause, under the free trade or custom union formats. Mercosur was created in 1991, and since 1999 it is undergoing a structural crisis. 

Almeida, Paulo Roberto de, Regional Integration in Latin America: Historical Developments, Current Challenges, Especially in Mercosur (April 13, 2018). Available at SSRN: https://ssrn.com/abstract=3182150 or http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.3182150


O Brasil tem futuro? Uma releitura de Stefan Zweig

Procurando um texto antigo acabei caindo numa velha resenha de livros que, registro agora, praticamente não teve difusão adequada, não tanto pela minha resenha, mas mais exatamente pelo livro do grande autor austríaco, que mereceria, talvez, uma releitura atual.
Creio que vou incluí-lo na minha lista de "Clássicos Revisitados" – dos quais já fiz o Manifesto Comunista, de Marx-Engels, O Príncipe, de Maquiavel, e alguns outros autores, como Sun Tzu, Tocqueville, Benjamin Constant e alguns outros –, ainda que eu não considere que esse livro de Zweig seja um clássico, pois é uma de suas piores obras. Mas vale pela reflexão sobre o Brasil.
Eis a resenha: 
1714. “Futuro preterido? Zweig e um projeto para o Brasil”, Brasília, 26 janeiro 2007, 2 p. Resenha de João Paulo dos Reis Velloso e Roberto Cavalcanti de Albuquerque (coords.): Brasil, um país do futuro? (Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, 154 p.; R$ 31,00) e Projeto de Brasil: opções de país, opções de desenvolvimento (idem, 222 p., R$ 38,00). Desafios do Desenvolvimento (Brasília: IPEA-PNUD, ano 4, n. 31, fevereiro 2007, p. 62-63). Relação de Publicados n. 751bis.

Futuro preterido? Zweig e um projeto para o Brasil

João Paulo dos Reis Velloso e Roberto Cavalcanti de Albuquerque (coords.):
Brasil, um país do futuro? (Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, 154 p.; R$ 31,00);
Projeto de Brasil: opções de país, opções de desenvolvimento (idem, 222 p., R$ 38,00).

O Fórum Nacional do ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso sempre organiza, ademais dos encontros anuais, foros especiais dedicados a temas específicos. Em 2006 foram organizados dois, conectados pelo tema comum de se lograr um “projeto de Brasil”, suas opções de país e de desenvolvimento. Estes dois livros resultam desse esforço de diagnóstico e de proposição. 
Stefan Zweig teria gostado de assistir ao seminário que lhe foi dedicado, em setembro de 2006, por ocasião do 125º aniversário de seu nascimento e dos 65 anos da publicação do seu livro tão famoso, quanto desconhecido (hoje), terminado poucos meses antes do suicídio do autor, no carnaval de 1942, em Petrópolis. Ele concordaria com o artigo indefinido e talvez até com o ponto de interrogação. A primeira edição brasileira modificou o título original, agora restabelecido – Brasilien, ein land der Zukunft, não der land – e o colóquio agregou a condicionalidade, refletindo o ceticismo dos examinadores quanto à utopia não realizada. No essencial, Zweig provavelmente se alinharia aos argumentos dos seus revisores contemporâneos.
Alberto Dines, autor de uma biografia que pode considerar-se completa do escritor austríaco – Morte no Paraíso: a tragédia de Stefan Zweig (3ª ed.; Rocco, 2004) –, considera que Zweig, depois de assinar mais de quarenta biografias de personalidades mundiais, fez a biografia de uma nação, no “inferno do Estado Novo”. Como ele diz, essa obra “tornou-se a crônica mais conhecida e a menos discutida, a mais celebrada e mais negligenciada” do Brasil. Ela foi um dos primeiros lançamentos simultâneos da história editorial mundial: oito edições em seis línguas diferentes. Em vista dos percalços recentes no processo de crescimento, parece difícil concordar com Zweig em que, “quem conhece o Brasil de hoje, lançou um olhar sobre o futuro”.
Bolívar Lamounier e Regis Bonelli examinam, respectivamente, os avanços políticos e econômicos obtidos pelo Brasil desde que Zweig traçou seu diagnóstico sobre o Brasil do início dos anos 1940. Para Lamounier, o Brasil é um país de “muitos futuros”, mas ele critica as utopias institucionais que frequentemente pretendem revolucionar a participação e as formas de se fazer política no país: a romântico-participativa da democracia direta,  a do parlamentarismo clássico que ressurge sempre em momentos de crise e a utopia barroca do presidencialismo plebiscitário. Já Bonelli opera uma “volta para o futuro” ao examinar os elementos de continuidade e de mudança na esfera econômica: o Brasil certamente mudou muito, nesse terreno, mas a propensão a esperar tudo do Estado permanece, assim como uma certa desconfiança dos mercados externos. Algumas mudanças foram na direção errada, como o aumento na tributação, outras permanências são irritantes, como a péssima distribuição de renda e as incertezas jurídicas. Finalmente, o “fantasma do estrangulamento externo” estaria, de fato, superado?
Boris e Sérgio Fausto acrescentam um ponto de interrogação ao título de Zweig, temperando o otimismo do autor com certa dose de pessimismo. Não se trata do niilismo da esquerda, que vê na “dominação imperialista” a razão do nosso atraso. O duplo nó gordio da carga tributária e do gasto público limita hoje as possibilidades de crescimento. João Luís Fragoso analisa a “equação” de Zweig para o Brasil: concentração de poder + tolerância. Três comentários finais tratam das promessas não cumpridas de um olhar estrangeiro, do futuro que já chegou sob a forma da votação eletrônica e das dificuldades para a retomada de taxas razoáveis e sustentáveis de crescimento. No conjunto, o livro oferece uma boa visita ao que se poderia chamar de “futuro do pretérito”. 
O segundo livro, Projeto de Brasil, é na verdade uma tripla obra. A segunda parte apresenta dois estudos de especialistas acadêmicos sobre emprego e inclusão digital. A terceira parte consiste, tão simplesmente, na transcrição (talvez dispensável, em retrospecto) da visão de Brasil defendida pelos quatro principais candidatos nas eleições presidenciais de 2006: Lula, Alckmin e Heloisa Helena, pelos respectivos coordenadores de campanha, e Cristovam Buarque, pelo próprio. Digo dispensável porque qualquer um deles, se eleito, dificilmente seguiria as pomposas recomendações dos respectivos programas, que a rigor não possuíam nenhuma importância substantiva. A primeira e mais importante parte constitui uma síntese, por João Paulo dos Reis Velloso, de propostas para uma agenda nacional, com base em todas as idéias de modernização do Brasil formuladas desde o surgimento do Fórum por ele presidido, em 1988. Ele consegue resumir claramente os principais obstáculos ao desenvolvimento do país, mostrando-o como um “Prometeu acorrentado”, que vive hoje uma crise de “auto-estima”, em uma “era de expectativas limitadas” (apud Paul Krugman). 
As opções de país que ele propõe são, nominalmente: o desenvolvimento como valor social, prioridade máxima à segurança, reforma política para construir um sistema político moderno, um Estado “inteligente” (com legislativo e judiciário modernos), a revolução do império da lei, da eqüidade, da tolerância e dos valores humanistas e a opção por uma sociedade moderna. Quanto às opções de desenvolvimento, elas consistem em três conjuntos de tarefas: a criação de bases para um crescimento sem dogmatismos, uma estratégia de desenvolvimento baseada na inovação e na sociedade do conhecimento e o progresso com inclusão social e portas de saída para os pobres. Ele conclui dizendo que subdesenvolvimento não é destino, é apenas o reflexo de opções equivocadas. Oxalá o Prometeu pudesse tomar consciência de quais são elas, exatamente. Aparentemente, além das correntes estatais, ele está com um pouco de cera nos ouvidos e ainda usa viseiras conceituais.

Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mac.comwww.pralmeida.org)