A estupidez bolsonarista é uma epidemia altamente contagiosa: já alcançou as FFAA. Até onde ela irá até ser contida? Não tem vacina ainda contra esse virus.
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
A estupidez bolsonarista é uma epidemia altamente contagiosa: já alcançou as FFAA. Até onde ela irá até ser contida? Não tem vacina ainda contra esse virus.
Paulo Roberto de Almeida

Jorge Barcellos (*)
Em A Vertigem das Listas, Umberto Eco afirma que as listas mudaram ao longo do tempo e expressaram o espírito de sua época. A publicação de Dicionário dos Antis: a Cultura Brasileira em Negativo (editora Pontes, 858 páginas, R$ 160), por um lado, mostra que vivemos uma época que pode ser resumida por um notável prefixo anti, o que significa que somos, acima de tudo, uma cultura do contra; por outro lado, vivemos num pais no qual, ao longo dos últimos anos, emergem todas as correntes e discursos centrados na percepção negativa do Outro — antissemitismo, anticlericalismo, anticomunismo etc. — e sobre o qual se constituem as identidades no Brasil.
Reunindo artigos de 131 pesquisadores em 133 verbetes que descrevem o processo de demonização das diferenças, a obra é uma história da cultura brasileira em negativo. Produto da parceria de caráter internacional entre o Núcleo de Estudos de Cultura da Universidade Federal de Sergipe e o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Universidade de Lisboa, com o apoio de mais 13 instituições nacionais e internacionais, a obra dirigida pelos pesquisadores Luiz Eduardo Oliveira e José Eduardo Franco tem a versão brasileira organizada por Carmela Grüne, Cristiane Nunes, Jean Chauvin, José dos Santos e Sandro Marengo, reunindo famosos pesquisadores brasileiros, como Luis Mott, Maria Luiza Tucci Carneiro e Valdete Souto Severo, e outros nem tão conhecidos — como o resenhista que vos fala, que colabora com o artigo Antibolsonarismo. É uma obra top de linha.
O livro reproduz no Brasil o que o Dicionário dos Antis: a Cultura Portuguesa em Negativo foi em Lisboa. A ideia surgiu ao escritor português José Eduardo Franco em 2004, quando estava concluindo seu doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Lá, estudou os discursos anti, como o antijesuitismo, o antissemitismo, o anticastelhanismo, o anti-islamismo, o antimaçonismo, o antiprotestantismo e o anticomunismo, e começou a redigir o dicionário português em 2011, lançando-o em 2018. No ano seguinte, partiu para construir o dicionário brasileiro, processo que foi impactado pela pandemia em 2020.
Talvez por essa razão, a versão brasileira saiu menor do que a portuguesa: suas 858 páginas representam menos do que a metade da versão além-mar, com suas 2.314 páginas divididas em dois volumes. Ainda assim, no entanto, é uma edição de fôlego.
Escreve José Eduardo Franco: “Fomos habituados, na escola, a aprender fundamentalmente aquilo a que podemos chamar a cultura positiva, a visão afirmativa da história. Este dicionário, em contrapartida, propõe uma visão diametralmente oposta: uma viagem pelas correntes, etnias, religiões e instituições, as figuras a partir do olhar do adversário, de quem discordou, de quem atacou, de quem pensou o contrário”.
O cenário que os autores encontram no Brasil é inquietante. Os artigos reunidos revelam que o negativo também faz parte de nossa natureza, que percebemos o Outro de forma reduzida e, com isso, criamos os estereótipos e demonizamos as diferenças.
É curioso que a ideia de ser “do contra” seja tão presente tanto no Brasil quanto em Portugal. Seria a intolerância, a segregação e a capacidade de ser sectário também uma herança de nossa formação?
Os organizadores afirmam que o negativo “é um elemento constitutivo do processo de construção de identidades, quando não parte integrante das mesmas”. A obra instaura um discurso crítico do conhecimento do Outro, recusando as visões simplificadoras e empobrecedoras. A realidade é complexa, rica e diversa. As fake news, nesse sentido, seriam apenas mais um recurso propagandístico a serviço da deturpação da verdade, e, nesse sentido, antijornalismo.
Há os anti no campo social (antifeminismo, anti-humanismo), no econômico (anticapitalismo, anticomunismo), no ideológico (antiantropocentrismo, anticolonialismo), no artístico (antiarquitetura, anticlassicismo), mas é no campo político que a contribuição da obra à cultura brasileira é mais forte: de anticorrupção à antilavajatismo, passando por antipetismo e antibolsonarismo, é a crônica anunciada de uma cultura em desagregação. Seu ponto de partida é o nosso ponto de chegada, o de que vivemos a época do êxtase dos discursos e práticas que antagonizam os Outros, produto de um mundo dividido que usa de diversas estratégias, seja em termos de estilo de vida, crenças ou ideologia. Nesses discursos, o Outro é visto como uma ameaça aos valores do grupo que o pronuncia e aquele que o profere se apresenta como “novo” porque reduz o diferente ao “velho”, síntese de nossas práticas da qual os brasileiros não se orgulhariam ao olhar no espelho.
(*) Doutor em Educação (UFRGS)
Um artigo antigo, mas ainda válido
Au Quai d’Orsay, levée de boucliers contre la réforme
Avec la disparition de l’ENA, les diplomates seront désormais issus d’un vivier interministériel de fonctionnaires.
ISABELLE LASSERRE
Le Figaro, 23/11/2021
DIPLOMATIE Il n’y aura plus de corps dédié à la diplomatie. C’est le deuxième coup porté aux diplomates par l’Élysée depuis l’arrivée d’Emmanuel Macron. Le premier, décoché en août 2019 pendant la conférence des ambassadeurs, n’a toujours pas été digéré au Quai d’Orsay. Le président avait rappelé à l’ordre les diplomates d’une manière directe et sèche, dénonçant l’« État profond » qui aurait selon lui tenté de freiner sa politique de réchauffement avec la Russie. Emmanuel Macron avait aussi demandé aux ambassadeurs, qu’il range volontiers dans l’« ancien monde », de faire preuve de « plus d’audace », affirmant que « les habitudes et les dogmes » sur lesquels s’est appuyée la diplomatie française pendant des décennies n’étaient plus valables pour tenter de rebâtir un ordre nouveau.
Le deuxième a provoqué un émoi encore plus grand. Il entérine la « mise en extinction » des corps qui sont le vivier des ambassadeurs, les conseillers des Affaires étrangères et les ministres plénipotentiaires, à partir de 2023. Concrètement, environ 800 fonctionnaires sur 1 800 diplomates de catégorie A sont concernés. Ils sont issus soit de l’ENA, qui n’existe plus, soit du très sélectif concours des cadres d’Orient, une institution héritée de l’époque napoléonienne, dans laquelle le ministère des Affaires étrangères recrute des diplomates de vocation dotés de compétences, notamment linguistiques, très pointues. Il n’est pas, assure la ministre de la Transformation et de la Fonction publique, Amélie de Montchalin, remis en cause pour l’instant.
L’initiative s’inscrit dans la réforme de la haute fonction publique décidée le 8 avril par l’Élysée et dont l’annonce la plus symbolique fut la suppression de l’ENA, remplacé par l’Institut national du service public. Après les préfets, les diplomates sont donc les victimes collatérales de ces changements engagés par le président. Comme les préfets, les sous-préfets et les inspecteurs généraux et des finances, ils ont désormais vocation à fusionner dans un nouveau corps des administrateurs de l’État, un vivier global au sein duquel tous les hauts fonctionnaires, en théorie, peuvent être interchangeables.
Depuis qu’il est à l’Élysée, Emmanuel Macron n’a jamais caché son agacement vis-à-vis des administrations. Il les ¬trouve trop lentes, trop lourdes et trop conformistes, rétives aux idées nouvelles, organisées en citadelles. Ces critiques n’épargnent pas le Quai d’Orsay, au contraire. Le président n’aime guère les diplomates, qu’il trouve trop conservateurs et dont il considère qu’ils freinent ses initiatives. La réforme est aussi censée favoriser davantage de diversité et de fluidité dans une institution jugée trop traditionnelle.
Grande inquiétude
Parce qu’elle nie la spécificité du Quai d’Orsay et de ses ambassadeurs, qui non seulement maîtrisent souvent des langues rares ou difficiles mais ont aussi acquis leurs connaissances et leurs compétences dans la durée sur le terrain, à l’étranger, la réforme a provoqué une grande inquiétude parmi les agents du ministère, qui hésitent entre « désolation » et « acrimonie ». « Le président veut remplacer les diplomates par de dociles incompétents et des amis », ironise l’un d’eux. Dans une tribune parue dans Le Monde le 8 novembre, un collectif de 150 jeunes diplomates s’interroge sur ce que sera « une diplomatie sans diplomates, dans un monde de plus en plus imprévisible et complexe ». Les syndicats sont aussi montés au créneau. Ils ¬dénoncent une réforme « menée à la hussarde ». « Est-ce une manifestation du ¬jupitérisme ? Je ne sais pas. Mais le Quai d’Orsay a besoin de cadres qui soient des experts. Comment imaginer qu’on puisse placer des hommes à des postes de commandement dans des ¬domaines qu’ils ne connaissent pas ? », interroge Olivier Da Silva, de la CFDT, majoritaire parmi le personnel diplomatique.
À l’étranger, les rares pays ayant appliqué ce type de réforme, comme par exemple le Canada, ont vu leur diplomatie se détériorer rapidement. « En Europe, il n’existe pas un seul pays, sauf la Pologne, mais c’est pour des raisons idéologiques, qui dynamite ainsi son service diplomatique. Tous s’appuient sur une filière diplomatique professionnelle. Nos adversaires ricanent et se frottent les mains. Quant à nos alliés, ils se disent : à quoi jouent les Français ? » poursuit Olivier Da Silva, lui-même ancien ambassadeur.
Car il y va, selon les diplomates, non seulement de l’attractivité du métier de diplomate pour les futures générations, mais aussi de l’influence de la France dans le monde. « À l’Élysée, ils ont sous-estimé l’ampleur des conséquences de la réforme. Une réputation, ça se perd vite », poursuit le représentant de la CFDT. Les ambassadeurs français sont réputés à l’étranger pour être parmi les meilleurs du monde. Contrairement aux ambassadeurs américains, par exemple, dont les nominations ne récompensent pas des compétences mais rétribuent le finan¬cement d’une campagne présidentielle -victorieuse. Au-delà d’une « dilution » de leurs « compétences métier », les diplomates craignent que la réforme ne transforme le Quai d’Orsay en une fabrique de « diplomates amateurs ».
Le ministre des Affaires étrangères, Jean-Yves Le Drian, n’a pas réussi à s’opposer à la réforme. Sa ligne a été contre-arbitrée par le président le 5 novembre, au titre qu’il ne saurait y avoir d’« exceptions ». Après plusieurs réunions de crise, le chef de la diplomatie s’est dit « déterminé » à obtenir des assouplissements dans les modalités. Mais à cinq mois de la fin du mandat présidentiel, certains considèrent qu’il aurait pu, pour être plus efficace, « mettre sa démission dans la balance ». Conclusion d’un diplomate : « Les militaires, eux, le font. Et, parfois, ça marche. »
Demagogia eleitoral para diplomatas estrangeiros: mentiras ao mundo
Paulo Roberto de Almeida
Diplomata, professor
(www.pralmeida.org; diplomatizzando.blogspot.com)
Comentários sobre o convite formulado pelo presidente para contar mentiras aos diplomatas estrangeiros sobre o processo eleitoral brasileiro.
O que pretende o presidente brasileiro ao convidar diplomatas estrangeiros ao formular um convite, via Itamaraty, para uma apresentação em Power Point na residência presidencial? Previsivelmente efetuar pura demagogia do mais baixo nível diplomático, pois ele pretende continuar sua campanha de mentiras contra o processo eleitoral brasileiro, um dos mais fiáveis do mundo, tanto pela extensa base do corpo eleitoral, quanto pelas modalidades aplicadas ao processo de votação. O presidente atual é um virtual pária internacional e sabe disso; também sabe que vai perder as eleições, e está criando um ambiente de tensão no Brasil, para um possível golpe político, e para isso quer construir uma espécie de legitimidade ao tentar desacreditar o processo eleitoral. Esse convite, praticamente uma convocação, aos embaixadores acreditados em Brasília, é uma completa fraude, uma mentira pré-fabricada, pois que pretende transmitir uma imagem de irregularidade no processo eleitoral quando não existe nenhuma. Essa motivação não passará despercebida aos diplomatas residentes em Brasília, pois que eles acompanham a política brasileira, e sabem que o presidente brasileiro é um mentiroso contumaz.
Cada um dos embaixadores, ou os representantes diplomáticos que comparecerem, por mera cortesia, ao convite do presidente, farão, depois do evento, um relato às suas respectivas chancelarias basicamente dividido em duas partes. Em primeiro lugar, a descrição objetiva das palavras do presidente, seguida, numa segunda parte, de uma avaliação pessoal ou institucional da atual situação pré-eleitoral no Brasil, um cenário quase surrealista, pois todos os responsáveis pelo processo eleitoral já deram todas as provas da fiabilidade das eleições conduzidas de modo eletrônico, em face – e este é o aspecto esquizofrênico – das alegações absolutamente mentirosas do presidente quanto às supostas “falhas” inventadas por ele para retirar credibilidade ao pleito que o derrotará em outubro. Em outros termos, cada um dos países que se fizeram presentes no evento de segunda-feira, 18/07, no Palácio do Planalto terão todas as condições que confirmar sua total confiança nas eleições brasileiras.
As alegações mentirosas do presidente certamente se colocarão contra recentes declarações do ministro Fachin, atual presidente do TSE, sobre o processo eleitoral. Mas elas sobretudo estarão em contradição com a realidade do processo de votação, a começar pelo fato que o ex-deputado foi eleito muitas vezes por esse mesmo sistema e que também o agora presidente venceu o pleito do 2018 no mesmo sistema que ele agora pretende deslegitimar. Nenhum diplomata experiente é ingênuo para contradizer, em direção de suas respectivas capitais, as abundantes provas de fiabilidade do processo de votação e de apuração existente no Brasil. Posso até arriscar que poucos diplomatas presentes ao encontro ousarão formular perguntas ou tentar sugerir ao presidente que apresente provas de suas alegações comprovadamente mentirosas. Eles ouvirão, tomarão notas, e sairão sem que tenham sequer vontade de dialogar com um mentiroso reconhecido.
O encontro promovido pelo presidente terá sido uma de suas últimas fraudes, ou apenas mais uma mentira num oceano de mentiras, nos últimos quatro anos (como aliás foi o caso de seu ídolo Trump, a quem ele sempre foi submisso). Ele não terá NENHUM efeito no processo eleitoral brasileiro, a não ser diminuir ainda mais a já baixíssima credibilidade do personagem.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4197: 15 julho 2022, 2 p.
Estou participando desta emissão neste momento:
https://www.youtube.com/watch?v=XxoaueWLq9c
Fiz uma resenha do livro tal como postado neste mesmo blog, como abaixo:
4135. “Sergio Florêncio: um livro como não há igual na diplomacia brasileira”, Brasília, 26 abril 2022, 4 p. Resenha de Sergio Abreu e Lima Florêncio, Diplomacia, Revolução e Afetos: de Vila Isabel a Teerã (Curitiba: Appris, 2022; ISBN: 978-65-250-2114-0). Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2022/04/sergio-florencio-um-livro-como-nao-ha.html), junto com o capítulo que me é dedicado.
Antes mesmo de tomar posse, os lacaios do aloprado Trump, Bozo e o chanceler acidental, TRAMARAM CONTRA A CONSTITUIÇÃO, o princípio na não intervenção nos assuntos internos de outro país, no caso bem pior, a tentativa de golpe contra o ditador chavista Maduro, da Venezuela. Os trapalhões se deram mal, pois a inteligência cubana já tinha detectado os movimentos preparatórios.
Paulo Roberto de Almeida
Fiasco de Trump e Bolton, com ajuda de Bolsonaro, salvou o ditador Maduro
*Anotações do ex-ministro Celso Amorim revelam disputa e desconfiança na diplomacia brasileira*
Em “Laços de confiança”, ex-chanceler destaca relação com países vizinhos
Por Sergio Leo — Para o Valor, de Brasília
15/07/2022 05h03 Atualizado há 3 horas
“Por que o senhor dá tanta atenção à América do Sul?”
“Porque moro aqui.”
O diálogo, com um repórter, é contado pelo ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa Celso Amorim, na obra recém-lançada “Laços de confiança”, da editora Benvirá; e traduz a tese que inspirou o livro: a atuação do Brasil no mundo exige maior atenção aos vizinhos, e iniciativas para o desenvolvimento dos países sul-americanos. Sem a integração bem-sucedida com a vizinhança, sugere o ex-ministro, a região corre o risco de ficar a reboque de interesses de grandes potências com grande força gravitacional, como os Estados Unidos.
Amorim, ministro de Relações Exteriores nos governos Itamar Franco e Luiz Inácio Lula da Silva, relata sua intensa - e atribulada - interlocução com um leque variado de governantes, do republicano George W. Bush ao bolivariano Hugo Chávez. O título do livro, “Laços de confiança”, é a citação de um comentário do ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe, um dos improváveis parceiros nas iniciativas diplomáticas do ex-ministro.
“Mostrar que a realidade já foi outra e que é possível a construção de uma América Latina e Caribe fortes, unidos em sua diversidade, é um dos objetivos deste livro”, explicita o diplomata, lamentando o amadorismo na diplomacia do governo atual.
Ao lembrar da disputa acirrada entre argentinos e uruguaios em torno da instalação de poluidoras fábricas de celulose no rio Uruguai, Amorim queixa-se de que a briga foi usada pelos críticos de sua política externa “altiva e ativa”, para desdenhar de suas ambições de tornar o Brasil um mediador confiável - até em desafios distantes da região, como no acordo nuclear com o Irã. Outros momentos mais felizes, porém, como a solução de conflitos entre a Colômbia e vizinhos, credenciaram o país a ser visto como interlocutor confiável e importante na formação de consensos, defende.
Os diários de Amorim que inspiram o livro dão pistas sobre, por exemplo, a visão, à esquerda, sobre o acordo de comércio firmado - e ainda não ratificado nos parlamentos - pelo Mercosul com a União Europeia: temas importantes para os europeus e aceitos sem muito debate nos últimos governos brasileiros, como reforço dos direitos de propriedade intelectual, fim de exclusividade de comprar do governo para fornecedores locais e redução da proteção a setores industriais considerados estratégicos foram e continuam assuntos caros ao antigo chanceler e seu entorno político.
Ao contrário da imagem de leniência com países vizinhos popularizada pelos críticos da política externa durante as gestões de Amorim no comando da diplomacia, as anotações reproduzidas pelo ex-ministro mostram inúmeras disputas e desconfianças na diplomacia brasileira para administrar o jogo político e econômico entre os governos de esquerda que eram maioria no continente.
O então presidente Lula é mostrado ora inclinado a aceitar argumentos dos companheiros governantes de esquerda, ora irritado e duro na negociação com eles, como nas discussões com a Petrobras sobre os interesses da empresa na Bolívia. O petista usa o Itamaraty para fazer um jogo ambíguo com os governos vizinhos, temerosos do “sub imperialismo” brasileiro.
Em uma das passagens mais surpreendentes do livro, Amorim revela a orientação recebida do presidente, digna do “brasileiro cordial” descrito por Sergio Buarque de Holanda: “Celso, é melhor você tomar conta da Bolívia. Eu não posso. Fico com muita pena quando vejo aqueles indiozinhos pobres”.
Curiosamente, governos à direita, como os dos colombianos Álvaro Uribe e Juan Manuel Santos, mostram-se, nos relatos de Amorim, de mais fácil diálogo, reconhecidas diferenças evidentemente inconciliáveis em questões como a maneira de tratar a guerrilha colombiana. No caso das atribulações com os guerrilheiros, que ocupam boa parte dos relatos sobre a Colômbia, prevaleceu, com Santos, porém, a lógica defendida por Amorim, de tratar os guerrilheiros como insurgentes, e negociar sua incorporação à política democrática.
“A esquerda às vezes dá mais trabalho”, desabafa Amorim, ao relatar atritos com o uruguaio Tabaré Vasquez e o paraguaio Fernando Lugo. Apesar da convicção em favor dos chamados governos progressistas na região, por suas políticas claramente favoráveis à maior distribuição de renda e autonomia econômica, não faltam críticas ao “radicalismo” de Hugo Chávez, na Venezuela, e do governo Kirchner, na Argentina, dos quais o livro dá inúmeros exemplos.
Chávez é criticado por seus “arroubos” e gestos preocupantes e contraproducentes, “entre o burlesco e o provocador”. “Respeitamos o que Chávez quer fazer dentro da Venezuela”, disse o então presidente da República, em conversa com George Bush relatada por Amorim; “mas quando atua na região”. O diálogo, aliás, é um dos bastidores do esforço lulista de mostrar-se como mediador nas relações dos bolivarianos com governos dos EUA.
Para Amorim, Chávez tinha legítimo interesse em melhorar a vida dos venezuelanos, e enfrentar “com coragem uma elite reacionária, que sempre se locupletou com as receitas do petróleo e cuidou pouco da população pobre”. Mas trazia ameaças à estabilidade da região, que o Brasil tinha o dever de administrar diplomaticamente
“A Venezuela nunca poderá promover a ‘revolução bolivariana’ em países de sociedades complexas como o Brasil e a Argentina, mas pode causar estragos de monta em nações mais frágeis e fragmentadas como a Bolívia e o Equador”, comenta Amorim. “Até aqui, nossa estratégia tem sido a de atrair a Venezuela, integrando-a ao Mercosul.”
O cuidado da edição em trazer notas e índices onomásticos, uma excelente característica dos livros de Amorim, ajuda a atravessar a aridez de alguns trechos com mais concessões ao patuá dos negociadores internacionais. O ex-chanceler deixa um documento importante, fonte de abundantes elementos para analisar a política externa recente e seus possíveis rumos no futuro.
https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/07/15/anotacoes-do-ex-ministro-celso-amorim-revelam-disputa-e-desconfianca-na-diplomacia-brasileira.ghtml
O título e o subtítulo deste pertencem ao mais recente livro de Zeina Latif. Lançado em 2022 pela Editora Record, possui uma abordagem que destoa da literatura existente sobre a economia brasileira por apresentar, simultaneamente, uma abordagem que o classificaria no subcampo da história econômica, ou seja, da formação econômica do Brasil, e no subcampo da conjuntura econômica, ou seja, da economia brasileira contemporânea.
Sua autora é doutora em Economia pela Universidade de São Paulo (USP), passou por diversas instituições financeiras, como a XP, onde foi economista-chefe, é sócia da Gibraltar Consulting Economia e articulista recorrente dos principais jornais do País, além de ser frequentemente requisitada para entrevistas na rádio, na TV e nos sites especializados da internet.
Como Zeina afirma na introdução (reproduzida na quarta capa):
Não existe uma fórmula pronta para o desenvolvimento econômico. Há experiências diferentes dos países, começando pelas heranças históricas. Ainda assim, alguns fatores se mostram empiricamente mais importantes para explicar por que alguns países ficaram ricos. Um dos objetivos deste livro é discutir em que medida o Brasil desapontou ou fracassou exatamente nos fatores associados à maior renda per capita de países desenvolvidos.
Tendo atuado por mais de trinta anos ministrando aulas de disciplinas do núcleo histórico dos cursos de graduação em Economia – História Econômica Geral, Formação Econômica do Brasil e História do Pensamento Econômico – ouso afirmar que Zeina Latif conseguiu algo muito difícil: combinar profundidade e originalidade num campo em que temos brilhantes intérpretes, entre os quais Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Celso Furtado.
Esse aspecto, que pode ser comprovado nas referências bibliográficas amplamente distintas das encontradas nas obras tradicionais e nos livros-texto adotados na esmagadora maioria de nossos cursos de graduação, não passou despercebido por Samuel Pessôa, que inicia o texto da orelha do livro com as seguintes palavras:
Zeina conseguiu. Escreveu um livro na antiga tradição de escritos sobre nossa formação, cujo exemplo mais famoso é o clássico Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda. É o primeiro que conheço desta tradição, escrito por alguém que seja economista. O clássico de Celso Furtado, Formação econômica do Brasil, é um livro de história econômica. Em geral, historiadores, sociólogos, antropólogos e juristas se debruçaram sobre nossas mazelas com mais latitude do que o enfoque técnico e, usualmente, mais circunscrito dos economistas. Zeina transcendeu a profissão.
Eu acrescentaria que, ao transcender à profissão, Zeina elaborou uma análise rica e abrangente, escapando da abordagem excessivamente economicista que se constitui numa armadilha de muitos economistas, em especial dos que atuam no sistema financeiro, cujas análises raramente vão além dos limites das políticas econômicas clássicas – monetária, fiscal e cambial. Trata-se, nesse sentido, de um livro escrito por uma economista que pode – e deve – ser lido por economistas e por não economistas. Uma das evidências disso é que em suas 251 páginas o livro contém apenas dois gráficos e seis pequenas tabelas.
No que se refere ao exame das razões que explicam o baixo crescimento brasileiro – sempre é bom lembrar que estamos entrando na quinta década perdida – Zeina passa por temas como educação, marco jurídico e funcionamento do Judiciário, sistema político, papel das Forças Armadas, demografia, patrimonialismo, desigualdade social, cidadania e liberdade de imprensa. Em cada um desses temas, ela faz uma verdadeira viagem partindo dos primórdios do Brasil-colônia, com sua economia baseada nos latifúndios, na monocultura e na mão de obra escrava, até os dias atuais, caracterizados por acentuada polarização político-ideológica.
Quanto ao referencial teórico-econômico, duas influências me chamaram especial atenção: (i) o legado do pensamento econômico da Cepal[1], notadamente no projeto nacional-desenvolvimentista predominante a partir do início da segunda metade do século XX que defendia a promoção da industrialização por meio do ativismo do Estado; (ii) o relevante papel das instituições para o desenvolvimento econômico, enfatizado principalmente pelo pensamento econômico neoinstitucionalista que tem em Douglass North seu expoente mais destacado, seguido por importantes autores contemporâneos como Daron Acemoglu, James Robinson e, por que não, Francis Fukuyama.
Essas influências ficam claras nas explicações de Zeina sobre a evolução das teorias de crescimento econômico. Ela afirma que “as teorias iniciais de crescimento econômico, que remontam ao período pós-Segunda Guerra Mundial, davam ênfase à necessidade de acumulação de capital – capacidade produtiva instalada e infraestrutura”. Posteriormente, acrescenta: “No final dos anos 1950 e início dos 1960, ganhou impulso na pesquisa acadêmica mundial o debate acerca da importância do capital humano ou da formação e qualidade da mão de obra para o crescimento”. Na sequência, arremata: “Os anos 1990 marcaram uma grande mudança no foco da literatura de crescimento, a partir da tese defendida por Douglass North, que apontou a importância das instituições para explicar os diferentes desempenhos econômicos dos países, estas entendidas como as regras do jogo formais (Constituição, leis) e informais (códigos de conduta, crenças) criadas pelas sociedades para delimitar as escolhas de indivíduos e atores políticos”.
A conclusão de Zeina é que “as regras do jogo precisam ser duradouras para que tenham impacto no crescimento – para o bem e para o mal. Se transitórias, são como leis que não pegam. […] O que leva as pessoas a aderirem às regras do jogo é a estrutura de incentivos, com prêmios e punições – formais (multas) ou não constrangimento moral. Os indivíduos não tomam decisões no vácuo, reagindo, pois, aos incentivos esperados por conta de suas escolhas”.
Por todas essas razões, recomendo vivamente a leitura de Nós do Brasil.
Referências e indicações bibliográficas
ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Tradução de Cristiana Serra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
BIELSCHOWSKY, R. Pensamento Econômico Brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1988.
BIELSCHOWSKY, Ricardo (Organizador). Cinquenta anos de pensamento na CEPAL (2 volumes). Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2000.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Porto Alegre: Globo, 1979.
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. 48. ed. Rio de Janeiro: Global Editora, 2006.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003.
FUKUYAMA, Francis. Ordem e decadência política: da Revolução Industrial à globalização da economia.Tradução de Nivaldo Montigelli Jr. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 21. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
LATIF, Zeina. Nós do Brasil: nossa herança e nossas escolhas. Rio de Janeiro: Record, 2022.
MACHADO, Luiz Alberto; KAHN, Tulio (organizadores). Interpretações do Brasil: Tradicionais e novas abordagens históricas, econômicas e diplomáticas. São Paulo: Scriptum Editorial, 2018.
MACHADO, Luiz Alberto; COSTA, Eduardo José Monteiro da. Cultura e desenvolvimento na visão de três grandes economistas. Em MANGUEIRA, Celso Pinto; PAIXÃO, Márcia Cristina Silva (organizadores). Celso Furtado 100 anos: coletânea de artigos em sua homenagem. João Pessoa: Editora UFPB, 2021, pp. 57-89.
NORTH, Douglass C. Instituições, mudança institucional e desempenho econômico. Tradução de Alexandre Morales. São Paulo: Três Estrelas, 2018.
[1] Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, órgão criado em 1948 pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.
No Chile, a Constituição da nova esquerda
Demétrio Magnoli
Folha de S. Paulo,
Se aprovada em plebiscito, proposta destruirá o governo de Gabriel Boric
"O Chile é um Estado social e democrático de Direito. É plurinacional, intercultural, regional e ecológico." A Constituição emanada da Constituinte chilena é um retrato em 3 por 4 da nova esquerda: a coleção completa de suas utopias, doutrinas e dogmas. Se for aprovada em plebiscito, destruirá o governo de esquerda de Gabriel Boric – e qualquer governo que o suceder.
Nos seus infindáveis 388 artigos, não se contenta em listar os direitos dos humanos, determinando até que o Estado promova uma "educação baseada na empatia e respeito pelos animais" (art. 131). Segundo o artigo 18, a "Natureza" torna-se um sujeito de direitos, ao lado dos cidadãos e das nações indígenas –mas, claro, o texto não define quem fala por ela.
A Constituinte nasceu da onda de protestos sociais de 2019 e 2020. Sob o impulso das ruas, formou-se uma maioria de ativistas de movimentos sociais e partidos de esquerda que não reflete a balança de forças real da sociedade chilena. Nas eleições do ano passado, Boric conseguiu apenas 26% dos votos no turno inicial, e a esquerda obteve 27% dos assentos na Câmara, contra 48% dos partidos de centro-direita e direita. O texto constitucional, porém, reflete um país imaginário, habitado exclusivamente pela esquerda pós-moderna.
A política identitária esparrama-se por todas as esferas. A palavra "gênero" é mencionada 39 vezes. Garante-se a "paridade de gênero" em todos os órgãos da administração estatal, na direção das empresas públicas e, inclusive, nas organizações políticas não estatais (artigos 2 e 163). A "paridade de gênero" aplica-se, ainda, a todos os órgãos eleitos de representação popular, o que viola o direito dos cidadãos de escolher livremente seus representantes.
De acordo com o artigo 312, os tribunais "devem resolver com enfoque de gênero", uma regra subjetiva que ergue o espectro da potencial inconstitucionalidade sobre qualquer decisão judicial. O mesmo indefinido "enfoque" aplica-se ao "exercício das funções públicas", o que possibilita judicializar os mais corriqueiros atos administrativos.
O Estado de Direito, consagrado no artigo inicial, é relativizado pela proclamação da plurinacionalidade. Os povos indígenas são declarados "nações" e ganham direito à "autonomia" e ao "autogoverno", o que inclui "instituições jurisdicionais tradicionais" (art. 34). Daí decorre que a proteção geral dos direitos individuais, civis e políticos não se estende aos indígenas.
A nova Constituição ampara-se na crença implícita de que o Chile é um espaço edênico de abundância ilimitada, de cujo céu jorra leite e mel. A seguridade social pública deve proteger integralmente as pessoas do nascimento à morte, inclusive nos casos de "redução dos meios de subsistência" (art. 45). Estabelece-se um direito universal ao trabalho "de livre escolha" e proíbe-se "todas as formas de precarização no emprego" (art. 46). O seu elenco de direitos abrange "moradia digna" em "localização apropriada", assegurada por ações estatais (art. 51).
Nem todos os direitos são acolhidos pelo texto constitucional. Fica "proibida toda forma de lucro" nas instituições de educação básica, média ou superior (artigos 36 e 37). O artigo 51 veta a especulação imobiliária "que ocorra em detrimento do interesse público", um critério aberto às mais bizarras interpretações das maiorias políticas de turno.
Uma nuvem de incerteza paira sobre o plebiscito da nova Constituição. Sondagem recente registrou reprovação de 51%, contra aprovação de 34%, Na hipótese de rejeição, o país ficará com a Constituição herdada da ditadura de Pinochet. Na hipótese oposta, o Chile rumará à ingovernabilidade e se inviabilizará o mandato de Boric, um presidente de esquerda que recusa tanto o autoritarismo quanto o populismo. De um modo ou do outro, a nova esquerda cumprirá sua missão reacionária.
Primeiro comentário de um leitor:
Anônimo disse...
O preconceituoso colunista exagerou como nunca. Gosto de lê-lo, pois às vezes ele tem análises corretas e interessantes, mesmo contrárias à Esquerda e ideologicamente comprometidas. Algumas preocupações levantadas neste texto são até verdadeiras, mas a quantidade de bobagens que ele incluiu é surpreendente. Ele deve estar mesmo bem revoltado com os rumos da progressista constituição chilena!
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